segunda-feira, 31 de agosto de 2026

FMPB 2026 (12º Festival Música Potiguar Brasileira): finalistas e vencedores

 

 O 12º Festival Música Potiguar Brasileira (FMPB) ocorrido em 29 de agosto de 2026, em Natal, celebrando a produção autoral do RN e premiando artistas locais em diversas categorias,  reforçou o espaço da música potiguar e destacou novos talentos.
A disputa pelo prêmio total de R$ 9.500,00 (brutos) envolveu as seguintes apresentações finalistas:
"Correnteza do Tempo" - Leão Neto e Hélio Crisanto; "Pra Ver o Sol" – Ranier Alvez"Jandaíras" – Manoel Benedito; "Baião é Paixão" – Márcia Maria; "Zumbi" – Khrystal, Daniela Fernandes e Vinícius Araújo e "Eu Posso" - Sueldo Soares.
Classificação final

1° Lugar: 
"Eu Posso" - Sueldo Soares
2° Lugar: "Correnteza do Tempo" - Leão Neto e Hélio Crisanto
3° Lugar: "Zumbi" – Khrystal, Daniela Fernandes e Vinícius Araújo
4º Lugar: "Jandaíras" – Manoel Benedito
5° Lugar: "Baião é Paixão" – Márcia Maria
6° Lugar: "Pra Ver o Sol" – Ranier Alvez
A etapa final do 12º Festival Música Potiguar Brasileira - FMPB 2026 - Caravana Cultural ocorreu no Auditório Onofre Lopes, da Escola de Música da UFRN, em Natal.

As seis canções apresentadas foram selecionadas nas seletivas realizadas nas cidades de Santa Cruz, Currais Novos e Natal. As músicas foram avaliadas por uma comissão julgadora e por um júri popular.


O 12º Festival Música Potiguar Brasileira - FMPB 2026 foi realizado pela Pró-Reitoria de Extensão da UFRN (Proex) e pela Rádio Universitária FM e integra as ações do Programa Caravana Cultural.
 
Sueldo Soares - 1º lugar 
 
 Leão Neto e Hélio Crisanto - 2º lugar
 
Khrystal, Daniela Fernandes e Vinícius Araújo - 3º lugar
 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

VENDA DE LIVROS (Gilberto Cardoso)

 

Este poema reflete a conversa que tive com outro escritor que se mostrava infeliz com esta realidade. Sinto-me satisfeito com o pequeno ou médio alcance que tenho tido. Meu livro tem sido adotado em escolas particulares, consta em bibliotecas da rede pública e recebo muito feedback positivo. Às vezes vc compra e não lê, mas passa pra outro que terá interesse. É uma prova de amizade, sim. - Gilberto Cardoso dos Santos

 

VENDA DE LIVROS  

(Gilberto Cardoso)

 

“Vou comprar pra lhe ajudar”,

Diz potencial leitor,

No desejo de agradar

O expectante escritor,

Cujo riso esconde a dor

Ou melhor: a frustração.

Pensa: “Quantos comprarão

Com a intenção de o ler?”

E conclui com desprazer:

“Alguns sequer o abrirão!”

 

 

 

OBRAS DO AUTOR:

 

Nenhuma descrição de foto disponível. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

CONSCIÊNCIA FAMINTA

 

CONSCIÊNCIA FAMINTA

A mulher de branco sujo carregava um saco preto nas costas. Nele, algumas coisinhas e um lençol encardido. Suas dores, a cada dia, se intensificavam mais e mais. As feridas nas pernas coçavam. Sentou-se à sombra da árvore. Um bem-te-vi cantou que a tinha visto bem. Mentira!, disse para si mesma. Do saco, retirou um caderno. O que iria anotar? Uma lágrima caiu na grama da praça. Fixou o olhar numa formiga que carregava uma folha igual a ela, com o saco. 

Um jovem engravatado passou apressado. Ela também já tinha sido jovem e apressada. Ficou a observá-lo até ele se diluir no meio dos demais à procura da aposentadoria. A caneta falhou ao traçar seu pensamento. Pedir uma caneta de esmola, esse era seu projeto a curto prazo. Num prazo aleatório, estava a definhar com calma. O tempo não tinha pressa, ela também não. Quanta paciência para ficar livre do choro. Se morrer é o mesmo que dormir, como será sonhar sem nunca acordar? Sua única obrigação era com o pessimismo, produto final promovido pela escassez.

Um automóvel parou ao lado. Alguém deixou um prato de comida e arrancou em disparada. Ela pegou o prato com cara de filha. Logo, estava satisfeita, interagindo com as recém-chegadas proteínas. Soube que habitavam campos do sul. Numa fazenda de gado de corte, nasceram e cresceram bem-tratadas, longe dos pais, igual a ela em um orfanato. Sentia a força do boi sendo transformada em dejetos no seu interior. Ela estava renascendo e o outro, deixando de existir. Refletiu que amanhã será ela própria, fortalecendo as bactérias saprófitas num cemitério qualquer. Como há coisas para serem processadas. Meditou sobre a pausa na música; o vazio do espaço; incertezas dos sonhos. Alguém lhe diagnosticou como louca por se preocupar com o barulho que as tanajuras fazem ao expelir gases.

