sábado, 10 de abril de 2021

INFLUÊNCIA ALIMENTAR - Heraldo Lins



INFLUÊNCIA ALIMENTAR  


Comecei a prestar atenção na minha alimentação e descobri que o arroz me traz alegria, lentilha me dá calma e batata, frouxidão. Alimentar-me conscientemente passou a ser uma forma de escolher como quero estar. Quando vou às compras fico consultando a agenda para certificar-me dos eventos que tenho durante a semana. Comprei maracujá para consumi-lo antes da palestra. Banana e ovos para namorar. Mesmo eu não gostando, recomendo pimenta malagueta quando se vai para uma pista de dança ou de atletismo. Além de ingeri-la, deve-se passar nas partes sigilosas do corpo. Ainda bem que não gosto de dançar e nem de correr.


Depois dessa fantástica descoberta, olho de forma diferenciada para os vegetais. Percebo que são seres inteligentíssimos que usam seus frutos para manipulação dos humanos. Meu comportamento depende deles, e não é só comigo que isso acontece. Todos os avanços científicos foram influenciados por comida. A prova é que uma macieira estava querendo saber sobre força da gravidade, então, usando da sua sabedoria, deixou cair uma maçã na cabeça de Newton. O mesmo aconteceu com a Jaca. Galileu a utilizou, junto com uma cebola, para comprovar a teoria da queda livre dos corpos. 


O mundo é regido por esses manipuladores. Além de me precaver no que vou comer, estou plantando árvores geneticamente modificadas. Consegui uma muda com João do pé de feijão. Trabalhei bastante para deixar o feijoeiro à altura de dois metros, e com isso não precisar arrancá-lo a cada safra. Misturei a genética do baobá com milho, e dessa maneira teremos canjica e festas juninas o ano inteiro. A soja será enxertada com manga visando uma produção casada de frutas com leguminosas, assim, eliminaremos totalmente as queimadas. 


A minha capacidade em manipular alimentos, eu mostro quando vou para o ensaio. Lá na quadra da escola de samba fico imitando a cuica. Os bêbados acham graça quando escutam a sonorização corporal grave fazendo o contraponto musical. O desagradável é que as passistas ficam se rebolando à distância. Já tentei sambar perto delas, mas não consigo entender por que fogem de mim com a mão no nariz.        


 


                 

Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 26/02/2021 – 06:45

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

segunda-feira, 5 de abril de 2021

DESPEDIDA DE UM VAQUEIRO - Poeta Daxinha





 DESPEDIDA DE UM VAQUEIRO

I

Quero falar de um colega

Uma pessoa excelente

Honrado, sério e disposto

Corajoso e competente

Que na Fazenda Alegre

Era vaqueiro e gerente.

II

Seu nome é José Pimenta

Esse grande amigo nosso

Que com muita habilidade

Zelava de qualquer troço

As amizades eram tantas

Que eu dizer todas não posso.

III

Um dia tomou um plano

De entregar a fazenda

Chamou o patrão e disse:

É bom que o senhor entenda

Que o Sítio do Cabeço

Já garante a minha renda.

IV

Eu ali na Casa Branca

Minha vida não arrisco

Vou trabalhar numa terra

Que dá com qualquer chuvisco

Voou fazer a plantação

Na Baixada no Arisco.

V

O senhor arranje outro

Que eu vou me retirar

E se houve alguma queixa

Peço pra me desculpar

E se precisar de mim

Pode mandar me chamar.

VI

Mas quero fazer-lhe um pedido

Pra não vender meu cavalo

Não vou chorar com vergonha

Mas estou sentindo um entalo

Se Deus me der condições

Um dia eu venho comprá-lo.

VII

E suspirando dizia:

Minha paixão não se acaba

Ali na Serra do Mel

Campeei naquela aba

Lá do Alto do Mocós

Para a Gruta do Quixaba.

VIII

Do Alto do Zabelê

Até o Tamanduá

Da Baixa da Berduega

À divisa do Jucá

E na Lagoa da Onça

Sempre campeei por lá.

IX

Aí Cláudio, muito triste,

Disse: O que posso fazer?

Vaqueiro igual a Pimenta

Ainda falta nascer

E se já nasceu algum

Morreu antes de crescer.

X

Entregou logo a fazenda

Ao motorista Braulino

Que era de confiança

E um coração genuíno

E o gado a Manoel Lulu

Que também não bate o pino.

XI

Pimenta se despediu

E veio embora pra chã

Levanta de madrugada

Quatro horas da manhã

A hora que ele acordava

Com o grito da cauã.

XII

Sai direto pro terreiro

Se senta lá no batente

Olha para o céu e diz:

Oh, meu Pai Onipotente,

Proteja um pobre vaqueiro

Que da luta está ausente.

XIII

Chama Lêle e lhe diz:

Minha velha, eu não mereço

Todo dia eu desço e subo

Todo dia eu subo e desço

Já cansei da caminhada

Do Arisco pro Cabeço.

XIV

Quantas noites perco o sono

E quando durmo é sonhando

Que estou campeando o gado

Dentro da mata aboiando

Essa saudade malvada

Vai me seguir até quando?

XV

Sonho selando o cavalo

Escuto o som do chocalho

Lembro do café gostoso

E daquele queijo de coalho

Que eu comia todo dia

Antes de ir pro trabalho.

XVI

Parece que estou ouvindo

O barulho da perneira

O apito da cigarra

Na casca da aroeira

Ouço o trupé do cavalo

Às vezes escuto o estalo

Da “bage” da catingueira.

XVII

Peço desculpas aos leitores

E também ao companheiro

Me perdoe, José Pimenta,

Se não fui tão verdadeiro

Mesmo assim quero dizer

Se prepare para ler

A volta do bom vaqueiro.

