sexta-feira, 17 de setembro de 2021

BELOS POEMAS DE ANTÔNIO FRANCISCO

 





A CASA QUE A FOME MORA

Autor: Antônio Francisco

EU DE TANTO OUVIR FALAR
DOS DANOS QUE A FOME FAZ,
UM DIA EU SAÍ ATRÁS
DA CASA QUE ELA MORA.
PASSEI MAIS DE UMA HORA
RODANDO NUMA FAVELA,
POR GUETO, BECO E VIELA,
MAS VOLTEI DESANIMADO,
ABORRECIDO E CANSADO
SEM TER VISTO O ROSTO DELA.

VI A CARA DA MISÉRIA
ZOMBANDO DA HUMILDADE.
VIA A MÃO DA CARIDADE
NUM GESTO DE UM MENDIGO
QUE DIVIDIA O ABRIGO,
A CAMA E O TRAVESSEIRO,
COM UM VELHO COMPANHEIRO
QUE ESTAVA DESEMPREGADO.
VI A FOME O RESULTADO,
MAS DELA NEM O ROTEIRO.

VI O ORGULHO FERIDO
NOS BRAÇOS DA ILUSAO,
VI PEDAÇOS DE PERDAO
PELOS INIQUOS QUEBRADOS.
VI SONHOS DESPEDAÇADOS
PARTIDOS ANTES DA HORA,
VI O AMOR INDO EMBORA,
VI O TRIDENTE DA DOR.
MAS NEM DE LONGE VI A COR
DA CASA QUE A FOME MORA.

VI NUM BARRACO DE LONA
UM FIO DE ESPERANÇA,
NOS OLHOS DE UMA CRIANÇA,
DE UM PAI ABANDONADO.
PRIMO CARNAL DO PECADO,
IRMÃO DOS RAIOS DA LUA,

C0M AS COSTAS SEMINUA
TATUADAS DE CALIÇA,
PEDINDO UM PÃO DE JUSTIÇA
DO OUTRO LADO DA RUA.

VI A GULA PENDURADA
NO PEITO DA PRECISAO.
VI A PREGUIÇA NO CHÃO
SEM TER FORÇA DE VONTADE.
VI O CALDO DA VERDADE
FERVENDO NUMA PANELA.
O JEJUM NUMA JANELA
DIZENDO: AQUI NINGUEM COME!
OUVI OS GRITOS DA FOME,
MAS NÃO VI RESTO DELA.

PASSEI A NOITE ACORDADO
SEM SABER O QUE FAZER.
LOUCO, LOUCO, PRA SABER
ONDE A FOME RESIDIA.
E POR QUE NAQUELE DIA
ELA NÃO FOI NA FAVELA.
E QUAL O SEGREDO DELA,
QUANDO QUERIA PISAVA.
AMOLECIA E MATAVA
E NINGUEM MATAVA ELA?

NO OUTRO DIA EU SAÍ
DE NOVO À PROCURA DELA.
MAS NÃO NAQUELA FAVELA,
FUI PROCURAR NUM SOBRADO.
QUE TINHA DO OUTRO LADO
ONDE MORAVA UM SULTÃO.
QUANDO EU PULEI O PORTAO,
EU VI A FOME DEITADA,
EM UMA REDE ESTIRADA
NO ALPENDRE DA MANSÃO.

EU PENSAVA QUE A FOME
FOSSE MAGRICELA E FEIA.
MAS ELA É UMA SEREIA
DE CORPO ESPETACULAR!
E QUEM IRIA CULPAR
AQUELA LINDA PRINCESA
DE TIRAR O PAO DA MESA
DOS SUBURBIOS DA CIDADE,
OU PISAR SEM PIEDADE,
NUMA CRIANÇA INDEFESA?

