segunda-feira, 30 de agosto de 2021

COISAS DO CORAÇÃO - Heraldo Lins

 





COISAS DO CORAÇÃO


Já tive muitas amantes, mas me cansei de perdê-las. Há anos pago pensões alimentícias e isso me fez ficar comportado. Recentemente uma mulher chamou-me a atenção. Deparei-me com ela quando passava pela avenida paulista. Convidei-a e fomos a um restaurante. 


Depois de trocarmos ideias, voltei para casa e me pus a contemplar seu perfil do WhatsApp. Senti então uma certa simpatia por ela. Minhas frustrações antigas cederam lugar a uma estranha euforia, e eu fiquei curioso em saber qual a origem daquela animação toda. Talvez derive do fato de ela ser jovem, linda, inteligente e eu, apenas um quarentão com muita lenha para queimar, pensei. Devo ou não dar prosseguimento à conquista? Por enquanto conversei, educadamente, com uma que cursa relações internacionais, nada além disso. 


À noitinha recebi uma mensagem convidando-me para mais um bate-papo na segunda-feira seguinte no mesmo horário e local. No domingo nem dormi direito. Isso me perturbava. Apesar de ser simpática e atenciosa, ela impunha um certo distanciamento. Por volta das treze horas da segunda-feira nos encontramos como havíamos combinado. Ela estava com uma jaqueta desbotada e os cabelos presos por uma caneta usada na caricatura que fez de mim. São lindas suas covinhas na face e no queixo quando ri. Seus olhos negros penetram-me na alma querendo ler meu passado. Desvio o olhar. Se tivesse liberdade não duvido que iria abraçá-la.  


Nos despedimos com um aperto de mão, porém, seu perfume ficou em mim durante todo o trabalho na redação. Consegui flutuar nas matérias que tinha para revisar, reparando o quão é importante minha profissão. Ela valorizou, riu e disse que já conhecia minha coluna, inclusive, sempre fica ansiosa para ler a próxima crônica. Quer saber tudo da minha vida, deixando-me um pouco sem jeito, e, sem querer, vou falando segredos que só a ela conto. 


Ao chegar em casa clico em várias mensagens de elogio. Escreveu que se sentiu feliz durante o almoço e que queria me ver novamente no dia seguinte. O encontro seria à noite, pois à tarde estaria entrevistando o cônsul da Eslovênia. Remarquei meus compromissos e pela manhã fui à academia dar vazão a tanta inquietude. Cheguei mais cedo ao jornal para estar livre à noite. 


Finalmente nos encontramos no restaurante por volta das vinte e uma horas. Ela trazia sua euforia, seu sorriso natural e muita empolgação para prender minha atenção. Fiquei admirado como uma garota de pouca idade tinha tanta determinação. Ela contava em detalhes a arquitetura do consulado, os trejeitos do entrevistado, contou, também, sobre o chá que lhe serviram. Fiquei escutando aquela menina carismática que me envolvia em sua realidade juvenil. Sentia uma alegria incontrolável em estar ali com ela, usufruindo um amor além da fronteira do carnal. Que sensação misteriosa! Nunca havia sentido isso por alguém. 

_ E você? Ela me perguntou. Como foi seu dia? 

Havia me esquecido. Naquele momento eu não existia. O importante para mim era conhecê-la melhor, saber da sua origem, e foi isso que lhe perguntei. Ela disse que era órfã de mãe, recentemente falecida. Ensinou-lhe que o importante era o conhecimento, por isso cobrava tanta dedicação para com os estudos.

 _ Conheceu seu pai? 

_ Sim, respondeu-me. Quase todos os dias minha mãe me levava para ficarmos escondidas vendo-o passar para o trabalho.

 _Quem é ele? 

_ É você, você é o meu pai...      


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 27/07/2021 – 13:17





GRATIDÃO

 

A CORRENTE DA GRATIDÃO

 

Há tempos planejo escrever algo sobre gratidão. Hoje, ao ser surpreendido por uma mensagem de Heraldo Lins, decidi realizar tal propósito. Eis a mensagem:

"Bom dia, Gilberto,

Li um texto de Cecília Nascimento, publicado em maio de 2015, pelo blog da APOESC, por nome Saindo da Matrix, que fiquei maravilhado.

 Só esse texto já valia todo o trabalho que vc tem em mantê-lo funcionando, acredito eu.

Parabéns a ela pela sabedoria em traduzir seus pensamentos em palavras, e a vc pela persistência em abrir espaço para tantos talentos.

Ganhei o dia...

Quero também registrar a sua habilidade com a pena quando você escreveu agradecendo a João Maria por ele ter adquirido o seu livro. Foi um agradecimento e tanto. Fiquei tb com a mesma sensação de alegria.

