segunda-feira, 11 de maio de 2026

CARTA AO AUTOR DO ROMANCE "NO AR": DIÓGENES CARVALHO VERAS



 Caro Diógenes,

Acabei de ler seu romance "No Ar" e senti uma premente vontade de lhe dizer algo a respeito, de lhe dar um feedback. Seu romance gira em torno de uma tragédia; nasceu de uma dor pessoal e familiar profunda. Em 2011, quando ela ocorreu, lembro-me muito vagamente de ter visto notícias a respeito. Foi algo, decerto, bastante noticiado e deve ter mexido comigo à época, mas, com o passar dos anos, acabou caindo no esquecimento.

Um pouco depois da pandemia, uma ex-aluna minha, a Cláudia Jaqueline, falou-me a seu respeito. Disse-me que gostaria muito que eu o conhecesse e o entrevistasse, pois você havia escrito um romance sobre a morte de sua esposa em um acidente aéreo. Falou-me de sua estadia em Portugal e em outros países europeus... até me enviou um link do Facebook para que eu visse seu perfil. Aquilo despertou meu interesse. Tempos depois, tive a chance de vê-lo pessoalmente em um espaço teatral, onde interagimos brevemente. Tornamo-nos amigos virtuais e, a partir daí, você foi me dando lampejos de sua história. Além disso, concedeu-me uma importante entrevista para o blog de nossa associação, a APOESC*.

Finalmente, tive acesso ao seu livro "No Ar", que prendeu minha atenção do começo ao fim. Percorri cada uma das 344 páginas de seu romance, fazendo questão de parar a cada capítulo findo a fim de refletir sobre o que havia lido. Ali, pude ver uma história habilmente contada. Para expressar o que percebi, vem-me à mente uma analogia com uma roda: temos o eixo e o cubo de onde procedem raios que dão sustentação e simetria à narrativa. Eles conduzem à flexibilidade e à relativa maciez de "ares encapsulados" que contrastam com a dureza do fato retratado, garantindo um ritmo agradável ao andamento da história.

Assim que acabei de ler seu romance, tive o desejo de pesquisar a respeito do que realmente houve, de saber mais sobre seus filhos e sobre sua falecida esposa, e fiquei encantado com o que descobri: educadora de destaque que era, sua esposa hoje dá nome a uma escola; sua filha, desde a tenra adolescência, manifesta pendor para a escrita — até lançou um livro interessante — e hoje se dedica a compor e a cantar, o que, aliás, faz muito bem. Fiquei encantado com as demonstrações de afeto e de gratidão do seu filho e de sua filha, demonstrando o bom pai que você tem sido ao longo de todas estas décadas.

Fico feliz que seu livro tenha despertado o interesse de editores europeus e tenha sido publicado em Portugal por uma importante editora, a Chiado, garantindo à sua obra um potencial de alcance internacional. Um grande poeta potiguar, Ademar Macedo, perdeu a perna em um terrível acidente e depois publicou um livro intitulado "E da dor se fez poesia". Você, de igual modo e à semelhança das ostras, extraiu de sua dor uma pérola literária.

Surpreendeu-me, também, o fato de você, em certa medida, ter vivenciado uma experiência parecida com a de Jó. Verdadeira ou não, a história do patriarca Jó deu à luz um clássico. A sua, de inquestionável veracidade, foi convertida em um livro igualmente relevante. Seu drama, expresso em terceira pessoa, também lembrou-me a figura do Bentinho, de Dom Casmurro, com o agravante de não estarmos tratando de algo puramente literário ou restrito à fugacidade de uma imaginação doentia, como a retratada por Machado. Enquanto lia, comparei seu livro com grandes obras de Dostoiévski, também nascidas de dramas pessoais, como O Jogador e Memórias da Casa dos Mortos.

Textos literários baseados ou inspirados em fatos costumam despertar meu interesse. Sei que devemos sempre manter a devida distância entre o eu lírico e o escritor, mas, no seu caso, é admirável constatar a franqueza com que se expõe e o quanto o personagem o espelha. Nas reportagens sobre o acidente que centraliza sua obra, soubemos apenas de números: 16 pessoas morreram. Você se ocupou de apenas um desses números, mas a que profundidades nos conduziu! Vimos que outras tragédias se sucederam à principal, mas você emergiu do fundo do poço trazendo os manuscritos deste texto maravilhoso, digno de ser lido por todos.

Parabéns,

Gilberto Cardoso dos Santos


*link da entrevista dada por Diógenes Carvalho veras, historiador e romancista: https://apoesc.blogspot.com/2023/10/entrevista-concedida-apoesc-pelo.html

domingo, 10 de maio de 2026

VISITANTE (poema de Marcos Cavalcanti)

 

Marcos Cavalcanti e o poeta José de Castro (2018)

VISITANTE (poema de Marcos Cavalcanti)


In memoriam do poeta Adonias Soares Pereira


Disse-me o poeta Adonias

Com sua sabedoria infinita,

Para não procurar a poesia,

Pois é ela quem nos visita.


Não adianta remexer

Em palavras de dicionário

E nem é bastante ter

Um rico vocabulário.


Já que a poesia aparece,

Seja de noite ou de dia,

Quando bem lhe apetece

Vir nos fazer companhia.


E se não a acolhermos bem,

Ela vai embora com o vento

Para os confins do além,

Onde não chega o pensamento.


É por isso que celebro

Com enorme alegria,

A opção de ser meu cérebro,

Um anfitrião de poesias.


Extraído do livro Antropofamélicas Palavras 



terça-feira, 5 de maio de 2026

FILIGRANA - Valdenides Cabral



FILIGRANA - Poema de Valdenides Cabral


 

JOSÉ EDMILSON FELIPE E SEU MAIS NOVO LIVRO

 JOSÉ EDMILSON FELIPE E SEU MAIS NOVO LIVRO


José Edmilson Felipe
É antes de tudo um forte
Que da história e da cultura
Faz necessário recorte
De além, de aquém e daqui
Em seu livro "Trairi
Do Rio Grande do Norte".

