APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

POEMA DE VALDENIDES CABRAL



O POETA


Valdenides Cabral


Apaixonado por sombras e azuis,

o poeta procura o esplendor

da palavra

mistério.

Sonha mulheres, homens, sábios,

amantes.

Dentro das palavras

sonha o amor

que deslumbra, acalma,

a carícia

onde encontra o mel

pelos cantos escuros da alma.


No meio da folha

deita o coração

e o amor sobrevoa

ora é pássaro

ora flor despetalada.

Às vezes, sussurro

leve tremor de corpo

e dor.




domingo, 28 de junho de 2020

MINHA MAIOR DECEPÇÃO - Nelson Almeida


MINHA MAIOR DECEPÇÃO

Depois de tanto lutar
De renunciar
De aceitar sofrer por nós
Custa-me caro a crer
Que acreditei em você
Que deixei meu cheiro em teus lençóis

É impossível saber
          quando o amor vai bater
          na porta do coração
Mas foi difícil para mim
saber por outra mulher
da tua traição

Você me tratou com desprezo
Não admitiu seu erro
Ainda mentiu no final
Mas sou mulher, sou guerreira, afinal
Não me entrego à solidão
Farei de mim fortaleza
         e nela escreverei em pedra:
foste minha maior decepção

Nelson Almeida
Natal, 27 de junho de 2020
08h23min

quinta-feira, 25 de junho de 2020

SAMBA E POESIA - Nelson Almeida


SAMBA E POESIA

Nessa vida passageira
A parceira solidão
fez morada, pôs esteira
dentro do meu barracão
Quando o samba desce o morro
ressoa na imensidão
Sua poesia rompe os grilhões da escravidão
Um violão lá no alto toca lágrimas de dor
para mostrar a todo mundo
que o meu samba é de cor.

Nelson Almeida
Natal, 25 de junho de 2020
00h10min

sexta-feira, 19 de junho de 2020

DO PAPEL PARA O E-INK - Teixeirinha Alves



DO PAPEL PARA O E-INK

          Meu vício em leitura (pensei em usar o termo "paixão", mas é melhor ser verdadeiro) começou na infância, lendo os heróis da Marvel, o Western Tex (eu era mesmo americanizado) e a Turma da Mônica, de Maurício de Sousa (eu também era brasileirizado). No Colegial, passei às grandes obras de notáveis escritores (Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Eça de Queirós...), embora, à época, eu não tivesse muita condição de acompanhá-los direito; mas eu tentava!
          Eram sempre textos impressos, claro, pois os livros digitais demorariam ainda algumas décadas para chegar.
         Eu gostava de tocar, folhear, dobrar...enfim, sentir de modo tátil o portador material de cada texto lido. Os livros de capa dura com bordas desenhadas em arabesco eram “um luxo” (e eram caros!).
Para manter meu vício, nunca imaginei que um dia trocaria, satisfeito, a tinta de impressão, física, pelos bits numa tela luminosa, ou, melhor ainda, pelo e-ink (tinta digital), utilizado no leitor eletrônico de livros (e-reader) que uso atualmente. Essa mudança foi meu divórcio dos textos impressos, em favor de um novo romance: os e-books (livros digitais).
Leio e-books de modo mais ágil e “produtivo” (sem perder cada detalhe do texto) do que lia os livros em papel. A praticidade ao “folhear” as páginas, a facilidade de destacar trechos - e fazer anotações - e a rapidez com que acesso o dicionário (e a própria internet, uma vez que os e-readers têm essa possibilidade) me permitem usufruir melhor das obras (os amantes dos livros impressos devem estar torcendo o nariz), levando-me a uma grande e satisfatória fruição literária.
É óbvio que os livros impressos têm seu valor (e respeito muito as pessoas que os defendem), uma vez que, desde a criação da tipografia por Johannes Gutemberg (Séc. XV), eles foram (são) fontes primordiais dos saberes transmitidos às novas gerações. No entanto, prefiro deixá-los, fisicamente, embelezando as estantes das bibliotecas públicas e particulares, e carregá-los, digitalmente, no meu pequeno aparelho de 150 gramas. Gosto não se discute!



quarta-feira, 17 de junho de 2020

LIBERDADE SEM LIMITES - Padre Zezinho SJC

Em 1985, celebrado pela Igreja Catolica como Ano Internacional da Juventude, Padre Zezinho SJC lançou o álbum de narrações Sinal dos Tempos, veiculado apenas em fita-cassete. Sempre gostei de praticamente tudo que repetidas vezes ouvi naquela fita. Eram pequenas homilias poético filosóficas destinadas aos jovens, consonantes com as ideias do Papa João Paulo II.  Em especial, apaixonei-me pela faixa Liberdade sem limites. Por tanto apreciar este monólogo, acabei transcrevendo-o. Publico-o, na esperança de que seja agradável a todos como o foi para mim. - Gilberto Cardoso dos Santos


LIBERDADE SEM LIMITES (autor: Padre Zezinho)

O homem que quer ser feliz

que quer ser feliz a qualquer preço
não sabe o preço da felicidade
não sabe o preço da felicidade

aquele que pensa que é livre
só porque faz aquilo que quer
faz o que quer mas não tem liberdade
faz o que quer mas não tem liberdade*

Permaneço livre enquanto fiel a minha escolha, consigo pesar os prós e os contras de toda e qualquer decisão e concluir de maneira serena que não machuque nem sacrifique pessoas inocentes. Toda vez que escolho a mim mesmo, em detrimento das pessoas que eu amo ou que de meu amor dependem, deixo de ser livre. 

