APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O LUTO DO FLAMENGO - Gilberto Cardoso dos Santos


A MISSÃO DO PROFESSOR - Adriano Bezerra


A MISSÃO DO PROFESSOR

Se engana aquele que pensa
Que o professor só ensina
Que simplesmente só segue
O que o livro determina
Não enxerga que a missão
Que ele tem na educação
Vai além da disciplina.

Ele segue essa doutrina
Porém ele é muito mais
Ele é nosso confidente
Nos assuntos pessoais
Nos educa e nos quer bem
O professor é também
Um pouco dos nossos pais.

O professor é capaz
De vê se estamos sozinhos
Perceber se estamos tristes
De nos encher de carinhos
Também nos aconselhar
Se quisermos desviar
E entrar nos maus caminhos.

Assim como aos seus filhinhos
Nos quer num melhor futuro
Numa vida de sucesso
Trilhando um caminho puro
E só tem cumprida a meta
Quando de forma completa
Nos vê num lugar seguro.

Por isso sempre procuro
Guardar todos no meu peito.
Que o reconhecimento
A cada um seja feito
E que todo professor
Seja visto com amor,
Com gratidão e respeito.

Adriano Bezerra

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Chuva, verde e vida - Jadson Lima


Chuva, verde e vida

Quando a barra se acinzenta
E a nuvem fica encharcada
Vejo DEUS no firmamento
Afinando a trovoada
E o camponês satisfeito
Se enche de fé no peito
E vai limpar sua enxada.

Uma nuvem carregada
Faísca fotografando
O chão seco e feito pó
Que o sol estava queimando
Depois da fotografia
Despeja sua Invernia
No solo, frutificando.

Vejo as nuvens gotejando
A vida regando a terra
E uma cabra berrando
Por um cabrito que berra
Perdido dentro da mata
E ao longe o som da cascata
Mostra a seca que se encerra.

A lama ensopando a terra
Um cururu faz espuma
Uma galinha pedrez
Cacareja e se apruma
Se aninha com seus filhotes
E no curral os garrotes
Se amuntuam numa ruma.

O pavão solta uma pluma
No meio do lamaçal
Uma vaca dando cria
Bem no meio do curral
O vaqueiro olhando a vaca
E um bacurau na estaca
Pra pastorar o quintal.

É um quadro sem igual
A chuva molhando o chão
O verde abre um sorriso
Mudando a vegetação
A chã se transforma em tela
DEUS com perfeição pincela
Aquarelando o sertão.

Cada pingo rega um grão
De esperança no peito
Cada grão nasce uma flor
Mostrando como é perfeito
A natureza imponente
Que a chuva é como um presente
Que o céu nos da satisfeito.

O solo de tão perfeito
Quando o inverno vigora
Fica enfeitado de vida
Basta chover uma hora
Pra ele ficar verdoso
Forte lindo e vigoroso
Para nutrir fauna e flora.

A chuva que cai lá fora
Se ouve aqui na palhoça
De longe um cachorro magro
Debaixo duma carroça
Que a muitos dias não come
Grunhi, late sente fome
Deita no chão e se coça.

E as formigas de roça
Já carregando comida
Cada uma trabalhando
Pra garantir na guarida
Um inverno de fartura
Trabalha na vida dura
 Para durar mais a vida.

Menino aposta corrida
Para chegar no barreiro
Com um landuá na mão
E um anzol piabeiro
E a Curimatã ovada
Sobe mas fica enganchada
Na rede do canoeiro.

No céu vejo um nevoeiro
Do chão já se aproximando
É tanta chuva que vem
Que eu já fico observando
E de sentir emoção
Me vem tanta inspiração
Que agradeço versejando.

E sempre que vou rimando
Falando da Invernada
Vejo o nordeste mais vivo
Matando a seca afogada
Escrevendo com fartura
A riqueza da cultura
Que está em nós entranhada.

Essa semente plantada
Nos versos desse matuto
Com a chuva da poesia
Nesse solo quente e bruto
Mostra a chuva no Nordeste
Onde a cultura se veste
Pra nos dá o melhor fruto.

Jadson Lima
Bom Jesus-RN
Fevereiro de 2019


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

TRO(E)VA MITOLÓGICA - Antoniel Medeiros


TRO(E)VA MITOLÓGICA

Ah que falta do Saci
Com cachimbo a traquinar!
A linda Iara a cantar
Lá no rio escandoloso.
O cenário pavoroso
Da Cuca que vem pegar.
O cabuloso luar
Que o lobisomem via
E os mitos de hoje em dia
Vão deixando a desejar.

O céu a relampejar
Se Zeus está furioso
O seu filho poderoso:
Com seus doze trabalhos.
Os duvidosos atalhos
Pra Chapeuzinho pegar.
Porcos a arquitetar
Casa de alvenaria
E os mitos de hoje em dia
Vão deixando a desejar.

Quem desejaria entrar
Na caverna de Platão?
As esferas do Dragão
Quem não ia querer ter?
Três pedidos vou fazer
Para um gênio realizar
Fulozinha a assobiar
Causa medo e arrepia
E os mitos de hoje em dia
Vão deixando a desejar.

Curupira a deixar
Pegadas ao contrário
Boto imaginário
Dos antigos pescadores
Quem nunca ouviu rumores
Das sereias lá no mar?
E a mula a galopar
Sem cabeça parecia?
E os mitos de hoje em dia
Vão deixando a desejar.

Caipora vai cantar
Pulando pela floresta
Tem fada que faz festa
Se na cama vê um dente
No natal um bom presente
Papai Noel vai nos dar.
Coelhos a fabricar
Chocolate, que delícia!
E os mitos de hoje em dia
Vão deixando a desejar.

E depois de me cansar
Eu agora vou parando
Só estava aproveitando
A ajuda do universo
Os amigos bons de verso
Chamo para abrilhantar
Liberdade de falar
Té dezembro é garantia.
E os mitos de hoje em dia
Vão deixando a desejar.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

COMO ASSIM, “TÔ DE BOA” ? - Nailson Costa


COMO ASSIM, “TÔ DE BOA” ?

