APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ENTREVISTA COM EXPERT EM CANGAÇO E CULTURA POPULAR

  


GILBERTO: Juliana, comece falando sobre sua formação, origem, família, perfil e interesses.

JULIANA SCHIARA: Êita que a pergunta é tão complexa que nem sei por onde começar, mas vamos lá..., rsrsrsrs. Nasci na zona rural do município de Itapiúna, interior do Ceará, mas moro em Quixadá há muito anos, ou seja, sou de Itapiúna de nascença, mas de Quixadá por opção. Sou formada em História pela Universidade Estadual do Ceará e em Direito pela Faculdade Católica.

O Ischiara do sobrenome adquiri por ocasião do casamento com um descendente de japonês, mas sou da família Pereira. 

Quanto aos meus interesses, são vários...,rsrsrsr, mas dentre os mais importantes, a defesa constante da cultura nordestina, em toda sua plenitude. Faço desta tarefa uma missão. 
GILBERTO: Desde quando você se interessa pelo fenômeno do cangaço e quais as motivações para isso?

JULIANA SCHIARA: Cangaço é sem sombra de dúvida o fenômeno social mais estudado no Brasil, mas não comecei minhas pesquisas pelo o cangaço, comecei por mestre Luiz Gonzaga, inclusive tenho trabalhos acadêmicos defendidos sobre a vida e obra de  mestre Lua. Ao estudar Luiz Gonzaga me deparei com todos os personagens da cultura nordestina, dentre eles, vaqueiros, coronéis, cangaceiros e messiânicos

Ao perceber que em se tratando de nordeste não é possível divorciar um personagem do outro, passei a me dedicar também a vaqueiros, coronelismo, messianismo e CANGAÇO.

 A motivação está na rica construção sociocultural do Nordeste, por se tratar de uma colcha de retalhos bastante coloridos, tudo é fascinante em se tratando de Nordeste.
GILBERTO: Quantos livros, aproximadamente, já se escreveu sobre Lampião? Quais deles julga menos dignos de crédito e quais recomendaria? 

JULIANA SCHIARA: Com certeza mais de quinhentas obras já foram escritos sobre o cangaço. Dentre esta quantidade enorme, há muita coisa boa, porém, muitas obras que não merecem a menor credibilidade, por não serem fieis aos fatos históricos.

Como pesquisadora do cangaço recomendo os que para mim, são os dez melhores, são eles:
ü  Lampião, o rei dos cangaceiros – Billy Jaynes Chandler
ü  Lampião: Sua morte passada a limpo – José Sabino Bassetti
ü  Lampião e o Rio Grande do Norte – Sergio Dantas
ü  Antonio Silvino: O Cangaceiro, o homem, o mito – Sérgio Dantas
ü  Lampião entre a espada e a lei – Sérgio Dantas
ü  Guerreiros do Sol – Frederico Pernambucano
ü  A Misteriosa Vida de Lampião – Cicinato Neto
ü  A trajetória guerreira de Maria Bonita rainha do cangaço – João de Sousa Lima
ü  Bandoleiro das Catingas- Melchiades da Rocha,

GILBERTO: Fale-nos sobre a SBEC e seus propósitos. Como funciona, como se sustenta e como se entra nela? Verdade que a mídia televisiva às vezes recorre a algum departamento dessa entidade? 

JULIANA SCHIARA: A Sociedade Brasileira de Estudo do Cangaço-SBEC, foi criada em 13 de junho de 1993. È uma entidade sem fins lucrativos que coordena um maior entrosamento entre pesquisadores, escritores, artistas e ex-cangaceiros e seus familiares e ex-volantes e seus familiares. Ou seja, aqueles que de alguma forma estudam, divulgam ou fizeram ou fazem parte da cultura nordestina de forma direta ou indireta.
A SBEC, não trata só dos assuntos relacionados a cangaço, mas as demais manifestações culturais do Nordeste, como coronelismo, revoltas, musicalidade, messianismo, dentre outras manifestações.
Para participar da SBEC, além do indivíduo a principio deve gostar da cultura nordestina, estudá-la e ou divulgá-la de alguma forma. Terá que ser apresentado por um dos sócios a uma comissão da SBEC, que por sua vez, apresenta a diretoria para dá o parecer definitivo.
Vez por outra nossos membros são procurados para orientar e ou ministrar palestras sobre assuntos concernentes a cangaço ou demais temas relacionados. Recentemente tivemos um debate em um canal de televisão em que a SBEC foi representada por três membros da sociedade.