Preciso entender uma coisa sobre a liberdade: ela não é o direito de fazer tudo que quero, nem de ir aonde desejo, mas sim o direito de tentar de tudo isso sem sacrificar os que estejam no meu caminho. Sou livre quando atravesso a rua, não no momento em que quero e sim quando não há perigo nem para mim nem para o outro. 

Sou livre, quando eu entendo que o limite me faz bem porque faz bem ao outro. Sou livre, quando paro no sinal vermelho por mais pressa que tenha, a fim de que o outro que está de sinal verde possa passar primeiro. A liberdade é um bem infinito, mas não é um bem absoluto. Ela nunca deve acabar, mas se quiser continuar Liberdade, precisa aceitar limites. O vermelho que me segura é também a segurança daquele para quem o sinal é verde; e ele só poderá sentir-se livre se puder acreditar que eu aceitarei os limites do meu sinal vermelho. Quando o sinal me abrir passagem, só me sentirei livre  se souber que o outro obedecerá os limites do vermelho que agora o retém. 

Ninguém é livre para si mesmo. Se não existir o outro para quem e por quem eu me liberto, não vai adiantar a minha liberdade. pouquíssimos homens no mundo aguentariam voluntariamente uma vida como a de Robinson Crusoé. Perder-se numa ilha e aprender a ser feliz, é uma coisa; fugir para uma ilha para evitar as pessoas, é outra coisa. Sou muito mais livre quando aprendo a viver em meio aos outros. Perdoando e sendo perdoado; amando e sendo amado... do que quando me isolo de tudo e de todos. 

Quem sabe o homem verdadeiramente seja exatamente aquele que aceita os limites da vida. Não é a grade, nem são as paredes nem os blocos de pedra que me tiram a liberdade. O que me torna prisioneiro é a falta de uma chave. Por maior que seja o muro e por mais pesada que seja a porta, o homem que tem a chave é sempre um homem livre. Basta saber usá-la na hora e no momento certo. Muitos prisioneiros do mundo foram trancados por alguém de fora, mas um grande número trancou-se a si mesmo e a grande maioria não sabe onde pôs a chave.

felicidade é um dom
mas é preciso que a gente o mereça
que não basta ter um coração
o que é preciso é também ter cabeça

aquele que pensa que é bom
que pensa que é bom e não tem defeito
não sabe o quanto está longe de Deus
não sabe o quanto está longe de Deus

aquele que pensa ser mais
que pensa ser mais que seu semelhante
volta pra casa mais sujo que antes
volta pra casa mais sujo que antes

felicidade é um dom
mas é preciso que a gente o mereça
que não basta ter um coração
o que é preciso é também ter cabeça.

Resultados da pesquisa

Resultados da pesquisa

Resultados da WebO Homem Que Quer Ser Feliz - Padre Zezinho 


Resultados da pesquisa

Resultados da WO Homem Que Quer Ser Feliz - Padre Zezinho 


BELOS VERSOS SOBRE RACISMO


NEGRO É SEU PRECONCEITO
Adriano Bezerra


Ao ver o negro marcado
Pela mão do preconceito,
Agredido e humilhado
Sem o mínimo de respeito
Me encho de desenganos
Com esses seres humanos
Sem um pingo de valor
Seres de mentes minguantes
Que julgam seus semelhantes
Pelo tom de sua cor.



Me responda, por favor!
Em quê, o negro é pior?
Por acaso o tom da cor
Faz o branco ser melhor?
No peito seus batimentos
Pulsa os mesmos sentimentos
Nem um e nem outro é mais.
Negro ou branco, no entanto,
Podem amar do mesmo tanto
Ou odiar, tudo iguais.



Se há brancos geniais,
Sucedidos, competentes...
Há negros tão bons ou mais
Em nada são diferentes.
Se não há o que revele
Que a cor que tem a pele
Difere qualquer sujeito
O caso está encerrado
Pois fica mais que provado
Que negro, é seu preconceito.



Adriano Bezerra
Santa Cruz-RN

CONSELHOS PRA TODA VIDA (Maciel Souza)



CONSELHOS PRA TODA VIDA
(Maciel Souza)

Fique forte para a guerra
Jamais seja um coitadinho 
Seja humilde quando erra
Refazendo o seu caminho 
Tente ser organizado 
Reveja o plano traçado 
Nunca perca a autoestima 
Priorize o seu estudo
Faça dele seu escudo 
Na luta parta pra cima.

Se um momento é amargo
Um outro deve ser doce
Entenda que o mundo é largo
Não viva como se fosse
Plantado num só lugar 
Ou que se deixa levar
Por outros sendo guiado
Tenha seu ponto de vista
Seja sim protagonista 
Do seu caminho traçado 

Não queira viver à toa
Só vendo a banda passar
Ou só conversando loa
Como dizem conversar 
Vida tem que ter projeto 
O caminho não é reto
Por isso muito encanta
Prove assim que está vivo
Foque em seu objetivo 
Se cair depois levanta.

terça-feira, 16 de junho de 2020

VERSOS SOBRE JUNHO DE 2020


  

MÊS DE JUNHO DIFERENTE
Adriano Bezerra

Chegou Junho, mês de festa
De São Pedro e São João,
Da quadrilha improvisada
Com bastante animação,
Do "forrozin" pé de serra,
Do sertanejo da terra
Colher sua plantação.

Do estrondo do foguetão
Em nome dos padroeiros
Mês também de Santo Antônio
Socorredor dos solteiros.
Tempo de acender fogueira
E passar a noite inteira
Festejando nos terreiros.

