APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

MAURÍCIO ANÍSIO E A FOME - ENTREVISTA



Eis a FOME
!
Gilberto: Caro Maurício, ouço o ronco da fome em tudo que você fala ou escreve. Esse tema parece estar no centro de suas preocupações. Por que isso acontece? Desde quando começou a preocupar-se com tal assunto?

Maurício: Faz muito tempo. Final da década de 50. Ano 1958, ainda criança, 11 anos, a grande seca cobria o Nordeste. As estradas de Japi e São Bento do Trairi, construídas a “muque” pelos “cassacos”. Uma grande parte deles era de moradores da fazenda Santo Alberto, onde nasci e da qual meu pai era gerente. O pagamento dos “cassacos” era feito em mercadorias: feijão, farinha, rapadura, jabá. Certo dia, não houve o pagamento, o “barracão” onde se estocavam as mercadorias não abrira para a distribuição delas. Houve tumulto. O Padre Emerson (metido a comunista) se dirigiu a São Bento e ordenou o arrombamento do barracão. Os cassacos obedeceram a ordem divina, arrombando o barracão e procederam o auto pagamento. Soube dessa notícia e passei a admirar Padre Emerson (até hoje). Despertei para a angústia da fome do próximo, já que estavam lá muitos cassacos moradores da Fazenda Santo Alberto.

Gilberto: Diz-se que quem nunca passou por determinada situação não pode entendê-la à altura (líderes políticos nascidos em berço de ouro manifestavam indiferença à miséria  brasileira). Acaso já passou fome? Fale-nos da relativa fartura enquanto na casa paterna e do que fazia para minorar a fome de alguns.

Maurício: Nunca passei fome. Mas vi o efeito dela nos meus irmãos moradores da Fazenda Santo Alberto (hoje moram em nossa cidade muitos filhos e netos daqueles bravos cassacos). Para sentir o efeito devastador da fome na condição humana, basta ser Cristão verdadeiro (não aqueles fariseus que freqüentam igrejas e na saída apedrejam os humilhados e ofendidos pela injustiça dos homens).  É como o médico que nunca pariu, mas sabe a dor do parto de uma mulher. Meu pai, pelo fato de ser gerente de uma Fazenda onde trabalhavam mais de cem famílias, tinha uma condição econômico/financeira relativamente boa. A comida lá em casa era farta, em abundância. Ele possuía um barracão onde “fornecia” a mercadoria aos moradores para ser paga no final do ano, com a safra do algodão. Muitas vezes “furtei” rapadura e bolacha para dar aos filhos dos moradores.

Gilberto: Qual o tipo de fome que mais o incomoda?

Maurício: A da barriga. Sei que ela é efeito de causas complexas. Outra fome que me incomoda muito é a do Sermão da Montanha: bem- aventurados os que têm fome e sede de justiça.

Gilberto: Já leu Geografia da Fome? Que livros fomentaram em você o desejo de ver o ser humano plenamente saciado?

Maurício: Sim, na década de 60. Outros livros foram os da doutrina marxista. Os teóricos marxistas sempre defenderam o bem-estar da sociedade. Inclusive o Hino dos marxistas, A INTERNACIONAL, começa com os seguintes versos:” De pé oh vitimas da fome, de pé famélicos da terra”.

Gilberto: Diante da perspectiva de que, por fim, seremos alimento para os vermes, não lhe parece inglória essa preocupação? Que diferença fará, daqui a cem anos se comi caviar ou nada na manhã de hoje? Que diferença faz morrer de barriga vazia ou cheia?

Maurício: Não me interessa se na morte estaremos de barriga vazia ou cheia. O que interessa é que na vida estejamos todos bem alimentados.

Gilberto: Que lugar as carência artísticas, educacionais e culturais ocupam diante da necessidade de se lidar com a fome em seu sentido literal?

Maurício: Toda atividade humana deve estar voltada para o bem- estar da sociedade. Defender a paz, o usufruto da produção econômica , onde quer que se esteja ou com quem se ande, é um dever inalienável do ser humano, portanto de suas atividades.

Gilberto: Parece-me que você sofre quando pensa na África faminta. A indiferença dos outros também parece espantá-lo. Isso o incomoda, de fato, do ponto de vista emocional?

Maurício: A África é o retrato mais vivo, mais real da desgraça humana. Imagino o que Cristo está preparando, quando do Grande Julgamento, para os verdadeiros responsáveis por aquele continente. Confesso, Gilberto, que quando vejo fotos daquelas crianças esqueléticas, renasce em mim a vontade de pegar novamente no fuzil. Não creio em solução pacífica para aquela situação, muitos cabeças terão que rolar para que a paz e a justiça reinem naquele lugar.