Pensou em comer doce de jaca. Imaginou a reação das pessoas se ela pedisse ajuda para fazer valer esse desejo. Ninguém iria prestar atenção, e, quando lhe desse atenção, diriam: vá comer pão. Doce de jaca é para quem tem condições de guardá-lo numa geladeira, dentro de uma casa, com crianças desejando o pote, fazendo parte de uma família organizada no barulho das arengas dignas de grau próximo de parentesco. Por que as pessoas pensam logo em pão? Se não quiser, fique com fome. Ela não se conformava em não ter sequer meios para criar uma história onde a protagonista seria uma jaca rejeitada pelo açúcar na composição do doce.

Deitou-se em cima do formigueiro. Para que perder tempo se coçando se havia formigas picadeiras para isso? Seu desafio seria suportar as picadas, incorporando mais dores às que já sentia. Arrochou uma toalha na cintura para ver se a dor na coluna tornava-se suportável. Olhou para o céu. Lembrou-se dos carneiros de nuvens que identificava quando criança. Bons tempos aqueles em que não precisava lutar pela sobrevivência. Agora, tinha a mais absoluta certeza de que havia dado certo na vida, pois sentia-se capacitada para receber o diploma de ex-vivente. 

Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 18.08.2026 - 02h54min

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O PEDREIRO DO VERSO (Hélio Crisanto)

 

 

 O PEDREIRO DO VERSO

Não faço verso ligeiro
Nem canto de improviso
Mas sei tirar do juízo
Um verso limpo e certeiro.
Boto a rima no canteiro
Do prédio da minha mente
No texto sou exigente
Na palavra vivo imerso;
Sou o pedreiro do verso
Na construção do repente.

Reforçando a estrutura
Pego a enxada, traço a rima
Coloco a glosa por cima
E deixo pronta a mistura.
Boto a métrica na textura
Estro na porta da frente
Se precisar de solvente
No escanção eu disperso;
Sou o pedreiro do verso
Na construção do repente.

Hélio Crisanto

sexta-feira, 31 de julho de 2026

ECOS DO EGO (Heraldo Lins)

 

 

 

ECOS DO EGO

Duas vidas sendo vividas. Uma observa o sol mostrando o amarelo invadindo o azul inocente da manhã; a outra mastiga cubos de cenoura, deitado de pernas passadas, pensando na pipoca doce que também trouxera para a cama de solteiro.

Naquele momento, passava em revista o dia anterior. A frigideira de batatas inglesa, no topo de um copo dentro de um prato com água, evitou que formigas de açúcar viessem destruir seu desjejum preparado na noite anterior. Seu pouco tempo disponível para sair com a barriga forrada fez-lhe preparar tudo, deixando a obrigação de que, quando fosse consumir, apenas espantaria o frio dos alimentos na boca do fogo.

Precisava chegar cedo ao clube de tênis. Enquanto mastigava devagar o já aquecido prato, olhava para a bolsa com uma infinidade de coisas dignas da bagagem de um peladeiro. 

Tentava relembrar o que mais acontecera ontem, enquanto passava a língua entre os dentes, querendo encontrar resíduos da cenoura e da pipoca mastigadas há pouco.

Lembra-se de que desceu no elevador, ligou o carro... Filmou as quadras já ocupadas por outros estranhos tenistas. Sua turma estava para chegar. Play, leu nas mensagens do grupo.

O céu, agora totalmente iluminado, trouxe-lhe uma avaliação do quanto perdera o significado as experiências ontem vivenciadas. Uma nuvem passa pela janela, levando a certeza de que amanhã ela não será mais lembrada. Como a vida é fugidia, pensa, mesmo sabendo que os acontecimentos servem para revelar a fugacidade da existência que, mesmo assim, ele a deseja permanente.

Fixa o olhar num ponto preto na parede para ter a certeza de que ainda está vivo e consciente. O sol forte o fez mudar de lado em que estava deitado. Fecha a cortina e relembra que foram quatro horas e meia jogando. Gritos eufóricos, conversas paralelas e o retorno feliz para ouvir da esposa que adora vê-lo com aquela cara de campeão.

Qual importância tem isso para um soldado ferido numa trincheira? Ele volta-se para a maciez da cama e agradece à natureza por não o ter feito herói. Prefere ficar no anonimato; assim, evita dar autógrafos.

Sua vida permanece sem agonias da dor. Seu pai viveu mais de noventa anos, aliviado por drogas que o faziam dormir. Ainda bem que ele não foi esse pai. Quão difícil seria ser pai e filho ao mesmo tempo. É mais fácil ser ateu.

Carla faleceu hoje às 06h15min. Enquanto comia pipoca, sua prima falecia. Foram mais de oitenta anos comendo pipoca e cenoura, igual a ele hoje pela manhã. O menino de Dora nasceu, essa é mais uma mensagem aberta no aplicativo. Quanto de pipoca esse menino vai comer? Carla faleceu sem precisar de bomba, e o menino, ninguém sabe se vai gostar de cenoura.

