APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

BATE-PAPO COM UM MESTRE DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS


ENTREVISTA COM ANTONIETO PEREIRA, QUADRINISTA

Entrevistador: Gilberto Cardoso dos Santos

GCS.: Caro Antonieto, gostaria que começasse essa entrevista falando-nos um pouco sobre suas origens familiares e geográficas.

AP.: Bom, caro Gilberto, as origens da minha família é uma mistura de espanhóis e portugueses. Os meus avós viviam na região da Paraíba, região aqui próxima da nossa, aqui perto de Nova Floresta. Segundo as informações que minha mãe me contava em vida o avó dela, meu bisavô, era um espanhol que estava fugindo das precariedades na época em seu país, ao vir parar aqui em nosso país se embrenhou nas matas e conseguira formar uma família com uma “Índia Cabocla”. E as origens de meus avós paterno, o que sei é que eles eram descendentes de Portugueses. A minha família é uma Junção de “Pereiras” por parte de meu pai e “Ferreiras” por parte de minha mãe.

GCS.: Até que série estudou? Fez algum curso de desenho ou aprendeu tudo por conta própria?

AP.: Consegui concluir os estudos agora há pouco tempo, em 2013. Não, não fiz nenhum curso, aprendi na marra mesmo até porque na minha época não tinha as facilidades que a garotada tem hoje, livros, vídeos na internet que ensinam facilmente qualquer um aprender a desenhar. Naquela época não tinha nada disso, como a nossa geração sabe. Era uma época em que a gente nem tinha Internet e muito menos sabíamos que ela iria existir um dia. Foi copiando mesmo os desenhos das minhas revistas em quadrinhos que eu colecionava. Elas eram as minhas fontes, meus mestres do aprendizado.

GCS.: Quando começou seu envolvimento com as histórias em quadrinhos?

AP.: Bem, tudo começou quando a minha irmã me presenteou com uma revista em quadrinhos intitulada “O CASAMENTO DO TIO PATINHAS – PARTE 2”, eu tinha uns 9 para uns 10 anos na época, eu estava começando a gostar de ler, mas nunca tinha lido quadrinhos antes. Depois comecei a conhecer um primo meu que desenhava muito histórias em quadrinhos de faroeste para ele mesmo, Francisco era o nome dele, mas era muito conhecido por “CHICO”, um baixinho que desenhava muito e  que morava no Paraíso. Bem, depois que vi os desenhos dele eu comecei a descobrir essa vocação tentando copiar os desenhos das minhas revistas, foi daí que o meu interesse por Histórias em Quadrinhos cresceu ainda mais até me tornar o que sou hoje.  

GCS.: Fale-nos sobre seus primeiros desenhos e da primeira revista que fez.

AP.: Meus primeiros desenhos, ou meus primeiros rabiscos vamos assim dizer, eu comecei no chão, pode parecer estranho, mas foi assim que comecei a ter o prazer de sentir a sensação de rabiscar meus primeiro desenhos. Eu e um colega meu carregava giz da escola e ia para a casa dele fazer desenhos no chão, era um momento bom aquele. Como todos sabem, quando a gente vem tomando gosto por uma coisa a gente não para mais, não é mesmo? Pois bem, aos poucos eu comecei a me interessar pela linguagem das histórias em quadrinhos, foi onde comecei a tentar criar as minhas primeiras histórias, inventar para ser mais claro. Com os meus 16 anos eu e uns colegas resolvemos inventar a nossa primeira revista em quadrinhos em nossa cidade, ela se chamava “A TURMA DO JOCA”, era uma revista infantil onde a gente apresentava nossas primeiras criações infantis que era Joca e sua turma e Cara de China, que foi uma criação de Erinaldo Santos (Neném), um grande desenhista que na época morava aqui e eu admiramos até hoje, apesar dele residir em Natal. O ano em que lançamos  a nossa primeira revista foi em 1991, foi uma produção feita em mimeógrafo eletrônico que era bastante caro na época, mas graças ao apoio do Campus Santa Cruz (UFRN) a gente conseguiu realizar o nosso sonho. Quero aproveitar aqui e agradecer o professor Marinho que na época era o diretor do Campus de Santa Cruz. Ele foi um grande incentivador para a gente nunca desistir de nossos sonhos.


GCS.: Que artistas dos quadrinhos  lhe serviram e ainda servem de inspiração?

AP.: Cara, são tantos viu, mas vou dizer os principais que me influenciaram, começando pelos estrangeiros: Frank Miller, John Byrne, Bilau. Agora os brasileiros: Mozart Couto, Flávio Colin, Watson Portela. Esses são os principais, existem mais, mas esses são os mais que me inspiraram.

GCS.: Você acha que as revistas em quadrinhos poderiam contribuir com a educação do país? Fale-nos sobre isso.

