APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

PSEUDO-REALIDADE - Lindonete Câmara



PSEUDO-REALIDADE

         Estamos vivendo uma era narcisista e nela estão inseridas redes sociais que veiculam as suas atitudes, sejam elas coletivas ou individuais. É preocupante enxergar como as pessoas se deixam levar por notícias e imagens falsas, a exemplo das fake news.
Quantas mentiras políticas disseminadas nos últimos dias, quantas inverdades pessoais digitadas por um ego aparentemente forte e inflado, quantos desejos de espalharem perfeição, onde bem sabemos que a perfeição não existe. Quantas promessas mirabolantes circulam por coachs convidando pessoas para uma transformação rápida num breve espaço de tempo, quando sabemos que o inconsciente é apenas uma ponta do iceberg.
Quanta gente lendo autoajuda com intuito de impressionar e expressar ao mundo  que vive uma alma só de maravilhas. Quanta enganação de hipnotistas falsos que ludibriam as emoções alheias. Quanta gente repassa um ar eterno de felicidade que só é real nas telas da tecnologia. Quantos elogios exacerbados, divinos e virtuais são feitos aos amigos, aos familiares e a si, que foge da realidade cotidiana e humana. Quanta expressão de um self ideal e não real, sem a demonstração dos pés no chão. Quantas mensagens religiosas e contraditórias, que manipulam vidas sem nenhuma piedade.
Quanta exposição das desgraças humanas através de terríveis fotografias sem a menor empatia pelo o outro e pela família em sofrimento. Quanto exibicionismo corporal e falta de maturidade com objetivo de chamar atenção na internet por algum motivo. Quanta ridicularização comportamental devido à falta de reconhecimento para uma real e imprescindível mudança.
Quanta demonstração de impecabilidade familiar em todos os aspectos, indicando que há mitificação nas palavras. Quantos delírios inseridos em textos de que o céu já é plenitude na terra. Quantas interrogações, quantos mecanismos de defesa, quantas crenças, quantas ilusões de óptica, quanta euforia, quantas mentiras, quanta aparência, quantas fugas existenciais, quantas necessidades pessoais, quanta falta de fé, quanta frieza humana, quanto falso preenchimento, quanta necessidade de ajuda psíquica, quanto vazio existencial.
Cuidemos de nossa saúde mental!

Lindonete Câmara. Em, 11/11/2018.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Carta à governadora Fátima e resposta


Carta aberta à governadora
Excelentíssima governadora Fátima Bezerra:
Escrevo-lhe estas linhas para parabenizá-la por algumas coisas bem específicas e para falar do especial significado que a senhora tem para, no mínimo, quase 60% dos norte-rio-grandenses, neste momento tão delicado para a democracia brasileira. 
Parabenizo-a, primeiramente, por ter sido eleita com tão expressiva quantidade de votos, tornando-se a mais votada da história do RN. Alegro-me, também, pelo fato de ser quem é: migrante, mulher, negra, educadora, proveniente das classes menos favorecidas, por trazer em sua fala o nosso sotaque... Isso a torna uma efetiva representante não apenas do estado, mas de diversos segmentos sociais pouco favorecidos. 
Emocionei-me muito quando constatei que, ainda no exercício do mandato de senadora, tomou ontem a ética decisão de votar contra o abusivo aumento dado ao STF. Aparentemente não foi uma decisão fácil nem de caráter estritamente partidário porque, para minha decepção, houve membros do PT que votaram a favor. É com temor e alegria que celebro esta sua última ação como senadora, pois sei que isso poderá ser usado contra sua pessoa, como ocorreu com Dilma. 
Antes disso, a senhora tomou outra decisão admirável, a de não morar na residência destinada aos governadores. Isso significará o não usufruto de regalias a que teria legalmente direito, pois preferiu continuar a viver com sua irmã em Ponta-Negra, sem se afastar do estilo de vida ora mantido, bem diferente da vida glamorosa que passaria a ter com o aval da justiça. Sua renúncia tem grande valor simbólico e real, pois redundará em significativa economia para a nossa sofrida gente.
É evidente sua preocupação com o funcionalismo público - tão maltratado -, com a segurança e com a geração de empregos. Confio em seus bons propósitos e espero que se inspire em Ricardo Coutinho, seu conterrâneo, em Camilo Santana, Wellington Dias e Rui Costa, membros de seu partido. Estes estão aí para provar que é possível fazer muito com o pouco quando bem utilizado e que a esquerda não deveria ser tão demonizada como tem sido. 
Fátima, a senhora representa para todos nós uma luz no fim deste túnel escuro em que nosso país se meteu. Bem pior seria nosso estado de ânimo se não a tivéssemos sinalizando como uma fortaleza e um porto seguro no governo do estado. Suas muitas qualidades, como diria o cantor Paulo Sérgio, cobrem seus poucos defeitos. Sinto-me extremamente feliz por ter sido seu eleitor nos primeiro e segundo turnos deste pleito. 
A senhora é MINHA governadora, com muito orgulho!