XVIII

Pra falar de Zé Pimenta

Da saída e do regresso

Como a notícia da volta

Vai causar grande sucesso

Da grande satisfação

Dele e do seu patrão

Falarei no próximo verso.


Autor: JOSELITO FONSECA DE MACEDO, o popular Daxinha

07/11/1970


IMPREVISTO CORRIQUEIRO - Heraldo Lins


 IMPREVISTO CORRIQUEIRO



Vou praticar esporte ao ar livre em Cabaceiras na Paraíba. Dizem que é um dos lugares que menos chove no Brasil. O meu objetivo é levar chuva para a cidade, já que toda vez que coloco os tênis para correr, chove. Chegarei lá e serei aplaudido pela maioria da população. Estou sonhando com a fama. Eu saindo para correr e aquela procissão correndo atrás. As velhinhas sendo levadas nas costas pelos netos. Umas rezando o terço, outras pegando carona em motos. 


O padre e os políticos irão junto. A delegacia fechará as portas para a polícia treinar comigo. O aguaceiro nas estradas carroçáveis dará o charme da lama nas canelas. Depois de duas horas de chuva, irei almoçar com a primeira-dama e assessoras. As atividades culturais da cidade irão me homenagear em praça pública, à noite, claro. Os agricultores começarão os plantios no mesmo dia. A safra de milho e feijão estará garantida. 

    

Os bancos instalarão suas agências para financiar o replantio. Lojas de celulares dentro do novo shopping farão a festa. Muitas empresas se instalarão por lá. Será criado um parque industrial de automóveis movido a energia solar. Um centro de pesquisa avançado será instalado com dinheiro oriundo da criação de esturjão. O caviar produzido por esses peixes será exportado para a Dubai. 


Universidades de medicina utilizando física quântica terão suas aulas iniciadas. O New York Fashion Week será transferido com o novo nome de Cabaceiras Fashion Week. Haverá um jatinho pronto para me transportar para perto das plantações de uva quando precisarem de chuvas setoriais. Nos riachos serão instaladas hidrelétricas.


Cabaceiras será transformada em um grande lago coberto por placas fotovoltaicas. Tudo será modificado devido à prosperidade. A população não terá tanto chão de terra seca para pisar, em compensação poderá residir em iates de luxo, ou escolher fazer suas casas nas paredes das hidrelétricas. 


Por cima do espelho d’água haverá pontes para que eu possa correr e manter os reservatórios cheios. Com a fartura, ninguém correrá junto comigo. Estarão ocupados contando dinheiro. Receberei uma ajuda de custo da prefeitura para continuar correndo. Os mais jovens me conhecerão pelo doido que não para de correr. Pela falta de prestígio, sentirei depressão e não conseguirei nem mais andar. Os reservatórios secarão. Tudo voltará a ser como antes. É melhor guardar os tênis.                

 



Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 05/03/2021 – 09:34

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

sábado, 3 de abril de 2021

O DRAMA DE SANTA CRUZ - Poeta Dinamérico Soares








40 ANOS DA TRAGÉDIA QUE ABALOU O RIO GRANDE DO NORTE

      Tarde de 01 de abril de 1981, imagine se alguém ligasse para você pedindo que deixasse sua casa imediatamente que a cidade iria ser inundada a qualquer instante, naturalmente você entraria em desespero, no entanto se esse pedido fosse feito em uma data específica, 01 de abril (Dia Nacional da Mentira), logo você não acreditaria de imediato ou ficaria em dúvida, mas o que aconteceu foi real a exatos 40 anos em Santa Cruz no Rio Grande do Norte.
      Na tarde daquele dia o telefone toca no gabinete do Prefeito Hildebrando Teixeira de Souza, do outro lado da linha, quem falava era a telefonista Maria de Fátima da Silva do posto telefônico da Telern em Campo Redondo - RN, aflita ela comunica ao prefeito de Santa Cruz que o Açude Mãe – D’água em Campo Redondo estava prestes a se romper, de imediato Hildebrando começa a tomar as providências, colocando carros de som nas ruas e pedindo a população que saíssem de suas casas e se protegesse   na parte alta da cidade e se possível deixasse Santa Cruz, pois a barragem  Mãe d’água em Campo Redondo distante 25 Km  iria se romper a qualquer momento.
    As chuvas torrenciais não paravam de cair e a barragem se rompe, a população aterrorizada temia pelo inesperado e começa a abandonar suas casas na tentativa de salvar suas próprias vidas. Em três horas as águas chegam a Santa Cruz invadindo e destruindo tudo que se tinha pela frente.
     A catástrofe destruiu mais de 1000 casas por onde a enxurrada passou deixando um rastro de destruição, duas pessoas morreram, 5 mil ficaram desabrigadas, o Estado do Rio Grande do Norte ficou sem luz e água por cinco dias, o governador na época o Dr. Lavoisier Maia decretou estado de calamidade pública em toda região do Trairi, a correnteza ainda percorreu 80 Km e atingiu outros quatro Municípios.
     Mas graças a atitude da telefonista Maria de Fátima da Silva em comunicar com antecedência a iminente tragédia  muitas vidas foram salvas e ela se tornou a heroína do Rio Grande do Norte.
     Quando este fato aconteceu o Poeta cuiteense Dinamérico Soares descreveu em versos a referida tragédia. Abaixo o relato poético da catástrofe que abalou o Rio Grande do Norte.
                                                                                                                         Eliel Soares – Historiador   
        
O  DRAMA  DE  SANTA  CRUZ

Peço ao Senhor das alturas                                             
Um pouco de sua luz                                                         
Para assim eu descrever                                                 
Pois só ele me conduz                                                      
O drama das invernadas                                                                        
E das tristezas causadas                                                  
Na cidade de  Santa Cruz.
                                                
Reinava perfeita calma                                                    
Naquela boa cidade
As chuvas iam caindo                                                        
Em tom de prosperidade                                               
Todos estavam contentes                                                
Plantando suas sementes                                                
Na maior tranquilidade. 
                                                 
Parecia que até                                                                
Santa Rita padroeira                                                     
Tinha atendido aos pedidos                                            
Daquela hospitaleira                                                     
Gente simples, fervorosa,                                               
Que tanto lhe davam rosas                                             
Com a fé verdadeira.
                                                       
Assim o verde brilhava                                                 
Nos campos, na plantação                                           
Tudo agora era esperança                                            
Mudado estava o sertão                                               
E as águas sempre correndo                                        
Os açudes se enchendo                                                   
Sanando a situação.