Outra pessoa que me deixou feliz, ultimamente, foi Lindonete quando respondeu ao seu agradecimento por tê-lo escolhido para ser patrono vivo.

Um abraço."

- Heraldo Lins

Gostei muito das coisas que ele e entendi que as pessoas citadas sentiriam a mesma alegria caso lessem isso. Enviei o texto para Cecília Nascimento e recebi imediato feedback:

Reação parecida tiveram os outros citados. À semelhança de Heraldo e com ajuda dele, Cecília “ganhou o dia” e desejou voltar a escrever.

Para refletirmos um pouco sobre o tema, recorro ao Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, escrito pelo filósofo ATEU Comte-Sponville. Das 18 virtudes apresentadas, Gratidão é a décima.

Destaco oito trechos:

Para falar-vos de gratidão, recorro à filosofia; destaco alguns excertos sobre o termo de Comte-Sponville, filósofo ATEU, em seu Pequeno Tratado das Grandes Virtudes: 

 

Primeiro: "A gratidão é um mistério, não pelo prazer que temos com ela, mas pelo obstáculo que com ela vencemos. É a mais agradável das virtudes, e o mais virtuoso dos prazeres." 

Segundo: "A gratidão não nos tira nada, ela é dom em troca, mas sem perda e quase sem objeto. A gratidão nada tem a dar, além do prazer de ter recebido."

 Terceiro: "Agradecer é dar; ser grato é dividir. Esse prazer que devo a você não é apenas para mim. Essa alegria é a nossa. Essa felicidade é a nossa."

Quarto: "O que a gratidão dá? Ela dá a si mesma: como um eco de alegria, dizia eu, pelo que ela é amor, pelo que ela é partilha, pelo que ela é dom. É prazer somado ao prazer, felicidade somada à felicidade, gratidão somada à generosidade…"

Quinto: A gratidão é dom, a gratidão é partilha, a gratidão é amor: é uma alegria que acompanha a idéia de sua causa, como diria Spinoza, quando essa causa é a generosidade do outro, ou sua coragem, ou seu amor. Alegria retribuída: amor retribuído.

Sexto: Como não agradecer ao sol por existir? À vida, às flores, aos passarinhos? Nenhuma alegria seria possível para mim sem o resto do universo (pois, sem o resto do universo, eu não existiria). É nisso que toda alegria, mesmo puramente interior ou reflexiva (a acquiescentia in se ipso de Spinoza), tem uma causa externa, que é o universo, Deus ou a natureza: que é tudo.

Sétimo:  "Gratidão não é complacência. Gratidão não é corrupção."

Oitavo: "A gratidão é alegria, repitamos, a gratidão é amor. [...] Alegria somada a alegria: amor somado a amor. A gratidão é nisso o segredo da amizade, não pelo sentimento de uma dívida, pois nada se deve aos amigos, mas por superabundância de alegria comum, de alegria recíproca, de alegria partilhada."


“Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida.” Séneca


 “A gratidão é não apenas a melhor das virtudes, mas a mãe de todas as outras.” Cícero

 

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

VIDRAÇA (Hélio Crisanto)

 


VIDRAÇA (Hélio Crisanto)


A vida é vidraça

Cometa que passa

Deixando a fumaça

No céu do existir.

Um fugaz momento

De choro e alento

Moinho de vento

Prestes a ruir.


Viagem deserta

De partida incerta

Porta entreaberta

Onde passa a dor.

Um misto de espanto

Riso e desencanto

Onde vale tanto

Vivê-la com amor.


A vida é rodagem

Pesada bagagem

Mera hospedagem

Talvez passageira.

Um trem que vem vindo

Chegando e partindo

De portas se abrindo

Em plena ladeira.


Meu amigo Ronaldo, que a sua passagem tão repentina e iluminada sirva de tesouro no reino celestial. Saudade dos amigos. - Hélio Crisanto



AMOR MASTIGADO - Heraldo Lins

 


AMOR MASTIGADO 


Ela caminhava pertinho da água desviando-se das ondas que quebravam diante da sua beleza. Andava distraída, e em um certo momento calculou meu olhar. Mais atrás, em um posto salva-vidas, o homem de camisa vermelha torcia para que ela precisasse de ajuda boca a boca. 


Agradeci à natureza por ter me servido com tão bela paisagem feminina. Nosso maior diálogo foi se olhar de longe, coisa rápida, mas suficiente para despertar, em mim, um horizonte de desejos. 


Ela veio para a toalha. Deitou-se. Sugeria o que eu estava a pensar há muito. Deve ser uma mensagem dissimulada: vir à praia, caminhar, deitar-se e esperar algum convite. Seu biquini é vermelho colorindo a pele branca nas curvas dos vinte anos. Se eu fosse casado com ela não a deixaria vir à praia sozinha, a não ser que ela fizesse questão. Saberia que alguém estaria, como eu, pensando em tomá-la nos braços. Mas se ela quisesse, fincasse o pé, Ah, como eu sofreria. Eu ficaria de longe a lhe observar com minha luneta, decifrando perguntas de gaiatos sobre ajuda e carona. Dias depois ainda discutiríamos como ela se sentiu sendo desejada por desconhecidos. 


