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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O PEDREIRO DO VERSO (Hélio Crisanto)

 

 

 O PEDREIRO DO VERSO

Não faço verso ligeiro
Nem canto de improviso
Mas sei tirar do juízo
Um verso limpo e certeiro.
Boto a rima no canteiro
Do prédio da minha mente
No texto sou exigente
Na palavra vivo imerso;
Sou o pedreiro do verso
Na construção do repente.

Reforçando a estrutura
Pego a enxada, traço a rima
Coloco a glosa por cima
E deixo pronta a mistura.
Boto a métrica na textura
Estro na porta da frente
Se precisar de solvente
No escanção eu disperso;
Sou o pedreiro do verso
Na construção do repente.

Hélio Crisanto

quinta-feira, 9 de julho de 2026

NUMA CASINHA DO MATO (poema de Hélio Crisanto)

 

NUMA CASINHA DO MATO

 
Na casa do sertanejo
Nunca falta um oratório
Tisna de fogão de lenha
Um tripé, um lavatório
Lampião, torno de rede
Corda na meia parede
Servindo de acessório
 
Tem na casa de um matuto
Um facão rabo de galo
Lata pra guardar xerém
Um chocalho sem badalo
Tem galinha poedeira
Telha rachada e goteira
Um arreio de cavalo
 
Uma manta de toucinho
Pra servir de refeição
Um chincho de fazer queijo
Gamela e pau de galão
Pilão, peneira, moinho
Na gaiola um passarinho
Saco cheio de carvão
 
Um pote com água fria
Um jumento no terreiro
Um cachorro vira lata
Com o nome de trigueiro
Uma trave na janela
Cangalha e forro de sela
Tem galinha no poleiro
 
Tem alguidar, tem quartinha
Paiol de milho da sala
Galinha choca num canto
Trapo de roupa na mala
Machado pra rachar lenha
Miado de gata prenha
Ralo de lata e bengala
 
Vê-se muito malassombro
No casebre do roceiro
Alma ofertando botija
A palhoça é seu banheiro
Uma porteira na frente
Tronco de pau no batente
Fumaça de candeeiro
Numa casinha do mato
 
É grande a satisfação
Tem fé e muita alegria
Tem abraço de irmão
Tem sorriso e muita luz
Tem oração pra Jesus
Na hora da refeição
 
(Hélio Crisanto)
 
 

terça-feira, 19 de maio de 2026

O NOSSO FORRÓ - Hélio Crisanto



 O NOSSO FORRÓ 


Já não se vê nos salões

Nosso forró genuíno

Clamo ao povo nordestino

Honrar nossas tradições.

Não aceite imitações

Ouça Petrúcio e Dió

Flávio lá de Bodocó

Gonzagão e Marinez;

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró.


Escute um xote de pinto

Azulão e mestre Zinho

Santana e Jorge de Altinho,

Não deixe o forro extinto.

Ouça um Côco de Jacinto

Desses que levanta o pó

Escute João Mossoró

Em todo dia do mês;

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró


Na sua festa junina

Se quiser um clima bom

Convide o mestre Marrom

Com zabumba e concertina.

Pelos salões de Campina

Quero ver um ritmo só

E Deda abrindo o gogó

Cantando com altivez.

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró.


Quero um São João genuíno

Sem sertanejo e axé

Tocando Flavio José

Para o povo nordestino.

Na poeira um dançarino

Dançando “qui nem jiló”

E o contratante sem dó

Pagando bem os cachês;

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró.


(Hélio Crisanto)



OBRAS DO AUTOR



sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Lançamento de O LAVRADOR DE RIMAS, livro de Hélio Crisanto


A Editora CJA tem a alegria de apresentar O Lavrador de Rimas, o mais novo livro do poeta cordelista Hélio Crisanto. 

Nesta obra, o autor exalta o sertão nordestino com a força de sua sensibilidade poética. Como o próprio título sugere, Hélio Crisanto semeia palavras e colhe emoção, conduzindo o leitor por uma prosa envolvente e profundamente nordestina. 