Dos mergulhos nos barreiros
Logo depois da sangria,
Das brincadeiras nas águas
No pingo do meio dia,
De se consagrar compadres,
Afilhados e comadres
Perante a cruz que alumia.

Mas com essa pandemia,
Mês de junho, tristemente,
Esse ano tomará
Um rumo bem diferente
Não terá festas, nem brasas.
Todo mundo em suas casas
Pra festejar mais pra frente.

Adriano Bezerra
 

Guerra e Paz: a mais extraordinária e encantadora obra já escrita (Teixeirinha Alves)




GUERRA E PAZ: O LIVRO

            Depois de um longo período sem publicar neste blog (durante o qual me mantive apenas como leitor), volto hoje com algumas simples linhas sobre uma obra literária que, para mim, é a mais extraordinária e encantadora já escrita: Guerra e Paz, de Liev Tolstói.
            Não tenho como esquecer, no início dos anos 1990, o querido amigo José Alberto (Bucka) com aquele volumoso livro embaixo do braço. Um calhamaço belíssimo, de capa dura, emprestado da Biblioteca Pública de Santa Cruz. O brilho no olhar dele ao falar do livro me motivou a lê-lo logo após sua devolução àquela biblioteca.
            O enredo trata de um dos mais importantes e trágicos acontecimentos da História da Humanidade: a invasão das tropas de Napoleão Bonaparte à Rússia no início do Século XIX.
            Com dezenas e dezenas de personagens magistrais (destaquem-se aqui Natasha Rostov e Pierre Bezukhov; aquela, um modelo clássico de heroína literária, tendo o amor e a força feminina como suas principais características; este, um homem afortunado, levado à Nobreza Russa por uma rica herança, mas que se manteve de alma leve, simples e pura, buscando humildemente aprender com cada episódio de sua existência), Guerra e Paz nos envolve nas dores dos conflitos bélicos minuciosamente relatados (conflitos estes sem sentido e impostos de forma absurda a milhões de seres humanos, segundo o genial Tolstói), e na mediocridade, maledicência e angústia de uma aristocracia focada, em sua maioria, em se manter na “crista da onda social”, flanando em seus luxuosos salões, enquanto tantos soldados perdiam a vida nos campos de batalha.
            Do início dos anos 1990 para cá, já li a obra umas quatro vezes, pois, como todo livro superior, ele nunca se esgota, e sempre “colhemos” algo novo a cada releitura.
            Apesar de suas milhares e milhares de páginas (impresso, ele se divide em dois grandes tomos), Guerra e Paz é lido “rapidamente”, dados o interesse e o envolvimento que nos tomam durante a imersão em suas múltiplas histórias/estórias.
            Tudo o que eu aqui disser será nada diante da própria obra, que merece ser lida e relida ao longo da vida de cada um de nós.
            Por fim, ficam aqui meus agradecimentos ao amigo Gilberto Cardoso, que novamente me “abre as portas” do Blog da Apoesc. Voltarei a ser frequente! Abraços em todos os leitores!

Teixeirinha Alves





sábado, 13 de junho de 2020

AFEIÇÃO - Crônica de Luzia Pessoa


Afeição

Ano passado frequentava a porta da sala de aula uma linda menininha do quinto ano. Os olhos ebony que falavam sem que ela precisasse abrir a minúscula boca de lábios pálidos.
- Próximo ano vou ser sua aluna!
- Sim. Se Deus quiser!
Por ser eu  uma professora-formiga (amo adoçar  os dias daqueles que com muito orgulho chamo de meus) pensei :
- Ela é uma abelhinha que quer um pouco desses doces, embora nunca tenha lhe dado sequer um pirulito. Ao menos sei de cor o seu nome...ainda que pela mesma raíz etmológica, o coração saiba.

Era um tempo em que ainda existia calendário e eis que chegou o dia dela, de fato, ser minha. Primeiro dia de aula e ela saltitante pelos corredores da escola com seus olhinhos expressivos e corpinho menor que a idade. Chrónos, lhe desarticulou o corpo da passagem dos dias, mas  Kairós e Aíôn  lhes deram um tempo sagrado e eterno, sem  medida precisa,  onde as horas não passam cronologicamente e com isso ela chegou ao sexto ano com a alegria que sentíamos ao passar no vestibular. Uma alegria legítima!

Nessa época  podíamos abraçar e falar vendo a boca articular as palavras. Assim num intervalo e outro ela corria ao meu encontro, trocávamos um abraço e  em seguida:

- É a senhora agora?

Até que chegou o dia que eu, ela e todos os coleguinha conversamos e trocamos elogios ,falamos de nós, traçamos planos, olhei os cadernos novos, expliquei que ali era o início de um novo tempo.

Talvez nesse momento um anjo caído tenha dito amém e eis que o tempo das delicadezas deu lugar ao medo e foi decretado que todos os planos fossem suspensos.

E ela? aquela menininha de olhinhos jabuticabais...
Pois, dentro de um nó de marinheiro virtual  ela "deu" com meu número de telefone e passou a me enviar mensagens.

Parece que Kairós e Aíôn  a protegem. Ela segue sem "covidar". Oxalá, continue assim.

- Professora, hoje é feriado, mas é um dia lindo e eu vou fazer as tarefas.

- Tô com saudade!

- É segunda que as aulas voltam?

- É quando?

Algumas vezes ela diz coisas que doem...

- Tô com saudade de escrever do quadro!

Ontem foi dia dos namorados. Ela não perde nenhuma oportunidade de sermos melhores amigas e sem nenhum propósito ou adequação, não hesitou:

- Feliz dia dos namorados, professora!

