sexta-feira, 1 de maio de 2026

BELOS POEMAS E APELO DE JOSÉ ACACI

 


Olá, leitores e leitoras do Blog da APOESC!

É com imensa alegria que escrevo para compartilhar uma novidade literária: o lançamento do meu novo livro, "Meus Martelos em Galopes". Como um apaixonado pela métrica e pelo nosso cordel, esta obra é um mergulho profundo no ritmo e na força da nossa poesia popular.

Gostaria de convidá-los para um encontro especial na FLICOOP 2026, onde o livro estará em destaque. Para tornar tudo ainda mais vibrante, preparei um Show Poético/Musical focado exclusivamente nas poesias que compõem este novo trabalho.

Na feira, estarei muito bem representado pelas livrarias ARTBOOKS e B3S.

Um Pedido aos Amigos de Santa Cruz e do Trairi:

Além do livro, criei uma arte especial (o cartaz que ilustra esta postagem) em homenagem ao trabalhador. Meu objetivo é fazer com que essa mensagem de valorização chegue às Escolas Estaduais do nosso Rio Grande do Norte.

Peço o apoio especial dos leitores aqui da nossa Santa Cruz do Inharé para me ajudarem a divulgar essa arte nas escolas locais. A educação e a cultura caminham de mãos dadas, e nada me deixa mais feliz do que ver nossa poesia ganhando os corredores e as salas de aula.

Conto com a colaboração de todos para fortalecer esse galope da nossa literatura!

Caso queira, entre em contato comigo pelo fone/Whatsapp 84999519873 ou pelo email espacodocordel@gmail.com

Um forte abraço,

José Acaci


RESUMO E ALGUMAS POESIAS DO LIVRO MEUS MARTELOS EM GALOPES


Um livro de poesia popular nordestina, escrito em dois estilos: Martelo agalopado e galope. Tem prefácio do professor e filósofo Roberto Lima, membro da ANL, e orelhas de Aluísio Azevedo, escritor, livreiro e dono da Livraria Manibu Arte e Cultura. O livro, de 140 páginas, traz, no primeiro capítulo, as diferenças entre martelo e galope, e é composto de vários trabalhos que foram escritos há alguns anos e outros que foram escritos recentemente especialmente para o livro. Apesar de contar um pouco da minha trajetória poética, não se trata de um livro biográfico, e sim de livro de poesias cheias de lirismo, metáforas, e musicalidades que são intrínsecas ao cancioneiro dos repentistas. Durante a leitura o leitor se deleita com lindas homenagens à cultura nordestina, aos ícones da cultura potiguar, ao meio ambiente, à beleza do sertão, às mães e  à amizade, além de belas reflexões sobre a vida e sobre as relações entre as pessoas.


DUAS ESTROFES DA POESIA “GALOPE DA FEIRA”

(...)

Eu vi um programa, na sexta passada,

Falava de tráfico e de passarinho,

Mostrou que era crime prender um bichinho 

E mostrou os artigos da lei promulgada.

Porém, lá na feira, lei não vale nada;

O tráfico de aves é coisa banal,

É um desrespeito à lei ambiental,

Na frente do povo e das autoridades

Que passam do lado das atrocidades

E fazem de conta que é tudo normal.


Mestre Rui Barbosa, num seu manifesto,

Falou que um dia o homem que sonha

Com honestidade vai ter é vergonha 

De dizer ao mundo que ele é honesto.

Com esse poema da feira, eu atesto:

O “Águia de Haia” estava com razão,

Chance de mudança só com educação,

E se os políticos mudarem seus planos,

Quem sabe daqui a duzentos anos

Mudamos o rumo da nossa nação.

  


Uma estrofe da poesia “É MAIS BESTA DO QUE EU”


(...)

Meu amigo Zezim me disse um dia

Que um vizinho falou que eu era besta

E eu, besta que sou, tirei minha sesta,

Fui dormir e acordei no outro dia.

Zezim veio saber se eu não ia

Reclamar pelo que aconteceu.

Eu pensei sobre o que se sucedeu

E mandei um recado só de ida:

─ Quem se importa em falar da minha vida,

Com certeza, é mais besta do que eu.


Uma estrofe da poesia “PASSARINHOS NO QUINTAL”


(...)

Mas o tempo passou e os passarinhos,

Por não terem lugar para morar,

Se afastaram tentando encontrar

Um lugar para pousar e fazer ninhos.

Não tem mais laranjeiras com espinhos,

Nem se vê mais um pé de tamarino;

O progresso selou o seu destino;

Poucos pássaros ficaram na cidade,

E hoje, vendo um pardal, sinto saudade

Dos quintais do meu tempo de menino.


Uma estrofe da poesia “O TEMPO ESTÁ MUDANDO”


(...)

Dia cinco de junho, minha gente;

Faz lembrar nossa fauna e nossa flora,

É a data em que o mundo comemora

Como Dia do Meio Ambiente.

O poeta usa o verso e o repente

Pra dizer que “o tempo está mudando,

Mude a tempo”, que o tempo está passando

E, se nós não mudarmos de atitude,

Não teremos mais tempo pra que mude

O que a voz do planeta está falando.


Uma estrofe da poesia “MÃEZINHA QUERIDA”


Mamãe, eu me lembro dos teus cafunés,

Que quando criança você me fazia,

E quando, cansado, depois que eu dormia,

Você, com carinho, cobria meus pés.

Eu sei quem tu fostes e sei quem tu és:

És boa lembrança que hoje me invade,

Estás noutra face da realidade.

No céu, és um anjo guiando minha vida,

Lembrando tua face, mãezinha querida,

Não sinto remorso, só sinto saudade.

PARABÉNS, TRABALHADOR! (poema de Adriano Bezerra

 




PARABÉNS, TRABALHADOR


A cada trabalhador

Que enfrenta a correria,

Da rotina do trabalho 

Com coragem e valentia 

Para que não falte o pão

A minha admiração 

Parabéns pelo seu dia.


Seja você um vigia,

Um gari, um professor,

Moto-taxi, moto boy,

Taxista, encanador,

Arquiteto ou engenheiro,

Ajudante ou o pedreiro,

Jornalista ou locutor.


Vigilante ou zelador,

Marceneiro, ou artesão,

A doméstica, o agricultor,

Que cuida da plantação,

A cantora ou o cantor,

A atriz ou o ator,

Que sai na televisão.


Piloto, caixa, escrivão, 

Repórter, radialista,

Piscineiro, entregador, 

O mecânico, eletricista, 

Advogado, doutor,

Agente, supervisor, 

Cabeleireiro ou frentista. 


Açougueiro, motorista,

Manicure, tecelão,

Torrista, juiz, padeiro, 

Bombeiro, tabelião, 

Enfermeiro, delegado,

Esteticista, soldado, 

Alfaiate ou capitão...


