APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A Vaquejada e os discursos inventados:

uma interpretação histórica



O Brasil enquanto espaço político e ideológico foi construído por discursos e narrativas de elites políticas e/ou econômica. O Caipira, o nortista, o matuto O pantaneiro etc; são produzidos por conveniência social.
O nordeste, por exemplo; como espaço ideológico "nasce" nos finais dos ano 10 do século XX, para atender a uma necessidade dos grandes latifundiários e coronéis que outrora tinham prestigio e que se viam em vias de fato de perder o poder e q influência. Usando a pouca força que dispunham abraçam o IFOCS (Instituto Federal de Obras Contra as Secas) e suas obras superfaturadas para tomar de volta a direção, receber os investimentos e condiciona-los ao seu interesse. Então, a partir desta necessidade criam uma imagem forjada de um lugar terminantemente inóspito, atrasado, morrendo aos poucos, atrasado, miserável para construir uma imagem de necessidade e automaticamente a criação de uma indústria de recursos para a seca! Foram ajudados pela mídia, e artistas como Luiz Gonzaga e intelectuais como Gilberto Freyre. E assim, criaram a noção de Nordeste. Carente, arcaico, rural, tudo feito a sua necessidade e não com o intuito de fazer bem ao povo. E além disso obrigam ao nordeste e os nordestinos ficarem presos a sua realidade miserável. Rural, arcaica, arrasada... E nunca tais discursos evidenciaram que o dito Nordeste tem áreas de agrestes e litoral, ricos e prósperos; como também centros urbanos que cresciam e que hoje significam 77% da população, que tem menos de 1/4 vivendo em zona rural. 
Enfim, a imagem de Nordeste não verdadeira rotula, adjetiva, cria estereótipos e arquétipos.

Sendo assim, tendo noção de nordeste como uma invenção, os seus legados materiais e suas narrativas de memória e história são expressões usadas pela maioria dos discursos para causar compadecimento. Vejo, que nas últimas semanas a campanha #EUAPOIOAVAQUEJADA ganhou muita força, muito pela modinha de espalhar ideias nas redes sociais, e também por pessoa que não tem a menor noção do que realmente é cultura, patrimônio e memória. 

A prática da busca do boi no mato, a corrida de campo e no geral a vaquejada feita na apartação do gado são fenômenos ligados a atividade pecuária feita em larga escala no sertão brasileiro. Sua memória, conforme a historiografia consistem, no conjunto de objetos e nas narrativas históricas e não em uma nova perspectiva prática do tempo recente, adaptada e condicionada a capitalização de recursos. Como também Cultura e patrimônio não sofre descaracterização forçada para atender o entretenimento das associações de pseudo-vaqueiros e suas fazendas que mais parecem estações rebuscadas de equitação. E vale reiterar que tais Cool-Boys e seus representantes não remetem em nada a situação do vaqueiro nordestino, mameluco, mestiço ou escravo que fazia de couro de boi sua roupa porque o lucro da atividade não lhe dava a dignidade nem de comprar uma indumentária. Eles exploram mão de obra, andam de SUV e vestem roupas de grife.


Sabemos, segundo Le Goff; que memória é “o objeto ou a lembrança" , ou seja, não é somente o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. Estes materiais da memória podem apresentar-se sob duas formas principais: os monumentos, herança do passado, e os documentos, escolha do historiador” (Le Goff 2003 p.535)

Sendo assim, para ser Patrimônio; a Vaquejada não podia ter sofrido esse processo de alteração conveniente (ACULTURAÇÃO). A prática esportiva retirou a ligação do monumento (AÇÃO DE PROVOCAR a queda do Boi) do documento ( memórias e a narrativa e os relatos das festas de apartação nos interiores do que veio a ser chamado de nordeste).
Hoje temos uma empresa de grandes recursos, gerando emprego e renda; seria inconseqüente dizer que isso é ruim, claro existem pessoas que hoje dependem disso. Mas sou contrario ao fato de quererem justificar a manutenção da pratica da forma que é querendo justificar que Vaquejada é cultura, ou é patrimônio. ABSOLUTAMENTE não. Documento, História e monumentos são estudados e não condicionados a necessidade de uma empresa capitalista.

E lembremos...
De acordo com a Constituição Federal de 1988, Artigo 216, constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem as formas de expressão; os modos de criar, fazer e viver; as criações científicas(...)

Ou seja, o documento e o monumento que podem se referir a pratica da vaquejada devem ser colocados na sua condição de memória, e não servirem apenas para justificar uma pratica sem sentido, descaracterizada, profundamente urbanizada e fora do real significado.

Cordiais agradecimentos pela leitura e reflexão,

André de Souza Soares, professor de História.
Sitio Canoas, Japi, Rio Grande do Norte 04 de Novembro de 2016.



Referências:
LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.



Autor: André de Souza Soares