O nome disso é afeição

Escuto  Zeca Baleiro -Nalgum lugar - e peço a Deus que proteja meus meninos e meninas.

"(...) Nada que eu possa perceber neste universo iguala o poder de tua intensa fragilidade cuja textura compele-me com a cor de seus continentes (...)"

Luzia Pessoa de Araujo


quinta-feira, 11 de junho de 2020

SEMPRE SUBLIME


                                                        


 Sempre Sublime (Maria Goretti Borges)

Quando o coadjuvante assume o papel, não pela sua interpretação, performance artística ou coisa o que o valha, mas pela importância e complexidade da história de seu personagem na teia da trama, do quanto de atenção e interesse ele consegue despertar, do quanto as entrelinhas falam, o não dito se expressa, comunica-se sem que no entanto os outros personagens sejam menores ou menos curiosos. Essa é a leitura que faço do personagem Grandfather no filme Uma Vida Iluminada de Liev Schreiber, baseado no livro ”Tudo se Ilumina” de Jonathan Safran Foer. Na busca incansável pelo remonte da história de sua família judia, Jonathan, personagem principal, um jovem americano, colecionador de memórias, cruza com Grandfather e Alex numa Ucrânia angustiada, recém aberta para o mundo (desintegração da URSS em 1991), devastada, 60 anos pós Segunda Guerra Mundial. Jonathan necessita lembrar para não esquecer, Grandfather camufla para sobreviver. Histórias entrelaçadas, no passado e no presente!
Lançando mão de subterfúgios, Grandfather, que teve uma formação edificada a partir dos ensinamentos da Mitzvot – conjunto dos mandamentos judaicos que constam na Torá -  se diz antissemita e trabalha transportando judeus pelo território ucraniano que buscam por seus antepassados e suas histórias. A história dos judeus na Ucrânia se entrelaça com a própria história da Ucrânia. Grandfather, num holocausto constante, permeia sua vida de um misto indecifrável. O personagem adota um bullying reverso, a negação identitária, um sequestro cultural e espiritual!
Sem compartimentos externos e internos suficientes para acomodar a contradição “judeu/antissemita”, o avô mesmo assim, continua exercendo sua fuga do mundo real: Um velho ranzinza, mal humorado, falso cego, que rejeita estupidamente o trabalho que faz, que se nega à promoção do diálogo em família, etc. Supõe-se que esse seria o pensamento de Grandfather: “se o diálogo não promove o que me convém, a imposição do silêncio se torna uma via de comunicação”. Dois sentimentos em relação ao avô permeiam a família: o amor por uma cadela guia e o desprezo pelos judeus. Apesar de toda estupidez expressa, seu neto Alex consegue fazer uma leitura do avô por inteiro, ou seja, nem todo o dito ou gesticulado corresponde à inteireza desse ser. Das frestas do cativeiro cintilavam raios de luz!
                O que levou o Grandfather a adotar uma vida clandestina, uma orfandade de si, uma dificuldade em ser, uma obscuridade cotidiana? Até quando esse homem conviveria com tão complexa dubiedade? Teria tentado matar o homem velho para ressuscitar um homem novo? esse pensamento seria ainda mais mortal? “Ninguém põe remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo tira parte da veste, e fica maior a rotura”(Mateus 9:16). Além da morte física, existem outras formas de se morrer!
Assim como o personagem do filme, quantos de nós atuamos a partir do confisco da nossa subjetividade? Se faz necessário retirar o véu, a cortina, rejeitar a máscara, ser protagonista de si mesmo! “Longe se vai/sonhando demais/mas onde se chega assim/vou descobrir o que me faz sentir/ eu, caçador de mim”(Nilton Nascimento). Essa caçada deve ser uma constante, pouso em terra firme, distinção entre realidade e devaneio. “ Antes de acessar a verdade pela razão, você pode acessá-la pela intuição. Por isso, quando perceber a inquietude que dela advém, conceda-lhe atenção, decifre seus sinais”(Fábio de Melo).
O mestre Cartola advertiu a sua neta para a possibilidade do sequestro da sua subjetividade, perda de sua identidade! “Preste atenção, querida/ Embora eu saiba que estás resolvida/ Em cada esquina cai um pouco a tua vida/ em pouco tempo não serás mais o que és”. Dois avós, um da ficção outro da vida real, ambos constando a importância da plenitude, da autonomia que cada um deve ter de si mesmo.
Grandfather teve a sua identidade recuperada, o seu pertencimento refeito! Alex, seu neto, ao encontrá-lo morto numa banheira em Trachimbroad, confessou para Jonathan, nunca tinha visto o avô assim. Ele havia se desfeito de sua carranca, se despido do personagem, um semblante de paz. Em Trachimbroad reencontrou seu povo, sua história, a reconciliação consigo mesmo, a possiblidade de ficar para sempre com os seus, a fuga da negação do seu eu. Grandfather não voltou atrás, encontrara a ocasião propícia para reescrever a sua história, conquistar a admiração de sua família, reintegrar o seu povo. Sempre é tempo para recomeçar, caminhar para além da antessala!
Refletindo a partir de versos do poema “Tabacaria” de Fernando Pessoa, pode-se constatar uma tomada de consciência do personagem num determinado instante. Que essa consciência nos venha o quanto antes!









                                

terça-feira, 9 de junho de 2020

Cordel O LEGADO DE SIVUCA NA CULTURA BRASILEIRA (Marciano Medeiros)



O LEGADO DE SIVUCA
NA CULTURA BRASILEIRA 
 1° lugar no concurso de cordel Mestre Sivuca, promovido pela Academia de Cordel Vale do Paraíba.