Descubra a beleza da cultura popular em versos que celebram a identidade e a alma do nosso povo.



sábado, 16 de agosto de 2025

O ALIMENTO DA MENTE (Washington Ribeiro, Hélio Crisanto e Gilberto Cardoso)


Quando uma entrevistadora perguntou a Washington Ribeiro, grande poeta e cordelista de Barcelona, RN, qual a importância do trabalho dele para a sociedade, ouviu a significativa resposta: 

"Sou produtor de alimento que a boca da mente come."

O poeta Hélio Crisanto viu a riqueza do pensamento e percebeu que o aforisma já nascera com a estrutura de mote. Não resistiu ao impulso de glosá-lo.



Eu também ousei fazer uma estrofe com base nele.













sexta-feira, 6 de junho de 2025

O NOSSO FORRÓ - Hélio Crisanto

 


O NOSSO FORRÓ


Já não se vê nos salões

Nosso forró genuíno

Clamo ao povo nordestino

Honrar nossas tradições.

Não aceite imitações

Ouça Petrúcio e Dió

Flávio lá de Bodocó

Gonzagão e Marinez;

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró.


Escute um xote de pinto

Azulão e mestre Zinho

Santana e Jorge de Altinho,

Não deixe o forro extinto.

Ouça um Côco de Jacinto

Desses que levanta o pó

Escute João Mossoró

Em todo dia do mês;

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró.


Na sua festa junina

Se quiser um clima bom

Convide o mestre Marrom

Com zabumba e concertina.

Pelos salões de Campina

Quero ver um ritmo só

E Deda abrindo o gogó

Cantando com altivez;

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró.


Quero um São João genuíno

Sem sertanejo e axé

Tocando Flavio José

Para o povo nordestino.

Na poeira um dançarino

Dançando qui nem jiló

E o contratante sem dó

Pagando bem os cachês;

Estão querendo de vez

Sepultar nosso forró.


Hélio Crisanto

sexta-feira, 11 de abril de 2025

HIPOCRISIA - Hélio Crisanto



HIPOCRISIA


A fúria escarnece a fé 

O ódio envenena a raça

A soberba vira as costas

À mão que pede na praça 

E o vinho da intolerância 

Abastece a nossa taça 


O fanatismo se agarra

Na mão da hipocrisia

A fome grita socorro

A igualdade é tardia

E a lei algema inocente

No chão de uma cela fria


O palor da face humana

Arde perante a cobiça 

A manhã desperta tensa

Como quem sente a carniça 

E o cão da impunidade 

Mija a saia da justiça 


(Hélio Crisanto)


Obras do autor:





quinta-feira, 9 de maio de 2024

NERUDIANDO NA ESQUINA (Hélio Crisanto)

 












NERUDIANDO NA ESQUINA


Hoje estive pessoando

Onde o verso se recria

Andei luas de Cecília

Mergulhei no mar de Mia.

Bebi na fonte de Lêdo

Sentindo a paz de Aedo

Na mais perfeita harmonia.


Gullar degustei com gula

Nos becos de Coralina

Na rebeldia de Lorca

Nerudiei na esquina.

Bem no meio do caminho

Drummond falava sozinho

Gregoriando a rotina.


(Hélio Crisanto)

quarta-feira, 1 de maio de 2024

PRINCESA DO TRAIRI - composição de Camilo Dantas e Hélio Crisanto



Parabenizamos ao poeta Hélio Crisanto e ao maestro Camilo Dantas pela canção PRINCESA DO TRAIRI, cujos versos e melodia bem representam o grande amor deles e dos demais trairienses por Santa Cruz. 