ENGOLI TRES VEZES NADA
E PERGUNTEI O SEU NOME.
RESPONDEU–ME: SOU A FOME
QUE ASSOLA A HUMANIDADE.
ATACO VILA E CIDADE,
DEIXO O CAMPO MORIBUNDO.
EU NÃO DESCANSO UM SEGUNDO
ATROFIANDO E MATANDO.
ME ESCONDENDO E ZOMBANDO
DOS GOVERNANTES DO MUNDO.

ME ALIMENTO DAS OBRAS
QUE SÃO SUPERFATURADAS.
DAS VERBAS QUE SÃO GUIADAS
PROS BOLSOS DOS MARAJÁS.
E ME ESCONDO POR TRÁS
DA FUMAÇA DO CANHAO.
DOS SUPÉRFLUOS DA MANSAO,
DA SOMA DOS DESPERDÍCIOS,
DA QUEIMA DOS ARTIFÍCIOS
QUE CEGA A POPULAÇAO.

TENHO PAVOR DA JUSTIÇA
E MEDO DA IGUALDADE.
ME BANHO NA VAIDADE
DA MODELO DESNUTRIDA.
DA RENDA MAL DIVIDIDA
NA MÃO DO CHEQUE SEM FUNDO.
SOU PESADELO PROFUNDO
DO SONHO DO BÓIA-FRIA.
E ALMOÇO TODO DIA
NOS CINCO ESTRELAS DO MUNDO.

SE VOCES CONTINUAREM
ME CAÇANDO NAS FAVELAS,
NOS LAMAÇAIS DAS VIELAS,
NUNCA VAO ME ENCONTRAR.
E EU VOU CONTINUAR
USANDO UM TERNO XADREZ.
METENDO A BOLA DA VEZ,
ATROFIANDO E MATANDO.
ME ESCONDENDO E ZOMBANDO
DA BURRICE DE VOCES.

Mossoró – RN
Outubro de 2003.






