Vou relembrar de Sivuca, 
Um distinto brasileiro,
Que comoveu multidões
Nos palcos do mundo inteiro.
Irei compor sua história
Mostrando os passos da glória,
Do famoso sanfoneiro.   

Tem desmedido valor
Na cultura nordestina,
Sua produção artística
Lembra chuva cristalina,
Onde o respingar sem fim
Faz das multidões jardim,
Molhado nessa neblina.

Desvendei nas reportagens
Que o mestre em linda jornada 
Começou na Paraíba
As lutas da caminhada.
Na sublime Itabaiana,
Terra de gente bacana,
Nasceu a figura honrada.

É de mil e novecentos
E trinta esse campesino.
O nome que recebeu
No batismo é Severino,
Também Dias de Oliveira,
Mas Sivuca, na carreira,
Apelidaram com tino. 

Descende de agricultores
Junto aos parentes amados,
Pisou no chão da pobreza,
Quis os sonhos conquistados.
Com nove anos somente,
Ganhou do pai um presente
Que depois deu resultados.

A sanfona recebida
Depurou o tocador,
Nos festejos populares
Tornou-se um animador.
Disseminava alegria
Quando o teclado gemia
No forró madrugador.

Ele adorava o cinema,
Diversão especial,
Nem sempre via os enredos,
Mas a trilha musical;
Ao botar no pensamento
Calibrava o sentimento
De jeito fenomenal.

Por ser um garoto albino
Evitou a luz do sol,
Certamente não jogava
Peladas de futebol.
Mas o talento o seguiu,
Das brincadeiras fugiu,
Fez de casa um bom atol.

Com quinze anos de idade
A procurar nova sorte,
Foi morar em Pernambuco,
Chamado, o Leão do Norte.
Em Recife prosperou
E a nova estrela brilhou
De maneira muito forte.

O jovem seguiu de trem,
Indo pra nova cidade,
A capital recifense
Tornou-se a “universidade”.
Veloz igualmente um raio,
Na Praça Treze de Maio
Tocou sanfona à vontade.

Tendo espaço garantido
Na Rádio Clube adentrou,
Igual um guerreiro firme
O jovem se destacou.
Também, a Rádio Jornal
Do Comércio foi cabal
Quando o trabalho aumentou. 

O senhor Nelson Ferreira,
Um maestro dedicado,
Deu suporte e mídia ao jovem,
Fez tudo ser começado.
E em seguida, Guerra Peixe
Também completou o feixe
De quem ficou do seu lado. 

Por ser muito persistente
Logo subiu na ladeira
Do sucesso e teve apoio
Vindo de Humberto Teixeira.
Num trabalho sem complô
“Adeus Maria Fulô”,
Sai na gravação primeira.

Após tocar em novelas
De rádio as composições,
Carmélia Alves o leva
Pra ter novas gravações.
Sivuca aceita o chamado,
Prossegue determinado
Em busca de inovações.

Nos anos cinquenta o gênio
Deixa o Nordeste, saudoso;
Mora em São Paulo, e pra o Rio
De Janeiro vai famoso.
Alcançou destaque, eu li;
Na Rádio e TV Tupi,
Toca e não fica orgulhoso.

Perto dos anos sessenta
Prossegue em jornada boa,
Faz do barco da coragem
Sua resistente proa.
O forte paraibano
Percorre o chão lusitano,
Vai residir em Lisboa.

No continente europeu
Mostra um semblante feliz,
O povo nos muitos shows
Aplaude e lhe pede bis.   
Quando o tempo transcorreu
Essa viagem rendeu
Quatro anos em Paris.

Em sessenta e quatro ainda
À Nova Iorque chegou,
Foi pra lá com Carmem Costa,
Também no Japão andou.
E depois seguiu tocando,
Miriam Makeba escutando
Seu serviço contratou. 

Sivuca em documentário
Gravou sendo instrumentista,
Ao transmitirem lhe chega
Telegrama de outro artista.
Miles Davis, em bom tom;
Afirmou gostar do som
Da sanfona ─ o trompetista.

E teve espaço em Los Angeles
Após ter sido chamado
Pelo Harry Belafonte
Ator bastante afamado.
Pra Julie Andrews tocou,
Nelson Riddle destacou
O concerto apresentado. 

Fez amizades marcantes
Num caminhar triunfal,
Tocou junto de Paul Simon,
Um cantor fenomenal.
Esse mestre e sanfoneiro
Foi no baião companheiro,
Do grande Hermeto Pascoal.

Sivuca integra um quarteto
Dos melhores sanfoneiros,
Perto de Luiz Gonzaga
Mostrou acordes ligeiros.
Oswaldinho e Dominguinhos,
Cada qual por seus caminhos,
Foram seus fãs e parceiros.

Por relações conjugais
Passou e quis novo norte,
Em períodos diferentes
Liberou cada consorte.
Mas descobri num jornal
Que seu casório final,
Só terminou com a morte.

E com Terezinha Mendes
No primeiro casamento,
Sivuca teve uma filha,
Fruto do bom sentimento.
Nasceu Flávia de Oliveira
Barreto que é sua herdeira,
Pois não houve outro rebento.

Em setenta e cinco vindo
A seu Brasil novamente,
O mestre no coração
Botou rumo diferente.
Ao ver Glorinha Gadelha
Fez dela a nova parelha
Num matrimônio envolvente.

Trabalhou com a mulher
Após fazer muito ensaio,
Ele aplaudia Glorinha
Olhando só de soslaio.
Criaram forró sentido
Pra não deixá-lo esquecido
Gravam “Feira de Mangaio”. 