Gilberto Cardoso dos Santos



Prezados amigos, leitores do Blog da APOESC e entusiastas da nossa cultura,


é com grande alegria que convidamos todos vocês para o lançamento oficial do  livro "TRAIRI DO RIO GRANDE DO NORTE, Identidades indígena, negra e judaica" da autoria de José Edmilson Felipe que acontecerá durante a programação do 3º Encontro de Cultura Pop(ular) do Trairi. Será um momento dedicado a celebrar as identidades e as tradições do Trairy e do nosso Rio Grande do Norte.

Anote na agenda:

  • 📅 Data: 13 de Maio (Quarta-feira).

  • 📍 Local: Teatro Municipal Candinha Bezerra (Av. Lourenço da Rocha, 40 - Centro, Santa Cruz - RN).

  • ⏰ Horário da Feira e Exposição: Das 09:00 às 15:30.

  • 🎭 Programação Cultural: A partir das 15:30, incluindo apresentações e debates sobre as identidades do Trairi.

Sua presença será uma honra e um incentivo valioso para a nossa literatura. 



Professor doutor José Edmilson Felipe da Silva (Dados biográficos)

Com o auxílio da parteira de confiança da família, ele nasceu no dia 31 de janeiro do ano 1970, no sítio Baixio do Roçado zona rural de Santa Cruz, RN, sendo o quarto filho de Francisca Felipe da Silva e o terceiro de Manoel Bento da Silva. Seus irmãos são em ordem cronológica: Lana, Lúcia e José Neto. Seu interesse sobre o tema genealogia e histórias das famílias do Trairi potiguar foi motivando pela descoberta de várias reminiscências da cultura judaica, marrana e criptojudaica entre os seus parentes, a exemplo de sua avó, que jejuavam toda semana, evitava comer “comida carregada”, guardava os Dias Grandes, “cobria os santos” na semana da Páscoa, e nesses “dias santos” ou “Dias Grandes” nem mesmo tomava banho ou varria a casa com medo dos castigos divinos. Somados a isso tudo era comum também entre seus parentes o ritual fúnebre com o banho no defunto, o uso da mortalha, o enterrar em terra virgem, o luto, etc.  

Quando veio morar em Santa Cruz, no final da década de 1970, seu mundo foi ampliado de forma significativa. O contato com tanta gente que não era parente nem morava nos sítios próximo dos de seus avós paternos e maternos; o acesso à TV na rua do DNER, que ficava próximo das casas de seu “Bibi das frutas” e de seu “Roberto do SAAE”, e depois na casa desse mesmo Roberto esposo de dona Rita, foram experiências que ampliaram seu pequeno mundo. O início dos estudos em uma “classe especial” à noite, que durou dois anos, na escola municipal Theodorico Bezerra, foi outro marco. A professora Jôsa, ou Joseneide Dantas, norteou seus primeiros passos na vida escolar. Ele tem a maior admiração por ela, e ela soube disso, ainda em vida. Ela dispensou o uso da palmatória, ainda em uso naqueles anos. Dispensava os castigos físicos tão comuns para outros educadores. 

José Edmilson Felipe da Silva é formado em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mestre em Ciências da Linguagem pela Universidade Católica Pernambuco - financiado com uma bolsa de pesquisa da Fundação Ford (EUA)-, doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Dedicou-se a pesquisar a Língua Brasileira de Sinais (Libras), criou, junto com outros pesquisadores, o Grupo de Pesquisa Educação, Linguagem e Surdez, e estuda Educação de Surdos, História em Quadrinhos, Marranismo e Genealogia. Publicou em parceria o livro A Muitas Mãos: contribuição aos Estudos Surdos, Cadernos de Libras 1 e 2 (UFRN), Famílias do Trairi do Rio Grande do norte e recentemente Trairi do Rio Grande do Norte. Tem outros trabalhos publicados em anais de eventos científicos e capítulos de livros. Foi de sua inciativa a criação da Lei de Libras de Santa Cruz em 2004. Atualmente leciona Língua Brasileira de Sinais nos cursos de graduação da UFRN. 




 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

BELOS POEMAS E APELO DE JOSÉ ACACI

 


Olá, leitores e leitoras do Blog da APOESC!

É com imensa alegria que escrevo para compartilhar uma novidade literária: o lançamento do meu novo livro, "Meus Martelos em Galopes". Como um apaixonado pela métrica e pelo nosso cordel, esta obra é um mergulho profundo no ritmo e na força da nossa poesia popular.

Gostaria de convidá-los para um encontro especial na FLICOOP 2026, onde o livro estará em destaque. Para tornar tudo ainda mais vibrante, preparei um Show Poético/Musical focado exclusivamente nas poesias que compõem este novo trabalho.

Na feira, estarei muito bem representado pelas livrarias ARTBOOKS e B3S.

Um Pedido aos Amigos de Santa Cruz e do Trairi:

Além do livro, criei uma arte especial (o cartaz que ilustra esta postagem) em homenagem ao trabalhador. Meu objetivo é fazer com que essa mensagem de valorização chegue às Escolas Estaduais do nosso Rio Grande do Norte.

Peço o apoio especial dos leitores aqui da nossa Santa Cruz do Inharé para me ajudarem a divulgar essa arte nas escolas locais. A educação e a cultura caminham de mãos dadas, e nada me deixa mais feliz do que ver nossa poesia ganhando os corredores e as salas de aula.

Conto com a colaboração de todos para fortalecer esse galope da nossa literatura!

