APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

PEÇA DE NAILSON COSTA SOBRE MARCOS CAVALCANTI


Nota de Nailson:  "Caro Gilberto, essa peça teatral (miniteatro) foi escrito em 2008, na minha despedida da educação. Era a Semana Cultural da Escola José Bezerra e fui intimado pelo diretor [João Bezerra] pra fazer algo para a 2ª noite. De repente pensei em valorizar a literatura local. Então criei um diálogo entre algumas poesias de Augusto dos Anjos e Marcos Cavalcanti. Claro que incluí outros personagens na trama, para dar ritmo ao texto. Escolhi alguns alunos, sem experiência nenhuma de representação, ensaiamos e apresentamos. Olha, Gilberto, foi muito bacana! Que pena que não pudemos filmar!"

TÚMULOS DO ALÉM”

CENÁRIO: SOZINHO NO PALCO (PROVAVELMENTE UM BAR) E SENTADO EM UMA
CADEIRA, DEBRUÇADO SOBRE A MESA ESTÁ O POETA, MUITO TRISTE A RECITAR O
POEMA PSICOLOGIA DE UM VENCIDO.
POETA: Eu, filho do carbono e do amoníaco / Monstro de escuridão e rutilância,
/ Sofro, desde a epigêneses da infância, / A influência má dos signos do zodíaco. /
Profundíssimamente hipocondríaco, / Este ambiente me causa repugnância ... / Sobe-
me à boca uma ânsia análoga à ânsia / Que se escapa da boca de um cardíaco. / Já o
Verme – este operário das ruínas - / Que o sangue podre das carnificinas / Come, e
à vida em geral declara guerra, / Anda a espreitar meus olhos para roê-los, / E há de
deixar-me apenas os cabelos, / Na frialdade inorgânica da terra.

APARECE REPENTINAMENTE UMA MULHER NOVA E MEIO TAGARELA. ELA PÁRA
COM UM JEITO DE REPROVAÇÃO OLHANDO PARA O POETA E APONTANDO PARA
O PÚBLICO E PERGUNTANDO: Esse cara aí (AGORA APONTANDO PARA O

POETA) é doido ou o cigarro paraguaio queimou seus neurônios?

ENTRA DE VEZ O PROFESSOR E REPREENDE A MULHER: Nenhuma das alternativas,
minha filha. Esse cara aí é o Poeta, filho do amoníaco e do carbono.

MULHER: Filho de quem? Eu pensei que todos os humanos tivessem um pai e uma
mãe de carne e osso, como nós.

PROFESSOR: Na verdade, ele é tão humano quanto nós. É que ele não é dado às coisas
da religião, ele é ... assim... como é que eu digo .... mais ligado às ciências, ele é
meio ateu.

POETA: ah, ah, ah, hummmm, hummm.

MULHER (ESPANTANDO-SE E BENZENDO-SE): Ele tá é bebo, tá, bichim?!

PROFESSOR: Não! Ele não é chegado à bebedeira. Ele é uma pessoa assim mesmo,

pessimista, triste e desencantado da vida. O seu único livro publicado, EU, tem
escandalizado a sociedade inteira, que é chegada mais aos poemas românticos, sem
palavras grosseiras como “verme, escarro, miserável etc”.

MULHER: Viche, só por isso!? (DIRIGE-SE AO POETA MEIO ASSUSTADA,
PÕE, DEPOIS DE ALGUMAS TENTATIVAS, A MÃO EM SEU OMBRO): Psiu,
seu Poeta, fique tristinho não, vice. A vida é assim mermo. Um gosta, outro num
gosta. Eu não vi seu livro ...

(O POETA BRUSCA E RAIVOSAMENTE TOMA A PALAVRA E GRITA SEU
POEMA “VERSOS ÍNTIMOS”): Vês?! Ninguém assistiu ao formidável / Enterro de
tua última quimera. / Somente a Ingratidão – esta pantera - / Foi a tua companheira
inseparável! / Acostuma-te à lama que te espera! / O Homem, que, nesta terra
miserável, / Mora, entre feras, sente inevitável / Necessidade de também ser fera. /
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A
mão que afaga é a mesma que apedreja. / Se a alguém causa inda pena a tua chaga, /
Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!

MULHER (BENZENDO-SE): Minha santa do macaco gago, agora que não entendo
mais nada!

PROFESSOR: É um soneto belíssimo, aquele formado por dois quartetos e
dois tercetos. Estilo clássico de se fazer poesia. O poeta misturou a beleza dos
versos decassílabos, a categoria de palavras científicas e a grosseria de palavras
não poéticas e traçou para si e para o ser humano a perspectiva de um destino
inescapável, um caminho de sofrimento e dor. É “A influência má dos signos do
zodíaco”; “Profundíssimamente hipocondríaco. Ele é realmente niilista.

MULHER: Ni .. o quê?

PROFESSOR: Niilista, isto é, negativista.

MULHER: Pois, seu bichim, eu conheço lá das minhas terra, Santa Cruz do Inharé,
lá no Trairi dos cafundó do RN, um poetero danado de bom. As poesia dele é assim
aparecida com essas desse doido aí (APONTANDO PARA O POETA). Só que o
meu conterrano santacruzense é munto esperto, irônico, cômico e num qué morrê não
sinhô. Brinca tão bem com o palavriado que num sei pru quê num é famoso como
esse aí? É o Mago do Além-Túmulo.
   
[...] 

veja o resto da peça em  http://apoesc.blogspot.com/p/motes-1.html (na parte final da coluna)