OS ANIMAIS TÊM RAZÃO

1
Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.
2
E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.
3
O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito de independência
Do sertanejo que luta
Na frente da emergência.
4
Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão.
É hotel do retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.
5
E foi debaixo de um deles
Que eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.
6
Isso já faz tanto tempo
Que eu nem me lembro mais
Se foi pra lá de Fortim,
Se foi pra cá de Cristais,
Eu só me lembro direito
Do que disse os animais.
7
Eu vinha de Canindé
Com sono e muito cansado,
Quando vi perto da estrada
Um juazeiro copado.
Subi, armei minha rede
E fiquei ali deitado.
8
Como a noite estava linda,
Procurei ver o cruzeiro,
Mas, cansado como estava,
Peguei no sono ligeiro.
Só acordei com uns gritos
Debaixo do juazeiro.
9
Quando eu olhei para baixo
Eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.
10
O porco dizia assim:
– “Pelas barbas do capeta!
Se nós ficarmos parados
A coisa vai ficar preta...
Do jeito que o homem vai,
Vai acabar o planeta.
11
Já sujaram os sete mares
Do Atlântico ao mar Egeu,
As florestas estão capengas,
Os rios da cor de breu
E ainda por cima dizem
Que o seboso sou eu.
12
Os bichos bateram palmas,
O porco deu com a mão,
O rato se levantou
E disse: – “Prestem atenção,
Eu também já não suporto
Ser chamado de ladrão.
13
O homem, sim, mente e rouba,
Vende a honra, compra o nome.
Nós só pegamos a sobra
Daquilo que ele come
E somente o necessário
Pra saciar nossa fome.”
14
Palmas, gritos e assovios
Ecoaram na floresta,
A vaca se levantou
E disse franzindo a testa:
– “Eu convivo com o homem,
Mas sei que ele não presta.
15
É um mal-agradecido,
Orgulhoso, inconsciente.
É doido e se faz de cego,
Não sente o que a gente sente,
E quando nasce e tomando
A pulso o leite da gente.
16
Entre aplausos e gritos,
A cobra se levantou,
Ficou na ponta do rabo
E disse: – “Também eu sou
Perseguida pelo homem
Pra todo canto que vou.
17
Pra vocês o homem é ruim,
Mas pra nós ele é cruel.
Mata a cobra, tira o couro,
Come a carne, estoura o fel,
Descarrega todo o ódio
Em cima da cascavel.
18
É certo, eu tenho veneno,
Mas nunca fiz um canhão.
E entre mim e o homem,
Há uma contradição
O meu veneno é na presa,
O dele no coração.
19
Entre os venenos do homem,
O meu se perde na sobra...
Numa guerra o homem mata
Centenas numa manobra,
Inda tem cego que diz:
Eu tenho medo de cobra.”
20
A cobra inda quis falar,
Mas, de repente, um esturro.
É que o rato, pulando,
Pisou no rabo do burro
E o burro partiu pra cima
Do rato pra dar-lhe um murro.
21
Mas, o morcego notando
Que ia acabar a paz,
Pulou na frente do burro
E disse: – “Calma, rapaz!...
Baixe a guarda, abra o casco,
Não faça o que o homem faz.”
22
O burro pediu desculpas
E disse: – “Muito obrigado,
Me perdoe se fui grosseiro,
É que eu ando estressado
De tanto apanhar do homem
Sem nunca ter revidado.”
23
O rato disse: – “Seu burro,
Você sofre porque quer.
Tem força por quatro homens,
Da carroça é o chofer...
Sabe dar coice e morder,
Só apanha se quiser.”
24
O burro disse: – “Eu sei
Que sou melhor do que ele.
Mas se eu morder o homem
Ou se eu der um coice nele
É mesmo que estar trocando
O meu juízo no dele.
25
Os bichos todos gritaram:
– “Burro, burro... muito bem!”
O burro disse: – “Obrigado,
Mas aqui ainda tem
O cachorro e o morcego
Que querem falar também.”
26
O cachorro disse: – “Amigos,
Todos vocês têm razão...
O homem é um quase nada
Rodando na contramão,
Um quebra-cabeça humano
Sem prumo e sem direção.
27
Eu nunca vou entender
Por que o homem é assim:
Se odeiam, fazem guerra
E tudo o quanto é ruim
E a vacina da raiva
Em vez deles, dão em mim.”
28
Os bichos bateram palmas
E gritaram: – “Vá em frente.”
Mas o cachorro parou,
Disse: – “Obrigado, gente,
Mas falta ainda o morcego
Dizer o que ele sente.”
29
O morcego abriu as asas,
Deu uma grande risada
E disse: – “Eu sou o único
Que não posso dizer nada
Porque o homem pra nós
Tem sido até camarada.
30
Constrói castelos enormes
Com torre, sino e altar,
Põe cerâmica e azulejos
E dão pra gente morar
E deixam milhares deles
Nas ruas, sem ter um lar.”
31
O morcego bateu asas,
Se perdeu na escuridão,
O rato pediu a vez,
Mas não ouvi nada, não.
Peguei no sono e perdi
O fim da reunião.
32
Quando o dia amanheceu,
Eu desci do meu poleiro.
Procurei os animais,
Não vi mais nem o roteiro,
Vi somente umas pegadas
Debaixo do juazeiro.
33
Eu disse olhando as pegadas:
Se essa reunião
Tivesse sido por nós,
Estava coberto o chão
De piúbas de cigarros,
Guardanapo e papelão.
34
Botei a maca nas costas
E saí cortando o vento.
Tirei a viagem toda
Sem tirar do pensamento
Os sete bichos zombando
Do nosso comportamento.
35
Hoje, quando vejo na rua
Um rato morto no chão,
Um burro mulo piado,
Um homem com um facão
Agredindo a natureza,
Eu tenho plena certeza:
Os animais têm razão.

Fim


TRÊS MARTELOS DE AMIZADE


Pra nós sermos amigos de verdade,
Precisamos amar e querer bem;
Repartir nosso pão pela metade;
Dividir nossos sonhos com alguém;
Plantar uma semente de amizade
No jardim onde nasce a solidão
E dizer no ouvido do ermitão:
Plante um pé de amizade em sua horta!
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração.