Graças aos recursos da Lei Paulo Gustavo,  foi produzido um belo clipe, disponível a todos no link:

https://youtu.be/K5rwMjJoF9M?si=yVqslL1_WcVNuhOe


PRINCESA DO TRAIRI


Aqui não é o céu mas tem um paraíso

Tem o sorriso de um povo acolhedor

Tem o reisado de Antônio da ladeira

Tem poesia na feira com viola e cantador

O santuário recebendo o ano inteiro

A visita do romeiro com a sua devoção

Nossa quermesse animando o mês de maio

Onde nela eu me distraio curtindo cada atração

As caminhadas no parque da Borborema

Cheirando a flor de jurema num passeio sem igual

Nosso passado como é bom a gente tê-lo

Guardado com muito zelo no nosso Museu Rural


Ó Santa Cruz terra tão bonita

Onde a mão de Santa Rita

Nos cobre de proteção

Quem te visita sempre quer voltar aqui

Princesa do Trairi, musa da minha canção (Refrão)


Composição: Camilo Dantas e Hélio Crisanto

Produção Musical: Elton Guedes

Produção visual: Felipe Santos

Participação especial: Diego Cassiano (Acordeon)


PREFEITURA DE SANTA CRUZ

LEI PAULO GUSTAVO

MINISTÉRIO DO TURISMO

GOVERNO FEDERAL

domingo, 28 de abril de 2024

A CAATINGA NORDESTINA PRECISA SER PRESERVADA - Hélio Crisanto



 A CAATINGA NORDESTINA 


Quando o machado feroz

Extermina a baraúna

Mata também a graúna

Que cala triste sem voz

A plantação de avelós

Já foi metade arrancada

E está sendo dizimada

Vítima da mão assassina

“A caatinga nordestina

Precisa ser preservada”


A ganância compulsiva

Aniquila a nossa flora

E o nosso bioma chora

Sem nenhuma alternativa

Canta triste a patativa

Emudecendo a toada

Numa aroeira queimada

Chora um galo de campina

“A caatinga nordestina

Precisa ser preservada”


Se a mata for destruída

Falta a flor pra jandaíra

Falta o néctar pra cupira

Pro bicho não tem comida

Azulão não tem guarida

Bate logo em revoada

A catingueira cortada

Bota lágrimas de resina

“A caatinga nordestina

Precisa ser preservada”


Lamentar é o que nos resta

Perante todo o extermínio

E o homem segue o fascínio

De destruir a floresta

A natureza contesta

Cada planta incendiada

Cada imburana ceifada

Cada galho que declina

“A caatinga nordestina

Precisa ser preservada”


Hélio Crisanto, do livro Uma lua, um café e um batente




segunda-feira, 15 de abril de 2024

NAS CINZAS DO FIM DO MUNDO - Hélio Crisanto














NAS CINZAS DO FIM DO MUNDO


Hoje as nuvens denunciam

Que no céu há explosão 

Humanos se digladiam

Nação combate nação.

A estupidez humana

Embrutecida e insana

Mata e fere num segundo…

Seu ódio vai destilando 

E os restos da paz queimando

Nas cinzas do fim do mundo.


Hélio Crisanto

segunda-feira, 1 de abril de 2024

NO SÍTIO DE JOÃO BEZERRA - Hélio Crisanto

 


