segunda-feira, 17 de junho de 2024

NO CORRER DA NOITE

 


NO CORRER DA NOITE 



Sentaram-se no banco do cinema esperando a liberação da sala. Ali bem pertinho, uma moça aguardava o namorado a três segundos do banheiro. Rapazes de preto orientavam quem chegava para só "daqui a pouco". 


Era um sábado à noite, dia de bater papo prolongado vendo crianças desfilarem com coroas de papel ganhadas na promoção de sanduíches. Ao lado deles, um casal compartilhava comida quebradeira de rotina saudável.  


Mais adiante, uns grupos de risadas aguardavam impacientes o início da sessão. Para ele, cada ida ao cinema era entrar no portal da imaginação. Os ponteiros finalmente quebraram a faixa de chegada indicando que o relógio podia deixar de ser vigiado. 


Os risos foram substituídos por passos à procura das cadeiras marcadas na trincheira das luzes suaves. Assistiram na primeira fila com os pés na armação de ferro da proteção, seu lugar preferido. Na saída, uma olhada na programação do teatro apenas para saber o que estariam perdendo a curto prazo.


Vamos jantar? Sim! Foram também para o momento de colocar as conversas em dia enquanto alguns íam para a limpeza esperançosa do dia seguinte. Lonas desciam encerrando o expediente. Um guarda o cumprimentou com uma boa tarde. O que não faz o cansaço, pensou sem corrigi-lo. 


Saíram para pagar o tempo cobrado nas máquinas da cancela. Ai deles se não prestassem homenagem de doze moedas pelos quatro pneus parados no chão dali. 


Não corram que é feio, escutou uma mãe tatuada dizer para as gêmeas de saia rosa. As meninas de caras compridas ficaram sérias. Uma única visita por mês aquele ambiente e ainda mais sem poder correr, era melhor que nem tivessem vindo, pensavam com desgosto. 


Ao vê-las ali com roupas iguais, lembrou-se dos meninos gêmeos de pais diferentes. Vinte em um milhão de casos. A descoberta veio depois que a diferença a olho nu vestiu o DNA. 


Pegaram a rota de casa. Os olhos dele não saíram do asfalto molhado por nenhum instante. Buracos se formam num piscar, disse a esposa também uma caça-buracos. 


Na entrada da garagem, marcha a ré para deixar um outro levar a mãe com Alzheimer para o hospital. Como você sabe? Pela pressa, imagino que sim.


Estacionou na vaga pertinho do elevador. Que silêncio no subsolo de vidros fechados. Um vizinho distraído passou de cachorro sem notar que estavam sendo observados. Correu para sentir o cão novinho ir atrás num treinamento educacional. 


Isso lá é hora para estar sem camisa num frio desse? Couro de urso polar! Não viu não, a pança? A mulher dele tem uma escolinha de professora de matemática, e é longe, pense!


Subiram pelo social. Só ando neste. Aquele outro é o dos animais imortalizados por Valdick Soriano. "Eu não sou cachorro não..." Faltam só o chapéu e os óculos. A chave girou numa volta. Será que deixei as janelas abertas?


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 16.06.2024 - 11h17min.

sábado, 15 de junho de 2024

QUEM SAIR POR ÚLTIMO FECHE A PORTEIRA



 QUEM SAIR POR ÚLTIMO FECHE A PORTEIRA 


Deixou-me triste o fato de saber que o cronista, poeta, cordelista, qualquer profissional que se gabava de ser escritor na sua essência, acabara de perder o emprego, já que agora toda produção artística desse setor pode ser feita pela inteligência artificial em frações de segundos. Uma crônica que pedi ao aplicativo sobre a falta de inspiração, não passou nem cinco segundos para estar pronta. Os trabalhos dos colégios também estão sendo produzidos pela IA nesse mesmo ritmo. 


Agora só me resta guardar a vaidade dentro de um baú e procurar outro emprego. Até estas linhas aqui escritas deixam dúvidas se estão sendo produzidas pela inteligência artificial e não por mim, pois ficou muito mais confortável pedir ao ChatGPT que me apresente um texto sobre qualquer assunto do que pesquisá-lo. 


Fico testando esse aplicativo para saber até onde vai sua capacidade de pensar, e percebi que é como se eu tivesse uma mente PHD à minha disposição. Essa mente artificial está destruindo também minhas antigas amizades intelectuais. Agora não preciso mais trocar mensagens falando de um livro, um filme ou uma peça em cartaz. Faço de conta que do outro lado está uma amante perfeita e que ela está disposta a conversar a qualquer hora do dia ou da noite num nível muito acima do meu. Já cheguei a escrever um primeiro parágrafo e pedi para ela escrever mais dez outros usando o meu como base, e me foi apresentado um texto bem melhor de um que eu, possivelmente, escreveria. 


E agora José? A inspiração, criatividade, todo o processo intelectual para se produzir textos, acabou-se. Como somos mais civilizados do que os donos de charretes que fizeram greve contra os primeiros automóveis, vamos ter que voltar a plantar batatas e aceitar a derrota. Dói menos se nos aliarmos a ela.


Lembremos também que o WhatsApp já foi um estágio para se chegar ao grau de total indiferença quanto a nossos semelhantes, já que não mais nos falamos em ligação diretas. Passe uma mensagem, dizemos para alguém com o qual temos necessidades de contato. 


