BELOS POEMAS
E ALGUMAS PALAVRAS SOBRE ALEXEI BUENO (Gilberto Cardoso dos Santos)
O poeta,
ensaísta e tradutor carioca Alexei Bueno teve seu encontro com a indesejada das
gentes, segundo Bandeira; com a Onça
Caetana, segundo Ariano. Faleceu no Rio de Janeiro vítima daquela doença: de
câncer no fígado. Felizmente, em vida, foi reconhecido como uma das vozes mais
importantes da poesia brasileira contemporânea. Sua obra se destacou pelo rigor
formal e pelo diálogo profundo com a tradição clássica. Tânatos, que tanto o
inspirava, não o poupou. Vítima da invencível foice, foi-se aos 63 anos. O
pêndulo de sua existência (como diria Schopenhauer) oscilou entre 26.04.1963 e
27.06.2026.
Suas
contribuições literárias são muitas:
Publicou mais
de uma dezena de livros de poesia, entre eles Lucernário (1993), Os resistentes
(2001), Anamnese (2016) e A chave quebrada (2026).
Premiações:
recebeu o Prêmio Jabuti em duas ocasiões, além de distinções da Academia
Brasileira de Letras, da Biblioteca Nacional e do Prêmio Fernando Pessoa em
Portugal.
Editor e
organizador: responsável por edições de obras completas de autores como Augusto
dos Anjos, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Vinicius de Moraes e Álvares de Azevedo,
entre outros.
Tradutor:
verteu para o português obras de Gérard de Nerval e poemas de Edgar Allan Poe,
incluindo uma notável tradução de O Corvo.
Sua produção
atravessou quatro décadas e consolidou-o como um dos grandes nomes da poesia
brasileira contemporânea.
Sua morte,
sem dúvida nenhuma, representa uma perda significativa para a literatura
nacional. Ainda bem que sua vasta obra permanece.
ONZE POEMAS DE ALEXEI BUENO
I
EU FUI UM LOUCO
Eu fui um louco que viveu cem anos
Compondo um gigantesco manuscrito...
Madrugadas profundas de proscrito
Gastei sobre o papel dos meus enganos.
Memórias dos delírios mais insanos,
Razões petrificadas de algum grito,
Anotei, registrei, pus por escrito
Na chama congelada dos meus planos.
Quando enfim fui chegando junto à morte
Vi que tudo escrevera, e ri da sorte,
Que as páginas tocavam já nas sancas.
Foi aí que enxerguei, oh! dor distinta!
Que nunca na caneta houvera tinta,
E a morte entre um milhão de folhas brancas!
II
CONSTATAÇÃO
Corrente de amanhãs, vício de auroras.
Outro dia, outro dia, outro, por quê?
Agoras a exigir outros agoras,
Barco sem mapa, cais que não se vê.
No alto, a bandeira rota, e o lema: até.
Tudo incompleto. As horas, mães das horas,
Partindo inúteis. Novas, as escoras
Certas que a torre lhes cairá ao pé.
Ser fragmento, ser caco, ser a corda
Que não se amarra em nada, o elo partido,
O escorrer puro, o rio sem sentido,
A mão que segue adiante e nada aborda,
O que não é daqui, o que é a loucura
E o orgulho de seguir na selva escura.
III
EX-VOTO
Fora de ti, poesia,
Nunca vali um nada.
Que a tua mão sagrada
Me acene mais um dia.
IV
TRAJETÓRIA
Onipresente
Melancolia
Que entre a alegria
Sorris prudente.
Sombra latente
À luz do dia,
Mudez sombria
Que o som pressente.
Por te vencermos
Percorreremos
Longínquos ermos,
Lá dançaremos
E expiraremos
Sem te esquecermos.
V
AO MENOS
As vidas passadas
Talvez tenham tido
Grandes madrugadas
Com maior sentido
Do que os nossos nadas.
Mas em nós saltita
Seco, o coração,
Esponja maldita
A se inflar num vão
Onde ninguém fita.
A pular vermelha,
A encolher-se langue,
Suja bomba velha
Bêbada de sangue
Que só o nada espelha.
Que se estique e encolha
Até a hora em que estoure,
Ridícula bolha
Sem um só que a chore,
Sem quem a recolha.
E então tombe gorda
Dentro de si mesma,
Brinquedo sem corda,
Ressecada lesma
Que já nada acorda.
E ali, sem mais ânsia,
Imprestável odre,
Suma na distância,
Sem a dança podre
Que fez desde a infância.
