APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 23 de dezembro de 2012

O NATAL DO SERTÃO - Hegos

Hélio Gomes Soares
I
Minha gente nordestina
Com licença pra eu falar
Dessa festa natalina
Inventada pra lembrar
Do Senhor Jesus menino
Que nasceu pra nos salvar 

II
O festejo é cristão
De origem estrangeira 
E conserva a tradição
Que não é bem brasileira
Pois no conto de natal
Tem trenó, rena e geleira

III
Pois conforme a tradição
Nessa noite de Natal
Aparece um véi barbudo
Do espaço sideral 
De cabelo mei comprido
Bem branquin da cor de cal

IV
Traz um saco sobre os ombros
De bascui bem carregado
Com uma touca na cabeça
E vestido de encarnado
Com um sino balançando
Só tu vendo o arrumado

V
Também fala a tradição
Que esse véi dá de presente
Brinquedos pra molecada
Para rico e pra carente
E que vem realizar
Os sonhos de muita gente

VI
Chama-se Papai Noé
O barbudo de encarnado
Que é um velhinho muito bom
Um mito que foi inventado
Pra cultura do consumo
E dar lucro ao mercado

VII
Mas o povo do Sertão
Do Nordeste brasileiro
Não tem tempo pra sonhar 
Pois só quer comer primeiro
Que a chuva caia sempre
Pra molhar o seu terreiro

VIII
Que as crianças do Sertão
Sejam todas assistidas
De que valem esses presentes
Se elas vivem desnutridas? 
É o mesmo que ter pratos
Mas vazios, sem comidas

IX
Que esse tal Papai Noé
Disso fique consciente
Se ele quer presentear 
Esse povo que é carente
Atenda as necessidades
Do Sertão urgentemente

X
Que não deixe de trazer
A justiça social
Pra o Sertão ser mais humano
Onde o bem supere o mal
Pois o pobre é também gente
Que merece trato igual

XI
Pra o matuto do Sertão
Digo pra o Papai Noé
Dê-lhe a chuva de presente
Já que o peste bota fé
Noutro cabra lá de riba
Que é santo São José

XII
Pras mulheres sertanejas
Bote nelas mais juízo
Evitando ter mais bucho
Mais menino e prejuízo
Pro Sertão que tem miséria
Onde o povo vive liso

XIII
Tire a terra da ganância 
Das mãos dos assassinos
Que expulsam agricultores
As mulheres e meninos
Pois enquanto há latifúndio
Ficam os pobres sem destinos

XIX
Dê aos homens do governo
Mais vergonha e vontade
Política pra resolver
Sem favor nem falsidade 
Os problemas do Sertão
Pela santa caridade

XX
Que o Senhor, Papai Noé
Venha logo preparado
Pra agüentar insolação
Secura pra todo lado
E beber água barrenta
De um pote todo enlodado

XXI
Não se espante com a comida
Pois farinha é um bom sustento
Misturada com feijão
Só tem isso de alimento
Vez por outra uma batata
Pra peidar bem fedorento

XXII
Se o Senhor for ruim do bucho
Não se esqueça do doutor
Pois Sertão tem rezadeira 
E um chazin pra toda dor
Se o problema é caganeira
Lá no mato é o cagador

XXIII
É o retrato do Sertão
Que o Senhor deve saber
Mas por certo não se importa
Nem procura se meter
Com a miséria desse povo
Que não tem o que comer

XIV
Mas gostar de gente pobre
Né vergonha não senhor
Pois Jesus nunca foi nobre
E tornou-se o Salvador
Hoje é Rei da humanidade
Seu presente foi amor

XV
E assim pra terminar
Pense nisso com razão 
Que natal pra nordestino
Tem respeito à tradição
Mas também quer ver o povo 
Ser feliz lá no Sertão