APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

ENTREVISTA SOBRE EDUCAÇÃO

GILBERTO: Professor Ivanilson, inicialmente fale-nos sobre sua formação e pensamentos gerais sobre a educação.

IVANILSON: Sou pedagogo, pós graduando em Psicopedagogia, tecnologias e Educação a Distância. Trabalho como professor contratado da Prefeitura Municipal de Santa Cruz e professor do Núcleo de Ensino à Criança – NEC. Em ambas as escolas atuo como educador alfabetizador do 1º ano. Sou extremamente apaixonado pelo que acredito e faço no campo educacional.

GILBERTO: Ah, legal. Difícil tarefa.

IVANILSON: Realmente é muito difícil, mas sou idealista nato e acredito que a realidade brasileira só poderá mudar através da Educação.

GILBERTO: Ensino a partir do 7º ano e me espanto com alunos que chegam mal alfabetizados. Desconhecem o básico.

IVANILSON: É verdade, infelizmente isso é muito recorrente em escolas de todo o nosso país.

GILBERTO: Há algum segredo na alfabetização? Alguma regra infalível?

IVANILSON: Não existe uma receita infalível, tampouco segredo. Existem caminhos que podem ser seguidos. Até porque, ninguém aprende igual ao outro, nos somos seres únicos, ímpares. Para ser um bom alfabetizador o educador precisa, além de se identificar e gostar do que faz, ser capacitado continuamente.

GILBERTO: Interessante... então a qualidade do trabalho oferecido é que deixa a desejar?

IVANILSON: Nem sempre. São muitos os aspectos que podem interferir na aprendizagem da criança, desde problemas de organização familiar a distúrbios e transtornos de aprendizagem, estes de origem orgânica. O que contribui para o sucesso do aluno na escola dentre outras coisas, segundo pesquisas já realizadas: participação da família na escola, regras claras e professores capacitados e formados continuamente.

GILBERTO: Certo. E quanto à metodologia de ensino? Pergunto, assim, porque vejo muitas vezes, que para muitos críticos do sistema tudo parece reduzir-se à questão metodológica.

IVANILSON: Eu acredito que os métodos de ensino na alfabetização são importantes, o professor pode aproveitar o melhor de cada um, atentando para a real necessidade de seus educandos, tentando várias estratégias para que, efetivamente, haja a alfabetização completa da criança. Atualmente nós, alfabetizadores, trabalhamos na perspectiva da alfabetização interligada com o processo de letramento. O método, por si só, não garante a alfabetização da criança, mas as estratégias de ação que o educador utiliza para esse fim.

GILBERTO: Seu método de ensino tem algo a ver com o método silábico?

IVANILSON: Sim, nós alfabetizadores utilizamos muito esse método. Eu já trabalhei com vários métodos e posso garantir: o que faz a diferença é a forma como estes são trabalhados. Muita gente confunde o método silábico com o construtivismo, mas na verdade o construtivismo é uma forma de trabalho. Não existe método construtivista, existe a ideologia trabalhada desse conceito.

GILBERTO: Há algo do método Paulo Freire utilizável no ensino a crianças?

IVANILSON: Sim, em certas ocasiões utilizo o método global, até mesmo para que haja uma compreensão maior por parte dos meus alunos. Mas, não o utilizo como regra, como linha. "Quem anda em linha é trem". As metodologias devem ser variadas, principalmente
no período de alfabetização da criança. Jogos educativos, vídeos, slides, livros, dentre outros são fundamentais. Sempre associando o processo de aprender ao lúdico, ao divertido. O aprender brincando. Atualmente a escola pública possui muito mais recursos, didáticos, pedagógicos e financeiros, do que muitas escolas particulares. Trabalho com as duas realidades, tanto pública quanto particular e conheço as realidades de cada uma. Nas escolas municipais os professores têm uma gama de recursos pedagógicos disponíveis, mas muitas vezes não os utilizam, sem contar nos diversos cursos e formações que são oferecidas pelas secretarias. Acredito que o comprometimento profissional é essencial. As  mudanças na Educaçãobrasileira só acontecerão, efetivamente, se os professores se dispuseram a mudar. E claro, com a valorização desse profissional, fundamental e imprescindível para a formação da sociedade.

GILBERTO: Parece-lhe normal, para um determinado percentual de alunos, o chegar a séries subsequentes sem o devido aprendizado da leitura e da escrita? É favorável à progressão continuada?