Mas de ao menos nós
Que o sofremos tanto,
Que ele deixe após
Tanto pranto e espanto
Viva a nossa voz.
VI
AS VELHAS
Elas nos olham, mas não vêem nada.
Sua vida é a que foi, muito lá atrás.
São quase máscaras, mascando o nada,
E em seus olhos há um charco, não a paz.
Como em molduras, nas janelas, duras,
São pré-retratos, mas dirão: de quem?
Fitam o amor e a fúria, aves obscuras
No batente-poleiro que as sustém.
Sabem, no quarto escuro que é o seu dia,
Que não são deste mundo. A sua voz,
Se existisse, a nós, sãos, perguntaria
Se porventura sê-lo-emos nós.
VII
NOTURNO
Sobre os seus saltos, sob a lua cheia,
Os travestis desfilam como garças,
Farsa carnal em meio às outras farsas
Que o mundo absurdo no aéreo chão semeia.
São deusas-mães usando liga e meia,
De ancas imensas, madeixas esparsas,
De enormes seios, piscando aos comparsas,
Buscando otários para a escusa teia.
São Vênus neolíticas chamando
Sombras confusas, entre os cães sem casa
E os negros ébrios. Seu barroco bando
Volveu, pulsante, dos tetos das grutas,
E anda na névoa, como numa vasa,
Rotundas popas balouçando enxutas.
VIII
MOTO PERPETUO
Todo poema
É o último do mundo.
A tentativa extrema,
O crucial segundo.
Por fim, escrito,
Pétreo, coagulado,
As larvas do não dito
Postam-se a cada lado.
E tudo é falta.
A fonte exige a bilha
Sem fundo, e eis nos assalta
A horrenda maravilha.
IX
INTIMIDADE
Caros mortos do Rio de Janeiro,
Quando eu ando nas ruas em que andastes
Não são meus olhos tão somente engastes
Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?
Estar vivo, este fato, não é um só
E mesmo, se se exclui cenário e nome?
Não é a mesma uma boca quando come
E dois pés na calçada erguendo o pó?
Não será isso enfim a vida eterna,
Livrar-se da memória e andar nas ruas?
Ser só olhos com pés, as íris nuas
De tudo o que das horas nos governa?
Não morremos? Talvez nunca tenhamos
Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.
O que é o agora? O que é? Como está cheio
Este jardim deserto onde uivam ramos.
X
ENIGMA
Certo mistério existe, indesvendado,
Escrito há eras sem conta, sobre os céus,
Por uma mão, talvez a mão de Deus,
Ressoando no criado e no incriado.
Para entendê-lo, deste e do outro lado
De tudo, angustiados como réus,
Demônios e anjos chocam-se nos seus
Vórtices, sem nenhum outro cuidado.
À volta dele os seres e as esferas
Inutilmente orbitam pelas eras
Na ânsia de desvelar a eles imposta.
Revolvem-se em legiões desamparadas,
Enquanto aqui, na noite, entre as calçadas,
És, e somente tu, sua resposta.
XI
A
DECOMPOSIÇÃO DE JOHANN SEBASTIAN BACH
I
Ei‑los, os quatro ombros, os oito pés, cadenciadamente entrando pela porta
central da tua sonora igreja.
Agora, pela
primeira vez, entras na horizontal por ela, estátua jacente em carne, pré‑esqueleto entre galões e uma peruca enorme condenada ao
nada.
A lua mira
pelos vitrais; baba prata pelas colunas de São João de Leipzig, tremulantes das
sombras negro‑vermelhas
das tochas, estaladas pelos pés
solenes.
Como um riso
de esgar nas trevas, as teclas do órgão estupefatas miram paralisadas teus
dedos terríveis, dez mortos sobre teu ventre, morto ambulante sobre quatro
vivos.
E atrás, se
esgueirando no fundo, entre as volutas de pedra, teus muitos filhos e a tua
viúva curvada, roubados mas livres do cego tremendo.
Sob as
pálpebras marcham teus olhos, ressuscitados antes da morte, arrancados
efemeramente do limbo das sombras para caírem depois no mistério da luz ou do
nada.
E dentro
deles, e dentro de ti e em ti, tuas moléculas ainda vivas cessando aos poucos,
como cosmos que se apagam, grávidas de átomos vertiginosos que giram em vão, e
que girarão em vão ainda eternamente, talvez numa pedra, talvez numa mariposa
noturna.
