APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 18 de novembro de 2012

Duas esquinas enlutadas - Marcos Cavalcanti


Sexta-feira. Paro o carro na Rua Eloy de Souza para cumprimentar os irmãos João e Mário Alberto. Os semblantes dos dois antecipam-me que algo triste havia acontecido. Foi quando João disse-me que estava ali para prestar sua última homenagem à sua amiga Nulce. Saí do encontro lamentando que a paisagem humana e social de Santa Cruz, em menos de uma semana, ficava mais empobrecida, pois perdia duas pessoas muito conhecidas em nossa cidade. Ambas exerciam atividades afins e dedicaram as suas vidas à nobre tarefa de servir, de atender diligentemente aos outros.
Agora, são duas esquinas enlutadas, entristecidas e desconsoladas. Cada um de seus recantos, as suas paredes, os balcões, as prateleiras e utensílios sentem intimamente a falta de seus donos, de suas mãos familiares, de seus cúmplices olhares, de suas vozes preenchendo o ambiente. São duas famílias consternadas em seus sentimentos, saudosas da companhia afetuosa de seus dois entes queridos. São também centenas de fregueses que ficaram órfãos das presenças marcantes de Marcos Tchan e de Nulce do Cafezinho do Galego.
De Marcos, meu xará, apreciador de minhas magras crônicas, ficará a lembrança da atenção quase reverencial que me tinha. Quantas vezes, ao chegar no Fórum para trabalhar, não me chamava para dar alguma notícia ou para perguntar a minha opinião sobre este ou aquele assunto, creditando-me um “conhecimento” que, efetivamente, eu não tinha. O sorriso no rosto e o tradicional aperto de mão eram seu cartão de visitas. Sua simpatia, simples e verdadeira lhe rendeu muitos fregueses e amigos que por muitos anos frequentaram o seu conhecidíssimo estabelecimento comercial para tomar uma branquinha, comprar guloseimas, uma água, refrigerante ou simplesmente para jogar conversa fora.
De Nulce, mulher de fibra, mãe e avó dedicada, lembrarei, sempre grato, das vezes em que frequentei o seu cafezinho para tomar uma aguinha de coco, acompanhado de um pastel, e ela, sempre atenciosa, mesmo que não tivesse o que eu solicitava, pedia-me um minutinho e daí a pouco aparecia com o meu pedido nas mãos.
Uma das esquinas continuará o seu mister, com seu ponto  fazendo o mais famoso café da cidade, ainda que sem o toque especialíssimo da nossa saudosa e estimada Nulce, a Rainha do Cafezinho do Galego. Quanto à outra esquina, talvez não veja outras gerações e venha a sofrer as mudanças arquitetônicas que vertiginosamente modificam a nossa paisagem, mas certamente restará intacto em nossa memória sentimental, como o ponto sempre TCHAM da razão de viver de Marcos, cuja Marca de Fantasia se confundia com seu próprio ser, tornando-o uma das figuras dignas de nota e de homenagem na paisagem mais humana de nossa querida cidade de Santa Cruz.