GILBERTO: Quantos cordeis sobre o cangaço a SBEC tem catalogados? A maioria deles é de caráter fictício? Cite alguns que julga muito importantes.

JULIANA SCHIARA: Nosso especialista em cordéis é o confrade Kydelmir Dantas, salvo melhor juízo a ultima catalogação já passava de oitocentos, mas em se tratando de cordel é difícil precisar, pois temos cordelistas por todo o nordeste que falam em seus cordéis sobre cangaço, porém, infelizmente muitos não chegam ao nosso conhecimento.
GILBERTO: Fale-nos sobre a figura de Maria Bonita. Ela, em particular, exerce fascínio sobre você? Que há de verdadeiro a respeito dela e o que você classificaria como grandes mentiras, a respeito dela e de Lampião??

JULIANA ISCHIARA: 
Por mais glamorosa que seja a palavra rainha, a vida de uma nem sempre é cercada de mimos, sorrisos fáceis, mordomias e ócio, principalmente quando esta rainha teve como reino o nordeste, como súditos, bandoleiros temidos. Seu castelo, a caatinga inóspita do sertão nordestino.
Esta rainha nasceu em pleno sertão nordestino, seu berço, o sítio Malhada da Caiçara, zona rural de Paulo Afonso-BA. Seu destino seria o de subverter um código de conduta imposta por uma sociedade machista.

O fato das mulheres não terem participado dos combates, não diminui sua importância, tão pouco sua essência corajosa e guerreira. Estas suportavam todo o período de gestação em meio ao desconforto da caatinga, tinham que vencer todos os dias as dificuldades para se manterem vivas, pois as perseguições eram constantes e sem tréguas. Nem mesmo após os partos tinham descanso, porque era necessário andar muitas léguas a pé, fosse fugindo da volante ou na busca de um lugar mais seguro. Para sobreviver naquela vida, era necessário ter uma resistência física incomum, algumas não conseguiram, como Adelaide, companheira do cangaceiro Criança, que morreu de parto em meio à caatinga, além dos muitos abortos e hemorragias que acometia quase todas as cangaceiras.
Maria Gomes de Oliveira nunca fora uma mulher comum, muito menos apagada, como descrevera Joaquim Goes em seu livro Lampião: O Ultimo Cangaceiro.  Numa rápida comparação entre o perfil descrito pelo referido autor e as várias fotos de Maria, vemos o quanto infiel e imprecisa fora a análise feita por Goes. Tanto é verdade, que dentre tantas mulheres, foi sua beleza que encantou a fera mais temida em sua época. Estávamos nos idos da década de 20 do século XX, o sertão nordestino vivenciava a fase mais agressiva do cangaceirismo, chefiado Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também conhecido como o rei do cangaço e governador do sertão, um absolutista inconteste, pois se auto atribuía poder absoluto sobre o chão que pisava.