Gilberto: Fale-nos de soluções para a fome do mundo.

Maurício: Existem os chamados “Sistemas Complexos”. A molécula da água é composta de 1 átomo de hidrogênio e 2 átomos de oxigênio (estou certo?). No entanto, o problema da fome não se resume em duas soluções. O modo de produção capitalista, que hoje é predominante, nunca trará a paz universal. A produção econômica, nesse modo de produção, é fantástica, abundante. Mas a distribuição é injusta e limitada. No modo de produção comunista, caso de Cuba, a distribuição é coletiva, justa, mas a capacidade de produção é limitada (falaremos na pergunta sobre Cuba). Para não ter mais fome no mundo, é necessária uma nova relação de propriedade, um novo modo de produção, onde a abundância e o consumo se equilibrem e o lucro não seja o motor dessa nova sociedade. Chamava-se de comunismo, essa nova sociedade. Falarei sobre isso, quando chegar a Cuba.

Gilberto: Diga-nos, com todas as letras, o que pensa do programa Fome-Zero. Relacione-o com medidas de governos anteriores.

Maurício: Quando Cristo viu que aquele povo tinha fome, ordenou que se distribuíssem pão e peixe. O momento exigia aquela solução. Mas tem outra passagem bíblica (me ajude, Gilberto) que Ele manda lançar a rede, ou seja, AO TRABALHO. Essa questão do Fome-Zero, os programas sociais que nasceram com FHC e continuados pelos governo Lula e Dilma, tiveram o seu momento importante. Mas ter como uma política permanente (são 8 anos de FHC + 8 anos de Lula + 2 anos de Dilma = 18 anos de política econômica semelhante), não é correto. O Brasil possui, hoje, 34 milhões de famintos e 60 milhões de mal alimentados = 98 milhões de brasileiros passando necessidades alimentar. Portanto, o modo de produção não é justo e precisa ser mudado em sua raiz. Não teremos justiça social enquanto houver esse modo de produção. É ilusão o que se está passando para o povo: que estamos numa economia estável. Estável para os 10% que detêm a riqueza nacional. Isso é em qualquer governo, do PT, do DEM, do PMDB, do PDT, do PSDB e de todos os P’s da vida. Quem manda na sociedade é a força oculta da economia, e a economia do Brasil é dominada pelo modo de produção antigo: o capitalismo. Estou apenas mostrando o fato real. Mas mesmo assim, dentro do modo de produção capitalista, o Brasil dispõe de terras suficientes para ser o maior produtor agropecuário do mundo. Nem isso estão levando em conta, os investimentos na produção de alimentos poderia ser um fator positivo desse sistema complexo.

Gilberto: Não acha que o nosso problema seja mais de fartura que de escassez? Morre-se hoje mais por alimentação desregrada e em excesso que de fome. Ou discorda disso?

Maurício: Certa feita, quando atuava clandestinamente em Pernambuco, no ano 1969, fizemos reuniões noturnas (dentro dos canaviais) com camponeses. Um deles nos relatou que os armazéns das usinas estavam abarrotados de sacas de açúcar, mas eles não tinham essa mercadoria suficiente em suas casas. Ou seja, fartura e miséria juntas. Gilberto, o problema não é de fartura, mas da distribuição dessa fartura. Veja que aquela fartura nos armazéns foi fruto de um trabalho coletivo de milhares de homens nos canaviais e nas usinas, mas a distribuição da fartura foi para outros lugares: Europa, Estados Unidos. O problema da miséria, continuo insistindo, é do modo de produção e distribuição. Enquanto não se alterar no mundo essa realidade, não há como acabar com os problemas sociais. Veja o caso do continente europeu hoje, crise profunda, não é passageira, não sabemos onde vai dar essa crise. Lembrem-se da ascensão de Hitler, qual foi a causa.

Gilberto: Alguns religiosos gostam de salientar o “Nem só de pão viverá o homem”. Afirmam que o “Tive fome e me destes de comer” refere-se a um pão superior, espiritual. Não têm perspectiva de igualdade social porque Jesus teria dito, conforme determinada tradução, “Os pobres sempre tereis convosco”. Como degusta tais discursos?