Caso queira, entre em contato comigo pelo fone/Whatsapp 84999519873 ou pelo email espacodocordel@gmail.com

Um forte abraço,

José Acaci


RESUMO E ALGUMAS POESIAS DO LIVRO MEUS MARTELOS EM GALOPES


Um livro de poesia popular nordestina, escrito em dois estilos: Martelo agalopado e galope. Tem prefácio do professor e filósofo Roberto Lima, membro da ANL, e orelhas de Aluísio Azevedo, escritor, livreiro e dono da Livraria Manibu Arte e Cultura. O livro, de 140 páginas, traz, no primeiro capítulo, as diferenças entre martelo e galope, e é composto de vários trabalhos que foram escritos há alguns anos e outros que foram escritos recentemente especialmente para o livro. Apesar de contar um pouco da minha trajetória poética, não se trata de um livro biográfico, e sim de livro de poesias cheias de lirismo, metáforas, e musicalidades que são intrínsecas ao cancioneiro dos repentistas. Durante a leitura o leitor se deleita com lindas homenagens à cultura nordestina, aos ícones da cultura potiguar, ao meio ambiente, à beleza do sertão, às mães e  à amizade, além de belas reflexões sobre a vida e sobre as relações entre as pessoas.


DUAS ESTROFES DA POESIA “GALOPE DA FEIRA”

(...)

Eu vi um programa, na sexta passada,

Falava de tráfico e de passarinho,

Mostrou que era crime prender um bichinho 

E mostrou os artigos da lei promulgada.

Porém, lá na feira, lei não vale nada;

O tráfico de aves é coisa banal,

É um desrespeito à lei ambiental,

Na frente do povo e das autoridades

Que passam do lado das atrocidades

E fazem de conta que é tudo normal.


Mestre Rui Barbosa, num seu manifesto,

Falou que um dia o homem que sonha

Com honestidade vai ter é vergonha 

De dizer ao mundo que ele é honesto.

Com esse poema da feira, eu atesto:

O “Águia de Haia” estava com razão,

Chance de mudança só com educação,

E se os políticos mudarem seus planos,

Quem sabe daqui a duzentos anos

Mudamos o rumo da nossa nação.

  


Uma estrofe da poesia “É MAIS BESTA DO QUE EU”


(...)

Meu amigo Zezim me disse um dia

Que um vizinho falou que eu era besta

E eu, besta que sou, tirei minha sesta,

Fui dormir e acordei no outro dia.

Zezim veio saber se eu não ia

Reclamar pelo que aconteceu.

Eu pensei sobre o que se sucedeu

E mandei um recado só de ida:

─ Quem se importa em falar da minha vida,

Com certeza, é mais besta do que eu.


Uma estrofe da poesia “PASSARINHOS NO QUINTAL”


(...)

Mas o tempo passou e os passarinhos,

Por não terem lugar para morar,

Se afastaram tentando encontrar

Um lugar para pousar e fazer ninhos.

Não tem mais laranjeiras com espinhos,

Nem se vê mais um pé de tamarino;

O progresso selou o seu destino;

Poucos pássaros ficaram na cidade,

E hoje, vendo um pardal, sinto saudade

Dos quintais do meu tempo de menino.


Uma estrofe da poesia “O TEMPO ESTÁ MUDANDO”


(...)

Dia cinco de junho, minha gente;

Faz lembrar nossa fauna e nossa flora,

É a data em que o mundo comemora

Como Dia do Meio Ambiente.

O poeta usa o verso e o repente

Pra dizer que “o tempo está mudando,

Mude a tempo”, que o tempo está passando

E, se nós não mudarmos de atitude,

Não teremos mais tempo pra que mude

O que a voz do planeta está falando.


Uma estrofe da poesia “MÃEZINHA QUERIDA”


Mamãe, eu me lembro dos teus cafunés,

Que quando criança você me fazia,

E quando, cansado, depois que eu dormia,

Você, com carinho, cobria meus pés.

Eu sei quem tu fostes e sei quem tu és:

És boa lembrança que hoje me invade,

Estás noutra face da realidade.

No céu, és um anjo guiando minha vida,

Lembrando tua face, mãezinha querida,

Não sinto remorso, só sinto saudade.

PARABÉNS, TRABALHADOR! (poema de Adriano Bezerra

 




PARABÉNS, TRABALHADOR


A cada trabalhador

Que enfrenta a correria,

Da rotina do trabalho 

Com coragem e valentia 

Para que não falte o pão

A minha admiração 

Parabéns pelo seu dia.


Seja você um vigia,

Um gari, um professor,

Moto-taxi, moto boy,

Taxista, encanador,

Arquiteto ou engenheiro,

Ajudante ou o pedreiro,

Jornalista ou locutor.


Vigilante ou zelador,

Marceneiro, ou artesão,

A doméstica, o agricultor,

Que cuida da plantação,

A cantora ou o cantor,

A atriz ou o ator,

Que sai na televisão.


Piloto, caixa, escrivão, 

Repórter, radialista,

Piscineiro, entregador, 

O mecânico, eletricista, 

Advogado, doutor,

Agente, supervisor, 

Cabeleireiro ou frentista. 


Açougueiro, motorista,

Manicure, tecelão,

Torrista, juiz, padeiro, 

Bombeiro, tabelião, 

Enfermeiro, delegado,

Esteticista, soldado, 

Alfaiate ou capitão...


Não importa a profissão

Se é gari ou se é doutor

Se não foi nem a escola,

Se tem grau superior

Importa a sua batalha,

E o amor com que trabalha

PARABÉNS, TRABALHADOR!


Adriano Bezerra 

Santa Cruz-RN



domingo, 15 de fevereiro de 2026

TRISTE CANÇÃO - José de Castro














TRISTE CANÇÃO

(Poema inspirado em tela de TulioRatto TR)

Eu toco o meu violino
Em claves de emoção
Timbre suave e bem fino
Das cordas do coração

Eu toco a minha rabeca
Ressoa triste canção
A vida me fez peteca
A voar de mão em mão

Vida afora vou tocando
As cordas do meu destino
A velhice vem chegando
E de novo sou menino

O tempo corre ligeiro
Vou seguindo por aí
Hoje sou um estrangeiro
Em busca eterna de si.