Compôs com Chico Buarque
Numa pausa entre os forrós,
A valsa “João e Maria”
Que alcançou distantes pós.
“Cabelo de Milho” e mais:
Fez “No Tempo dos Quintais”,
Junto a Paulo Tapajós. 

Levou a brasilidade
Ao continente africano;
Em território asiático
Brilhou o paraibano.
Sem ter estilo jurássico
Foi do popular ao clássico,
O tocador veterano.

No rosto com grossos óculos
Mostrava um semblante atento,
Na longa barba grisalha
Cobria o sorriso lento.
Entre as falhas e a bondade
Plantou a flor da saudade
No jardim do sentimento. 

Amigo de Clara Nunes,
Também do grande Caetano
Veloso, nos shows da dupla,
Esse menestrel humano
Espargiu, com singeleza
As rosas da gentileza
Nos palcos do mundo urbano.

Tendo câncer na laringe
Perdeu a saúde boa,
Regressou à Paraíba,
Sem buscar trono ou coroa.
Quis fazer um tratamento
Visando o melhoramento
Na bonita João Pessoa. 

Aos setenta e seis de idade
Terminou sua carreira;
Em dois mil e seis partiu
Para a vida verdadeira.
E até hoje não caduca 
O legado de Sivuca
Na cultura brasileira!


BIOGRAFIA DO AUTOR

Marciano Batista de Medeiros é natural de Santo Antônio (RN). Seu nascimento ocorreu no dia 18 de setembro de 1973. Ele é filho de João Batista de Medeiros e Francisca Viana Salustino Medeiros, ambos nascidos em Serra de São Bento (RN).
Marciano Medeiros é integrante da Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel, da Academia de Letras e Artes do Agreste Potiguar e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. O autor também faz palestras e oficinas em escolas, abertura de semanas pedagógicas e outros eventos, explicando sempre de modo didático a estrutura do cordel brasileiro. Convites podem ser feitos pelo Zap: (84) 987737246.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

Sivuca – No Rumo das Estrelas - Cordel Premiado




Sivuca – No Rumo das Estrelas (autor: Chico Gabriel)

 2° lugar no concurso de cordel Mestre Sivuca, promovido pela Academia de Cordel Vale do Paraíba.

1
Mil novecentos e trinta,
cidade de Itabaiana.
Dia vinte seis de maio,
quarto dia da semana,
nasceu um menino albino
por nome de Severino,
um astro na forma humana.
2
Na terra paraibana,
com treze anos de idade,
recebeu do seu tutor
um fole sem qualidade;
mas aquilo foi bastante
para o pequeno gigante
ser o encanto da cidade.
3
E aos quatorze de idade
tocava por profissão,
sendo o mais requisitado
nos bailes da região.
Mostrando um talento nato,
se destacando, de fato,
nas noites de São João.
4
Seguindo outra direção,
buscando um novo painel,
foi procurar perfeição
querendo ser menestrel,
indo assistir no Recife
a uma orquestra de grife,
no palco Santa Isabel.
5
A vida lhe foi fiel
e, de modo natural,
foi aprender clarineta
tendo um arranjo orquestral,
assimilando as lições,
das grandes composições
do maestro Lourival.
6
Pintou-se um novo mural
descortinando a porteira,
quando foi à Rádio Clube
conhecer sua fileira,
e a vida, riscando os traços,
foi colocá-lo nos braços
do grande Nelson Ferreira.

7
O qual disse de primeira:
“Tens talento genuíno,
mas o seu nome de artista
não pode ser Severino,
esse nome te machuca.
Teu nome vai ser Sivuca,
rei do ritmo nordestino”.
8
Mais uma vez o destino
quis costurar sua saga,
tocando na Rádio Clube.
Novo brilho se propaga
quando foi valorizado,
depois que tocou do lado
do mestre Luiz Gonzaga.
9
O qual numa carta indaga,
depois que chegou ao Rio,
dizendo: “Venha Sivuca,
viver novo desafio!
Contaste com o meu aval,
e a Rádio Nacional
quer propagar o teu brio”.
10
Porém, desse desafio,
Sivuca foi dispensado,
depois que disse a Luiz:
“Eu já estou contratado,
a Clube tem meu serviço…
eu não firo o compromisso,
mas fico lisonjeado”.
11
Depois de um tempo passado,
quarenta e nove era o ano,
querendo sempre aprender,
edifica um novo plano.
Buscando na arte um feixe,
estudou com Guerra Peixe
um maestro soberano.
12
Parecendo um veterano
em São Paulo, a capital,
foi destaque numa orquestra
de fama nacional.
E a Rádio Record transmite
para plebeus e elite,
esse feito genial.

13
Um marco sensacional
surgiu na sua carreira
quando, nos anos cinquenta,
gravou pela vez primeira,
na grande Continental,
um compacto, tendo o aval
do mestre Humberto Teixeira.
14
Deslanchando na carreira,
viu no Sudeste um celeiro.
No ano cinquenta e cinco,
foi pra o Rio de Janeiro,
fazendo sucesso ali,
contratado na Tupi,
com futuro alvissareiro.
15
Foi brilhar lá no estrangeiro
junto com vários artistas,
se apresentado em Paris
para pátrios e turistas.
O Brasil conquista a copa
e o mestre fica na Europa,
junto doutros musicistas.
16
Depois das novas conquistas
grava um trabalho na França;
tocou por toda Suíça,
na Suécia a glória alcança
nos aplausos de um teatro.
Só retorna em meia quatro,
carregado de esperança.
17
Mas outra missão lhe alcança
desvirtuando seus planos.
Um convite tentador,
de artistas americanos,
nosso Sivuca desterra…
só voltando à sua terra
depois de mais de dez anos.
18
Nos palcos americanos
mostrou suas qualidades.
Fez dueto com Paul Simon,
dentre outras celebridades,
dando shows e recitais
nos teatros colossais
das mais famosas cidades.

