segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

ISSO A HISTÓRIA NÃO CONTA - Heraldo lins

  


ISSO A HISTÓRIA NÃO CONTA 


Batidas fortes despertaram-me do sono "madrugadeiro" naquela manhã da idade média alemã. "Meti os pés pelas mãos" atropelando o penico mal posicionado no corredor. Naquele cantar do galo, já era para o escravo ter recolhido o material depositado pelas minhas três irmãs solteiras.

Olhei pelo buraco da janela e vi que era Gutenberg. Apressadamente abri a porta e permiti-lhe o conforto de um tamborete. Você tem que se apressar, disse-me acariciando aquela barba suja que dava nojo até em quem estivesse a cem metros de distância. As da corte ficaram satisfeitíssimas em ler palavras impressas pela minha máquina. Só falta você me entregar mais manuscritos. Vamos, cuide! 

Naquele instante, uma das minhas irmãs veio andando com uma lamparina na mão perguntando quem havia chutado o seu depósito de urina. Isso não é hora para brigas no varejo, respondi-lhe fazendo um gesto para ir se vestir. Ainda bem que Johannes Gutenberg estava sem os óculos e nem conseguiu enxergar a bunda branca fugindo naquela escuridão. 

Tome um cafezinho, sugeri enquanto ia escrevendo. É bom produzir algo inovador e rápido, pois os herdeiros do meu ex-sócio estão querendo tomar a tipografia dizendo que devo muito dinheiro ao investidor falecido. 

Comecei escrevendo sobre as batidas ouvidas naquela madrugada. Tome mais uma xícara enquanto rabisco as duas páginas que você quer. Posso ir deitar-me com suas irmãs? Você gostou, hein!? Da última vez quase não sai e esqueceu de passar os honorários. Hoje elas não podem recebê-lo porque ainda estão na farra com um importante cliente. Coloque elas na trama que está escrevendo, já que as palacianas adoram, principalmente as princesas que são doidas para fazerem o que elas fazem, mas não têm coragem. Eu queria que fossem contratadas pelo departamento de lazer do castelo, só assim eu deixaria essa profissão de alcoviteiro que minha mãe transferiu como herança. Eu posso tomar conta delas, o que você acha? Elas dão muito trabalho, e além do mais só querem comer do bom e do melhor. 

O inventor tomou mais um pouco de leite misturado com broa preta. Sentou-se olhando, sem muito interesse, meus pergaminhos espalhados pela mesa. Levantou-se, foi até o jirau e cortou um pedaço de carne seca comendo-a crua. Dava a impressão que vinha visitar-me só para tirar a barriga da miséria. Ouvi falar que nem dormir direito ele dorme mexendo com suas invenções.

Quem está aí? perguntou o amante segurando a arma e a celoura. Calma amigo, estou a conversar com meu editor Johannes Gutenberg, o grande inventor da tipografia. Ah, tá! Tudo bem, respondeu Fust. O rico joalheiro sempre caía nos braços das três. Amarrou as calças, com cordinhas de agave, e veio participar da mesa farta. 

É um prazer conhecê-lo, disse apertando a mão de Gutenberg. Tenho interesse em investir no seu invento por acreditar que será a maior revolução quanto à divulgação de ideias. Sim, claro! Estou trabalhando para editar a Bíblia utilizando quarenta e duas linhas em cada página, isso com o apoio dos religiosos que já encomendaram várias edições. É, já ouvi falar, inclusive aproveito o momento para lhe adiantar o valor de cinco exemplares. 

Refugiei-me na outra sala procurando sossego. De lá ouvi Gutenberg, o folgado, gritar quase como uma ordem: acabou-se o leite! Colocou a quenga na mesa abrindo a janela para ver o “clareamento” do dia. Fust tirou o relógio da algibeira e consultou a hora. Minha esposa acredita que estou no clube, por isso tenho que ir.

Chamei minha irmã mais velha para ordenhar uma das cabras que estava dormindo perto do fogão. Seu amante nem a repreendeu por ela chegar sem lhe dar atenção. Estava entretido fechando o negócio e a braguilha, e ela lá, descabelada apertando tetas sem se importar com a blusa mostrando as suas. 

Ao lado da mesa, o cachorro sofreu uma pancada desferida por Fust para deixar de ficar olhando-o. A cabra deu um berro impaciente no momento em que o leite era, sofregamente, tomado por Gutenberg.

Quando Fust saiu para mentir em casa, Gutenberg se aproximou dela e lhe propôs novas brincadeiras. Não, você é xexeiro, respondeu-lhe e saiu em direção ao quarto. Gostei quando ele saiu atrás, pelo menos daria tempo para que eu terminasse o texto. 

Duas horas depois, Gutenberg, ao sair do quarto, recebeu a minha produção literária dizendo que o pagamento estava em cima da laje de dormir. Confiei sem ter como fazê-lo esperar pela conferência, e quando fui lá buscar, minhas queridas irmãs disseram que ele só havia deixado o correspondente aos favores amorosos. 

 

Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 28.01.2023 - 19h53min




TUDO ISSO É POESIA

  









TUDO ISSO É POESIA

Adriano Bezerra

Um coral de muitas aves
Ecoando em sintonia,
O zumbido da cigarra
No pingo do meio-dia,
Um jumento se espojando
E um boi no curral berrando...
Tudo isso é poesia.

O pingo que cai da chuva,
O coachar de uma jia,
O campo todo florido,
Um animal dando cria,
Um casal de passarinho
Cuidando do seu filhinho...
Tudo isso é poesia.

O sol de manhã surgindo
Com brilho, força e magia,
A lua a noite chegando
Mostrando a fase do dia,
Céu claro relampejando
E um trovão acompanhando
Tudo isso é poesia.

Um felino carregando
O filho pela sangria,
João-de-barro construindo
A casa com lama fria,
Borboletas se formando,
E o vento veloz soprando...
Tudo isso é poesia.

Formiguinhas indo e vindo
Trabalhando em sincronia,
Abelhas levando o néctar
Das flores pra moradia,
A noite um cachorro uivando
E cedo um galo cantando...
Tudo isso é poesia.

