domingo, 25 de setembro de 2022

OS BENEFÍCIOS DA MENTIRA - Heraldo Lins

 


OS BENEFÍCIOS DA MENTIRA


Há quatro meses que a esposa morrera de câncer e os filhos, para não ter que repetir "mãe morreu" várias vezes ao dia, comunicaram-lhe que ela estava hospitalizada. A verdade foi dita algumas vezes, mas o choro foi tão violento que assim optaram em refazer a verdadeira informação. 

A partir daí, não houve mais choro pensando que a esposa tinha saído ontem para o hospital e isso o faz continuar vivendo em paz. Quando a filha chega da capital, ele logo pergunta: como está Darcília? Daqui para a próxima semana o médico vai dar alta. Está bom! pior é morrer, responde ele se conformando. 

O sepultamento fora realizado, mas ele, devido ao mal de Alzheimer, esquecera. A memória que permanece é a de vê-la sendo medicada no quarto e depois transferida para o hospital. 

Algumas pessoas são a favor da verdade, poucos concordam em omiti-la, o fato é que mantê-la viva tornou-se prioridade, pois ele diz que não pode morrer para que ela não fique abandonada, motivação que o faz ir sobrevivendo com mais de noventa anos.   

Ele gosta do sítio e fica na cadeira de balanço imaginando quando comprou aquele pedaço de terra. Comprei e paguei por cento e cinquenta. Eu comprava e vendia gado, do mesmo jeito com o algodão antes do bicudo. Os meninos foram nascendo e me ajudando. Darcília disse que só se casaria comigo se não precisasse ir para o roçado limpar mato. Aceitei! Teve uma vez que perguntei se ela “podia” ir, mas ela foi logo me dizendo que era melhor que uma cascavel lhe picasse. Não, não precisa. Gosto de ouvir o chocalho do gado. 

Pai, o senhor quer vender esse sítio? Não vendo por dinheiro nenhum e nem troco pela cidade inteira. Aquele homem, quem é? Veio comprar o estrume do curral. Ontem veio um comprador, disse o morador, mas ficou conversando e foi embora. Amanhã eu venho! Não, acho que hoje mesmo trago o caminhão, disse o comprador. Não precisa se preocupar! Nesse sítio palavra dada é palavra cumprida. Pode vir amanhã mesmo que o estrume é seu. Nunca fiz negócio para me quebrar. Ô velho macho! Mas tem que ser assim mesmo. Gosto de trabalhar aqui por isso. 

Eu quase não enxergo esse gado aí. Hoje está ventilado. O que é que tem para o almoço? Tem bode, guiné, feijão, arroz... umas verduras. Está bom! Catuque aí no celular e pergunte que dia Braciala vem. Ela já está vindo, pai. Eu sempre quis ficar velho para saber como era, mas vejo que não é bom. A pessoa quer fazer as coisas e não pode. Quem disser que é bom está mentindo. O médico disse que eu não podia nem pegar três quilos. Um dia desses eu tentei e quase morri com esse negócio no meu peito batendo forte. 

Pai, o senhor está gostando desse novo marcapasso? Agora melhorou. Eu só vivia com sono, agora estou mais ativo. É que o outro já estava no prazo de ser trocado. É tanta coisa e até já disseram que eu não podia usar relógio por causa dessa máquina aqui. Cadê o burro? Já deram água ao coitado? Já, pai, Metrarco é o melhor trabalhador que esse sítio já teve. É mesmo. O mago velho aqui não corre de serviço não, só corro de grito. Se gritar eu deixo tudo e vou embora. A neta veio me perguntar se eu estava namorando sua mãe. De jeito nenhum, meu relacionamento é profissional. Aqui tem um gado meu, mas se me aperrearem eu vendo tudo e vou embora. Eu sei mais ou menos quem arrombou a porta para roubar. 

Esse aí é muito trabalhador mesmo. No meu tempo eu ia para a serra pegar barbatão. Quase morri da carreira que dei num. O bicho era ligeiro e não vi a forquilha da Jurema. 

Éramos “doidas” pela irmã que pai teve com outra mulher, mas a bichinha não resistiu. Acho que morreu por falta de leite da mãe. Naquele tempo morria muito menino de fome. Teve uma mulher que veio deixar sua recém-nascida para mãe criar. Ela disse, já tenho oito. Jogue no rio. Mãe sempre foi vexada. Está no hospital, né pai? É... será que vai ficar boa? Vai, está bem animada. Olhe aqui o vídeo dela cantando. A filha que chegou da capital, mostra-lhe um vídeo que foi gravado quando os doutores da alegria passaram no quarto poucos dias antes da sua morte. Ele a observa e diz: diga a ela que venha para casa que eu já estou com saudade!


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 23.09.2022 — 16:14




quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O MUNDO ESTÁ DE OLHO - Heraldo Lins

 


O MUNDO ESTÁ DE OLHO


Aqui é como se fosse um armazém onde eu deposito minhas ideias. Enquanto não chega o clarão dos céus dizendo o que devo escrever, escolho a espera como ponto central da matéria. Nunca gostei de esperar e acredito que ninguém gosta, no entanto, levando em consideração que não adivinho o que vem à mente, deixo-me levar para onde essa força quer que eu vá. O bom é que essas dúvidas me estimulam a manter o canal de comunicação limpo para não perder a pena.   

Sei que aqui não é lugar para devaneios, todavia fugir um pouco da regra é satisfatório, até por que regras foram feitas para serem quebradas, com exceção das eleitorais. Eu falo é sobre quebrar as regras da literatura na hora que o escritor quiser e o editor permitir, no entanto seria um crime por omissão não falar que a democracia está na corda bamba. Aí sim, o assunto dá uma guinada para o pesado. Democracia é muito mais que falar suavidades, e eu pensei que ela estava segura, imagine! 

Dentro desse contexto democrático, há um monstro que cospe palavras e se eu não o inibir, ele chega a endurecer a “parada.” É um monstro que habita os pesadelos da violência acreditando que é melhor que ninguém escreva para que ele se mantenha arrotando bombas ao bel-prazer. 

Mesmo tendo essa liberdade de transitar por onde quero, preciso continuar utilizando a doutrina da ditadura literária para manter as pessoas algemadas aos meus textos. 

Acho que vou dar o golpe, e, se for bem-sucedido, poderei escrever muito mais. O que importa é me manter junto com a família da pontuação e o exército das palavras. No entanto, se eu falar em neve, pouca gente conhece. Há pessoas nem sabem que depois do degelo o branco vira lama, por isso muitas preferem ficar em casa evitando pisar no lamaçal. 