19
Retorna sem ter vaidades
no ano setenta e cinco,
e à música brasileira
dedicou-se com afinco.
E no amor teve centelha,
pois, com Glorinha Gadelha
casou-se com festa e finco.
19
Ainda em setenta e cinco,
fez shows por todo Brasil.
Foi sucesso nas tevês,
fez canções, gravou vinil;
deixou de ser andarilho,
compôs “Cabelo de Milho”,
falando do seu perfil.
20
Fazendo sucessos mil
no Teatro João Caetano,
propagou no “Seis e Meia”
o melhor show desse ano.
Gravou com nobreza imensa,
com Rosinha de Valença,
um recital soberano.
21
Fez fama no meio urbano
mas, sem fazer muito ensaio,
desembrulhou a sanfona
ligeiro que só um raio;
e, com o teatro lotado,
tocou, num forró rasgado,
sua “Feira de Mangaio”.
22
Dessa “Feira de Mangaio”,
Glorinha era a coautora
que a cedeu a uma amiga,
colega de gravadora.
Fez um sucesso veloz,
entonada pela voz
de Clara, grande cantora.
23
Outra canção logo estoura,
com uma bela melodia
que fez com Chico Buarque,
numa única parceria.
Uma música harmonizada,
que ficou eternizada
com o nome: “João e Maria”.

24
Fez peça e fez sinfonia…
Seu talento se alavanca
quando, em homenagem ao Rei,
um novo arranjo ele banca
e faz com muita destreza,
caprichando na beleza
do recital “Asa Branca”.
25
Sua fonte não se estanca,
sendo mestre em recital,
compôs inúmeros concertos,
abrindo novo canal,
quando juntou os seus lastros
com os lastros dos grandes astros
de fama internacional.
26
Para um grande festival,
retorna, então, a Paris,
fazendo um grande concerto,
traçando novos perfis…
mas desta vez não demora,
se despede e vem embora
ser feliz no seu país.
27
Longe de ser aprendiz,
quis ser de novo menino,
relembrando a sua infância
e os caminhos do destino.
No ano dois mil e três,
ficou morando de vez
no seu torrão nordestino.
28
Longe do solo sulino,
bem distante da garoa,
veio curtir as raízes
da nossa cultura boa,
ficando então radicado
no coração do estado,
na capital João Pessoa.
29
Longe de ficar atoa,
procurou ser um escriba
para que a arte floresça
por onde quer que se exiba,
sendo mestre na harmônica
da grande orquestra sinfônica
do Estado da Paraíba.

30
E à terra de “Capiba”,
a Veneza Brasileira,
no ano dois mil e quatro
foi pela vez derradeira
e, com grande liberdade,
junto à orquestra da cidade,
fez um show sem ter fronteira.
31
E, encerrando a carreira
pela doença cruel,
junto à Glorinha Gadelha,
a sua esposa fiel,
fez despedida da vida
compondo, antes da partida,
a peça: “Choro e Cordel”.
32
Dois mil e seis, com pincel,
pintou um quadro de dores
em quatorze de dezembro,
sobrando pranto e clamores,
lá no Parque das Acácias,
entre dois pés de pistácias,
ficaram a tumba e as flores.


Fim.





 