- Professor chato do cacete – resmunguei baixinho.
É que, no velório do pai de Rodrigo, grande amigo dos meus filhos, vi o meu ex-professor de Matemática da 7ª Série, nos idos de 1977, a render homenagens ao falecido. Mas Rodrigo, meus filhos e alguns amigos seus ouviram a minha rabugice e tive que me justificar, ao dizer-lhes que “aquele Senhor de camisa vermelha, a uns dez metros da gente, é muito parecido com Ubaldo, então professor de Matemática da Escola Confessional de minha cidadezinha do interior no referido ano”.
E todos olharam pro Senhor e depois pra mim, como sinal de reprovação de minha inadequada conduta.
- Só parecido, pois já faz 41 anos que não o vejo – tentei pôr fim ao rumo daquela prosa.
Mas, ao invés de silenciar, fui mais adiante com o assunto e passei a descrever física e psicologicamente o professor Ubaldo, como sendo um coroa solteiro, baixinho, cabelos a exalar um forte odor de brilhantina, mal vestido, mau humorado, feio, fanhoso e, às vezes, mal educado. E me empolguei na caricatura daquele infeliz professor. Mas acrescentei uma virtude sua (pega mal enumerar só características negativas de alguém), a de que era um dos poucos professores que tinham o domínio absoluto de sua matéria, bem como de sua postura profissional em sala de aula. Era ele assíduo, pontual, justo, disciplinador e exageradamente correto em suas avaliações. Mas era, com certeza, a sua ranzinzice, o seu rigor quase militar, a sua marca registrada!
Ao entrar em sala de aula, Ubaldo nunca olhava pra turma. Nunca cumprimentava os alunos! Jamais nos deu um “boa noite”, de modo que Edna, linda loira no auge de seus 18 anos de inquietação,  travou, naquela noite, uma ferrenha batalha verbal com o professor. Logo com ele, que não gostava de dialogar com seus alunos! Ubaldo se recusou a responder o “boa noite” dado por Edna a ele. Foram seguidos e insistentes “boas noites” dirigidos ao professor, sem que este tenha sequer olhado pra turma. O professor mal fez a chamada e, como de praxe, logo foi ao quadro negro espalhar as suas enormes e intermináveis equações numéricas, tudo sob os muitos  acintosos e agressivos “boas noites” da bela Edna!
- Aí, Galega, num gréi comigo não, visse! Você já me conhece e sabe que não gosto dessa frescura de “boa noite”, até porque toda noite é boa mesmo e basta dessa frescura -  rosnou o professor!
- Boa noite, boa noite, boa noite... – e foram mais de dez minutos de seguidos “boas noites”  proferidos por Edna.
Edna fora expulsa! O Pároco-Diretor da Escola era durão e muito admirava a sapiência, a postura, o domínio e a rigidez do professor Ubaldo!
O professor nunca errava uma sentença matemática, nunca gaguejava em sala de aula, cumpria religiosamente a sua missão com autoridade e competência!
Soubemos, mais tarde, que ele, nos bastidores, colocava apelidos nos seus alunos. Maletão (Jorge - bunda grande, em função de sua hiperlordose), Tõin da Lua (eu - vivia com uma Gramática de Cegalla debaixo do braço e, literalmente no mundo da lua nas aulas de Matemática), Peipou (Jane - peidava depois dum cochilo de 10 segundos em sua aula) etc. Mas eram as notas reveladas nos finais dos bimestres sua maior vingança!
- Número 1, nota 2; número 30, nota zero; número 12, nota 0,3... Gabi, nota 7...
O quê? Quem? Como nota 7? Quem seria Gabi? Não conhecíamos Gabi! Seria uma novata? E quem é essa que teve o privilégio de ter seu nome proferido pelo professor?
Foi um raríssimo lapso do professor Ubaldo! Gabi era o gabarito da prova, e mesmo tendo as dez questões corretamente assinaladas, o professor achou que a nota sete seria de bom alvitre. “Nunca ninguém tirou um dez com o professor e não seria naquela turma da 7ª Série, problemática, que Gabi tiraria um dez, mesmo Gabi sendo o gabarito”, pensei.
E fui me empolgando até que meu filho disse: “O cortejo vai começar”.
Rodrigo - empresário bem sucedido, criação impecável, educadíssimo, tranquilo, inteligente, discreto, ativista ambiental e LGBT, um rapaz cuja aura ímpar contaminava de alegria por onde ele passava – acompanhara, elegantemente, a minha performance narrativa, apertou a minha mão e pediu, licença a todos, para acompanhar de pertinho o seu “Amado painho”, como ele ao seu querido pai se referia.
Na Missa de Sétimo Dia, soube que o Senhor de camisa vermelha era irmão do meu ex-professor de Matemática, Ubaldo, e que Rodrigo era órfão de mãe desde seus três anos de idade, tendo sido criado por seu “Amado painho”, que foi, para Rodrigo, não apenas pai, mãe e seu melhor amigo, fora a resolução perfeita de sua melhor equação!
- Com licença, Seu Nailson! O Senhor está bem? Posso lhe ajudar?­­ – preocupou-se comigo Seu Mauro, o Senhor de camisa vermelha, irmão de Ubaldo.
- Estou bem! Valeu! Tô só de boa aqui! – respondi-lhe, sentado num canto da igreja, solitário, após o encerramento das muitas homenagens ao meu ex-professor de Matemática.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

ARTISTA PATUENSE NO RELANÇAMENTO DE LIVRO EM NATAL

Artista patuense fará apresentação em Natal
Durante o relançamento do livro Fui ao Croatá... - Uma Geolovehistory, do médico psiquiatra e pesquisador social Epitácio de Andrade Filho, que ocorrerá no dia 14 de fevereiro de 2019, a partir das 19 horas, no Bardalos Comida e Arte, localizado no bairro Cidade Alta, em Natal. O artista patuense Conde Suassuna fará uma intervenção performática, envolvendo poesia, música e teatro.
Conde Suassuna é graduando do curso de Letras (UERN-Patu), onde desenvolve seu trabalho de conclusão do curso (TCC) sobre a análise do discurso social do cangaço de Jesuíno Brilhante refletido na música a cantiga de Jesuíno, de Ariano Suassuna.
Professor Zé Antenor com o autor presenteando Ariano Suassuna



Cantiga de Jesuíno - Ariano Suassuna
Meus senhores que aqui estão
Vou contar meu desatino
A canção do cangaceiro que se chamou
Jesuíno
Seu bacamarte de prata
E o luar do seu destino
Num gibão
Todo vermelho
Um punhal no cinturão
Bem montado num cavalo
Cujo nome é Zelação
Jesuíno virou logo, ai, ai, ui, ui
Rei do povo do Sertão.

Ver a terra era seu sonho
Nobre terra do Sertão
Com o povo repartida
Pelo sol da partição
E é por isso, que ele canta
De bacamarte na mão

Eu tenho um espelho de cristal
Foi Jesus Cristo que limpou ele do pó
Mas lá um dia a terra se alumia
E o meio dia se espalha a luz do sol.

Mas os ricos se juntaram
Com o governo da nação
Lhe botaram emboscada
E ele morreu a traição
Mas o povo não esquece
Sonha com ele o sertão
E se diz que ainda hoje
Em qualquer ocasião
Alguém sofre uma injustiça
Nos caminhos do Sertão
Soam tiros do seu rifle, ai, ai, ui, ui
E o tropel de zelação
E Jesuíno brilhante
Volta feito aparição
Queima do dono da injustiça
De bacamarte na mão
Sua voz então se afasta
Cantando a mesma canção

A produção cultural recebe o decisivo apoio do engenheiro agrônomo Francisco Rodrigues (Dr. Kavey do INCRA).
Dr. Kavey e Conde Suassuna

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A VALE NÃO VALE NADA - Adriano, Gilberto, Zenóbio, Hélio, Cláudia


A VALE NÃO VALE NADA

Sedenta pelo poder,
Por dinheiro e muita fama
A VALE fingiu-se cega
E agora vem fazer drama.
Do que adianta? Me fale!
Quem valia, já não vale
Perdeu a vida na lama.
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Avalie o grande drama
Dos que estão a padecer
Literalmente na lama
Sem barragens pra conter
O drama que estão passando
Os políticos embromando
E Brumadinho a sofrer.
***************************
Quantos mais hão de morrer,
Nesse vale de agonia?
Pra que se possa saber,
Quanto vale a tirania!
A vida cobra o encargo,
De quem fez ficar amargo,
O que já foi doce um dia.
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Arrogante e alma fria
O homem segue inclemente
Feito um escravo do ouro
Ceifando o meio ambiente
Alheio a todo esse drama
Enterra a vida na lama
D’uma forma inconsequente
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Bate o martelo potente
No leilão da hipocrisia
O poder é o cutelo
Que a morte sentencia
A provar impunemente
Que a vida humana inocente
É moeda sem valia.
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Em meio a lama sombria
Gritos de dor e tormento
Enquanto a VALE lamenta
O rombo em seu orçamento
Nem a vida se equivale,
Para ela menos vale.
Mais vale o faturamento.
***************************
Algo digno de lamento,
Com muitas vidas ceifadas.
São falhas reincidentes
Sem punições adequadas.
Provam estas concessões
Que as privatizações
Precisam ser repensadas.
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Famílias dilaceradas
Pela lama da cobiça
Como vítimas do acaso
Sem respaldo da justiça
Que de forma desumana
No caso de Mariana
Tem se mostrado omissa.
***************************





Mariana e Brumadinho,
tristes destinos iguais:
Os dois, vão pagando o preço
da tristeza dos seus ais;
e a ganância dos minérios
fez deles, dois cemitérios
da rota dos lamaçais!