A maioria imagina que quando a neve deixa de cair, o solo fica seco e ela se evapora sozinha. Pura fake news. É lama de fazer inveja a chiqueiro de porco, porém nunca pisei em neve e também nunca fui torturado, entretanto sei como é que é. Acho que nem é bom dar "cabimento" porque senão tudo vira tá tá tá tá...  

Ultimamente estou sendo influenciado pela insegurança eleitoral que ronda o país. Queria registrar algo sem muita utilidade, porém ao abrir os olhos vejo soldados marchando sobre as queimadas da Amazônia com botas de bico largo, feitas de couro de broxa, prontas para pisar na liberdade também.

Em cima do sofá há três almofadas desarrumadas com algumas medalhas atrapalhando o visual. Aqui é apenas a descrição da minha sala, nada de fazer comparação com qualquer instituição. Há um lençol cor de vinho protegendo os assentos, de sangue mesmo, só a aparência, por enquanto. Ao lado há um espelho simbolizando a democracia. Percebemos que daqui a alguns dias ele pode ser estilhaçado, então temos que proteger o espelho dos vândalos através do confirma, sem esquecer que nenhum militar “passou no concurso para ser rebaixado a vigia de urnas.”    


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 22.09.2022 ─ 07h53min



Veja no Youtube:

O MUNDO ESTÁ DE OLHO







A MULHER AURORE, A ESCRITORA GEORGE

 

A MULHER AURORE, A ESCRITORA GEORGE

Liliane Mendonça 22/09/2022

 

Como a Suíça, George Sand domina seus vizinhos,

ela sabe como olhar para eles, os contemplar.

Gustave Flaubert.


 



 

George Sand nasceu em 1º de julho de 1804 e morreu em 8 de junho de 1876. Era filha de Maurice Dupin, bisneto do rei da Polônia Augusto II, e de Sophie Delaborde, que tinha sido uma criança pobre cujo pai era um vendedor de passarinhos.

Sand escreveu mais de noventa romances, muitos contos, inclusive para crianças, artigos em jornais e peças de teatro. A escritora também trocou uma longa correspondência, composta por mais de 20 mil cartas com diversos escritores, políticos e intelectuais, entre eles podemos citar Marie d’Agoult, Balzac, Charles Augustin Sainte-Beuve, os dois Alexandres Dumas (pai e filho), Delacroix, Pauline Viardot, Louis Blanc, Pierre Leroux, François Buloz, o príncipe Napoléon-Jérôme, Gustave Flaubert, e o músico Frédéric Chopin, com quem teve uma relação amorosa.

Sand escreveu romances urbanos e rurais, nestes usando vários termos da variação linguística do Berry, região do interior da França onde cresceu: champi para abandonado, de suite para imediatamente, em vez de tout de suite. Entre os romances rurais que escreveu estão La Mare au Diable, François le Champi, e La Petite Fadette, nos quais a escritora acaba trazendo a experiência de sua relação visceral com a terra para sua escrita.

Sand se preocupava com o meio ambiente do qual se sentia “uma parte, pedra, planta ou pássaro (mais que borboleta)” (PERROT, 2018, p. 283). Em maio/2022 foi citada num programa da “rádio francesa” como primeira ecologista francesa, por ter escrito um manifesto para proteger a Floresta de Fontainebleau do desmatamento. Suas últimas palavras também foram para a natureza, ela diz: “Deixem... folhagem”.

Romancista romântica, Sand foi esquecida depois de sua morte em 1876, ainda que tenha virado nome de ruas e de escolas na França, mas enquanto viveu era uma autora muito presente no meio intelectual francês do século XIX. Foi a única mulher a participar dos “jantares literários” frequentados por escritores e editores da época, como Saint-Beuve, Louis Hyacinthe Bouilhet, os irmãos Jules e Edmond de Goncourt, Hippolyte Adolphe Taine, Théophile Gautier,  Ivan Tourgueniev e Gustave Flaubert.

A escritora sofreu preconceitos por causa de suas escolhas. Em “História da Minha Vida”, sua autobiografia, Sand conta que ao saber que ela trabalharia como escritora, sua então sogra teria dito “Eis uma ideia estapafúrdia!”, além de pedir à escritora que não colocasse o sobrenome da família “em capas de livros impressos”. Sand ainda seria considerada por muitas pessoas da sociedade como uma mulher “perdida”, simplesmente porque escrevia.

 

 

No Brasil entre 2014 e 2021, cinco de seus livros foram traduzidos, quais sejam: O Carvalho Falante (2014), História da Minha Vida (2017), François, o Menino Abandonado (2017), As Damas Verdes (2020) e Lendas Rústicas (2021).





 

 

 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

ESCUTAMOS CADA UMA!... - Heraldo Lins

 


ESCUTAMOS CADA UMA!...


Ao longe, uma onda quebra-se na areia igual a tantas outras. Banhistas dão cambalhotas tentando ser felizes aproveitando o mar que ainda é de graça. Enquanto uns aproveitam o astro-rei no motor da diversão, o sol arde mais intenso nas costas de quem precisa se expor para conseguir comida. 

As mulheres chegam e nem pedem licença para serem mães no sentido puro da palavra. Fujo delas quando as vejo amamentando em público. Aquilo deve ser usado como instrumento de sedução, mas transformado em dindim da Nestlé, deixa-me triste.    

Ontem também fiquei acabrunhado quando me deparei com uma jovem de cabelos verdes, entretanto não era uma extraterrestre, ainda bem. Fazia parte da turma do rapaz de chapéu preto, meias por cima das calças e casaco de calor. Agora é assim. Casaco virou indumentária para segurar o bafo do corpo dando provas o quanto se está disposto à autotortura.   

Mais adiante um guarda olhava a cena caminhando de um lado para o outro. Quanto será que está ganhando para vigiar uma porta aberta? A impaciência o fazia andar esperando o horário chegar para fechar o estabelecimento. 

Parei para conversar e recebi um pedido de ajuda. Seu plano estava atrasado e precisava quitá-lo. Para me sair dessa, disse-lhe que os planos de saúde continuam torcendo pelo sucateamento do sistema. Argumentei, tentando distraí-lo, que para a classe dominante é bom que exista um intenso consumo de bebidas, drogas, fumo, com o objetivo de dar lucro e adoecer quem teima em permanecer sadio. 

Para a roda girar, é necessário que todo mundo adoeça, disse o meu amigo, dono do hospital e sócio do restaurante. Eu mesmo, disse ele, tenho quatro pontes de safena! Deu uma gargalhada e ainda acrescentou: nada se leva dessa vida, a não ser a doença.  


