APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

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terça-feira, 9 de junho de 2020

Cordel O LEGADO DE SIVUCA NA CULTURA BRASILEIRA (Marciano Medeiros)



O LEGADO DE SIVUCA
NA CULTURA BRASILEIRA 
 1° lugar no concurso de cordel Mestre Sivuca, promovido pela Academia de Cordel Vale do Paraíba.


Vou relembrar de Sivuca, 
Um distinto brasileiro,
Que comoveu multidões
Nos palcos do mundo inteiro.
Irei compor sua história
Mostrando os passos da glória,
Do famoso sanfoneiro.   

Tem desmedido valor
Na cultura nordestina,
Sua produção artística
Lembra chuva cristalina,
Onde o respingar sem fim
Faz das multidões jardim,
Molhado nessa neblina.

Desvendei nas reportagens
Que o mestre em linda jornada 
Começou na Paraíba
As lutas da caminhada.
Na sublime Itabaiana,
Terra de gente bacana,
Nasceu a figura honrada.

É de mil e novecentos
E trinta esse campesino.
O nome que recebeu
No batismo é Severino,
Também Dias de Oliveira,
Mas Sivuca, na carreira,
Apelidaram com tino. 

Descende de agricultores
Junto aos parentes amados,
Pisou no chão da pobreza,
Quis os sonhos conquistados.
Com nove anos somente,
Ganhou do pai um presente
Que depois deu resultados.

A sanfona recebida
Depurou o tocador,
Nos festejos populares
Tornou-se um animador.
Disseminava alegria
Quando o teclado gemia
No forró madrugador.

Ele adorava o cinema,
Diversão especial,
Nem sempre via os enredos,
Mas a trilha musical;
Ao botar no pensamento
Calibrava o sentimento
De jeito fenomenal.

Por ser um garoto albino
Evitou a luz do sol,
Certamente não jogava
Peladas de futebol.
Mas o talento o seguiu,
Das brincadeiras fugiu,
Fez de casa um bom atol.

Com quinze anos de idade
A procurar nova sorte,
Foi morar em Pernambuco,
Chamado, o Leão do Norte.
Em Recife prosperou
E a nova estrela brilhou
De maneira muito forte.

O jovem seguiu de trem,
Indo pra nova cidade,
A capital recifense
Tornou-se a “universidade”.
Veloz igualmente um raio,
Na Praça Treze de Maio
Tocou sanfona à vontade.

Tendo espaço garantido
Na Rádio Clube adentrou,
Igual um guerreiro firme
O jovem se destacou.
Também, a Rádio Jornal
Do Comércio foi cabal
Quando o trabalho aumentou. 

O senhor Nelson Ferreira,
Um maestro dedicado,
Deu suporte e mídia ao jovem,
Fez tudo ser começado.
E em seguida, Guerra Peixe
Também completou o feixe
De quem ficou do seu lado. 

Por ser muito persistente
Logo subiu na ladeira
Do sucesso e teve apoio
Vindo de Humberto Teixeira.
Num trabalho sem complô
“Adeus Maria Fulô”,
Sai na gravação primeira.

Após tocar em novelas
De rádio as composições,
Carmélia Alves o leva
Pra ter novas gravações.
Sivuca aceita o chamado,
Prossegue determinado
Em busca de inovações.

Nos anos cinquenta o gênio
Deixa o Nordeste, saudoso;
Mora em São Paulo, e pra o Rio
De Janeiro vai famoso.
Alcançou destaque, eu li;
Na Rádio e TV Tupi,
Toca e não fica orgulhoso.

Perto dos anos sessenta
Prossegue em jornada boa,
Faz do barco da coragem
Sua resistente proa.
O forte paraibano
Percorre o chão lusitano,
Vai residir em Lisboa.

No continente europeu
Mostra um semblante feliz,
O povo nos muitos shows
Aplaude e lhe pede bis.   
Quando o tempo transcorreu
Essa viagem rendeu
Quatro anos em Paris.