Gilberto Cardoso dos Santos, educador e poeta.

Santa Cruz, 08.11.2018


Resposta da governadora:





domingo, 4 de novembro de 2018

ARMADO ATÉ OS DENTES (Gilberto Cardoso dos Santos)

Da espada, prefiro a manga;
De bala, a que traz doçura;
Do revólver, sem o acento,
Revolver toda loucura
De querer me defender;
E os canhões a florescer
Dizendo NÃO à tortura.




terça-feira, 16 de outubro de 2018

A você - Fernanda Cândido

A você
Não falo pelo o poeta em si, Mas sim nas angústias de seus versos. E sinto por aqueles que o guardou para si. Será mesmo que se faz necessário uma lágrima para cada poema, Ou é lá, naquele verso, que encontramos a dor de todo poeta? Verso por verso, o poeta transpassa a sua identidade, E como um todo a própria história. Com toda a transparência consegue sentir até o que não o pertence, Observando histórias e dando vida, a cada uma, em sua poesia Tornando-se assim uma incógnita ao escrever. Fernanda Cândido

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

SUPER-SADIO - Heraldo Lins


SUPER-SADIO
Heraldo Lins – 15,10.2018 -Natal/RN
Na idade adulta, muito trabalhador. Hora marcada para cada trabalho que se propunha a fazer. Estava sempre a pensar no próximo compromisso. Agenda na cabeça. Não esquecia nada. Oito filhos para criar imprimia-lhe um ritmo acelerado em busca do sustento de domingo a domingo. A única festa era trazer refrigerantes para a ninhada que saltitava de alegria ao vê-lo apontar na esquina. Ao chegar à casa havia briga dos menores disputando o colo. Cada um tinha seu tempo para passar com ele e contar-lhe como foi a semana. Se havia denúncia de alguma travessura, com paciência mostrava-lhes o caminho correto a seguir. Para àqueles descendentes ali estava o super-herói. Músculos caracterizando homem familiarizado com o trabalho braçal. 
Denunciado, certa vez foi preso. A inveja o levou à prisão. Não conseguiram prendê-lo por muito tempo. A verdade veio à tona e o soltaram duas horas depois. No dia seguinte Judas passou em frente à sua casa e o cumprimentou. O mesmo respondeu “BOM DIA” como se nada houvesse acontecido. Homem sem rancor. Foi ensinado que o ódio é contra quem carrega. 
Seu objetivo era manter todos estudando tendo o que comer. Mesmo sem saber ler fluentemente, admirava quem sabia. Trouxe todos para a cidade. Lá prosperou. Comprou um sítio e uma casa. Algumas cabeças de gado faziam-lhe a felicidade. De casa para o trabalho. Paciente, ouvia a todos. Seu filho caçula fora assassinado. Tiro na nuca. Meteu-se com coisa ruim. Não derramou uma lágrima. Cada um segue o seu caminho.
- Por falta de conselho não foi, apenas murmurou.
Os dias foram passando. Aglomeraram-se em semanas, meses, anos, décadas empurrando-o para a velhice. Vendo os netos gritando hoje dentro de casa para ele é o seu divertimento. Às vezes se refugia no seu quarto, mas os menores vão perguntar-lhe: _ Vovô! Já tá dormindo?
Mas quem pensa que os compromissos acabaram, ficou enganado. Hoje ainda visita o sítio.Olha os animais. Dá ordens, mas sua preocupação maior está voltada para os dezesseis comprimidos diários que tem que ingerir. Na sua maioria são horários diferentes. Sua atenção está voltada para não esquecê-los. Quando esquece um deles o marcapasso dá sinais de que não está bombeando o sangue. Se esquecer outro as dores na coluna voltam. Se não tomar àquele a infecção urinária invade o sistema. Anda com bastante dificuldade. Mas se perguntarem o que sente, ele diz:
- nada... “tô bonzim”. 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

