APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 2 de setembro de 2012

Chove... - Cecília Nascimento de Oliveira


 
Hoje não versejarei, nem intentarei em prosa poetizar, mas amanheci com sede de relatar.
Chove! Chove na Santa Cruz de 2008...
Depois de meses temperados com fogo na terra e poeira no rosto do nosso povo, a água nos banhou com sua presença alvissareira. Era noite quando ela nos deu o ar (com cheirinho de terra molhada) de sua graça... Veio toda pretensiosa, ciente de que era desejada há muito... Impetuosa, despencou sobre nossos tetos, abrindo tantas goteiras! Mas era ela, ela podia... Que mal havia em ouvirmos um gotejar nas panelas por toda a noite? Ela chegou!
Os bueiros no Paraíso deram-lhe passagem por sobre o asfalto da Paulo Afonso... Os severinos correram a ver; eram 22h00min, mas não havia tempo ruim que impedisse o sertanejo de ver uma água barrenta rompendo bueiros, descendo rua abaixo, levando lixo, bicho, chinelo e barquinho de papel de menino feliz. E como se a visita ao barranco fosse pouco, o povão santacruzense, num instinto igualitário e indizível, correram a reunir-se na ponte a ver o Rio Trairy rebrotar da desesperança. É pouca ponte para tanta gente. E todos sorriam, admirados de ver tanta água de uma só vez, tanta alegria de uma só cor, tanta esperança em uma só noite!
A meninada, como quem esperou meses por aquele momento, não arriscou esperar amanhecer e já corria nas ruas em busca do tão sonhado banho de chuva. Já eram 23h00min. A cidade sorria. Uns já faziam planos de irem ao roçado na mesma semana, que o São João nesse ano prometia! Oh, que banho bom esse povo tomava nas ruas escuras de chuva... Pena eu não poder acompanhá-lo; meu pulmão me impedia, malsão...
Aos poucos amanhecia e era chegada a hora de ir ao centro da cidade, comprar umas espiguinhas de milho que o preço, envergonhado pela chuva, já teria baixado. Compravam-se também peixes e tempero verde para fazer aquele almoço com aroma de inverno.
Resguardados pelo claro do dia, a cidade disparava em procissão para o açude novo (já bem velhinho) a ver o sangrador. Os adolescentes e jovens levavam suas câmeras digitais para postarem no Orkut as fotos da chuva e gloriarem-se dos milímetros que Santa Cruz atingira. Lá, na parede do açude, só o sorriso imperava. O povo esquecia suas dúvidas, suas dores, suas perdas, seus temores... Todos eram um, molhados pela garoa que não cessava, regados na mesma esperança... Ninguém ali diferia em nada, eram todos o mesmo Severino deslumbrado pela graça da chuva. Ora, até as patricinhas não se preocupam pela chuva desfazer-lhes a chapinha do cabelo! In-Crível!!!
Enquanto isso, a dona de casa preparava o almoço de “inverno”. Seu nome é Teresinha, minha mãe. Ela tratava do peixe, punha o milho para cozer e pedia-me para pôr um MP3 de Luiz Gonzaga para tocar... Vamos relembrar os bons tempos, aqueles que eu não vivi. Que saudades daquele tempo em que eu não existi. Não sou desta geração, nem da de outrora. Sou dês-geração-nizada. Minha mãe cantava e recantava Gonzaga enfrente ao fogão e eu limpava a casa com lágrimas no olhar. Minha mãe sofreu, mas tinha um passado a lembrar. Lembrar de um tempo difícil de secas, de fome, de enchente, de exílio, de lutas, de repressão, de vida! Uma vida ativa!
Eu (tão saudosa que sou!) só tenho a relembrar um passado que não é meu. E choro, não pelo que vivo, mas porque sinto o vazio da atual juventude: todos iguais; tão desiguais a mim!
Estamos ou já passamos do século da competitividade, da comunicação, da rapidez. Mas meus irmãos desirmanados correm cegos e tropeçam na própria ignorância. Seus anseios são medíocres, suas preferências são pobres, sua música é pornofônica. Seres individualistas. Vidas vazias; cheias de um nada que usurpa o lugar de tudo de bom que a vida poderia oferecer.
Piedade, Cecília destes teus iguais! Eles não sabem o que fazem... Ainda chove... Quem sabe lhes caem as escamas dos olhos?!
A chuva paulatinamente me humanizava... Pareceu-me que até o ressequido amor pela terrinha de Santa Cruz aflorou... Talvez haja esperança...
Hora do almoço!

Cecília Nascimento
20.03.2008, 12: 06 p.m.