Ir à praia não é tão simples assim. Se levar a beleza junta, prepare-se para assédios longínquos. Foi isso o que pensei vendo aquela mulher belíssima ornamentando a paisagem marítima. Talvez esteja precisando de alguém para conversar. Talvez não. Se houvesse menino de recado, eu pagaria a um deles para saber. Ela poderia contratar uns disfarçados de vendedores de amendoins. Sairiam em busca de recados do amor para alimentar sua vaidade. Levariam as mensagens e trariam desilusões. Ah, se eu tivesse o WhatsApp dela! Ficaria lhe elogiando o dia inteiro até ser atendido. Bateria à sua porta com um bom dia, um oi, ou para dizer-lhe que é, simplesmente, linda. 


Mas não disponho. Ergueu-se! Caramba! Eu já estava ficando desatento. Parece que ela sabia disso. Levantou-se na hora certa e foi em direção ao mar. Será que leu minha mente e resolveu me dar uma chance? Possa ser que ela tenha vindo de outra dimensão, e lá se sabe ler mentes, ouvi dizer. O que direi se ela perguntar as horas? Que diacho! Era para estar com um relógio. Isso mesmo! Ela está querendo saber quantos minutos ainda poderá permanecer tomando sol. Por que não pensei em trazer um relógio para a praia? Teria assunto para começo de conversa. Mesmo se ela não quisesse saber eu ofereceria os ponteiros para ela ver. Estaria olhando para meu relógio enquanto eu olhava de perto seu decote erguido, ambos erguidos.  


Mais uma vez, volto minha atenção para a princesa. Estar a entrar na água. Vou ter que ir também. Lá dentro posso sair de fininho, caso receba um não. Ninguém vai saber que fui rejeitado. Pelo menos terei uma chance de me mostrar para ela. Dentro da água posso fingir que estou apenas nadando.


Observo atento ela encurvando-se, exageradamente, para a frente enquanto mergulha. Acho que sabia que eu estava olhando seus atributos. Está se adiantando no mar. Vejo o homem de vermelho com um binóculo torcendo para precisar ir buscá-la. Somos concorrentes. Eu também sei nadar e vou chegar primeiro. Preciso de um momento desses para me tornar seu herói. Trazê-la nos braços, sentir seu calor no meu peito, estirar suas coxas na areia, acompanhá-la para o hospital e, depois de ela recuperada, falar do meu amor à primeira vista. Fico atento para colocar em prática meu plano. Ela está contribuindo para que ele se realize. Vai dar certo. 


Nadou para mais longe. Ali já é bastante profundo, eu conheço esse mar. Estou sem boia. Nem sei se vai dar certo. Fico olhando o bombeiro. Ele está em vantagem. Tem a boia e o preparo para encarar aquele mar revolto. Vejo a princesa levantar a mão. Quer que eu vá, mas é ele que adentra ao oceano. Vai vencendo as ondas com sua prancha e seus quase dois metros de músculos. Eu fico na praia. Não deu para concorrer. Ele vai lhe pedir em casamento depois de salvá-la, tenho quase certeza. Quando ela chegar à terra vai me lançar um olhar de desprezo, e, então, terei memórias frustrantes para remoer nas minhas noites de insônia, o resto da vida. 


As pessoas se aglomeram na praia para ver a façanha daquele herói. Eu estou disperso e triste no meio da multidão. Lamento não ter feito o curso de bombeiro. Seria eu o autor do feito heroico.  Ele a segura pela mão. Está tentando colocá-la na prancha. Os banhistas aplaudem. Dentro de mim aqueles aplausos voltam em forma de vaia. Não consigo aguentar tamanha humilhação. Preparo-me para sair e vejo ele cair na água. Os dois se debatem. Seus braços em rápidos movimentos pedem por ajuda. Não restam dúvidas que precisam de um novo herói. O biquini e a camisa se misturam com a cor da água. Que pena! Não pude salvá-los das orcas assassinas. 


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Santa Cruz/RN, 21/08/2021 – 10:29



terça-feira, 24 de agosto de 2021

A HISTÓRIA DE SANTA CRUZ EM CORDEL - João Maria de Medeiros

 



Publicado em 2008, reeditado em 2021

APRESENTAÇÃO (Gilberto Cardoso - Poeta, cordelista e cronista

 

Eu apresento a vocês

em forma de poesia

o cordel de João Maria

- professor de português.

