APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 18 de julho de 2018

UM BANQUETE NA CASA DE MARIA GORDA (Marcos Cavalcanti)


Estava eu ali no largo da matriz de Santa Rita de Cássia, admirando um coreto holográfico de priscas eras, de onde ecoavam imaginários acordes das bandas dos mestres Oscar, Deusdeth e Camilo, numa costura imaginativa do passado com o presente, quando vejo vindo das bandas da 1º de Maio, o professor Nailson Costa, entusiasmadíssimo, com um livro na mão, perguntando-me se eu já tinha deitado os olhos nas CRÔNICAS DA CASA DE MARIA GORDA, aproveitando o ensejo para me mostrar os autógrafos em forma de bocas coloridas, recém colhidos das "mininas" do lugar. Respondi-lhe com igual entusiasmo: não só deitei os olhos, meu caro amigo e professor, como devorei-lhe as páginas saborosas em três tragadas de grande satisfação gastronômica.
A fome de leitura deste comedor de palavras começou, é claro, pela cobertura, que nos apresenta em esfíngea silhueta, aquela que é o mote e a personagem absoluta das narrativas deste querido prosador santacruzense, José Rosemilton Silva, rebento ilustre e parte de uma prole não menos famosa, do amor em Rosa do ainda mais afamado Mané da Viúva. Mas devo dizer, mestre Nailson, que de entrada, detendo-me nas orelhas, não deixei de reparar na figura quase monástica de Rosemilton, que melhor estaria representado, se o retrato fosse proveniente de um original em três por quatro do mais memorável lambe-lambe do Trairi, mas aí seria querer a perfeição em forma de iguaria iconográfica. Fica para a próxima edição.
Das orelhas saltei para a dedicatória que me foi carinhosamente assinada: “Meu caro, Marquinho, neste livro eu tenho a pretensão de contar um pouco da história dos 5O anos de nossa Santa Cruz, de forma diferente, sem qualquer compromisso.” Daí, passei a outra afetiva e generosa dedicatória que se segue, e já salivando, meti os olhos no menu-sumário do cardápio, lendo com atenção os evocativos títulos da cada prato, imaginando de antemão, os seus temperos e deliciosos ingredientes. Mesmo discordando veementemente daquele “sem qualquer compromisso”, fui entender melhor o significado ao degustar as palavras do prefácio, substância nutritiva da maior qualidade apreciativa, da lavra do mestre-cuca Nailson. Nele, o ex-aluno de francês, apresenta em excelente português e de maneira irretocável, a obra de nosso generoso conterrâneo. A admiração recíproca, logo se vê, não é mera troca de figurinhas; é antes de tudo, um mútuo reconhecimento de dois valorosos amantes de nossa Santa Cruz do Inharé. Ambos vibram na mesma sintonia, no mesmo diapasão, quando se trata das boas lembranças que a literatura desperta-nos através das reentrâncias profundas da memória. Quem não se lembra de “Futebol: Documento de uma Paixão”?
Mas há também cerejas na cobertura deste apetitoso bolo literário, são as saudações versejadas, dos chefes-poetas Gilberto Cardoso e Hélio Crisanto, dois suculentos convites à mesa farta que se inicia já em festa, através de sua primeira crônica "Começou a Folia”. Daí por diante é um festival gastronômico memorialístico para se refestelar. São 47 gordas iguarias no cardápio: a política, muito menos indigesta que a atual; as agruras das secas, as festas tradicionais dos padroeiros, o carnaval, a semana santa, o São João, os folguedos populares, tudo isso apimentado numa prosa telúrica, ligeira, risonha, sem ser zombeteira, num respeito comovente pelos personagens inesquecíveis e demasiadamente humanos de nossa cidade, muitos ainda vivos, felizmente, e todos a desfilar seus traços marcantes, seus cacoetes, suas manias, seus costumes, que vão dando um colorido todo especial à missa e à messe que nos oferece Rosemilton. Em tempos de Copa, como dizia o escritor russo Leon Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Você pintou a nossa aldeia, Rosemilton, com as tintas de um estilo despretensioso e único, e é justamente nisso que reside o seu sabor e o seu valor inigualáveis, que nos remetem, no campo da poesia, ao mestre Cocó da Canastra Véia.
A crônica que encerra o livro: “Até breve, cumade” dá-nos a certeza íntima de que este banquete terá novos e suculentos pratos para saciar a nossa fome de letras, de memórias e de saudades dos lugares e das gentes das Ribeiras do Trairi. Por isso vos peço dona Maria Gorda, continue a engordar a memória e a imaginação de seu cumpade Rosemilton!!!! Tenho dito!!!
Marcos Cavalcanti

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O OUTRO LADO DA POESIA - Gilberto Cardoso dos Santos



OUTRO LADO DA POESIA 
(Gilberto Cardoso dos Santos)

Às vezes a poesia
Cumpre um propósito vil.
Um poeta encabeçou
O Nazismo, tão hostil.
Convenhamos: quanto fel
Verte o poeta Michel
No governo do Brasil!


A Internet está cheia
De inspiração panfletária.
Utiliza-se a beleza
Da forma mais ordinária.
Fala-se em paz e amor,
Em futuro de esplendor,
Quando a intenção é contrária.


O poeta mercenário
Por interesses se guia.
Mas o poeta do bem
Exercita a empatia.
Com amor e simplicidade,
Asperge na humanidade
Unguento de poesia.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

PARADA NACIONAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

PARADA NACIONAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

O brasileiro precisa
Revisar bem seus conceitos
Pois quando é dia de jogo
Todos param satisfeitos
Como se isso importasse...
Ah se o povo parasse
Pra lutar por seus direitos!

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Fui comprar material, praticamente tudo fechado. Entregas só a partir de amanhã.
Um dos trabalhadores não veio porque ia assistir o jogo. Daí surgiu esta estrofe.




segunda-feira, 18 de junho de 2018

O Diabo quando não vem, manda o secretario.


O Diabo quando não vem, manda o secretário.


