Rubén Darío (1867 – 1916)
O LIVRO (El libro) - excertos
No poema “El Libro”, o consagrado poeta Rubén Darío celebra o poder espiritual, cultural e social do livro como força transformadora da humanidade. Trata-se de uma longa sequência de estrofes que exaltam o livro como luz, alimento, arma contra o dogma e fonte de amor. Eis algumas delas:

XLIII
O livro é força, é valor,
é poder, é alimento;
tocha do pensamento
e manancial do amor.
O livro é chama, é ardor,
é sublimidade, consolo,
fonte de vigor e zelo,
que em si condensa e encerra
o que há de grande na terra,
o que há de belo no céu.
XLV
O livro!.. O livro! Que belas
são suas frases ardentes!
Caem sobre nossas frontes
como chuva de centelhas.
Transformam o homem, elas,
e em essência benditas,
elevam a alma adormecida,
semeando com mão forte,
no caos da morte,
a agitação da vida.
XLVII
Quando triste alguma vez,
a alma, sombria e muda,
vê o abismo da dúvida
abrir-se aos seus pés,
do livro o brilho
lhe talha a felicidade,
e faz com que um céu se abra,
e a razão antes morta
se comova e desperte
ao trovão da palavra.

LXI
O livro ilumina e recria:
ergue o ser humano,
e ao espírito ensina
a religião da ideia,
fazendo-o tocar e ver
um paraíso celestial,
onde nunca chega o Mal,
nem, atormentadora e inquieta,
jamais se ouve uma trombeta
que chame ao juízo final.
LXVII
Eu sempre hei de amar o livro;
sempre sua voz hei de ouvir,
pois me ensinou a sentir
e me levou a cantar.
Ao seu fulgente irradiar
formou-se minha consciência,
e viu minha inteligência,
muda, absorta, confusa,
no céu da vida,
relâmpagos da Ciência.
LXVIII
O livro tem cantares,
e murmúrios e sorrisos,
e queixas de brandas brisas,
cadências de azuis mares;
dos verdes olivares,
os rumores melodiosos;
e essas palavras de amores
que dizem em tons suaves
as palmeiras às aves,
e as aves às flores.

LXXXVIII
Hosana ao Livro! Pois ele
destrói, à face do século,
o dogma, esse grande vestígio,
essa torre de Babel.
Hosana ao coração fiel,
à ideia liberal,
pois em seu carro triunfal
cruza altiva a razão,
cortando, pela extensão
do mundo, a árvore do mal!...
XCII
Hosana ao Livro! Que o poeta
tempere sua lira e o cante,
e que com ele brilhe
sua imaginação inquieta:
que se torne profeta
e contemple o porvir,
e lá no céu veja brilhar
a estrela do saber,
com sua candorosa trilha
de nácar, ouro e safira.