Dê uma volta no carro da amizade,
Puxe 80 km de amor!
Se desvie da estrada do rancor;
Solte os freios descendo a humildade;
Acenda os faróis da caridade;
Ilumine a estrada do irmão;
Baixe o vidro da porta e dê com a mão,
É um gesto é tão simples mais conforta.
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração.

Se afaste do caos da vaidade;
Nunca pise na beira desse abismo
Nem se mele com a lama do egoísmo;
Beba água da fonte da verdade...
Só assim entraremos na cidade
Batizada com o nome de Sião.
Vamos todos, amigos, dar a mão!
Uma amizade sincera ninguém corta.
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração. Fim

Autor: Antônio Francisco


É COBRA ENGOLINDO COBRA - Heraldo Lins

 






É COBRA ENGOLINDO COBRA


Saio da bodega e encontro um velho e um menino oferecendo-me um saco de carvão. O velho parece ser o gerente do negócio deixando ao menino a responsabilidade do peso. Eles olham para minhas compras como quem diz: vamos trocar? Li o pensamento de ambos, mas preferi perguntar: 

_ Quanto? 

O velho coça a barba, tira o cachimbo e, enchendo-o de fumo, diz:

 _ Cem. 

Prefiro olhar a cara suja do menino a olhar o velho tentando acender o cachimbo. Lembrei-me que lá em casa o carvão já está menos de meio saco, e Selma me recomendou um novo só lembrado agora. O velho aperta os olhos tentando ler meus pensamentos. Eu me faço de desinteressado dizendo: 

_ Lá em casa não está precisando, mas se o senhor fizer um preço bom, quem sabe... 

 — Esse carvão é feito de jurema morta achada no mato. O fogo desse carvão é muito quente e demora a se apagar.

 Pedi licença para voltar à bodega, retornando pouco tempo depois. O menino já estava sentado em cima do pneu do carrinho de mão, e o velho, de cócoras, riscava o chão. Um passante perguntou o preço do carvão, mas o velho disse que estava negociando comigo. Não respondeu ao transeunte e voltou-se para mim:

 _ Se o senhor comprar eu deixo, de graça, em sua casa, se for aqui perto.

 _ Pago trinta! 

Subitamente ele se dirige ao menino e faz gesto de irem embora calados. Poucos passos adiante param e ele volta: 

— Assim o senhor me mata. De cem baixar para trinta, é demais. Faço por oitenta.

_ Na bodega o preço é cinquenta e o senhor vem logo pedindo cem. 

_ É como eu disse: lenha catada sem agredir o meio ambiente, mas se o senhor me pagar os mesmos cinquenta, ainda ganha a entrega. 

_ Estou sem dinheiro. Gastei nessas compras. 

_ Eu preciso receber hoje. Se o senhor for à bodega e trouxer em mercadoria eu fecho o negócio por quarenta. O homem da bodega faz fiado para o senhor... 

 Alguma coisa me dizia que eu seria enganado, mesmo assim, achei a proposta boa. O preço estava bom e não havia como me deixar enganar por um velho e um menino.

 _ Fechado, vou buscar o valor correspondente em alimentos e lhe entrego. 

_ Confio no senhor, disse o velho. Nem preciso ir junto. Se o senhor puder, coloque sardinha e feijão no pacote, ele adora sardinha, apontando para o menino desinteressado. Complete o valor com arroz, pão e manteiga.

 Fui e voltei com trinta de mercadoria para pagar os quarenta combinados. Partimos para minha casa com o pacote em meu poder. Não se deve confiar em quem não conhecemos, essa é a regra. Aquele velho era muito suspeito. 

Selma, em casa, confidenciou que eu não fizesse negócio com esses ciganos que vivem de enroladas. Não são de confiança. Colocado o saco de carvão no depósito, entreguei-lhe as compras e ele logo saiu sem se dar ao trabalho de conferir o conteúdo. 

