APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os Germanos - Rosemilton Silva


Os Germanos



Outro dia, num post do Facebook onde fazia um passeio por algumas ruas de Santa Cruz, ciceroneado por minha comadre Maria Gorda, Chagas Lourenço me fez lembrar a rua Ferreira Itajubá que começa na esquina onde foi o Mercado Municipal pra quem está olhando para o Sul e com a casa de jogo de Zé Galego, onde fazíamos a fé no bicho ou os mais adultos jogavam baralho.
No encontro com a Travessa Aurora e rua Camilo José da Rocha, o mercado terminava e na outra esquina estava a bodega de José Abdias. Atravessando a travessa, havia os “quartos dos mangaeiros” nos dois lados mas no esquerdo, logo no início, estava a sapataria de Chicó Flor que depois veio a ser a bodega de Talau, cujos quartos deste lado davam  na esquina com o Beco do Sol que, por sua vez, deixava aberto o canal para o sol entrar na casa de sobrado dos meus pais.
Nosso vizinho era Dona Sinhazinha, costureira e casada com Zé de Chana, que tinha como vizinho o meu compadre, marceneiro Arnaldo Moreira irmão do padre Moreira e, aí, chegamos a lembrança de Chagas Lourenço: a casa dos Germanos, parede e meia com a bodega de dona Chiu. Do lado esquerdo, mais quartos onde, quando e vez que o circo de Djalma Boranhem chegava a cidade servia para hospedar artistas e trabalhadores já que eram bem maiores e onde, depois de algum tempo, veio morar Nair, mãe de Beta Preta e do excelente artista plástico Nivaldo Vale.
Para finalizar a rua, vamos lembrar que logo após a bodega de dona Chiu começava a rua Frei Miguelinho, onde na esquina do lado esquerdo estava a bodega de dona Maria do Carmo, mãe de Genialda e Everaldo, excelente músico como acordeonista e trombonista, dono de parque de diversão, e na outra esquina se podia ouvir o trombone de outro grande músico, João Leão pai do padre Inácio Henrique.
Pois bem! Vamos nos ater a lembrança de Chagas Lourenço. Os Germanos vinham do Rio de Janeiro em dois momentos: nas festas de fim de ano e da nossa padroeira, Santa Rita de Cássia. Músicos respeitados na capital federal e apadrinhados por Luiz Gonzaga. Chiquinha, que começou a vida como cantora do Trio Irmãs Ferreira formado pelas outras duas irmãs Dea e Frassinete, as franciscas Canindéia e Francineide, respectivamente, filhas do compositor e sanfoneiro, Zé de Elias, ganhou de Luiz Gonzaga o apelido de Chiquinha do Acordeon. Dea, casou com o também compositor e excelente violinista, Chico Elion e tiveram um filho chamado Kiko Chagas, guitarrista e compositor mais requisitados pelos grupos baianos de axé.
Chiquinha do Acordeon casou com Zito Borborema em 1956 e algum tempo depois vieram morar em Santa Cruz onde estava Branca, filha de Zé de Elias, que era cantora mas sem muita projeção, casando com Jandir Cruz, locutor de rádio de projeção nacional, indo os dois, depois de algum tempo, morar no Rio de Janeiro onde ela integrou o coral da Globo e, separada de Jandir, casou com um diretor da TV de Roberto Marinho.
Diferentemente do que se pensa, Mané e Zé de Elias não nasceram em Santa Cruz e sim em Currais Novos, mas vieram meninos ainda para a cidade trazidos pelo pai, Elias Germano, tocador de fole de 8 baixos e que ensinou os três irmãos - havia Sebastião de Elias Germano Sobrinho -, nome completo dos três. Sebastião Germano não se dedicou a música, preferiu ficar em Santa Cruz, tinha um caminhão e ganhava a vida fazendo frete, mas quando os irmãos chegavam, participava da “farra” já que, eles gostavam de dizer que a banda de música da cidade era formada apenas pelos dois: Mané e Zé de Elias. Uma brincadeira, porque havia sim a banda de música, na época dirigida pelo maestro Oscar e sediada no prédio da Paz e União na então Rua Daniel – o prédio ainda existe embora em estado deplorável – hoje denominada Augusto Severo até a ponte por onde passava o riacho do Pecado e, logo após, nominada como Rua Mossoró.
