APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 23 de julho de 2013

A CIDADE DESARVORADA - Gilberto Cardoso dos Santos


A cidade amanheceu menos verde, menos oxigenada, menos ensombrada.
Pássaros retornaram para seus ninhos, mas, à semelhança da ave que Noé soltou após o dilúvio, estes não mais encontraram os galhos com que estavam familiarizados. Também não havia arca pra onde retornar... Pequenos insetos, igualmente, voltaram para o seu mundo, mas ele havia sido destruído. Outros se foram com ele.

Sim, a cidade amanheceu com menos árvores, menos pássaros, e com a natureza mais emudecida.

Profissionais, transeuntes, e vendedores ali se ilhavam, protegidos da inclemência solar e a vida parecia melhor.

Aquela árvore frutificava em sorrisos, amores, olhares brilhantes. Clientes de banco ou familiares que ficavam à espera, des-fruta-vam de um tesouro que não cabe nos cofres.

Quantas mãos ali se apertaram, quantos abraços ali foram dados quanto dinheiro ali se contou! Era um dos poucos lugares onde pobres e ricos se encontravam, atraídos pelos instintos poderosos de nossas origens silvícolas.
                                                                                      
Ali, as motos esfriavam seus motores. Como uma mãe, a árvore as ninava, botava-as para dormir. “Aquietem-se! O povo está cansado desse barulho!”...

A conversa fluía com mais facilidade, o tempo deslizava mais suavemente.
Era uma sala (ao ar livre) de terapia para os mais idosos, uma ponte entre nós e a floresta. Uma mão da mãe Gaia que nos acariciava e nos protegia contra o sol e o tempo inclementes.
Era um oásis de sombra na selva de pedra. Ela nos pertencia, e foi-nos tirada sem que percebêssemos. 

Em A Árvore da Serra, de Augusto dos Anjos, o filho agarrou-se com o tronco e gritou: "Não corte a árvore, meu pai, para que eu viva!". Ele teve a chance de clamar em sua defesa, mas nós não tivemos essa oportunidade. E quando a árvore tombou, certamente também levou consigo um pouco de nós como ocorreu com o filho no poema.

A cidade amanheceu desarvorada. Desarvorada no sentido mais amplo. Desarvorado significa ficar transtornado, confuso, desorientado. E foi assim que se sentiram os que tiveram suas retinas feridas ao chegarem na praça, pois puderam enxergar melhor os riscos que corremos. 

Sentiram-se ofuscados pelo desapontamento.

Ao votar, sempre esperamos benevolência, sombra e água fresca dos que elegemos. Sonhávamos e ainda sonhamos com uma melhor gestão do meio ambiente. Mas a cidade, menos ensombrada, tornou-se assombrada com a possibilidade de ser engolida pela modernidade insana.

Não se sabe que razões levaram a atual gestão a fazer isso. O motosserra com sua voz irritante tentou explicar-me, disse que são ordens do progresso, mas não entendi bem o que me disse. Talvez os que a derrubaram também nada saibam. Apenas se lhes pediu que pusessem o capuz e se fizessem carrascos. Foram meros instrumentos da lei. Não sabemos como se sentiram ao dormir, com as mãos cheias de seiva...

Desmatar é matar.

Acho que os gestores públicos, à semelhança dos países democráticos onde há pena de morte, deveriam ter todo um protocolo ao praticarem tais penas. Burocracia aqui nunca seria demais. Tudo deveria ser examinado e reexaminado, prós e contras apresentados. Deveriam deixar bem claro à opinião pública as razões que os fazem exterminar tais e tais indivíduos e fazer tudo sem muita pressa para evitar o risco de matar uma inocente. Se tudo fosse antecipadamente esclarecido, quem sabe, não nos convencêssemos da justeza do que foi feito?

Cem ou mais árvores plantadas em seu lugar jamais substituirão aquela árvore. Mas ao menos gostaríamos de ter a certeza de que outras serão plantadas como consolo, assim como os pais que perdem um filho e tentam substituí-lo com outro...

Dizem que esta árvore era um marco da cidade, mas não era. Era um marco da natureza e da história,  um dos poucos que ainda nos restavam.