Em sessenta e quatro ainda
À Nova Iorque chegou,
Foi pra lá com Carmem Costa,
Também no Japão andou.
E depois seguiu tocando,
Miriam Makeba escutando
Seu serviço contratou. 

Sivuca em documentário
Gravou sendo instrumentista,
Ao transmitirem lhe chega
Telegrama de outro artista.
Miles Davis, em bom tom;
Afirmou gostar do som
Da sanfona ─ o trompetista.

E teve espaço em Los Angeles
Após ter sido chamado
Pelo Harry Belafonte
Ator bastante afamado.
Pra Julie Andrews tocou,
Nelson Riddle destacou
O concerto apresentado. 

Fez amizades marcantes
Num caminhar triunfal,
Tocou junto de Paul Simon,
Um cantor fenomenal.
Esse mestre e sanfoneiro
Foi no baião companheiro,
Do grande Hermeto Pascoal.

Sivuca integra um quarteto
Dos melhores sanfoneiros,
Perto de Luiz Gonzaga
Mostrou acordes ligeiros.
Oswaldinho e Dominguinhos,
Cada qual por seus caminhos,
Foram seus fãs e parceiros.

Por relações conjugais
Passou e quis novo norte,
Em períodos diferentes
Liberou cada consorte.
Mas descobri num jornal
Que seu casório final,
Só terminou com a morte.

E com Terezinha Mendes
No primeiro casamento,
Sivuca teve uma filha,
Fruto do bom sentimento.
Nasceu Flávia de Oliveira
Barreto que é sua herdeira,
Pois não houve outro rebento.

Em setenta e cinco vindo
A seu Brasil novamente,
O mestre no coração
Botou rumo diferente.
Ao ver Glorinha Gadelha
Fez dela a nova parelha
Num matrimônio envolvente.

Trabalhou com a mulher
Após fazer muito ensaio,
Ele aplaudia Glorinha
Olhando só de soslaio.
Criaram forró sentido
Pra não deixá-lo esquecido
Gravam “Feira de Mangaio”. 

Compôs com Chico Buarque
Numa pausa entre os forrós,
A valsa “João e Maria”
Que alcançou distantes pós.
“Cabelo de Milho” e mais:
Fez “No Tempo dos Quintais”,
Junto a Paulo Tapajós. 

Levou a brasilidade
Ao continente africano;
Em território asiático
Brilhou o paraibano.
Sem ter estilo jurássico
Foi do popular ao clássico,
O tocador veterano.

No rosto com grossos óculos
Mostrava um semblante atento,
Na longa barba grisalha
Cobria o sorriso lento.
Entre as falhas e a bondade
Plantou a flor da saudade
No jardim do sentimento. 

Amigo de Clara Nunes,
Também do grande Caetano
Veloso, nos shows da dupla,
Esse menestrel humano
Espargiu, com singeleza
As rosas da gentileza
Nos palcos do mundo urbano.

Tendo câncer na laringe
Perdeu a saúde boa,
Regressou à Paraíba,
Sem buscar trono ou coroa.
Quis fazer um tratamento
Visando o melhoramento
Na bonita João Pessoa. 

Aos setenta e seis de idade
Terminou sua carreira;
Em dois mil e seis partiu
Para a vida verdadeira.
E até hoje não caduca 
O legado de Sivuca
Na cultura brasileira!


BIOGRAFIA DO AUTOR

Marciano Batista de Medeiros é natural de Santo Antônio (RN). Seu nascimento ocorreu no dia 18 de setembro de 1973. Ele é filho de João Batista de Medeiros e Francisca Viana Salustino Medeiros, ambos nascidos em Serra de São Bento (RN).
Marciano Medeiros é integrante da Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel, da Academia de Letras e Artes do Agreste Potiguar e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. O autor também faz palestras e oficinas em escolas, abertura de semanas pedagógicas e outros eventos, explicando sempre de modo didático a estrutura do cordel brasileiro. Convites podem ser feitos pelo Zap: (84) 987737246.


2 comentários:

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