Francisco Garcia


sábado, 19 de janeiro de 2019

RESMUNGOS DA NATUREZA - Hélio Crisanto


RESMUNGOS DA NATUREZA


Clama toda a bicharada
Na estupidez da seca
Um bem-te-vi na galhada
Belisca uma fruta pêca.
O canto da seriema
Até parece um poema
De tristeza e de lamento
Cantando em cima do morro
Um concriz pede socorro
Contando o seu sofrimento

O sol aceso inclemente
Secando os mananciais
Não se vê uma semente
Nas copas dos vegetais
Um teiú cheio de mágoa
Sem ter um gole de água
Mata a sede num pinhão
Naquele mato esquisito
Um sabiá solta um grito
Como quem teme o verão

Um rio morto em seu leito
Tece o caminho da cruz
Geme um burro insatisfeito
Com medo dos urubus
Ao notar a mata extinta
Uma cobra já faminta
Se arrastando cambaleia
Numa tristeza tamanha
Sozinha uma triste aranha
Sem esperança vagueia

No lamaçal de um barreiro
Sobrevoa um passarinho
Em meio aquele braseiro
Volta com sede pro ninho.
Uma rolinha tristonha
Devido à seca medonha
Não esconde a sua dor
Além da seca renhida
Tem que viver escondida
Pra fugir do caçador

Nessa estiada alarmante Chora um anum desolado Num angico da vazante Um carão triste e calado Envolto ao triste cenário Um gavião solitário Se coça numa porteira Vigiando os matagais Procura restos mortais Espreitando uma caveira A raposa numa gruta Uiva de tanta tristeza Em todo canto se escuta Resmungos da natureza O som triste da cigarra Se ouve ao quebrar da barra Causando desolação Anunciando os flagelos Desmoronando os castelos Do morador do sertão.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

IRANI MEDEIROS, BIÓGRAFO E POETA - ENTREVISTA


Entrevista concedida a Gilberto Cardoso dos Santos



GCS: Caro Irani Medeiros, comece essa entrevista respondendo-nos à pergunta: Quem é Irani Medeiros?

Irani Medeiros é poeta, escritor, pesquisador e biógrafo. Nasceu na cidade de Paulista, Estado da Paraíba, em 1961. Filho de Valdemar Garcia de Medeiros e Jesumira Nemesia da Silva. O pai era de Seridó do Rio Grande do Norte, nascido em São João do Sabugi e a mãe paraibana de Paulista. Nasci num povoado de nome Mimoso já na divisa de Estado, próximo a Serra Negra do Norte. Aaos 14 anos saí do Mimoso para estudar na cidade de Pombal, terra do grande poeta popular Leandro Gomes de Barros.

GCS: Fale-nos de suas raízes familiares, geográficas e culturais.

Minha família por parte de pai vem do Rio Grande do Norte, mais precisamente do Seridó. Minha família pelo lado do meu pai compõe-se de poeta, médicos, músicos e escritores. Nasci no sertão, terra de muitos encantos e também de muita luta diante das adversidades do clima e outras intempéries, isso com certeza deu-me a condição de tornar-me um poeta favorecido pela paisagem, pela fauna e sobretudo o encanto com os rios quando no inverno.

GCS: Você tem um significativo número de livros publicados. Apresente-nos sua obra.

Tenho 18 livros publicados sobre os mais variados temas, sobretudo na literatura popular. Já escrevi sobre Belarmino de França, Josué da Cruz, Pinto do Monteiro, Chica Barrosa, Fabião das Queimadas, Leandro Gomes de Barros, Augusto dos Anjos e na poesia tenho livros publicados por Editoras nacionais e alguns poemas transformados em música e alguns outros traduzidos para o espanhol, francês...




GCS: Como aprendeu a ler? Quando viu nascer seu amor pela leitura? Que obras marcaram sua formação inicial?

Aprendi a ler inicialmente com um professor particular contratado por meu pai. Acredito que na verdade aprendi a ler através dos folhetos de feira que eram adquiridos nas feiras livres do sertão, isto com certeza despertou a minha vontade em aprender a ler.



GCS: Quando foi despertado em você o desejo de ser escritor? O que escrevia quando começou?

Sempre fui encantado pela leitura. Quando comecei a escrever era muito incipiente o que escrevia como poesia, depois fui melhorando com as varias leituras de outros poetas, principalmente lendo Augusto dos Anjos.

GCS: Sente-se realizado com o que já produziu ou acalenta um sonho de algo mais?

Sinto-me até certo ponto realizado com o que já produzi na literatura, pretendo continuar escrevendo algo mais e que eu posso ter reconhecimento além do que conquistei dentro e fora do país.

GCS: Você tem se dedicado à produção de obras biográficas. Que autores lhe serviram de inspiração?

Vários autores que se dedicaram a escrever biografias. Atualmente leio muito Lira Netto.

GCS: Cite algumas biografias lidas que você considera excelentes.

Li as biografias de José Saramago, Jorge Luiz Borges, Simone de Beauvoir, Glauber Rocha, Tim Maia, Nelson Rodrigues, entre outras.

GCS: Além de ser biógrafo, você é poeta. Já pensou em lançar um livro de poemas? Por que não levou à frente tal projeto ainda?

Tenho um livro de poesias lançado por uma editora da Bahia, intitulado O último Café Noturno, publicados pela Mondrongo e distribuído nacionalmente.


GCS: Brinde-nos com um ou mais de seus poemas.

Sobre os arcos da morte
Musgo e silêncio
Nos altares da sombra.

Na carne e saliva
De um Pégasus
Um galope alucinado
Na geografia dos abismos.

Sobre os arcos da morte
Sal e aço
No escuro rosário das ausências.

++++++++++

SER(TÃO) O sertão é uma metáfora do sol, uma paisagem de solitários caminhos. O sertão é galope, um mergulho na caatinga e nas raízes de velhos umbuzeiros. O sertão é uma canção nos búzios de pedras temperando as lágrimas de uma mãe sertaneja. O sertão é uma muralha de macambiras na solidão das folhas da noite O sertão é um verso letal na tênue luz de um lampião. O sertão é sol e luar no hálito das folhas secas O sertão é a alma do vento agitando os braços dos mandacarús. O sertão é o verbo e o procriar das sementes. O sertão é esforço e magia de viver nas terras de dentro. O sertão é uma diáspora no casulo do tempo! 15.01.19. Irani Medeiros.

GCS: O que é poesia para você?

Poesia é vida, sentimento, sensibilidade e uma filosofia de vida no santo ofício da palavra.

Que poetas lhe servem de inspiração?

Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto, Bandeira, Luiz Carlos Guimarães, José Chagas, Zila Mamede, Neruda, Vicente Hiliodoro, Gabriela Mistral, Federico Garcia Lorca, entre outros.

GCS: Como você costuma escrever? Que horários e locais lhe parecem mais propícios? Trata-se de uma atividade diária? Você tem compulsão pela escrita?

Não tenho um horário pré-determinado para escrever, sobretudo poesia, ele vem a qualquer a hora e tenho que andar sempre com papel e uma caneta. Quanto as pesquisas e outros escritos escrevo mais a noite.

GCS: O que lhe parece mais difícil no exercício da escrita?

O exercício da escrita não é nada fácil, tem que ter um certo talento aliado à transpiração que com o tempo o escritor vai definindo um estilo próprio de escrever.

GCS: Qual o seu nível de adesão à leitura digital? Acha imprescindível o livro de papel?

 Prefiro ler pegando no papel, folheando página por página.

GCS: O que significa ser escritor em um país com tão grande número de analfabetos funcionais?

É uma condição não muito boa diante destas dificuldades e ainda por cima pelo fato de termos um mercado editorial muito complicado. O autor aqui sofre muito com a questão de direitos autorais. No Brasil não se vive propriamente de venda de livros. É lamentável essa situação, visto vivermos e produzirmos literatura num país tal rico e diverso culturalmente.