AP.: Sim, claro, e muito. Eu vejo que se as escolas vissem a importância das revistas em quadrinhos na alfabetização das crianças, a gente teria gerações de leitores e muitos formados em nosso país, mas como o preconceito ainda é grande do estado em relação em aceitar esse método nas escolas que estamos tendo uma dificuldade imensa em formar gerações de alfabetizados de verdade. É só pegarem uma criança de agora que lê quadrinhos e uma que não lê que veremos quem se sai melhor em nível de leitura. A gente sabe também que um cidadão que lê e é instruído ele tem mais chances de se tornar uma pessoa mais esclarecida sobre o que ocorre ao seu redor. Infelizmente, como todos nós sabemos, isso não é prioridade do estado; sabem eles que quanto mais uma população for analfabeta, melhor ainda para poderem controlar.

 

GCS.: Você tem feito importantes parcerias em suas produções. Conte-nos um pouco sobre elas.

AP.: Bem, sobre algumas parcerias que fiz posso citar algumas como a que Fiz com José Salles de São Paulo, na qual a gente produziu uma série em cinco partes chamada de “TIRAS vs MONSTROS”, onde a gente apresentou as aventuras de dois policiais que enfrentavam monstros. Outras mais foram com Alcivan Gameleira de Pau dos Ferros, no qual eu ilustrei algumas histórias de seu personagem o “CORCEL NEGRO” e o “PABLO RATO”. Outro que tive uma parceria foi o também pau ferrense Francinildo Sena, em que ilustrei histórias do seu personagem “CRÂNIO”, um alienígena que veio parar em nosso planeta Terra. Para terminar, gostaria de mencionar as grandes parcerias que tive com Jalmir Bezerra, apesar de ele ter procurado o ramo da publicidade em busca de sua sobrevivência, Marcos Cavalcanti, onde ilustrei “TIRAS e CHARGES” para o saudoso Jornal “MEMORIAL SANTACRUZENSE”, ao qual ele editava, e sem falar em ilustrações e capas para livros tanto de sua autoria e coletâneas poéticas. E por fim, Alessandro Nóbrega, de quem tive a honra de ilustrar seu primeiro livro infantil “O BESOURO E A BORBOLETA”, que foi lançado em 2016. Ótimas parcerias, e espero muito mais.




GCS.: Quantas revistas você já produziu? Cite-as e nos diga quais delas acha mais interessantes.

AP.: Bem, contando com a primeira revistinha que lançamos em 1991 para cá, foram exatas 6 produzidas. São elas: “A TURMA DO JOCA”, “IMPACTO QUADRINHOS”, “TIRAS vs. MONSTROS”, “CRÂNIO”, “O VIGIA” e por última “SANTA RITA DE CÁSSIA EM QUADRINHOS” que lancei em 2015. Eu gostei de todas; as que mais tive apego foi a de “SANTA RITA”, por ser uma produção feita em cima de pesquisa e a outra foi “TIRAS vs. MONSTROS”, por ser uma produção diferenciada dos padrões super-heróis.


GCS.: Você também é ilustrador. Fale-nos da experiência que teve com a produção do livro de Alessandro Nóbrega e de alguma outra que fez, além dos quadrinhos. Lembro-me que você também ilustrou a capa de alguns cordéis.

AP.: Bem, o livro infantil que ilustrei de Alessandro Nóbrega foi uma honra enorme, pois se trata de um tema para crianças no qual fiz ilustrações infantis. Foi o meu primeiro livro desse gênero que fiz. Confesso que foi uma experiência ótima, espero que a gente possa produzir mais projetos em parcerias no futuro. Em relação às outras produções que tive foi capas, ilustrações internas para livros, tanto para coletâneas poéticas quanto para produções particulares, inclusive quero ressaltar aqui que foi boa a parceria com todos. Sim, sem falar em capas para alguns cordéis que fiz, principalmente para o poeta Adriano.


GCS.: Além de sentir a satisfação de produzir obras de qualidade, você tem sido recompensado financeiramente com seus trabalhos?

AP.: Em partes sim e em partes não, como todos nós sabemos a produção cultural em nosso país ainda não suporta condições para que os artistas possam sobreviver diretamente de suas produções. Teve alguns trabalhos que fui recompensado, outros foi como colaborador em parcerias com outros artistas sem remuneração. Infelizmente a gente tem que sobreviver por fora para poder manter nossas produções culturais em forma de voluntariado, como posso assim dizer.


GCS.: Cite um ou mais produtores de histórias em quadrinho que deveriam servir de modelo para todos os que produzem quadrinhos no Brasil. Que pensa sobre a indústria construída por Walt Disney?

AP.:  Os artistas de histórias em quadrinhos brasileiros temos vários, que hoje produzem quadrinhos tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa. O brasileiro mais influente, acredito que todos nós sabemos quem é, o velho Maurício de Souza, que hoje tem uma indústria de quadrinhos que consegue competir com a de Wat Disney. Segundo algumas matérias que li sobre a indústria de Wat Disney é que, o crescimento se deu com o aumento do mercado de entretenimento americano quando se expandiu por todo o mundo.