Fui à bodega contar vantagem de ter passado a perna em um cigano. Para dar testemunha do meu feito, recorri por várias vezes ao bodegueiro. Ele enfatizava que eu era o seu representante, pois o mesmo velho já o havia enganado. Foi apostado como era mentira o fato, mas o fazendeiro perdeu um novilho quando o bodegueiro confirmou a história. 

Selma continuava a cozinhar com o carvão restante enquanto eu me vangloriava na feira entre os amigos. Ela usava o carvão duas vezes por semana para carne assada na brasa, e como ainda havia carvão no saco antigo, só começou a usar o novo carvão, na outra semana. 

Até hoje sou lembrado na cidade como o sabichão que conseguiu enganar um cigano, mas esse título só permanece em voga porque Selma jurou ficar calada ao descobrir que mais da metade do saco negociado estava preenchido com casca de coco seco. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 04/09/2021 – 12:24



quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Grito inaudível de uma Mãe - Ileane Cavalcante



Grito inaudível de uma Mãe

Pachamama
Não aguenta mais
Seus ingratos filhos
Animais "racionais"

Os homens maus
Sobem os degraus do inferno
Vestindo seus melhores ternos
E os seus sonhos modernos

Seguem destruindo
Seu próprio habitat
Com seus olhos nas cifras
Sem nenhum pesar

A Terra chora e grita
E faz tudo parar
Mas tempo é dinheiro
Não podem esperar

Como fecharmos os olhos?
Nós somos um corpo só
Bicho, homem, folha e flor
Tudo destinado a pó.



domingo, 12 de setembro de 2021

FARRA SOB MEDIDA - Heraldo Lins

 


FARRA SOB MEDIDA 

 


Amâncio não tinha o que fazer e foi visitar o cemitério. Sentou-se em uma catacumba e puxou conversa. Por trás de uma árvore surgiu Milton de branco, barba por fazer e sorrindo. A recepcionista do campo santo disse que Milton sempre estava por ali em busca de contatos extraterrenos. Tinha muita memória e não havia com quem compartilhar. Ao invés de ficar ouvindo a recepcionista, Amâncio convidou o recém-amigo para irem a um bar. Ele estava querendo uma mulher interessada em algo mais do que conversar.  


No bar, em poucos minutos, mulheres lindíssimas foram chegando. Muitas conhecidas de Milton dirigiram-se à mesa para cumprimentá-los. Convidadas a se sentarem revezaram-se no colo de Milton que sorria e apontava o colo disponível de Amâncio.


Depois que Amâncio tornou-se sorridente, elas foram para a pista dançar. O dono do bar veio dar boas-vindas. Amâncio ficou totalmente à vontade com aquelas amigas cordiais, perfumadas e sedutoras. Queriam tudo o tempo todo. Ele ficou abraçando-as, alternadamente, sem se cansar delas. Elas bebiam e pagavam em ouro, diamantes e moedas de prata. Os músicos eram dos melhores. Tocavam canções confortáveis, nem intensas nem suaves, de forma que agradassem ao ouvido, disse um deles que veio à mesa conhecer Amâncio. Em meia hora o bar estava totalmente lotado, cheio de amigos e amigas de longas datas. 


As mulheres, carinhosamente, puxaram Amâncio para a pista de dança... Amâncio pensou que poderia ser reprimido pelo dono do bar se fizesse, no salão, o que elas queriam, mas, imediatamente, recebeu do próprio uma caixa de camisinhas e um conselho para não se preocupar: estavam todos acostumados com a cultura do bar do amor. 


Amâncio não sabia de onde vinha tanta libido. Havia uma fila de mulheres se entregando, e quanto mais praticava mais vontade tinha. Milton, com os olhos refletindo felicidade, perguntava-lhe, a todo instante, se estava gostando. Sim, respondia-lhe sem muito tempo para detalhes. 