IVANILSON: Não é normal, de forma alguma. É fundamental que essas dificuldades sejam sanadas o quanto antes, para não haver prejuizo para esse aluno. Sou favorável a progressão continuada sim. Não há razão em punir a criança porque ela não aprendeu. O período de alfabetização está também relacionado ao período de desenvolvimento da criança. Umas desenvolvem as habilidades de leitura e escrita muito cedo, enquanto outras demoram mais. Mas, a criança não deve ser punida com reprovação, isso até o 3º ano do fundamental I. Se a criança não foi alfabetizada nesse período, podemos elencar duas causas: incompetência da escola ou algum problema orgânico, que, infelizmente, são muito frequentes nas nossas crianças. Se a criança chegar aos 10 anos e não estiver alfabetizada é fundamental que a família procure um especialista, urgentemente.

GILBERTO: Pergunto isso porque parece haver uma crença, supostamente embasada em descobertas científicas, de que o despertar para a leitura e a escrita varie de indivíduo para indivíduo, podendo, alguns, carecerem de vários anos para o devido amadurecimento. Que pensa sobre isso?

IVANILSON: Como já enfatizei, o normal é que a criança seja alfabetizada, no máximo, até os 10 anos de idade, até porque, intelecto e psicologicamente esse é o período “normal” de desenvolvimento. Se isso não ocorrer é fundamental a ajuda de um especialista, seja psicopedagogo ou psicólogo, pois essa dificuldade pode ser acarretada por algum problema de origem orgânica.

GILBERTO: Durante um tempo, Emília Ferreiro foi muito requisitada no que concerne a métodos de aprendizagem. Atualmente, ela permanece sendo bem vista no meio acadêmico?

IVANILSON: Sim, Emilía Ferreiro é um dos ícones da Educação, não só na América Latina, como também em todo mundo. Ela é uma referência no nosso meio. Eu, particularmente, gosto muito das ideias dela, pois ela revolucionou a compreensão que se tinha sobre a alfabetização, especialmente quando disse que a criança pode ser alfabetizada sozinha.

GILBERTO: Que sabe e pensa sobre a filosofia que rege a Escola da Ponte, do educador José Pacheco?

IVANILSON: A Escola da Ponte é um referencial no mundo inteiro, isso porque desenvolve uma metodologia totalmente distinta das nossas escolas brasileiras. Como enfatiza Rubem Alves, a Escola da Ponte é totalmente diferente do conceito que temos sobre escola. Primeiro porque não há divisão de séries, anos, ciclos, todos os alunos estão pesquisando, aprendendo, se divertindo juntos. Não existe a sala de aula convencional, como a que temos atualmente, o espaço parece mais uma grande oficina, onde os alunos escolhem o que querem estudar. Na Escola da Ponte não existem horários, não existe o sinal para terminar e iniciar outra aula. Tenho um grande desejo de conhecer a Escola da Ponte, e acredito que conhecerei um dia, pois como escutei Rubem Alves dizer: só podemos entender o que é a Escola da Ponte quando a vemos. Quem quiser conhecer mais de perto essa escola, eu indico um livro maravilhoso do Rubem chamado: A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir.

CAPA DO LIVRO DO PROFESSOR IVANILSON

GILBERTO: Fale-nos de seu livro e o que pretende com ele.

IVANILSON: Meu livro, “Novas Tecnologias: desafios e perspectivas na Educação”, é uma produção destinada a professores, mas a pais também, pois trata de diversas questões relacionadas à educação dos filhos. É uma obra que pretende oferecer subsídios para a inserção das novas tecnologias na escola, especificamente na sala de aula. Pretende-se mudar a concepção errônea que alguns, a maioria, dos professores têm sobre as novas tecnologias. O objetivo maior do livro é contribuir para a mudança da Educação, mesmo que de forma indireta, no nosso Município, Estado e País.

GILBERTO: A maior parte dos educadores com quem convivo mostra- se extremamente desmotivada. Os baixos salários, o descumprimento de direitos básicos e a própria atitude dos alunos em sala de aula os fazem descrentes quanto a mudanças radicais. Que pensa a respeito e que conselhos daria a tais educadores? O que alimenta o seu idealismo?