Turbilhões de
música jorram dos cérebros dos que te acompanham, entre Páscoas e vinho, entre
risos campestres e ofícios dos mortos, amontoamento de refeições e espírito,
queijos e salmos, abraços paternais e uivos de fúria.
Assim, junto
à porta sul, verticalmente existentes, todos estacam, e pousam no chão teu
caixão de carvalho, como um barco na beira das águas.
E desces, e
desces, e desces e desces e desces, de boca fechada há três dias, de carne já
mole, já líquida.
E sob a lua
ainda, antes das tochas se apagarem, agora somente entre um cheiro de cal e
dois vultos anônimos, pesadamente, gigantescamente, uma laje te cai sobre a
cova, úlcera breve no piso da igreja, afirmativa, enorme, como uma mordaça
sobre uma boca, sobre a tua boca, uma mordaça eterna.
II
A igreja está
vazia, oficialmente vazia.
A lua caiu
por detrás dos telhados.
Mas que vulto
é aquele, sentado no escuro, fitando teu túmulo?
Que vulto é
aquele, com olhos de fome e avidez de alegria manchada por riscos de medo?
Pois vejam
todos, oculto no escuro, voraz e calado, tímido e sórdido, ele, o Silêncio.
Veste uma
roupa cosida com lábios fechados e línguas já secas, lábios de milhões de
extintos, línguas despidas de saliva ou fala.
Senta‑se solenemente, mal tocando o solo com
os seus pés de esponja,
despojados definitivamente de qualquer ruído.
Dos seus
ouvidos que considera um pecado caem duas cascatas de algodão pesadíssimo.
Seu sorriso é
a certeza da superioridade do embalador de todos os homens.
Nas costas,
imenso, como um manto ou um saco, o patrimônio milenar de todas as vozes e
todos os cantos, dos gritos lancinantes e dos balbucios das promessas,
guardados avaramente como um tesouro.
Finalmente de
pé ele fita a cova, profundamente alto como um precipício refletido em espelho.
E
vislumbrando toda a eternidade, desde o mecanismo mudíssimo das galáxias no
vácuo, até a brisa mínima e até ela extinta que murmura pela última vez sobre
as pirâmides, os túmulos e os templos, ele se infla de orgulho, na distensão de
um batráquio.
E mira, como
um general vencedor sobre o campo de despojos da batalha definitiva, o humilde
retângulo recém‑fechado
e raso neste piso onde soarão
em vão as pisadas
dos homens.
Pois vê ali,
temeroso ainda, embrulhado finalmente em suas asas sem som o seu maior inimigo
desde o estampido primeiro da hipótese eterna.
E ri, nervoso
e incrédulo, um riso que só pode ser visto, absolutamente sem riso para um
cego.
E ri, e
distende a garganta e as bochechas em mudez absoluta, sozinho na igreja, ou se
achando sozinho.
Até que
percebe que há alguém entre as sombras.
III
Junto a uma
pilastra, olhando o Silêncio e a cova, está suspirando um monstro.
Seu arquejo é
um ruído insuportável, poção sonora de bilhões de vozes.
A cada
segundo, a cada golpe de vista, ele possui um rosto, e a sua face é como uma
moldura móvel para as multidões.
Veste‑o uma armadura de olhos, globos
oculares vivos, que procuram ver alguma coisa e todas as coisas.
Do meio deles
há mãos que saem, mãos bordadas vivas, que procuram agarrar todas as coisas e
alguma coisa.
E nos seus
flancos orelhas, querendo ouvir tudo, e línguas tremendo, na ânsia de gritar em
todas as línguas.
Mas disto
tudo, desta confusão de tudo, se ouve enfim uma queixa insuportável como de
criança.
Como de uma
criança que não se conforma de não ter os mundos.
Como uma
criança que bate os seus pés por não saber de tudo.
Como uma
criança que cospe o seu doce por não ser eterna.
E este
monstro, enorme e branco, junto à pilastra, chora como um louco,
(E o
Silêncio, atordoado em fúria, tapa os ouvidos com as pesadas mãos.)
Pois sob a
laje retangular está fechada a sua maior esperança, que não pode estar fechada,
que não pode estar fechada.
E esta
criança enorme que é o desejo sangüíneo e antiqüíssimo da humanidade se chama
Onipotência, e dança.
E com um
estardalhaço pavoroso dentro da igreja, que ninguém ouve, exceto o Silêncio,
ela baba sobre a laje e sobre o seu inimigo mudo o leite viscoso da esperança
eterna.
