APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

O LIVRO DOS LIVROS ( PARTES 1,2,3) - Moacy Cirne


O LIVRO DOS LIVROS (1)


Texto estabelecido por

Fausto Simak da Cunha Azevedo
& Zamagna Borges de Azevedo Bouzon,
com revisão teológica de
Mateus Skrzypczak de Macedo

A origem de tudo

No princípio o Senhor das Alturas criou Caicó e as cidades vizinhas. O rio Seridó estava seco e as trevas cobriam o açude Itans e todo o mundo.

O Senhor das Alturas disse: "Faça-se uma luz da gota serena". E a luz da gota serena se fez. O Senhor das Alturas viu que a luz era boa e Caicó e o mundo se iluminaram, com seus dias e suas noites.

O Senhor das Alturas disse: "Faça-se um firmamento, e se façam a Serra de Mulungu, o açude Gargalheiras, o Poço da Moça, o Poço da Bonita, o Poço de Santana, o sítio Caatinga Grande e a minha Biblioteca de Babel". E assim se fizeram.

E o Senhor das Alturas disse: "Façam-se o sol, a lua, os planetas, a Serra do Doutor, a Serra da Borborema, Natal, Olinda, Martins, Galinhos, Macaíba, Angicos, Santana do Matos, Catolé do Rocha, Recife, Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, Porto Alegre, Ouro Preto, Paris, Lisboa, Luanda e o Fla-Flu". E assim se fez.

E o Senhor das Alturas fez brotar do sertão e das outras terras toda espécie de animais e de árvores com seus frutos atraentes e saborosos: mangas e mangabas, cajus e cajás, pinhas e maçãs, carambolas e maracujás. E o Senhor das Alturas fez mais: criou a canjica, a pamonha, a tapioca, o doce de leite e o pé-de-moleque. E àquele lugar em particular, nas veredas do grande sertão, o Senhor das Alturas deu o nome de Jardim do Seridó. E o Senhor das Alturas gostou do que fez. E o Senhor das Alturas gostou do que por Ele foi criado.

A origem da humanidade

O Senhor das Alturas, sentindo-se depois entediado, formou o Homem da (*) da terra e deu-lhe o nome de Severino. E o Senhor das Alturas vendo que o Homem sentia-se solitário e deprimido resolveu criar uma companheira para ele. E do vento das 5 horas da tarde criou a Mulher e deu-lhe o nome de Raimunda. Ambos estavam nus, o homem e a mulher, mas não se envergonhavam.

E o Senhor das Alturas disse: "Vocês tudo podem, só não podem conhecer como funcionam as leis físicas, matemáticas, filosóficas, literárias e biológicas do Universo; ignorem, pois, a minha Biblioteca". Dito isso, foi descansar, depois de almoçar carne-de-sol com macaxeira, feijão de corda, arroz de leite e manteiga do sertão, com direito a três lapadas da cachaça Samanaú.Severino e Raimunda, vendo que o Senhor das Alturas fora descansar longe dos dois, na Serra de São Bernardo, resolveram, em noite de luar às margens do rio Seridó, se aprofundar em seus contatos físicos, ao som da flauta de Carlos Zens. E viram que era bom. E viram que um e outro podiam se encaixar várias e várias vezes. E viram que era ótimo. E quiseram mais: quiseram conhecer como funcionavam as leis do Universo.

E o Senhor das Alturas, depois de uma soneca que durou mais de 13 anos, não gostou do que viu: Severino, Raimunda e seus dois filhos discutiam as teorias e contrateorias de Platão, Aristóteles, santo Agostinho, Ibn Khaldun, Spinoza, Kant, Marx, Nietzsche, Freud, Einstein, Sartre, Foucault e Chico Doido de Caicó. E outras coisas discutiam. E outras coisas faziam.

E o Senhor das Alturas disse: "Quem domina o conhecimento, domina a essência das coisas. Só eu poderia fazê-lo". E o Senhor das Alturas, raivoso, expulsou-os do Jardim do Seridó, para cultivarem o solo seco do sertão. E o Senhor das Alturas disse: "A partir de hoje não poderão mais consultar a minha Biblioteca de Babel". E o Senhor das Alturas colocou diante do Jardim os seus coronéis do interior, para que o mesmo não fosse invadido pelos sem-terra e sem-moradia, representados por Severino, Raimunda e os dois filhos.



O LIVRO DOS LIVROS
(Parte 2)

Texto estabelecido a partir de manuscritos
que se encontram nas bibliotecas de
Cairo, Londres, Paris, Petrópolis, Caruaru e Caicó

O primeiro assassinato

Expulsos do Jardim do Seridó, Tonho e Mané das Cacimbas, filhos de Severino e Raimunda, igualmente expulsos, conheceram uma jovem e bela mulher, vinda de Guarabira, na Paraíba. E os dois por ela se apaixonaram. E quiseram conhecê-la biblicamente. Mas Expedita - a mulher em questão - só queria chumbregar com um deles. E os dois irmãos se estranharam.