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 20.09.2022 ─ 16h52min




FRAGMENTOS DO SERTÃO - Jair Elói de Souza

 




FRAGMENTOS DO SERTÃO

Névoa estirada na serra...assim que passou a chuva, que não foi rápida, peneirou por muitas horas, naquele chão de coronéis e verdugos.
Mas, antes que o milho vire sabugo...ah! Haja o pendoar! As flores do milharal no viço recebendo abelhas...que reluzindo em centelhas colhem o néctar enchendo favos! Que até raposas em manhãs de sol sobejam o melaço...E no bagaço de velhos banguês, onde ainda adormece o suor cativo. Pretos nativos da Serra do Catolé, com as zabumbas e pífanos a coreografar as danças dos ancestrais. Isso sim, é que é cultura,
Nas furnas escuras onde o felino, por horas a fio, auscultava o toque do chocalho de reses avulsas, barbatões fugitivos de vaqueiros que encorados, no lombo de pangarés, afrontavam a caatinga, que tecida de espinho, maravalha e cipoal cumpriam o seu ofício. Onde caminhos são veredas, andanças de cangaceiros, de tocaieiros escanchados nas galhadas de umarizeiros, esperando sua presa...
Terras de tropelias, dos currais de gado vacum, adentrando as aguadas, expulsando o nativo de seu pasto e sua caça, galegos vindo em navios das terras d'além mar, a povoar o Sertão a fogo e a brasa e ferrão.
J.E S.





segunda-feira, 19 de setembro de 2022

MASTIGANDO SEM PRESSA - Heraldo Lins

 


MASTIGANDO SEM PRESSA


Sair deste mundo para a realidade nem sempre é uma boa opção. Mesmo que exista uma ponte construída nas referências, é praxe segurar ideias para futuras reciclagens. 

Todos os dias, chega um cardápio oferecendo-se para ser escolhido. No restaurante da página, já saboreei uma paçoca de crônica, feijoada de romance e sobremesa de conto. A potência energética dada por eles é variada e muito eficaz, sendo que o poema é um lanche tomado depois da ceia, enquanto o ensaio é um caldeirão para mais de um mês de consumo.

Dia desses, durante o almoço, provei um aperitivo poético que me deixou meio embriagado. O gosto era de "quero entender", porém não pude ingeri-lo, à exaustão, com medo de meter os pés nas pedras. Ele foi para o rol da experiência, apesar disso não sei se o compreendi com todos os possíveis significados, só posso dizer que me deixou pensativo até hoje. Tenho certeza que voltarei a ele, quando passar a lembrança do tropeção.  

Viajo praticamente cinquenta páginas, ou mais, atrás de novos sabores, e gosto muito de deixar sucos de palavras para outros terem acesso aos respingos da minha experiência. A cada dia, novos paladares são propostos com o objetivo de expor algo inédito que irá alimentar quem sente a mesma fome. Com tanta chuva de conteúdos por aí sendo oferecido de graça, fica difícil a escolha, ainda assim o que importa é o discernimento ficar apto a escolher quais novas formas de cozinhar palavras podem ser praticadas.  

Chegar ao final é tão complicado quanto começar. Escolher os ingredientes que irão compor o alimento da alma passa a ser estafante, no entanto prazeroso. Para cozinhar uma historinha, qualquer que seja ela, às vezes me custa o dia inteiro pelo fato de que não é fácil misturar gerúndios com particípios, inserir uns "aindas", outros "assins" dando forma ao cozido num processo de experimentação que, muitas vezes, de tanto botar, esquentar, tirar, esfriar, resta apenas a alternativa de jogar fora. O cozinheiro de palavras é um tradutor dele mesmo e precisa estar atento às redundâncias que anunciam a hora de desligar o fogo.

No caminho, tudo pode acontecer, desde uma palavra mal dita ou ao contrário, entretanto a chama deve estar acesa no ponto da desconfiança. O bom dessa refeição é que ela pode ser degustada por milhões e nunca se acaba. Às vezes precisa somente existir para, a qualquer hora, ser usada na sobrevivência de quem gosta de comer ideias. Faz tempo que a única preocupação que tenho é cozinhar na panela do bom-senso e da satisfação.   

É difícil fugir para dentro de si mesmo, contudo essa viagem evidencia um forte prazer ao ser liberada para conhecimento público. Na busca pelo prato perfeito, quase inalcançável, deve-se entrar no silêncio para que o barulho venha à tona. Sofrendo ou gozando, dependendo do que se escolhe para cozinhar, essa é a realidade de quem acredita na motivação como sendo o melhor tempero.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 19.09.2022 – 17:27



domingo, 18 de setembro de 2022

PREVENDO A REALIDADE - Heraldo Lins

 


PREVENDO A REALIDADE


O dia estava quente com as nuvens fazendo sombras no mar. A visão panorâmica lhe trazia paz e sempre se apresentava diferente a cada amanhecer.   

Havia banhistas ao longe lhe deixando dúvidas se gostaria de descer a ladeira para participar da farra mulher/natureza naquelas ondas límpidas e cadenciadas. 

Em frente à sua varanda, todo aquele início de águas, aparentemente sem fronteiras, servia de adubo para sua vaidade. Ao receber visitas, muito lhe interessava ouvir os elogios sobre sua aquisição. Outros apartamentos existiam por perto, mas com aquela vista eram poucos. Nem pelo dobro do que havia investido, alguém poderia comprá-lo. Não estava à venda, fosse qual fosse a oferta. 

Sempre aquele cartão postal seria motivo de orgulho, contando ainda com um parque protegido pelas leis ambientais. Tocar na areia ou mesmo mergulhar, já não era seu objetivo. Acostumara-se em apreciar a beleza com uma pontinha de altivez enquanto apreciava o encontro do céu com o oceano, da sacada do vigésimo andar. Isso era a verdadeira poesia viva, com ondas, ventos e sóis, pois no seu poema havia mais de um sol, o natural e o dele em plena concepção do eu engordado. 

Gostava que o desjejum fosse servido na mesa bistrô, e quando de férias, nem saía para outros lugares. Ali recebia pessoas de outras nações que vinham apreciar a paisagem, por isso viajar não mais lhe despertava interesse.  

Quando criança, aquele prédio nem existia. Com o tempo a cidade foi alargando seus tentáculos e hoje é um dos lugares mais valorizados. Naquela época, ele vinha do interior banhar-se naquele mar que nem imaginava ser por ele apreciado dali. Mais tarde, o bosque seria usado para namorar escondido. Achava sempre um lugar para se esconder na vegetação nativa. Fazia o que fazia sem sonhar que houvesse perigo de ser pego por alguém do mal. De certa forma, aquelas aventuras eram pouco vigiadas. As queimaduras, no outro dia, faziam parte da identificação de ser bem articulado entre as que lhe ensinavam a arte do amor. 