Escrevo agora sobre um assunto que tive bastante dúvida em escrevê-lo. Mas o hábito que tenho, o prazer em escrever, me levaram a escrevê-lo

Diz um ditado popular que quando o diabo não vem, manda o secretário. E foi numa missa em trigésimo aniversário de falecimento de um velho amigo e parente meu, que o tinhoso, o coisa ruim , (como muitos chamam o diabo) resolveu intervir, acho eu!!!
Estava eu, acompanhado de um amigo, um idoso e também muitíssimo amigo do falecido, quando no começo da missa, sentou-se a nossa frente uma bela moça com um belo vestido comprido, lascado a altura da coxa e as costas toda nua! Ela estava presente à missa junto da mãe e aparentava ter entre 19 a 20 anos.
Confesso, amigos, sem nenhum exagero que não foi fácil pra mim concentrar-me na liturgia daquela cerimônia religiosa.

O amigo, homem já com seus 85 anos bem vividos, por sinal, chegou a dizer-me: - Fica difícil pra mim concentrar-me nesta missa, amigo, magine pra você, que ainda é moço!
Achei estranho uma mãe levar a filha a uma solenidade religiosa, ou permitir que a jovem usasse aqueles trajes num ambiente que exige certo respeito.
Ri um pouco, baixinho, claro e falei pra ele:
-Meu amigo, o diabo quando não vem, manda o secretário! Ele também riu e disfarçamos um pouco. Mas não foi fácil acompanharmos toda a solenidade. As vezes, baixávamos às vistas e, assim foi a missa quase toda.

Portanto, não se deve ir à missa com a mesma roupa que se vai ao Carnaval. Mas quem sou eu pra condenar ninguém? Quem sou eu para condenar o mundo?
Acho que, em cada ambiente, devemos usar umas vestimentas apropriadas ao momento, o que não foi o caso daquela bonita jovem. Não se vai à escola com a mesma roupa que se deve ir à praia e vice-versa. Assim como não se deve vestir-se com a mesma roupa de formatura e com ela ir jogar bola! Mas é assim, amigos , que caminha a humanidade.
















***João Maria de Medeiros é professor, poeta e cronista.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Sobre o amor e vulnerabilidade do ser - Nelson Almeida



Todos os dias ficamos diante da imprevisibilidade dos acontecimentos que a vida nos proporciona. Nesses momentos é maravilhoso ter com quem contar. À guisa de exemplo, depressão. Um mal que assola dezenas de milhares de pessoas. Esta sutil moléstia sucumbe o ser humano e o faz sentir-se frágil, vulnerável e inútil. Quando assim estamos, um imenso abismo se abre diante dos nossos pés e não sabemos voar; o que nos leva fatalmente a cairmos nas profundezas da consciência humana. Tudo isso é complexo e intangível.
De fato, há tratamento médico contra esta terrível enfermidade. Existem medicações e longas sessões com psicólogos e psiquiatras; tudo isso ajuda e o bom senso recomenda que se procure ajuda especializada. No entanto, nada é mais aprazível e reconfortante do que o amor, carinho e atenção. Sendo estes elementos consequências de ações e palavras dos nossos pares, daqueles que se preocupam conosco. Isso mesmo, ações e palavras!
A magia habita nestes terrenos afáveis. A magia está nas palavras e nas ações. Às vezes pequenos gestos de amor ao próximo, palavras de compaixão, atenção e compreensão causam grandes efeitos positivos nas vidas das pessoas que nos cercam. Essa é a verdadeira magia, encanto e sentido da vida.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Quem são os Verdadeiros heróis deste pais? - João Maria de Medeiros


Tomei uma decisão radical sobre a Copa do Mundo! Mas sobretudo, sobre a Seleção Brasileira: "Não irei assistir jogos da "amarelinha". E mais, torço que não passe da primeira fase.
Esses caras são endeusados pela mídia, sobretudo pela Globo!
Quem sao os verdadeiros heróis deste pais?
Sao os professores, com seus salários baixíssimos e péssimas condições de trabalho (nem vou enumerá-las, pois não caberá neste espaço), os policiais, médicos, enfermeiros, condições de trabalhos mais péssimas ainda. Heróis são os agricultores , que labutam de sol a sol, para sustentar esse pais de alimentos, frutos do suor do seu corpo. Heróis são todos os trabalhadores, que veem seus direitos serem retirados por um Congresso corrupto, conseguidos na luta, com sangue, suor e lágrimas!!
Esses que a midia chama de heróis, não jogam nada, vão ali a campo por dinheiro, são mercenários. Não lembram mais da vergonha que sofremos frente à Alemanha?
Podem achar que estou louco, mas nesta Copa não torcerei por nenhuma seleção. Ou melhor, vou torcer que estes mercenários não passem da primeira fase. Só isso mesmo. Mas vou trabalhar, pois o trabalho dignifica o homem!


João Maria de Medeiros é professor, poeta, contista e cronista.


domingo, 10 de junho de 2018

Invenção Contínua (Nelson Almeida)


Invenção Contínua

09/06/2018 (Nelson Almeida)

Todo dia nasço e morro nos versos da poesia. Se o poema me consola, desola-me a agonia. A minha vida é assim, uma contínua invenção Onde a racionalidade luta contra o querer do coração Você é o meu querer, luz sobre a minha sina Iluminas minha vida, essa invenção contínua Onde a dor não sobrepuja os versos da minha rima Não há um dia somente que eu não pense na morte Inevitável partida que a nossa vida solapa Seja rico, pobre, gordo ou magro nenhum sujeito escapa Mas vivo a eternidade da brevidade poética Onde tudo é possível e a vida se completa.