(José de Castro)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

FREI GILSON, O MOTORISTA E A PRAIA - Gilberto Cardoso

 


FREI GILSON, O MOTORISTA E A PRAIA

 

Um dos prazeres que tenho quando viajo é o de conversar com motoristas de aplicativos.

Geralmente são conversas curtas enriquecedoras ou amenas, aparentes bobagens que são prato cheio para quem escreve besteiras.

Os que andam comigo dizem que transformo estas viagens em sessões de entrevistas. Como alguém já disse, “Tudo que é humano me interessa profundamente”. Às vezes encontramos motoristas cultos, dispostos a falar, e outros bastante simples, mas de prosa agradabilíssima. Os chatos também marcam presença no aplicativo e nos fazem relutar em dar 5 estrelas.

Quanto ao que agora apresentarei, compete a vocês classificarem.

Nossa viagem foi pela manhã, pouco depois das seis. Íamos à praia. Perguntei-lhe sobre o evento da noite anterior ocorrido na orla com o Frei Gilson, se havia sido bom para ele.

“Foi e não foi”, disse-me (no primeiro “foi”, pôs ênfase vocal). “Muita gente na cidade, mais de 500 mil pessoas, mas o trânsito ficou horrível. Não faltavam chamadas no aplicativo, porém o trânsito emperrava tudo e a gente perdia tempo e gasolina. Mas foi maravilhoso ver nossa cidade cheia de turistas de vários lugares, até de outros estados. Mas isso já era esperado, pois Frei Gilson tem mais de 20 milhões de seguidores.”

Vinte milhões!?, exclamei. É gente demais.

“Na verdade ele tem e ao mesmo tempo não tem 20 milhões de seguidores”, depressa corrigiu-se o motorista. “... porque muitos deles o seguem em mais de uma plataforma. Vamos dizer que tenha uns dez milhões ou menos. Mesmo assim ainda são muitos!”

O Frei Gilson é o novo Frei Damião, até pelo modo como se veste e talvez seja da mesma ordem, comentei sem muita convicção do que tinha dito.

O motorista, após certos trejeitos faciais que sinalizavam discordância, disse: “É e não é o novo Frei Damião.” Mais uma vez, percebi ênfase na primeira palavra. “Trata-se de uma outra dinâmica e realidade. Frei Gilson tem se envolvido muito com política. Apresenta um perfil de direita bastante ostensivo. Já assisti algumas pregações dele e vi que ele é uma bênção para determinados políticos e uma maldição para muitos eleitores.”

Por associação, lembrei-me de fotos de Frei Damião com Fernando Collor e outros políticos da época, do aval que dera aos protagonistas do golpe de 64. A única diferença, talvez, esteja na ausência de sotaque italiano nas falas do Frei Gilson. Outra diferença é que Frei Damião não criticou o mandato de Lula, talvez por falta de oportunidade, pois morrera 5 anos antes.

“Aliás...”, disse-me Romualdo, o motorista magro cheio de reflexões, afastando-me das divagações. “... não entendo porque a igreja permite que ele celebre missas na Internet e ao mesmo tempo proíba Júlio Lancelotti de fazer o mesmo. Analisando melhor, eu digo que não entendo, mas entendo!”. Ênfase na última palavra desta vez. “A igreja sempre foi conservadora e aliada à classe política de direita”. Neste momento, aproveitando que estávamos parados no sinal, voltou-se para nós expansivo, fazendo gestos manuais: “Quero até pedir desculpas a vocês por estar dizendo estas coisas, pois pode ser que sejam admiradores de Frei Gilson e se sintam ofendidos”.

Como ninguém se pronunciou no carro, eu o tranquilizei. Disse-lhe que não somos ligados à igreja, tampouco conservadores. “E você”, perguntei. “... é católico?”. Fez pequena pausa e respondeu: “Sou e não sou...”. Ênfase no primeiro “sou”; depois, deu um sorriso à Monalisa ao qual não correspondi. “Gosto mais da linha do Frei Beto e de Júlio Lancelotti. Este último, sim, faz um trabalho maravilhoso, semelhante ao de Jesus: alimentar os famintos e agasalhar os com frio. Talvez a igreja queira escanteá-lo exatamente por fazer o que Jesus mandou!”

“Faltou você citar Leonardo Boff, também perseguido pela Igreja”, disse eu, tentando colaborar com seu pensamento. Mas logo veio a réplica:

“É...! Eu também gosto de Boff, mas acho que ele é e não é católico. Ele, de fato, deu motivos para que a igreja o silenciasse. É quase um ateu.”

Como fiquei em silêncio, prosseguiu: “As pessoas dizem que não devemos discutir religião, mas eu penso que não devem e ao mesmo tempo devem tratar deste assunto”. Ênfase no “devem” final. “Depende do modo como o tema é abordado.”

Olhou-me de lado como a querer ver o impacto de suas palavras. Acrescentou que a religião faz parte da vida, dá sentido à existência e que, por causa dela, havia muita coisa boa e ruim na sociedade. Revelou que queria se aprofundar no conhecimento dos pais da igreja cristã e que começaria por Santo Agostinho. Tinha tentado, dias atrás, ouvir o audiobook do livro Confissões durante as viagens, mas percebera que os passageiros não aprovavam. Teria que arranjar um tempinho extra.

Neste instante minha esposa o interrompeu, tentando mudar o rumo da prosa. Perguntou se o lugar para onde íamos era legal.

“É e não é.”, disse. “Mas não vou entrar em detalhes para não estragar o passeio de vocês. Estive lá uma vez. Há umas coisas que gosto, outras não. Vão lá e tirem suas conclusões.”