Adriano Bezerra
@adrianobezerrasouza


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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

CADA SENTENÇA! - Heraldo Lins

 


CADA SENTENÇA!


A borboleta era mais uma beleza a ser admirada naquele jardim repleto de ipês floridos. Por trás daquele ambiente limpo e belo, havia a figura do jardineiro amargando um salário que não o deixava sonhar além do básico. Cavando a terra, naquela manhã de janeiro, ele pensava na vida mesquinha que a profissão lhe presenteara. Pensava na aposentadoria e nas histórias que jamais teria para contar. Igualava-se à minhoca que fuçava a terra naquele momento. Será que ela tem filhos pedindo brinquedos? Não, minhoca não precisa de artefatos para ser feliz. Eu nem sei se minhoca é feliz ou triste, indagava-se. Ele estava feliz por não saber nada dos sentimentos da minhoca. Achava-se superior àquele ser feio que o ajudava com o jardim. Evitava matá-las, porém no trabalho sempre acontecia acidentes envolvendo-as no papel de vítimas. 

Minha vida se resume a viver aqui embaixo da terra, pensava a minhoca, num trabalho gratuito enquanto o jardineiro ganha um salário. Mas ainda bem que existe a terra para me proteger. Lá em cima estão os pássaros que vêm me estraçalhar como se eu fosse batatas fritas. Nasci minhoca e minhoca vou morrer. 

Nasci jardineiro e foi meu pai que me ensinou tudo sobre a terra. Era um homem digno, apaixonado pela germinação, assim como eu. Tentei estudar e ainda acho bonito a pessoa ser "estudada", mas minha cabeça só pensa em plantas. Admiro as minhocas que não precisam pagar prestação de casa nem ficarem penduradas no cartão.

Gostaria de ser jardineiro, pensava a minhoca, só assim me vingaria das andorinhas. Acho tão bonito quando voam com medo dele.

Quem mandou chover? Perguntava-se, irado, correndo para o ponto de ônibus. Naquele dia, estava atrasado por ter perdido tempo devaneando além da conta. 

Sacolejando no ônibus, observava o motorista em ação. Tinha muita vontade de ser condutor de ônibus. Via as mulheres falarem com ele de forma agradável, e isso o fazia ficar com inveja. Da janela, admirava-se com as vitrines. Sentia inveja até daqueles manequins que ficavam o dia todo sendo olhados. Um simples jardineiro não tem plateia, dizia para si. É diferente de um juiz que tem até câmeras filmando-o enquanto trabalha. Meus subalternos são os insetos. Nem os beija-flores prestam-me homenagem. 

Já tinha sido assaltado várias vezes naquele percurso. Todas as vezes, sentia não medo dos criminosos, mas admiração. Achava bonito a pessoa dar ordens e os outros obedecerem. Se pegasse uma arma, iria mandar seu patrão se deitar, mãos na cabeça e tudo mais. Obrigaria a mulher a lhe beijar, fazer sexo com ele e depois se suicidaria. 

Ao adentrar em casa, vê a sua esposa com as pernas estiradas no sofá. Televisão ligada na novela das nove "dando gás" à rotina da indiferença. Se fosse artista de televisão, sua mulher iria vê-lo beijando outras. Ela ficaria com ciúmes e corria para seus pés. Quando chegasse das gravações, ela lhe perguntaria como tinha sido o trabalho; perguntaria o que queria comer; conte as novidades meu bem, diria ela toda derretida. A família seria maior com a efervescência das fantasias sendo realizadas.

Sua "bóia" está em cima do fogão, esquente! diz ela sem desgrudar os olhos da propaganda de produtos que sonha um dia possuir. Se o marido fosse milionário, ela estaria viajando para a Europa; iria deixar o menino na escola acompanhada de motorista e mordomo. Foi assim que aprendeu no programa sobre ricos. Quando voasse no seu jatinho, faria muitas selfies para matar as vizinhas de inveja. 

Veja a torneira da pia. Está amarrada com a borracha e você ainda não consertou, grita ela para o marido que se prepara para dar a primeira mordida no frango requentado que ganhou da patroa. 

Seria bom se pudesse contratar um encanador. Mandaria consertar sem se preocupar com o preço. Na mansão, além de jardineiro, assume todas as funções de um faz tudo. Se pudesse comprar as ferramentas, colocaria letras na camisa com o nome eletricista. Acha bonito esse nome e, já sabe, até ganha melhor do que jardineiro. Encanador ele não quer porque o nome termina em dor. Eletricista parece com os equilibristas que assistia nos circos. Seu pai o levava para ver o palhaço, mas ele ficava mesmo admirado era com o trapezista. Essa admiração acabou-se ao presenciar um quebrar o pescoço. Nunca mais quis ser artista de circo. 

Espera a mulher terminar de assistir. Ela chega na hora do ronco. Deita-se de lado resmungando que ele não lhe dá mais atenção. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 27.01.2023 - 06h21min



terça-feira, 24 de janeiro de 2023

“VAI DAR O QUE HOJE?” - Heraldo Lins


“VAI DAR O QUE HOJE?”


Dona Batisca até quis adotar um menino, mas os tempos foram indo, as despesas aumentando, de modo que o assunto foi deixado de lado. Já dava muito trabalho aquelas duas e mais ainda quando a “providência” mandou um defeito na trompa para que ela aceitasse a missão de conviver com pouca gente na família. 


Além do trabalho de casa, ela achou por bem colocar um cartaz na porta avisando que fazia jogo do bicho, um combinado com o marido que de início não achou boa ideia, todavia a realidade expressa na ponta do lápis o fez anuir. 


Organizado o negócio em parceria com o chefe da banca central, iniciou-se as anotações de praxe. Todos os dias, batia gente querendo fazer uma "fezinha". O movimento não era lá dos melhores, porém para quem não tinha nenhuma renda, o pouco se tornava bastante e ela muito agradecia com sorrisos e orações.  


Inicialmente com cinco apostas ela se dava por satisfeita. Aumentado o olho, havia dias que com cinquenta o movimento passara a ser fraco. Uma tarde, alguém ganhou na centena e o prejuízo não foi bem visto pela central. Depois desse desentendimento, Dona Batisca achou por bem tomar para si toda a responsabilidade das apostas. 