quinta-feira, 7 de junho de 2018

O PODER DOS ELEFANTES


                A cada dia fica mais difícil o ser humano se tornar elefante. Os elefantes possuem o controle dos meios de comunicação. Para mostrar poder, recentemente transmitiram uma chocante cena onde manifestantes eram esmagados por patas. Nossa comida ficou prejudicada por esse esmagamento. Nada disso importa para quem se alimenta de folhagens. 
             Outras cenas chocantes foi ver a união dos elefantes internacionais. Eles apoiaram os elefantes daqui com vista a defender o capim internacional. Usaram mensagens mentirosas e imagens distorcidas para denegrir o movimento reivindicatório. Venceram pelo cansaço. Pobres humanos. Precisam de gás para colocar a comida no estômago enquanto os elefantes conseguem in natura. 
          Como os dinossauros, os elefantes precisam ser extintos do planeta para que os seres humanos possam viver em paz. Enquanto eles estiverem no poder, só nos resta gritar, chamá-los de desumanos, mas nunca dizer que são deselefantes. Eles são unidos. Lutam por seus ideais e defendem a manada a qualquer custo. Mas não se amam. 
          Os elefantes menores ocupam cargos privilegiados e ficam satisfeitos por nunca faltar leite para seus filhotinhos. Alguns elefantes comandam outros nas tropas de choque. Em cada Estado há um elefante que é eleito por seres humanos para massacrá-los. É interessante como os elefantes conseguem convencer os humanos a votarem em outro ser que não seja da sua espécie. Acredito que isso acontece porque todos os elefantes na época da eleição usam a tromba para acariciar os domesticados humanos. Jamais utilizam suas presas de marfim para matá-los nem suas patas para esmagá-los.  Falam mal de outros elefantes com objetivo de conseguir apoio nas urnas. Dão-nos falsas esperanças para mais quatro ano de patadas, trombadas e espetadas. Eles sabem que nunca iremos entender suas artimanhas. São inteligentes, isso ninguém pode negar. Sua inteligência é proporcional ao seu tamanho e a utiliza para se manterem confortáveis.
        Os olhos elefantídeos nos observam dia e noite através da audiência dos seus berrosjornais. Utilizam bramidos, trombeteios e sons idiossincráticos para nos manter submissos. São muito competentes no que fazem. Sabem nos manter escravizados por longos períodos. O pior é que eles não se envergonham de ser elefantes. Não têm religião para domesticá-los, apenas fingem que têm. Não amam seus semelhantes, apenas se suportam por conveniência. Quando um deles quer roubar o capim do outro, não hesitam... matam! 
          Os paquidermes mais poderosos estão utilizando algo que inventaram para o ser humano: a cadeia. Muitos estão enjaulados porque elefantes pertencentes à outra esfera de poder assim decidiram. Mas será por pouco tempo. Há um consenso entre eles que precisam abolir essa punição. Até já combinaram para não usar algemas em elefantes. Só em seres humanos. Com frequência, elefantes estão ficando em prisões domiciliares com o objetivo de sensibilizar os seus eleitores que existe igualdade na lei. 
         Fofoqueiros, cafajestes, corruptos e hipócritas, os elefantes adoram manipular os humanos. Enquanto os seres humanos pensam em arte, empatia e altruísmo, os elefantes, em poder. Vinte e quatro horas por dia planejando como massacrar os serem desprovidos de inteligência racional, os humanos. Por isso que dá certo. Podem chamá-los de ladrão que eles adoram. É um elogio. O reconhecimento do que realmente são. Nesse momento seu ego é inflado em silêncio.
          O sonho da maioria dos seres humanos é se transformar em elefante, mas nem todos conseguem. O primeiro passo é pensar como elefante. Aprender a si vender. Fingir-se de bobo. Só assim, tromba e presas crescem. As pesadas patas irão sendo acrescidas com a prática nos palanques. Os berros precisam ser prolongados por anos para que os humanos possam reconhecê-los quando àquele elefante pregar uma ideia. 
Os caminhos são vários. Desde religião até associações e sindicatos. Mas o ser humano que pretender chegar rápido a esse clube corporativista precisa ter diversas folhagens armazenadas. Os elefantes adoram cana de açúcar na sua dieta. Quem conseguir mantê-los alimentados por mais tempo consegue o apoio de todos.
             Só não é permitido que um elefante de segunda classe queira liderar a manada. Se isto acontecer, o traidor irá para a cadeia escrever livros, assistir televisão e tomar remédio tarja preta.  

Autor: 

Natal/01.06.2018

domingo, 27 de maio de 2018

A Leneide Farias, uma singela homenagem - Gilberto Cardoso dos Santos



A Leneide Farias, uma singela homenagem

A notícia me veio de longe, dos Estados Unidos. De Lenexa, alguém comunicou: “Gilberto, Leneide faleceu.”  A notícia psicologicamente me afetou de imediato; tinha o gelo cortante dos antigos telegramas, apesar dos esforços de Erílio para torná-la mais palatável. Depois disso, Marileide e outros buscaram entrar em contato comigo para fazer o triste comunicado.
Disse-me Eliel que foi um dos maiores enterros da história de Cuité.
Isso, porém não me causou qualquer surpresa, pois era de se esperar. De tanto bem semeado, não se poderia esperar inferior colheita.
Leneide mexia com vidas e da melhor maneira. Atuou no campo educacional e na saúde de modo inequivocamente brilhante.
Tive o privilégio e o prazer de ser seu aluno no Colégio Estadual. Jamais vi qualquer coisa que desabonasse sua carreira como docente. Pelo contrário: manifestava ter profunda química com a matéria que ensinava e a transmitia com entusiasmo. Invariavelmente doce no exercício da docência, entrava na classe disposta a dar o melhor de si. Algumas coisas que retenho de Química, devo-as a ela.
A partir do tempo em que com ela estudei, tornamo-nos amigos próximos. Aliás, proximidade era o que não nos faltava, pois morávamos em ruas que se interligavam. Também tinha proximidade e convívio com seu pai, Déu, com quem algumas vezes fui ao sítio, na ladeira do Olho Dágua. Como era agradável, enquanto colhíamos algo, provar do fruto do conhecimento de quem tanto contribuiria para o afloramento de meu amor à poesia!!
Leneide incentivou-me na carreira poética, pois sempre estimulava-me a continuar escrevendo e compondo. Via ela naquele jovem desvalido da beira da lagoa um potencial que nem todos conseguiam enxergar. Mais que simpática, Leneide transbordava  empatia. Vez por outra, ao voltar de Campina Grande, presenteava-me com algum alimento orgânico, substitutivo da carne, pois sabia de meu interesse pelo vegetarianismo.
Em minha formação muito devo a ela, não apenas por ter sido minha professora, mas por ter dado todo e incentivo e apoio quando fiz o vestibular. Não fosse ela, por exemplo, eu teria perdido o prazo de inscrição na UFRN!
Além de aluno, vizinho e amigo de Leneide, fui seu irmão de fé. Frequentamos por um bom tempo a Igreja Adventista. Com o tempo a abandonamos - ela bem antes que eu. Sair ou entrar na igreja não a piorou nem a melhorou, pois Leneide sempre fora a mesma. Havia nela uma ânsia por ser ética em tudo quanto fazia. Antes do batismo nas águas, já o fora no espírito, onde os verdadeiros batismos acontecem.
Era uma mulher do bem, mais preocupada com a felicidade alheia que com a própria.  Falava-me dos exames de endoscopia que tanto a desagradavam, mas isso não empanava seu sorriso, firme como uma flor em eterno desabrochar.
Eu e milhares de outros cuiteenses certamente muito nos surpreendemos ao saber de seu precoce fim. Entendemos, porém, que ela foi em paz ao último descanso, pela consciência de todo bem que fez. Perfeita em suas limitações, ela deu o melhor de si e fez um trabalho completo.
As raízes dessa saudade tão firmemente encravadas nos corações dos parentes, estendem seus tentáculos sob nós. Ao dizer “nós”, não nos parece fácil mensurar o alcance de sua (e)terna influência.  Desde sua morte, a voz de Minervina tem sido ouvida reiteradas vezes nos Estados Unidos por alguém cujos olhos têm se mantido úmidos. E o que tanto o comove são os versos feitos por Déu, seu pai, quando Leneide, chegou aos quinze anos:

“Leneide hoje completa
quinze anos de idade
Recebas de seu papai
parabéns felicidade
Esta data tão feliz
 jamais será esquecida
O dia em que nasceu
a minha filha querida

No dia em que nasceste
senti tão grande alegria
o meu coração pulsava
a minha alma sorria
ao lado da mãe querida
naquele humilde bercinho
eu sempre te contemplava
e te fazia carinho.

Não tenho prêmios nem joias
Que possa te oferecer
Somente estes versinhos
Te dedico com prazer
Receba, filha querida
Como tão simples presente
Já que tu és para mim
Uma filha obediente.

Como és estudiosa,
caprichosa e dedicada,
tens um futuro brilhante
sendo bem recompensada
a estrela do futuro
teus caminhos ilumina
com a paz, a perseverança
e a proteção divina.

Deus sempre está junto a ti
Sempre, sempre te ouvindo
Os anjos de lá do céu
Sempre te olham sorrindo
Almejo felicidades
para ti, filha querida,
Que serás minha esperança
No final da minha vida.”


 Estes versos, como disse alguém, têm uma doce singeleza, penetram os recônditos da alma. Todavia, não foram os melhores versos de seu pai. Leneide, certamente, foi o melhor poema que ele nos deixou.
Que Zé Pereira (a quem tanto admiro), seus irmãos, os talentosos filhos (Emile e Caio) e demais familiares consolem-se com o fato de que ela permanece viva nos pensamentos e corações da coletividade; pois isto é bem mais importante que emprestar seu nome a ruas ou instituições – algo também perfeitamente pertinente e profundamente desejável!
Com absoluta certeza, e no que de nós depender, Leneide perdurará na memória do cuiteense.

Gilberto Cardoso dos Santos
Filho de Cuité.
Membro da ANLiC (Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel) e Fundador da Associação de Poetas e Escritores de Santa Cruz
Santa Cruz, 26.05.2018









terça-feira, 15 de maio de 2018

Apresentação poética de "Crônicas da Casa de Maria Gorda"





INTRODUÇÃO VERSEJADA (Gilberto Cardoso dos Santos)

No nosso rico passado Rosemilton garimpou E o que foi depurado Nesta obra entesourou São cenas poetizadas Crônicas bem costuradas Com a seda da inspiração Resgatando os personagens E as antigas paisagens Dignas de recordação. Nesta obra excelente, Cores cheiros e sabores Emergem do inconsciente Em textos encantadores. Mergulharemos aqui nas águas de um Trairi Que cruza a imaginação. Cada página, uma camada De cebola descascada Que tempera a emoção.

Ficção e realidade Se misturam belamente É a história da cidade Posta em conversa envolvente Maria Gorda abre a porta Do passado e nos transporta Para o que de bom havia Tocado, o leitor nos diz: Ah, como eu era feliz No entanto não sabia!”

Gente simples, nesta obra
ganha notoriedade
Há sentimento de sobra
ternura e simplicidade
em linguagem popular
Pôde o autor captar
A essência de um passado
que ao presente emoldura
digno da Literatura
pois deixa um grande legado.





Introdução versejada II (Hélio Crisanto)

Quanta beleza que emana Desta casa tão singela Personagens ganham vida Em cada beco e viela Vida de gente simplória Remoendo cada estória Guardada em página amarela Cada lembrança contida Arde na alma da gente Terezas, Lourdes, Marias Carnavais de antigamente Dos saudosos foliões Seus lendários casarões Resta saudade somente Casa de mil fantasias Onde reina o teu sobrado Decantada com destreza Por um filho apaixonado Que tão bem a descreveu Onde o tempo não morreu Na languidez do passado Casa que guarda segredos Dos rumores da cidade Presa na caixa do tempo Nas paredes da saudade Repleta de sentimentos Eternizando os momentos No sol da simplicidade


domingo, 13 de maio de 2018

PREFÁCIO DO LIVRO "Crônicas da Casa de Maria Gorda"