TRÊS MARTELADAS DE AMIZADE (Gilberto Cardoso dos Santos – gcarsantos@gmail.com)



TRÊS MARTELADAS DE AMIZADE
(Gilberto Cardoso dos Santos – gcarsantos@gmail.com)


Ao baixar a poeira deste pleito,
Tão repleto de ideias divergentes,
Procuremos ser mais resilientes,
Acalmemos a bomba em nosso peito.
Hora é de esquecer o desrespeito,
O assédio, o insulto, a invasão;
De buscar, cultivar e dar perdão;
De expurgar tudo que nos desconforta.
Amizade é o martelo que abre a porta
Emperrada por causa da eleição.

Hora é de fazer o desbloqueio;
De brincar com quem antes se brincava;
De sonhar com quem antes se sonhava,
Mesmo vendo um futuro muito feio;
De abraçar-se com o outro sem receio
E sentir-se na mesma condição.
Não cultive a intriga, a divisão
E nem mire o irmão de cara torta.
Amizade é o martelo que abre a porta
Emperrada por causa da eleição.

Diz o povo que o que não tem remédio
Por si mesmo já está remediado.
Vamos ver a colheita, o resultado,
Se há firmeza na base deste prédio.
Ao findar a paixão, chegar o tédio,
Esperar o retorno da razão.
Muitas perdas, talvez, amputação...
Por enquanto, porém, “Inês é morta”.
Amizade é o martelo que abre a porta
Emperrada por causa da eleição.



Texto inspirado em 

TRÊS MARTELOS DE AMIZADE
Antônio Francisco - Poeta cordelista
Pra nós sermos amigos de verdade,
Precisamos amar e querer bem;
Repartir nosso pão pela metade;
Dividir nossos sonhos com alguém;
Plantar uma semente de amizade
No jardim onde nasce a solidão
E dizer no ouvido do ermitão:
Plante um pé de amizade em sua horta!
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração.

Dê uma volta no carro da amizade,
Puxe 80 km de amor!
Se desvie da estrada do rancor;
Dê banguela descendo a humildade;
Acenda os faróis da caridade;
Ilumine a estrada do irmão;
Baixe o vidro da porta e dê com a mão,
Esse gesto é tão simples mais conforta.
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração.

Se afaste do caos da vaidade;
Nunca pise na beira desse abismo
Nem se mele com a lama do egoísmo;
Beba água da fonte da verdade...
Só assim entraremos na cidade
Batizada com o nome de Sião.
Vamos todos, amigos, dar a mão!
Uma amizade sincera ninguém corta.
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

AS TUAS PALAVRAS

As tuas palavras
Nelson Almeida

Natal, 6 de outubro de 2018

Meu coração trilha caminhos desconhecidos
Navegas em águas profundas
Sem saber que a todo instante
O amor corteja a dor e o desatino
E mesmo sem perceber
A minha alma implora teus afagos
Deseja tuas palavras
Doces e meras palavras.


 

domingo, 30 de setembro de 2018

RESPOSTA EM VERSOS - Gilberto Cardoso dos Santos


RESPOSTA AO POETA E AMIGO Dudu Cama Elástica
que disse:
Você diz que Jesus não existiu
Você diz que não houve criação
Diz que somos fruto da evolução
que de um símio o homem evoluiu
Mas tu cita a Bíblia de modo vil
pra tentar convencer o indeciso
Eu não quero aqui fazer juízo
Mas citar a Bíblia quando convém
É fazer o mal se passar por bem
é dizer que o inferno é o paraíso

Não me leve pro lado pessoal
eu só quero entender seu pensamento
tu criticas a Jesus em um momento
e depois usa a Bíblia como aval
Pra você laicidade é o ideal
O estado longe da religião
mas depois você vem pregar sermão
12 portas, 12 apóstolos, 12 tribos
só se eu fosse um cavalo nos estribos
é que eu ia votar no teu Cirão.