Não importa a profissão

Se é gari ou se é doutor

Se não foi nem a escola,

Se tem grau superior

Importa a sua batalha,

E o amor com que trabalha

PARABÉNS, TRABALHADOR!


Adriano Bezerra 

Santa Cruz-RN



domingo, 15 de fevereiro de 2026

TRISTE CANÇÃO - José de Castro














TRISTE CANÇÃO

(Poema inspirado em tela de TulioRatto TR)

Eu toco o meu violino
Em claves de emoção
Timbre suave e bem fino
Das cordas do coração

Eu toco a minha rabeca
Ressoa triste canção
A vida me fez peteca
A voar de mão em mão

Vida afora vou tocando
As cordas do meu destino
A velhice vem chegando
E de novo sou menino

O tempo corre ligeiro
Vou seguindo por aí
Hoje sou um estrangeiro
Em busca eterna de si.

(José de Castro)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

FREI GILSON, O MOTORISTA E A PRAIA - Gilberto Cardoso

 


FREI GILSON, O MOTORISTA E A PRAIA

 

Um dos prazeres que tenho quando viajo é o de conversar com motoristas de aplicativos.

Geralmente são conversas curtas enriquecedoras ou amenas, aparentes bobagens que são prato cheio para quem escreve besteiras.

Os que andam comigo dizem que transformo estas viagens em sessões de entrevistas. Como alguém já disse, “Tudo que é humano me interessa profundamente”. Às vezes encontramos motoristas cultos, dispostos a falar, e outros bastante simples, mas de prosa agradabilíssima. Os chatos também marcam presença no aplicativo e nos fazem relutar em dar 5 estrelas.

Quanto ao que agora apresentarei, compete a vocês classificarem.

Nossa viagem foi pela manhã, pouco depois das seis. Íamos à praia. Perguntei-lhe sobre o evento da noite anterior ocorrido na orla com o Frei Gilson, se havia sido bom para ele.

“Foi e não foi”, disse-me (no primeiro “foi”, pôs ênfase vocal). “Muita gente na cidade, mais de 500 mil pessoas, mas o trânsito ficou horrível. Não faltavam chamadas no aplicativo, porém o trânsito emperrava tudo e a gente perdia tempo e gasolina. Mas foi maravilhoso ver nossa cidade cheia de turistas de vários lugares, até de outros estados. Mas isso já era esperado, pois Frei Gilson tem mais de 20 milhões de seguidores.”

Vinte milhões!?, exclamei. É gente demais.

“Na verdade ele tem e ao mesmo tempo não tem 20 milhões de seguidores”, depressa corrigiu-se o motorista. “... porque muitos deles o seguem em mais de uma plataforma. Vamos dizer que tenha uns dez milhões ou menos. Mesmo assim ainda são muitos!”

O Frei Gilson é o novo Frei Damião, até pelo modo como se veste e talvez seja da mesma ordem, comentei sem muita convicção do que tinha dito.

O motorista, após certos trejeitos faciais que sinalizavam discordância, disse: “É e não é o novo Frei Damião.” Mais uma vez, percebi ênfase na primeira palavra. “Trata-se de uma outra dinâmica e realidade. Frei Gilson tem se envolvido muito com política. Apresenta um perfil de direita bastante ostensivo. Já assisti algumas pregações dele e vi que ele é uma bênção para determinados políticos e uma maldição para muitos eleitores.”

Por associação, lembrei-me de fotos de Frei Damião com Fernando Collor e outros políticos da época, do aval que dera aos protagonistas do golpe de 64. A única diferença, talvez, esteja na ausência de sotaque italiano nas falas do Frei Gilson. Outra diferença é que Frei Damião não criticou o mandato de Lula, talvez por falta de oportunidade, pois morrera 5 anos antes.

“Aliás...”, disse-me Romualdo, o motorista magro cheio de reflexões, afastando-me das divagações. “... não entendo porque a igreja permite que ele celebre missas na Internet e ao mesmo tempo proíba Júlio Lancelotti de fazer o mesmo. Analisando melhor, eu digo que não entendo, mas entendo!”. Ênfase na última palavra desta vez. “A igreja sempre foi conservadora e aliada à classe política de direita”. Neste momento, aproveitando que estávamos parados no sinal, voltou-se para nós expansivo, fazendo gestos manuais: “Quero até pedir desculpas a vocês por estar dizendo estas coisas, pois pode ser que sejam admiradores de Frei Gilson e se sintam ofendidos”.

Como ninguém se pronunciou no carro, eu o tranquilizei. Disse-lhe que não somos ligados à igreja, tampouco conservadores. “E você”, perguntei. “... é católico?”. Fez pequena pausa e respondeu: “Sou e não sou...”. Ênfase no primeiro “sou”; depois, deu um sorriso à Monalisa ao qual não correspondi. “Gosto mais da linha do Frei Beto e de Júlio Lancelotti. Este último, sim, faz um trabalho maravilhoso, semelhante ao de Jesus: alimentar os famintos e agasalhar os com frio. Talvez a igreja queira escanteá-lo exatamente por fazer o que Jesus mandou!”

“Faltou você citar Leonardo Boff, também perseguido pela Igreja”, disse eu, tentando colaborar com seu pensamento. Mas logo veio a réplica:

“É...! Eu também gosto de Boff, mas acho que ele é e não é católico. Ele, de fato, deu motivos para que a igreja o silenciasse. É quase um ateu.”

Como fiquei em silêncio, prosseguiu: “As pessoas dizem que não devemos discutir religião, mas eu penso que não devem e ao mesmo tempo devem tratar deste assunto”. Ênfase no “devem” final. “Depende do modo como o tema é abordado.”

Olhou-me de lado como a querer ver o impacto de suas palavras. Acrescentou que a religião faz parte da vida, dá sentido à existência e que, por causa dela, havia muita coisa boa e ruim na sociedade. Revelou que queria se aprofundar no conhecimento dos pais da igreja cristã e que começaria por Santo Agostinho. Tinha tentado, dias atrás, ouvir o audiobook do livro Confissões durante as viagens, mas percebera que os passageiros não aprovavam. Teria que arranjar um tempinho extra.

Neste instante minha esposa o interrompeu, tentando mudar o rumo da prosa. Perguntou se o lugar para onde íamos era legal.

“É e não é.”, disse. “Mas não vou entrar em detalhes para não estragar o passeio de vocês. Estive lá uma vez. Há umas coisas que gosto, outras não. Vão lá e tirem suas conclusões.”

“Muito bem, Hamlet, ou melhor, Romualdo. Não dê detalhes”, sugeri eu. “Em breve descobriremos por nós mesmos se presta ou não.”