E eis que, hoje, me deparo com um áudio, via Whatsapp, do mestre Rosemilton Silva me intimando pra escrever “um bocado de linha” sobre o seu livro, Crônicas da Casa de Maria Gorda. Aí pensei, ‘Nossa Senhora!!! Quanta honra!!!  Quem sou eu pra escrever esse bocado de linha sobre as crônicas literárias de um mestre da palavra escrita?’.  Eu já o conhecia desde 1976, quando fui seu aluno de língua francesa, no Ginásio Comercial, mesmo sendo ele um professor interino, em substituição ao Mons. Raimundo Gomes Barbosa, que fora a uma excursão ao Chile e confiara seus pupilos a esse poliglota, mestre do jornalismo brasileiro. E tive a felicidade de reencontrá-lo, quatro décadas mais tarde, no Facebook, ele e aquela sábia irreverência intelectual. E sua crônica, publicada nessa rede social, à primeira vista, me deu um susto, semelhante, talvez, ao espanto que os leitores e, sobretudo, a crítica literária carioca e brasileira tiveram quando Machado de Assis publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance que revolucionaria a técnica narrativa, ao criar um defunto-autor, personagem-narrador em 1ª pessoa e onisciente de seu universo. Li e reli essa e todas as outras crônicas que o Mestre Rosemilton publicou nas manhãs de sábado, no facebook, e me deliciei com a sustentável leveza de suas linhas, justamente por seu autor não ter a preocupação com a estética literária de seu texto, bem como de não se apegar aos arroubos ditatoriais da gramática normativa, nem de temer as imposições dos elementos narrativos, quando das diretas e indiretas de seus discursos, dos rótulos psicológicos de seus personagens, do ordenamento linear de seu tempo e de seu enredo. Enfim, me deparei com um escritor de boa consigo mesmo, desprovido de imposições acadêmicas e dos preconceitos vários, sociais, psicológicos, linguísticos  literários e etc. Li um Rosemilton cheio de onda, a construir, em cada crônica, um túnel entre os seus tempos, presente e pretérito, para fotografar Santa Cruz, seu povo e sua história, um túnel capaz de levá-lo a encontrar-se de novo com os seus conterrâneos-personagens nos templos de suas aventuras juvenis, encontrar-se com sua grande amiga, confidente, conselheira e guru, Maria Gorda, protagonista-coadjuvante de suas linhas e ‘Cumade’ de suas prosas, mulher inteligente, forte, educada, solidária, mansa, geradora de emprego e renda e empreendedora da mais famosa Casa das Noites, das Bebidas e das Comidas Típicas dos Famintos Jovens Iniciantes de Santa Cruz. Maria Gorda, diferentemente de Brás Cubas, não é defunta-personagem, apesar de falecida há mais de 30 anos, pelo contrário, é personagem-viva a confabular as acontecências sócio-político-econômicas do dia a dia de sua cidade com o seu ‘cumpade’, de quem tem a certeza do respeito e da admiração recíprocos. Nas Crônicas da Casa de Maria Gorda, Rosemilton está à vontade, sentado à direita de sua irretocável memória, e à esquerda de sua inesquecível ‘cumade’, a costurar, com a maestria de sua linguagem simples, matuta, mágica e poética, cada ponto do elo de seus tempos para neles transitar, pra lá e pra cá, pra cá e pra lá, como se único fosse, e fazer brotar, além-memória, o mormaço da Rua do Vapor, os esportistas da Frei Miguelinho, o arrepio do Beco das Almas, os bate-papos dos jovens sonhadores sentados às mesas redondas do Bar do Ponto, as quadras de areia da Praça Cel. Ezequiel Mergelino, o ruído do apito da usina de algodão, os bailes dos carnavais da Prefeitura e as fantasias coloridas do Trairy Club, o azul e encarnado do Pastoril, o encarnado, azul e branco do Boi de Rei do mestre Antônio da Ladeira, a Noite dos Agricultores na Festa de Santa Rita de Cássia, com o seu aguardado leilão na voz, que ainda hoje ecoa, de Mané da Viúva. É claro que as Crônicas da Casa de Maria Gorda não têm um guarda-roupas encantado, como aquele de As Crônicas de Nárnia, que transporta personagens e leitores para um mundo de criaturas fantásticas e batalhas épicas entre o bem e o mal, muito menos têm o sentimento negativo, irônico-satírico de Brás Cubas, no revolucionário romance de Machado de Assis, mas têm a Marinete, o ônibus  ou “a sopa” de Severino Colete a fazer a linha ida e volta Santa Cruz-Natal, a paciência fria  de Borrego, a ressaca de Pageta, os burros de Meireles a abastecer a cidade com as água do açude Santa Rita, têm a dicção perdida de Canindé Boca de Cascudo, o  canto triste de Fogão nas cantigas d’amor a entorpecer a sua solidão ébria, os Grêmios Estudantis, o Carrossel de Manoel Bernardino, o ronco do ‘Papá” João Lucas e o seu chapéu Panamá a ocupar mais um assento no Cine Santa Rita lotado, têm a Difusora Irapuru e a paixão das moças casadeiras por seus locutores Zé Maria, Zé Iválter e Luiz de Almeida,  têm a preocupação política de Jácio Fiúza, João Bianor e outros tantos políticos locais, têm os remédios santos de Dr. Ferreirinha e do Dr. Aproniano, têm a Farmácia centenária de Sebastião, o jipe amarelo de Cabo ‘Migué’, a valentia oral dos soldados Andorinha e Pacheco, o lambe-lambe de Mané da Viúva, o mestre Antônio da Ladeira, os cavalinhos, a roda gigante e as belas páginas musicais oferecidas aos namorados enamorados nas noites festivas do Parque São Luiz, têm o assobio agudo de Gravatá e os acordes belos dos violões de Fabiano & Franklin e Zé Domingos, têm a banda de música do mestre Oscar, o cuscuz e o “quer peixe, fresco?” de Juvenal Pé de Copa, têm o Coral de Santa Rita e a batuta de D. Nanita, o ecletismo de Padre Émerson e as belezas de Terezinha Bastos, Iara Lúcia e Newman Carvalho, têm Santa Cruz e a revolução mágica de sua história. As Crônicas da Casa de Maria Gorda têm um fazer literário incomum, em que os elementos de sua narrativa tomam o atalho do diferente, do novo e do atraente. As Crônicas da Casa de Maria Gorda têm, em todas as sua páginas,  Maria Gorda, sua Casa, suas  Crônicas e a criatividade irreverente do mestre José Rosemilton Silva.