O bom cordel que ele fez

fala de nossa cidade

com muita fidelidade

quanto aos acontecimentos

por isso meus cumprimentos

seu cordel tem qualidade.

 

Certamente ao estudante

há de ser de utilidade

Um cordel sobre a cidade

me parece interessante.

Sua ideia foi brilhante

ao escolher tal temática

de maneira muito prática

a história se desfia

em forma de poesia

facilitando à didática.

 

João Maria é professor

além disso ele é cronista

Pra se tornar cordelista

teve Acaci por mentor

Dedicou-se com ardor

a falar de nossa história

nem sempre cheia de glória

mas digna de se contar

para nos direcionar

rumo a melhor trajetória.

 

A HISTÓRIA DE SANTA CRUZ EM CORDEL 

Autor: João Maria de Medeiros 

1

Com licença, meus amigos

Para mostrar meu cordel!

Pra falar de Santa Cruz

Procurarei ser fiel

Depois de longo estudo

Ponho aqui neste papel.

Pra começo de história

Aqui já havia gente

Antes da colonização

Havia um bom contingente

Eram os índios Tapuias

Um povo forte e valente

 3

E com o passar do tempo

A colônia avançando

Todo o esforço dos índios

Ia por terra ficando

Só restou àquele povo

Seu domínio entregando.

Em mil novecentos e trinta

Digo aqui com precisão

José Rodrigues da Silva

Começa a povoação

Alia-se a João da Rocha

E a Lourenço seu irmão.

O povo aglomerou-se

E o povoado aumentando

O seu nome foi mudado

Conforme o tempo passando

De Santa Rita a Santa Cruz

Do Inharé foi mudando.

Existe uma antiga lenda

Que o povo acreditava

Se quebrasse o inharé

A fonte d'água secava

Surgia uma assombração

Todo animal atacava. 

Um santo missionário

Lembrou de fazer uma cruz

Dos ramos do inharé

Ele teve essa luz

Os malefícios cessaram

É isso o que se deduz.

Santa Cruz do Inharé

Por isso ficou chamado

Se não fosse aquela cruz

O mal não tinha passado

O bem superou o mal

Naquele tempo passado.

No ano de trinta e cinco (1835)

Instalou-se a freguesia

Com a Matriz de Santa Rita

Buscou-se a autonomia

O povo todo alegrou-se

Era tudo o que queria.

10 

A luta foi muito grande

Pra mudar de povoado

Pra isso teve a ação

Do Senhor Ivo Furtado

E padre Antônio Rafael

Um sacerdote honrado.

11 

Não se pode sequecer

Dois homens de valentia

Félix Antônio de Medeiros

E Trajano de Faria

Dois bons fazendeiros

Daquela ainda freguesia.

12 

Dia 11 de dezembro

Santa Cruz foi desmembrada

Era setenta e seis (1876)

E consegue ser desligada

De São José de Mipibu

E ficou emancipada.

13 

No ano setenta e sete (1877)

Não nos trouxe muita sorte

A seca foi muito grande

A chuva não veio ao Norte

Foi um período dificil

Causando fome e morte.

14  

Chegando o ano quatorze (1914)

Uma lei é aprovada

Era trinta de novembro

Uma data comemorada

De Vila para cidade

Santa Cruz é elevada.

15 

Como em todo Nordeste

Aqui tinha um coronel

Que nasceu em Araruna

Seu nome era Ezequiel

Um homem de trato fino

E sempre muito fiel.

16 

O Coronel Ezequiel

Um coronel diferente

Conciliador e paterno

Para toda sua gente

Do trato bom se detinha

Homem muito diligente.

17 

Seu filho Gentil Ferreira

Foi Prefeito de Natal

O Senador José Ferreira

Foi destaque nacional

E Odorico de Souza

Bom gestor Municipal.

18 

Dentre os fatos marcantes

Que não deixarei de lado

O padre Manuel Gadelha

Apoiou o discriminado,

Acolheu as prostitutas

E acabou denunciado.

19 

Uma dose de veneno

Ele mesmo preparou

No dia nove de outubro

O próprio Padre tomou

No ano de vinte e seis (1926)

Um suicídio praticou.

20 

O suicídio do padre

Nunca ficou explicado

Para algumas pessoas

Ele tinha se apaixonado

Mas há outra corrente

Que ele foi pressionado.

21 

Seu Theodorico Bezerra

Foi líder na região

Tudo se tornava ouro

Onde colocava a mão

Com um grupo organizado

Não perdia uma eleição.

22 

Sob a sua indicação

Elegeu vários prefeitos

Durante alguns mandatos

Nem sempre foram perfeitos

Assim mesmo o Major

Deixava todos satisfeitos.

23 

Um outro bom cidadão

Sempre muito respeitado

Era seu Miguel Farias

Muito calmo e educado

O carinho e o diálogo

Dele será bem lembrado.