“Muito bem, Hamlet, ou melhor, Romualdo. Não dê detalhes”, sugeri eu. “Em breve descobriremos por nós mesmos se presta ou não.”

Romualdo perguntou-me rindo por que eu o chamara de Hamlet. Expliquei-lhe que havia sido um lapso.  E conclui a explicação com a famosa frase “Ser ou não ser: eis a questão!”

Fiz-lhe uma última pergunta: “Você é daqui mesmo?”

Silêncio total no carro por parte dos passageiros. Aguardávamos ansiosos um padrão de resposta e não fomos decepcionados:

“Sou e não sou. Nasci em Uberaba, mas vim pra cá com meus pais ainda bebê. Aqui me batizei. Portanto, sou daqui e ao mesmo tempo mineiro.”

Desejei-lhe um feliz ano novo. Replicou que, se Deus quisesse, ele teria e não teria uma boa entrada de ano, pois passaria trabalhando.

“Tudo de bom pra você, Romualdo. Você amanhecerá o ano novo com um bom saldo na conta”. E acrescentei: “... ou não, pois vai depender do trânsito, não é mesmo?”.

Havíamos chegado ao destino. Ele teve dificuldade de encontrar uma parada adequada para deixar-nos. Disse que seria em um ponto intermediário.

Iríamos descobrir em breve se seria ou não legal o passeio pretendido. Ficamos a refletir sobre a personalidade e ideias do Romualdo, enquanto buscávamos a passarela vista na net.

Não muito distante, próximo a uma pequena elevação sombreada, vimos um grupo animado cantando. Estavam uniformizados com camisetas coloridas onde se destacava a imagem do Frei Gilson. Um violonista, com mãos não muito hábeis, tocava o instrumento enquanto os demais cantavam um dos sucessos do pregador. Notei que a fé e os instintos aproximavam aqueles jovens no ambiente paradisíaco.

Devem ter participado do evento de ontem, pensei, e aproveitaram para vir à praia, em vigília, talvez. Seria gente do interior? Estariam hospedados ali por perto?

Fomos em sentido oposto ao do grupo e começamos a produzir alimento para o feed do Instagram. 

 Vi na areia algo lindo, colorido, que despertou meu lado criança. Seria uma flor exótica? Parecia um pastel transparente ou empanada. Pensei que fosse um brinquedo perdido intacto ou um prendedor de cabelo   infantil. Quando me agachei para apanhá-lo, um homem avançou como se quisesse pegá-lo, como quem diz “Eu vi primeiro!”. Deu-me um empurrão. Antes que eu esboçasse qualquer reação, explicou, enquanto me segurava, que aquilo não era um objeto; tratava-se de um ser vivo muito perigoso chamado caravela-portuguesa. "Bem pior e mais venenoso que a água-viva", disse-me. "A dor da queimadura costuma durar dois ou três dias", acrescentou.

Desculpou-se pelo gesto agressivo, acrescentando que aquilo me salvara de alguns dias de tortura. Pediu que tivéssemos muito cuidado, pois havia visto várias naquela manhã.

Duas pessoas com camiseta de frei Gilson se aproximaram. Um deles, com aspecto de europeu, apontou para o ser marínho e disse: "Sifonóro. Cdinário. Hidrozoária".

Imaginei: "Até estrangeiros vieram ver Frei Gilson!". Não eram. Tratava-se de um estudante de Biologia Marinha. Referia-se ao inconsciente pivô  da cena.

Fiquei feliz pela família não ter filmado nem fotografado o momento em que fui imobilizado. Quanto ao mais, foi tudo tranquilo. Gostei e não gostei.

 

Gilberto Cardoso dos Santos


  Contatos do autor: Fone 84 999017248;  Gmail, Instagram e Facebook: gcarsantos

Livros publicados:

 

 

 


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

IDEIAS CRUZADAS

 


IDEIAS CRUZADAS


Passa horas sentado na poltrona, piscando os olhos a cada três segundos. A fome é recebida com alegria, pois testemunha que ele está vivo. Os mortos cochicham em seu ouvido: venha pra cá. Ele sabe que isso é uma forma de mentir para si mesmo.

Brinca com as crenças para conseguir sociabilidade. Acredita que estão todos perdidos, inclusive ele. A diferença é que percebe com clareza seus desatinos, evitando se iludir com as autopromoções de um ego inflado.

Alguém ali perto fala dos bombeiros e dá risadas, acompanhadas por quem antes estava sério e que, consequentemente, transforma-se à condição de risonho. Que droga! Há interferência do meio externo para que ele saia do tédio. Sua existência é questionada por si mesmo, até que se levanta para desligar uma torneira.

As quatro pernas da cadeira permanecem de prontidão, caso ele não queira cair. Levanta-se segurando no espaldar. Os passos são controlados pela insegurança. No caminho, uma boca acesa no fundo de uma panela chama-lhe a atenção.

Volta à posição inicial, de pernas cruzadas. Seu único divertimento é esperar o tempo passar, reforçando o ofício de desocupado praticante. Por mais que faça projetos, ele esbarra na certeza de que um dia irá apenas ficar deitado, olhos fechados, sem forças para abri-los ao final.

A água fervida vai para outra vasilha, carregada por mãos carentes de hidratação. O mesmo corpo que exige conforto encontra lazer em se manter hidratado, saciado e amparado, fazendo parte dos oito bilhões de organismos correndo em direção a um sanitário. Não há evolução. Um batalhão querendo se livrar das carências; outros, seguindo leis sem resultados práticos.

No intervalo do sono, o relógio mudou de posição por algumas horas, dando tempo para o feijão ser cozido. Um brinde trazido das terras de Pablo Neruda observa as tampas das garrafas que um dia serão retiradas por ele. Um ímã, enfeitado com a palavra love, paira na lateral da geladeira. Foi recebido em troca das novidades cuspidas com entusiasmo numa tarde de sábado, regada a muita alegria e atenção redobrada. Sua amiga, de macacão verde, promete outras viagens para daqui a seis meses. “Venho contar”, diz ela, na despedida.