A partir daí, as meninas puderam vestir algo mais digno. O marido pensou em deixar o emprego para se dedicar ao novo empreendimento e só tomou a decisão no mês seguinte. Agora toda a família dependia do bicho que foi crescendo a ponto de alugarem um quartinho na outra rua e passarem, estusiasmados, a vender mais esperança.


As meninas foram crescendo naquele ambiente cercado pelos vinte e cinco bichos e isso as influenciava a ponto de irem apostar na banca rival. Uma delas tinha o dom de acertar mais do que a outra, e era essa que passava o sonho para o pai ir longe fazer o jogo.


Foram amealhando riqueza e investiram num jardim zoológico contendo somente os animais do jogo do bicho. Em frente a cada jaula havia um cambista para receber as apostas naquele ali exposto. Quero jogar na galinha, disse uma menina apaixonada por galinha. Galinha não tem, respondeu o cambista. Que tal apostar no galo, sugeriu. Acho melhor num concriz. Concriz também não tem. Que tal pavão? Tem pavão? Sim. Pavão eu não gosto. Pode ser no curió. 


Esse curió está mais parecido com gavião. Na verdade, é águia, mas é primo legítimo do curió, galinha, burro, camelo. Tem burro? Tem. Acho que não vou apostar no burro não! Eu queria um bicho bonito. Que tal o leão? Vou pensar. 


Nesse pensar, a fila foi se formando. As pessoas que adoram fila foram logo perguntando para que era. Apostar no bicho. Passaram-se noite e dias e a menina pensando. Com o tempo, muitos foram dormir naquela fila, tentando achar uma brecha para fazer sua aposta. 


A menina desistiu daquela jaula e foi para a outra. Chegou em frente à do peru. Aquele bicho de pescoço vermelho todo enrugado, não era nada agradável. Deve ser por isso que ninguém suporta passar um natal com o peru vivo, ela pensou. Foi para a seguinte e encontrou a do veado. O coitado estava ali desprezado e ela achou o veado até bonitinho, porém muito mais indeciso do que ela. 


Com o tempo se esgotando, o pai da menina deixou a família para se juntar com a moça que "nas antigas" acertava no bicho. Uma das proprietárias expulsou sua enteada do zoológico para que a fila andasse.  


Passados anos e mais anos, ela já moça também, decidiu que precisava voltar para o zoológico. Agora sim, teria uma decisão mais acertada. Naquele puxa-encolhe, ela amealhou seguidores no momento em que começou a falar com os animais. 


Ela perguntava e os bichos respondiam sem nenhuma dificuldade. Ficou engraçado porque as perguntas giravam em torno das opiniões que os animais tinham em relação à humanidade. Você porco, qual o conselho que dá para aquele homem ali? É melhor ele deixar de trair a mulher, disse o porco. Pegue pau no porco. O traidor não queria que a verdade viesse a público e se vingou dando surras no suíno. Não fique zangado, disse o porco, pois sua mulher faz o mesmo. 


O zoológico foi fechado e o jogo continua proibido, entretanto permanece rodando palpites por aí tanto quanto traições, só que ninguém deixa mais o porco falar. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 24.01.2023 – 07h15min



segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

BATALHAS EM OUTRAS DIMENSÕES - Heraldo Lins



BATALHAS EM OUTRAS DIMENSÕES


Na entrada da maternidade, havia uma ambulância com as portas abertas e alguns maqueiros fazendo o serviço. Não, minto, onde eu parei e olhei de lado foi num cemitério sem nenhuma alma para se ver, meia-noite em ponto. 

Voltando a ler o que escrevi acima, notei que esse “vai pra lá e vem pra cá” me causou um pequeno desconforto. Dever ser o padrão exigindo que se tenha uma só linha de raciocínio. O que eu não queria era deixar pistas do local onde avistei aquela mulher.    

Meus olhos bateram nos dela. É melhor dizer que nossos olhos se cruzaram no mais puro beijo de reflexos. Isso ficou mais suave e até poético. Percebi que ela era cega. Vejam o choque “despoético”. Ser cego, principalmente em locais onde se reúne pessoas que enxergam, fica quase soando como uma nota fora do tom, e, por ela ser cega, desmancha toda a construção "puro beijo de reflexos". 

Foi chocante ver, através daqueles olhos todo branco, o mundo estranho em que ela se encontrava. Ela havia sido coroada rainha, só que com um grau intenso de feiura para os padrões do reino. Alguns podiam dizer que ela era linda pelo simples fato que estava com uma coroa de brilhantes, vários seguranças por perto e... agora me arrependo de ter dito que ela era cega e feia. É melhor deixá-la bonita e com olhos “enxergantes” senão a escrita segue outro roteiro. 

Ao contar que vi um universo contido naquele olhar, pode parecer exagero. Vi algumas imagens que me deixaram preocupado. Aconteceu que as imagens ficaram refletidas na parede e pude ver o quanto ela caminhava além da sua real existência.  

As imagens foram apagadas assim que ela começou a desmaiar em câmera lenta, de forma tão câmera lenta, que deu tempo para eu fazer selfies enquanto ela caía. Quando estava prestes a meter a cara no chão, algo lhe amparou.  

Eu tinha bastante tempo para ficar olhando-a flutuar, afinal naquele final de semana estava eu sem programação, contudo essa “onda dela ficar flutuando", deixou-me num beco sem saída. Como vou explicar isso, até porque a criação tem que ser verossímil. Só me restou apelar para o sobrenatural. 

Nas imagens que tive acesso, percebi que sempre aparecia um anjo da guarda ao seu lado. Aqui fica meus agradecimentos aos criadores desse ser que  uso sem pagar a franquia. O seu anjo da guarda a segurou e a deitou na maca com os maqueiros lhe dando suporte.  

Recebi aplausos dos maqueiros por tê-los inseridos na trama mais uma vez. Levaram-na para dentro da maternidade. Os seguranças ficaram fora porque eu os mantive lá com o objetivo de fazê-los entender que são apenas figurantes. Vi o anjo estirando o dedo para mim e entrando usando seu disfarce de “invisível”.