24 

Antes da construção

Da nossa Maternidade

Aqui havia três parteiras

Na nossa comunidade

Menininha e Moacir

São exemplos de bondade.

25

Completando essa tríade

Um exemplo de devoção

Que tendia a todos bem

Com muita dedicação

Junto com o seu marido

Era Chiquinha Dadão.

26  

Quando o povo precisava

Remédio de eficácia,

Pois o xarope caseiro

Era uma grande falácia

Muita gente  procurava

Sebastião da Farmácia. 

 27

Muitos cidadãos daqui

Não devem ser esquecidos

De Fugão a Mané Fava,

Alice com seus pedidos,

Amado Batista e Mano

Do povo sempre queridos.

28 

Por todo esse período

A poesia chega aos lares

Com Gastão, Antônio Borges,

Letácio e Adonias Soares

Estes até já morreram

Às famílias meus pesares.

29 

Durante a repressão

Do Regime Militar

Um nosso concidadão

Dele não pode escapar

Se chama Maurício Anísio

Um cidadão exemplar. 

30 

Maurício hoje é um símbolo

Que deve ser respeitado,

Ele pagou alto preço

Por não ter se acomodado,

Enfrentou a Ditadura

E por ela foi torturado.

 31 

Hoje o Brasil está livre

Do  regime opressor

Muitos deram suas vidas

Sem direito a uma flor

Outros desaparecidos

As famílias sentem a dor.

32 

O mito da educação

Em Santa Cruz é Ribeiro

Nunca em cima do muro 

Declarava-se primeiro

Grande comunicador

Do rádio nosso timoneiro.

33 

Ribeiro sabia muito

Sua opinião era forte

Dominava todo tema

Línguas, política, esporte

Cumpriu bem tudo o que fez

Pena que lhe veio a morte.

34 

Um dos fatos importantes

Que veio a acontecer

Foi a energia elétrica

Que Santa Cruz passa a ter

A João Goulart e Aluízio

O povo quis agradecer.

35 

Santa Cruz foi a primeira

A receber neste Estado

Vindo lá de Paulo Afonso

A ficar eletrificado

Era sessenta e três (1963)

Dois de abril inaugurado.

37 

Por aqui também passou

Um pacifista do mundo

Um homem sacramentado

Chamado Padre Raimundo

Cumpriu com o seu dever

Sério, reto e profundo.

38 

E na luta pela água

Da Lagoa de Bonfim

Vendo a coisa demorada

O padre disse assim:

“Adutora não, voto não.

Adutora sim, voto sim”.

39 

No ano oitenta e um (1981)

O lugar foi arrasado

Causando grande aflição

Principalmente do lado

Da ponte do Paraíso

Levando todo o Mercado.

40 

Uma enchente medonha

Causou o desabamento

Foi lá em Campo Redondo

Que caiu chuva com vento

Desceu com aquele açude

Demorado sofrimento.

41 

Mais um fato importante

Merece ser relembrado

Foi a chegada da água

De Bonfim daquele lado

O povo deste lugar

Estava necessitado.

42 

O Governo Garibaldi

Botou o plano em ação

O Prefeito Dr. Cabral

Exerceu boa pressão

E Monsenhor Expedito

Grande mobilização.

43 

Não podemos ser injustos

E não mostrar a coragem

De um homem lutador

E que tem grande bagagem

Formando opinião

Levando sua mensagem.

44 

Junto com o Monsenhor

Fez a coisa acontecer

Mobilizou toda gente

Pra aquela água trazer

O grande  Hugo Tavares

A quem quero agradecer.

45 

Ainda me lembro o dia

Que isso aconteceu

Era trinta de setembro

Em Noventa e oito se deu (1998)

A água chega à cidade

Grande festa ocorreu.

46 

Lugar bom pra se viver

E área de transição

Entre o sertão e o mar

Já foi terra de algodão

Temos na agropecuária

Hoje nossa ocupação.

47 

É vizinho de Japi

De São Bento bem pertinho

Divisa com Sítio Novo

E Tangará no caminho

De Natal a capital

Terra que tenho carinho.

48 

Não podemos esquecer

Outras cidades decentes

Coronel e Jaçanã

Situados mais a frente

Campo Redondo e Lajes

Terras de povo contente.

49 

A feira de Santa Cruz

A maior da região

Há tudo que se procura

Na feira não falta pão,

Verduras, frutas, farinha

E lugar de diversão.

50 

Depois de falar da feira

Falaremos de cultura,

Pois havendo incentivo

Haverá desenvoltura

Nossos artistas locais

Fazendo cultura pura.

51 

Existe aqui cantadores

E artistas de verdade

Grupos de capoeiristas

E bois-de-reis na cidade

A poesia aqui tem vez

É de muita qualidade.