Era chuva em abundância                                                 
Chega dava gosto olhar                                                     
Os enormes sangradores                                              
Tão grossos a esborrar                                                      
Cada vez mais se enchendo                                          
Os açudes do lugar.                                                         
                                                                                             
Os maiores e mais fortes
Além de muito se encher                                               
Iam recebendo outros                                                        
Que deixavam de viver,                                                     
Paredes foram trincando                                                     
E os donos se lastimando                                                
Sem saber o que fazer.
                                                           
Faça juízo, portanto                                                          
Do quadro de aflição                                                      
Todos os filhos deixando                                             
Sua cidade-torrão                                                           
Que brevemente seria                                                   
Um resto, uma lama fria                                                    
com a grande destruição.
                                                
E assim a metros de altura                                              
Ouve a total invasão                                                        
No “ paraíso”, este bairro                                              
Foi grande a demolição                                                   
Mil e tantos outras casas                                                 
Caíram feitas torrão.                                                         
                                                                                               
Objetos de mil tipos
Se foram na inundação                                                     
Homens que deitaram ricos                                           
Acordaram sem tostão                                                     
Foi-se as pobres taperinhas                                                
Das gentes tão pobrezinhas                                              
Também foi as do barão.                                                 
                                                                                             
A turma de uma “C – 10”
que trilhavam sem saber                                                    
Na ponte se liquidou
um pode se socorrer                                                           
Pendurado num coqueiro
A noite, o tempo inteiro
Resfriado a padecer.

Vendo a hora o coqueiro
Cair e ele morrer,
Pois logo dentro do Rio
Isto foi acontecer
O coqueiro balançava
For socorro ele gritava
Sem ninguém aparecer.
                                                                                                
Disseram os mais antigos
Nunca viram inverno igual
Pois assombrava a todos
Algo estava desigual
Os cientistas falharam                           
Isto muito comentaram
Para mudança total.

O maior pavor seria
O velho açude “ Mãe D’água”      
Vizinho a campo redondo
Quase seis légua de água
Se arrombasse seria
A mais horrível agonia
Clamor, morte, e muita mágoa.

Pois inundar Santa Cruz
Era sua solução
Desaguava em outros dois
Açudes da região
E com o rio completava
A calamidade brava
De extravasar coração.

Agora escutam leitores
O lado II da história
O ano 81 se encravou na memória
Do povo do Trairi
Ficou as marcas ali
Duma invernada sem glória.

Foi justamente senhores
O que ali sucedeu
O forte açude “Mãe D’água”
As suas forças perdeu
E aos turbilhões soluçando
As águas foram secando
 E seu rumo percorreu.

Antevendo o tal perigo
Ligaram prá Santa Cruz
Que o povo se retirasse
Pelo nome de Jesus,
O povo então desertou
Enquanto apagou-se a luz.
           
Mil e duzentas famílias
Perderam seus bens, seu pão
Uns perderam armazéns
Avaliado em milhão
Enquanto em um talhado
Zé disse que foi achado
Uma porca e um barrão.

Mas graças a Hidelbrando
Que é um Prefeito padrão
E dos estados vizinhos
A imensa coalisão,
A todo Rio Grande do Norte
Com fé, esperança e sorte
Triunfará nosso irmão.
                                                           
Dá pena ver o destroço
Parece o fim de uma guerra
Coitada de Santa Cruz
Tem mais cruz em sua terra
Só a cruz de nosso Pai
A livrará  deste ai
Pondo o braço em sua serra.
                                               
                             Cuité – PB /1981.
            Autor: Dinamérico Soares do Nascimento
                          Acervo:  Eliel  Soares





MISTÉRIOS DA MEIA NOITE - Heraldo Lins

 


MISTÉRIOS DA MEIA NOITE

Arrumar o quarto do filho morto era tarefa árdua para dona Eugênia. Ela, aos sábados, olhava as fotos, chorava e fechava-se. O quarto permanecia organizado, mas suas ideias, não. Os parentes sempre comentavam que o menino não se criaria. Na família dos duros, morrer antes dos cem anos era uma anomalia. Dona Eugênia, aos cento e doze, não se consolava por ter perdido Tonheca, com noventa. Tão jovem e tão cheio de vida. Apesar de ser dos duros, Tonheca era mole por natureza. Nunca foi premiado nem em rifa de jogo do bicho. Na escola os meninos jogavam giz na professora, ele era o acusado. Um santo de índole boa. Quando em casa faziam doce, ele mexia e lambia a caçarola, não necessariamente nessa ordem. Claro que no outro dia o doce açucarava, mas isso não importava.

Ninguém o chamava para jogar bola. Era gol contra na certa. Além de tocar sanfona, ele compunha. Suas canções eram misturadas. A primeira parte um baião, no meio um rock e terminava em frevo. Todos gostavam dele, menos das suas músicas. Até seu Cipriano pedia para Tonheca desembrulhar os docinhos. O velho nunca aprendera a tirar o papel. Ele também vigiava para evitar que pulassem o muro e roubassem os ovos de seu Cipriano, única fonte de renda do desvalido. 