Quando fora apresentada a Lampião, o amor e a emoção dominaram a razão. Pesado e medido, o mundo particularmente masculino, violento e embrutecido, foi mais atraente que seu casamento já fracassado e a calmaria do lar de seus genitores. Naquele momento de decisão, as incertezas da vida cangaceira e a adversidade da caatinga, as lutas, as aventuras, sacrifícios, risos, dores, paixões, suores, sangue e companheirismo lhe pareceu o caminho a ser seguido.
Maria não era alheia à realidade vindoura, sabia o que viria pela frente e entrou para o cangaço por ser uma mulher guerreira, corajosa, destemida aos terríveis acontecimentos que poderiam aparecer nas caatingas, principalmente as volantes, que diariamente andavam ao encalço dos bandos de cangaceiros. Não entrou no cangaço para participar dos combates, matar e roubar, mas para amar e ser amada. Entrou por ter se apaixonado pelo homem que ela acreditava ser sua alma gêmea.
Analisar o comportamento dessa mulher que ousou deixar tudo em nome do amor, de uma forma simplista, é desmerecer sua atitude arrojada para a época em que vivera. Maria rompeu códigos de conduta estabelecidos, venceu paradigmas ao quebrar a monotonia dos costumes e tradições vigentes. Embrenhou-se nas veredas das caatingas para seguir, não o rei do cangaço, mas seu amante, não importando a vida intranqüila que ele lhe oferecia.
Viveu como uma mulher apaixonada e morreu como uma rainha fiel ao seu rei. Não curtiu as vidas que gerara em seu ventre, nem pode embalar ou cantar canções de ninar aos filhos que tivera, não pode ser uma mãe presente e ver sua filha crescer, deixando-a sob a proteção de amigos.
Esta mulher pagou um preço muito alto por sua coragem ao romper com padrões estabelecidos, em que a mulher deveria ser submissa ao marido e dedicar-se aos afazeres do lar. Maria jamais foi uma mulher comum. Sua conduta era motivada pela paixão, pelo companheirismo e pelo compromisso para com a vida abraçada.
Jamais se sentou em um trono ou ostentou em sua cabeça uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas. Mesmo sendo a mulher do homem mais temido dos sertões, soube manter a nobreza digna de uma rainha. Maria não tinha um gênio fácil, não era doce e simpática com quem não simpatizava, expunha o que pensava até para aquele que era temido por todos.
Nasceu Maria Gomes de Oliveira, viveu como a Maria de Déa, Santinha, Maria de Lampião, morreu e eternizou-se como Maria Bonita, a Rainha do Cangaço.
A história de Maria é realmente fascinante e assim como a de seu Companheiro Lampião, é cercada de mistérios e mentiras.


GILBERTO: Que reflexões fez a respeito do passeio que fizemos por lugares do RN relativos ao cangaço de Jesuíno Brilhante? Algo em particular chamou sua atenção? O que diferencia Jesuíno de Lampião?

JULIANA SCHIARA: Foi uma viagem muito proveitosa em todos os sentidos, conhecer outros pesquisadores, dividir reflexões é sempre muito bom. O que mais me chamou a atenção foi o descuido para com o cenário geográfico que envolve a trajetória de Jesuíno Brilhante, não percebi nada que incentive os jovens a se interessarem pela história local e em especial pela história vivida e deixada por Jesuíno. Tirando a iniciativa de um ou outro, nada mais se ver, o que difere e muito de Mossoró, que soube aproveitar um fato histórico mesmo que lamentável, para incentivar os estudos e as pesquisas, incentivando também diversas manifestações culturais.

No mais, adorei as pessoas, o calor humano dos que nos receberam, conheci pessoas adoráveis e cheias de projetos, como os poetas Gilberto Cardoso e Helio Crisanto.

GILBERTO:
 Lampião seria uma pessoa normal levado ao crime devido circunstâncias adversas, um louco ou um serial killer?

JULIANA SCHIARA: Bem, talvez quem respondesse melhor esta pergunta fosse alguém da psicologia, mas baseando-se em minhas pesquisas e pelas várias conversas que tive com quem é da área. Lampião era normal, perverso, mais não chegava a ser um psicopata. 

GILBERTO: Alguns chegaram a insinuar traços de homossexualidade em Lampião ou de metrossexualismo, devido o fato de ele bordar seus próprios trajes e preocupar-se demasiado com a aparência. Que diz sobre isso?