No atendimento, aconteceu algo incrível. Foi tão impressionante que até acho que nem devo contar. Só conto se os leitores derem uma respirada. Muito bem, obrigado! 

Lá dentro ela acordou, simultaneamente, no mesmo instante que o médico falecia. Essa mania de falar em mortes já está se tornando viciante, mas foi isso mesmo que aconteceu. O médico bateu as botas, ou melhor, bateu os sapatos brancos. Naquele instante, ela levantou-se e saiu chutando o que encontrava pela frente, inclusive os maqueiros. 

Não tenho nada contra eles, contudo ficaram com raiva dizendo que eu poderia tê-los colocado em outra situação mais agradável. Receber chutes de uma paciente, mesmo sendo dentro de um contexto literário, “não pega bem”. 

O fato é que eles não viram que aquele rebuliço todo foi causado pelo anjo da guarda da rainha. Enquanto ela se levantava dispensando ajuda, o anjo ficou inticando os anjos dos maqueiros, e isso refletiu na realidade. 

Enquanto os anjos do bem estavam entretidos em domar aquele anjo desordeiro, os maqueiros ficaram desprotegidos e foi nesse momento que a rainha os atacou, com a conivência dos seguranças. Como os anjos dos seguranças estavam desocupados, foram dar murros e pontapés nos outros e eu, para não ver o meu entrar na briga, preferi correr para longe daquele furdunço. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 22.01.2023 – 15h35min



sábado, 21 de janeiro de 2023

NÃO É PASÁRGADA - Heraldo Lins

 


NÃO É PASÁRGADA


A vila das pousadas tornara-se próspera. Situada no entroncamento entre várias cidades, não custou muito para que aventureiros para lá se dirigissem. Os serviços duvidosos se espalharam com novos estabelecimentos sendo abertos para atenderem homens de “arribação”. Veio a COVID, e sobre o índice de contaminação ninguém deu notícias, mesmo as luzes coloridas permanecendo refletindo-se nos caminhões estacionados na madrugada. 


Uma estrada de ferro trouxe mais homens sedentos de “carne”. As franquias famosas instalaram-se dando um aspecto de metrópole do consumo, com galpões sendo armados no sistema pré-moldados que interferiram, bruscamente, na paisagem bucólica, de forma que quem passasse mais de um mês sem visitá-la, estranhava. 


As tropas de burros foram substituídas por metrôs, e mesmo sem muita necessidade, os dirigentes queriam “se mostrar”. A família tradicional, que “mandava no pedaço”, há muito amargava a discriminação cultural ouvindo que lá só existiam malucos. E para não serem tão diferentes dos normais, resolveram erguer uma estátua juntamente com um bondinho para a serra das peregrinações. 


As praias tiveram seus lotes supervalorizados a ponto de pescadores serem convidados para irem um pouco mais para lá, causando revolta em quem não estava acostumado com mudanças tão rápidas. 


Com suas praias alvas recém-descobertas, a ex-vila serviu de tema documentado por novos influenciadores. Radares, instalados nas descidas dos morros, contribuíam para sustentar o glamour através da velocidade reprimida com a pena do desembolso. Até as chuvas, antes torrenciais, amenizaram-se. Os ventos tempestuosos foram desviados por modernos equipamentos originados das ideias de Tesla. A nova tecnologia foi motivo para observatórios astronômicos se instalarem trazendo um surto de psicólogos querendo saber o porquê de pessoas tornarem-se desprovidos de malícia ao fixarem moradia ali.  


Quem fazia esculturas, ao chegar por lá, mostrava-se mais talentoso do que de costume e até os desafinados passavam a cantar ópera. No fundo dos grotões germinava água cristalina, e era dessa água que vinha a substância inibidora da maldade. Viver entre o mar e a montanha atraía novos moradores querendo respirar o ar também tido como milagroso. 


Eu cheguei por lá e fiquei admirado por não haver cemitério. Aqui não se morre, disse uma jovem belíssima. Perguntei-lhe por seus avós e ela disse que haviam se mudado de tanto sentir tédio querendo morrer e não podiam. Ela mesma, já contava com mais de seiscentos anos, e agora era que não tinha mesmo nenhum pingo de vontade de ir embora.  

O interessante é que não avistei nenhuma criança, sendo avisado que quem quisesse ter filho teria que ir para outro lugar porque naquele éden nenhuma mulher engravidava. A única explicação lógica à qual tive acesso foi a de um ancião com pele de bebê que disse que as células permanecem renovando-se com a mesma força e elasticidade como se o tempo ficasse suspenso. Ali era conhecido por triângulo das bermudas ao contrário. O ápice do vértice, disse-me sem que eu entendesse. 



Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 21.01.2023 – 11h48mi



sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

GENÉTICA DESASTROSA - Heraldo Lins

 


GENÉTICA DESASTROSA


Observava, friamente, os outros meninos que vieram prestar homenagens ao amigo encontrado esquartejado. Há dois dias haviam brigado, e ele ainda se lembrava que quando sentiu seu nariz escorrer, correu para o pai viúvo que sempre o protegia exageradamente. Só quero seu bem meu filho, dissera o pai furioso por ele chegar em casa machucado. Aos quinze anos, já havia sofrido bastante vivendo com um pai bruto e sem uma mãe que pudesse lhe aconselhar educadamente.  

Acostumou-se a ficar debaixo da guarda de quem era respeitado pelas suas maldades com os animais que negociava. Sua profissão fora escolhida por gostar de ver sangue jorrar e, ainda de quebra, vender a carne. Andava armado com mais de um instrumento de trabalho, e na cidade ninguém ousava desafiá-lo. Não quis se casar novamente ou não encontrou quem o quisesse, o certo é que viviam os dois naquele casarão herdado dos avós materno. As tarefas de casa ficavam a cargo do garoto sob ordens ameaçadoras caso não aprontasse o almoço antes dele chegar do açougue.

Uma vez, o pai foi preso por ser acusado de matar um garoto, porém seu álibi foi uma vaquejada que participava na hora aproximada que ocorrera o crime.

