APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

A rezadeira - Rosemilton Silva


Outro dia estava me lembrando dos velhos tempos de novenas no Umbuzeiro, São Miguel e na Ramada, três fazendas anexas mas com dois donos se não me falha a memória já que nesse particular ando capengando de tanto “cachete”.
São Miguel, onde eu costumava passar dias e dias enfurnado com meus primos Rita, Marilita, Zefelita, Tonho, Duda e Nêro, todos filhos de tia Juliana, irmã de meu pai, casada com Pedro Amancio (Amanso, no registro), ainda me traz muitas lembranças principalmente quando subo o Alto do Cruzeiro ou Monte Carmelo ou, ainda e agora, Santuário de Santa Rita de Cássia, a Senhora dos Impossíveis porque posso ficar contemplando – mesmo tendo o alpendre modificado, a casa em que tanto dormi, comi, bebi, brinquei e, até, colhi algodão.
Pois bem. No baixio tinha uma casa que beirava um riacho que descia ladeira abaixo do Cruzeiro para desembocar no Trairí, em frente a uma bela quixabeira. Era nessa casa que morava Zefa Rezadeira antes de o vaqueiro Cícero, um homem nem tão franzino nem também tão forte, de bigode enorme, enrolado, bem ao estilo dos valentões da época.
Zefa era uma negra bonita, de ancas bem fornidas, seios proporcionais ao seu corpo, andar firme, elegante, de chamar a atenção. Rezava pra cura e pra puxar novena. Tinha duas filhas de um “amancebamento” cujo fulano, que vinha da capital todo mês e passava dois dias “chumbregando” na cama da negra que, como ela mesma dizia, “amanhecia leve, bem maneirinha que era capaz de sair avoando quinem aroprano”.
Lá um dia de sexta feira, perto do dia de São José, fomos nós no rumo do Umbuzeiro para a novena que Zefa ia puxar e, depois da novena, bater coxa num samba inté que alguém resolvesse espalhar pimenta ou pelo de gato no salão pra acabar o forró o que provocava, de imediato, um forrobodó.
Pois bem. Foi naquela noite que uma das filhas de Zefa resolveu fugir com um rapaz do Paraíso que Zefa teimava em chamar de “cabra”. A notícia chegou no meio de novena através de Maria de Pilar que cochichou no ouvido de Zefa o acontecido.
Zefa rezava. Ave Maria, cheia de graça – aquela condenada me paga – e pegava o restante da reza mais à frente. E foi nessa pisada até o fim da novena, com ladainha e tudo o mais. E era assim. Reza e “aquela cachorra da mulesta vai vê”, “Cuma é qui aquela bixiguenta faz isso”... E a gente se divertindo.

Rosemilton Silva