As louvações, quanto a ser bairro turístico, não paravam de crescer. Tudo acontecia naquela praia. As inocentes meninas do interior, com suas marmitas prontas para o almoço, sumiam pouco a pouco dando lugar a barracas que até para se sentar cobravam taxas. Passou a ser frequentada por larápios em busca de uma oportunidade, enquanto as pessoas mais abastardas foram saindo para condomínios distantes. Um dia, chegou ao poder um que defendia novo plano diretor. Ele nunca ouvira falar nesse tipo de plano, por isso não acompanhou as discussões para tal elaboração. Antes do final do ano, o projeto para construção de arranha-céus foi votado e aceito sem restrições. O tempo passando e as construções, inicialmente inofensivas, passaram a impedi-lo de ver a praia, depois o coqueiral, o morro e por último o mar, que ele tanto se vangloriava de ter sido captado pelas suas lentes. 

O que restou foi somente a luz do sol com um pouco de brisa sendo barrada pelos prédios à sua frente. Não conseguia pensar qual seria a solução. Poderia ter economizado para comprar um dos recém-construído e ficar ostentando seu troféu para os familiares que, por sinal, moram por lá sem ao menos convidá-lo. 

Os dias seguem-se angustiados e ele nem mais se dar ao trabalho de ficar onde costumava. Enfurnou-se no computador e passou a escrever suas memórias, e essa é uma delas.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 17.09.2022 ─ 18:14



sexta-feira, 16 de setembro de 2022

DEVANEIOS EM OUTRO NÍVEL - Heraldo Lins




 DEVANEIOS EM OUTRO NÍVEL


Fui dormir dentro do tempo. Eu sabia que estava na data de ontem porque o sono atrasado clamava para ser recuperado. Olhei para a madrugada que, por motivo de sintonia, ficava brigando com a noite querendo tomar o seu lugar. O barulho daquela briga quase me expulsou do leito.

Lembrava-me ter sido hospitalizado à época que nem se falava em viajar por dentro do espírito. O efeito daquela situação estava potencializando o meu cérebro, afinal, durante esse tempo todo só me entretive observando o sangue sendo reciclado. 

O fato de estar vegetando há décadas, fez-me produzir pensamentos onde tudo permanecia na cor vermelha. A necessidade de adentrar em outra realidade foi sendo planejada aos poucos. 

Minha mente apresentava indícios de que o corpo estava destinando cada gota de sangue para lugares que eu ignorava existirem. Era como se fosse uma floresta sendo vasculhada onde algumas árvores serviam de antena para captar os raios do futuro. 

Um dos neurônios avisava o que estava para acontecer, e os demais produziam imagens baseadas no comando recebido. Senti uma refrigeração no cérebro ao perceber que em certo momento todos foram liberados dos traumas. 

Muita força e discernimento chegava dizendo para me levantar. Por não acreditar que fosse o instinto suicida falando, puxei as instalações do cateter e, nesse momento, recebi um choque avisando-me que a gerência havia sido transferida para um ambiente totalmente isento da minha vontade. 

Meu livre-arbítrio estava desabilitado, disse-me um vulto. A partir daí foi só soluções. Acabara de sair do meu próprio domínio passando a obedecer ao que vinha sendo dito pelos pequenos seres pensantes existentes no meu cérebro. 

Busquei me adaptar ao novo comando avisando a mim mesmo que chegara a vez de ficar longe das dúvidas e bloqueios. Sozinho, levantei-me e fui seduzido por um brilho no chão indicando qual caminho tomar. Na hora de levantar os pés, cada perna recebia uma ordem. Esqueci-me das dores de cabeça e fiquei degustando o prazer de estar voando. 

Meu corpo servia de ponte entre o agora e o depois. O efeito daquele transe migrava para todas as células reconhecidas por mim. Fui andando e finalmente entrei na rua larga da saída do prédio em busca de uma casa que nem existia mais. 

Procurei manter-me respirando sem me preocupar que a tropa estava chegando. Soldados de branco aproximaram-se, mas não me tocaram. De mãos dadas todos me acompanhavam como se eu fosse o cabeça de uma revolução transparente. Fomos caminhando e invadindo lugares e mentes de quem ficava exposto ao meu campo visual. Tentei sustentar as ideias na origem, mas elas foram saindo junto com as lembranças, até então, guardadas não se sabe onde.  

Estilhaços dos tabus voavam deixando-me livre da vergonha. Procurei algum referencial no porão do inconsciente, todavia o barulho ia me dizendo que ele estava sendo reciclado para servir na função criativa. Outra indefinição apareceu para me guiar. 

Chegou de forma tímida e depois foi atendendo, com desenvoltura, minhas vontades enquanto uma canção passou a ser ouvida mascarando alguns gritos ouvidos ao longe. Aconteceu um clarão que limpou as consciências dos mal-amados e criminosos que seguiam a procissão. 

A fumaça veio sem que eu pudesse ver onde pisava. Um portal à frente se abriu e todos os que me acompanhavam tomaram à frente e foram sumindo pouco a pouco enquanto eu perdia o controle das pernas. Não dependia de mim, adentrar aquele recinto. Eu estava nas mãos dos meus pés que, por sua vez, obedeciam à outra gestão. Fiquei esperando para ver o que acontecia. O portal continuava aberto e livre de fumaça.  

Naquele momento, alguém veio e disse algo incompreensível. Diante da minha total ignorância, os neurônios conseguiram se reprogramarem e, juntando forças, deixaram-se levar pelo sono. Mesmo eu não conseguindo permanecer deliberando cotas de vontades, fiquei observando para onde minhas ideias iam e aproveitei para assistir, sem poder interferir, o espetáculo da minha própria existência.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 16.09.2022 ─ 11:11



quinta-feira, 15 de setembro de 2022

ANTAGONISMO DO SER SOCIAL - Heraldo Lins



ANTAGONISMO DO SER SOCIAL


O destino, com um sorriso permanente, guiava-os pelos caminhos da vida. Um toque de otimismo, sempre a tirá-los para longe das dúvidas, fazia se sentirem à vontade um com o outro. A graça total dava ao encontro um clima de festa desprovido de qualquer segredo. Pareciam pássaros libertos da gaiola das expectativas. O regozijo aumentava a cada encontro, assumindo um tipo de cartão postal na relação. Aos poucos, as emoções transformaram-se em continentes sem fronteiras adubando o solo da felicidade. 