IV
Com a
imobilidade sonora de um inseto morto o Silêncio apavorado bate as suas asas.
Saindo
através dos vitrais abandona a cidade que dorme e o tempo que existe.
Soldado
alerta, agricultor severo, move‑se
ubiquamente em todos os espaços
e em todas as épocas, colhendo
armamento como se colhem flores.
Viola todos
os túmulos, e puxa a mudez da boca dos mortos como de um canteiro uma rosa.
Passeia pelos
campos de batalha, assírios, sumérios, hebreus, elamitas, e suga num beijo das
bocas caídas a sua própria substância.
Invade os
asilos de loucos, e abraça todos os que não falam nunca.
Adentra
dançando nas escolas dos surdos‑mudos
para se fortificar triunfalmente com a própria
visão.
Arrebenta a
porta dos hospitais e das casas, para colar seu selo real e orgulhoso na boca
dos moribundos sem tempo.
Passeia nos
claustros das ordens condenadas ao eterno silêncio como quem se conjugasse a um
espelho.
Pula no fundo
do mar para encher‑se
de glória, com mantos
de algas, bolinando a inchadíssima
língua dos náufragos.
Depois voa
para o vácuo perpétuo onde perambulam estupidamente as inumanas esferas.
E ri
novamente, e conhece ele mesmo a tão velha esperança.
E voa
titânico e quieto de novo até a igreja, que encontra vazia.
V
Pois ela, a
criança velhíssima, a Onipotência congênita, foi rever os que a viram.
Os que a
viram no transe do horror, onde à luz do absurdo ela fica mais clara.
E, como se
olhando num lago, se viu no último brilho dos olhos de todos os mortos.
E se viu
claramente nos que já nem criam na horrível tortura lhes rompendo a carne.
E se achou
toda e exata na íris dos que tropeçaram e caíram no abismo.
E nas pupilas
dos pregados nos postes.
E entre os
cílios dos cercados de fogo.
E sob as
pálpebras dos pisoteados por gordos cavalos.
Pois no olhar
de todos eles, no seu olhar de que definitivamente aquilo não podia ser a
verdade ela achou seu retrato!
E nos olhos
febris dos que espancavam a pedra transformando-a em carne ela achou seu
retrato!
E nos olhos
de louco dos que cobriam o branco das folhas com cantos ela achou seu retrato!
E nos olhos
de chama dos que escravizavam os sons ao seu sonho ela achou seu retrato!
E nos olhos
sem luz do velho há tão pouco fechado sob a laje branca, para onde ela acabava
de voltar agora, mais do que em todos e a soma de tudo ela achou seu retrato!
VI
Mas na noite
de Leipzig, enquanto de novo os dois vultos se viam na igreja, os pós do chão
se chocavam.
As estrelas
alheias desciam no céu como moedas sonâmbulas.
Os burgueses
babavam no sono profundo, expandindo e retraindo os ventres, como sacos com
vida.
Os morcegos
sonhavam de cabeça para baixo nos dedos das árvores.
Os ratos
roíam pelos porões a parcela esquecida da ambição humana.
E o planeta
girava como um ponteiro monótono em torno do sol enquanto as baratas comiam.
E o sistema
solar na Via Láctea à deriva rodava no ritmo da pulsação das artérias.
E as galáxias
se afastavam no vácuo enquanto nos pêlos caninos pulavam as pulgas.
E os cometas
dançavam de roda sobre as mulheres grávidas que não se sabe o que é que
esperavam.
E milhares de
sóis explodiam, esfriavam e nasciam, enquanto as pétalas rolavam com a brisa e
a teia dos sonhos confusos cobria como uma segunda vida a cidade.
VII
Lá, sob a
lápide, teu corpo, Mestre, começava a seguir seu caminho.
Do teu nariz
primeiro, e depois da tua boca, foram saindo os exércitos dos vermes.
Após inchar e
inchar tua mandíbula se abriu num sorriso sarcástico, e por ela correu o mar
verde da bílis.
Sangue negro
saiu das orelhas, saiu das narinas, da beira das pálpebras, do pênis e do ânus.
E teus olhos,
como duas pérolas enormes, saltaram para fora das órbitas.
Tua pele
cobriu‑se de
manchas escuras e de verde fechado teu inflado abdômen.
Sob um lago
de teu próprio líquido afundou‑se
teu corpo.
E a pele caiu
flácida como uma veste muito larga por sobre os teus ossos.