GCS:  Que autores, em prosa ou verso, nos recomendaria?

Carlos Drummond, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos, Leandro Gomes de Barros, Zé Lins, Zé Américo de Almeida, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos.

GCS: Qual de suas obras lhe rendeu melhores resultados?

No Reino da Poesia Sertaneja, Fabião das Queimadas, Pinto do Monteiro.

GCS: Gostaria que nos indicasse alguns filmes.

Memória do Cárcere, O ano do Desaparecimento de Garcia Lorca, Dr. Jivago, Meia noite em Paris.

GCS: Por quais pensamentos ou aforismos busca nortear sua vida?

Melhorar a minha escrita que é sangue e é vida.

GCS: De que meios pode valer-se o leitor para entrar em contato com você?

Pela internet – Irani Medeiros no Facebook ou pelo e-mail: medeirosirani@gmail.com ou pelo celular: 83 98714-0954.

sábado, 29 de dezembro de 2018

SENHOR DO MAR - Irani Medeiros


SENHOR DO MAR

O mar não sou eu, meu senhor! o mar é o cais e suas embarcações. O mar não sou eu, meu senhor! o mar é o balanço das ondas, redes lançadas já em outras pescarias. O mar não sou eu, meu senhor! é a tábua dos ventos um berro que aflora na noite escura. O mar não sou eu, meu senhor! o mar é o sol aprisionado no suor do rosto dos marinheiros. O mar não sou eu, meu senhor! o mar ainda é silêncio e o refúgio dos náufragos. O mar não sou eu, meu senhor! o mar é o lustre da ferrugem nos mastros, sonhos e desejos distantes. O mar não sou eu, meu senhor! o mar é a solidão dos séculos futuros na lanterna de seus afogados. O mar não sou eu, meu senhor! o mar ainda é um oceano de paixões...



28.12.18.

sábado, 22 de dezembro de 2018

O BOM E O MAU USO DA HIPNOSE – Bate-papo com Dr. Ramilton Marinho, educador e hipnólogo



O BOM E O MAU USO DA HIPNOSE – Bate-papo com Dr. Ramilton Marinho, educador e hipnólogo
 Entrevistador: Gilberto Cardoso dos Santos

01- Caro Ramilton, acho bom começarmos esta conversa tendo uma visão geral de sua pessoa, para benefício dos muitos que ainda não o conhecem bem.

Nasci em 12 de setembro de 1962. Morei em Nova Floresta e Cuité. Aos 13 anos sai pra estudar fora, morei em João Pessoa e Campina Grande. Voltei pra Cuité 30 anos depois para ajudar a instalar um campus avançado da UFCG na minha cidade. Foi com muita alegria que voltei e durante 13 anos dediquei-me à instalação e consolidação do campus, sendo vice-diretor por três anos e diretor por oito anos.
Tenho cinco filhos: Iuri Ravi, Ianna Radha, Yuan, Klara Liz e Hanah; e quatro netos: Matheus, Lara, José Ramilton e Melina, que nasceu essa semana.
Fiz graduação em Ciências Sociais ( Bacharelado e Licenciatura ), Mestrado em Sociologia Rural e Doutorado em Sociologia Politica. Especialização em Hipnose Clínica.
Campos de interesse: Sociologia e Antropologia política, psicanálise, subjetividade, sociabilidade, hipnose, PNL, Neurolinguística e a ficção - sempre.

Áreas de atuação social:

Sou atualmente professor titular da Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Educação de Saúde. Ingressei como professor da UFPB em 1990. Nesses 28 anos fui professor em João Pessoa, Campina Grande e Cuité.

Obras publicadas:
           
Alguns capítulos, textos e livros publicados:
Alguns capítulos, textos e livros publicados:



O Capa Verde: transformações econômicas e representações ideológicas dos trabalhadores do sisal – in Brasil: Norte e Nordeste, Estudos em Ciências Sociais. ANPOCS/ INTERAMERICAN FOUDATION, Rio de Janeiro, 1991.
Teias Invisíveis de Pegar Fantasmas ( os mecanismos ideológicos implícitos no comportamento eleitoral )in: Debates Regionais, N º 1, NIDHR/UFPB, João Pessoa, 2º Semestre de 1993.
A Incrível Estória da Mulher que Vira Peixe – in: Autores Campinenses 97 – Edições Caravelas / Núcleo Cultural Português, Campina Grande 1997.
Madalena e o Dia do Passado – in: Autores Campinenses 98 – Edições Caravelas / Núcleo Cultural Português, Campina Grande 1998.
Há um Santo no Telhado – Sem uma Razão Escolástica /Barco Negro – Pela Razão Invisível dos Fantasmas – in: Pérgula Literária 4, Editora Valença AS, Valença, Rio de Janeiro, 1999.
Entre Deuses e Demônios, Simbolismo e Comportamento Eleitoral – in: Revista da Sociedade Brasileira de Pesquisa de Mercado, São Paulo, maio de 2000.
Rebuliços nos Sinais do Mundo – PB Letras, Jornal Mensal de Cultura, Edições Caravela, Núcleo Cultural Português, Ano 1, n 2,  Campina Grande, PB. Junho 2000
O Campo Político, o Marketing e os seus Arredores – in: AD em revista – Revista da ADUFPB-CG, Campina Grande, janeiro 2001.
Subjetividade e Comunicação: entre o público e o privado – in: Comunicação & Política, Ns.V. IX – Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, Rio de Janeiro,  janeiro-abril de 2002.
Nas Esquinas do Mundo: representações e identidades – in: Paraiwa – PPGS/UFPB, no. 2, ISSN 1518-9015, www.cchla.ufpb.br/paraiwa/02-costa.htm. João Pessoa, Junho 2002.
O Ouro de Zé de Santana – Babélia, Mossoró, Novembro de 2007.
Sete ( Romance )- Clube dos Autores, 566p. maio de 2011.
Ninguém Matou Baltazar ( Contos ) – 1 ed. Campina Grande. Edufcg. 110p. ISBN 978-85-8001-078-7. 2012
A Irmandade do Caos – anáguas vermelhas e minhocas solitárias (Teatro ) – 84p. Clube dos autores, junho de 2014.

Obras lidas que recomenda:

Cem Anos de Solidão de Gabriel Garcia Marquez e A Casa dos Espíritos de Isabel Allende

Filme marcante:
A Vida de Brian, do grupo inglês, Monty Phyton

Um ou mais pensamentos significativos para você:

“Always Look at the Bright Side of Life” – música de Bruce Cocburn, tema do filme A Vida de Brian. Frase que  representa a forma como procuro ver e viver a vida.

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”.  Jean-Paul Sartre. Frase que norteia o meu diálogo com os pacientes em hipnoterapia clínica.


02-  Quando, por que e como foi despertado seu interesse pela hipnose?

Fiz um curso de hipnose, em um fim de semana desocupado, no início dos anos 90, a partir daí passei a usá-la apenas para diversão, brincando com amigos e familiares. Quando fiz meu doutorado, no inicio dos anos 2000, pesquisei por quatro anos sobre os mecanismos inconscientes e as formas de sedução publicitárias, em especial na publicidade política. Queria entender as formas pelas quais o marketing político fabricava mitos, imagens e marcas capazes de produzir a adesão, a identificação e a projeção do eleitor-consumidor. 
Foi quando estudei de forma mais aprofundada a psicanálise, a psicologia projetiva, a semiótica, a mitologia e a antropologia imagética e comecei a perceber a semelhança entre a hipnose e os fenômenos modernos de comunicação de massa – fato que havia sido descrito por Freud em seu livro Psicologia das Massas e Análise do Eu, onde analisa como a massa age segundo determinadas sugestões hipnóticas e afirma que a hipnose é uma massa com duas pessoas.