A chuva caía fina prendendo a moça em casa. Ela sentia frio com os lábios “embatonzados” sem esperança de poder ir. Suas ideias estavam distantes, bem além daquele vidro que a protegia do urro do sapo boi: - "Meu pai foi rei!"- "Foi!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". Por coincidência, acabara de ler o poema e nem se dava conta que estava vivenciando a poesia em seu jardim. 

Havia contentamento além do normal, significando que aqueles duradouros sorrisos vinham para serem distribuídos com grande desprendimento. Expressividades contagiantes por onde passavam fazendo quem estava por perto se sentir influenciado. 

O quanto havia sido boba em acreditar que estaria perto dele naquela noite, disse angustiada, e, para diminuir a ansiedade, rasgou as páginas do livro sem se importar se havia sido emprestado. 

Nada mais havia para ser explorado em matéria de satisfação. Muitas palavras eram ditas e nem tinham tempo para ir por caminhos diferentes, já que os olhares tendenciavam-se para continuar gerando infinita prosperidade naquela estrada alegre da convivência. 

Achava-se uma pessoa tímida com a violência domesticada pelos prejuízos que tantas vezes causou. Basicamente era filha única, já que o irmão saíra cedo para estudar fora e ela ficara com todos os mimos dos pais.  

As cores, por onde iam passando, se mostravam cada vez mais vivas nos canteiros do deleite sem mostrar qualquer dúvida quanto ao amor. A vontade transformada em algo que fazia a atração se tornar cada vez mais forte, um estimulando o outro a produzir seu próprio bem-estar, por algumas horas, após cada encontro. 

Quando estava sozinha, tinha facilidade em se entediar até em assistir ginástica olímpica que tanto gostava. Envenenara-se uma vez apenas para sentir emoções fortes e causar outras em quem a amava, argumentando ser necessário experimentar de tudo um pouco para saber o que escolher no futuro sem capa nem contracapa. 

Embrenhavam-se no relacionamento sem um mapa dizendo qual projeto deveriam seguir para viverem bem. Iam simplesmente dando asas à intuição desenrolando-se uma espécie de consentimento com sinceridade. Cada encontro era mais interessante do que o anterior. Esses arroubos de fantasias, insistiam em mantê-los conectados em seus delírios como se tivessem nascido da mesma placenta ou vividos unidos pelo cordão umbilical em subterrâneos inexplicáveis. 

O fato de que precisava manifestar-se de forma diferenciada, fez-lhe pensar sobre a relação. Apesar de nem precisar forçar seu querer, percebeu que isso a impulsionava a ter outras ideias parecidas com a que teve há dois dias registrando tudo que via, sentia e ouvia, e isso lhe dava combustível extra para permanecer em atividades distintas. É o tipo da coisa que vai aos porões do subconsciente transcendendo a beleza da intimidade, amando quem chega primeiro e entendendo o que inibe o entusiasmo.  

Decidiram se casar. Confiantes, não se deixaram abater por olhares em direções opostas, envolvendo-se de corpo e alma com os recém-nascidos. Dez anos se passaram na mais perfeita harmonia. Aquele relacionamento assemelhava-se a uma sinfonia sem erros nem paradas. As semanas traziam mais capítulos da extensa história real registrada na fotografia da memória de outros nascimentos. Muito mais do que o bom e o bem os mantinham juntos, sem saber explicar o que era. 

Na separação dos corpos, percebeu que estar sozinha é um passaporte para territórios mal-assombrados. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 15.09.2022 — 12:24



quarta-feira, 14 de setembro de 2022

ARTIMANHAS DE UM PREGUIÇOSO - Heraldo Lins

 


ARTIMANHAS DE UM PREGUIÇOSO 


A rede vermelha, amarrada no gancho, servia-lhe de inspiração. Estava deitado na cama e registrou que também havia um ar-condicionado. 

Ao tentar descrever uma transparência na parede, sentiu dificuldades em encontrar o nome "prancha" para dizer que aquele pedaço de vidro medindo um metro e dez por quinze fazia a vez de criado-mudo. 

Em seguida, olhou para a janela que permanecia deixando o azul do céu entrar com um brinde de brisa marítima. 

A mão foi puxada para dentro do frevo tendo sua extensão representada pelo dedo indicador pulando amarelinha na tela do celular. 

Confessou haver esquecido de registrar a presença do smartphone reivindicando ser protagonista, fato não levado a sério porque essa decisão chegou a ser influenciada pelos pés dizendo "não" no final do colchão. 

Os olhos viram tudo aquilo e logo empurraram outros seres para que o autor fosse anotando sem discriminação. Uma surpresa surgiu quando o branco do teto disse ser mais importante que o branco das gavetas, polêmica apaziguada pela lâmpada apagada sussurrando não se meter em briga de gente sem-futuro.  

"Vão" ficou sendo utilizado como sendo o nome do espaço entre dois compartimentos considerado corredor, todavia permaneceu "vão" mesmo. 

As cortinas, depois que foram incluídas, passaram a rodopiar se assemelhando aos poloneses dançando mazurca no século dezenove.  

Não havia nenhum objeto doente, mas o amarelo surgiu entre os travesseiros, e o marrom, sem ser bombom, estava escondido dentro de um rolo de papel higiênico. 

O preto foi avistado na cor da calça e nos sapatos, respectivamente, posicionados em cima e embaixo do plano visual. 

Ah! gritou o controle remoto, não se esqueça de anotar que eu e a televisão somos importantes nesse quarto de dormir. Tudo bem! respondeu o digitador e continuou escutando a fachada do prédio pedindo para anotar sua cor cinza e que também fosse registrado as barras de alumínio em cor natural.

 A cabeça nem precisou de guilhotina para rolar... de lado, e levar os olhos juntos para perto do espelho. Havia uma porta espelhada e essa porta era do guarda-roupa que não queria sair do "guarda-roupa" nem sendo forçado pela tábua de passar. A tábua, prima legítima dele, estava sufocada com tanta roupa amassada depositada em sua cara. Permanecia ansiosa que a passadeira lhe tirasse daquele sufoco, pois tinha medo do praaaaá! O que é praaaaá? perguntou a tomada elétrica só para se fazer presente. É o barulho da minha coluna se quebrando, respondeu a tábua fazendo o guarda-roupa, não segurando a gargalhada, sair dele próprio. 