Neste ínterim chegaram os garçons trazendo as mais deliciosas comidas e uma notícia agradável: Amâncio não precisava pagar as despesas. Milton falava que ali era o melhor lugar do mundo para estar naquele momento. Amâncio se achava o homem mais feliz da terra, porém, nunca havia prestado atenção naquele bar. Muitas vezes já havia passado por aquela rua a pé e nem se dava conta dele. Milton disse que vinha ali quase todas as noites, pois, há muito tempo, era seu ponto de encontro com aquela mulherada sedenta. Como eram interessantes aquelas mulheres, pensou Amâncio: não reclamavam e nem ficavam pensativas. 


Ao lado daquela mesa animada, havia casais mais contidos, mas não se aborreciam com aquela falta de respeito. Um sujeito duro estava sentado sozinho com umas cartas de baralho na mão. Jogava paciência. Para ele nada estava acontecendo, deduziu Amâncio. 


As pessoas bebiam e comiam no mesmo Buffet. Ninguém reclamou nem impediu alguém de fazer isso. Homens importantes com charutos importados baforavam o ambiente sem mau cheiro. Perguntou-se de quem era um anel de brilhante encontrado no salão. Não apareceu o dono e presentearam Amâncio que o colocou no bolso sem pestanejar.  


De repente Milton o convidou e desceram para o subsolo. No cassino, havia todo o luxo do mundo. Quatro ou cinco mulheres vieram com eles. Milton era viciado na roleta, mesmo assim, passaram pouco tempo jogando. Estavam sendo requisitados pelas mulheres que ainda não tinham sido contempladas por Amâncio. 


A festa continuou. Milton estava um pouco bêbado e deitou-se em cima da mesa e lá ficou. As mulheres acharam aquilo engraçado. A chuva lá fora aumentou com relâmpagos varrendo o medo dos trovões. Amâncio Gritou por Milton para irem embora, mas seu amigo não respondeu nem deu sinais de vida. 


No outro dia Amâncio foi encontrado morto em um casarão abandonado. O instituto médico legal comprovou a causa mortis: cefaleia orgástica. Milton e os demais já haviam morrido há mais de trezentos anos. 



Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 24/08/2021 – 16:22



terça-feira, 7 de setembro de 2021

UM SETE DE CONFUSÃO - Roberto Flávio

  


UM SETE DE CONFUSÃO


Patriota com idiota

Civismo com cinismo

Independência com subserviência

Bondade com maliciosidade

 

Enlutados defendendo a morte

O real com a ilusão

Liberdade com maldade

Expressão e violação

 

Verdade com falsidade

Ação com omissão

Um discurso sem a prática

Solução com a negação

 

Milícia não é polícia

Educação não é dominação

Cultura não é censura

Saúde não é manipulação

 

Democracia não é idiocracia

Ditadura não traz a paz

Justiça não é a ameaça

A Constituição não é uma farsa

 

Ativismo não é golpismo

A Nação não é de fanfarrão

Armamentismo não é pacifismo

Das trevas não sai claridão

 

Querem impor a mordaça

À força e na base do fuzil

Não obstante as dificuldades

Que assolam o nosso bravo Brasil.

 

Roberto Flávio. Em, 07/09/2021.



Adquira na Livraria Educativa em Santa Cruz/RN





 

VÍDEOS GRATUITOS - Heraldo Lins

 




VÍDEOS GRATUITOS   



Uma formiga caminha na tela do meu notebook. Percebo que quando paro o cursor ela fica em cima do caractere. Ou eu estou ficando louco ou a formiga sabe ler. Com essa interferência externa fica difícil de me concentrar. Não quero esmagá-la com a ponta dos dedos para não passar por ecologicamente incorreto.  


Tenho consciência que tudo está interligado. A morte de uma formiguinha é um grande fenômeno na natureza. O motivo de tanta cerimônia é que não sei fazer uma formiga, por isso não tenho permissão para exterminá-la. Adquiri essa consciência ouvindo a rádio natureza. Nos debates há muitas críticas sobre as devastadoras ações humanas. 