A noite chega sem avisar, percebida pelos cliques dos interruptores. Um ferro de passar empurra a roupa ex-amassada para dentro do closet. Mais um esforço desperdiçado para acompanhar a moda do bem-vestido. Suprir as necessidades básicas já não basta. É preciso andar limpo, asseado, bem-apresentável. Tudo isso surge como se fosse natural.

A cabeça faz o papel de um relógio, tendo o pêndulo se transformado em tronco e membros, guiados pelo tique-taque de um relógio de parede. Este funciona a corda; aquele, a marca-passo; um registra horas, o outro, ideias.

Seu mundo espiritual foi diluído e triturado na máquina da realidade. O lado filosófico ficou sem voz ao ver um casal transformado pelo tempo. Ele chora ao perceber que também está se transformando em um estranho diante do espelho. Tenta se acostumar com sua nova aparência de monstro enrugado, e só não se suicida porque o sono faz isso por ele. 

Dorme cansado pelo peso de manter a corrente sanguínea passando pelos becos escuros das artérias. A escuridão empurra o resto de vida para debaixo dos lençóis, assim como o desprezo da vassoura empurra a poeira para debaixo do tapete.

Sua dignidade foi trocada por um alívio fugaz à base de paracetamol. Sofrimento com juros compostos. Está rico de problemas pessoais, convertidos em peso na consciência.

Permanece com saída apenas para cima. Seu joelho clama por descanso. Apesar de tudo, está contente por transitar no caminho usado pela maioria que sente inveja de quem está morrendo.

Mais uma noite está indo. Ele olha ao redor e não encontra ninguém para conversar. Todos estão ocupados em manter problemas oriundos das reações químicas do medo. Ele sabe que não adianta tentar contato fora do circuito do trabalho, então se conforma com o inconformismo inerente a quem perde o poder.

Precisa, urgentemente, investir em uma mulher artificial para trocar ideias. Uma que não se canse nem sinta vergonha de possuir uma bateria infinita, com programação de meiga, simpática, sensual e desbloqueada de pudor.

Quer que essa namorada venha pelos correios, embalada em plástico-bolha e pronta para uso, com HD cheio de estímulos, programada para aturar seus devaneios, seus debates infrutíferos e capacitada para responder sorrindo a agressões verbais.

Guardará ela no armário, com cuidado para que não caia nas mãos de estranhos. Quer uma completa, inclusive com autodefesa mortal contra desconhecidos. Por outro lado, teme ser confundido com um inimigo, mas a carência é tanta que decide fazer o pedido, mesmo correndo o risco de ser eletrocutado.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 20.01.2026 – 14h37min.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A COSTURA DO TEMPO

 


A COSTURA DO TEMPO 


O fundo é olhado com atenção. Entre os dedos, a ponta da agulha ficou para baixo. Dedos enrugados tentam passar a linha… linha, agulha e dedos se acasalam. O tempo espera essa manobra. Finalmente… não, ainda não foi concluída a tarefa.

É uma manhã de verão. Como era de se esperar, o sol surge com seu protagonismo de secar roupas, enrugar dedos e esquentar agulhas. O vento tímido não atrapalha o fogo, que esquenta a água para o chá — ou melhor, para o café. Chá ou café pouco importa, assim como a vida útil da agulha também tem pouca importância. A linha podre já perdeu seu branco vivo; hoje sobrevive amarelada, assim como o rosto da dona dos dedos enrugados.

A sandália convive com outros tipos de dedos da mesma idade. Dedos que nunca passaram uma linha pela agulha. Para estes, a realidade são bichos-de-pé, esbarrões na quina dos móveis e unhas encravadas. Duas realidades distintas para a mesma nomenclatura, assim como seres humanos das classes A e D.

A água borbulha. O fogo é desligado. O café é coado, bebido e desce pela garganta abaixo da matéria em formato de gente. A cafeína é deslocada para o cérebro, que mantém a atenção na agulha. Neurônios sentem-se confortáveis a ponto de indagarem se não haveria algo mais importante a fazer além de se preocupar em costurar. A hospedeira de tais neurônios não se dá ao luxo de pensar diferente. Sua vida inteira foi fazendo o que está a fazer.

O vento leva os retalhos pelo chão de cimento. Pedaços de linha acompanham o cortejo. Aos poucos, as nuvens cobrem o sol; eis o motivo de se precisar acender a lâmpada do ateliê pouco iluminado. A lâmpada queimada deixa a penumbra fazer a festa. Gavetas são abertas por mãos conhecidas pelas rugas, mas não encontram uma nova para trocar. O cérebro indaga se não seria melhor fugir daquelas necessidades banais. Ir embora para longe daquele corpo que precisa de linha, agulha, lâmpada, café, fogo… Ah!, pensa o cérebro, como seria bom viver apenas pensando, sem precisar executar.

O sol volta. A lâmpada nova é deixada para as próximas compras. Daqui a pouco. Que pouco? Poucos dias, poucos meses? Não há tempo para essa resposta. O tempo seleciona as respostas a cada tic-tac. A fila anda, mesmo estando parada. Esse malabarismo verbal nem chega a ser cogitado. Há pressa em colocar a linha na agulha; por isso, o prazer de questionar é eliminado antes de criar raízes, deformando o ser pensante em uma máquina executora de tarefas.

O vulcão, há milhões de anos inativo, volta a expelir lava. No ateliê, ao pé da montanha, a xícara de café acabara de ser lavada. Tremores dificultam a paz. Toda a atenção é voltada para a capacidade das pernas apreenderem a corrida. Cada um faz sua parte. Tudo pronto para a fuga.