Tonho disse então a Mané das Cacimbas: "Vamos para Boqueirão, em Parelhas. Quero que você veja um jogo do Centenário; essa terra ainda será a terra do futebol". Mas quando se aproximavam do açude, Tonho agrediu o irmão e o matou com uma pexeirada. O Senhor das Alturas, desconfiado, perguntou a Tonho: "Onde está teu irmão Mané das Cacimbas?" E ele respondeu: "Não sei. Acaso sou o pastorador de meu irmão?" "O que fizeste? - perguntou o Senhor das Alturas. - Ouço da terra a voz do sangue de teu irmão, clamando por vingança. Terá sido por causa de Expedita, aquela sirigaita, que você o matou?"


E o Senhor das Alturas condenou-o a passar 6 anos, 6 meses e 6 dias perambulando pelo sertão com os cabras de Lampião, fugindo dos macaco da capital e das onças pintadas da região. Tonho disse ao Senhor das Alturas: "O castigo é grande demais para suportá-lo. Não poderei simplesmente ir para mais longe, para os cafundós da Bahia, oh meu Rei?" O Senhor das Alturas gostou da ideia e disse: "Tudo bem. Quem sabe, um dia você acaba estrelando um filme de Glauber Rocha". Afastando-se da presença do Senhor das Alturas, Tonho foi morar em Vitória da Conquista, e lá conheceu Capitulina, casada com Joaquim Casmurraldo. Tonho e Capitulina se gostaram e fugiram para o interior de Pernambuco.


A humanidade se amplia


O Senhor das Alturas ficou indignado, mas preferiu não interferir ao ver que ela deu à luz a Pedro dos Papagaios. Tonho veio a construir uma cidade e lhe deu o nome de Petrolina, em homenagem a seu filho. Pedro dos Papagaios foi o pai de Mirador, Mirador de Abimael, Abimael de Matutosalém e Matutosalém de Riobaldo.


Riobaldo casou com quatro mulheres; uma se chamava Diadorinha, a segunda Estrela da Manhã, a terceira Iracema, a quarta Dualiba. O nome do irmão de Riobaldo era João Rosa, antepassado de todos os tocadores de rabeca e sanfona. Dualiba teve três filhos: Vaca Véia, artífice de todos os instrumentos de bronze e ferro; Bala Choca, forrozeiro e cantador de feira; e Ojuara, criador da literatura de sacanagem. Diadorinha e Estrela da Manhã abandonaram Riobaldo e preferiram se amigar, como se macho e fêmea fossem.


Severino, que deixara Raimunda, champrou muitas vezes a sua segunda mulher, por Esmeraldina conhecida. Ela deu à luz um filho, a quem chamou Sertão do Cariri. Severino já tinha 69 anos quando o gerou. E viveu mais 24 anos e gerou filhos e filhas, que se deliciavam com a chamegação entre si e com os vizinhos e vizinhas.


Sertão do Cariri tinha 33 anos quando gerou Jorge Fernando. Viveu mais 87 anos e gerou filhos e filhas, que foram povoar a Paraíba, o Ceará, o Piauí e Mossoró. Morreu ao ser atacado e devorado por uma onça pintada das mais brabas.


Jorge Fernando gerou José Bezerrão. Tinha 27 anos, então. Viveu mais 53 anos e gerou filhos e filhas, entre os quais Zé Areia Preta, Zilah Medina, Luís Carlos do Curral Novo, Miriam Celeste, Miguel Ciríaco, Sanderson Fabulário, Menandro Casto, Sandra Sandrix, Paulo de Bartola, Jarbas Angicos, Jenildo dos Pampas, Milton Costa, Alta Solta e Americana Marize de Macedo. Todos se amigaram com homens e mulheres da Paraíba e Pernambuco, e geraram muitos filhos e filhas, que viviam em paz e harmonia, na maior felicidade, no mais doce dos chumbregamentos. Os próprios animais, selvagens e não-selvagens, viviam para procriar.


E o Senhor das Alturas, indiferente, além de chateado com aquela eternidade sem princípio e sem fim, só cubava. E o Senhor das Alturas disse: "Meu espírito, já deu para perceber, não ficará para sempre no Homem, porque ele é apenas carne. E o homem não viverá mais do que 120 anos". Dito isso, foi jogar baralho com seu amigo Luisinho Ciferino.


Os anos se sucederam e o Senhor das Alturas, então induzido pelos fanáticos da Igreja Universal do Reino do Diabo, passou a ver pecado onde pecado não existia, passou a ver maldade onde maldade não existia. E o Senhor das Alturas viu o quanto tinha crescido os contatos carnais entre os seres da terra, seguidores que eram dos primeiros habitantes que tinham lido, ainda em Jardim do Seridó, os livros de sua inestimável Biblioteca de Babel.


E o Senhor das Alturas ficou (*) da vida. E o Senhor das Alturas se fez vingativo. E o Senhor das Alturas se fez cruel. E o Senhor das Alturas se fez terrível.