O filho sempre foi muito obediente e calmo. Era um "menino" de procedimento exemplar e restrito ao convívio do lar. Num terreno, ao lado do jardim sem muro, cultivava. Na cidade, era exemplo de adolescente respeitador, mas quem mexesse em sua plantação, ele se transformava. Quando estava perto de colher, ficava de plantão dormindo ao relento para vigiar o que tinha conseguido com muito esforço. Tirando essa proteção exagerada para com as verduras e legumes, só elogios. 

Havia uma garota da mesma idade que o auxiliava naquele trabalho. Os pais vizinhos nem se importavam que ela estivesse fora da vista, pois o rapazinho tímido não representava perigo.

Estavam quase sempre juntos, isso sem muita anuência do pai do garoto que via naquela menina um descaminho para o seu futuro doutor, pois notava que ele a olhava com certa animação própria de quem está com os hormônios a mil, porém o interesse dela não passava de pesquisar enxertos. Certa madrugada, foi encontrada decepada. Apenas o corpo foi encontrado passando vários dias para que sua cabeça aparecesse dentro de uma caixa depositada na porta da igreja. Um escândalo para a pacata cidade que teve o chefe geral do comando discursando sobre a necessidade de encontrar os criminosos.


Alguns dias passados do início da investigação, o alojamento foi atacado com sacos cheios de sangue atirados não se sabe de onde. A porta e as paredes tiveram que ser pintadas, e logo o açougueiro foi chamado para mais esclarecimentos. Onde estava ontem à noite? Havia viajado para comprar gado na cidade vizinha e encontrava-se trazendo a boiada nas veredas da serra. Os vaqueiros que foram com ele, testemunharam a seu favor. 

O pai, de tanto ser chamado para esclarecimentos, começou a descarregar a raiva no ex-querido. Já não era como antes. Agora via seu herdeiro como um entulho decidindo não mais se importar que ele apanhasse dos outros na rua. Tinha muito com que se preocupar e aquele já estava bem crescidinho para precisar de um anjo da guarda. Que a amada falecida lhe perdoasse, mas iria construir outra família. Por várias vezes sonhara com sua ex-esposa, e nos sonhos ela sempre pedia para não deixá-lo sofrer, todavia ia ignorar o pedido, afinal já dedicara muito da sua existência para cumprir a promessa feita no leito.

Numa madrugada chuvosa, tentou sair da cama. Estava amarrado com o filho lhe olhando com aqueles olhos fixos da mãe. No outro dia, foram encontrados os corpos trajando roupas daquela que aparecia nos pesadelos dos dois.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 20.01.2023 – 05h37min



quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

SUCESSO ALCANÇADO - Heraldo Lins



SUCESSO ALCANÇADO


Toda manhã, ao lado da cama, um violento par de chinelos é algemado aos meus pés para ser domesticado no passadiço da casa. A luz branca e forte da janela açoita meus olhos tentando ofuscar-me, custe o que custar. Às vezes são pingos torturantes que tentam afogar-me nesse aquário cheio. Tenho que ter cuidado para não ser levado pelos furacões que entram pelas portas quebrando ossos e arrancando cabelos. 


A vida aqui não está fácil. Pior são as agressões virtuais carregadas de medos e ansiedades durante a madrugada, e mesmo acordado, sinto a pressão trazendo imagens de um futuro criado pela assembleia geral. 


Saio de casa tentando consertar um coração que está com arritmia e um cérebro cheio de mau humor. Além de administrar as ações externas, tenho que atender aos pedidos de ração que o estômago requer constantemente. É uma verdadeira batalha travada com a dor de uma bexiga cheia. Sobra pouco tempo para deleitar-me com o que é tido como racional. 


O monstro das necessidades nunca dorme, significando dizer que sou escravo dele. Um refém que teve seus momentos áureos no início da construção, agora estou sozinho ao bel-prazer dos prazeres misturados com incentivos doloridos. 


As serpentes nunca param de crescer. São répteis que ficam pelejando para conseguir segurar outros animaizinhos junto aos seus pés, e por isso tenho que decepá-los com lâmina todos os dias, e quando esqueço, os efeitos vêm em forma de desânimo. 


Acho que serei derrotado, mas tenho minhas dúvidas se aceito ou não essa derrota. Ser derrotado é não poder mais manter tudo funcionando. A libido, a visão, audição, tudo requer manutenção, e isso o corpo teima em destruir enquanto me ocupo com o trabalho. O despertador toca dizendo que tenho que ir correndo buscar munição para barrar a degradação total. 


O travesseiro fica reclamando que já não paro a cabeça em sua maciez. Os minutos correm empurrando-me para o abismo das responsabilidades. Tenho que saltar da cama trepidante depois das cinco. O dormitório precisa ser arrumado para as visitas que nunca chegam. 


O espelho reclama da bagunça do rosto com serpentes sendo apontadas e gosma nos olhos. Em cima da escrivaninha, um computador exige meu tempo disponível para um bate-papo que nem sempre me agrada, entretanto faz parte do compromisso assumido com outras máquinas carentes.  


Meu rosto inchado denuncia que tomei substâncias desagradáveis. O espelho reclama com razão, dizendo que não tenho jeito de ser diferente. Fico calado, pois qualquer coisa dita ou sentida pode ser usada contra mim. 


A caixa do vazio está cheia, reclamando para si um conteúdo que a torne mais significativa, nem que seja pelo silêncio imposto pelo grau intenso da individualidade. Nunca fui capaz de mantê-la em um nível aceitável. Essa condição de nascença prende-me. Na maior parte do tempo, só me resta gritar de boca fechada. Aprendi que ficar vermelho de ódio não resolve, ao contrário, esvaziam-se o restante das forças. 


Desisti do combate. Deixo o vento me levar de janela afora. Virei um átomo de poeira, e saio por aí sem destino. Uso a força da natureza em meu benefício. Caminho nas estradas ditadas pela rotação dos planetas. Sem ter definido o trajeto, paro na cabeça de uma humana. Ela é jovem e vai correndo com roupas apropriadas. Vem suor me molhar. ali perto habita caspas e outras montanhas de lixo que não me dava conta que existiam. 


