ECOS DO EGO
Duas vidas sendo vividas. Uma observa o sol mostrando o amarelo invadindo o azul inocente da manhã; a outra mastiga cubos de cenoura, deitado de pernas passadas, pensando na pipoca doce que também trouxera para a cama de solteiro.
Naquele momento, passava em revista o dia anterior. A frigideira de batatas inglesa, no topo de um copo dentro de um prato com água, evitou que formigas de açúcar viessem destruir seu desjejum preparado na noite anterior. Seu pouco tempo disponível para sair com a barriga forrada fez-lhe preparar tudo, deixando a obrigação de que, quando fosse consumir, apenas espantaria o frio dos alimentos na boca do fogo.
Precisava chegar cedo ao clube de tênis. Enquanto mastigava devagar o já aquecido prato, olhava para a bolsa com uma infinidade de coisas dignas da bagagem de um peladeiro.
Tentava relembrar o que mais acontecera ontem, enquanto passava a língua entre os dentes, querendo encontrar resíduos da cenoura e da pipoca mastigadas há pouco.
Lembra-se de que desceu no elevador, ligou o carro... Filmou as quadras já ocupadas por outros estranhos tenistas. Sua turma estava para chegar. Play, leu nas mensagens do grupo.
O céu, agora totalmente iluminado, trouxe-lhe uma avaliação do quanto perdera o significado as experiências ontem vivenciadas. Uma nuvem passa pela janela, levando a certeza de que amanhã ela não será mais lembrada. Como a vida é fugidia, pensa, mesmo sabendo que os acontecimentos servem para revelar a fugacidade da existência que, mesmo assim, ele a deseja permanente.
Fixa o olhar num ponto preto na parede para ter a certeza de que ainda está vivo e consciente. O sol forte o fez mudar de lado em que estava deitado. Fecha a cortina e relembra que foram quatro horas e meia jogando. Gritos eufóricos, conversas paralelas e o retorno feliz para ouvir da esposa que adora vê-lo com aquela cara de campeão.
Qual importância tem isso para um soldado ferido numa trincheira? Ele volta-se para a maciez da cama e agradece à natureza por não o ter feito herói. Prefere ficar no anonimato; assim, evita dar autógrafos.
Sua vida permanece sem agonias da dor. Seu pai viveu mais de noventa anos, aliviado por drogas que o faziam dormir. Ainda bem que ele não foi esse pai. Quão difícil seria ser pai e filho ao mesmo tempo. É mais fácil ser ateu.
Carla faleceu hoje às 06h15min. Enquanto comia pipoca, sua prima falecia. Foram mais de oitenta anos comendo pipoca e cenoura, igual a ele hoje pela manhã. O menino de Dora nasceu, essa é mais uma mensagem aberta no aplicativo. Quanto de pipoca esse menino vai comer? Carla faleceu sem precisar de bomba, e o menino, ninguém sabe se vai gostar de cenoura.
O sol foi esquecido, mas, só em dizer que ele foi esquecido, passa-se a se lembrar dele. O silêncio cuida disso, mas é difícil representar o silêncio com a grafia. As reticências são atemporais. Nenhum cientista mede o tempo com reticências.
Relembra o guarda parando-o na portaria. Novato é assim mesmo. O vizinho, perguntando três coisas ao mesmo tempo e pedindo para ele não atrasar nas respostas. O céu está limpo de nuvens, é preciso mudar o foco para não endoidecer. Se fosse mal-educado, diria que o vizinho é inconveniente, chato, alcoólatra... e mais, muito mais virtudes invertidas; porém, freia o pensamento por precisar tomar emprestada uma colher de açúcar, então, a partir daqui, todos os erros desse importuno serão convertidos em acertos.
O infinito não se preocupa com esse estresse de ser vizinho. Antes de ser alguém no mundo, já se é vizinho. Se tivesse a inteligência infinita, não estaria questionando o dia de ontem nem se preocupando com o idoso inconveniente que, de quando em quando, toca a campainha para saber se o barulho escutado veio do martelo que ele um dia viu em cima da pia.Tudo isso serve de munição para despejar na tela, pois entende que permanecer vivo é produzir, poluir, alimentar-se e, consequentemente, usar mais o banheiro.
No mercado, uma moça com meias cobrindo apenas as imperfeições passeia empurrando um carrinho de orgulho por ser tatuada. Ela nem sabe que é considerada como sendo um saco coberto de pele manchada, retocada pela meia transparente que cobre a catapora de infância. Ela compra pão para o seu tanque de pão, do mesmo jeito que o motorista compra gasolina para o tanque de combustível.
O dia anterior está indo embora na cachoeira das horas. Seus minutos passam de seis. Só tem tempo porque olha para o relógio. Se quebrar a hora, é o mesmo de estar quebrando os grilhões que o mantém preso na contemporaneidade. Não quer ficar livre do tempo, pois isso significaria ficar preso no vácuo desse tédio interminável.
Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 31.07.2026 - 06h40min.