Minha resposta:

Eu não gosto de ataque pessoal,
Pois indica fraqueza de argumento;
Não sou eu quem está em julgamento
Eis-me à parte de um pleito eleitoral.
Jesus Cristo, de forma radical,
Defendeu, deu a mão ao oprimido;
Pedro foi por Jesus repreendido
Quando a orelha do servo decepou.
O messias real nos ensinou:
“Quem com ferro ferir, será ferido.”

Jesus Cristo, o maior dos humanistas,
Forneceu ao seu povo peixe e pão;
Combateu com amor a agressão,
Se opôs aos pastores moralistas.
A história cristã nos deu conquistas
Que tornaram melhor nossa cultura;
Mas pastores de hoje, por usura,
Se tornaram do bem adversários;
No comércio da fé são partidários,
Dizem sim à ganância e à tortura.

É preciso ter regras definidas
Numa luta de boxe, capoeira;
Na política, porém, onde há sujeira,
Muitas faltas têm sido cometidas.
As entranhas vão sendo revolvidas,
Pois a língua, qual faca, vai rasgando.
Opinemos, porém, de modo brando,
Não lançando aos demais fel de amargura;
Feito o Cristo a dizer não à tortura,
Às ideias alheias respeitando.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Antítese - João Maria de Medeiros



Antítese Não há começo sem fim nem há direito sem torto Não há vida sem a morte e não ha vivo sem morto. Não ha escuro sem claro Nem o bom sem o ruim Nâo ha dúvida sem certo e nem há nao sem o sim. Não há céu sem o inferno nem abrigo sem prisão Não há branco sem preto e nem doente sem são. Não ha fundo sem o raso nem o alto sem o baixo nem o falar sem o surdo nem feliz sem cabisbaixo. Há de tudo nesta vida Nossa vida é assim É uma coisa ou outra Desde o começo ao fim. *João Maria de Medeiros é professor, poeta e cronista.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

BOM COMBATE - Lindonete Câmara


               

BOM COMBATE

Cuidado com o atual discurso fascista
Que elimina com arrogância a inteligência
Distribui linguagem intolerante e machista
Trazendo discurso de ódio e de demência.

NÃO a quem defende a nefasta ditadura militar
NÃO a quem incentiva ao linchamento de pessoas
NÃO a quem deseja ao outro torturar
NÃO a quem despreza a luta das mulheres numa boa.

NÃO a quem tem fobia a LGBT e a liberdade
NÃO a quem quer eliminar a juventude negra
NÃO a quem massacra o pobre com desigualdade
NÃO ao insensato que ao semelhante detesta.

NÃO a quem vai retirar os direitos trabalhistas
NÃO a quem persegue os sem-tetos e sem-terras
NÃO a quem caça quilombolas e índios de forma elitista
NÃO a quem rastreia os ribeirinhos como uma fera ferida.

NÃO a quem se arma para uma guerra
NÃO a quem combate violência com crime
NÃO à pessoa  é injusta, sexista e funesta
NÃO ao prepotente que humilha e deprime.

NÃO a quem combate os direitos humanos
NÃO a quem é racista e ri dos nordestinos
NÃO a quem se vê como raça ariana e com vil planos
NÃO a quem confunde o mal com o divino.

NÃO a quem almeja excluir os excluídos
NÃO a quem incita ao desmedido assassinato
NÃO a quem por dentro é mal e destruído
NÃO a quem tem aversão e sangue amargo.


Lindonete Câmara.
15/09/2018.

domingo, 9 de setembro de 2018

SETEMBRO AMARELO



SETEMBRO AMARELO

Campanha de cor iluminada
Representativa da alegria e da vida
Que ajuda prevenir à morte enviesada
Diante da própria e qualquer tentativa.

Esse assunto não deve ser velado
Por razões culturais ou religiosas
Mesmo sendo um diálogo amargo
Desmistifique compreensões pecaminosas.