Romualdo perguntou-me rindo por que eu o chamara de Hamlet. Expliquei-lhe que havia sido um lapso.  E conclui a explicação com a famosa frase “Ser ou não ser: eis a questão!”

Fiz-lhe uma última pergunta: “Você é daqui mesmo?”

Silêncio total no carro por parte dos passageiros. Aguardávamos ansiosos um padrão de resposta e não fomos decepcionados:

“Sou e não sou. Nasci em Uberaba, mas vim pra cá com meus pais ainda bebê. Aqui me batizei. Portanto, sou daqui e ao mesmo tempo mineiro.”

Desejei-lhe um feliz ano novo. Replicou que, se Deus quisesse, ele teria e não teria uma boa entrada de ano, pois passaria trabalhando.

“Tudo de bom pra você, Romualdo. Você amanhecerá o ano novo com um bom saldo na conta”. E acrescentei: “... ou não, pois vai depender do trânsito, não é mesmo?”.

Havíamos chegado ao destino. Ele teve dificuldade de encontrar uma parada adequada para deixar-nos. Disse que seria em um ponto intermediário.

Iríamos descobrir em breve se seria ou não legal o passeio pretendido. Ficamos a refletir sobre a personalidade e ideias do Romualdo, enquanto buscávamos a passarela vista na net.

Não muito distante, próximo a uma pequena elevação sombreada, vimos um grupo animado cantando. Estavam uniformizados com camisetas coloridas onde se destacava a imagem do Frei Gilson. Um violonista, com mãos não muito hábeis, tocava o instrumento enquanto os demais cantavam um dos sucessos do pregador. Notei que a fé e os instintos aproximavam aqueles jovens no ambiente paradisíaco.

Devem ter participado do evento de ontem, pensei, e aproveitaram para vir à praia, em vigília, talvez. Seria gente do interior? Estariam hospedados ali por perto?

Fomos em sentido oposto ao do grupo e começamos a produzir alimento para o feed do Instagram. 

 Vi na areia algo lindo, colorido, que despertou meu lado criança. Seria uma flor exótica? Parecia um pastel transparente ou empanada. Pensei que fosse um brinquedo perdido intacto ou um prendedor de cabelo   infantil. Quando me agachei para apanhá-lo, um homem avançou como se quisesse pegá-lo, como quem diz “Eu vi primeiro!”. Deu-me um empurrão. Antes que eu esboçasse qualquer reação, explicou, enquanto me segurava, que aquilo não era um objeto; tratava-se de um ser vivo muito perigoso chamado caravela-portuguesa. "Bem pior e mais venenoso que a água-viva", disse-me. "A dor da queimadura costuma durar dois ou três dias", acrescentou.

Desculpou-se pelo gesto agressivo, acrescentando que aquilo me salvara de alguns dias de tortura. Pediu que tivéssemos muito cuidado, pois havia visto várias naquela manhã.

Duas pessoas com camiseta de frei Gilson se aproximaram. Um deles, com aspecto de europeu, apontou para o ser marínho e disse: "Sifonóro. Cdinário. Hidrozoária".

Imaginei: "Até estrangeiros vieram ver Frei Gilson!". Não eram. Tratava-se de um estudante de Biologia Marinha. Referia-se ao inconsciente pivô  da cena.

Fiquei feliz pela família não ter filmado nem fotografado o momento em que fui imobilizado. Quanto ao mais, foi tudo tranquilo. Gostei e não gostei.

 

Gilberto Cardoso dos Santos


  Contatos do autor: Fone 84 999017248;  Gmail, Instagram e Facebook: gcarsantos

Livros publicados:

 

 

 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

IDEIAS CRUZADAS

 


IDEIAS CRUZADAS


Passa horas sentado na poltrona, piscando os olhos a cada três segundos. A fome é recebida com alegria, pois testemunha que ele está vivo. Os mortos cochicham em seu ouvido: venha pra cá. Ele sabe que isso é uma forma de mentir para si mesmo.

Brinca com as crenças para conseguir sociabilidade. Acredita que estão todos perdidos, inclusive ele. A diferença é que percebe com clareza seus desatinos, evitando se iludir com as autopromoções de um ego inflado.

Alguém ali perto fala dos bombeiros e dá risadas, acompanhadas por quem antes estava sério e que, consequentemente, transforma-se à condição de risonho. Que droga! Há interferência do meio externo para que ele saia do tédio. Sua existência é questionada por si mesmo, até que se levanta para desligar uma torneira.

As quatro pernas da cadeira permanecem de prontidão, caso ele não queira cair. Levanta-se segurando no espaldar. Os passos são controlados pela insegurança. No caminho, uma boca acesa no fundo de uma panela chama-lhe a atenção.

Volta à posição inicial, de pernas cruzadas. Seu único divertimento é esperar o tempo passar, reforçando o ofício de desocupado praticante. Por mais que faça projetos, ele esbarra na certeza de que um dia irá apenas ficar deitado, olhos fechados, sem forças para abri-los ao final.

A água fervida vai para outra vasilha, carregada por mãos carentes de hidratação. O mesmo corpo que exige conforto encontra lazer em se manter hidratado, saciado e amparado, fazendo parte dos oito bilhões de organismos correndo em direção a um sanitário. Não há evolução. Um batalhão querendo se livrar das carências; outros, seguindo leis sem resultados práticos.

No intervalo do sono, o relógio mudou de posição por algumas horas, dando tempo para o feijão ser cozido. Um brinde trazido das terras de Pablo Neruda observa as tampas das garrafas que um dia serão retiradas por ele. Um ímã, enfeitado com a palavra love, paira na lateral da geladeira. Foi recebido em troca das novidades cuspidas com entusiasmo numa tarde de sábado, regada a muita alegria e atenção redobrada. Sua amiga, de macacão verde, promete outras viagens para daqui a seis meses. “Venho contar”, diz ela, na despedida.

A noite chega sem avisar, percebida pelos cliques dos interruptores. Um ferro de passar empurra a roupa ex-amassada para dentro do closet. Mais um esforço desperdiçado para acompanhar a moda do bem-vestido. Suprir as necessidades básicas já não basta. É preciso andar limpo, asseado, bem-apresentável. Tudo isso surge como se fosse natural.

A cabeça faz o papel de um relógio, tendo o pêndulo se transformado em tronco e membros, guiados pelo tique-taque de um relógio de parede. Este funciona a corda; aquele, a marca-passo; um registra horas, o outro, ideias.

Seu mundo espiritual foi diluído e triturado na máquina da realidade. O lado filosófico ficou sem voz ao ver um casal transformado pelo tempo. Ele chora ao perceber que também está se transformando em um estranho diante do espelho. Tenta se acostumar com sua nova aparência de monstro enrugado, e só não se suicida porque o sono faz isso por ele. 