Quando era contratado para tocar, seu repertório composto por duas ou três músicas fazia a festa rolar até ao amanhecer. Na cidadezinha, Tonheca batia o sino, contava mentiras e ganhava o campeonato das bananas. Cada primeiro domingo do mês, juntavam-se em frente à matriz, e em uma grandiosa mesa eram depositadas bananas. Cinco minutos para quem comer mais bananas. Tonheca ganhava todas. A técnica de engolir sem mastigar fazia dele uma estrela em ascensão. Invictor, nas últimas disputas a comissão organizadora não aceitou sua inscrição. Acredita-se que morreu de desgosto por não poder comer mais bananas de graça. Seu apetite insaciável fazia dele motivo para apostas. Apesar disso, era magro.

Diziam que ele jamais dormia, apenas cochilava em pé. Andava rodeado de cães. Nem dele eram. Bastava Tonheca passar, para os cães o acompanharem. Diziam também que tinha parte com satanás. Nas noites enluaradas, desaparecia junto com a matilha. Nos cafundós das serras latidos e uivos deixavam todos em casa. Ninguém saia nem para ir à missa. No outro dia suas roupas rasgadas lhe conferiam lendas. Alguém doava novas até a próxima lua. Pela sua bondade os citadinos não o temiam. Pelo contrário. Sentiam-se protegidos. Tonheca sempre estava antecipando-se às catástrofes. Todos saíram da cidade quando ele ordenou, poucas horas antes da barragem se romper. 

O mesmo carisma com os animais, ele tinha com os humanos. Quando havia uma rusga na sala de sinuca, ao chegar os jogadores voltavam à paz anterior. Passava pouco tempo em cada lugar. Não tinha trabalho fixo. Se alguém o contratava, o serviço estava pronto antes do combinado. Ninguém sabia como ele fazia cada tarefa. Se o viam fazer não se recordavam. Em uma dessas noites enluaradas, desapareceu, lembra dona Eugênia.    



          

Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 25/02/2021 – 06:12

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

sexta-feira, 2 de abril de 2021

JAYME OVALLE, O MITO - Diógenes da Cunha Lima

 



JAYME OVALLE, O MITO

Diógenes da Cunha Lima

      

         É difícil acreditar que ele teve existência real. De escassa poesia, exerceu influência sobre Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes; compositor de bela e diminuta obra musical, poucas vezes conclusivo, exerceu influência sobre Villa-Lobos; medíocre desenhista de letras, encantou Di Cavalcanti; vivendo a irrealidade, tornou-se Germano, personagem de Fernando Sabino em “O Encontro Marcado”.  

Estimulou brasilidade a participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Mário de Andrade declarou que o considerava maravilha, extraordinário, disse que, se pudesse escolher, seria Jayme Ovalle. Boêmio, de profundas amizades, era um parceiro do imprevisível. Paraense, estudara piano, bandolim, violão, com a irmã, foi para o Rio de Janeiro e é um vivente das noites. Bebia e cantava na Lapa sob aplauso. Lá, as mulheres noturnas são as “noivas” de Ovalle.

Era tio e padrinho da linda e voluntariosa Yedda, mulher do poeta Augusto Frederico Schmidt, em cuja casa fazia apresentações para intelectuais brasileiros.

O potiguar Homero Homem definiu-o como o carro-chefe do imprevisto humano. Oriano de Almeida interpretou, ao piano, com a sua natural criatividade, o “Azulão”. Manoel Bandeira, que integrou a música com letra, afirmou que bastaria essa composição para imortalizar Ovalle.

Azulão seria o aumentativo do azul, diáfano ilimitado poderia refletir a vida surreal do compositor.

Quase tudo que se sabe dele é o que dizem os amigos. Dante Milano afirma que “tudo que ele fazia era prodigioso, mas não se dava ao trabalho de realizar, não podia, não tinha tempo”. A autobiografia ovalleana não passou do título: “São Sujo”, que veio nominar a insuperável pesquisa biográfica do escritor Humberto Werneck.

Ovalle era católico entusiasmado. A Bíblia, sua inspiração. Sobre rico exemplar garatujava poemas. E, logo, discutia com Deus. A morte, sua preocupação constante, passou a ser tema dos seus amigos. Vinícius de Moraes escreveu a “Última Viagem de Jayme Ovalle”. Em Roma, levado pela Morte às catacumbas, ele batucou com as caveiras. Depois, ambos - ele e a Morte - saem de porre.

Tudo nele era inimaginável, tudo com ele era possível. A artista Luz del Fuego exibia-se em palco “vestida” com uma enorme serpente. Quando resolveu viajar confiou a Ovalle a tarefa de tomar conta da cobra.

A única mulher que verdadeiramente o conheceu, sua esposa, a americana Virginia Peckham, qualificou-o: “Ele era um sujeito estranho. Boníssimo. Muito infantil. Provavelmente, um santo”.

Álvaro Moreyra sabia muito, e diz que ele veio de uma estrela. As criaturas e as coisas tornavam-se, junto de Ovalle, belas e boas. Tão misterioso, tão claro, água do céu, pássaro de Deus, flor da eternidade. 



 

Diógenes da Cunha Lima (poeta, prosador e compositor) é advogado e presidente da ANL (Academia Norte-rio-grandense de Letras). Alguns de seus livros: “Câmara Cascudo - Um Brasileiro Feliz”, “Instrumento Dúctil”, “Corpo Breve”, “Os Pássaros da Memória”; “Livro das Respostas” (em face do “Libro de las preguntas”, de Pablo Neruda); “A Memória das Cores”; “Memória das Águas”; “O Magnífico”; “A Avó e o Disco Voador” (infantil). 

Foi Presidente da FJA, Secretário de Estado; Consultor Geral do Estado; Reitor da UFRN; Presidente do CRUB. Atualmente, dirige o seu Escritório de Advocacia e preside a ANL (Academia de Letras). Alguns de seus livros: “Câmara Cascudo - Um Brasileiro Feliz”, “Instrumento Dúctil”, “Corpo Breve”, “Os Pássaros da Memória”; “Livro das Respostas” (em face do “Libro de las preguntas”, de Pablo Neruda); “A Memória das Cores”; “Memória das Águas”; “O Magnífico”; “A Avó e o Disco Voador” (infantil).