52 

Aqui a nossa homenagem

A dois Antônios especiais

Seu Antônio da Ladeira

O boi-de-reis ele faz

E a seu Antônio Borges

Que da poesia é às.

53 

Ao grande José Antônio

Que é um bom cantador

Aqui nossos cumprimentos

Por demonstrar o valor

Da poesia popular

Que ele é defensor.

54 

Outros grandes escritores

Merecem ser bem lembrados

Hélio Crisanto e Marcos

Cavalcanti são falados

Zé da Luz e Maroquinha

São Poetas respeitados.

55 

Outro grande expoente

Da cultura popular

É Gilberto Cardoso

Que veio a despontar

Dentro da Literatura

Em todo solo potiguar.

56 

Quero aqui encerrar

Este primeiro cordel

Pra falar de Santa Cruz

Agradeço a Deus do céu

Que me deu inspiração

Pra cumprir este papel.



João Maria de Medeiros é cronista, poeta cordelista e educador.


















TERMINA EM CASAMENTO- Heraldo Lins

 


TERMINA EM CASAMENTO


Não sei por que doenças existem. Seria menos mal se aparecessem para serem descontadas somente nos dias restantes de vida. Depois de feitas as contas, igual a um vampiro ao sol, desapareceríamos esfumaçados. Mas não! Começa uma tosse, hospitais... é verdadeiramente um corre-corre permanente. Só pode ser a morte mandando mensagens do WhatsApp dela. Eu não tenho o número, mas acho que ela tem o de todo mundo: as dores nos dedos são os bons-dias; dor de cabeça são Emojis. Hoje pela manhã ela me enviou um fake: achei que fosse gases, veio diarreia.

 

Quem tem a capacidade de sentir dor nunca está sozinho. Para tirar isso a limpo é só bater a cabeça na parede para certificar-se que a morte está sempre por perto. Nascemos, e a partir daí, vivemos um romance sem chances de separação.

 

Alguns preferem a velha com uma foice na mão, outros, uma bela mulher, sim, porque a morte se disfarça tentando conseguir um casamento. O segredo é desconfiar até de um cachorro-quente. A sinistra avisa que está disfarçada de salgadinhos quando, em vez da pista de dança, corremos para o sanitário durante uma festa.


Mas não adianta brigas, revoltas ou aborrecimentos. O importante é manter o diálogo. Quem me flagrava conversando sozinho nem sabia, inclusive eu, que era ela a minha interlocutora. Ela ficava fazendo planos para que eu fosse desportista radical. Queria se ver livre de mim, e o quanto antes isso acontecesse, ficaria sem o trabalhão de me seguir.


Agora, cada vez que minhas pernas doem pergunto-lhe o que está fazendo de cócoras mordendo meu joelho. Logo cedo começa a esmurrar meu estômago me forçando a comer. Sei que o único jeito de bloquear suas mensagens é casando-me com ela, mas, por enquanto, nada de compromisso sério.            



Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 21/06/2021 – 09:25



domingo, 22 de agosto de 2021

TINHA MUITO MAIS BELEZA NO FORRÓ DE ANTIGAMENTE (Gilberto Cardoso dos Santos)

  


TINHA MUITO MAIS BELEZA NO FORRÓ DE ANTIGAMENTE

(Gilberto Cardoso dos Santos)

"Tinha muito mais beleza / no São João de antigamente." Wellington Vicente


Quando Wesley Safadão
Ainda não era safado
O forró que era escutado
Era digno de atenção
Se ouvia o rei do baião
Com sua voz estridente
A malícia inteligente
E cheia de sutileza
Tinha muito mais beleza
No forró de antigamente.

Em uma casa de show
Com nome de Gonzagão
Se vê a deformação
Daquilo que ele cantou
O forró se esvaziou
Restou barulho somente
Música contraproducente
Assumiu a realeza
Tinha muito mais beleza
No forró de antigamente.

Eu também sou saudosista
Gosto da simplicidade
Sinto que a modernidade
Nem sempre o melhor conquista
Num mundo capitalista
O dinheiro é posto à frente
Manipulam claramente
Lucram com a esperteza
Tinha muito mais beleza
No forró de antigamente.

Para substituir
Um forró que era tão bom
Põem paredões de som
Feitos para competir
O desejo é descobrir
Quem tem o som mais potente
As “novinhas” facilmente
Cedem lugar à lerdeza
Tinha muito mais beleza
No forró de antigamente.