Dorme cansado pelo peso de manter a corrente sanguínea passando pelos becos escuros das artérias. A escuridão empurra o resto de vida para debaixo dos lençóis, assim como o desprezo da vassoura empurra a poeira para debaixo do tapete.

Sua dignidade foi trocada por um alívio fugaz à base de paracetamol. Sofrimento com juros compostos. Está rico de problemas pessoais, convertidos em peso na consciência.

Permanece com saída apenas para cima. Seu joelho clama por descanso. Apesar de tudo, está contente por transitar no caminho usado pela maioria que sente inveja de quem está morrendo.

Mais uma noite está indo. Ele olha ao redor e não encontra ninguém para conversar. Todos estão ocupados em manter problemas oriundos das reações químicas do medo. Ele sabe que não adianta tentar contato fora do circuito do trabalho, então se conforma com o inconformismo inerente a quem perde o poder.

Precisa, urgentemente, investir em uma mulher artificial para trocar ideias. Uma que não se canse nem sinta vergonha de possuir uma bateria infinita, com programação de meiga, simpática, sensual e desbloqueada de pudor.

Quer que essa namorada venha pelos correios, embalada em plástico-bolha e pronta para uso, com HD cheio de estímulos, programada para aturar seus devaneios, seus debates infrutíferos e capacitada para responder sorrindo a agressões verbais.

Guardará ela no armário, com cuidado para que não caia nas mãos de estranhos. Quer uma completa, inclusive com autodefesa mortal contra desconhecidos. Por outro lado, teme ser confundido com um inimigo, mas a carência é tanta que decide fazer o pedido, mesmo correndo o risco de ser eletrocutado.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 20.01.2026 – 14h37min.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A COSTURA DO TEMPO

 


A COSTURA DO TEMPO 


O fundo é olhado com atenção. Entre os dedos, a ponta da agulha ficou para baixo. Dedos enrugados tentam passar a linha… linha, agulha e dedos se acasalam. O tempo espera essa manobra. Finalmente… não, ainda não foi concluída a tarefa.

É uma manhã de verão. Como era de se esperar, o sol surge com seu protagonismo de secar roupas, enrugar dedos e esquentar agulhas. O vento tímido não atrapalha o fogo, que esquenta a água para o chá — ou melhor, para o café. Chá ou café pouco importa, assim como a vida útil da agulha também tem pouca importância. A linha podre já perdeu seu branco vivo; hoje sobrevive amarelada, assim como o rosto da dona dos dedos enrugados.

A sandália convive com outros tipos de dedos da mesma idade. Dedos que nunca passaram uma linha pela agulha. Para estes, a realidade são bichos-de-pé, esbarrões na quina dos móveis e unhas encravadas. Duas realidades distintas para a mesma nomenclatura, assim como seres humanos das classes A e D.

A água borbulha. O fogo é desligado. O café é coado, bebido e desce pela garganta abaixo da matéria em formato de gente. A cafeína é deslocada para o cérebro, que mantém a atenção na agulha. Neurônios sentem-se confortáveis a ponto de indagarem se não haveria algo mais importante a fazer além de se preocupar em costurar. A hospedeira de tais neurônios não se dá ao luxo de pensar diferente. Sua vida inteira foi fazendo o que está a fazer.

O vento leva os retalhos pelo chão de cimento. Pedaços de linha acompanham o cortejo. Aos poucos, as nuvens cobrem o sol; eis o motivo de se precisar acender a lâmpada do ateliê pouco iluminado. A lâmpada queimada deixa a penumbra fazer a festa. Gavetas são abertas por mãos conhecidas pelas rugas, mas não encontram uma nova para trocar. O cérebro indaga se não seria melhor fugir daquelas necessidades banais. Ir embora para longe daquele corpo que precisa de linha, agulha, lâmpada, café, fogo… Ah!, pensa o cérebro, como seria bom viver apenas pensando, sem precisar executar.

O sol volta. A lâmpada nova é deixada para as próximas compras. Daqui a pouco. Que pouco? Poucos dias, poucos meses? Não há tempo para essa resposta. O tempo seleciona as respostas a cada tic-tac. A fila anda, mesmo estando parada. Esse malabarismo verbal nem chega a ser cogitado. Há pressa em colocar a linha na agulha; por isso, o prazer de questionar é eliminado antes de criar raízes, deformando o ser pensante em uma máquina executora de tarefas.

O vulcão, há milhões de anos inativo, volta a expelir lava. No ateliê, ao pé da montanha, a xícara de café acabara de ser lavada. Tremores dificultam a paz. Toda a atenção é voltada para a capacidade das pernas apreenderem a corrida. Cada um faz sua parte. Tudo pronto para a fuga.

Três anos depois, os bombeiros, retirando a lama dos corpos petrificados, encontram uma estátua tentando colocar a linha numa agulha.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 14.01.2026 - 09h42min.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

QUARTO VAGO

 




QUARTO VAGO


Devagarinho, procura uma ideia no meio do pensamento, como quem procura uma agulha em um palheiro. Até para pensar dói. Seus janeiros acumulados já somam bastante, e agora mais um está começando. Precisa descansar o dobro do tempo após qualquer tarefa realizada. Isso lhe chegou gritando na ressaca do espumante ingerido no pipocar do Ano-Novo. Doenças genéricas tomaram conta dos convidados, a ponto de um casal se ausentar porque a filha apresentou febre alta. Ninguém escapa da manutenção do corpo, pensa, ainda deitado, com a brisa ensolarada invadindo o quarto do hotel.

Examina as forças restantes e encontra fragmentos de sensatez implorando para que entregue os pontos à aposentadoria. Precisa olhar para a própria existência como um cientista examina uma ameba ao microscópio.

Seus sonhos estão se esvaindo, deixando-o solitário no meio da vida. A floresta dos anos passados, com suas árvores de acontecimentos, contrasta com o deserto do futuro, que se estende a perder de vista. As mesmas árvores brotam a cada segundo, sem apresentar novidades.

Escuta vozes vindas da cozinha. As mulheres preparam o café enquanto ele não quer se levantar. O que lhe faz bem é permanecer inútil, fechando e abrindo o punho para averiguar o restante das forças. Os sinais da desarmonia do corpo vêm em forma de dores. O cotovelo direito pede descanso do jogo com a raquete; as panturrilhas também. O raciocínio lento o impede de devolver a bola rápida que chega pelo caminho tão batido da quadra simulada. Perde o tempo da bola, mas teima em reiniciar quantas vezes for possível, tentando trazer para si o domínio do foco — por enquanto, em vão.

Relembra a conversa da convidada sobre a própria mediunidade, deixando-o entediado. Que besteira é falar de algo que não se pode provar. Isso não traz nenhum benefício prático.