Precisa de mais ação! gritou a cadeira. Ela estava ali rodopiando fora do quarto, já que dentro não lhe cabia. Ao se levantar da cama, influenciado pela antipática cadeira, o escrivão teve que registrar que o lençol sofreu um empurrão quando sua atenção correu para o banheiro. A velocidade expressa para chegar ao canto das intimidades só podia ser comparado a uma corrida de Fórmula Indy. Mas não dá para colocar movimento em coisas inanimadas, disse o autor respondendo à cadeira, a não ser que os personalize, e esse não é o objetivo. E qual é o objetivo? Transformar uma leve descrição em algo suportável de se ler. Então conseguiu, disse a cadeira “dando gás” ao seu interlocutor. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 14.09.2022 — 16:31



DesertAR - Poema de Ileane Cavalcante

 


DesertAR

Por vezes me assalta
Vontade cigana
De sair sem rumo
Em busca
Não sei de quê
Nem mesmo aonde
Talvez de mim
Fugacidade
Esse meu lado desertor
Sonhando com abdução
Respiro
E percebo
Tudo está aqui
Conjunto de mim
Ao alcance das mãos
Onde plantei flores
Pari filhas
Onde hei de continuar
Certa de que
A vida
É sempre busca
Na beira d'uma estrada

(Ileane Cavalcante)





terça-feira, 13 de setembro de 2022

AFINAL, UM FINAL COMUM - Heraldo Lins



 AFINAL, UM FINAL COMUM


Conheceram-se na biblioteca central. Ela, na mesa redonda, fuçava as folhas de um autor que ele conhecia e isso o deixou com motivos sobrando para começar o diálogo. Não só pelo texto, mas porque ela, por si só, já era uma obra-prima.  

A mulher que varria desconfiou que ali "tinha coisa", notando um olhar de predador daquele que se aproximava. 

Lá nas cabines de leitura, nada digno de registro, fato que eu poderia ter deixado de lado, mas por vontade de enfeitar a cena, fica assim mesmo.  

Propaganda enganosa, tendo em vista que as cabines, para quem não sabe, fica em outra sala.  

Uma pessoa mais atenta na leitura pode até dizer que é um filme que estou querendo roteirizar, mas, sinceramente, nem sei em que isso vai dar. 

Essa ideia do leitor é boa. Um roteiro para cinema... Por que não?

Vamos adiante! No fundo das estantes, outras mocinhas angustiadas pensavam em escolher um livro para ir também para as mesas, pois sabiam que muitos dos rapazes daquela universidade utilizavam o mesmo modus operandi para se aproximarem, e como elas estavam doidas que acontecesse uma abordagem, nada melhor do que se fingir de presa com um livro entre os olhos. 

Na fila do refeitório... peraí! a cena não estava na biblioteca? Sim, entretanto esqueci de dizer que eles se conheceram e foram almoçar, cada um com sua ficha de casa de estudante na mão. 

A mulher de meia-idade, com a concha em seu poder, olhava, com desprezo, para aqueles dois leitores de Poesia. No almoço, o ritmo dos alimentos caindo na bandeja tinha que ser o mais rápido possível. Lá ele entendeu o ditado: “a fila anda”. Era melhor modificar para: a fila corre. Ele sentiu que era o momento de dar um encostada na bandeja da sua amiga recém-amiga. Tentou, mas poderia ser que derrubasse suas teorias de altruísta que dissera a ela ser defensor.  

Depois do beijo, saíram, cada um para sua aula vespertina. O abraço ficou coçando durante toda a primeira aula, estendeu-se para as demais, de forma que à noite fizeram amor por trás do campo de futebol, escorados na arquibancada. O escuro durante o esplendor do amor só não foi aterrorizante porque da escola de música chegavam acordes de piano.

Ofegantes, saíram para o refeitório. Lá estava a tediosa fila do jantar. Ele, dessa vez, ia à frente. Os corpos de outros colegas colaram em quem estava atrás dele. Os cabelos lisos dela, quando em quando, eram acariciados. Fazia parte do ritmo da juventude que gritava por liberdade.  

Ao passar pela biblioteca, na saída das aulas noturnas, eles se dirigiram novamente para o campo. Dessa vez o piano foi substituído pela sirene da guarda motorizada dando um aviso que os havia notado, mesmo assim, continuaram se cansando por várias vezes. 

O homem do carrinho de pipocas já empurrava para casa quando eles passaram, ela na frente com sorriso de satisfeita, e ele atrás, cambaleando. 

Pensou se aquela seria sua mulher pelas vinte e quatro horas seguintes, e deixou-se relaxar debaixo do cobertor. Ela já nem se lembrava mais qual o rosto dele, quando foi para a fila do café-da-manhã.  

O excesso de "estímulo" interior a fez ir novamente para a biblioteca. Hoje deve aparecer mais um com o mesmo querer, disse para si, esperando que não fosse ele, só que foi. 

A rotina do dia de ontem teve mudanças, ao invés do campo de futebol, escolheram as salas vazias do departamento de arte. Lá, o "senhorzinho" que abria e fechava as salas, concordara em deixá-los a sós em troca de um agrado, sem que ninguém fosse testemunhar contra ele.  

Os outros dois que haviam saído deixaram alguns erros pelo chão, mas isso não os incomodou. 

Depois da sala, tiveram a certeza que precisavam passar mais momentos juntos. 

Na formatura, lá estavam eles sonhando com uma sala sem o zelador por perto. Uma sala em que tivesse um quarto perto, banheiro, pia, mas jamais queria chamar de casa ou apartamento. Na mente deles, tudo era esfacelado. Depois de alguns esfacelamentos amorosos, recorriam ao campo, à biblioteca e à sala com vigia sorridente, para dar um gás na relação. 

A jovem barriguda agora saía de casa para deixar seu tempo em uma repartição. O tédio em passar oito horas digitando o que não era do seu interesse, só era suportado pela justificativa de ter dentro dela alguém sendo montado. 

Sentados na sala, o casal assistia aos vídeos ensinando quais os cuidados que deveriam tomar quanto ao ser que estava vindo. Só isso. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 13.09.2022 — 08:28



segunda-feira, 12 de setembro de 2022

FALTA DE MOVIMENTOS - Heraldo Lins



 FALTA DE MOVIMENTOS


Começou pelas mãos, aquela dormência foi subindo em direção aos braços, semelhante a uma enchente em rio seco.

Nos dedos, parecia que tinha um fio de alta tensão mandando descargas de mil volts em momentos de curtíssimo intervalo de tempo. Se alguém o observasse, acreditaria que estivesse a falar a linguagem dos surdos-mudos cujas frases nem cego entendia, depois de feita a dublagem.   