03- Fale-nos de suas primeiras experiências com a hipnose e que caminhos percorreu até chegar ao respeitável nível em que hoje se encontra.

A partir do meu doutorado passei a ter uma nova compreensão da hipnose.  E para aprofundar busquei a capacitação. Fiz vários cursos, entre eles destaco o curso de hipnose com o professor doutor Antônio Carreiro, em Salvador ( onde abordava, entre outras coisas, a compreensão histórica, filosófica e sociológica da hipnose, além de aspectos do mesmerismo, toques de Charcot e hipnose não verbal ) e, no Rio de Janeiro, com Fábio Puentes e Fabrício Puentes ( abordando os aspectos práticos da hipnose clássica ).
A partir desses cursos e com a participação no Hipnopanrio e I Congreso Panamericano de Hipnose, no Rio de Janeiro, ampliei a compreensão da hipnose e das suas técnicas e tive conhecimento sobre diversos projetos sociais que utilizavam a hipnose na Europa e América Latina.
Então resolvi que eu devia ter uma especialização na área de hipnose clínica, estava prestes a deixar a direção do Centro de Educação e Saúde e precisava encontrar novos desafios.  Fiz a formação em Hipnose Clínica promovida pela Sociedade de Hipnose do Estado de Pernambuco. Uma formação com 170 horas, em Recife.


04- Alguma(s) vez(es) submeteu-se a alguma sessão de hipnose, ou sempre atuou como sujeito nessas experiências?  Se sim, quais foram os resultados?

Desde o primeiro curso em que participei descobri que tinha susceptibilidade e obtive a minha primeira experiência com regressão de memória – mas não foi lá grande coisa.  Fui desenvolvendo minha susceptibilidade hipnótica com o tempo, na prática, através de outros cursos e pela auto-hipnose.
Em um desses cursos tive a experiência com o uso da ayahuasca. Isso não só potencializou a minha susceptibilidade, mas também possibilitou um mergulho profundo no inconsciente, dando novos sentidos e significados a vida, a morte e ao meu lugar no universo.  Eu que achava que nada disso mais aconteceria, principalmente quando a gente passa dos 50.


05-   Todos são hipnotizáveis em algum nível, não é verdade?  Por que, porém, nem todos chegam ao ponto desejado pelo profissional em uma sessão propriamente dita?

A hipnose é uma alteração da consciência e, assim sendo, é um fenômeno frequente na nossa vida. Por exemplo, quando assistimos a um bom filme, a nossa consciência se altera e a nossa realidade interior subjetiva, baseada nas nossas experiências passadas, é nele projetada, podendo ocorrer alteração cardíacas, sudorese nas mãos, redução do ritmo respiratório, diminuição do senso crítico, podemos rir ou chorar. Estamos hipnotizados.
O mesmo ocorre, às vezes, ao ouvir uma música, ao sentir um perfume e até mesmo enquanto dirigimos e de repente percebemos que não estávamos dando conta da estrada e a direção estava entregue ao nível subconsciente.

06- Qual o percentual de pessoas objetivamente hipnotizáveis? Quais as características de tais indivíduos?

Assim, praticamente todas as pessoas são hipnotizáveis; com graus de suscetibilidade maiores ou menores.  Depende muito também do método utilizado para alcançar o transe, pois cada um pode responder melhor a um tipo e não ao outro. 
É importante lembrar que o transe hipnótico é um processo neurofisiológico. Através do relaxamento se produz uma diminuição do rimo cerebral, deixando-o entre 6.5 a 8.5 hertz. Nesse estado determinadas áreas do cérebro são irrigadas, baixando o nível de atividade e controle do cérebro pré-frontal ( onde estão os nossos princípios morais, nossas escolhas conscientes, nosso controle, nosso raciocínio lógico e as suas formas de indução e dedução ) e, ao mesmo tempo,  ativa-se o sistema límbico, onde estão as nossas emoções, traumas, etc. Em outas palavras, o controle da mente consciente é diminuído, deixando fluir a mente subconsciente com mais liberdade.
A partir daí a realidade interna da pessoa passa a predominar e o pensamento indutivo fica desativado, possibilitando sugestionar na pessoa fenômenos como: ideomotores (alterando respostas do sistema motor, fazendo sentir colas nas mãos, ficar presa na cadeira, catalepsia do corpo, etc); fenômenos ideosensores (alterando o sistema sensorial,  produzindo anestesia, fazendo sentir calor, frio, cócega); fenômenos ideoemocionais ( produzindo respostas emocionais, como sentir-se calmo, feliz, triste ) e fenômenos ideocognitivos (alterando respostas de processos mentais, como amnesia e alucinações).
No entanto, alguns desses fenômenos, principalmente aqueles ideocognitivos, geralmente se verificam num transe mais profundo ou sonambúlico, que só ocorre em 10% a 15% da população.


07- Faça-nos um relato da história da hipnose. Quando e como o ser humano tomou consciência dela? Onde foi primeiramente utilizada? Por quem e quando seu estudo foi primeiramente sistematizado?

A alteração da consciência é muito antiga; pesquisas recentes sugerem que muitas inscrições rupestres foram desenhadas sob a influência de plantas psicoativas. A doutrina magnética, mãe da hipnose, provem das tradições babilônicas, dos Templos dos Sonhos e das Sacerdotisas de Isis, no Egito; da mitologia, dos Templos de Sofrosine e da filosofia grega, origina-se das experiências magnéticas de Tales de Mileto; vem também dos saberes herméticos dos alquimistas medievais, desde Avicena até Paracelso.; vem também dos saberes herméticos dos alquimistas medievais, desde Avicena até Paracelso.
Todavia, só a partir de meados do século XVIII, com Franz Anton Mesmer (1734-1815), médico, astrônomo e filósofo alemão, buscou-se fundir todo esse conhecimento passado com um saber pretensamente científico, muito característico daquela época, prenhe de revoluções e influenciada pelo Iluminismo. Através de rituais magníficos no seu castelo em Paris, Mesmer promoveu tumultuadas sessões de transe coletivo nas quais, sob efeitos cartáticos, pessoas dos mais diferentes lugares sociais, julgavam-se curadas das mais diversas enfermidades do corpo e da alma. Entre os seus clientes famosos estavam Maria Antonieta (esposa do Rei Luis XVI) e o filósofo Montesquieu. Mesmer foi homenageado por Mozart, em sua ópera Così fan tutte e projetou a sua influência sobre Hippolyte L D Rivail, criador do Espiritismo, com o nome de Allan Kardec.
Depois dele, o processo foi sendo aprimorado. James Esdaille (1808-1859), médico escocês, descobriu o poder da anestesia magnética e com ela realizou prodígios com cirurgias sem dor, inclusive diversas amputações.
O Abade Faria (1756-1819)  foi um  religioso português e revolucionário nos tempos conturbados da França que buscou dar um status mais científico ao magnetismo, criando a doutrina da sugestão – mostrando que a hipnose não tinha nada de místico.
James Braid (1795-1860) era um médico escocês que também buscou estabelecer as causas físicas desse fenômeno psíquico, produzindo transe através de toques físicos, cheiros, cores e luzes, inaugurando a Escola Sensorial. Foi ele quem trocou o nome de magnetismo por  hipnose.
Henri Bernheim (1837-1919) foi o médico francês que fundou a Escola Mental na hipnose, definindo os efeitos pós-hipnóticos como elemento provocador de ações inconscientes e compulsivas. Teve Freud como aluno e discípulo.
Jean-Maartan Charcot (1825-1893) foi outro médico francês, que influenciado pelo Positivismo, buscou utilizar a hipnose como método anátomo-clínico, baseado na excitação sensorial, ele a entendida como um fenômeno objetivo, racional. Também recebeu Freud em Paris.  E também foi médico de Dom Pedro II.
A hipnose, portanto, está no berço da psicanálise. Existem textos fantásticos de Freud sobre o tema, alguns recentemente reunidos em livro, mas ainda sem tradução para o português.