A cor branca dos cabelos torna-se mais branca a cada encontro; a barriga saliente continua a dar a impressão de gravidez. Será que homens barrigudos nutrem esse perfil pelo desejo inconsciente de também poderem engravidar, assim como mulheres que usam calça pelo desejo inconsciente de urinar em pé?

Espanta essas interrogações sem respostas precisas e vai para o limbo. Lá só há anjos que não precisam digerir para sobreviver. Basta um sopro e lá se vão pelo caminho, sem gastar combustível. O ideal humano passa pela capacidade de se fixar no mundo dos deuses, onde não existem dores e, consequentemente, não existem imperfeições.

Volta ao que interessa: seu corpo. Seu desejo de dormir em um banco de praça, longe da praça, está se realizando. No jardim do hotel há um, pouco iluminado. Pensa na canção que fala disso e experimenta, satisfeito, sem receio de que chegue um guarda para impedi-lo de experimentar a decadência humana.

Os dias passam, carregando-o para longe da juventude. Os problemas chegam junto com o sol. São digeridos durante a manhã, vivenciados à tarde e remoídos a cada pesadelo interrompido para beber água. Será que todos da raça humana passam por isso? Insetos, vírus e bactérias também. Estão vivos — e esse é o preço para continuar vivendo, pensa, já sem esperança de se livrar dessas limitações.

Janeiro está indo. Outros virão, trazendo chuva, que o espanta por ter esquecido o que é. Água caindo de cima? Alguém está com uma mangueira. Suas lembranças da chuva foram embora, e a tempestade o impressiona. Como é possível? Sua capacidade de fazer perguntas continua, igual à de uma criança. Ninguém lhe responde, por não ter interesse em conversar com quem pergunta a mesma coisa a cada minuto.

A capacidade de criar problemas ampliou-se. As pessoas se afastam, evitando-o. Os futuros beneficiados torcem pelo seu fim definitivo. Ele, no fundo do cérebro, cata um momento de lucidez; porém, sua autoestima leva-o ao modo economia de energia, como um celular ultrapassado esquecido em uma gaveta de um hotel de repouso.

Vê, ali perto, alguém depositar mais um idoso ao seu lado. A cadeira de rodas substituiu um possível engatinhar. Ninguém aceita ver um idoso se arrastando. Ele pensa que é uma criança. Chora por não o deixarem ir para o chão. Sente-se desconfortável com uma jovem limpando sua baba.

Restabelece a conexão com o presente. Chega a hora da sopa, do caldo com pão e queijo assado. No refeitório, pessoas desgastadas pelo tempo dividem a mesma mesa. Ao lado, alguém se engasga. Correm para salvá-lo, conseguindo uma morte sem sofrimento.

Daqui a pouco, a movimentação será grande. Haverá padre, familiares chorando, mas a vaga no quarto será preenchida já amanhã. A morte passa a ser motivo de festa. As funcionárias receberão gorjetas gordas, e ele se interroga qual será a data em que irão surrupiar seus pertences e vender seu crânio dissecado para colecionadores.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 13.01.2026 – 15h19min.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

LUCIDEZ EM RUÍNAS

 


LUCIDEZ EM RUÍNAS


A luz penumbrada deixa-o consciente de sua insignificância. Já não tem a preocupação de que alguém esteja prestando atenção no que faz ou diz. Sua latinha de aguardente fora ingerida, e só lhe restava esperar que o sono cumprisse seu papel de tirá-lo daquela realidade da qual quer fugir.

Ao longe, um barulho alternado de gritos eufóricos o faz relembrar a juventude passada naqueles ambientes festivos. Que valor teria agora? Suas antigas namoradas estão idosas — algumas mortas, outras dementes — e ele ali, remoendo os tempos de glória.

Embaixo da cama, dormindo ou fingindo dormir, um cão cego, companheiro de tantos anos, já quase não late; geme, coberto de carrapatos a lhe sugar.

Agora ele brinca com os pensamentos. Ainda bem que tem vasto material para explorar. Lembra-se dos quatro caminhões consumidos na farra. Isso já não tem importância, nem para ele nem para os colegas atuais, que sabem de cor as histórias por ele repetidas.

A madrugada é cruel. Mata aos poucos, torturando-o com a falta de plateia e de sono. Pensa em levantar o braço para coçar a cabeça. Esse movimento torna-se motivo de entretenimento. Pensa, espera alguns segundos, abre a mão, levanta o braço imaginando ser um guindaste erguendo a Torre Eiffel. Toca a cabeça e, finalmente, massageia o couro cabeludo. Aos poucos, vai descendo o braço, exatamente como alguém que aguarda a cadeira elétrica. Precisa desses truques para manter o pensamento no tempo presente. Tudo de que gosta consome sua aposentadoria lentamente, a ponto de contar os centavos restantes para suprir sua vontade de permanecer gordo. Uma das tarefas que lhe restam é andar dentro de casa, contando os passos, sentindo o peso do corpo produzir dores nas articulações gastas pelo esforço de peladeiro de fim de semana.

Ninguém mais para esbarrar nele. Olha para uma rede, enrolada em um gancho, esperando que ele a desenrole, retire-lhe o mofo e as teias de aranha que servem de enfeite. Pelo menos algo para relembrar a importância do trabalho. Será que a aranha está estressada pela falta de mosquitos? Finge ser uma delas ao lembrar quanta teia precisou para segurar uma amante: joias, carros, restaurantes… Suas teias despedaçaram-se. Ele se sente uma aranha sem teia.

Isso é depressão? Antes fosse; pelo menos se divertiria olhando nos olhos da estagiária de psicologia. Observaria sua pele jovem, seus olhos cheios de esperança; testemunharia a ingenuidade do início de carreira. Mas ele é inteligente, e cada tristeza é logo diluída pelas interrogações que faz sobre o próprio estado de espírito.

Ah, como era bom quando se iludia com os sentimentos amorosos. As decepções eram levadas a sério. Acreditava que o amor existia só porque sofria a cada romance desfeito. Era tudo jogo de interesse. 

Quanto tempo precisou para perceber o quanto era escravo dos hormônios?

Perceba ele ou não as limitaçoes humanas, a madrugada permanece, dizendo-lhe que está preso a outro tipo de experiência. É como se fossem molduras, enquadrando-o em realidades encaixadas de acordo com a idade. Parece estar em uma esteira de linha de produção biológica que vai acrescentando memórias, rugas, dores — tudo isso com o único objetivo de moldar o pensamento. Mas ele está maduro demais para cair nessas ciladas armadas pela condição física, pelas repetições do sol nascer, do galo cantar ou da chuva batendo no telhado.

Será que a capacidade de perceber as armadilhas não é, ela própria, uma armadilha?

