APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

REBULIÇO NOS SINAIS DO MUNDO - Ramilton Marinho


REBULIÇO NOS SINAIS DO MUNDO

            Espie! não sei o que é pior, se é a falta de chuva ou o desengano com a leitura dos sinais do mundo. Primeiro, o joão-de-barro fez a boca do ninho para onde a chuva era certa. E foi ilusão; depois, a roda vermelha circulando a lua mentiu que a chuva vinha antes de finar o mês; até a flor do juazeiro jurou: a água há de cair até o dia de São José – E tudo ficou sarabulhoso. A natureza parecia mentir de propósito, até mesmo pra dizer que maior do que Deus, ninguém é.

            Isso é coisa de agora, porque antes o que se escrevia, na natureza se cumpria. Se era seca, era seca e se era inverno, era inverno mesmo. Antigamente, as coisas não ficavam tão sombreadas como são agora, porque o que se via era a realidade. Hoje, ninguém mais sabe o horizonte do que existe e daquilo que é inventado – o tempo se espichou no mundo.

               Avalie, hoje a gente só sabe o que explica o rádio, e ninguém vê e pega naquilo que o rádio diz, nem vê quem no rádio fala. Apenas imagina aquela voz e as coisas que ela jura, por isso a gente se ocupa em ficar tentando enxergar o que não pode ser visto, tentando enganchar nome em imagem, fazer ideia virar coisa. E olhe que isso ocupa a mentalidade do sujeito, que acaba se desatando da raiz da terra.

            O mundo está todo riscado de estrada e ninguém sabe mais pra onde ir, mesmo sem sair do canto a gente se perde nesses atalhos que navegam no juízo da pessoa.

Fui criado comendo o grão da terra, porque aqui tudo se tinha – só bastava disposição pra trabalhar. Hoje, tudo vem de fora, lá pras bandas da distância, onde se acabam as estradas. E o grão é trocado por papel, por isso não tem mais gosto e a gente já não consegue despejar pelas mãos. Ninguém mais trabalha pelo grão, fica a se entreter com papel.

Antes a terra era o terreiro, berço e túmulo, herança de Moisés, hoje é madrasta que enterra em cova rasa o dia alugado, é cerca que cospe gente, é noite que engole dia.

Por isso os sinais estão perdidos. É vingança da terra ferida pelo espinho da cerca, pelas curvas das verdades, pelos desvios das leis grandes. Não adianta teimar.

Agora só quem sabe é o homem do rádio. Ele diz se vai chover ou não. Maior que Deus ele não é, mas é que nesse entranhado todo, os sinais carecem de outro saber, o saber do homem de falas compridas, letras bonitas, dos doutores sem rosto do lado de lá.

Os sinais continuam espalhados até lá nos cós do mundo, só os homens invisíveis podem ler.