O encantamento de Arievaldo Vianna e sua chegada no Céu Autor: Klévisson Viana


O encantamento de Arievaldo Vianna e sua chegada no Céu
1
Que a Divina Providência
Inspire esses versos meus,
Traga a verdade e a doçura
De Jesus, Rei dos Judeus
E o sopro incontestável
Da influência de Deus.
2
Arievaldo Vianna
Foi poeta brasileiro,
Cordelista de renome,
Bom irmão, bom companheiro;
Tudo que fez tinha o brilho
De um talento verdadeiro.
3
Aqui no plano terrestre
Só semeou a bondade,
Ajudou o semelhante,
Nunca perdeu a humildade,
Foi um artista dotado
De grande simplicidade.
4
Tinha verve de humorista
A qualquer hora do dia
E, quando contava um causo,
Botava encanto e magia
E, por onde ele passava,
Brotava um pé de alegria.
5
Encantador de plateia,
Com voz bonita e possante,
Culto, suave e profundo,
Com sua prosa instigante,
Da cultura popular
Era devoto e amante.
6
Viveu 52 anos,
Porém produziu por dez
Artistas mais dedicados.
Cumpriu bem os seus papéis
E teve destaque como
Um dos grandes menestréis.
7
Deixou mais de 30 livros,
Folhetos bem mais de 100.
Com imensa facilidade,
Escrevia muito bem
E, em matéria de humor,
Não tinha para ninguém!
8
‘O Baú da Gaiatice’
Foi o seu livro de estreia,
Sua prosa e o seu verso
Tinha o dulçor da colmeia
Do mel silvestre extraído
Pra o deleite da plateia.
9
Escreveu pra São Francisco
Um livro bem pesquisado
Com tudo que era folheto
Sobre o tema registrado.
Com paciência, anotou
Depois deixou publicado.
10
Com o “Acorda Cordel”
Alçou voos nacionais
E teve oportunidade
De produzir muito mais
Junto com Jô Oliveira,
Artista muito capaz!!!
11
E, para Leandro Gomes
De Barros, fez com valia
Um livro muito importante
Contendo a biografia
Do mestre lá de Pombal
Que foi rei da poesia.
12
Vários livros publicados
De sua verve tão fina...
Fez “Sertão em Desencanto”,
“No Tempo da Lamparina”.
Cada obra que escrevia
Era única, genuína.
13
Na família era estimado
Por pais, irmãos e por filhos.
Pra ajudar quem precisava
Nunca botava empecilhos,
Pois seu vagão de bondade
Nunca saía dos trilhos
14
Deixou centenas de amigos
Que choram sua partida
Prematura, na verdade,
Sem direito a despedida.
Todos lembram de Ari
Nos bons momentos da vida.
15
Dizem que os bons morrem cedo,
Ari cumpriu a missão!
E o bom Deus o levou
Pra residir na Mansão
Celeste onde a poesia
É linda igual oração.
16
Marcos Aurélio chorou,
Autemar tá descontente,
Chora Itamar e Vandinha
Sua presença inda sente,
E Klévisson Viana luta
Pra tocar o barco em frente.
17
Sua mãe, dona Hatiane,
Seu paizinho Evaldo Lima
Rezam para o filho amado
Por quem nutrem grande estima.
Ari fez da vida um verso
Com oração, métrica e rima.
18
O seu filho Daniel,
Sua filha Mariana,
O Yuri e o João Miguel
E a esposa Juliana
Lamentam a partida súbita
De Arievaldo Vianna.
19
Contudo, o bom Deus achou
Por bem chamar o poeta,
Pois viu que sua jornada
Já estaria completa.
Como Deus tinha outros planos
Traçou pra ele outra meta.
20
Quando o corpo de Ari
Sucumbiu à bactéria
E o espírito do poeta
Se desprendeu da matéria,
Os anjos levaram Ari
Dessa terra deletéria.
21
Chegou no Céu Arizinho
Com uma mala de cordel.
No portão logo avistou
Alzirinha e Seu Manoel,
Os seus avós estimados
Que abraçaram o menestrel.
22
E Ari, não mais sentindo
Dores, fraqueza e cansaço,
Vendo seus avós queridos,
Os envolveu num abraço
E confirmou que a família
É incontestável laço.
23
Após descansar um pouco,
São Pedro, bem sorridente,
Cumprimentou o poeta,
Que já estava contente,
E não sentiu mais tristeza
Daquele instante pra frente.
24
Num belo jardim que havia
Perto da Santa Mansão
Estava Alberto Porfírio
Improvisando em quadrão
E junto a ele encontrou
João Firmino e Azulão.
25
João disse a Arievaldo:
— Que bom lhe ver por aqui!
Se achegue, ande pra cá
E venha olhar de per si
A festa que hoje faremos
Pra lhe receber, Ari.
26
E chegou Ribamar Lopes
Escrevendo num caderno.
Quando viu que era Ari,
Deu-lhe um abraço fraterno
E disse: — Ari, lhe esperava
Na morada do Eterno!
27
Ariano Suassuna
Cumprimentou o poeta,
Chegou Gonzaga Vieira
Andando de bicicleta
E logo foi se formando
Uma plateia seleta.
28
Chegou ali Santo Antônio
(Seu santo de devoção)
Ao lado de São Francisco,
Veio apertar sua mão.
Ari segurou as lágrimas
De alegria e emoção.
29
A Santa Virgem Maria
Lhe mandou carta lacrada.
Quando Ari abriu e leu,
Disse a Santa Imaculada:
“Fique calmo, sua mãezinha
Por mim será confortada.
30
A seu pai, Evaldo Lima,
Já mandei uma mensagem.
Ele é maduro e entende
Que a vida é uma passagem
E as riquezas terrenas
Não passam de uma miragem”.
31
João Firmino se achegou,
Perguntou: — Arievaldo,
Como vai Klévisson Viana,
Meu amigo de respaldo,
Rouxinol do Rinaré
E Evaristo Geraldo?
32
Ari disse: — Eles estão
Com medo da pandemia,
Mas, mesmo em tempos difíceis,
Nunca perdem a alegria
E não abandonam o front
Em defesa da poesia.
33
Ari disse: — Também tem
O Pedro Paulo Paulino,
Marco Haurélio e Eduardo
Macedo, poeta fino!!!
E o nosso Jota Batista
Que é um cabra malino!
34
Tem Paiva e Paulo de Tarso
Poeta e declamador,
O pessoal da AESTROFE
Digno de todo valor
Os vates do CECORDEL
E a Casa do Cantador.
35
Depois chegou Valdir Teles
Com a viola afinada
Junto a João Paraibano,
Vate de mente afiada,
Cantaram pra Arievaldo
Uma bonita toada.
36
Chamaram então o poeta
Patativa do Assaré
E Paulo Nunes Batista,
Com inspiração e fé,
Deu vivas ao bom poeta
Que viveu em Canindé.
37
Ari olhou para um lado
Onde se avistavam uns jarros
Chegou uma comitiva
E estacionou uns carros
Trazendo o grande poeta
Leandro Gomes de Barros.
38
Leandro deu-lhe um abraço
Com efusiva alegria,
Lhe cobriu de elogios,
Recitou uma poesia
E agradeceu Ari
Por sua biografia.
39
Ari louvou a Leandro
(Aquele espírito de luz),
Quando o foi chamar de mestre
Disse Leandro: — Jesus,
Só ele é quem é o Mestre
Que morreu por nós na cruz!
40
Foi uma festa bonita
Que durou mais de um dia
O jardim celestial
Se encheu de alegria
E em toda parte nasceram
Muitas flores de poesia.

FIM