08- Há quem veja todas as experiências de regressão a vidas anteriores como fantasiosas. Elas implicariam numa visão dogmática sobre reencarnação. Além disso,  é comum o paciente sempre ter sido alguém importante em outra existência. Não há um elemento de crença nos relatos de Marquês du Puységur e na experiência  citada por seu professor, que resultou na obtenção da certidão de óbito? Você concilia seu ceticismo com a crença na reencarnação ou tem outra explicação?

Quanto à regressão, realmente é impressionante. Mas varia muito a forma e maneira de acontecer
Na maior parte dos casos, ocorrem apenas associações de memória, tal como Freud faz no talk-cure e na associação de palavras; mas é muito propício para driblar a vigilância do consciente.
Em outros casos ocorrem regressões de memória, geralmente a pessoa vivencia e conta traumas que lembrava parcialmente ou havia esquecido. Tive alguns casos bem dramáticos de pessoas com depressão que sofreram abusos sexuais e tinham esquecido. É um processo bastante doloroso, mas necessário para mudar os efeitos e reprogramar uma vida melhor.
Nos pacientes de maior suscetibilidade ocorrem mudanças de voz, do jeito de falar, a postura, etc. 
Outros desses pacientes, em regressão à vida passada, narram e se expressãm de forma muito convincente e visceral - Quase nenhuma das pessoa que fiz regredir foi rainha, rei, general: eram pessoas comuns, camponeses, artistas, samurais - teve de tudo.
Não acredito em outras vidas (pelo menos até agora). Mas o que importa é que nessa viagem a outra vida é possível refletir, tratar e dialogar com traumas, dificuldades e problemas que o paciente enfrenta naquele momento da sua vida. Isso é o mais importante para o processo de ressignificação. E se o paciente acreditar em outras vida, embarco nessa viagem com ele, o importante é não contradizer as suas crenças, mas partir delas pra fazer o processo acontecer.
No entanto, tem coisas inexplicáveis. Eu me aventuro em duas respostas. Na primeira, vejo o inconsciente como um armazenamento de toda experiência, vivência, sensações e conhecimentos que você carrega desde a sua concepção - é muito poderoso, criativo, sábio - quando você o faz aflorar ele é capaz de tudo. Veja, por exemplo, no caso da esquizofrenia, a força incomum, a veracidade das visões e vozes que os pacientes apresentam.
Noutra possibilidade vejo a teoria do inconsciente coletivo de Jung. Além do inconsciente pessoal, teríamos o inconsciente coletivo, guardando a memória coletiva da espécie.  Em transe profundo, talvez fosse criado alguma espécie de "buraco de minhoca" para esta outra dimensão - mas nesse caso sempre acho que estou viajando demais.
09- Entendo que a hipnose esteja historicamente presente em todas as esferas da sociedade, geralmente não percebida como tal. Fale-nos, primeiramente, de seu uso na política.

Depois dos anos 50, o marketing apossou-se da psicanálise como técnica para vender produtos, serviços, marcas e imagens. Descobriram que melhor que convencer, utilizando a mente consciente do consumidor, seria direcionar mensagens ao inconsciente, incidindo sobre as suas carências, medos e desejos, ativando mecanismos idênticos ao da sedução.  Com Jung o marketing descobriria o inconsciente coletivo, passando a utilizar símbolos e mensagens arquetípicas na fabricação de marcas e imagens.
Na política isso passou a ser comum a partir dos anos 80 do século passado. Na minha tese de doutorado mostrei como Fernando Collor, com a sua marca de Caçador de Marajás, utilizou-se desses mecanismos, através do Mito do Herói. Naquela época, esse tipo de marketing era novo no Brasil, mas já havia sido utilizado com sucesso por Ronald Reagan nos EUA e por François Mitterand, na França.  A partir daí se popularizou. 


10- De acordo com Fábio Puentes, os líderes religiosos são os maiores hipnotizadores. Você ratifica isso?  Discorra à vontade sobre o emprego da hipnose na religião.

Todo ritual religioso utiliza-se em maior ou menor grau da alteração da consciência e da expansão da experiência subjetiva interna. Mais recentemente, vemos que muitas vertentes religiosas utilizam fortes rituais sugestivos para produzir transes individuais e coletivos. 
Em princípio isso é bom, pois pode atuar sobre manifestações psicossomáticas atendendo a uma massa da população sem escolaridade, sem acesso à terapia e a outras formas de práticas complementares de saúde. Porém, comumente, não o fazem como uma prática libertadora, mas como um meio descarado de manipulação, dominação e exploração. Deturpam, enganam e atribuem a si poderes inexistentes.

11- Qual sua percepção pessoal da mente humana – positiva ou negativa – à luz da hipnologia? Por que a mente humana se revela tão influenciável?

Em três anos de atividades em hipnose clínica tenho testemunhado o incrível potencial da mente humana, um potencial que pode resvalar e revelar-se tanto de forma positiva quanto negativa na nossa vida.
Isso ocorre porque processos inconscientes afetam o nosso comportamento e a nossa experiência atual, mesmo sem a percepção dessa influência. Muitos desses processos originam-se na infância, permitindo muitas vezes o surgimento de crenças limitantes que passam a habitar no interior da nossa subjetividade. E essa realidade interna é tão mais forte que a realidade externa que acaba exercendo um forte poder sobre ela.
Por exemplo, fobias e transtornos de ansiedade são processos inconscientes que afetam o comportamento e experiências, com sintomatologias (física ou emocional) mesmo que o sujeito não tenha a percepção dessa influência. Ou seja, toda situação vivida no presente é parcialmente determinada e vivida (fisiológica, psicológica e emocionalmente) por experiências do passado, sob o influência de representações internas.
Nesse sentido, a hipnose pode ser uma técnica importante para auxiliar na ressignificação dessas crenças, na remoção de bloqueios emocionais e na substituição de sugestões negativas por sugestões positivas.
Diferentemente das terapias convencionais, a hipnose atua mais através do sistema límbico, no interior de processos inconscientes, com o paciente em estado de relaxamento profundo e transe. Isso potencializa e acelera os seus resultados. Mas a hipnose em si é apenas uma ferramenta, não é uma terapia. O ideal é que possa ser usada consorciada com algum tipo de terapia convencional.

12- Que elementos são essenciais para que uma boa sessão hipnótica seja plenamente satisfatória?

Do lado do hipnotista, deve haver o conhecimento das diversas técnicas e possibilidades, que vão da hipnose convencional, à hipnose Ericksoniana, à Programação Neurolinguística e até ao mesmerismo e à hipnose não verbal.
Do lado do paciente, deve haver vontade e empenho em participar daquela experiência ou querer resolver um problema ou melhorar algum aspecto na sua vida.
Digo sempre que não é o hipnotista, mas o paciente o principal ator e o responsável direto pelo sucesso de uma sessão, seja de hipnose de palco, ou de  hipnose clínica.


13- Seria interessante que você também, como filho de ex-dono de cinema e escritor discorresse um pouco sobre o processo hipnótico presente nos filmes e na literatura em geral.

É verdade! Vivi a minha infância e adolescência no cinema do meu pai e ainda hoje acho difícil fazer a leitura crítica de um filme, pois que mergulho intensamente nele e nessa imersão encontro profundas memórias afetivas.
Mas ao assistir um filme ou ler um livro geralmente o fazemos com a consciência de forma alterada, onde a nossa realidade interna e subjetiva contribui na nossa decodificação e na fruição de uma obra.
Sou fascinado, sobretudo, pela Escola Surrealista, que advoga que a arte possa ser uma expressão do inconsciente, da pulsão, do desejo, fundindo fantasia e realidade. O realismo fantástico é marcante, seja na pintura (Max Ernest, Salvador Dali, Miró, Oswald de Andrade), mas também na literatura ( Gabriel Garcia Marquez, Isabel Allende, Franz Kafka, Andre Breton, Murilo Mendes, Mário de Andrade); no cinema destaco a obra de Luis Buñuel, em especial o filme Um Cão Andaluz; o filme Brazil, de Terry Gilliam; o filme O  Sentido da Vida, do Monty Phyton, entre outros . Mais recentemente, gostei muito do filme: Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência, de Roy Andersson.