O suicídio é questão de saúde pública
Não uma transgressão divina
Vai além da leitura bíblica
A dor que a si próprio elimina.

Comportamentos suicidas
Devem desenvolver clara comunicação
Das emoções idas e vindas
E expor os desejos do coração.

Cuidado com os tabus que circulam
São muitos fatores múltiplos determinantes
Não apenas de ordem psíquica como articulam
Ou orgânica sem outro motivo coadjuvante.

O sofrimento mental é algo da existência
E ainda existem graves questões sociais
Que necessitam de ajuda e providência
Para não obtenção de patologias prejudiciais.

Para evitar o suicídio e promover a vida
Há um convite ao questionamento e mudança
Apologia ao sentido de vida sem medida
Numa tomada de decisão com confiança.

Buscar tratamento especializado é a dica
Aos que vivem com terríveis sintomas
Para quem pensa em tirar a própria vida
É bom se aprofundar nos traumas que somam.

Existem muitos fatores de risco
Privação, negligência ou abuso na infância
Violência doméstica, desemprego, alcoolismo
Doenças mentais, isolamento, precisam de vigilância.

Cuidado com a ambivalência em gangorra
Com os desejos simultâneos de morrer e viver
Tudo passa, inclusive a infelicidade e qualquer zorra
Com o apoio emocional para precaver.

A impulsividade também é transitória
Desencadeia-se por eventos negativos
Mas, a durabilidade se dá em poucas horas
Busque questionamentos positivos.

Há quem pense 24 horas nos problemas
De forma drástica e bem rígida
Melhor buscar soluções sem dilemas
Com auxílio e ajuda empática cumprida.

Desespero, insônia e agressividade
São alguns dos sintomas presentes
Elevada ansiedade, desesperança, impulsividade
É preciso com resiliência expressar os sentimentos.

Incontáveis são as causas que aniquilam
E interferem na qualidade de vida
Não ao desfecho trágico e irreversível
Falemos da sobrecarga subjetiva.

Espalhemos essa campanha desmedida
Com um só objetivo
Ajudar a salvar vidas
Que vivem se articulando por algum motivo.


Lindonete Câmara
07/09/2018




quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A IRA DAS LABAREDAS (José da Luz Costa)




A IRA DAS LABAREDAS
José da Luz Costa

Os olhos incrédulos da nação estarreceram-se com a pira gigantesca em que se transformou o Museu Nacional, situado na cidade ainda maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro. Era noite de domingo. Em tempo de eleições. E a pergunta se repetia na televisão: “Que Brasil você quer para o futuro?”

Cada casa deste país continental, que já foi um paraíso tropical, desejou ser um hidrante para lançar um jato de água abundante sobre aquelas implacáveis cortinas de fogo. As chamas famintas engoliam o passado e o presente. Um país tão jovem! que agora precisa se reconhecer nas cinzas deste holocausto, e aprender novas lições junto ao altar da pátria.

Museu Nacional. Um coração palpitante durante duzentos anos, mantendo vivas a história e a cultura. Tradições e traduções. Espelho onde se contemplava os rastros de antepassados, a face de homens e bichos de dias muito antigos. Tesouro de joias raras e caras. Casa real de filhos ilustres. Berço de acalento de nossa soberania e liberdade.

Museu Nacional. Ícone da tragédia. Tragédia anunciada, agoniada. Procura-se o pai da tragédia. Ninguém se apresenta. O edifício desnudo está órfão. Mas, erguido por mãos fortes, manteve-se ereto, com suas paredes imponentes, servindo de urna para receber as cinzas de todos os seres que ali habitaram ao longo das estações...

Museu Nacional. A última morada de Luzia. Uma jovem mulher que esperou onze mil anos para deixar as brenhas de uma caverna nas Minas Gerais e fixar residência num palácio real. Onde estão seus inquisidores? Sua alma ainda lança gritos dilacerantes pelos ares. Quem acendeu essa fogueira, que devorou o sossego de sua eternidade?

