APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ENTREVISTA COM HUGO TAVARES DUTRA


Hugo Tavares é um conhecido poeta de nossa terra, um homem de múltiplos talentos que tem dedicado a vida à luta por um país melhor.

Com muito esforço e persistência, realizou o sonho de trazer uma emissora para Santa Cruz, a FM SANTA RITA.

Talentoso poeta, bom compositor e instrumentista, tem lutado com afinco pela preservação da Arte Popular Nordestina. Hugo formou-se pela UFRN, Campus de Santa Cruz, e é funcionário do IBGE.
Tudo que ele faz tem a marca da militância política, razão pela qual o trouxemos a essa sabatina.
Gilberto: - Hugo, comece falando-nos sobre suas origens, formação acadêmica e trajetória de vida.
HUGO: A minha origem é muito modesta. Sou filho de vaqueiro e doméstica.

Nasci em Brejo do Cruz-PB. A minha infância foi pontuada em Catolé do Rocha-PB, onde estudei em escolas públicas e 1 ano em uma escola particular(Colégio Técnico D. Vital). Aos 16 anos fui morar em João Pessoa, para continuar os estudos e um ano depois fui morar em Natal-RN.

Desde muito cedo que luto e muito. Fui mecânico de oficina, vendi bombons e revistas em portas de cinema, com aqueles caixões pendurados no pescoço.

Ajudava aos feirantes em dias de sábado, nas mesas vendendo e enrolando miudezas da feira...etc. Fazia molduras de quadros e espelhos, cortava vidros (vidraceiro), fui guia de cego (lavava um cego de Mossoró, seu CHICO, para os pontos dos ônibus), fui vendedor de seguros, cobrador de óticas, vendi implementos agrícolas e máquinas de escrever e calcular... E ainda fui "coroinha", adotado por Madre Margarida (In Memoriam ). E trabalho há 29 anos no IBGE _Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, até hoje.

INFÃNCIA: Foi uma infância cheia de contratempos. Muito cedo fui acometido de uma doença em uma das pernas e passei quase dois anos acamado. Viajando de Catolé do Rocha-PB a Recife-PE, onde fazia tratamento.

ESPORTE: Sempre adorei esporte. Fui goleiro de futebol de salão (hoje futsal) por muitos anos. Um dia quebrei um dos braços e tive que "abandonar" o gol.

A MÚSICA: Fui iniciado ao violão por dois grandes amigos de infância - Iran Campos e Sebastião Emanuel de Campos (filhos de Tião do Foto e de D. Marli). Agradeço ainda a eles por terem me iniciados na música. Aprendi os primeiros acordes com eles dois. Não tinha violão e me socava na casa deles o dia todo. Quando eles davam uma brechinha eu já pegava um dos violões e ficava lá pelo meio. Tocávamos numa bandinha de crianças chamada de "Os Paqueras", e por ai fui...

Desde a década de 70 que em Catolé do Rocha-PB promovem festivais de música. Foi de lá que eu parti... Eu e o Chico César. Foi nos festivais que iniciamos a nossa vida musical...
Gilberto: Quem é você, no seu próprio conceito?
HUGO: Quem eu sou? Fácil essa...

Um cidadão determinado e consciente. Fiz uma opção pelos mais fracos e humildes. Luto pelos oprimidos diuturnamente, independente do governante de plantão. Sou devoto da legião dos que são contra as injustiças sociais. Qualquer tipo de discriminação pra mim é um atentado contra a soberania do ser humano. Não creio em justiça social, sem a democratização do trabalho, acesso as escolas, saúde e hospitais para todos...

Há muita carência e sede de justiça.

Não concebo a máxima conformista: "A justiça tarda mais não falha". Por trás dessa falácia escondem-se os pilares e a sentença dada aos que se rebelam contra qualquer estado opressor e predador do povo. Estado moldado para perpetuar a dominação da globalização, daqueles que escravizam o resto do mundo com o sacrifício da classe trabalhadora.

Sou devoto dos que dividem um pouco com os carentes. Carentes em todas as direções. Não creio nos cidadãos pacatos e donos dos seus lares. Eles encerram em si o egoísmo pessoal, mascarando e se escondendo em um padrão de comportamento que não incomoda ninguém. (...) É um homem exemplar. De casa para o trabalho (...).

Não acredito naquelas pessoas que dizem: "Detesto política". São os piores tipos de cidadãos. Contribuem para que os dominadores se perpetuem no poder. Não dão nenhuma contribuição para a construção de uma sociedade justa e igualitária. Não acredito nos religiosos que não praticam nenhuma ação que possa dignificar a vida do próximo. Não acredito em suas orações, "sem o sal da palavra". O exemplo. A prática. O fazer dos que dizem e pregam. Ainda não conheço, e até agora ninguém em apresentou um retrato e/ou uma imagem de Cristo de braços cruzados.