Olho os olhos admiradores passantes, não sei se me veem, mas acho que não. Sou muito pequeno para chamar a atenção. O bom é que não preciso mais correr igual a quem me transporta. Todas as preocupações com emprego e seus derivados, acabaram-se. Tirando esse molhado de couro cabeludo, está tudo bem. Não há como sair daqui tão cedo. Está confortável ter um transporte gratuito sem precisar de contrapartida. 


Minha hospedeira nem sabe que estou a usufruir da sua força. Vejo que está entrando na água. Ondas de espuma levam-me para o esgoto. Aqui dentro é escuro com muita água misturada. 


Para relativizar esse momento, tenho que me lembrar de quando fiquei reclamando de um quarto ventilado e claro. Poderia ter aproveitado mais as sandálias nos pés protegendo-me do chão frio. Ah, como gostaria de ir para o trabalho, ter que ouvir chatices, fazer as mesmas coisas que a rotina exige. Como era bom o silêncio do vazio que eu tanto reclamava. 


Abro os olhos no grande lago onde fui jogado. Estou à mercê de insetos, pássaros e bactérias. Permaneço cheio de vizinhos barulhentos, e o meio em que me encontro não é nada agradável para quem tem seus sentidos funcionando. Não sinto cheiro, mas pela minha experiência, aqui exala odores fortes. Não vejo diferença de cores, entretanto sei que dejetos não têm cores agradáveis.  Todos os habitantes daqui lutamos para nos infiltrarmos em um corpo sadio. 


Fico sem ar, mas não importa. Agora é que tive consciência de que não preciso de ar para permanecer pó. Cheguei ao ponto máximo do sucesso. Agora é só usufruir. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 19.01.2023 – 04h56min



terça-feira, 17 de janeiro de 2023

PASSEANDO PELAS PESSOAS - Heraldo Lins

 


PASSEANDO PELAS PESSOAS


Era forte, saudável e muito ativo para o trabalho. Vivia numa estação de trem onde tinha moradia e flores para vender aos passageiros, principalmente às mulheres recentemente casadas em viagem de lua de mel. Nos vários momentos em que estivera sozinho, pensava em algo mais significativo para sua vida, como por exemplo, ter uma mulher para a qual pudesse comprar flores. Abriria a carteira sorridente, tiraria uma nota cheia e deixaria o troco. 


Queria ser um homem bom e amável, mas as condições precárias não permitiram. Seu hábito de estar sempre sorrindo não lhe tirou a capacidade de fazer uma releitura das suas antigas clientes. Uma delas, que recebeu buquê, hoje vende pirulito perto do embarque. Seu marido veio a falecer e a deixou com uma filha sem nenhuma garantia de subsistência. São colegas e testemunhas de que a vida prega peças em quem está dentro dela.


Que lindo! disse a contemplada olhando o que o marido lhe entregava. Estavam saindo de férias e, mesmo na chuva, aproveitaram a oportunidade para um gesto romântico. Do trem, ainda puderam avistar o vendedor de flores e a de pirulito conversando, nem se sabe o quê. 


No assento em frente, um velho lia jornal e os cumprimentou juntamente com sua mulher de cadeira de rodas. Fizeram-se amigos durante o trajeto apertando-se as mãos na estação seguinte. Eles continuaram a viagem, e na outra estação, distante trezentos quilômetros de onde o velho e a cadeirante ficaram, despediram-se do maquinista. 


Este seguiu pensando naquela sua última viagem. Estaria se aposentando no dia seguinte e lhe veio as lembranças de quantas pessoas deixou pelo caminho. Lembrou-se de uma que se suicidou debaixo daquela ferragem. Havia deixado o marido por outro, porém não estava sendo correspondida. Foi fato romanceado até por escritores famosos.


Ao chegar ao destino, duas horas depois, o maquinista estacionou pela última vez. Puxou todas as alavancas necessárias e seguiu a pé para casa. Encontrou o guarda amigo levando um algemado que o reconheceu. Não se falaram. 


O homem percebeu o desviar do olhar e seguiu sendo empurrado pelo guarda. Muitas vezes já estivera preso, entretanto acreditava que logo estaria de volta para bater carteiras de homens que presenteavam suas mulheres com flores. Uma neblina veio lhe deixar impaciente com aquelas algemas forçando suas mãos para trás. 


Um cão latiu ao passarem perto de uma lata de lixo. Uma porta se abriu e o garçom, de bigode e com saco na mão, os olhou voltando  para o bar em que servia a dois amigos bêbados no balcão. 


Um deles falava de como trapacear nas cartas de baralho. Sabia fazer truques também com moedas. Apostou que conseguiria o que prometia e ganhou mais uma cerveja do colega menos embriagado. Tiveram que sair daquele ambiente fechando as portas pelo horário avançado. Não havia lugar para irem senão suas próprias residências. Sem muita alegria, disseram até amanhã, pois se encontrariam na mina de ouro para extrair riqueza da terra para o bolso do patrão. O lazer consistia naquela bebedeira todo final de semana. Estariam juntos novamente logo que chegasse mais um, foi o prometido por ambos. 


Em casa, a mulher do menos fedorento, ainda assistia a filmes quando ele chegou. Tirou a tampa da garrafa e bebeu um café forte. Ainda acordada? Sim, não tive como dormir sabendo que você está jurado de morte. Deixa de besteira, aqueles caras não são de nada. Veio para perto da esposa e ficaram vendo outro programa ao vivo que só apresentava talentos da meia noite, pessoas que se dedicavam a trabalhar somente depois que o sol se punha. La estava o cantor que ele mais gostava. Apresentou-se e, sob aplausos, deixou o camarote juntamente com uma fã que o esperava para um autógrafo. Ela era uma ninfeta abaixo da idade permitida para estar na noite, entretanto os guarda-costas a deixaran se esconder na limusine. 


O artista seguiu viagem saboreando o chiclete daquela menina, há pouco saída da adolescência. Até a residência, onde passariam a noite, foi um pulo. Desceram abraçados sendo fotografado por um profissional do ramo das fofocas. 


No outro dia, lá estava estampado o escândalo na primeira página. As edições foram esgotadas rapidamente. Os programas sensacionalistas exploraram ao máximo, entretanto no final das contas, os dois receberam os devidos cachês pela produção daquele escândalo. O jornal, onde o artista é sócio, depositou o dinheiro devido pelas vendas extras dos jornais. 