Três anos depois, os bombeiros, retirando a lama dos corpos petrificados, encontram uma estátua tentando colocar a linha numa agulha.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 14.01.2026 - 09h42min.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

QUARTO VAGO

 




QUARTO VAGO


Devagarinho, procura uma ideia no meio do pensamento, como quem procura uma agulha em um palheiro. Até para pensar dói. Seus janeiros acumulados já somam bastante, e agora mais um está começando. Precisa descansar o dobro do tempo após qualquer tarefa realizada. Isso lhe chegou gritando na ressaca do espumante ingerido no pipocar do Ano-Novo. Doenças genéricas tomaram conta dos convidados, a ponto de um casal se ausentar porque a filha apresentou febre alta. Ninguém escapa da manutenção do corpo, pensa, ainda deitado, com a brisa ensolarada invadindo o quarto do hotel.

Examina as forças restantes e encontra fragmentos de sensatez implorando para que entregue os pontos à aposentadoria. Precisa olhar para a própria existência como um cientista examina uma ameba ao microscópio.

Seus sonhos estão se esvaindo, deixando-o solitário no meio da vida. A floresta dos anos passados, com suas árvores de acontecimentos, contrasta com o deserto do futuro, que se estende a perder de vista. As mesmas árvores brotam a cada segundo, sem apresentar novidades.

Escuta vozes vindas da cozinha. As mulheres preparam o café enquanto ele não quer se levantar. O que lhe faz bem é permanecer inútil, fechando e abrindo o punho para averiguar o restante das forças. Os sinais da desarmonia do corpo vêm em forma de dores. O cotovelo direito pede descanso do jogo com a raquete; as panturrilhas também. O raciocínio lento o impede de devolver a bola rápida que chega pelo caminho tão batido da quadra simulada. Perde o tempo da bola, mas teima em reiniciar quantas vezes for possível, tentando trazer para si o domínio do foco — por enquanto, em vão.

Relembra a conversa da convidada sobre a própria mediunidade, deixando-o entediado. Que besteira é falar de algo que não se pode provar. Isso não traz nenhum benefício prático.

A cor branca dos cabelos torna-se mais branca a cada encontro; a barriga saliente continua a dar a impressão de gravidez. Será que homens barrigudos nutrem esse perfil pelo desejo inconsciente de também poderem engravidar, assim como mulheres que usam calça pelo desejo inconsciente de urinar em pé?

Espanta essas interrogações sem respostas precisas e vai para o limbo. Lá só há anjos que não precisam digerir para sobreviver. Basta um sopro e lá se vão pelo caminho, sem gastar combustível. O ideal humano passa pela capacidade de se fixar no mundo dos deuses, onde não existem dores e, consequentemente, não existem imperfeições.

Volta ao que interessa: seu corpo. Seu desejo de dormir em um banco de praça, longe da praça, está se realizando. No jardim do hotel há um, pouco iluminado. Pensa na canção que fala disso e experimenta, satisfeito, sem receio de que chegue um guarda para impedi-lo de experimentar a decadência humana.

Os dias passam, carregando-o para longe da juventude. Os problemas chegam junto com o sol. São digeridos durante a manhã, vivenciados à tarde e remoídos a cada pesadelo interrompido para beber água. Será que todos da raça humana passam por isso? Insetos, vírus e bactérias também. Estão vivos — e esse é o preço para continuar vivendo, pensa, já sem esperança de se livrar dessas limitações.

Janeiro está indo. Outros virão, trazendo chuva, que o espanta por ter esquecido o que é. Água caindo de cima? Alguém está com uma mangueira. Suas lembranças da chuva foram embora, e a tempestade o impressiona. Como é possível? Sua capacidade de fazer perguntas continua, igual à de uma criança. Ninguém lhe responde, por não ter interesse em conversar com quem pergunta a mesma coisa a cada minuto.

A capacidade de criar problemas ampliou-se. As pessoas se afastam, evitando-o. Os futuros beneficiados torcem pelo seu fim definitivo. Ele, no fundo do cérebro, cata um momento de lucidez; porém, sua autoestima leva-o ao modo economia de energia, como um celular ultrapassado esquecido em uma gaveta de um hotel de repouso.

Vê, ali perto, alguém depositar mais um idoso ao seu lado. A cadeira de rodas substituiu um possível engatinhar. Ninguém aceita ver um idoso se arrastando. Ele pensa que é uma criança. Chora por não o deixarem ir para o chão. Sente-se desconfortável com uma jovem limpando sua baba.

Restabelece a conexão com o presente. Chega a hora da sopa, do caldo com pão e queijo assado. No refeitório, pessoas desgastadas pelo tempo dividem a mesma mesa. Ao lado, alguém se engasga. Correm para salvá-lo, conseguindo uma morte sem sofrimento.

Daqui a pouco, a movimentação será grande. Haverá padre, familiares chorando, mas a vaga no quarto será preenchida já amanhã. A morte passa a ser motivo de festa. As funcionárias receberão gorjetas gordas, e ele se interroga qual será a data em que irão surrupiar seus pertences e vender seu crânio dissecado para colecionadores.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 13.01.2026 – 15h19min.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

LUCIDEZ EM RUÍNAS

 


LUCIDEZ EM RUÍNAS


A luz penumbrada deixa-o consciente de sua insignificância. Já não tem a preocupação de que alguém esteja prestando atenção no que faz ou diz. Sua latinha de aguardente fora ingerida, e só lhe restava esperar que o sono cumprisse seu papel de tirá-lo daquela realidade da qual quer fugir.

Ao longe, um barulho alternado de gritos eufóricos o faz relembrar a juventude passada naqueles ambientes festivos. Que valor teria agora? Suas antigas namoradas estão idosas — algumas mortas, outras dementes — e ele ali, remoendo os tempos de glória.

Embaixo da cama, dormindo ou fingindo dormir, um cão cego, companheiro de tantos anos, já quase não late; geme, coberto de carrapatos a lhe sugar.