Museu Nacional. O filme mais triste exibido em tempo real para todo o país. Cadê os seus protagonistas? Encontram-se apenas dissimulados antagonistas. Agora, nestes dias de luto, eles ressurgem como salvadores, doadores, atores. São adeptos da famigerada filosofia do atraso. Ah! se tivesses a sorte das catedrais, dos palácios da justiça e das mansões parlamentares!...

Museu Nacional. O fogo que te devorou continua ardendo e nos inflamando por dentro. Um fogo que queima a nossa vergonha diante do mundo. Um fogo que enfumaça a nossa volátil vaidade. Um fogo que assusta as nossas crianças. Um fogo que seguirá incinerando a nossa esperança...

Museu Nacional. Mantenha-se firme e forte. Seja o símbolo de resistência deste Brasil gigante pela própria natureza. Mas faça-o levantar-se desse berço já não mais esplêndido. Faça soprar um novo vento Brasil adentro. Convide de volta seus visitantes, estudiosos, pesquisadores e admiradores.

E que os céus abrandem sua ira e aceitem que cada brasileiro seja um depositário das memórias nacionais. Pois, o esquecimento é o coveiro da história. E será mais uma tragédia permitir que o deszelo e o descaso lancem suas labaredas sobre nossa sorte. Melhor seria suplicar ao destino que cavasse a nossa derradeira alcova, sete palmos abaixo do solo pátrio.

Oh minha pátria amada! Não quero para ti a profecia apocalíptica de Ignácio de Loyola Brandão, no título de seu mais novo romance: “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela”.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

POR DEVER DE LEITOR - Zé da Luz


POR DEVER DE LEITOR (José da Luz Costa)

Quando se vive no mundo dos livros, ninguém escapa ao fascínio das palavras.
A linguagem flexibiliza o tempo e neutraliza a distância espacial. A linguagem veste e reveste e desveste os sentimentos humanos.
Antes, porém, que eu mude a direção e a intenção deste breve texto, vou me fixar no propósito primeiro de sua elaboração.
Eis aqui, portanto, a sua motivação primordial. Comprei, faz poucos dias, diretamente ao próprio autor, o livro "Crônicas da casa de Maria Gorda", do jornalista santa-cruzense Rosemilton Silva.
E entre uma tarefa e outra, entre um intervalo de aula e outra, fui adentrando as páginas desse livro com cheiro de guardado. Aquele cheiro que caracteriza as coisas boas que se guardam por muito tempo. E tudo nesse livro cheira a guardado. Guardado na cristaleira de memórias desse excelente contador de histórias. Mente lúcida e lúdica, de raciocínio linear, Rosemilton vai tecendo no presente a trama vívida de dias retorcidos e de personagens contorcidas. Pelo peso do tempo. E o contador de ca(u)sos não faz cerimônia, com vocativos nos chama e nos acompanha pelas ruas e becos de Santa Cruz, cruzando com figuras nobres e pitorescas (e outras piturescas, mesmo!). Aqui e ali, provocativo, faz insinuações sutis sobre atos e atores daquele cenário social. Tudo ao gosto da doçura e da lisura.
Com efeito, Rosemilton consegue, numa escrita prosaica mas não arcaica, reconstruir uma aquarela de reminiscências humanas e urbanas que nenhuma fotografia antiga, por si só, jamais nos levaria a um passeio nostálgico e saudável no passado (quase) recente de Santa Cruz.
Fui morador de Santa Cruz em três momentos históricos: duas vezes na década de 1960 e a partir de 1973 até 1995, quando muito triste me mudei para Natal.
Por isso, fica fácil para mim, e para quem assim se vê, reconhecer-se, mesmo estando ausente dos enredos narrativos, como mais um dos personagens dessas Crônicas. Conheci e convivi com muitas dessas figuras humanas repintadas fielmente pelo autor. Não nos mesmos dias, mas em tempos mais tardios.
Pois bem, não me esqueci da promessa lá do início: que seria um texto breve. Muito poderia eu ainda falar e comentar sobre as Crônicas, todavia, como registro de reconhecimento do engenho (da obra) e do talento (do autor), deixo aqui estas minhas palavras de apreço e de aplauso. 
Espero que outros leitores possam fazer essa mesma experiência com as Crônicas.
Parabéns, Rosemilton.


Zedaluz.



ADQUIRA