14- O Coaching e a autoajuda  parecem beber a largos sorvos no campo da hipnose. Fale-nos sobre isso.

Na verdade existem influências mútuas que também engloba a PNL; há ainda o aspecto mercadológico onde buscam posicionamento dos seus produtos e serviços no mercado hoje bastante competitivo e lucrativo.

15- Em artes marciais e terapias alternativas vê-se a hipnose sendo utilizada para fins enganosos. Comente sobre isso e diga o que pensa da parapsicologia.

Sou um adepto das artes marciais, já fui mais. Cheguei à faixa marrom em Karatê, depois pratiquei Muay Tai e até tentei a capoeira, sem muito sucesso. Todas elas ajudam a trabalhar o corpo e mente. Das terapias alternativas, utilizei a acupuntura com muito resultado – hoje o meu irmão mais novo é especialista em acupuntura e medicina chinesa.
A hipnose tem sido usada com sucesso na preparação de atletas nas mais diversas modalidades, do automobilismo ao badminton.
O uso desvirtuado, fora da ética, sem conhecimento e compromisso é comum em todos os ramos da atividade humana, não é diferente na hipnose e nas terapias alternativas.
Há dois anos tenho participado com um grupo de professores, técnicos, psicólogos da UFCG de um projeto envolvendo práticas complementares de saúde, que inclui também a hipnose, e vejo o potencial que várias terapias alternativas apresentam no conforto e alívio da existência humana, principalmente quando se dá dentro de um projeto pedagógico, com propósitos e práticas libertadoras e não  mistificadoras.

16- Como os meios de comunicação utilizam princípios da hipnose para fins nada nobres?

Tem um livro de Freud, escrito em 1921, Psicologia das Massas e Análise do Eu  em que ele preconiza na sua análise das massas esse fenômeno do mass media que ainda não existia naquela época. Por exemplo, ele diz que na massa a capacidade intelectual encontra-se sempre abaixo da do indivíduo, que as massas nunca conheceram a sede da verdade, elas exigem ilusões, às quais não podem renunciar; nelas o irreal sempre tem precedência sobre o real, influenciando tanto quanto este, e tendem a não fazer qualquer distinção entre ambas. Ele mostra, por fim, que esse predomínio da vida da fantasia e da ilusão sustentada pelo desejo irrealizado é determinante para a psicologia das neuroses. Nada mais atual, não é mesmo? Qualquer semelhança com a última eleição presidencial é mera coincidência!
Resumindo, vivemos num amplo mercado de ilusões sempre prometidas e incentivadas, mas nunca completamente realizadas. Estamos arrodeados de sugestões que dialogam colorida e ruidosamente com o nosso inconsciente – eis os meios de comunicação de massa na atualidade.


17- À luz da neurociência moderna, é possível entender plenamente o fenômeno da hipnose? O que destacaria neste campo?

A hipnose é um fenômeno neurofisiológico, que envolve um ciclo chamado Loop Hipnótico, um ciclo de influências mútuas através do qual a coisa acontece: crenças – experiências – imaginação - fisiologia.
A partir daí, a hipnose conduz a um relaxamento físico e mental, dentro do qual é possível abrir um diálogo profundo com os porões do nosso inconsciente, onde estão as nossas emoções e traumas recalcados, transformados em imagens e símbolos. Esse diálogo ocorre em uma linguagem diferente daquela do nosso consciente, que é lógica, serial, temporal. A hipnose, diminuindo o controle do consciente, faz aflorar o inconsciente com a sua linguagem paralela, simbólica, imagética e emocional. 
O famoso neurologista, Antônio Damásio, em seu livro O Mistério da Consciência, fala dos indutores de emoções através dos quais, vez ou outra, nos percebemos num estado de tristeza ou felicidade. A causa real disso pode ser a imagem inconsciente de um acontecimento passado. Ele resume: não precisamos necessariamente prestar atenção às representações que induzem emoções e que depois conduzem a sentimentos. Representações do exterior ou do interior podem ocorrer independentemente do consciente e induzir reações emocionais.
Envolvendo crenças, experiências, imaginação e a fisiologia, a hipnose pode remover ou ressignificar gatilhos emocionais ou substituí-los, permitindo que traumas do passado, esquecidos ou não, deixem de influenciar negativamente comportamentos, sentimentos e crenças atuais.

18-  Que dicas daria a quem quer se resguardar do mau uso da hipnose?

Pesquisar, conversar, buscar referências com pessoas que atuam na área. Hoje temos maior facilidade pra fazer isso.  É muito comum amigos solicitarem dicas sobre profissionais nesta área em diversas cidades e estados do país. É preciso indicar um bom profissional, tanto porque é um processo em que você investe muito das suas esperanças e possibilidade, quanto por ser um investimento bem mais caro que o das terapias convencionais.

19-  Qual a eficácia da hipnose no uso medicinal? Cite alguns exemplos dessa utilização.

O hipnotista Esadaille, um médico escocês que viveu entre 1808 e 1859, morando muito tempo na Índia, fez  3 mil intervenções cirúrgicas utilizando-se da hipnose, conseguindo inclusive 19 amputações com anestesia magnética. A hipnose era então a única forma de aliviar a dor e o sofrimento, e só deixou de ser usada com o emprego do éter e clorofórmio.
Depois de conquistarem lugar cativo em instituições internacionais de prestígio, como o Columbia-Presbyterian e o Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, ambos em Nova York, a hipnose (e outras terapias comportamentais) começaram a ser utilizadas no Brasil. Um bom exemplo é o Hospital das Clínicas em São Paulo, onde há mais de dez anos, o hipnotista Fabio Puentes, atua dentro de uma equipe multiprofissional para tratar da dor.
Na França e Bélgica, anestesistas estão oferecendo a hipnossedação, que é uma combinação da hipnose com anestesia local como alternativa à anestesia geral em cirurgias.
Hoje, a hipnose também está auxiliando bastante no parto, o “hypnobirthing” permite um parto mais tranquilo e sem dor. A Sociedade Brasileira de Hipnose há algum tempo ganhou uma licitação da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais para realizar treinamentos de hipnose com a equipe de obstetrícia do Hospital Antônio Dias.
A hipnodontia costuma ser uma cadeira em algumas universidades, como a UFBA, e permite realizar tratamentos odontológicos diversos auxiliados pelas ferramentas da hipnose.
Além do que, como grande parte das doenças tem características psicossomáticas, a hipnose consegue ajudar muito, aumentando o relaxamento, a autoestima, diminuindo a ansiedade, a depressão, dores e fobias variadas.

20- Que feitos você julga mais espantosos, dos obtidos por um hipnotizador? Você mesmo, em suas sessões, que limites dessa capacidade já atingiu?