IVANILSON: Primeiramente enfatizo que mudanças radicais não acontecem na Educação, tudo é a médio ou longo prazo. Eu, particularmente, acredito na mudança da Educação, isso já está acontecendo é só se fazer uma análise, por exemplo, da Educação de dez anos atrás e a Educação de hoje. Claro que está acontecendo uma transformação paulatina, mas devemos acreditar na mudança, caso contrário, nosso trabalho ficará muito difícil. Infelizmente ainda existem muitas “pragas” na Educação, professores, e não educadores, que estão numa sala de aula apenas para ganhar dinheiro e passar o tempo, nessas pessoas não existe amor pela profissão, apenas o desejo de levar vantagem em tudo. Essas “pragas” chamam seus alunos de palavras incabíveis a um verdadeiro educador. Claro que ainda existe muita desvalorização da profissão, salários indignos e muitas vezes condições físicas muito precárias de escolas, mas nem isso tudo pode ser pretexto para um professor não dá sua melhor aula. Ora, a pesar de tudo, precisamos ter amor pelo que nós fazemos. Nós não estamos domesticando, como já ouvi professor falar, estamos formando pessoas. O que alimenta meu idealismo, caro Gilberto, é a consciência de estar fazendo a minha parte para a mudança da nossa Educação, claro que os idealistas são chamados de loucos, tolos e outros adjetivos, mas estou certo, convicto de minha missão. Compartilho com vocês uma
analogia, que muitos já devem conhecer, sobre o idealismo que nutro: um dia, numa grande floresta, começou um incêndio catastrófico. Os animais corriam, voavam, nadavam, tentando escapar daquele terrível incêndio. Enquanto os animais fugiam, percebeu-se que um beija-flor fazia, repetidamente, um caminho inverso, ele enchia o seu pequeno bico de água, num lago próximo e despejava sobre as chamas. Os animais caçoando do beija-flor disseram-no:

- deixas de ser tolo, não estás vendo que não apagarás esse enorme incêndio?

O beija-flor disse:

Eu sei que não conseguirei apagá-lo sozinho, mas estou fazendo a minha parte.


GILBERTO: Muitos "educadores" olham com saudosismo para o tempo da palmatória e dizem que hoje não se aprende nada. Acham que a internet, devido o copy paste, atrapalha, que o uso dessas tecnologias são dispensáveis. Quadro, giz e disciplina seriam suficientes. Acha você que o internetês atrapalha a escrita? É a favor de censura na escola para determinados espaços virtuais (Facebook, Orkut, MSN)? Não poderiam estes ser poderosos aliados?

IVANILSON: Infelizmente ainda existem muitos professores (e não educadores) que têm essa mentalidade ultrapassada, parece que pararam, congelaram no tempo. São os velhos, na forma de pensar, da Educação. Eles realmente salientam que o tempo da palmatória era melhor, pois naquele tempo os professores eram os donos absolutos da verdade, não aceitavam serem contrariados, era o que Paulo Freire denominou de “educação bancária”, os alunos eram verdadeiros zumbis, passivos na aprendizagem.
Atualmente esse método seria inconcebível, isso porque os tempos mudaram, as pessoas mudaram, evoluiram, a Sociedade da Informação está aí, sedenta por inovação. É uma tolice pensar que os alunos vão ficar quietos, passivos, apenas recebendo informações prontas do professor na sala de aula. Atualmente nossos alunos não querem obter informações, porque isso ele tem acesso no computador, celular, televisão, etc. o que o aluno quer é esse conhecimento sistematizado, de forma que essa informação se transforme em aprendizagem. E se hoje eles acham que os alunos não aprendem NADA a culpa não é do aluno, a culpa é do próprio professor, que não procura uma forma nova de dar a sua aula, é a monotonia cotidiana da lousa e do lápis (não vou nem citar o giz).
A geração Y e Z são ecléticas, não se contentam com atividades desestimulantes e desprovidas de desafios. O professor do século XXI é um ser dotado de inovação e “antenado” com a realidade do aluno. Se esses professores retrógrados não mudarem, correrão o risco de ficarem sozinhos nas suas salas de aulas, dando aulas para as paredes. A internet não atrapalha o aprender, é uma bobagem pensar assim, pelo contrário, a internet é uma ferramenta poderosíssima que pode ampliar as visões que os educandos têm do mundo. Agora, é claro que ela precisa ser utilizada de forma crítica, pois algumas coisas são descartáveis e inúteis. Esse recurso pode ser muito rico, quanto ao copiar e colar isso é apenas um detalhe de metodologia, o professor precisa ser criativo e propor atividades que exijam, por exemplo, a opinião do aluno. A linguagem é dinâmica, sempre está se modificando, é bobagem pensar numa forma correta de se comunicar. Acredito que o internetês não atrapalha na escrita, desde que isso seja trabalhado com o aluno. É fundamental que a escola ensine a norma padrão da língua e saliente que o uso do internetês é válido em conversas informais, como nos bate-papos, por exemplo. Até porque nós mesmos, educadores, utilizamos esse tipo de linguagem, por assim dizer, no nosso dia-a-dia, seja nas redes sociais, bate-papos e SMS, todavia isso não interfere na nossa escrita formal. A utilização das redes sociais, blogs, chats e tanto outros recursos podem e devem ser utilizados na escola, desde que estas possuam um trabalho planejado e sistematizado com esses recursos. Em suma, alguns professores rejeitam as novas tecnologias apenas por medo do novo, são acomodados e não procuram inovar nas suas aulas, tais pessoas estão fadadas ao fracasso profissional, por isso que vemos tantas pessoas doentes na Educação, os alunos ficam inquietos, não porque não querem aprender, mas porque as aulas são incompatíveis com as realidades que eles vivem. Se os jesuítas pudessem visitar algumas escolas brasileiras, não se assustariam com as mudanças metodológicas, se sentiriam nas suas salas de aula do século XVII. Corroboro com as opiniões dos mais importantes educadores do nosso país e com as pesquisas científicas mais recentes, os alunos da atualidade são totalmente distintos dos alunos de outrora, pois houve uma evolução na mentalidade e no comportamento destes e da sociedade em que estão inseridos. Segundo pesquisas realizadas, uma criança de 3 anos de idade hoje tem o mesmo aprendizado de uma criança de 7 anos à 50 anos atrás. Então, é estupidez querer comparar nossas crianças às de outrora.