Eu particularmente já me disfarcei de urso panda e de arara azul visando assistir aos canais das nuvens. Muita gente não tem a capacidade de enxergar o que se passa nesses canais, e, por isso, acha que as nuvens servem apenas para despejar água. Na verdade, elas são as telas da programação mundial. 


Assisto vários programas distintos. Gosto do programa sobre meteoros porque quero saber quais as montanhas que estão fazendo tour pelo espaço. Assisto ao programa das bailarinas que se apresentam com roupas apertadíssimas. Ultimamente há muita audiência no programa da dançarina Terra. O motivo é que ela está se apresentando com trajes minúsculos. Só para se ter uma ideia, a mata amazônica fica toda de fora. 


Através das novelas, soube que o planeta Vênus está doido para fazer amor com ela, mas a terra insiste que ele use camisa de vênus. Como o produto está em falta no mercado, Vênus sem a camisa de vênus está sendo rejeitado. 


O que passa na madrugada é o famoso programa do buraco negro, esse é muito pesado. O bicho chupa tudo que passa perto.

   

Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 05/07/2021 – 21:15



Glosas De Otacílio Batista e Pedro Bandeira

 


MOTE: "O crepúsculo no campo é tão bonito  

Que Jesus se debruça pra olhar" 


P.B.

Quando o sol no sertão muda de farda

Que retira seus raios da alfombra

Deixa a sombra emendar-se noutra sombra

E a argila do chão ficando parda

O inhambu do pé roxo ainda aguarda

Dez minutos de luz para cantar

Mas a noite envolve a luz solar

Não espera o inhambu dar o seu grito

O crepúsculo no campo é tão bonito

Que Jesus se debruça pra olhar.

 

O.B.

Nos pináculos rochosos do talhado

Se esconde a pequena lagartixa

Grande sombra do monte Se espicha

Que parece outro monte improvisado

A cegonha a raposa e o pintado

Cada um caça um bicho pra pegar

A coruja abre o bico pra jantar

Um guisado de mosca com mosquito

O crepúsculo no campo é tão bonito

Que Jesus se debruça pra olhar.


P.B.

A floresta da beira do regato

Se aperfila no chão e se engalana

Que parece uma renda americana

Do valor do mais fino artesanato

Cada réstia do campo é um retrato

Que o sol tira nas folhas sem gastar

Cada monte de pedra é um altar

Que a mulher do sertão reza um bendito

O crepúsculo no campo é tão bonito

Que Jesus se debruça pra olhar.

 

O.B.

O morcego esvoaça na tapera

********  os  vagalumes

O lagarto repousa entre os estrumes

Recebendo o fragor da primavera

A aranha se oculta na Cratera

O coqueiro é um príncipe olhando o mar

Sua fronde tremula sem parar

Como que está saudando o infinito

O crepúsculo no campo é tão bonito

Que Jesus se debruça pra olhar.


P.B.

Quando o sol muda a cor da sua imagem,

A cigarra desmonta a sua tenda,

O cachorro que é guarda da fazenda

Se entrincheira na sombra da alpendragem,

O graúna dá notas na paisagem

Que nos faz o cabelo arrepiar,

Uma cabra de leite vai pastar,

Atendendo as manobras do cabrito...

O crepúsculo no campo é tão bonito

Que Jesus se debruça pra olhar.

 

O.B.

Quando a tarde começa a despedida

Vê-se os raios do sol fechando os becos

E o vento a gemer pelos paus secos

Retorcendo a floresta esmaecida

Uma ponta de nuvem colorida

Deixa o sol quase morto sem brilhar

Sol quase morto sem brilhar

Entra o homem na choça e vai rezar

E o roceiro rezando é mais contrito

O crepúsculo no campo é tão bonito

Que Jesus se debruça pra olhar.


https://youtu.be/AGI_IGxXcO8?t=12