Agora ele brinca com os pensamentos. Ainda bem que tem vasto material para explorar. Lembra-se dos quatro caminhões consumidos na farra. Isso já não tem importância, nem para ele nem para os colegas atuais, que sabem de cor as histórias por ele repetidas.

A madrugada é cruel. Mata aos poucos, torturando-o com a falta de plateia e de sono. Pensa em levantar o braço para coçar a cabeça. Esse movimento torna-se motivo de entretenimento. Pensa, espera alguns segundos, abre a mão, levanta o braço imaginando ser um guindaste erguendo a Torre Eiffel. Toca a cabeça e, finalmente, massageia o couro cabeludo. Aos poucos, vai descendo o braço, exatamente como alguém que aguarda a cadeira elétrica. Precisa desses truques para manter o pensamento no tempo presente. Tudo de que gosta consome sua aposentadoria lentamente, a ponto de contar os centavos restantes para suprir sua vontade de permanecer gordo. Uma das tarefas que lhe restam é andar dentro de casa, contando os passos, sentindo o peso do corpo produzir dores nas articulações gastas pelo esforço de peladeiro de fim de semana.

Ninguém mais para esbarrar nele. Olha para uma rede, enrolada em um gancho, esperando que ele a desenrole, retire-lhe o mofo e as teias de aranha que servem de enfeite. Pelo menos algo para relembrar a importância do trabalho. Será que a aranha está estressada pela falta de mosquitos? Finge ser uma delas ao lembrar quanta teia precisou para segurar uma amante: joias, carros, restaurantes… Suas teias despedaçaram-se. Ele se sente uma aranha sem teia.

Isso é depressão? Antes fosse; pelo menos se divertiria olhando nos olhos da estagiária de psicologia. Observaria sua pele jovem, seus olhos cheios de esperança; testemunharia a ingenuidade do início de carreira. Mas ele é inteligente, e cada tristeza é logo diluída pelas interrogações que faz sobre o próprio estado de espírito.

Ah, como era bom quando se iludia com os sentimentos amorosos. As decepções eram levadas a sério. Acreditava que o amor existia só porque sofria a cada romance desfeito. Era tudo jogo de interesse. 

Quanto tempo precisou para perceber o quanto era escravo dos hormônios?

Perceba ele ou não as limitaçoes humanas, a madrugada permanece, dizendo-lhe que está preso a outro tipo de experiência. É como se fossem molduras, enquadrando-o em realidades encaixadas de acordo com a idade. Parece estar em uma esteira de linha de produção biológica que vai acrescentando memórias, rugas, dores — tudo isso com o único objetivo de moldar o pensamento. Mas ele está maduro demais para cair nessas ciladas armadas pela condição física, pelas repetições do sol nascer, do galo cantar ou da chuva batendo no telhado.

Será que a capacidade de perceber as armadilhas não é, ela própria, uma armadilha?

O senso crítico o aprisiona. Sente-se vítima do sistema digestivo, tão complexo quanto o financeiro. O corpo pede descanso. Ele se dá fadiga ao ir ao mercado buscar restos de fim de feira. Tem vontade de catar lixo, de sentir o olhar discriminador dos que catam milhões na bolsa de valores, mas é orgulhoso demais para isso.

Os dias se arrastam enquanto ele passa invisível no meio da multidão, lotada de caras deformadas pelo trabalho. As maquiagens derretendo-se ao sol escaldante têm, para ele, o mesmo significado do rosto suado do estivador. Como é cansativo se deixar assar pelo sol. Analisa a corrente de ar e chega à conclusão de que o papel dela é infectá-lo de vírus. A natureza usa suas armas sutis para exterminá-lo. As estações do ano, com seus choques térmicos, também lhe tiram a força.

Permanece prisioneiro da missão de ser educado, pedindo desculpas até por ainda respirar sem ajuda de aparelhos. Tem consciência de que está sendo assassinado pelo tempo. Cada segundo é como uma punhalada em seu coração, que bate distante e sem pressa até na hora do medo.

Tem vergonha de não ter tido coragem de ver a mãe sendo dilacerada pelos vermes. Preferiu que isso acontecesse debaixo da terra; por isso fez com tanto esmero o enterro dela. Ninguém para fazer o seu.

Olha para uma banca de verduras ao lado de um esgoto a céu aberto e percebe o ambiente gritando “Fracassado” em seus ouvidos. Ninguém precisa relembrar sua atual condição de morador do fundo do poço. O bêbado, dormindo na calçada, faz isso sem muito esforço.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 29.12.2025 – 07h01min

domingo, 28 de dezembro de 2025

MOMENTOS FUGAZES - Silas Medeiros Cruz



MOMENTOS FUGAZES


Por que são tão fugazes os momentos mais sublimes? 

Por que tão encurtados os instantes em que verdadeiramente se sente? 

Há por acaso um mortal que declare inabalável hoje: estou satisfeito e contente? 

Antes fosse assim!

 

Será que ninguém se apercebeu, nesta vida tão onírica, que, quando as gloriosas epifanias se dignam de cumprimentar-nos, quase sempre despercebidas terão elas passado? 

“Que desperdício!” Assim deveria encerrar-se as alegrias e os lamentos de todos os homens, e seus planos. Que desperdício do viver; de seus regozijos, tormentos e até dos seus sonhos!

Ah, momentos saudosos! Só agora vê-se quanto impropério vos legaram os tolos flagrantemente. 

Esses sem rumo ou sabedoria, andarilhos sem destino, que vos ignoram impunemente. 

Deixa-me, no entanto, peço eu bem agora, entendendo o que dantes me era obscuro, 

Que num relance final não me seja negado corrigir, ao menos em mim, tamanho absurdo – tal atitude funesta.

 

Que apenas desta vez, ainda que neste mui breve suspiro, absorvido, absorva eu a vida, o mundo e tudo que me resta.


Silas Medeiros Cruz