(Nailson Costa)



sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Poder Transformador da Educação - João Maria de Medeiros


O Poder Transformador da Educação Num dia letivo reservado ao encontro com os pais dos nossos alunos, numa tarde na Escola Estadual Cosme Ferreira Marques ouvi de uma mãe um relato que nunca me esqueci. Eram umas 16 horas, e neste encontro, já se encerrando, surgiu essa mãe e pediu a mim e a Gilberto Cardoso, nossa opinião de como se encontravam seus dois filhos: um menino que devia ter uns 14 anos e uma mocinha , que deveria ter uns 15. Nós dois ainda nos encontrávamos ali, mas já quase de saída naquele momento. Os outros companheiros de trabalho já tinham se dirigido as suas residências. Ela quando ouviu de nós que seus filhos eram bons alunos e que tinham boas notas, nos disse: - "Não acredito como eles conseguem, pois estão passando por grandes dificuldades, pra não dizer “fome”. Arranjei um diabo de um macho, que acabou vendendo minhas vaquinhas. Do leite eu tirava o sustento dos meus filhos ! Tô arrasada! Meus filhos estão passando fome !" Depois daquele relato, saímos dali bem tristes. No dia seguinte fiz uma campanha em sala, com a intenção de ajudar aquela família dos nossos dois alunos, porém sem revelar os nomes deles. Todos ajudaram de alguma forma e saciamos a fome daquela família por uns dias. Na Bíblia está escrito que "Dai com a mão que a outra não veja, mas neste relato não posso esconder este fato. Dizem por aí que o mundo dá voltas, se referindo não aos caminhos da terra, mas as possibilidades de mudanças que podem ocorrer em nossas vidas. E foi o que ocorreu com esses nossos dois alunos;Apesar das dificuldades que passaram, eles estudaram, batalharam, se capacitaram e venceram. A mãe deles, hoje mora numa bela casa construída com a ajuda dos dois. O rapaz, hoje homem feito, passou em vários concursos e trabalha numa conceituada universidade pública federal e a irma, trabalha, ganha bem e tem dois empregos. Conversei com a moça esta semana e ela me disse as seguintes palavras: - "Eu e meu irmão tivemos a sorte de termos professores como vocês, que tinham o prazer de ensinar! Muito obrigada!" Vejam aí uma prova de que , apesar das adversidades da vida, podemos superá-las , dar a volta por cima e vencer. A educação tem este poder transformador da pessoa humana, tanto político-social e econômico, quanto intelectualmente. Isto deve ser valorizado o tempo todo e a escola precisa não de somente professores, mas sim de educadores na sua essência. Pelos menos, é essa a nossa opinião. João Maria de Medeiros é professor , poeta e cronista.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Pedro Marceneiro



Pedro Marceneiro


Hoje, 30.04.2018, acordei muito cedo, pois pretendia desocupar um quarto. Trabalhadores viriam às sete para fazer reformas nas paredes. A principal tarefa seria desmontar uma cama.

Ao desmontá-la, refleti sobre o quanto permanecia firme, livre de cupins e absolutamente fixa após décadas de uso. Jamais rangeu ou vacilou. 

Há vinte anos encomendei-a a um senhor evangélico muito simpático com quem muitas vezes conversava. Lembro-me de ter-lhe dito que queria uma cama de fato resistente, bem construída, de excelente madeira.

Hoje pela manhã, espantei-me com o estado dela e comecei a pensar em quem a fez, em como cumpriu à risca os meus desejos. Veio-me à mente a face risonha e sempre bem- humorada do senhor Pedro Marceneiro.

Grande parte dos que trabalham nessa profissão fazem jus à fama de enrolões; mas não era o caso de seu Pedro, que fez exatamente como combinamos, dentro do prazo estipulado. 

Este e outros trabalhos que lhe encomendei foram todos feitos com esmero, não deixaram a desejar.

Como evangélico nunca foi homem de grandes arroubos emotivos; eram-lhes constantes o bom humor sereno, o trato respeitoso para com todos, a atenção despretensiosa dirigida a crianças e adultos, a paciência e a generosidade. Conversar com seu Pedro significava vivenciar bons momentos, ver um testemunho favorável à fé cristã.

Após tão boas recordações a respeito de seu Pedro, fui ao trabalho. Lá, um pouco depois das sete, seu filho entrou no grupo da escola para dizer-nos que ele acabara de falecer.

Para mim, que nele tanto pensara ao começar o dia, foi um choque profundo.

Ponho-me, com a cama ainda desmontada, a pensar nas lembranças - todas positivas - que ele deixou em mim e em tantos outros que provaram do calor ameno e jamais invasivo de sua suave presença.

Tenho uma prova viva do hábil profissional que foi e do homem que honrava sua palavra. 

Convivendo com seus filhos, percebemos as marcas profundas que neles deixou. O exemplo de educação que lhes deu não foi em vão. Transmitiu à prole seus melhores caracteres, construiu neles estruturas que perdurarão gerações a fio, tão firmes quanto a minha cama. 


Gilberto Cardoso dos Santos


30.04.2018

Marciano Medeiros: O grande campeão do V Festival Vamos Fazer Poesia



Marciano Medeiros: O grande campeão do V Festival Vamos Fazer Poesia


O dia 28 de abril de 2018 ficou marcado na história cultural do Sertão pernambucano e especificamente na história do Festival Vamos Fazer Poesia. Não apenas pela realização do V Festival, mas, porque 58 poetas (dos 103 inscritos) se fizeram presentes e homenagearam o grande poeta Zé Adalberto do Caroço do Juá.

A abertura do Festival se deu com um show dos violeiros repentistas,  Diomedes Mariano e Raimundo Borges e os grandiosos poetas, deram um brilho especial à tarde da poesia. O festival também foi agraciado com um grandioso show de Chico Arruda e seu grupo, interpretando o saudoso poeta,  Zé Marcolino. No final do evento, o mestre de cerimonial, Júnior Duarte, anunciou os 10 melhores poetas da tarde desse sábado (28), e o título de CAMPEÃO, foi dado ao poeta Marciano Medeiros, representando a cidade de Santo Antônio-RN que participou pela primeira vez do maior FESTIVAL DE POESIAS DO MUNDO nesse formato. O poeta recebeu um cheque que lhe dará direito de publicar a sua obra poética na Desafio Art & Gráfica e Editora. Serão 500 exemplares do seu livro contendo 100 páginas.

Na ordem, os 10 poetas que foram agraciados com um troféu nos seus respectivos lugares.

