APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Sivuca – No Rumo das Estrelas - Cordel Premiado




Sivuca – No Rumo das Estrelas (autor: Chico Gabriel)

 2° lugar no concurso de cordel Mestre Sivuca, promovido pela Academia de Cordel Vale do Paraíba.

1
Mil novecentos e trinta,
cidade de Itabaiana.
Dia vinte seis de maio,
quarto dia da semana,
nasceu um menino albino
por nome de Severino,
um astro na forma humana.
2
Na terra paraibana,
com treze anos de idade,
recebeu do seu tutor
um fole sem qualidade;
mas aquilo foi bastante
para o pequeno gigante
ser o encanto da cidade.
3
E aos quatorze de idade
tocava por profissão,
sendo o mais requisitado
nos bailes da região.
Mostrando um talento nato,
se destacando, de fato,
nas noites de São João.
4
Seguindo outra direção,
buscando um novo painel,
foi procurar perfeição
querendo ser menestrel,
indo assistir no Recife
a uma orquestra de grife,
no palco Santa Isabel.
5
A vida lhe foi fiel
e, de modo natural,
foi aprender clarineta
tendo um arranjo orquestral,
assimilando as lições,
das grandes composições
do maestro Lourival.
6
Pintou-se um novo mural
descortinando a porteira,
quando foi à Rádio Clube
conhecer sua fileira,
e a vida, riscando os traços,
foi colocá-lo nos braços
do grande Nelson Ferreira.

7
O qual disse de primeira:
“Tens talento genuíno,
mas o seu nome de artista
não pode ser Severino,
esse nome te machuca.
Teu nome vai ser Sivuca,
rei do ritmo nordestino”.
8
Mais uma vez o destino
quis costurar sua saga,
tocando na Rádio Clube.
Novo brilho se propaga
quando foi valorizado,
depois que tocou do lado
do mestre Luiz Gonzaga.
9
O qual numa carta indaga,
depois que chegou ao Rio,
dizendo: “Venha Sivuca,
viver novo desafio!
Contaste com o meu aval,
e a Rádio Nacional
quer propagar o teu brio”.
10
Porém, desse desafio,
Sivuca foi dispensado,
depois que disse a Luiz:
“Eu já estou contratado,
a Clube tem meu serviço…
eu não firo o compromisso,
mas fico lisonjeado”.
11
Depois de um tempo passado,
quarenta e nove era o ano,
querendo sempre aprender,
edifica um novo plano.
Buscando na arte um feixe,
estudou com Guerra Peixe
um maestro soberano.
12
Parecendo um veterano
em São Paulo, a capital,
foi destaque numa orquestra
de fama nacional.
E a Rádio Record transmite
para plebeus e elite,
esse feito genial.

13
Um marco sensacional
surgiu na sua carreira
quando, nos anos cinquenta,
gravou pela vez primeira,
na grande Continental,
um compacto, tendo o aval
do mestre Humberto Teixeira.
14
Deslanchando na carreira,
viu no Sudeste um celeiro.
No ano cinquenta e cinco,
foi pra o Rio de Janeiro,
fazendo sucesso ali,
contratado na Tupi,
com futuro alvissareiro.
15
Foi brilhar lá no estrangeiro
junto com vários artistas,
se apresentado em Paris
para pátrios e turistas.
O Brasil conquista a copa
e o mestre fica na Europa,
junto doutros musicistas.
16
Depois das novas conquistas
grava um trabalho na França;
tocou por toda Suíça,
na Suécia a glória alcança
nos aplausos de um teatro.
Só retorna em meia quatro,
carregado de esperança.
17
Mas outra missão lhe alcança
desvirtuando seus planos.
Um convite tentador,
de artistas americanos,
nosso Sivuca desterra…
só voltando à sua terra
depois de mais de dez anos.
18
Nos palcos americanos
mostrou suas qualidades.
Fez dueto com Paul Simon,
dentre outras celebridades,
dando shows e recitais
nos teatros colossais
das mais famosas cidades.

19
Retorna sem ter vaidades
no ano setenta e cinco,
e à música brasileira
dedicou-se com afinco.
E no amor teve centelha,
pois, com Glorinha Gadelha
casou-se com festa e finco.
19
Ainda em setenta e cinco,
fez shows por todo Brasil.
Foi sucesso nas tevês,
fez canções, gravou vinil;
deixou de ser andarilho,
compôs “Cabelo de Milho”,
falando do seu perfil.
20
Fazendo sucessos mil
no Teatro João Caetano,
propagou no “Seis e Meia”
o melhor show desse ano.
Gravou com nobreza imensa,
com Rosinha de Valença,
um recital soberano.
21
Fez fama no meio urbano
mas, sem fazer muito ensaio,
desembrulhou a sanfona
ligeiro que só um raio;
e, com o teatro lotado,
tocou, num forró rasgado,
sua “Feira de Mangaio”.
22
Dessa “Feira de Mangaio”,
Glorinha era a coautora
que a cedeu a uma amiga,
colega de gravadora.
Fez um sucesso veloz,
entonada pela voz
de Clara, grande cantora.
23
Outra canção logo estoura,
com uma bela melodia
que fez com Chico Buarque,
numa única parceria.
Uma música harmonizada,
que ficou eternizada
com o nome: “João e Maria”.

24
Fez peça e fez sinfonia…
Seu talento se alavanca
quando, em homenagem ao Rei,
um novo arranjo ele banca
e faz com muita destreza,
caprichando na beleza
do recital “Asa Branca”.
25
Sua fonte não se estanca,
sendo mestre em recital,
compôs inúmeros concertos,
abrindo novo canal,
quando juntou os seus lastros
com os lastros dos grandes astros
de fama internacional.
26
Para um grande festival,
retorna, então, a Paris,
fazendo um grande concerto,
traçando novos perfis…
mas desta vez não demora,
se despede e vem embora
ser feliz no seu país.
27
Longe de ser aprendiz,
quis ser de novo menino,
relembrando a sua infância
e os caminhos do destino.
No ano dois mil e três,
ficou morando de vez
no seu torrão nordestino.
28
Longe do solo sulino,
bem distante da garoa,
veio curtir as raízes
da nossa cultura boa,
ficando então radicado
no coração do estado,
na capital João Pessoa.
29
Longe de ficar atoa,
procurou ser um escriba
para que a arte floresça
por onde quer que se exiba,
sendo mestre na harmônica
da grande orquestra sinfônica
do Estado da Paraíba.

30
E à terra de “Capiba”,
a Veneza Brasileira,
no ano dois mil e quatro
foi pela vez derradeira
e, com grande liberdade,
junto à orquestra da cidade,
fez um show sem ter fronteira.
31
E, encerrando a carreira
pela doença cruel,
junto à Glorinha Gadelha,
a sua esposa fiel,
fez despedida da vida
compondo, antes da partida,
a peça: “Choro e Cordel”.
32
Dois mil e seis, com pincel,
pintou um quadro de dores
em quatorze de dezembro,
sobrando pranto e clamores,
lá no Parque das Acácias,
entre dois pés de pistácias,
ficaram a tumba e as flores.


Fim.





 

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