SÍNDROME DE LOCKDOWN - Heraldo Lins

 


SÍNDROME DE LOCKDOWN 



Foi unânime a opinião de impedir o movimento de pessoas e cargas. Eu estava achando bom demais esse tal de lockdown. Não precisava mais me movimentar e nem carregar peso. A minha “personal trainer” eu havia dispensado. 


Ao permanecer trancado, fiquei fuçando notícias científicas. Li que quanto mais movimento, mais o cérebro se expande. Depois dessa leitura fiquei com medo que meu cérebro ficasse do tamanho de uma azeitona, como acontece com o bicho preguiça. Gosto da filosofia desse preguiçoso, mas prefiro expandir meu cérebro. Pelos conceitos apresentados na literatura científica um exclui o outro. O jeito foi tirar par ou ímpar comigo mesmo, e a busca pela genialidade ganhou.


Agora tenho que suar a camisa para me transformar em um Leonardo da Vinci. Eu que sempre acreditei na quantidade fixa dos neurônios, vou ter que trabalhar para aumentá-los. Acordar cedo é uma das condições para chegar a esse objetivo. Vou planejar direitinho minhas ações saindo correndo para o banheiro quando acordar de madrugada. Vou almoçar pulando. 


O banho nem se fala, isso eu já faço cantando. Não sei se é impressão minha, mas só em falar já me sinto inteligente. Estou sentindo como se minha cabeça fosse um balão enchendo. Enquanto penso balanço as pernas e olho de lado. Não posso deixar meu corpo em repouso. Vou estudar um jeito de dormir andando. Enquanto escrevo me levanto de vez em quando para fazer flexões. 


Preciso voltar a colocar as mãos no chão e os pés na parede como antigamente. Caso não consiga ficar de ponta cabeça com meus cento e vinte quilos, colocarei almofada na cabeça para, caso os braços não suportem o peso, caia no macio. Como eu sou muito esquecido, possa ser que a almofada seja deixada de lado no momento da minha ação. A cabeça caindo a uma altura de meio metro, e sendo empurrada pelos quilogramas acima registrados, com certeza, se expandirá. O sangue escorrendo será apenas mais um detalhe dessa luta.          




Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 18/03/2021 – 08:53

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

terça-feira, 30 de março de 2021

DESPEDIDA - Poeta Daxinha

 




DESPEDIDA


I


Me despeço da fazenda

Com o peito amargurado

Não quero ser o culpado

É bom que o ouvinte entenda

Apesar de sua renda

Ser um pouco resumida

Mas parte de minha vida

Foi a ela dedicada

Pra mudar sem sentir nada

É uma farsa descabida.

II

Quero fazer um resumo

Da fazenda Boa Vista

Mostrar meu ponto de vista

E porque não me acostumo

Sua direção, seu rumo,

Não esquecerei jamais

Do lugar onde meus pais

Me carregaram nos braços

Se dei meus primeiros passos

Em Boa Vista do Cais.


III

Vejo os negócios fluindo

Já nos instantes finais

E eu não aguento mais

Fingir que não estou sentindo

Com esta separação

Até o meu coração

Também está dividido

Encara esta consequência

Sem esboçar resistência

Mas vai partir constrangido.


IV

A tristeza apoderou-se

Do velho peito cansado

E, pra ser mais castigado,

Veio a saudade, arranchou-se;

O destino encarregou-se

E fez a transformação

Vou dosar a emoção

E a pressão arterial

Vou dizer que estou legal

Mesmo contra o coração.


V

Começo a imaginar

No momento da partida

Sinto a alma entristecida

Me pedindo pra ficar

E na entrega das chaves?

Suportarei os entraves

Ou agirei com cautela?

Vai ser triste a despedida

Sair da terra querida

E da casa eu morei nela.

VI

A tristeza agora invade

O meu pobre coração

Porém a única opção

É ir morar na cidade

Mas quando apertar a saudade

Finjo que vou caminhar

Sabe onde vou parar?

Bem no cabeço da serra

De onde avisto essa terra

Depois o jeito é chorar.


Autor: JOSELITO FONSECA DE MACEDO, vulgo DAXINHA.


10/08/2005.

ELA FALA ATÉ PELOS OUVIDOS - Heraldo Lins

 


ELA FALA ATÉ PELOS OUVIDOS


A compulsiva disse-me: vamos apostar como eu tenho dez panelas de pressão lá em casa? Tudo bem! Respondi-lhe. Olhou para o marido e continuou: vamos comprar mais uma de catorze litros, não é amor? Nosso sonho será realizado no próximo mês! Ele entrega todo o salário para ver a mulher feliz... comprando. A última crise do casal se deu por falta de folga no cartão de crédito para pedir uma pizza. Na semana do aniversário de casamento ela não conteve as lágrimas pela falta de uma de muçarela. Quando viaja, o mês inteiro é falando da visita que fez ao interior, com tanta ênfase, que parece ter ido fazer um cruzeiro no mar do Caribe. Os colegas de trabalho fogem do blá blá dela. Tudo é motivo para comentários. O cafezinho servido na repartição não chega nem perto ao da tia dela saboreado no sítio de quatro hectares que ela chama de fazenda.


Entre sapatos e sandálias ela possui cem pares. Não sei onde encontra tantas panelas e sapatos para comprarem. O resultado das panelas dá para ser notado na cintura estufada. Ambos adoram gente gorda. A cultura da idade média prevalece naquele ambiente familiar. Cuscuz, ovos e pirão faz, misturado com pão, parte da dieta saudável, segundo o casal. 