Espanta-me sempre as possibilidades que a hipnose oferece.  Já tratei de casos de depressão profunda com tentativas de suicídio onde obtivemos êxitos surpreendentes. Tratamentos de fobias também são muito rápidos e eficazes.
Um fenômeno sempre intrigante é o da regressão de memória. Tive um professor, renomado psicanalista e hipnotista de Pernambuco, que narrou o caso de uma regressão que realizou com um jovem em Salvador. Em regressão ele afirmou que morava em Lisboa, nos meados do século XX, numa suposta vida passada. O professor enviou o nome daquela suposta pessoa para um amigo em Portugal, em algum tempo recebeu a sua certidão de óbito.
Nas sessões de regressão com pacientes de maior suscetibilidade (geralmente chamados de sonambúlicos) presenciei também coisas impressionantes, manifestações emocionais profundas, alterações de voz e comportamento, etc.
Numa dessas sessões de regressão com uma paciente, quando chegou ao útero materno ela apresentou uma forte crise emocional com choros e gritos quase convulsivos; aproveitamos o processo para realizar uma ressignificação profunda daquela representação que, de uma forma ou outra, estava tendo influências diretas nos seus transtornos de ansiedade.
Outro paciente, um jovem estudante de 22 anos, viu-se como cantor de rock nos anos 60. Em transe cantou em inglês numa pronúncia fluída e sotaque convincente. Ao final da sessão soube que ele não entendia praticamente nada de inglês, nem de música.

21- Você realiza sessões de hipnose e ministra cursos nessa área. Fale-nos sobre isso.

Através do Projeto Hypnos – que é um projeto de extensão aprovado pelo meu departamento no Centro de Educação e Saúde da UFCG e com bolsistas aprovados pela Pro-reitoria de Extensão, desenvolvemos atividades diversas. Nas escolas, com pais e professores mostramos como são construídas crenças e como estas podem influenciar positiva e negativamente na vida das crianças e adultos. Faço isso como espetáculo de hipnose de palco, mostrando na prática experiências como: comandos pós-hipnóticos, amnésia, alucinações, etc. Para alunos (da universidade e das escolas de ensino fundamental e médio) realizamos palestras-vivências com a utilização da hipnose, PNL, psicanálise e filosofia.
Na universidade tenho um gabinete oferecido pela Direção do Centro onde faço hipnose clínica. Dedico uma média mensal de 35 horas de atendimentos, completamente gratuitos, para alunos, professores, técnicos e servidores do Centro, mas também atendo alunos das escolas da região e pessoas da comunidade.

22- Fale-nos da auto-hipnose – sua eficácia e modos de praticá-la.

A auto-hipnose é um processo pelo qual a própria pessoa se conduz ao transe. Segundo Melvin Powers “Você se hipnotiza pelo poder emitido por sua própria inteligência e concentração”.  Geralmente, quando trato pacientes ofereço-lhes instruções, áudios ou textos através dos quais ele possa se utilizar dessa ferramenta.
Mas é muito fácil, basta um lugar tranquilo e a dedicação de alguns minutos para a tarefa. O transe na auto-hipnose pode ser utilizado como meditação e relaxamento; mas também possibilita tratar alguns sintomas emocionais e permite formular sugestões. Com a prática a pessoa obtém resultados surpreendentes. As etapas da auto-hipnose são: respiração e relaxamento físico e mental, indução ao transe, aprofundamento, sugestão e retirada do transe.

23- Crê na eficiência da meditação? Há alguma relação entre esta e a hipnose?

A meditação usa a respiração e o relaxamento para situarem o individuo profunda, intensa e tranquilamente no aqui e no agora. A hipnose também pode seguir o mesmo procedimento – em ambas se processa uma alteração da consciência. A diferença é que na hipnose você pode buscar propositadamente o transe, seja para aprofundar a meditação, seja para alcançar outros objetivos.

24- Seus aprofundamentos nos estudos da neurociência e da hipnose propriamente dita corroboraram sua descrença no sobrenatural? Por favor, discorra generosamente sobre isso.

O estudo do inconsciente é um poderoso desmistificador de fenômenos aparentemente místicos, comumente gerenciados por religiões diversas. Em dois livros fantásticos: O Futuro de uma Ilusão e O Mal-estar na Cultura, Freud mostra como a história da civilização se faz sobre a repressão dos nossos impulsos e desejos, e como a religião surge então numa espécie de neurose coletiva, fundamentalmente dependente de sentimentos infantis não resolvidos e de um generalizado sentimento de culpa.
No entanto, entre as pessoas de maior susceptibilidade encontra-se certo número daqueles capazes de, em transe, vivenciar fenômenos como hiperestesia, clarividência, premonição e transmissão de pensamento.
Um dos percussores da hipnose, Marquês du Puységur (1705 – 1825), que era um militar francês, verificou nas proximidades do seu castelo localizado no sul da França essa curiosa possibilidade. Pôs em transe um camponês de 18 anos que sofria de uma afecção pulmonar e nesse estado de consciência alterada ele vivenciou repouso, ao invés das crises de convulsão, e naquele estado parecia reproduzir pensamentos superiores à sua cultura de camponês e com uma linguagem diferente da sua chegou mesmo a indicar um tratamento para sua enfermidade, obtendo êxito.
 A partir daí, o Marquês passou a explorar esse fenômeno. Fazia alguns dos seus pacientes, hipnotizados, descreverem coisas que se passavam distantes ou verem, como se estivessem vendo num raio-X, o que estava ocorrendo  com os órgãos internos de um enfermo posto à sua frente.
O Barão Jules Denies Du Potet de Sennevoy ( 1796-1881)  ampliou essa linha de pesquisa, misturando mágica magnética e paranormalidade. Ele acabou influenciando na moda europeia das “mesas girantes” em sessões de magnetismo e, depois, no surgimento do Espiritismo Kardecista, por Hippolyte Rivail ( 1804-1860 )

25-  Que obras recomendaria a quem deseja se aprofundar no tema?

Para uma leitura básica inicial recomendaria: O Hipnotismo, Psicologia, Técnica e Aplicação, de Karl Weismann; Cristo Hipnotizador, de Marcos Hochhel; Hipnose, de Antônio Carreiro e Auto-Hipnose, manual do usuário, de Fábio Puentes.

26- Cite-nos alguns praticantes da hipnose dignos de nossa atenção e/ou que exerceram influência em sua prática e vida.

Destaco três grandes mestres, com os quais tive a oportunidade de estudar. O Dr. Antônio Carreiro, doutor em Ciências e professor aposentado da UFBA, escritor, palestrante e divulgador da hipnose através dos seus cursos, realizados no Brasil e na Europa – Em 2014, realizei com ele um curso em Salvador;  o psicanalista, Dr. Reginaldo Rufino, doutor em hipnose clínica pela Universidade Privada de Barcelona, presidente da Associação Brasileira de Estudos Psicanalíticos do Estado de Pernambuco (ABEPE) e Diretor-presidente da Sociedade de Hipnose do Estado de Pernambuco (SHEPE) - Ele foi coordenador e professor do meu curso de especialização em hipnose clínica no Recife, em 2016;  e o hipnotista, Fábio Puentes, que coordenou o I Congresso Panamericano de Hipnose, do qual participei, por quase uma semana, no Rio de Janeiro, em 2015.

27- Na conclusão dessa instrutiva conversa, brinde-nos com alguma reflexão baseada no tema: O BOM E O MAU USO DA HIPNOSE.

A hipnose nos últimos anos tem tido um incrível desenvolvimento e uma divulgação como jamais havia tido, seja na academia, seja nas instituições de saúde, seja através das pesquisas, na grande produção de textos, vídeos, etc. É possível, através dela, obter resultados bastante satisfatórios para fazer a vida das pessoas melhor e mais feliz.  
O mau uso da hipnose provém da sua mistificação por parte dos que a propagam como um poder pessoal – o que absolutamente não é; da falta de ética na sua utilização (como ocorre em todas as áreas e profissões) e na falta de relativização do seu uso.
A hipnose não pode substituir o conhecimento médico, farmacêutico, psicológico – deve, pelo contrário, a partir deles e respeitando as suas prescrições, colaborar com as suas técnicas e ferramentas de sugestão. Estas técnicas e ferramentas não deixam de ser surpreendentes e eficazes, mas também apresentam limites e casos de insucesso.
E, por fim, é necessário compreender e praticar a hipnose dentro de um referencial teórico e prático mais amplo, o que inclui a psicanálise, a filosofia, a psicologia, a antropologia e a neurociência, entre outros ramos de estudo.