Não creio naqueles que quando praticam uma boa ação, saem apregoando mundo afora, a ação que praticou em torno de algo e/ou de alguém.

Não creio nos que "dizem" que dão com uma mão "sem que a outra veja". Não creio nos que dizem que amam, mas não dividem nada. Não dividem com os seus vizinhos e nem com o seu país.

Gilberto: Você acha que a arte deve ser sempre uma arte-denúncia?
HUGO: A Arte é uma rosa e uma arma

Sempre busquei um conceito para a palavra arte, mas confesso que nunca encontrei. A arte é uma rosa e uma arma. Depende de ponto de vista você se utilize ou utiliza a arte para dizer alguma coisa. O Artista deve ser livre. Portanto essa premissa nem sempre é verdadeira, porque ao longo do tempo muitos artistas foram reprimidos pelo estado e muitos pagaram com a sua própria vida, pela arte. Parto do entendimento que o artista vive em um mundo e que esse mundo é espelho para a própria arte. A natureza é uma forma de arte, mas divina. Arte da natureza humana reflete ou deveria refletir o mundo. O meio em que ele vive e a forma como ele vive. A arte pela arte, por si só não se justifica. A arte só será plena se houver em suas expressões nuances de atitudes que embalem o soerguimento da natureza divina e humana. Como posso me utilizar da arte para soerguer a sociedade humana? Respeitando primeiramente a arte da natureza divina. E aí... Existe a consciência de que o artista é livre, mas deve ter um compromisso com a sua arte e com a humanidade.

Ninguém é artista sozinho, e sempre há quem contemple a sua expressão artística. Por isso ela deve expressar algo, mesmo que quem a contemple não a compreenda.

Santos Dumont morreu com a frustação de que o avião foi usado para matar pessoas. O avião é uma obra de arte.

A história é testemunha de que a arte embalou impérios e viu impérios serem aniquilados. Portanto a arte é uma rosa e uma arma. E esse poder, determina o olhar do artista, a face, a compreensão e o entendimento de mundo. E a parti daí, o seu compromisso com a construção de um mundo melhor.

A arte deve existir para libertar, e o artista, deve ser o seu articulador em todos os sentidos. O mundo passa necessariamente pela arte. E a arte é uma rosa e uma arma. Como utilizá-las para se construir um mundo mais justo!? Tenho dito...

Finalmente, entendo que a arte não deve ser usada somente para denuncia. Não! A arte deve ser usada para embalar a vida. Orgulhar os olhos e encher o peito do artista e o de quem comtempla a sua de arte. Quando a arte é vazia. Somente pela arte, o artista tem vida efêmera e a sua arte também. A arte deve ser sim, instrumento do soerguimento da alma, da vida do ser humano nas suas infinitas expressões.
Gilberto: Sua visão política, conforme consta no perfil, é a de um libertário. Por que você não se posicionou como um de esquerda? Que significa pra você ser um libertário?
HUGO: A liberdade deve estar acima de tudo

A liberdade se sobrepõe a partidos políticos, governos, doutrinas,... Etc. A esquerda, a direita, o meio e os outros são pontuações retomadas. Hoje estão dessa forma, amanhã se colocam de outra forma e assim... Os partidos políticos estão falidos no Brasil. A classe política tenta se sustentar em um tentáculo que se arrasta por um fio, mas eles não entendem ou fazem que não entendem. As suas ideologias sucumbiram. Já não existe discurso que envolva quaisquer pessoas sãs em frente a um palanque político. Aliás, os palanques são formas arcaicas e superadas deles vomitarem as suas mentiras. A democracia deles não suporta um debate de ideias. Eles já não as mais têm. Reproduzem falácias amareladas e roucas pelo tempo de uso e não refletem o dia-a-dia. O desafio de viver e da vida humana. Os políticos não são artistas. Eles não têm o direito de não serem incompreendidos, porque a verdade e a liberdade caminham próximas e de mãos dadas. E eles não suportam a verdade. Essa palavra não faz parte do vocabulário deles. Os políticos jamais entenderão o povo porque eles não libertam o povo e nem querem que ninguém os liberte. Os políticos preferem o povo submisso, ignorante, faminto e doente, para pode escravizá-lo mais facilmente. O ser humano consciente e pleno da sua cidadania é um libertário. Ele está acima dos partidos políticos, das suas ideologias, dos seus estatutos mentirosos e arrogantes. O ser libertário está acima de qualquer coisa ao lado das minorias, sempre. Independente de qualquer tempo, cor ou governo. Ele está ali sempre, em todas as horas, dando o seu testemunho e hipotecando as suas energias e atitudes. Ele sempre está presente com a sua palavra e o seu empenho para que as coisas mudem, para melhor e que a selvageria da ganância seja amenizada, em nome dos que passam sede, fome, frio e que buscam uma luz para a superação das suas necessidades primárias.

Veja mais dessa entrevista em  http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=3297113&tid=2538498598058547990