O senso crítico o aprisiona. Sente-se vítima do sistema digestivo, tão complexo quanto o financeiro. O corpo pede descanso. Ele se dá fadiga ao ir ao mercado buscar restos de fim de feira. Tem vontade de catar lixo, de sentir o olhar discriminador dos que catam milhões na bolsa de valores, mas é orgulhoso demais para isso.

Os dias se arrastam enquanto ele passa invisível no meio da multidão, lotada de caras deformadas pelo trabalho. As maquiagens derretendo-se ao sol escaldante têm, para ele, o mesmo significado do rosto suado do estivador. Como é cansativo se deixar assar pelo sol. Analisa a corrente de ar e chega à conclusão de que o papel dela é infectá-lo de vírus. A natureza usa suas armas sutis para exterminá-lo. As estações do ano, com seus choques térmicos, também lhe tiram a força.

Permanece prisioneiro da missão de ser educado, pedindo desculpas até por ainda respirar sem ajuda de aparelhos. Tem consciência de que está sendo assassinado pelo tempo. Cada segundo é como uma punhalada em seu coração, que bate distante e sem pressa até na hora do medo.

Tem vergonha de não ter tido coragem de ver a mãe sendo dilacerada pelos vermes. Preferiu que isso acontecesse debaixo da terra; por isso fez com tanto esmero o enterro dela. Ninguém para fazer o seu.

Olha para uma banca de verduras ao lado de um esgoto a céu aberto e percebe o ambiente gritando “Fracassado” em seus ouvidos. Ninguém precisa relembrar sua atual condição de morador do fundo do poço. O bêbado, dormindo na calçada, faz isso sem muito esforço.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 29.12.2025 – 07h01min

domingo, 28 de dezembro de 2025

MOMENTOS FUGAZES - Silas Medeiros Cruz



MOMENTOS FUGAZES


Por que são tão fugazes os momentos mais sublimes? 

Por que tão encurtados os instantes em que verdadeiramente se sente? 

Há por acaso um mortal que declare inabalável hoje: estou satisfeito e contente? 

Antes fosse assim!

 

Será que ninguém se apercebeu, nesta vida tão onírica, que, quando as gloriosas epifanias se dignam de cumprimentar-nos, quase sempre despercebidas terão elas passado? 

“Que desperdício!” Assim deveria encerrar-se as alegrias e os lamentos de todos os homens, e seus planos. Que desperdício do viver; de seus regozijos, tormentos e até dos seus sonhos!

Ah, momentos saudosos! Só agora vê-se quanto impropério vos legaram os tolos flagrantemente. 

Esses sem rumo ou sabedoria, andarilhos sem destino, que vos ignoram impunemente. 

Deixa-me, no entanto, peço eu bem agora, entendendo o que dantes me era obscuro, 

Que num relance final não me seja negado corrigir, ao menos em mim, tamanho absurdo – tal atitude funesta.

 

Que apenas desta vez, ainda que neste mui breve suspiro, absorvido, absorva eu a vida, o mundo e tudo que me resta.


Silas Medeiros Cruz


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

DOR INFINITA

 



DOR INFINITA


A morte de uma criança causa alvoroço ainda maior quando a babá suicida é a responsável pelo ato. “Oh!”, gritam os menos desavisados. “Você vai ver esse desenrolar?”, perguntam as beatas acostumadas a se benzer sempre que se deparam com um desvio humano desse tamanho. “É coisa do diabo”, dizem, sem largar o terço que empunham como espada.


A mãe urra de dor. Seus dois descendentes acabam de ser eliminados do mundo dos vivos. Por mais que se trate de um ambiente de classe média, a média da maldade permanece a mesma, independentemente de haver ou não o que comer.


Canção de Ninar começa pelo fim trágico e retorna aos preparativos para contratar uma trabalhadora que permita ao casal continuar trabalhando. Imigrantes, sim — desde que estejam aptas a chamar a polícia ou a ambulância caso as crianças, ainda não assassinadas, corram risco de morte.


Ninguém sabe o filme que passa na cabeça daquela que foi escolhida para a função de babá. Aparentemente, tudo deveria se encaixar na responsabilidade de dar prosseguimento à vida, e não o contrário. Todavia, as curvas dos acontecimentos despertam a vontade de permanecer lendo. “Viajar”: esse é o termo mais usado por quem busca viver realidade e fantasia simultaneamente.


“Aqui estou”, diz o outro que espia devagar a família montada como se fosse um palco onde seriam encenados os infanticídios. Pai, mãe, avós… O menu de personagens está completo. Há ciúmes e interferências da famosa “colher” que se mete entre marido e mulher. “Tão lindos”, pensa a babá, sonhando em estrangulá-los assim que não conseguir lidar com suas fantasias de fazer parte de uma família equilibrada.


O cotidiano instiga o arrependimento da mãe, que sente estar sendo devorada pelos pequenos, carentes de sangue branco. Sugam-lhe os seios, a paciência, as forças. A rotina do lava/enxuga/passa tira seu brilho: escrava disfarçada pelos hormônios maternos. E assim a vida sonhada torna-se pesadelo. A repetição atrofia os pensamentos. Onde antes existia racionalidade, abrem-se desvios para futilidades: urinou, defecou, bocejou — e tome irritação. O corpo deformado pelo suga-suga já não encontra vergonha em mostrar seios flácidos e caídos; o que importa é sobreviver cumprindo o papel que lhe fora determinado.


O antigo colega de turma não percebe seu tormento, mascarado pelos gritos da filha mais velha. O pequeno dorme, aguardando as garras que irão arrancá-lo do sono inocente para o eterno. Parece até dizer: “Que seja cumprida minha sina de viver pouco”, enquanto ressona nos minutos que ainda lhe restam.


O medo de perder esses “senhores” a aterroriza. Um cadáver, em vez de uma criança, lhe vem à mente. A diferença está apenas na capacidade de se locomover. O sangue estacionado apodrece rapidamente. “As bactérias comendo meu filho precisam desaparecer, enterradas logo”, pensa. “Para que não reste, aos meus olhos, a imagem da putrefação.”


A fada transforma-se em bruxa ao tomar posse das chaves da casa. Ninguém para vigiá-la; entra o bel-prazer de causar desprazer. Mas antes é preciso conquistar a confiança do casal: prega botões, lava cortinas amareladas pela nicotina tão comum em casas de fumantes. O carrasco torna-se indispensável.


Para justificar o infanticídio, surge a menina malcriada, esperneando em praça pública e trazendo vergonha para quem não tem domínio — mesmo sendo paga para isso. O leitor começa a ter motivação para ficar do lado da assassina. Pobre, trabalhadora e ainda ter que aguentar a birra de uma menina magra, feia e cheia de querer. Há uma certa simpatia escondida na torcida.