Em rádio e televisão
O que hoje a gente vê
É bará bará berê
E outras letras sem noção
frases de baixo calão
que poluem o ambiente
conteúdo incoerente
que só nos causa estranheza
Tinha muito mais beleza
No forró de antigamente.








sexta-feira, 20 de agosto de 2021

A TURMA DO BARULHO - Heraldo Lins

 


A TURMA DO BARULHO


Acordei-me com os gritos das palavras querendo vir para a folha. Pulavam do lado de fora me roubando o sono. Fiquei indeciso. Elas resolveram me capturar e disseram que eu só voltaria a dormir se fizesse o que elas queriam. Eram quatro horas da manhã de um domingo qualquer. _ O que querem? Perguntei-lhes. Elas disseram que gostariam que fossem usadas com mais respeito, e que cada vez que eu as depositassem numa frase, as escolhessem, também, pelas suas sonoridades. _Tudo bem! Concordei. 


A primeira a ser atendida foi a VIDA. Falou, falou e não disse nada. Eu já sabia dos seus significados e nem levei em consideração os sons ouvidos. Quando ela notou que eu estava desprezando-a, apresentou sua filha, a morte. Eu então fui logo fazendo o procedimento. Sua primeira sílaba representa o olhar de quem vê: VÍ... a segunda de quem se dispõe a ajudar: DÁ... Saíram satisfeitas e escapei por pouco.  


A segunda palavra foi sono. _ Ah, é de você que preciso, disse-lhe. Eu quis saber por que ela não está cumprindo com seu papel nas minhas madrugas. Ela disse que seu departamento era somente existir. Se eu quisesse inseri-la mais tempo nos meus olhos, falasse com o departamento de cotas. É lá que se define a quantidade por dia para cada vivente. Ela estava ali para ser analisada foneticamente. Eu disse que sua sonorização não é a das mais interessantes. O primeiro som corresponde a algo que se presta à individualidade. Quem está dormindo está SÓ, com cara de SON. A segunda divisão representa as amarras dos pesadelos. Vem daí sua vocação para roubar o N do NÓ para ficar posando de SON. Ela não entendeu bem, mas foi empurrada pela fila que andava. 


As outras palavras vibraram. Foi esta a próxima que entrou no meu consultório. VIBRARAM vinha vibrando. Parecia que havia um terremoto em andamento. Era tanta vibração em VIBRARAM que tapei os ouvidos. O encontro consonantal rasgava meus tímpanos. Essa cumpriu com seu papel e logo saiu do jeito que entrou: vibrando.

 

Em seguida chegou o nome FEIRA com um balaio a tiracolo. Sua sonoridade era perturbadora, disse-lhe. Ninguém pode ouvi-la sem pensar no burburinho que ela significa. Disse-lhe que precisava segurar o R para não se tornar FEIA. Mesmo não sendo muito apreciável esteticamente, o que segurava sua superioridade em comparação com a FEIA era esse R que ela não dava muita importância. Ela chorou por nunca ter percebido o quanto estava prestes a ser rebaixada na vida social que levava. Achava-se linda e agora com a iminência de se tornar feia, só terapia para lhe salvar. 


Eu já estava ficando cansado de tantas outras palavras que chegavam para análise. Foi então que me veio a ideia de requisitar CAM BU RÃO. Com a sirene ligada ela espantou as demais palavras delinquentes que estavam ali somente para tumultuar. Consegui relaxar e aí foi fácil: juntei o DOR com o MIR, e me enrolei com o LEN e o ÇOL. 



Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 08/08/2021




A CORAJOSA - Poeta Daxinha

 


A CORAJOSA


I

Peço atenção dos senhores

Para narrar este fato

Falar de uma senhora

Que correu dentro do mato

Meia légua de carreira

Com uma foice roçadeira

A fim de matar um gato.

II

Era um gato vermelho

Da raça maracajá

Que vinha fazendo estragos

Nos terreiros do Jucá

Peru, galinha ou guiné

Que ele botasse o pé

Não conseguia escapar.

III

O tamanho desse gato

Causava admiração

A cabeça muito grande

O rabo arrastava no chão

Que visse ele tremia

Porque só se parecia

Com um filhote de leão.

IV

Aqui nesta região

Ele se tornou freguês

Ninguém pode avaliar

Os estragos que ele fez

Numa continha que fiz

Só das galinhas de Assis

Ele pegou dezesseis.

V

Todo bicho respeitava

A faxina de Daxinha

O gatão pulou por cima

E agarrou uma galinha

Pulo pra trás novamente

Com a bichinha no dente

A mais bonita que eu tinha.

VI

No terreiro de Ione

Ele deu um grande abalo

Só pegava no pescoço

Chega se ouvia o estalo

Por incrível que pareça

De uma doze cabeças

Agora só resta o galo.

VII

Foi nas galinhas de Lila

Desceu pra João Xavier

E lá em Manuel de Lila

Devorou até guiné

Chegou em dona Geralda

Deixou galinha de fralda

Nas barbas de jacaré.