Cores
incríveis se abriram em odores só suportáveis porque ninguém os sentiu.
Teu cabelo
por sob a peruca soltou‑se
com ela do liso do crânio.
E tudo seguiu
seu caminho como os relógios e os astros, com vermes rolando e sumindo-se por
sobre o teu nariz e teus dedos que juntos sumiam-se.
Enquanto em
sua côncava caixa de osso o teu cérebro se ia feito água leitosa
Até tudo
secar lá no escuro, como as folhas cortadas, na solidão e no olvido.
VIII
Era isso o
que então apenas se iniciava, enquanto os dois vultos se fitavam com fúria na
beira do túmulo.
Mas o hálito
das pautas tomou toda a nave, como antes o incenso.
Das
saltitantes notas que tua mão gravara em dança eterna evolou‑se o perfume.
E a vontade
onipotente dominadora de tudo rodou como o vento entre as pedras.
E nela,
alheia aos dois inimigos eternos, todo o universo dançava.
Pois tua
essência se fez triunfalmente a coreógrafa de todas as coisas.
E agora,
vulcões e estrelas, eis aí vosso ritmo!
E agora,
batalhas e ondas, eis vossos passos cravados!
E agora,
constelações e insetos, maremotos e crimes, festas noturnas e incêndios, eis aí
vossa senda!
E a tua
música, harmonizadora de todos os erros, consoladora de todas as quedas,
Ei‑la a ser, enquanto se baterem sem pena
o nosso sonho e a Morte, o ritmo final que já soa e soará sabendo ele unicamente de quem é a vitória.
IX
E
solenemente, terrivelmente,
No ritmo que
tu lhe deste, na igreja deserta, a Onipotência se ergue
E com as
armas de todos os olhos e todas as vozes aponta ao Silêncio
Que corre
pelo templo fechado, como um inseto num cubo de vidro,
E contra os
jorros de gritos e sonhos que caem sobre ele
Atira a sua
clava mortal toda seca das línguas dos mortos
Fazendo
cessar um instante o ruído fantástico.
Mas eis que a
criança tremenda o ataca de novo
Com uivos,
fanfarras e gritos, com trompas e música
E mais uma
vez ele escapa no arquejo sem som do seu salto
Para em
seguida de novo rodarem na igreja vazia
Como reflexos
de ódio, como piões bêbados, tontos,
Mas que não
tombam nem cessam a luta frenética da dupla revolta.
Antes
prosseguem lutando, água e fogo, rosnando, ao redor de teu túmulo
E os vagidos
e cantos, discursos, murmúrios, fustigam o Silêncio temível
Pois milenar
é deles a força, ainda mais milenar que o seu nada,
Nem milenar,
muito acima do tempo e dos sonhos dos homens,
Que no
entanto é o que são. E agora se ergue o urro imenso e terrível
Cheio de
cores e rostos, mas mais do que tudo de música,
Desta tua
música eterna em que dançam os trêmulos astros
Sem o
saberem, quem sabe o sabendo, de sempre, até sempre.
Repleta é a
nave do som dos trovões de mil cosmos e de ódio
E de alegria
tremenda e profunda derrota e Mentira e Verdade,
Luzes e cores
preenchem o espaço de todas as pedras, e tudo
É consumado
num jorro tremendo de som e silêncio,
De luz e
trevas, de música e nada, apesar da cidade
Não perceber
coisa alguma, dormindo inconsciente, na anônima noite.
Sobre o teu
túmulo, Mestre, em silêncio travou‑se
a estrondosa
Batalha
eterna que sempre enxergaste e que há muito sabias.
X
Eis que os
teus olhos veem, de sob a lápide, e como veem,
A criança
imortal, a Onipotência sonhada, que te fita!
Ei‑la, onde bem a fitaste,
Atrás de uma
pedra rolada
Sentada sobre
um túmulo vazio.
E a cada
passo em que o teu corpo se vai decompondo,
Como dois
pesos atrelados, tu te vais recompondo ao máximo no Espírito.
Quando daqui
a anos e anos abrirem teu túmulo, Mestre,
Ao som de tua
música onipresente e eterna
No instante
em que as notas voarem das pautas entre as altas colunas
Ao levantar‑se esta lápide anônima e simples sob a qual te deitaste
Em vão te
procurarão, pois lá no fundo, caído,
Morto,
pisado, acabado, em teu caixão de carvalho,
Como um resto
de nada que só a piedade recolhe,
Só
encontrarão
O Silêncio.