Chiquinha do Acordeon, o pai Zé de Elias e o tio Mané de Elias- Manoel de Elias Germano Sobrinho -, fizeram nome no cenário nacional ao lado de Zé do Côco, filho de Zé de Elias – José Germano Sobrinho - e que hoje é radialista, produtor musical, jornalista em São Paulo, além de compositor, conhecido como Germanno Junior. Foi Zé do Côco que me apresentou uma forma nova de gravar forró que hoje se canta e decanta como se fosse algo novo. Nos festejos de maio, em 1979, Zé do Côco me apresentou a fita do elepê que seria gravado até o final do ano pelo pai. Era uma forma nova agregando ao trio formado pela sanfona ou fole, zabumba e triângulo a bateria, a guitarra e o contrabaixo, mas mantendo fiel as raízes da estruturação musical do forró na composição, nos arranjos e na batida.
Interessante porque o período de maior sucesso de Zito Borborema e Chiquinha do Acordeon com a música Sá Chiquinha, foi na época em que eles estavam morando em Santa Cruz onde faziam um programa semanal, aos sábados por volta das 9 horas da manhã, na difusora municipal que vinha a ser uma rádio pirata em AM, certamente a primeira do Rio Grande do Norte e que tinha como locutores Jandir Cruz, João Leite, Manu e, como controlista, este que vos fala. E foi exatamente em um sábado de 64 que a emissora, funcionando nos fundos do prédio da prefeitura, foi lacrada mas ninguém preso, embora o “ribuliço” tenha sido grande.
Com Branca, Zito e Chiquinha tive muito aproximação, principalmente com “Chica” que durante muito tempo lutou para que eu aprendesse acordeon e Mané da Viúva, incentivado por ela, até comprou uma sanfona, mas não eu quis aprender o instrumento embora ainda tenha chegado a tocar. O meu negócio era clarinete, sax e bateria e, hoje, eu me arrependo de não ter aprendido aquele instrumento, belo no som, harmonioso no ouvir e espetacular quando bem tocado. Ah, estou aprendendo – não sei se consigo – com meu amigo Wiclife lá no Museu do Vaqueiro contando com a benevolência e paciência dele e do também amigo, Marcos Lopes e, resolvi assim porque vem a ser a minha principal frustação.
Chiquinha, quando ainda não era casada com Zito, ia para o quintal da casa dos Germanos, abriu o fole e sapecava um acorde. Era a senha para que eu corresse, largasse o que estivesse fazendo, e fosse direto para a cozinha de dona Rosa ver quais panelas e caçarolas estavam sem uso para montar a minha bateria –coisa de seis anos de idade. E aí, perdíamos a hora. Chica se divertia e eu acreditava ser a glória. Certa vez, entrevistando Chiquinha em um programa que eu apresentava na TV U, o de “Bach em Bar” que depois virou o “Choro da Sexta”, ela lembrou aqueles tempos e me emocionou. Recordo bem do que ela disse: “Você me fez chorar, cabra de Rosa e Mané, mas eu me vinguei”, choramos os dois.
Acho que consegui traduzir o sentimento que tenho sobre minha rua preferida, a casa onde morei por muitos anos e onde hoje reside minha prima por parte de mãe, Maria Venceslau. Depois, meu pai comprou a casa que foi de Arnaldo Moreira e ficamos alí por outros longos anos. Quando nos mudamos, eu até chorei porque perdi o “meu sobrado” de onde eu podia ver movimentos com a invasão dos “quartos” dos mangaeiros pelos agricultores capitaneados por Severino Bezerra, o maior líder dos agricultores de Santa Cruz que eu conheci. Mas não só por isso, porque de lá eu podia ver o Paraíso, a sua feira, a festa de São João Batista, a cheia do Trairí, ou trabalhar em paz na câmera escura revelando filmes e fotografias que foram perdidas no tempo e que eu nunca consegui recuperá-las.

E para não cometer injustiças, algumas informações me chegaram há algum tempo atrás pelo livro escrito pela pesquisadora Leide Câmara no seu Dicionário da Música do Rio Grande do Norte.