O sol foi esquecido, mas, só em dizer que ele foi esquecido, passa-se a se lembrar dele. O silêncio cuida disso, mas é difícil representar o silêncio com a grafia. As reticências são atemporais. Nenhum cientista mede o tempo com reticências.

Relembra o guarda parando-o na portaria. Novato é assim mesmo. O vizinho, perguntando três coisas ao mesmo tempo e pedindo para ele não atrasar nas respostas. O céu está limpo de nuvens, é preciso mudar o foco para não endoidecer. Se fosse mal-educado, diria que o vizinho é inconveniente, chato, alcoólatra... e mais, muito mais virtudes invertidas; porém, freia o pensamento por precisar tomar emprestada uma colher de açúcar, então, a partir daqui, todos os erros desse importuno serão convertidos em acertos.

O infinito não se preocupa com esse estresse de ser vizinho. Antes de ser alguém no mundo, já se é vizinho. Se tivesse a inteligência infinita, não estaria questionando o dia de ontem nem se preocupando com o idoso inconveniente que, de quando em quando, toca a campainha para saber se o barulho escutado veio do martelo que ele um dia viu em cima da pia.Tudo isso serve de munição para despejar na tela, pois entende que permanecer vivo é produzir, poluir, alimentar-se e, consequentemente, usar mais o banheiro.

No mercado, uma moça com meias cobrindo apenas as imperfeições passeia empurrando um carrinho de orgulho por ser tatuada. Ela nem sabe que é considerada como sendo um saco coberto de pele manchada, retocada pela meia transparente que cobre a catapora de infância. Ela compra pão para o seu tanque de pão, do mesmo jeito que o motorista compra gasolina para o tanque de combustível.

O dia anterior está indo embora na cachoeira das horas. Seus minutos passam de seis. Só tem tempo porque olha para o relógio. Se quebrar a hora, é o mesmo de estar quebrando os grilhões que o mantém preso na contemporaneidade. Não quer ficar livre do tempo, pois isso significaria ficar preso no vácuo desse tédio interminável.

Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 31.07.2026 - 06h40min.

sábado, 25 de julho de 2026

UMA ODE AO LIVRO FEITA POR RUBÉN DARÍO

Rubén Darío: El Hijo de Nicaragua que Iluminó al Mundo» | UNAN-León

Rubén Darío (1867 –  1916)

 

O LIVRO (El libro) - excertos

 

No poema “El Libro”, o consagrado poeta Rubén Darío celebra o poder espiritual, cultural e social do livro como força transformadora da humanidade. Trata-se de uma longa sequência de estrofes que exaltam o livro como luz, alimento, arma contra o dogma e fonte de amor. Eis algumas delas:


XLIII

O livro é força, é valor, é poder, é alimento; tocha do pensamento e manancial do amor. O livro é chama, é ardor, é sublimidade, consolo, fonte de vigor e zelo, que em si condensa e encerra o que há de grande na terra, o que há de belo no céu.

 

 

XLV

O livro!.. O livro! Que belas são suas frases ardentes! Caem sobre nossas frontes como chuva de centelhas. Transformam o homem, elas, e em essência benditas, elevam a alma adormecida, semeando com mão forte, no caos da morte, a agitação da vida.

 

 

XLVII

Quando triste alguma vez, a alma, sombria e muda, vê o abismo da dúvida abrir-se aos seus pés, do livro o brilho lhe talha a felicidade, e faz com que um céu se abra, e a razão antes morta se comova e desperte ao trovão da palavra.

LXI

O livro ilumina e recria: ergue o ser humano, e ao espírito ensina a religião da ideia, fazendo-o tocar e ver um paraíso celestial, onde nunca chega o Mal, nem, atormentadora e inquieta, jamais se ouve uma trombeta que chame ao juízo final.

 

LXVII

Eu sempre hei de amar o livro; sempre sua voz hei de ouvir, pois me ensinou a sentir e me levou a cantar. Ao seu fulgente irradiar formou-se minha consciência, e viu minha inteligência, muda, absorta, confusa, no céu da vida, relâmpagos da Ciência.

 

LXVIII

O livro tem cantares, e murmúrios e sorrisos, e queixas de brandas brisas, cadências de azuis mares; dos verdes olivares, os rumores melodiosos; e essas palavras de amores que dizem em tons suaves as palmeiras às aves, e as aves às flores.

 

LXXXVIII

Hosana ao Livro! Pois ele destrói, à face do século, o dogma, esse grande vestígio, essa torre de Babel. Hosana ao coração fiel, à ideia liberal, pois em seu carro triunfal cruza altiva a razão, cortando, pela extensão do mundo, a árvore do mal!...

  

XCII

Hosana ao Livro! Que o poeta tempere sua lira e o cante, e que com ele brilhe sua imaginação inquieta: que se torne profeta e contemple o porvir, e lá no céu veja brilhar a estrela do saber, com sua candorosa trilha de nácar, ouro e safira.