A menina foi convidada para estrear um programa, onde receberia convidadas contando suas experiências com homens casados, e, quanto mais de bem com a família, mais audiência.  


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 19h02min



DO SERTÃO DE COMBOIEIRO A PIRACA VAI PRO BREJO! - Jair Eloi de Souza



DO SERTÃO DE COMBOIEIRO A PIRACA* VAI PRO BREJO!

Tempos idos no sertão, quando o aroma dos aguapés já se fazia sentir pelos ventos da caatinga que adormecera, os tubérculos aquáticos maturados, em plena primavera e lua setembrinas, chegara a hora das grandes e numerosas pescarias nos sertões do Seridó. O cardume lacustre dos pequenos e médios açudes reproduzira e encorpara a barriga degustando o capim-quicé. Jererés, tarrafas, redes remendados e renovados estavam a postos.
As catimbóias havia dias estavam montadas, trançadas e submersas, e já eram coitos em limbo, onde o cardume após o boquejamento da hora vesperal e boca da noite, encontrava a calmaria e amparo para dormir e suportar a cruviana madrugadenha, que só aliviava quando o eco solitário e compassado do carão ribeirinho anunciava o quebrar da barra.
No rastro dessa fauna, se formara os grandes e renomados pescadores jerereseiros, tarrafeiros e lançadores de redes a nado: dentre muitos, convém nominar Pretim de Antônio Boião, Pedro de Chico Virgínio, Zé Pequeno, Chico Ananias, o gigante Delmirão da Assembléia dos Baú e finalmente Chico de Tia Querida, favo de jocosidade e animador daquela jornada pesqueira..
Em tenra idade, porém, já com sutil observação do cênico, estava esse pretenso escriba a matutar o rancho armado, fogão de trempe à lenha do lado do poente, panelas e jarras de lavra das negras loiceiras da Maria-Tacaca, rachas de lenha seca no pátio da choça e jiraus suspensos para o guardo dos legumes, especiarias, sal, café, rapadura e a mistura óssea, que não raro, era apenas a carcaça da alcatra zebuína..
Havia um cardume uniforme em quase todos os açudes; curimatã, piaus pretos e lavrados, traíra, corró, apanharí e cascudo. Nesses tempos, ainda não havia na malha lacustre o valente e predador Tucunaré da Amazônia. Razão simples, embora já fizesse parte da fauna pesqueira ribeirinha do velho Piranhas, as espias dos açudes obstaculavam sua subida e o acesso a esse coito lacustre, o mesmo acontecendo com a piranha nas suas versões beba e preta, o que fazia reinar a traíra como único predador naquelas barragens.
De bem dizer, nessas pescarias de atacado, não se usava o anzol em caniço, quando muito, atava-se vários anzóis a uma linha grossa de náilon ou de corda de croá, jogava-se n’água, para retirada no outro dia, no sertão chamavam esses de espinhéis.
O peixe graúdo era vendido diariamente na cidade, principalmente a curimatã grande e ovada, essa espécie, quando de pequeno porte, era chamada de pindonga ou piraca, não era apreciada pelas gentes do sertão, em razão de que, uma vez escalada, salgada, enfardada em esteiras de palha de carnaúba, tinha destino certo, o brejo paraibano.
A matutada almocreve da Ribeira do Piranhas, no coice da tropa muar, cruzava o Sabugi, a ribanceira do Seridó, fazia arranchação no sopé da Serra da Rajada, e ganhava o boqueirão de Carnaúba dos Dantas, entrando no Curimataú paraibano, no costado das empenas da Serra do Cuité, onde de pouco chegava à barra de Santa Rosa no azimute de Araras, até atingir o anel do Brejo, onde costumava vender a piraca salpresa, ou fazer o escambo desta por aguardente-de-cabeça, farinha e rapadura.
Tempos distantes, coisas do início do século que se findara, década de vinte, o comércio, se fez presente e em grande escala, é que o brejeiro, tinha carência alimentar, proteína, em função do passadio fraco, embora tivesse naquelas paragens muita fruta.
Dizia o velho Chico Eloi, com sua oralidade retrospectiva, que a viagem tinha algumas vantagens em relação à ida ao Cariri, ao Crato, era mais perto, os riscos menores, ausência de cangaceiros, assaltantes, e até da suçuarana, que atacava menos. Porém, a rapadura do Cariri, sempre foi de melhor sabor, menor acidez.
A viagem às terras cearenses era atrativa, vez em quando, visitavam o Padim Cícero no Juazeiro, renovavam os rosários, traziam as famosas batidas de cana de açúcar. Mas a partir do vale do Rio do Peixe, a viagem tornava-se perigosa, era alí, a terra de Chico Pereira, que estava mais para assaltante do que para cangaceiro.
A propósito, contara-me o velho octogenário que em vinte e quatro, o aguaceiro no sertão tinha caído, mas já ultrapassado o meado de agosto, a lua estava de passagem de quarto crescente para cheia, rumavam para o Crato, comboio de 25 burros, puxado pela burra-guia cigana, estradeira quando para aquelas bandas rumava.
Ao entrar da cidade de Souza, um toque de concertina chamou a atenção de todos. Era o corço do Bando de Lampião, comandado por esperança, apelido de Antônio o irmão mais velho deste facínora, que viera por encomenda dar uma surra em Otávio Mariz, desafeto de Chico Pereira. De ressaltar que nesse dia, a carne seca do Seridó foi solicitada pelo bando, após a identificação dos matutos, e todos sem exceção tiraram sua reserva alimentar para ofertar sem constrangimento, uma vez que a malta nada fez de ofensa aos almocreves da freguesia do Piranhas.
Mas, voltando ao oitão do rancho pesqueiro, fato interessante de registrar, é que desse intercâmbio da almocrevaria pesqueira com o brejo, muitos brejeiros subiram na carona da matutada e nunca mais voltaram para suas terras de origem, porquanto, muitos deles constituíram família e provaram o ocaso e réquiem da caatinga seridoense nos velhos tempos.