1º Marciano Medeiros – Santo Antônio-RN
2º Ramon Medeiros – Patos-PB
3º Heliodoro Morais – Caicó-RN
4º Luiz Gonzaga – Limoeiro do Norte-CE
5º Bandeira Júnior – Caucaia-CE
6º Maria Farias – Santa Terezinha-PE
7º Aldecir Bessa – Limoeiro do Norte-CE
8° Plácido Amaral – Caicó-RN
9º Anne Karollyne – Campina Grande-PB
10º Nildo Soares – São José do Egito-PE

Esse ano o FESTIVAL VAMOS FAZER POESIA, premiou na categoria de declamação e três poetas foram eleitos os melhores declamadores da tarde e noite da poesia: A poetisa Anne Karolynne-Campina Grande-PB, ficou em primeiro lugar, a poetisa Nicolle de Oliveira-Ipueiras-CE, foi a segunda colocada e Renato Santos-São José do Egito-PE, ficou em terceiro lugar.


sábado, 24 de março de 2018

QUE TIRO FOI ESSE QUE SOA INSISTENTE?... (Hélio Crisanto)


Que tiro foi esse que soa insistente
Perfurando o olho da nossa cultura
Denegrindo a arte, fazendo fissura
Demolindo os sonhos na alma da gente.
Salvem nossa música que anda doente
Com letras bizarras, parco linguajar
Mandando a criança descer e quicar
Sem ter conteúdo nem ter poesia
Aquecendo a indústria da pornofonia
Poluindo as ruas, a terra e o ar.

(Hélio Crisanto)

ATRAVÉS DO APAGÃO EU VI O CÉU ESTRELADO (Zé Ferreira)


Mote do poeta Vivaldo Costa
Glosas: Zé Ferreira

Ontem faltou energia
Num trecho desse Brasil
E a noite, num véu anil,
Chegou envolta em magia.
A lua, calma, saía
Lá do seu "quarto minguado"
Num transparente bordado
Adornando a vastidão
Através do apagão
Eu vi o céu estrelado.

Faltou eletricidade:
Mais um dos muitos sinais
Que as reservas naturais
Perdem a capacidade.
Percebo a humanidade
Num curso desenfreado
Depalperando o legado
Da obra da criação.
Através do apagão
Eu vi o céu estrelado

Em muitos causou lamentos
A falta da energia
Em mim causou alegria
Pois vivi uns bons momentos
Coloquei alguns assentos
Num alpendre gradilhado
Esposa e filhos sentados
Partilhas e violão
Através do apagão
Eu vi o céu estrelado.

Sanoite, sem enegia,
Nois num ligou a TV
Eu dixe: vem cá, Maria!
Ela gritou: "qué o quê?"
- Rumbora fazê minino?
Mas ela disse, "tinino"
"Faste pra lá, abestado"
Sem ter outra solução
Através do apagão
Eu vi o céu estrelado.

(Zé Ferreira)


ESSE AMOR NÃO EXISTE NA RUA DO CAJUEIRO (Ramilton Marinho)

Texto envolvente do Professor Dr. Ramilton Marinho, contista conterrâneo e bom hipnólogo também por via escrita. Nada menos que a nota máxima! - Gilberto Cardoso dos Santos