Por outro lado, a mãe justifica o infanticídio ao desprezar a família em prol da carreira. A maioria age assim. Leïla Slimani apenas trouxe o que realmente acontece. Exagero ou não, a trama se mistura com a realidade de uma artista mulher, que fala do lado de quem recebe o sêmen do marido e tem suas entranhas rasgadas por uma criança saindo pelo canal.


Uma pitada de traição faz o leitor torcer pela dupla que se vê, profissionalmente, todos os dias. Não dá para pensar diferente numa relação aproximada entre sexos opostos. Vinho, relaxamento após a carga de compromissos… ninguém é de ferro. Um beijo distante do compromisso das alianças não faz mal, desde que ninguém saiba que algo a mais aconteceu. A vida continua trazendo surpresas além do planejado. “O que é que tem? Só um pouquinho. Não tira pedaço.” Recompõe-se o objetivo além do quadrado no qual se está inserido.


Na tarefa de casa, um aniversário organizado pela superbabá: crianças chegam, brincam e vão embora depois de terem sido envolvidas pela turma comandada por uma adulta com cérebro de criança. Há empatia, e elas adoram aquele aniversário nunca tão divertido. Choros por não encontrá-la no esconde-esconde e risos logo em seguida do “achei”.


A intimidade prossegue a ponto de as férias contarem com ela no rol de hóspedes. A Grécia com seus deuses encanta a babá que não pode entrar no mar: “Não sei nadar.” O marido procura ensiná-la a boiar. Seu corpinho, antes ignorado, é suspenso pelos braços peludos do patrão, enquanto a mãe vigia os filhos à distância. É acordo firmado entre ambos que ela aprenda até o fim da temporada.


A vizinha viu tudo — ou pensou ter visto um sinal de desordem no semblante da babá, algo que denunciasse a premeditação do crime. Queria fazer parte do noticiário; afinal, sua vida inteira no anonimato a deixava ansiosa pelos cinco minutos de fama. A televisão a entrevistando:


“Admirava-me o grau de cuidado que ela tinha com as crianças; sempre me cumprimentava ao entrar no elevador; calada, mas atenciosa, com olhar de respeito e admiração. Todos gostávamos dela. Agora percebo que não foi sorte do casal ter encontrado a babá perfeita.”


Comentário das psicólogas: “Quando perceber alguém muito perfeito, tenha cuidado: pode ser psicopata exercendo comportamento ensaiado e preparando o bote.”


A futura assassina está sozinha em seu apartamento alugado. Distante do que mais gosta de fazer, contudo é obrigada a seguir a legislação trabalhista: seu trabalho é seu hobby, e ninguém perguntou se ela queria folgar naquele sábado. As lembranças das férias, fazendo parte de uma família, trouxeram-lhe melancolia. Fica em casa, na companhia da sujeira e da obrigação de limpar depois de um mês de acúmulo, longe daquele marasmo com odor de umidade mofada. Está na idade de deixar os sentimentos virem à tona, sem se preocupar que, para tudo, há um preço: o preço de se perder na multidão; de apontar e ser atendida. Seu universo transita apenas no servir. É como um labirinto sem degraus para outra opção.


Lembra-se do marido morto, seco e pálido, deixando dívidas suficientes para que ela nem tivesse onde morar. A filha fujona nunca mais deu as caras — e, se deu, ela já havia sido despejada. Comeu biscoito num quarto de hotel durante semanas. As dívidas deixadas serviram para alimentar o fogo no quintal antes de sua saída. O pouco dos móveis restantes foi incorporado ao vuco-vuco do bairro. Uma mala de couro velho e uma bolsa desbotada serviram para levar suas coisinhas até o hotel familiar. Ali, imaginou o que fazer a partir daquela nova realidade. Adorava crianças só pelo fato de poder exercer poder e transformar menininhas em damas da noite em miniatura antes de os pais chegarem e verem a maquiagem carregada no rosto da inocente.


Seu passado, cuidando de uma velha nua na cama, veio com nitidez. Seus músculos foram bem aproveitados no manejo da milionária incapaz depois de uma queda. Sempre cuidou de gente — crianças ou idosos — e nunca soube fazer outra coisa, o que incluía também os afazeres domésticos. Não tinha sonhos, apenas trabalho. Tarefas a fazer e logo feitas. Rápida como ninguém, dava-se bem onde chegava, menos quando voltava para casa, longe de sua obrigação. Não sabia o que era diversão. Distante do universo da servidão, sentia-se um peixe fora d’água.


Por trás das crianças que tanto ama, existem os inimigos: os pais. Ela quer as crianças para si. Não aceita ficar longe, sabendo que os pais estão se divertindo com aqueles que ela tanto cuida. Tem receio de pedir para ficar no fim de semana. Precisa folgar, mas só ela sabe o quanto sofre por isso. Seu mundo está misturado com a vida deles. Ela nem sabe que o pai já não suporta tanta perfeição numa babá. Ele, que bebeu quando os filhos nasceram, percebe que está um degrau abaixo daquela a quem paga tão pouco.


Finalmente, visitam a mãe dele sem a babá. Aproximam-se mais dos filhos, um pouco esquecidos pelos compromissos de serem jovens e ambiciosos. Precisam dar o melhor de si enquanto têm energia.


A babá tímida está sendo comparada à Macabéa. Ela não sabe quem é Clarice Lispector e muito menos leu A Hora da Estrela, romance que deu origem a filmes, peças de teatro e resenhas nos principais jornais da época. Ela simplesmente é um objeto na mão do destino que resolveu se divertir massacrando-a. Até numa festa, ela se sente entediada a convite de uma amiga que mal a conhece e que a coloca sentada ao lado de um cantor fracassado que fala de música — e ela, então, percebe que não conhece nenhuma, a não ser a que canta para as crianças. Seu repertório se resume a trocar fraldas, dar mamadeira e colocá-las para dormir. Nunca pensou em ler romances além das historinhas infantis que reinventa a cada leitura, inserindo bruxas e homens maus contra as princesas, tentando incutir medo para trazê-las quietinhas.


Talvez seus impulsos psicopatas estejam sendo moldados por esses personagens, ou talvez sua solidão de viúva jovem, somada às ameaças dos credores de torná-la uma possível moradora de rua, a tenha transformado em uma assassina suicida. “Se eu não posso ser feliz, ninguém mais pode”, pensou ela de súbito, sem se dar conta de que estava pensando assim. Isso foi em fração de segundos. Sua índole boa está sendo deformada pelos acontecimentos cruéis. Seu pensamento iria descer ou subir para encontrar, como única alternativa, o suicídio. Ela nem sabe se ama a vida; apenas vive como um caracol em sua casca, sem abrir-se para o mundo. Pensa em ser demitida quando as crianças não precisarem dos seus cuidados. Adoece e, pela primeira vez, falta ao trabalho.