GCS.: Com que empecilhos você se depara nesta carreira? Julga-a espinhosa?

AP.: Um dos maiores empecilhos que encontro em produzir meus trabalhos é a falta de apoio por parte de projetos culturais que praticamente não existem; a falta de verbas para poder conseguir algumas impressões; tenho que conseguir apoio de uns e outros empresários, que às vezes não veem com bons olhos as histórias em quadrinho. E como é espinhosa viu, nem imagina como. Veja bem, tenho três projetos prontos para ir para a gráfica, mas por falta de verbas eles estão por enquanto engavetados.

GCS.: Fale-nos do trabalho que está a produzir sobre Fabião das Queimadas.

AP.: Bem, sobre o projeto que estou trabalhando sobre Fabião das Queimadas o que posso adiantar é, que estou romanceando a sua história sem perder o foco principal de sua biografia. Pretendo lançar no próximo ano, se Deus quiser. Não posso detalhar muito aqui o roteiro, o que posso adiantar é que toda pesquisa fiz sobre uns escritos que Hugo Tavares fez sobre toda a vida de Fabião. Estou gostando muito do projeto sobre a vida de Fabião das Queimadas em Quadrinho que estou trabalhando; espero que todos gostem de ler a sua história através da linguagem dos quadrinhos.


GCS.: Em que seus quadrinhos se diferenciam dos demais produzidos no Brasil?

AP.: Antes de eu responder gostaria de lhe dizer que, todos nós quando começamos a gostar de quadrinhos sempre temos aquelas grandes influências do mercado norte-americano através do universo de super-heróis. No início, quando comecei as influências eram os quadrinhos de super-heróis, depois aos poucos fui descobrindo o meu universo de produzir meus quadrinhos. Hoje, os meus quadrinhos são diferenciados dos demais devido ao tema regional que resolvi trabalhar, empregando a linguagem dos quadrinhos como forma de facilitar a informação dinâmica.

GCS.: Conhece outros desenhistas que, como você, fazem um bom trabalho aqui no Nordeste, mas não recebem a devida atenção?

AP.: Sim, vários. Além, é claro, de alguns que conseguem sobreviver produzindo para os Estados Unidos e a Europa. Os que produzem por conta própria como eu, são: Francinildo Sena, Alcivan Gameleira, Rodrigo Fernandes, todos de Pau dos Ferros. Emanoel Amaral, Gilvan Lira, Carlos Alberto, Marcos Guerra, Marcos Garcia, todos de Natal, e outros mais que não posso descrever aqui, devido o espaço de tempo. Mas há muitos no Nordeste que, como eu, com todas as dificuldades, conseguem produzir e divulgar seus próprios quadrinhos.

GCS.: Alguns acham que os quadrinhos têm por objetivo único divertir. Que outras funções poderiam ter tais produções?

AP.: Acredito que além da diversão que o universo dos quadrinhos proporciona, através de sua linguagem, podemos passar mensagens de superação, respeito, fé, dramatização, histórias e infinitos temas que podemos abordar empregando a linguagem das histórias em quadrinhos. Sem falar no emprego da alfabetização, incentivando os alunos do início do fundamental a gostarem mais da leitura. Todos que sabem ler até hoje, não todos, mas a grande maioria, aprendeu a gostar da leitura através da linguagem das histórias em quadrinhos.

GCS.: Diga-nos os meios de entrar em contato com você para encomendar revistas ou algum trabalho de ilustração. (E-mail, Facebook, Whatsap, Fone etc)

AP.: O meio mais fácil de conseguir encomendar algumas revistas minhas que produzi é através do Facebook ou do meu Email: antonietopereira@hotmail.com.

GCS.: Dê alguns conselhos aos que pretendem seguir esta carreira e deixe-nos suas palavras finais.

AP.: Para os que pretendem seguir essa espinhosa carreira dos quadrinhos, eu gostaria de dizer o seguinte: Primeiro, tenham bastante paciência; segundo, conhecimento de narrativa e algumas técnicas de desenhos básicos e terceiro, leiam bastante, pois quem trabalha com quadrinhos tem que ler de tudo, de uma bola de remédio a filosofia, pois tudo é informação para o cérebro. E através de bastante informação conseguiremos imaginar muitos traços e histórias contadas através das narrativas das histórias em quadrinho. Por fim, gostaria aqui de agradecer ao Blog da “APOESC”, que vem realizando um excelente trabalho em prol da cultura de nossa cidade e região através desse blog e do programa “APOESC EM CANTO E VERSO” veiculado todos os sábados pela Rádio Comunitária “SANTA RITA – FM”. A todos um grande abraço e um grande sucesso.