APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

RECONHECIMENTO DA OBRA DE MARCOS CAVALCANTI


Amigos e amigas deste estimado blog, quero compartilhar com todos vocês uma  alegria, uma acontecência, como diz o poeta Hugo Tavares, muito especial para minha vida, e que me foi anunciada hoje pela professora Aparecida, do IFRN, por ocasião da audiência pública que tratou do projeto de implantação do curso de Medicina na região do Seridó e Trairi.
Trata-se de uma entrevista feita, acho que em 2010 ou 2011, pelo escritor Pablo Capistrano e pela professora Aparecida, em minha residência,  para o Portal da Cultura Potiguar (IFRN), projeto este que vem fazendo um importante mapeamento cultural do nosso estado, e que apresenta em relação à nossa região,  outros artistas como o poeta Antônio Borges, seu Gregório, o mestre Antônio da Ladeira, Hugo Tavares, Eudóxia Ribeiro, o maestro Deusdete e o grupo teatral  Arte Viva.
Para mim é uma grande honra ter sido escolhido para figurar entre figuras tão marcantes da nossa cultura santacruzense, de modo que eu não tenho nem palavras para agradecer esta deferência. Fiquei encantado com o texto produzido ao meu respeito enquanto poeta, não sei se foi Pablo que escreveu ou Aparecida, ou se ambos, a quatro mãos, seja como for, muitíssimo obrigado meus bons amigos.  

Marcos Cavalcanti



Na região do Trairi, em nossa garimpagem em busca do artista, assim como percebemos que nem só da tradição vive a cultura, também constatamos que nem só de cordéis e repentes vive a poesia local.
Nesse semiárido potiguar, também encontramos um Augusto dos Anjos, dissecando a temática da morte; um concretista, manipulando ludicamente a palavra; um Drummond, um Oswald, um Fernando Pessoa, um Mário Quintana, debruçando-se sobre o fazer poético, em processo metalinguístico. E até um Olavo Bilac, esmerilando com maestria a métrica e a rima. Todos esses, especialmente os vinculados ao cânone da poesia moderna, reunidos como tradição literária em um só poeta: Marcos Antônio Bezerra Cavalcanti.
Nascido em Santa Cruz, em 1973, Marcos Cavalcanti, como é conhecido, é, antes de tudo, filho do Paraíso – não os Campos Elísios dos gregos, nem o Céu dos cristãos ou muçulmanos – mas o populoso bairro da periferia de sua cidade, fundado também por seu avô Pedro.
Descobriu o caminho da poesia quando era estudante, no colégio Marista, em Natal. No curso de Letras, aprendeu a olhar para a literatura com o olhar apurado do leitor criterioso, que transita de Montaigne às vanguardas concretistas sem abrir mão do vigor literário que vem de sua raiz.

Ou melhor, do seu rio, um Trairi de Poesia que irriga sua imaginação.
Uma imaginação cercada pelos questionamentos metafísicos que lhe apontaram a presença da morte como companheira de jornada poética e o povo da sua região como força motivadora para continuar sua militância na cultura potiguar.
Como o próprio Marcos afirma, o seu bairro, o Paraíso, é, realmente, a síntese de sua postura frente ao mundo: lugar de vida. Visão que, na sua produção poética, é realmente paradoxal à ideia de morte. Questionado se a poesia é uma forma de vida após a morte, responde Marcos Cavalcanti: “Enquanto a humanidade existir, os artistas estarão eternizados na memória coletiva de um povo. Se houver algo após a morte, eu não estou preocupado com isso.” Sob sua ótica, ao se aniquilarem corpo e consciência, resta aos outros vivos, os vermes, fazerem o seu trabalho, a última assepsia do corpo, que ao pó retorna, sem nenhum quê para o além.



Presença marcante no cenário cultural do Trairi, o projeto literário de Marcos envolve não só o seu fazer poético, mas a promoção dos artistas de sua terra, o que se concretizou em 4 antologias, reunindo produções de escritores santa-cruzenses e da região do Trairi, assim como na criação da Associação Santa-cruzense de Poetas e Escritores – ASPE, grupo cuja finalidade é discutir literatura, promovê-la, divulgá-la. Publicou vários livros, atuou junto a casas de culturas, grupos de teatro, publicou jornais, apresenta programas de rádio. Habilidoso na arte de recitar, travestiu-se de morte para divulgar seu primeiro livro, “Viagens de Além Túmulo”, e partiu para bienais literárias, inaugurações de teatros e escolas Estado afora.
É das influências múltiplas do seu entorno, as paisagens humana, urbana, rural de Santa Cruz e da imaginária região do Trairi, da tradição literária modernista, da filosofia niilista, sem perder o fio que o conecta ao resto do mundo, que Marcos Cavalcanti constrói seu projeto literário. Mergulhou fundo nas margens do fazer literário para encontrar o fio que une Oswald de Andrade e sua antropofagia a Ariano Suassuna e seu armorialismo; em uma
busca constante da raiz que alimenta a poesia de um povo e da antena do poeta, que capta as influências do mundo, com suas guerras, suas injustiças e seus massacres, seus alumbramentos. Assim é a poesia de Marcos Cavalcanti. Metaforiza a existência, mas não a alegoriza. Seus temas são palpáveis, tangíveis, mesmo quando se põem a certa abstração filosófica. E, aí, certamente, os ouvidos que auscultaram os repentistas e cordelistas em seus cantares e recitais, podem ter sido cruciais para que se apropriasse dessa maneira própria e simples de dizer as coisas com profundidade e beleza.
Visitamos em 2011, seu canto de muro, no bairro 3 a 1, na cidade de Santa Cruz. Ali, na esquina em que mora, mandou gravar a expressão “Paz e Poesia” para saudar de esperança um futuro melhor para o povo de sua terra.



Marcos nos abriu sua biblioteca, suas memórias, seu coração e sua poesia e nos brindou com uma conversa animada, cercada de reflexões e releituras no fluxo deste Trairi de poesias que é sua vida. Um rio que corre sempre em direção ao futuro com a intensidade de um presente que se vive com a urgência da finitude. Um rio em cujas águas o poeta se acostumou a mergulhar, para encontrar seus poemas. É um escritor que se inscreve na mesma linha dos grandes que fizeram de sua escrita uma forma de militância contra o lugar-comum e as veleidades cotidianas, em função de construir um universo viável em que caiba toda a humanidade.
Como sintetizou nosso poeta, “a gente escreve para dar sentido à vida.”

Portal da Cultura Potiguar