GILBERTO: Para que haja um efetivo aprendizado da língua, o que se deve priorizar: leitura ou estudo da gramática?

IVANILSON: A prioridade dever ser sempre a leitura. O estudo da gramática é muito importante, mas sem a prática da leitura torna-se vã. Quando se lê nosso cérebro cria padrões de leituras, que se acomodam e, com a prática, detecta automaticamente o que é correto aos padrões da nossa língua. Eu acredito que os dois se complementam, entretanto, a leitura é mais importante que o estudo exacerbado da gramática.

GILBERTO: Fale-nos mais um pouco sobre seu livro e dirija-nos suas palavras finais, deixando um texto para nossa reflexão.

IVANILSON: Bem, primeiramente quero agradecer o espaço que o amigo Gilberto me cedeu. Quero dizer que foi uma honra explanar um pouco do meu pensamento sobre a Educação, assunto que eu tanto amo e admiro. Sinto-me honrado em ser membro da APOESC e poder compartilhar um pouco com os leitores sobre a minha vida e as minhas aspirações. Retomando ao assunto do meu livro, o mesmo constitui-se de experiências, vivências e estudos durante os quase 4 anos da minha graduação. É uma obra que reuni os mais importantes teóricos da Educação, no que se refere a inserção das novas tecnologias no campo educacional. Tive o prazer de ter meu sumário escrito por um dos maiores especialistas do Brasil na área das novas tecnologias aplicadas aos processos educacionais, o João Mattar. A obra é muito rica, trata de várias questões relacionadas ao uso de tecnologias na prática pedagógica do professor, dentre outros assuntos. O pré-lançamento, só para convidados, está previsto para o dia 30 de setembro. Logo após estão previstos diversos lançamentos para o público em geral.

Concluo essa singela entrevista, pedindo desculpas se não corroborei com o pensamento de alguém, mas essa é a minha visão sobre a Educação. Não fiz uso de uma linguagem complicada, pois acredito que a objetividade é mais interessante do que os vocábulos difíceis. Nós educadores temos o poder de mudar o mundo, de torná-lo melhor. Ser idealista não é viver num mundo de fantasia, é tornar essa fantasia realidade. Ser educador não é tarefa fácil, nos angustiamos, sofremos, choramos, mas o que nos torna vivos é a certeza de estar colaborando para um mundo melhor, uma sociedade mais justa. Nossa função, como pedagogos e educadores, é desenvolver a melhor forma de ensino-aprendizagem. Uma nova forma de ensinar e de aprender, onde se valoriza o ser humano, sua relação com o mundo na sua integralidade. Nós, nesse novo papel, somos facilitadores, mediadores e colaboradores nesse processo. Como enfatiza Paulo Freire “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Não dispomos de todo o conhecimento terrestre, mas instigamos nossos educandos a obtê-lo. Nossa relação com os nossos aprendizes é semelhante ao lapidador: somos lapidadores de pedras preciosas, outrora adormecidas, à espera de toques mágicos e providos de saberes distintos, mas uma vez lapidadas, renascem em pedras preciosíssimas e de estimado valor.

Agradeço mais uma vez pelo espaço cedido e convido a todos os leitores, que quiserem conhecer mais o meu trabalho, a acessarem meu blog: www.ivanilson.com.