Os movimentos dos pés e pernas superaria, em muito, uma multidão de dançarinas de frevo em plena terça-feira de carnaval. Não havia dúvidas que estava recebendo divindades misteriosas. A cabeça rodopiava querendo saltar fora, alternando movimentos circulares, para frente e para trás e, também, para os lados como se o pescoço fosse feito de elástico.   

Não havia preferência para qual dos pontos cardeais aquele homem se dirigia, motivo maior para deixar sem saber o tipo de pai ou mãe de santo estaria ele reencarnando naquela roda da sexta-feira treze.   

A barriga fazia ondulações saindo do toráx em direção ao baixo ventre, tipo uma bola descendo e subindo, e por vezes a bola tentava sair pelo umbigo. 

No rosto, a boca era a mais afetada pelos movimentos. O maxilar ia para frente e, em ato contínuo, os lábios superiores se retraiam e em seguida vinha um enquadramento nos olhos vermelhos com as partes escuras girando ao contrário uma da outra.  

Em certo momento, os cabelos começaram a ficar em pé, deitando e levantando-se iguais a uma plantação de milho enfrentando rajadas de vento. Era um verdadeiro pisca-pisca de fios.   

Gazes com odor de alho torrado, com seus respectivos barulhos, eram expelidos parecendo uma pipoqueira a todo vapor.    

As orelhas abanavam-se dando a impressão que eram duas janelas sem tranca de uma casinha recebendo pressão de tufões, enquanto as unhas imitavam a língua de uma cascavel à procura de suas presas.  

Entre esses desordenados movimentos, sua voz era ouvida em milhares de idiomas, intercalando palavras diferentes, inclusive, eram também pronunciados os dialetos das mais longínquas tribos. 

Tudo isso acontecera em dois minutos, entretanto por faltar cambalhotas no culto aos orixás, seu autor perdeu o prêmio de melhor desenho animado.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 12.09.2022 – 10:25



domingo, 11 de setembro de 2022

PORQUE LAMPIÃO FICOU NO IMAGINÁRIO POPULAR - Jair Eloi de Souza



 HISTÓRIAS DE CANGAÇO

EPÍSÓDIO: PORQUE LAMPIÃO FICOU NO IMAGINÁRIO POPULAR.
O cangaço, uma das páginas mais cruentas, vivida nos ermos mais distantes da pancada do mar, onde o sol se faz rosa, para se pôr, tem sua grota de viço nas amarguras da vingança, no refúgio de quem cometera um crime, e por último, na sua fase mais ignóbil, desprezível que é o cangaço meio, fim, com ações de rapina, com plenitude de prática, no período lampiônico, com mais intensidade, nos tempos que medeiam entre l926 a 1938, quando ocorreu o epílogo do cangaço na gruta de Angicos, em Sergipe.
Mas o meu paleio de copiar* hoje não é esmerar o cangaço nem como conduta criminosa, hedionda, nem tão pouco, adjetivando seus praticantes como “heróis extraviados”, como dissera um dos meus gurus, Ariano Suassuna. A selvageria lampiônica, em muito supera o suplício nas ordenações manuelinas e afonsinas, que no Brasil fez-se prática nos episódios de Felipe dos Santos e do próprio Tiradentes, com cênico de esquartejamento e exposição na Cruz de Malta, uma cristianização à similaridade do que aconteceu com Jesus, na era de Tibério César.
Mas rabiscar na historicidade dos fatos e contextos o que levou os habitantes dessas terras de trópicos e de anos de magrém, a amealhar no seu imaginário, não um juízo de reproche aos hunos da caatinga, porém, mitigar uma leitura, que transformou o Estado disciplinador em réu e o desvario da violência do cangaço, numa possibilidade de ser, o que nosso Mestre Cascudo vislumbrou, serem:
“bandidos diferenciados dos criminosos comuns”, portanto, uma saga que nascia de uma vertente dotada de escudo ético, aquele que sofrera uma injustiça, um constrangimento, não reparados pelo Estado.
Saliente-se que esse juízo não é desnudado de motivações. Por necessário trazer o exemplo de como Lampião se portava no trato com o pequeno sitiante criador. Sempre vislumbrava na escolha de uma rês de gado vacum, por uma cabeça escoteira, sem prenhez ou amojo, ou na fase lactente. Escolhia um toureco, uma garrote, para fazer a carne de sol. E nessas circunstâncias, sempre ordenava que o seu estado maior, procedesse no pagamento.
Porém, quando a polícia se arranchava na casa de um criador do Sertão, proprietário de apenas uma semente da espécie, ordenava o abatimento do “boi de campinadeira”, a força motriz da roça, daquele desvalido sertanejo, saindo sem o devido pagamento.
Por ressaltar também, que no espetáculo cênico de CHUVA DE BALA NO PAÍS DE MOSSORÓ, os heróis não são os defensores da urbe potiguar, mas, a saga lampiônica, começando pelo próprio rei do cangaço e seus lugares tenentes, Sabino de Gore*, Jararaca.
Embora tal episódio seja um dos malogros da epopeia do cangaço sob a égide de Virgulino Ferreira da Silva, que há alguns meses antes, no dia 26 de novembro de 1926, na batalha de Serra Grande, PE, houvera derrotado as forças de quatro estados nordestinos, um contingente de trezentos homens, entre macacos e cachimbos, com a apenas um grupo de 68 cangaceiros.

*Sabino de Gore: Sabino era filho de uma negra cozinheira com o Cel. Marçal Diniz, meio irmão de Marcolino Diniz, coiteiro de lampião, e cunhado de José Pereira de Princesa, pois, casado com Xanduzinha, personagens da melodia "Xanduzinha", interpretada por Luiz Gonzaga, Rei do baião.
J.E.S.



CORDA DE AMARRAR VIDA - Heraldo Lins

 


CORDA DE AMARRAR VIDA

Veio procurar a sonhada oportunidade para sair sem que ninguém soubesse. O rosto lavava-se com algumas lágrimas naquela noite fria quando uma senhora, bem vestida, aproximou-se. Sabe onde posso tomar um café? pergunta-lhe sorridente. Não, não sei. Só quero ficar só, respondeu percebendo que aquela senhora queria algo mais do que o café. Por mais que escolha ficar sozinha, disse a senhora, sempre haverá alguém a lhe acompanhar, nem que seja no pensamento.  

Olha para o lado e não encontra nenhum trem aproximando-se. Os guardas da estação permanecem sonolentos no ritmo do pouco movimento. Todos agem olhando para o relógio como se estivessem presos aqueles braceletes. 