Maurício: “Nem só do pão vive o homem”. Mas sem o pão ninguém vive. Cristo distribuiu pão de verdade e peixe vindo do mar. Não foi caído do céu. Sobrou pão e peixe. Não me venham com hipocrisia. Isso é tese de fariseu. Cristo disse que bem-aventurados eram os que tinham fome e sede de justiça. E o que é isso? Justiça é bem estar material também. De barriga vazia ninguém vive. Pois se fosse assim, nenhum pregador religioso juntava fortuna. Seguiriam o mandamento que Cristo deu ao jovem rico: venda tudo que tens, dê ao pobres e siga-me. (Até hoje, o jovem não voltou). Cristo disse: a raposa tem sua toca, o filho do homem não tem uma pedra para deitar a cabeça (me ajude, Gilberto, pelo amor de Deus). Cristo disse, pobres sempre tereis convosco, mas não disse que esses pobres eram para morrer de fome, enquanto uma corja de fariseus se locupletam em fortunas incalculáveis. Cristo disse, no Grande Julgamento, tive fome e não me destes de comer, tive nu e não me vestistes, tive ....... e vocês me viraram as costas, portanto, vou virar minhas costas para vocês. Gilberto, essa história de pão espiritual é hipocrisia.

Gilberto:  Quando prisioneiro político, a fome foi uma das torturas que precisou enfrentar? Fale-nos um pouco do que sofreu.

Maurício: Para falar a verdade, não foi a pior tortura. Foi baleado no momento de minha prisão, e depois 10 longos anos de reclusão. Me permita, Gilberto, ficar por aqui.

Gilberto:  Como avalia hoje a situação de Cuba?

Maurício: Muito difícil. Admiro a resistência do povo cubano. Longos 53 anos de cerco. Creio que é o maior cerco da história feito a um povo. Na segunda guerra, cercaram uma cidade soviética por mais de 900 dias. Mas com a ilha de Cuba o cerco econômico, político é indescritível. Cuba era para viver bem, ser um país desenvolvido, justo na distribuição da produção econômica, colaborador dos países menos favorecidos. Mas não, não deixaram Cuba se desenvolver, insultam sua soberania diariamente (base de Guantánamo), espalham ódio entre seus filhos. Mas eles resistem. Uma das melhores educação do mundo, uma saúde pública invejável, podem dormir de portas abertas, são pobres, mas não são famintos. Não existem meninos de rua, não existem moradores de viadutos, são pobres, mas não passam fome.

Gilberto: Ações paternalistas, esmolas, sopões e campanhas tipo Natal Sem Fome têm seu aval?

Maurício: Existem as pessoas caridosas de fato. Mas existem aquelas que assim o fazem para enganar a Jesus. Não dou muito valor a essas campanhas.

Gilberto: Ao mudar de postura política, não acha que num sentido mais amplo passou a favorecer a causa da fome?

Maurício: Oh! Perguntinha danada. Gilberto, você sabe que hoje sou um descrente em relação aos partidos políticos. Não sou seguidor de nenhum deles. Sou filiado ao PMDB. Sou apenas filiado, mas não creio na aplicação do Programa do Partido, mesmo sendo um programa voltado para o social. Aliais, todos os Programas partidários são parecidíssimos. Dê uma olhadela. Mas voltando a sua pergunta: Não mudei a minha idéia central sobre a função do Poder. Creio e defendo, onde estiver e com quem estiver, que a função do Poder Político é remover os entraves que reproduzem a miséria. Quanto à organização social, defendo um modo de produção e distribuição baseado na propriedade coletiva. Não penso de outra forma. Se isso favorece a causa da fome, não acredito, pois sou tão pequenino que não passo do município de Santa Cruz. Mas se você acha que a minha posição contribui para aumentar a miséria do mundo, não vou condená-lo nem me desculpar. Infelizmente, é o que eu possa fazer hoje.

Gilberto: Que visão tem hoje do poema O Analfabeto Político, de Bertold Brecht?

Maurício: Continua atual, como certos escritos.

Gilberto: Creio que o maior inimigo dos ideais marxistas seja o ego humano, nosso lado animal. Concorda? O que lhe dizem a queda do muro de Berlim, o “já temos arroz e pão” da Praça da Paz Celestial e a Perestroika?

Maurício: Não sou fanático religioso, em política. Até porque, também na Internacional, se dizia: Messias, Chefes supremos não queremos a nenhum. Não tenho medo de reconhecer os erros da sociedade comunista. Se estive na China quem sabe não fosse aquele jovem? O que eu mais odeio é a falta de liberdade. Pode vir de onde vier. Não concordo com aqueles exageros em Cuba. Apesar de isso que acontece é fruto de um luta de classes, de pensamentos diferentes. Mas as mudanças na União Soviética também não produziram bons efeitos, lá a crise política, denúncia de corrupção etc. O Muro de Berlim foi fruto da Guerra Fria entre Oriente comunista e Ocidente capitalista e que deu num fracasso como toda a experiência comunista no Leste europeu. Mas deixemos que eles resolvam seus problemas.