O LIVRO DOS LIVROS

(3)


Texto estabelecido a partir dos

Manuscritos do Mar Vivo das Arábias Orientais
com supervisão astrológica de Ludovicus Erasmus

A jangada de Mestre Cascudinho

E o Senhor das Alturas se fez impiedoso em sua fúria diabólica. Mas, entre todos os habitantes da terra, havia um que o Senhor das Alturas respeitava e considerava boníssimo: Mestre Cascudinho, morador da Cidade dos Reis, cujas andanças pelo interior do Rio Grande a todos causava admiração. Mestre Cascudinho era homem justo e íntegro. Gerou dois filhos. Ana Mariana Potyguar era o nome da donzela; Luís Fernandes Pedro Velho, o nome do mancebo. Mas a terra estava corrompida diante dos olhos do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas disse a Mestre Cascudinho: "Chegou o fim de toda criatura mortal que existir. A terra está cheia de maldade. Vou destruir a todos com um toró tão grande que vai provocar, nos açudes da região e adjacências, a maior sangria de todos os tempos. Durante 40 dias e 40 noites choverá sem parar. Sangrará o Itans, o Boqueirão sangrará, sangrará o Gargalheiras, o Zangarelhas sangrará, sangrará a Passagem das Traíras, o Açudão de Açu sangrará".

E o Senhor das Alturas disse mais: "Construas uma jangada gigante, a maior possível, e nela abrigues tua família, os insetos do canto de muro de tua casa, o Boi Calemba, o Boi da Cara Preta, a onça Galileu Ziraldino e outros animais da fauna seridoense. E assim foi feito. E assim aconteceu. O toró que caiu, num raio de muitas e muitas léguas, inundou quase todo o Rio Grande e ainda sobrou água para outras terras e outras gentes.

Os mais antigos, os povos que, excluídos da jangada, conseguiram sobreviver, lutando contra a fúria do Senhor das Alturas, ainda se lembravam: as águas se tornaram violentas e aumentaram muito sobre a terra de modo que a grande jangada começou a flutuar na superfície das águas. As águas cresceram tanto sobre a terra que cobriram as montanhas mais altas que estão debaixo do céu.

Depois de mais 40 dias e 40 noites, quando as águas começaram a baixar, a jangada pousou sobre a Serra do Mulungu. Mestre Cascudinho e os outros, no meio de um lamaçal feladaputa, a abandonaram e, unindo-se a homens e mulheres que, aos poucos, começaram a surgir da Paraíba, de Pernambuco e do Ceará, e mesmo das Alagoas Sergipanas, esperavam pela Palavra do Senhor das Alturas.

Então o Senhor das Alturas, espantado porque o número de homens e mulheres era maior do que ele imaginara, mas momentaneamente conformado com a situação, falou a Mestre Cascudinho e aos demais: "Já que muitos sobreviveram, mesmo sem estarem na jangada, saiam, todos vocês, pelos sertões do Seridó, e forniquem bastante, sejam fecundos e se multipliquem sobre a terra". O Senhor das Alturas disse mais: "De minha parte, vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência: nenhuma vida animal será novamente exterminada pelas águas de um dilúvio, a não ser pelas bombas, pelos fuzis, pelas metralhadoras e pelas balas perdidas".

E assim Caicó se reergueu, reergue-se Acari, São José se reergueu, reergueu-se Serra Negra, Cruzeta se reergueu, reergueu-se Carnaúba dos Dantas. Currais Novos, também. Também Timbaúba dos Batistas. São Fernando, também. Também Parelhas. Ouro Branco, também. Também São João do Sabugy e Jardim de Piranhas. Só o Jardim do Seridó não fora engolido pelas águas e, com sua Biblioteca de Babel, permanecia praticamente inacessível para os pobres mortais de todas as cores e de todos os credos.

E a humanidade voltou a se espalhar por esse mundão de deus e o diabo na terra em transe, com seus vaqueiros e cantadores, e assim se formaram novos homens, novas mulheres, novas amizades, novas amigações. E a humanidade voltou a se impor: Rosembergue das Amérikas conheceu Carla Brunilda e outras mulheres e de tanto chumbregarem muitos filhos tiveram e muitos filmes fizeram. Chico Antônio do Coco Queimado conheceu Mário dos Andradas e os dois se apaixonaram por Patrícia Gavião, mulher de Oswaldo Pau-Brasil. Sindoval Rodrigo do Grajaú conheceu Rosa Hamburgo e de tanto discutirem as idéias dos livros proibidos da Biblioteca de Babel criaram a Comunidade Arretada do Mundo Novo. Dailor Galo da Madrugada conheceu Civone Completamente Nua e os dois, pássaros errantes, geraram filhos e filhas. Oswaldo Fescenino conheceu Nísia Mata Atlântica e de tanto chamegarem muitos filhos tiveram e muitos livros escreveram. Todos viviam, em média, 69 anos. E todos falavam a mesma língua-mãe: a língua tapuia.