VIII

Dedé fez uma tocaia

De clavinote na mão

O gatão desconfiou

Seguiu noutra direção

Falou, ao chegar do mato:

Quem vai matar este gato

São os filhos de Capitão!

IX

Foram chamar os meninos

A tocaia foi formada

Capitão veio também

Que é prático em emboscada

Nenhum avistou o gato

Voltaram tristes do mato

Porque perderam a caçada.

X

Assim, emprejuizado,

Foi à casa de Dedé

Disse: quero a espingarda

De dois canos eu tenho fé

Viu o gato logo cedo

Mas quando puxou o dedo

Só fez quebrar catolé.

XI

Ficou muito chateado

Lamentando o que se deu

E disse: esse caningado

Não come mais o que é meu

Pegou um resto que tinha

De pinto, frango e galinha

Levou pra feira e vendeu.

XII

Esse gato transformou-se

Num verdadeiro terror

Dando um grande prejuízo

Nas criações do setor

Mas o ditado não passa:

Que tem o dia da caça

E o dia do caçador.

XIII

Um dia, dona Geralda,

Escutou uma zoada

Deu de garra numa foice

E entrou na mata fechada

Viu o gato em sua frente

Rosnando e mostrando os dentes

Ficou toda arrepiada!

XIV

Ela chamou o cachorro

O gato se escapuliu

Jacaré pegou o rastro

Com pouco tempo latiu

E a velha ali na costela

Mas o gato avançou nela

Que até a foice caiu.

XV

Ela pegou um porrete

Com coragem e muita fé

O gato correu de novo

Ela gritou: Jacaré!

Com tanta disposição

Que o gato tirava a mão

E a velha botava o pé.

XVI

Quanto mais ela corria

Aumentava sua ira

Com o rosto todo arranhado

A roupa só tinha tira

Não respeitou pau-a-pique

Touceira de xique-xique

Palmatória e macambira.

XVII

O gato viu-se apertado

Parou e ficou em pé

Partia para o cachorro

E a velha com muita fé

Avançou com um porrete

E dizia: tome cacete!

E pegue o bicho, Jacaré!

XVIII

Com meia hora de luta

O gatão esmoreceu

Jacaré criou coragem

Com os gritos que a velha deu

Agarrou-se no gogó

Com uma mordida só

Caiu no chão e morreu.

XIX

Ela arrastou este gato

O sol quente como brasa

Subindo e descendo serra

Coitada, quase se arrasa!

Foi grande a sua agonia

Gastou quase meio dia

Pra poder chegar em casa.

XX

Tiraram o couro do gato

Dedé foi quem espichou

Como não tinha medida

Uma base se tirou

Seu Severino é quem diz

Era menor do que Zé Luiz

E maior do que João Arnô.

XXI

Aqui termino a história

Não pensem que foi boato

Também não fiquem zombando

Se não vão pagar o pato

Acredite quem quiser

Mas não brinquem com esta mulher

Pra não morrer como o gato!

XXII

Eita, que mulher disposta!

Isso é que é mulher valente!

Mulher que entra na mata

Luta e vence uma serpente

Eu faço até promessa

Pra nunca ver uma dessa

Com raiva na minha frente!


Autor: JOSELITO FONSECA DE MACEDO, vulgo DAXINHA.

JOSELITO FONSECA DE MACEDO, mais conhecido como poeta Daxinha, nasceu em Cuité/PB, em 14/08/1938. Filho de José Adelino de Macedo e Maria Marieta da Fonseca, nasceu na zona rural de Cuité, mais precisamente no Sítio Boa Vista do Cais, popularmente conhecido como Sítio Pelado. Aos 20 anos, viajou para os estados de Minas Gerais e Goiás, onde trabalhou como agricultor e vaqueiro. Mas foi no estado de São Paulo que se fixou, trabalhando como metalúrgico nas principais usinas siderúrgicas da região do ABC paulista. Retorna à Paraíba em 1985, retomando suas funções de agricultor. Sempre gostou de poesia, sobretudo, do gênero cordel no qual, ainda menino, já escrevia seus primeiros versos. O retorno a Cuité aproximou-o ainda mais de suas raízes, fazendo-o mergulhar com mais fervor no mundo da poesia. Sempre convidado a se apresentar em eventos culturais da cidade, seus versos focavam, principalmente, no cotidiano das pessoas simples – como ele mesmo o era. Tem como obras publicadas um CD de poesias intitulado: “Poeta Daxinha – Um Amante da Poesia”, o cordel “O batente de pau do casarão” e uma participação póstuma no livro “APOESC em Prosa e Verso”, do também poeta Gilberto Cardoso dos Santos. Casado, pai, avô e bisavô, o poeta Daxinha faleceu em 04/05/2016, em Campina Grande/PB, vítima de insuficiência cardiorrespiratória. (Jaci Azevedo, filha)