Gilberto: Você, tão obcecado com o problema da desnutrição, por duas vezes se submeteu a greves de fome. Fale-nos dessas duas ocasiões e da importância dessa arma dentro do processo democrático.

Maurício: Caro Gilberto, 
a greve de fome sempre foi uma arma usada pelo mais fraco. A primeira greve de fome teve um caráter político/coletivo. Quando da votação da Lei da Anistia, em 1979, o projeto previa exclusão de pessoas que tivessem participado de ação armada contra a Ditadura. Além disso, houve uma pressão do Governo para que ela fosse votada no final do ano de 79. Os presos políticos decidiram, então, entrar em greve de fome pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, bem como para que a votação se desse no mês de agosto daquele ano. Foi um movimento que incluiu os presos políticos do Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e eu do Rio Grande do Norte. Aderi ao movimento já numa fase avançada. Tanto é que os companheiros do Rio foram a mais ou menos 40 dias de greve de fome, enquanto eu cheguei a atingir os 18 dias. Nossa alimentação se restrigia a água, sal e açúcar ou seja soro caseiro. Nos três primeiros dias, se sente FOME, depois vem a dormência, a sonolência e a força para se resistir a muitos dias. (Não será dessa maneira que o povo que passa fome consegue sobreviver?) Parece que o corpo se prepara para os dias futuros, vai consumindo a gordura lentamente. Tivemos apoios importantes: OAB, ABI, IGREJAS, PARTIDOS POLÍTICOS, ARTISTAS, enfim uma força que nos ajudava a resistir. Movimentos pela ANISTIA se espalhavam pelo Brasil, forçando o Governo a mudar de posição. De fato, a votação foi feita no mês de agosto e não no final do ano que eles queriam. A segunda greve de fome, teve um caráter pessoal, mas também político. A Comissão de Justiça e Paz, no meu processo onde solicitei indenização e a inclusão dos anos de perseguição política como contagem para a aposentadoris, me deu parecer favorável, sendo homologado pelo Ministério de Justiça e publicado no Diário Oficial da União. Vale salientar que esses direitos tinham sido aprovado pelo Congresso Nacional, quando da instituição da Comissão de Justiça e Paz. Portanto, era LEI. Quando requeri, ao INSS, a minha aposentadoria, em 2004, foi negado os 10 anos de prisão política. Foi aí, depois de muitos apelos a INSS, que decidi entrar em Greve de Fome por tempo indeterminado, em 2005. O mesmo sistema de alimentação. Depois do terceiro dia, minha sobrinha levou um livro de presença da pessoas que foram me prestar solidariedade, em menos de quatro dias foram colhidas mais de 300 assinaturas. Guardo esse livro comigo. Também tive um apoio importate da OAB-RN bem como da OAB nacional. Sindicatos, partidos políticos, Associação dos Médicos, Assembléia Legislativa, Câmara de Veradores (inclusive de São Bento do Trairi), amigos, impressa, enfim uma enormidade de pessoas solidárias que fizeram com que eu tivesse vitória. Depois de 8 dias, suspendi a greve, já que a OAB/RN entrou com uma defesa na Justiça Federal onde obtive êxito e o INSS foi obrigado a incluir esse tempo de prisão como válido para minha aposentadoria. Mas o fato interessante é que a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Federal consultou o Ministério da Justiça sobre essa questão e o Ministério da Justiça consultou o Ministéiro da Previdêcia que, por sua vez, solicitou um parecer do seu corpo jurídico, que no parecer acatou a decisão da Comissão de Justiça e Paz, estendendo esse direito a todos os perseguidos políticos. Minha vitória foi a vitória de todos os companheiros que sofreram algum tipo de repressão no Regime Militar.

Gilberto: Faça avaliação dessa entrevista. Sacie-nos com suas palavras finais.  

Maurício: Foi muito difícil para mim. Às vezes, como são muitas perguntas, a gente entra em contradição no que diz. Mas se fiz isso, pode me cobrar explicações. Se estiver errado, não temo em corrigir meus erros. Foi muito bom para mim. Sei que não disse novidades. Já lhe falei que não gosto de escrever (você já me cobrou isso), porque já se disse tudo sobre a raça humana. Apenas ficamos repetindo, muitas vezes de forma pobre. Meu muito obrigado por toda consideração que você tem por mim. Obrigado mesmo, meu amigo Gilberto. Peço desculpas se alguém foi ferido por minhas palavras.
Uma boa alimentação para todos.


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