NO SÍTIO DE JOÃO BEZERRA


Eu quero pedir licença

E a Jesus inspiração

Para falar de um sítio

Daqui do nosso sertão

Seu valor não é medido

E assim é reconhecido

O maior da região


O seu dono é João Bezerra

Desse lugar de fartura

Cabra rico e poderoso

Homem de muita bravura

Por ser muito inteligente

Virou o mais influente

No ramo da agricultura


João Bezerra nesse sítio

Tem zelo e muito cuidado

Se for num ano de inverno

Nasce tudo avantajado

Um certo dia eu não minto

Tirou o bico de um pinto

Pra fazer cocho pro gado


Jerimum de trinta quilos

Pra ele é coisa pequena

Batata de três arrobas

Não tem a pesagem plena

Mandioca de dez braças

Manda jogar para as traças

Arrancar nem vale a pena


Cento e trinta garnisés 

João engorda num chiqueiro

Cuidando diariamente

Pra lucrar muito dinheiro

Com xerém e fruta pêca

Mesmo num ano de seca

Ele exporta pro estrangeiro


As frangas do seu terreiro

Ninguém acreditaria

Quando estão aborrecidas

Botam três ovos por dia

Isso lá não é problema

Cheio de clara e de gema 

Tem forma de melancia


Quando tem festa no sítio

Depressa mata um barrão

Chama mais de mil pessoas

Pra comer da criação

Após toda a comilança

Distribui pra vizinhança

O que sobrou da porção


Num ano de pouca chuva

Algaroba sai mirrada

Cada vagem que o pé bota

Dá quase uma tonelada

Com dois palmos de largura

Manga já nasce madura

Bezerra nasce amojada


Surucucu de dez metros

Ele diz e não se acanha

O maturi de um caju

Dá cem quilos sem castanha

Uma cobra de veado

Mede o dobro do cercado

Amigo é grande a façanha


João cria com muita luta

Quinze pebas numa loca

Cada um come por dia

Trinta quilos de minhoca

Não vendo algum empecilho

Se plantar um pé de milho

Já nasce dando pipoca


Certo dia num barreiro

João pescou uma piaba

Lhe digo não é mentira

Até hoje ele se gaba

Era tão grande o peixão

Que serviu de refeição

Pra toda a Cacaruaba


João sendo um sujeito sério

Não gosta de cambalacho

Plantou um pé de banana

Na barreira de um riacho

A carga foi tão pesada

Que colheu numa tacada

Mil bananas num só cacho


Pariu vinte seis cabritos

Uma cabra que João cria

Pesando dezoito quilos

Cada bicho que saia

A cabra com muito jeito

Botou um em cada peito

Pra não haver regalia


Desse sitio todo o dia

Sai jarras de goiabada

Carretas de tangerina

Carro pipas de coalhada

No oitão, pra seu deleite

Corre um riacho de leite

Que alimenta a meninada


Nesse sítio minha gente

Nasceu um pé de pimenta

Com dez metros de altura

Mas isso ele nem comenta

Quem for lá verá a prova

A plantinha ainda nova

Sua sombra é opulenta


Nesse sítio me acredite

Tem um pé de abacateiro

João testou uma enxertia

Cruzando com um cajueiro

Esse pé quando se zanga

Bota caju, uva e manga

Safrejando o ano inteiro


Lá no curral de seu João

Tem um bezerro injeitado

Que costuma tomar leite

Num tambor enferrujado

Ele sem nenhum estresse

Numa mangueira abastece

Pro bicho ficar cevado


Na lavoura ele cultiva

Mil alqueires de feijão

Mil hectares de fava

Quarenta de pimentão

Possui seiscentos bois

Por lá um grão de arroz

Parece mais um melão


Lá em João um pé de cana

É grosso que nem coqueiro

Botando folhas de açúcar

Servindo pro mundo inteiro

Por ser tão batalhador

Virou grande exportador

Criou fama de usineiro


João Bezerra tem um burro

Galopeiro e andador

Mais veloz do que um trem

Possui no rabo um motor

Com tanta vitalidade

Se houver a necessidade

Ele puxa até trator


Esse burro minha gente

Andava o nordeste inteiro

Carregando rapadura

Quando João era tropeiro

Certo dia um caminhão

Bateu no burro de João

Virou num despenhadeiro


Na plantação de coqueiro

É grande o contentamento

Com tantos cocos gigantes

Que ninguém dar vencimento

Com a grandeza da planta

Amigo a água era tanta

Que João fez encanamento


João Bezerra sempre foi

Um homem de muita fé

Certo dia plantou milho

Na véspera de São José

Mesmo com tantas formigas

Mais de trezentas espigas

João colheu em cada pé


Num dia de muita chuva

João se encheu se alegria

Quando o viu o pluviômetro

Esborrotando água fria

Ele esqueceu emborcado

E viu que tinha sangrado

Duas vezes num só dia


Certo dia no roçado

João ouviu um barulhão

Algo muito assustador

Como se fosse um trovão

Não contendo a agonia

João partiu uma melancia

Saindo dela um leão


Esse sitio ele não vende

Por ser grande a sua saga

Não tem comércio pra ele

Com orgulho João propaga

Podem fazer fuzuê

Nem mesmo São Saruê

Vai ocupar sua vaga


(Hélio Crisanto)