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segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

NOS PORMENORES DE UMA LUPA - Heraldo Lins

 


NOS PORMENORES DE UMA LUPA 


Eu era o policial responsável para apurar o desaparecimento da jumenta de Romígio. O coitado a deixou pastando em frente à sua casa e quando veio desamarrá-la... foi o canto mais limpo. Ele ia fazer uma viagem com seu antigo freguês, agora nem água.  

Chegou à delegacia onde eu estava de plantão. Peguei o caso para sair daquela monotonia onde os maiores acontecimentos não passam de brigas de bêbados. Eu me achava o maior detetive de todos os tempos, e percebi que era um momento de sair do anonimato com tão importantíssimo desafio, pois a jumenta, com apenas duas crias, não deveria ser transformada em carne de charque.

Fomos à casa de Romígio. Fotografei as pegadas e minhas suspeitas "bateram" nuns meninos sorridentes que apareceram “brincando de bola”. Eram vizinhos, e logo achei que seriam eles os grandes vilões do crime da jumenta solta. Eu não, disse um deles apontando que o outro sabia alguma coisa. Foi um caminhão que levou para as bandas dali, mostrando os beiços em direção à cidade.

Deve ser uma quadrilha especializada em roubar jumentas, pensei. Minha ajudante ainda levantou algumas hipóteses que nem anotei para não dar trela. Ela tinha apenas que seguir o que eu determinasse, disse-lhe com um olhar “censurante”.

Tentei saber qual o tipo de relacionamento que o dono mantinha com a sua jumenta, e logo disseram-me que não havia suspeita de maus-tratos ou afeiçoamento carnal, apenas era um meio de ganhar o pão de cada dia. 

A mulher de Romígio apareceu chorando e pedindo-me para que houvesse dedicação de corpo e alma naquela busca, pelo amor de Deus. Nessa hora, fiquei “cheio de pernas” em frente à estagiária. Aquilo era só uma pequena amostra da importância do meu trabalho.

Junto aos vizinhos, descobri rumores que depois dos raptos de jumentas, os bandidos passariam a raptar crianças. Mandei verificar os cartões de crédito da jumenta, mas logo fui avisado que aquele protocolo era utilizado para pessoas e não com um animal. Ah, sim, havia me esquecido. Desculpei-me e fiz questão de virar a cara para não ter que indiciá-los por gaiatice com uma autoridade. 

Procurei saber qual tinha sido a última viagem feita com seu animal de estimação. Não, não era de estimação, corrigiu-me a estagiária. Eu só estava lhe testando, disse-lhe com um sorriso amarelo. 

Pois bem, senhor Romígio, diga tudo sobre o furto. Eu já disse e, por sinal, o senhor anotou tudo. É verdade, anotei, só que não consigo decifrar os garranchos. 

Liguei o áudio no WhatsApp e mandei ele responder algumas perguntas pertinentes: o senhor tem certeza que não era um tamanduá? ou um camelo? ou girafa? Era uma jumenta mesmo? Hipopótamo? Não, não... jumenta! Fiz essas perguntas para ver até que ponto ele gaguejava, pois podia estar de combinado com a quadrilha para receber o prêmio do seguro. Ela não tinha seguro, era só uma jumenta. Tudo bem, mas acho isso muito estranho o senhor possuir um bem e não colocá-lo no seguro, aliás, se o senhor quiser, Romígio, pode pegar o número do telefone de um corretor amigo para que seus filhos possam ser assegurados, afinal, acho que eles valem mais do que uma jumenta. 

Dá para o senhor se concentrar no desaparecimento de Qualhinha. Quem é Qualhinha? A jumenta, era assim que chamávamos. Quem sabe pode ter sido alguém se sentido desprestigiada com o seu próprio nome sendo colocado em um quadrúpede. Aqui neste lugarejo não tem nenhuma mulher com esse nome. Mas pode estar nascendo neste exato momento, e os pais logo deram sumiço ao animal para evitar problemas de “personalidade volúvel”. O que é isso colega? perguntou-me a novata. Arrá! peguei ela em algo que não sabia. É um termo inventado por mim para quem vive duvidando da própria existência. Você se acha uma vaca? Não. Tudo bem, porque se você dissesse que sim... deixe eu ver aqui no meu rascunho de loas... eu diria: sou um touro.

O senhor vai achar os culpados? Perguntou-me a mulher de Romígio. A senhora está muito interessada em saber quem furtou a jumenta. Será que a senhora não está em conluio com o bando? Deus me livre, essa jumenta é sagrada para nós. Foi ela que me levou para ter o primeiro menino; foi ela que deu um coice em Pilário. E Pilário, quem é? Um safado que veio pedir voto aqui em casa. Ah, estou entendendo! Essa jumenta é mais do que uma jumenta. Ela é um ser social e político envolvida na invasão do palácio do planalto, e vocês dizendo que houve rapto. Nós já estamos nos cansando com essa falta de rumo na investigação. É melhor falar com outro policial. Jamais isso deve ocorrer, viu senhora, sob pena de indiciá-los por atrapalhar a investigação, e mais agora que estou chegando aos criminosos, não posso abandoná-la, como vocês fizeram com Qualhinha. Nós não a abandonamos. E por que ela estava fora de casa? e ainda por cima amarrada num cabresto consertado com arame? De onde o senhor tirou esse negócio de cabresto com arame? Dedução de um experiente detetive. Vocês deveriam ter deixado essa jumenta dentro do quarto, mas não, deixaram ao relento e deu no que deu. É o lugar apropriado, autoridade, para se criar um animal assim. Vocês que pensam. Já imaginaram o que dirão os defensores de jumentas? Podem até querer prendê-los por discriminação familiar.

Não precisamos mais procurar Qualhinha. Por quê? perguntei virando-me em direção de onde tinha vindo a informação. Acaba de chegar o caminhão da prefeitura que veio deixá-la. Levaram-na só para cadastrá-la, vaciná-la e não nos avisaram, disse-me a filha de Romígio agarrando-se ao pescoço de Qualhinha no mais dramático berreiro. Graças a mim, o mal-entendido criminoso foi esclarecido. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 16.01.2023 – 09h17min