Além de compulsiva ela também é amostrada. Tudo dela é o melhor, e até nas doenças ela encontra uma forma de ser superior. Se alguém se queixa de uma dor nas costas ela diz que sofre de escoliose e que para poder dormir bem usa o cimento frio da sala. Dói-lhe todo o corpo. Basta falar de algo que ela começa os discursos intermináveis. Consegue dar prosseguimento a um simples bom dia. Se alguém entra no elevador ela desce com a pessoa e sai acompanhando-a dando asas ao assunto. 


Já tentou se internar várias vezes com covid-19, mesmo diante dos testes negativos. Adora estar na moda, e nem usa máscara visando pegar a doença. Mas não tem jeito. Está saudável. Mas isso não é motivo para ela desanimar. Fica registrando quantas mortes aconteceram. Quando alguém da família é contaminado ela espalha a notícia com mais de mil. Tudo ela sabe. Não sei onde consegue tanta informação. 


Um dia desses a irmã dela, casada comigo, passaram quatro horas ao telefone. Quando terminaram o bate papo perguntei-lhe quais as novidades. Recebi como resposta: nenhuma... era Beatriz querendo saber se eu havia comprado queijo na promoção.  



Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 25/03/2021 –14:33

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

sábado, 27 de março de 2021

A PALAVRA... - José Luz



A PALAVRA...

 

A palavra riqueza não é rica.

A palavra pobre não é pobre.

A palavra nobreza não é nobre.

A palavra beleza não é bela.

A palavra céu não é azul.

A palavra inferno não é quente.

A palavra mar não é profunda.

A palavra noite não é escura.

A palavra cor é incolor.

A palavra perfume é sem odor.

A palavra mensagem não é texto.

A palavra brilho não é luz.

A palavra coração não pulsa.

A palavra mão não afaga.

A palavra arma não fere.

A palavra pão não alimenta.

A palavra água não mata a sede.

A palavra é apenas uma palavra.

Apenas.

A palavra vive apenas no discurso dos sujeitos

                                                                    reais

                                                                       virtuais

                                                                          sociais.

 

                                                                                              (J. Luz. Natal, 2014)


Adquira o livro

 

ADRENALINA PROGRAMADA - Heraldo Lins

 


ADRENALINA PROGRAMADA  



Rendi-me ao BBB 21. Não sabia do que se tratava, mas de tanto ouvir falar resolvi me inteirar. Achei engraçado ver pessoas enjauladas e estimuladas a brigar entre si. Comparei com as arenas romanas, só que não vi sangue e nem escravo lutando pela liberdade. A ideia do pão e circo permanece a mesma, só que os gladiadores trocaram a espada por palavras grosseiras. 


Deparei-me por cinco minutos vendo cenas ensaiadas e editadas. O buraco da fechadura agora é minha TV. Não nego que gostava de “brechar”. Lá em casa minha mãe passava a chave no quarto da empregada e colocava o guarda roupa na porta que abria para o meu. Matilde arrastava o móvel e entrava. Muito semelhante a esse programa. 


Com essa turma, quem arrasta o “guarda roupa”, são os patrocinadores, editores e produtores. A estratégia é colocar a convivência íntima no buraco da fechadura de controle remoto. Cada telespectador se identifica com uma personagem, toma partido, vota em um resultado já definido, chora e compra o que ela mostra em cena. 


Certo dia, presenciando dois desportistas discutindo que o seu time de futebol era o melhor, perguntei-lhes se sabiam que os resultados eram manipulados. Eles disseram que não tinha importância, o que contava era a adrenalina em torcer pelo time querido. 


O mesmo deve acontecer com os telespectadores. Nada acrescentará na vida sofrida em que estão metidos, mas optam em se entreter assistindo-o. Os grilhões da mídia enlaçam cada um a um só tempo. É a mágica do colorido, do programa aparentemente inocente que transforma telespectador em consumidor da noite para o dia. Se a televisão pifar, deve-se comprar outra para não perder os próximos episódios. Essas janelas brilhantes são fabricadas com a vida útil programada de acordo com o calendário dos acontecimentos. Perto da copa do mundo muitas pifam. O inocente sem querer perder os jogos, é levado a comprar o mais novo modelo. Enquanto isso o imperador fica contabilizando os lucros adquiridos com essa nova modalidade de poder.      

 


               

Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 23/03/2021 – 15:20

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

sexta-feira, 26 de março de 2021

TROVAS INSPIRADAS EM ESCADA DE PAWEL

 

Obra de Pawel Kuczynski

1
Pessoas cujos intentos
 só visam comodidades
findam semeando ventos
e colhendo tempestades.
Gilberto Cardoso PB e RN
2
A falta de inteligência
várias tragédias provoca.
É o motivo da indigência
que a muita gente sufoca.
Gilberto Cardoso PB e RN
3
Por sua estreita visão
e por não ter paciência,
buscou fácil solução
e frustrou toda a existência.
Gilberto Cardoso PB e RN
4
Imerso em angústia imensa,
do que disse a mãe não esquece:
"Quando a cabeça não pensa,
nosso corpo é quem padece."
Gilberto Cardoso PB e RN
5
Há quem só perceba lenha
na floresta exuberante
e pouco ou nada obtenha
por ter visão limitante.
Gilberto Cardoso PB e RN
6
 Quem não pensa a longo prazo
e age impulsivamente
traz à própria vida atraso,
colhe o pior mais à frente.
Gilberto Cardoso PB e RN
7
Se sufocas o real
em virtuais aventuras,
perdes o potencial
de galgar grandes alturas.
Gilberto Cardoso PB e RN
8
Quem se entrega ao comodismo
e ama a ociosidade,
terminará no ostracismo,
vive sem profundidade.
Gilberto Cardoso PB e RN
9
Não desperdice os talentos,
 pois assim destina a vida
a sucessivos tormentos
em um beco sem saída.
Gilberto Cardoso PB e RN
10
Viva de forma ordenada
fugindo da displicência,
pois sua mente é uma escada
para o êxito da existência.
Gilberto Cardoso PB e RN
11
Pelo tanto que sofri,
pelo tanto que chorei,
já nem sei se o que vivi,
vale os sonhos que sonhei...
Melanialudwig
12
Se hoje destróis tua escada,
como subirás na vida?
Acabas mesmo sem nada,
o fogo, brasa perdida.
(José de Castro)
13
O sofrimento foi tanto, 
meus dias tão enfadonhos, 
que as lágrimas do meu pranto 
afogam todos os sonhos...
Elias Pescador