JULIANA SCHIARA: Não vejo nenhum traço de homossexualismo em Lampião, esta informação não procede. Quanto ao metrossexualismo sim, é visível a vaidade e a preocupação que ele tinha com detalhes, como lenços, bordados, enfeites. Ele se preocupava muito com a aparência, mas não devemos esquecer que ele era o líder e se julgava o rei dos sertões, e como rei, sua imagem deveria está a altura do que ele representava.
GILBERTO: Para você, Lampião seria bandido ou herói? Não acha que estudar e exaltar a figura de Lampião seja um estímulo à violência?

JULIANA SCHIARA: Não gosto de analisar o indivíduo Lampião, por estas vertentes, para mim ele foi um CANGACEIRO, perverso, intolerante, vaidoso. Porém um grande estrategista, um líder nato, dotado de uma inteligência muito além da média. Não o vejo só na condição de bandido, assim como não enxergo traços de heroísmo.
Quanto às pesquisas e ou estudá-lo, de forma nenhum isso se confunde com apologia ou estímulo a violência, pelo contrário. Mostramos o que de fato ocorreu, sem romantismos.
GILBERTO: Cerca de quantos filmes já se fez sobre Lampião e quais já assistiu? Quais recomendaria?

JULIANA SCHIARA: Entre longas e curtas, temos uma boa quantidade, não sei precisar quantos. Mas com certeza bem menos do que o tema merece, creio que deveria ter mais e com mais qualidade. Já vi muitos, se não todos. O que mais se aproxima da verdade dos fatos é o Baile Perfumado.
GILBERTO: Lampião, comprovadamente, era poeta ou há controvérsias a respeito?

JULIANA SCHIARA: Acho exagerado chamá-lo ou denominá-lo de poeta, hoje em dia basta o cabra ter um inspiraçãozinha de nada e escrever uma carta para a namorada apaixonado que já é tido como poeta. Há alguns versinhos atribuídos a ele, assim como músicas, mas concordo com o lado da controvérsia que não o tem como poeta.
GILBERTO: Que resta dos pertences de Lampião e dos membros do cangaço? 

JULIANA SCHIARA: Muitas coisas, muitas mesmo, roupas, lenços, alpercatas, armas, bornal, moedas, livrinhos de orações que estavam dentro do bornal dele no momento da morte. Óculos, jóias, cartucheiras, enfim, existe um bom acervo.

GILBERTO: Quais as melhores coisas que a SBEC já lhe proporcionou que justificam sua permanência nela?

JULIANA SCHIARA: Assim como o Cariri Cangaço e o GECC (grupo de estudo do cangaço do Ceará), somos uma grande família. Estes grupos nos proporcionaram o fortalecimento de laços de amizades. Além de proporcionar excelentes espaços para debates. Na SBEC está reunidos grande parte dos maiores e mais dedicados pesquisadores da temática cangaço.
Além dos motivos já  elencados, minha permanecia na SBEC deve-se ao amor e respeito que tenho pela instituição.

GILBERTO: Cite algum pensamento, poema ou reflexão que gostaria de deixar para os nossos leitores antes de suas palavras finais. 

JULIANA SCHIARA:
Não sei se é lenda ou verdade 
meu senhor, falo em meu nome.
A lenda começa sempre
Quando uma história termina.
Por que se a história nos conta
 
Que Virgulino nasceu,
A lenda logo acrescenta
 
Que Lampião não morreu.
Além da história e da lenda,
Existe o sonho do povo
Que entre o que houve e o que não houve
Inventa tudo de novo
Por isso, a lenda é mais certa
 
Do que o sonho e a história
Porque ainda Lampião vive
em tudo quanto é memória...

Salve, salve... salve!

No mais agradeço ao amigo Gilberto pela a oportunidade de falar sobre este tema tão instigante e complexo. Espero ter respondido suas inquietações a contento. Pois apesar de muitos anos de pesquisa, ainda sou uma iniciante, ainda há muito para se saber sobre o cangaço e o nordeste em sua plenitude. Por isso, estarei sempre na condição de aprendiz.

Saudações Cangaceiras.

Juliana Pereira Ischiara
Sócia da SBEC
Conselheira do Cariri Cangaço
Diretora do GECC