De repente, uma coruja lança-se entre os trilhos agarrando o pequeno roedor sendo observado por ela que olha para o pássaro até ele se perder na escuridão. Assim como aquela presa, seu destino está traçado, diz olhando, com vagar, os painéis de arte. Percebe vultos se movendo por trás das pinturas feitas em tons vivos. A maioria dos guichês estão fechados, com exceção das máquinas eletrônicas, todas, como de praxe, contrastando com o resto da penumbra. 

A idosa pergunta baixinho para onde está indo uma tão bela moça àquela hora da noite. Não estou indo para lugar nenhum. Aqui é o meu ponto final, responde ela com a ideia fixa de se jogar no próximo trem que passar. Já que não tem para onde ir, pode dormir na minha casa que fica aqui pertinho. Não estava ali para começar um anova amizade, longe disso, queria acabar com todas que construíra, isso sim, era o que queria. 

Havia um clima de anormalidade acontecendo com aquela que estava querendo ser sua amiga. Isso é ridículo. Deu as costas e afastou-se sem se preocupar se havia sido mal-educada. Pouco importava, já que não precisava ser mais fingida. 

Mesmo longe do calendário, a lua cheia aparece chamando sua atenção. Procura recuperar o fôlego sentando-se num banco logo adiante. Os outros, na sua percepção, haviam desaparecidos só restando aquele em que estava sentada. Volta seu olhar para os trilhos que estavam brilhando até onde a vista alcançava. Percebeu mais ratos sendo caçados. Será que ainda há trem vindo para que ela pudesse executar seu plano? E se não houvesse? Não queria perguntar aos guardas nem à velha que permanecia parada onde ela a deixara. 

Sentiu fome, mas para onde ia não precisaria se alimentar nem retocar a maquiagem. Nesse momento, outra mulher de preto senta-se ao seu lado. Vira o rosto em direção à velha e não mais a encontra. A ocupante do banco tem um aspecto pálido e os olhos refletindo os raios da lua.  

Desculpe-me incomodá-la, mas sabe se há algum trem nesse horário, pergunta-lhe a outra que há pouco havia sentado.  Não, não sei, estou sentada aqui esperando minha tia que foi tomar um café, e logo voltará para irmos para casa. Eu perdi o trem de ainda há pouco e nem sei como fazer até amanhã pela manhã. Dizem que é perigoso a pessoa dormir nesse banco, pois há muitas ladras, mas eu não sou uma delas, pode ficar tranquila. Não tenho medo, até por que os guardas estão me dando proteção. Ela olhou em direção onde antes havia guardas, mas naquele momento nenhum sonolento se encontrava por perto. Além do mais, há câmeras em toda a parte. Elas só servem de enfeite, disse a mulher acendendo um cigarro.  

As desconfianças só aumentavam de acordo com o passar da noite, e, para piorar, naquele exato momento uma nuvem deixou a lua totalmente encoberta. Se ela não tinha medo de se matar, muito menos de uma pequena escuridão. Talvez seja melhor sairmos daqui, sugeriu a outra.  Pode ficar à vontade, minha tia está vindo. Ela já era para estar aqui. Veja, os quiosques já fecharam. Só há os mendigos e cães dormindo. Se você quiser ir pode ir, vou esperá-la aqui, aconteça o que acontecer. 

Virou-se para certificar-se que não havia mais ninguém do outro lado da estação. Ao voltar-se, a outra mulher havia sumido dando lugar a um gato deitado aos pés do banco, fitando-a. Vira-se, mas havia um homem ao seu lado impedindo-a, com seu corpanzil, que ela pudesse enxergar na outra direção. Levantou-se na máxima rapidez indo até a beira dos trilhos. 

A lua voltou a brilhar. Não quis espiar para trás para não deixar vestígio de algum medo. Ouviu um apito ao longe. O homem havia sumido e o gato também.  O frio, trazido pelo vento aumentado, retorna. Ela prepara-se para se jogar. Vê os faróis barulhentos se aproximando.  

Nenhum temor em fazer o que vinha decidindo há dias.  Apoia-se rente aos trilhos com as mãos espalmadas no piso do degrau sujo. Seu vestido está se amassando, porém dessa vez não se importa com isso. 

Nunca havia pensado com tanta liberdade como naquele momento. Lembrou-se dos bens que possuía, dos filhos, da carreira na magistratura, enfim, do marido desaparecido. O casamento já não estava tão bem, a filha com compulsividade e o filho não mais lhe obedecia. Sentia-se envergonhada por terem lhe flagrado com um colega no banheiro. Ela que sempre pregou os bons-costumes em casa, na repartição... Seu nome sendo riscado depois de polido durante anos de intenso trabalho. Retraída, nunca quis que alguém soubesse das suas paixões secretas usufruídas nas viagens de trabalho. Dessas lembranças, surgiu a vontade de ser dona do seu destino. Já chega de ir “como uma onda no mar.” Tinha fome de liberdade, e essa era a única vontade genuína. Seu sonho, finalmente, seria realizado.  

Enquanto toma consciência que o caminho será sem o sofrimento da espera, olha novamente para o trem se aproximando. Parece que passou vinte anos, e na verdade foi apenas frações de segundos.  Fecha os olhos numa paz jamais alcançada constatando que queria viver decidindo em ir para longe da vida. Ela sente o degrau puxando-a para permanecer sentada como se fosse um grandioso ímã. 

Ainda com os olhas fechados, imagina as rodas de ferro lhe esmagando. Continua calma com o plano de abrir os olhos no momento exato. Queria ter consciência do momento anterior ao ato. Estava disposta a fazer aquilo com muita simplicidade, como se coloca a mão na água. Apenas mais um ato como outro qualquer. Seria em vão criar expectativas. Um dia teria que acontecer, que fosse hoje. 

Seus problemas ficaram sem validade. Agora era o prazer em dominar-se diante de um algo tão condenável.  Mais uma vez, avista longe, na imaginação, alguém lhe chamando. Não quer voltar. Tudo está consumido, pensa ela no semblante calmo que nunca tivera. Ele está diferente, aquele que a chama para seus braços. Quem será? Não faz sentido estar abraçada com quem não conhece. Tenta se desvencilhar. Sua temperatura permanece caindo sem motivo aparente.  

Sente alguém lhe beijando, e nesse beijo o homem dá-lhe oxigênio para libertá-la daquele coma. O marido ao lado com os filhos, conta-lhe que ela desmaiou em seu trabalho e foi trazida para o hospital. Ela olha para o lado e vê a velha saindo do seu quarto e lhe dando adeus e dizendo: por mais que você quisesse, hoje não era o seu dia.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 11.09.2022 – 09:57