TECNOLOGIA E PRIMITIVISMO - Heraldo Lins



 TECNOLOGIA E PRIMITIVISMO


Baixei um aplicativo que me permite escrever deitado. Quando estou sem inspiração, aproveito e durmo. Acordado e olhando para o teto, fico com a impressão de que estou em frente a uma parede, um colchão puxando minhas costas, e os pés, flutuando. Se estou entediado, aperto o travesseiro na cara até faltar o fôlego. Amanhã vou amarrar uma corrente nos pés e me pendurar de ponta cabeça para experimentar a sensação. Tudo é válido em busca de novas inspirações. Tenho consciência de que isso já foi feito por Nero, mas como não posso incendiar Roma, vou me adaptando.


Essa ideia de procurar o aplicativo surgiu quando a empresa que me havia bloqueado no WhatsApp me desbloqueou. Eu estava usando o mesmo número para digitar meus rascunhos. Ao receber a pergunta: quem é? Fugi para o aplicativo e me vinguei dela, bloqueando-a.


Estou satisfeitíssimo com essa forma de escrever, mesmo sendo desconfiado com as novas invenções. Antigamente eu não queria aprender a digitar porque achava que a ciência da computação queria me fazer escravo da tecnologia. Hoje não acho, tenho certeza. Sou escravo do virtual. Em casa ligo para a mulher perguntando se o almoço está pronto. Ando na rua digitando, e quando esqueço o celular em casa fico apertando os dedos no corpo. 


Se alguém tem o vício de gravar mensagens no banheiro, não sou eu. Recebi um pedido de Adelaide via whatsApp. No início achei que ela estava sendo abduzida, seduzida ou assaltada. Não, foi engano. Era apenas sons do ambiente. Em seguida eu transcrevo um pouco da mensagem de voz que chegou ao meu celular: “olá Heraldo! você pode passar... aqui... Puuuuuuuummm...  hoje?” Respondi-lhe:  puuuuummmmm não!




Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 02/03/2021 – 11:50

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

Luz x Obscuridade - Goretti Borges

 



Luz x Obscuridade

Por Goretti Borges

 

A luz é o guia que nos conduz. Acender ou apagar essa chama é uma escolha. Tropeçar e cair faz parte da caminhada, permanecer no chão é opção. Buscar esta luz e a clareza dos fatos é o que se apresenta, nesse momento, de mais sensato e urgente. O que teria mais sentido para todos nós senão a vida?

Habitar esse planeta, nesse instante, está acima de tudo o mais! É incompreensível o apego material e principalmente se está associado ao desprezo à vida, sua e de outrem. Igualmente incompreensível é o seguir correntes ideológicas negacionistas, obscurantistas, medievais. Tais ideologias com propósitos de subtrair a liberdade e o crescimento do ser em todos os seus aspectos e possibilidades.

Plenos seremos quando formos capazes de separar o joio do trigo e subtrair para além dos dogmatismos a presença da luz, do Divino. Nesse momento, o partido que nos livrará das trevas é o partido da vida, sejamos parte para formar um todo.

A vacina deverá ser uma luta de todos nós, salvará a todos, indistintamente. Assim como a morte, é parceira de todos. Não se iludam: os falsos curandeiros estão todos trancafiados em suas casas, de nada sabem, além de usar a fé das pessoas (fariseus).

A ideologia que precisamos para viver é da cooperação, da ciência e da libertação dos tiranos. Lutemos por vacina para todos, ou seremos cúmplices e teremos igualmente as mãos manchadas de sangue, tal qual o Messias, presidente da nação brasileira.



segunda-feira, 22 de março de 2021

AFASTAMENTO SEXUAL - Heraldo Lins

 


AFASTAMENTO SEXUAL 


Com a pandemia o nível de falsidade diminuiu. Beijos e abraços fingidos foram extintos. Apertos de mão com nojo, também. Sorrisos de plásticos estão em uso só nas Selfies. Com a máscara não dá nem para fingir um sorriso. Sobrou para os olhos transmitir tudo isso. O canto do olho tem que ter uma ruguinha para a pessoa detectar que a outra está sorrindo. E não dá para fingir um brilho no olho. Ou ele brilha ou fica opaco. O olhar para o lado indica que aquela outra pessoa não é bem-vinda. Com a máscara ficou fácil de trabalhar o ventriloquismo ao contrário. O boneco passa a ser a pessoa. 


Todo mal há um bem por trás. No caso do vírus, o bem está na frente, na cara, tampando a boca e o nariz. Esse artefato é motivo para os designers desprenderem tempo para fazer uma máscara chamada 3D e ganharem dinheiro. A pessoa é chique se possui máscaras combinando com a blusa. A que ponto chegamos. É o mesmo que valorizar o papagaio(¹). Os mais ricos teriam um banhado a ouro para se destacarem nas rodas de conversa. Se a moda pega, as pessoas na rua irão carregar, em vez de bolsas, papagaio a tiracolo, além da máscara, é claro. 


Nesse momento de crise existencial causado pelo vírus tudo pode acontecer, inclusive, fazer amor por trás de paredes. Encontrei um empresário da noite dizendo que os clientes sumiram. Para fazê-los voltarem ele está reformando o seu motel com divisórias de materiais finíssimos. As relações sexuais estão acontecendo cada um na sua. Só não é legal para as periguetes que tentarem dar o golpe da barriga. Não vão saber quem é o pai.