Está olhando para o termo “melancolia delirante”, que anotou no seu caderno depois que o médico assim a diagnosticou. Achou poética a expressão, e dessa forma passa dias enclausurada, olhando para o vidro da janela suja, sem vontade de limpar. E logo ela, que tem a limpeza como sua maior qualidade, deixa estar. Dorme, acorda, vai ao banheiro e pouco se alimenta.


A surra que deu na filha vem-lhe à mente. Lembra-se da humilhação de vê-la expulsa por mau comportamento do colégio que poderia ser um trampolim para o sucesso da família. A patroa, que pagava a mensalidade, sentiu-se traída quando soube que ela só fumava, em vez de estudar. “Surra bem dada”, pensava. Agora, a melancolia devolve-lhe o mesmo sentimento de abandono que a filha sentiu à época. Muitas histórias passam em suas lembranças e, para não sucumbir de vez, resolve emergir e regressa ao trabalho.


Precisa torcer para que o casal tenha outro filho; só assim seus serviços serão necessários. Mas eles não querem fazer a vontade da babá, e então…


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 01.12.2025 — 06h45.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

CONSUMIDOR DE IDEIAS

 


CONSUMIDOR DE IDEIAS 


Naquela manhã, ele iniciava a turnê pelas 377 páginas de A Pintora de Henna. Um gargarejo vindo do banheiro o fez perceber que a esposa já havia se levantado.

Desviou o olhar para apreciar o quadro exposto ao lado do computador, quando o forte apetite ordenou que escolhesse o que iria almoçar. Abriu a geladeira e aproveitou para pegar também o arroz, na mesma situação congelada em que se encontravam o feijão e a carne.

Dirigiu-se ao quarto para colocar as conversas em dia e, em seguida, retornou para continuar o diálogo com a autora. Passou à página seguinte, deixando um provérbio hindu para trás e encontrando o sumário com seus personagens, prólogo etc.

A esposa ouvia uma música que chegava aos seus ouvidos; ainda assim, o som não atrapalhou a leitura de palavras estranhas ao seu repertório, típicas da cultura indiana.

Ele coçou o pescoço, olhou pela janela e imaginou o zênite como o oposto do nadir — embora nada tivessem a ver com o romance, essas palavras surgiram estimuladas por outras tão comuns ao universo de Alka Joshi.

“... era quase bonito.” Esse quase bonito o fez parar na página 23. Não seria o mesmo que dizer feio?, lembrou-se da discussão tão popular:

— Está meio vazio — disse o pessimista diante de um copo com água.

O otimista sorriu:

— Eu vejo meio cheio.

O filósofo interrompeu-os:

— O copo está apenas pela metade. Nem cheio, nem vazio. O resto depende da interpretação de cada um.

O bom de conhecer novas criações artísticas é a capacidade de tentar, em vão, livrar-se da realidade ao manter as necessidades básicas supridas.

— Com licença! — entrou no escritório a esposa, pedindo que ele cozinhasse dois ovos enquanto ela ia nadar.

Sim, farei isso assim que souber se a pintora de henna conseguirá entrar no palácio, pensou, enquanto a esposa fechava a porta sem se despedir.

A personagem permanecia numa negociação sutil para conseguir prestar serviço a uma das palacianas. Se conseguisse, certamente galgaria posições privilegiadas graças à habilidade para desenhar em unhas.

O alarme mandou desligar o fogo. Foi preciso deixar o romance descansando para evitar que a gema ficasse escura — assim orientava a receita para evitar gases.

Telefonou para a portaria:

— Quando minha esposa voltar, por gentileza, entregue a encomenda que chegou.

O rapaz respondeu que sim e confirmou:

— Conheço — disse, ao ser perguntado se sabia quem era sua esposa.

— Está certo, senhor. Pode deixar. Tenha um bom dia.

“Ele estava perdido em pensamentos e levantou os olhos com um sobressalto.” A frase coincidiu com seu estado de espírito. Há pouco, havia consultado o Sistema Eletrônico de Informação, perguntando por que seu processo de aposentadoria estava parado. Já tinha ido várias vezes à assessoria jurídica, e os advogados não davam prosseguimento aos trâmites legais.

Sentiu calafrios ao passar pela narrativa do aborto induzido e, assim, preferiu deixar para o dia seguinte saber se a criança gerada na traição continuaria viva. Durante esse intervalo, recebeu uma mensagem da esposa dizendo que, há trinta anos, tentava se adaptar a ele. Poxa, pensou sobre o quanto era defeituoso. Acreditava que as viagens que planejava com ela eram uma afirmação de que estava sendo legal, mas não: ela fingia que gostava dele. E agora? Depois dos filhos criados, separar-se não parecia uma boa ideia.

Verificou que, no livro, os personagens estavam vivendo igualzinho e, daí, entendeu a famosa frase: “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida.” Pesquisou mais e descobriu que as pessoas passam a enxergar e viver o mundo de acordo com o que a arte mostra — e, assim, imitam comportamentos, estilos ou ideias vistos primeiro em obras artísticas.

Será que ele era o que era por ter acesso a várias produções artísticas? Seu jeito arrogante devia vir de algum personagem, pois, quando um vendedor pergunta seu nome, ele responde que só diz se receber pagamento adiantado; quando a atendente dos totens pergunta se deseja ajuda, responde que precisa de cem bilhões de dólares para permitir ser ajudado. Já percebeu que essas “ajudas” são tentativas de vender combos envenenados; por isso, sai com lorotas para disfarçar o ódio das interferências inconvenientes.

Foi difícil voltar à leitura depois que um personagem enfiou um cabo de vassoura nas partes íntimas da própria mulher por ela ter rido de uma piada de outro homem. A cultura da Índia permite tais atrocidades. Fechou o livro e ficou com o mesmo sentimento de quando estava lendo Ensaio Sobre a Cegueira ou Os Miseráveis.

As dificuldades da pintora de henna aumentaram quando ela foi apontada como ladra. Nessa viagem pelas páginas, ele visitava um primo que sonhava em adquirir o hábito da leitura. Falou da necessidade de sofrer junto aos personagens, sair do mundo real e ir para a fantasia, torcendo para que desse certo a vida narrada pela autora.

Os momentos da criança recém-nascida foram excelentes. A mãe de treze anos, tomada de ciúmes da mãe adotiva. O depoimento gerado pelo lado animal da mãe legítima encontra eco em todos os sentimentos mesquinhos do ser humano.

No condomínio de luxo, os jogos continuavam como forma de entretenimento. Os hotéis visitados pelo leitor despertavam o lado despreocupado da rotina. Alguém para cozinhar e lavar a roupa contrastava com a labuta da pintora de henna.

Ufa! Finalmente, depois de traições, conquistas, abortos, torturas e violência contra a mulher contada por uma delas, chega-se ao final, recomendando que esse é um livro digno de ser lido.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 25.11.2025 — 18h12min