ESSE AMOR NÃO EXISTE NA RUA DO CAJUEIRO

Quando chegamos á rua do cajueiro era dia desde o outro lado do mundo e as meninas, em trajes civis, ao ouvirem Lindomar Castilho choravam por um amor que ali nunca poderia existir.
Lá fora viam passarem arrastadas, pela mesma estrada do cemitério, horas longas e desertas, pois quase tudo ali era mato, fazendo aquela rua de casinhas desiguais parecer um oásis melancólico sob o peso inclemente do sol, afugentando qualquer freguês de bom senso, com exceção de seu Policarpo que, ao caminho do roçado, vez por outra e sem previsão, rasgava os pneus do jeep, descia apressado, deixando a porta do carro aberta, o motor soluçando, para ir à procura da primeira mulher que o conduzisse a um alívio rápido:
- Ta fazendo o quê menina? - perguntava jogando o chapéu na cadeira e abrindo a braguilha.
- Nada não, seu Policarpo – respondia.
- Então vamos pra p..., vamos pra p...., vamos pra p... – ordenava enquanto a arrastava, submissa e suada, ao quarto vazio.
Portanto, a impressão que se tinha durante o dia era a de que a realidade dependia fundamentalmente da rotação do planeta. Pois bastava a noite se anunciar no horizonte para a rua do cajueiro mergulhar em outra dimensão, com a sua aura de luz difusa vibrando ao som das radiolas.
Na sala da casa de Elvira os casais dançavam como se fossem namorados e, em coreografias perfeitas, Zé Fabilicio deixava os seus passos se perpetuarem até quando não mais houvesse música pra tocar; enquanto no balcão bebiam solitários aqueles cujo erro de morte foi o de se apaixonar por uma mulher da vida. Na mesa da cozinha serviam café e falava-se sobre coisas do mundo real, mas mesmo essas banalidades cotidianas – talvez pelo efeito dos perfumes baratos, dos brilhos de mentira, da fumaça dos cigarros e do fulgor dos sorrisos levianos – ganhavam um puro argumento de irrealidade.
Sem dinheiro, nós ficávamos do lado de fora observando e prevendo o movimento da noite. Talvez o macho de Dorinha ainda chegasse a tempo de arrastar o camarada de cima dela? E quem sabe, Edileusa, embriagada e solidária, viesse pra nos mostrar os peitos em troco de nada? Provavelmente irrompesse o delegado Tranca-rua para determinar a lei do silêncio e cobrar o seu soldo de cafetão da lei? Será que no quarto tosco e sem janela a Gringa, vestida apenas da sua nudez sobrenatural, já provocara no cliente uma irreprimível vontade de chorar? É possível que aquele cliente novo e obstinado já estivesse aturdido com Maria das Virgens, por lhe aparecerem mais roupas debaixo de cada peça retirada, até nunca mais ficar nua? E Nice Fogaréu - cujo sexo em brasa queimara mais ilusões que pecados - já teria deixado em chamas o colchão novinho? Porventura, Rita do Bofete ainda estaria sóbria e mansa ou, tempestuosa, já arrastava a peixeira anunciando emboança?
Com inveja, vimos Carlos Damasceno – sedutor precoce e perito em arrastar da gaveta notas de cruzeiro na bodega do pai - atravessar a rua de mãos dadas com Rosa dos Prazeres, uma negra nova de alma velha, descendente do reino da Núbia e, por artes do destino, estabelecida num cabaré em Barra de Santa Rosa. Ela era a dona do corpo mais bonito e do amor mais prodigioso que um cristão honesto podia experimentar sem desejar a morte. Algo que não ocorreu a nenhum de nós naquela época foi perceber que nos braços daquela negra deslumbrante os fregueses perdiam toda noção do mundo; de forma a não perceberem quando as tempestades chegavam inundando tudo com uma avalanche de sapos da lagoa e peixes lunares a flutuarem pela luz molhada dos postes; a não ouvirem os tiros, nem as brigas de soco e de faca debaixo do cajueiro; a não se renderem a lei do silêncio estabelecida pelo delegado e por sua trupe de guardas-noturnos desanimados.
Para nós, contudo, o mais desejado, e ao mesmo tempo temido, eram as novas meninas, surgidas no ruge-ruge das segundas-feiras com as suas blusinhas tomara-que-caia de cores fortes, com os seus peitinhos de limão e um senso de liberalidade mais elástico do que as interdições ali impostas; mas também pressagiando as mais cruéis doenças do mundo, sobre as quais nenhum controle dispúnhamos, além de um limão antes, um caldo de cana depois, e uma oração apócrifa de São Cipriano recitada durante o calor do gozo fatal.
Por isso, e pela escassez monetária, acabávamos ficando mesmo com as mais velhas, mas também as mais sábias e pacientes. Com elas, era possível desvendar os segredos, os gostos e as doenças de todas as outras; enquanto aprendíamos as regras do Kama Sutra, cujos princípios não se transmitiam apenas por dinheiro, mas por pura fé na humanidade. E, complacentes, ouviam nossos desabafos sobre os namoros acabados e paixões desfeitas, além das queixas contra o governo de merda. Porém, todas elas sempre negaram que o sargento Tranca-rua fosse um agente da ditadura. “Ainda que fosse da ditamole” diziam num misto de inocência política e sabedoria da vida real - aquelas mulheres tão fáceis de compreensão e ensinamentos.
Cada um de nós já tivera há pouco o seu momento inaugural, ansioso e perdido, na penumbra vermelha de quarto mágico, vendo a dama dos sonhos com o domínio de uma vocação ancestral, abrir o lençol de flores tristes sobre a cama e nos orientar, enquanto se despia, para manter a calma, retirar os sapatos e os óculos antes de subir ao altar do leito, e alertar que aquela jarra e bacia de ágata não eram próprias para lavar o nosso rosto, mas para higiene das suas partes íntimas e, por fim, cuidar para os carinhos parecerem reais e os gemidos quase verdadeiros, pois deles nos tornaríamos crédulos reféns até o final das nossas vidas.
E estavam certas. Daí por diante ficávamos irremediavelmente presos aos prazeres secretos da rua do cajueiro. Algum de nós já nem conseguia jantar e chegava à boca da noite mastigando um pão; outros ainda se permitiam um arrodear na praça, jogando conversa fora no coreto, e outros esperavam até as dez horas, tempo suficiente para deixarem em casa a namorada virgem e atormentada. Todavia, diariamente, juntos ou separados, passávamos nos esgueirando pelas ruas paralelas, atravessávamos os atalhos no meio de mato, agave e chiqueiros de porcos, para mergulhar no mundo magnífico que só tinha tradução nas músicas de José Ribeiro e Bartô Galeno.
Na maioria das vezes, nos reuníamos em rodas animadas para observar, comentar e aguardar o desenrolar de tudo que fosse e não fosse previsto naquela zona repleta de incertezas; mas também compartilhávamos bebida e política, embriagando-nos de cachaça e utopia em mesas eternas nas quais, em tempos de casa fraca, as meninas chegavam pra nos fazer companhia. Contudo, o mais esperado era, com o saldo do dinheiro ajuntado, poder regatear horas românticas de um amor alugado.
Na madrugada de um junho frio e enevoado eu havia ficado até mais tarde gastando os últimos centavos em doses baratas ao pé do balcão, repetindo mais uma vez o disco novo de Amado Batista, talvez para abafar, do outro lado da cortina, os gemidos da princesa de cabelos pintados, olhos límpidos e sorriso triste, por quem já havia gasto, em noites sucessivas, tudo que era possível ter e tomar emprestado, além de um pingente banhado a ouro, presente de aniversário, trocado apenas por um amasso. Com juras impossíveis e promessas inalcançáveis, julgava-me irrevogavelmente preso ao mais verdadeiro e mais caro amor da minha vida.
Perto do amanhecer, Iracema serviu uma última dose, grande o suficiente para que enquanto eu a bebesse ela pudesse lembrar a tragédia do soldado maldito que, pela traição anunciada, saiu matando gente e animais de rua, para ser capturado por um falso grupo festivo, tocando fole e bebendo na boca da mesma garrafa, na carroceria de um caminhão que o levaria para o último destino da morte completamente desfigurado. Fez rememorar sobre o jovem amigo, cujo orgulho ferido o fez atirar por vingança entre as pernas da amada e, por graça da intercessão de São Valentim e de uma pontaria danada de ruim, ficara livre de maiores padecimentos. Recordou dos velhos agonizando no choro de dor e de prazer apreciando as suas jovens amantes consumidas por carinhos que já não eram mais os seus.
E assim, depois de uma longa pausa, com gestos maternais e uma convicção quase triste, ela recomendou:
- Pare de encher os chifres de cana, porque esse é o único amor que nunca vai existir na rua do cajueiro.
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* Minha homenagem aquelas meninas, mulheres, guerreiras da paixão e do tempo; mães secretas de todas as dores e alegrias e donas absolutas do único amor que deveria existir sempre em todos os lugares e não apenas na rua do cajueiro.

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Ramilton Marinho Costa e Doutor em Sociologia e Professor Titular da UFCG