Outra coisa que está difícil é praticar a traição. As mulheres estão com medo de desconhecidos. Hoje o medo de ser pega traindo é bem menor do que ser vítima do coronavírus. Se trair não escapa. Agora, se quiser praticar esse esporte tão antigo quanto o casamento, tem que ter camisinha, máscara, álcool gel, atestado de imunidade, e o pior, sem beijos nem abraços. Fica difícil pintar o clima. Os jovens têm que aproveitarem para se casarem logo, porque senão chegam à idade adulta e só lhes restam os quartos de paredes finas.    


 (¹) O papagaio é um recipiente urinário utilizado para coletar a urina de pessoas acamadas e/ou com dificuldade de locomoção.

             


        

Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 08/03/2021 – 14:04

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

domingo, 21 de março de 2021

DESILUSÃO - Poeta Daxinha

 


DESILUSÃO



I

Agora é que estou vendo

Como tenho agido errado

Desde que abandonei

O lugar que fui criado

Até hoje eu não combino

É culpar só o destino

Tem mais cúmplice do seu lado.

II

Encontrei outros suspeitos

Com minha investigação

A cabeça é uma delas

O outro é o coração

Tenho provas incontestáveis

Os três são os responsáveis

Por esta situação.

III

Foram vocês que aceitaram

Que eu deixasse o aconchego

Abandonasse a família

O lazer e o sossego

No auge da mocidade

Pra ir pra outra cidade

Atrás de diabo de emprego!

IV

Era pra eu estar aqui

Lutando como lutava

Comendo feijão macassa

E mocotó de boi com fava

Pra quê eu fui entrar nessa?

Uma tabocada dessa

Há tempos eu não levava!

V

Tudo o que o destino apronta

Tu, cabeça tonta, aceita

E tu, coração de pedra,

Não discorda nem rejeita

A culpa cai sobre os três

E cada um de vocês

Tem atitude suspeita.

VI

Iludiram um pobre moço

E o levaram embora

Judiaram do coitado

Vinte anos lá por fora

Ninguém mais conhece ele

Que diferença daquele

Pra porcaria de agora.

VII

Olhe aí, cabeça tonta,

Nem de longe se parece

Levastes um caboclo forte

Quando é agora aparece

Com este velho cansado

Visivelmente esgotado

Freguês do INPS.

VIII

Levaram um moço saudável

Tão corajoso e disposto

Trouxeram um velho cansado

Cheio de pregas no rosto

Que traz no olhar tristonho

A desilusão de um sonho

Que transformou-se em desgosto.

IX

Neste corpo ainda existe

As marcas da mocidade

Onde um passado brilhante

Foi reduzido à metade

Vítima desta malvadeza

O que plantou foi tristeza

E vive de colher saudade.

X

Não culpo só o destino

Por tudo que ele fez

Cabeça e coração

Culpados foram vocês

Se vier algum castigo

E me perguntarem eu digo

Tem que dividir com os três.

XI

Agora cheguem-se pra ele

Ponham os joelhos no chão

Como reconhecimento

Implorem, peçam perdão,

Provando assim que erraram

Iludiram e estragaram

A vida do cidadão.

XII

Quando a cabeça não pensa

O coração vira ingrato

O destino leva a culpa

De cumprir-se naquele ato

No meu caso, foram vocês,

Por isso eu acho que os três

Precisam pagar o pato.

XIII

Quando novo, a gente pensa

Que nunca, nunca envelhece

Que as forças não diminuem

Que o corpo nunca adoece

Que o coração nunca falha

Mas, por trás desta muralha,

Nem sabe o que acontece.

XIV

Esta é a diferença

Que na vida a gente alcança

Quando a pessoa é jovem

Pensa que aquela sustança

Jamais desaparecerá

E nem que um dia chegará

Essa terrível mudança.

XV

Que os três são responsáveis

Por parte do grande estresse

Cabeça e coração

E o destino acontece

Que esta grande diferença

Velhice, ruga e doença

Quando esse trio não pensa

Aí o corpo padece.


Autor: JOSELITO FONSECA DE MACEDO, o popularíssimo DAXINHA.

17/02/1998.


JOSELITO FONSECA DE MACEDO, mais conhecido como poeta Daxinha, nasceu em Cuité/PB, em 14/08/1938. Filho de José Adelino de Macedo e Maria Marieta da Fonseca, nasceu na zona rural de Cuité, mais precisamente no Sítio Boa Vista do Cais, popularmente conhecido como Sítio Pelado. Aos 20 anos, viajou para os estados de Minas Gerais e Goiás, onde trabalhou como agricultor e vaqueiro. Mas foi no estado de São Paulo que se fixou, trabalhando como metalúrgico nas principais usinas siderúrgicas da região do ABC paulista. Retorna à Paraíba em 1985, retomando suas funções de agricultor. Sempre gostou de poesia, sobretudo, do gênero cordel no qual, ainda menino, já escrevia seus primeiros versos. O retorno a Cuité aproximou-o ainda mais de suas raízes, fazendo-o mergulhar com mais fervor no mundo da poesia. Sempre convidado a se apresentar em eventos culturais da cidade, seus versos focavam, principalmente, no cotidiano das pessoas simples – como ele mesmo o era. Tem como obras publicadas um CD de poesias intitulado: “Poeta Daxinha – Um Amante da Poesia”, o cordel “O batente de pau do casarão” e uma participação póstuma no livro “APOESC em Prosa e Verso”, do também poeta Gilberto Cardoso dos Santos. Casado, pai, avô e bisavô, o poeta Daxinha faleceu em 04/05/2016, em Campina Grande/PB, vítima de insuficiência cardiorrespiratória. (Jaci Azevedo, filha)