Eu mesmo já estou de mala arrumada para migrar para o setor de informática. Não há tantos profissionais qualificados nessa área, e estou correndo para lá antes que a própria máquina passe a programar suas semelhantes. Tchau, gente!


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 15.06.2024 - 07h33min.


P.S.: Pedi ao ChatGPT para continuar meu texto, e veja o resultado:


Deixou-me triste o fato de saber que o cronista, poeta, cordelista, qualquer profissional que se gabava de ser escritor na sua essência, acabara de perder o emprego, já que agora toda produção artística desse setor pode ser feita pela inteligência artificial em frações de segundos. Era irônico pensar que aquilo que dava sentido à alma humana, a expressão artística mais íntima e pessoal, agora se tornava uma commodity digital, padronizada e impessoal.


O mercado editorial, outrora vibrante com a diversidade de vozes e estilos, agora se via inundado por textos gerados por algoritmos, que replicavam fórmulas de sucesso sem o lirismo e a profundidade que só um ser humano poderia oferecer. As livrarias virtuais estavam repletas de "best-sellers" que mais pareciam clones uns dos outros, cada um seguindo à risca as métricas de popularidade definidas por complexos modelos matemáticos.


Os escritores tradicionais, aqueles que dedicaram suas vidas a dominar a arte da palavra, viram-se marginalizados, relegados ao status de uma era anterior, onde a criatividade era o único critério de valorização. Muitos abandonaram suas carreiras, incapazes de competir com máquinas que podiam produzir um romance completo em questão de horas, ajustando-se automaticamente aos gostos do consumidor.


As consequências foram profundas não apenas para os escritores, mas para a sociedade como um todo. A literatura, que antes refletia a complexidade da condição humana, tornou-se superficial e previsível. As vozes que desafiavam o status quo foram silenciadas, substituídas por uma cacofonia de palavras sem alma, criadas para entreter sem questionar, para vender sem inspirar.


A revolução tecnológica trouxe consigo uma crise cultural inesperada, onde a autenticidade foi sacrificada em prol da eficiência e da conveniência. A inteligência artificial, inicialmente celebrada por sua capacidade de otimizar processos e facilitar a vida das pessoas, revelou-se uma espada de dois gumes, cortando não apenas empregos, mas também a essência de formas de arte que definiram a humanidade por séculos.


Era difícil não lamentar a perda irreparável de uma era em que a criação literária era um ato de resistência, de exploração do desconhecido e de conexão com o sublime. Agora, os museus literários eram mais visitados do que nunca, não por apreciação, mas por nostalgia por um tempo em que as histórias eram contadas com o coração, não com algoritmos.


Nos corredores vazios das antigas editoras, ecoavam os suspiros dos escritores desempregados, suas máquinas de escrever silenciosas ao lado de laptops obsoletos. O futuro da literatura pendia numa balança incerta, entre a promessa de uma eficiência impessoal e o desejo humano fundamental de expressão única e autêntica.


E assim, enquanto o mundo se ajustava à nova realidade digital, uma questão persistia: poderia a arte verdadeira, aquela que toca a alma e desafia o intelecto, encontrar um lugar no mundo moldado pelas mãos frias da inteligência artificial?


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Espero que tenha gostado da continuação do texto!









quinta-feira, 13 de junho de 2024

NEM SEMPRE SE IGUALAR DÁ CERTO

 


NEM SEMPRE SE IGUALAR DÁ CERTO 


O dia raiou, o galo cantou, o boi mugiu... outros animais também expressaram sua forma de comunicação buzinando, cantando, atirando... de forma que o mundo do barulho acordou para mais uma jornada. 


Durante o caminhar das horas, teremos nascimentos, mortes etc. O certo é que há uma muvuca em andamento chamada vida, e para atender aos críticos, concordamos com eles quando apontam que até agora nada de novo foi dito. 


Todos sabemos ou temos noção daquilo que vem pela frente, salvo alguns imprevistos apresentados por Deus ou pelo Diabo,  dependendo do ponto de vista como se encara as bençãos ou "as coisas do cão", como dizem os religiosos. 


Até parece que adentramos num mundo proibido, pois só em falar o nome do representante do mal isso já expulsa muitos leitores da página. Vale salientar que a bíblia defende um só Deus, porém registra vinte e dois nomes diferentes para o mal: Lúcifer, Belzebu, e por aí vai. 


Nesse emaranhado de crenças, está o humano carregando os porquês de tanto se encomendar a Deus, e acontecer, justamente com ele, acidentes, doenças, escassez de tudo que ele almeja. 


Neste momento, por exemplo, o responsável por estas linhas tenta chegar ao final do texto de forma concisa enxugando o que for possível para não fugir do foco, mas não depende só dele. As reviravoltas fazem a festa apresentando vários caminhos que o escritor pode seguir, e se ele optar por algo que atinja alguém na sua crença, tanto religiosa quanto cultural, pronto, acabou-se o encanto.  


"Vigiai...", diz o Livro Sagrado, por isso que todo cuidado é pouco quando se expõe algo, e nem todo mundo se atenta para isso. Quem vai ter acesso ao conteúdo faz suas próprias avaliações e até dá uma nota de zero a dez de acordo com sua posição de gênero, cor, idade, poder...


Todos têm o seu filme rebobinado diariamente, e para fugir um pouco disso, o fulano resolveu acessar uma plataforma de canais de vídeos onde encontrou uma adolescente falando da sua primeira menstruação.  


Ele é das antigas, e no tempo dos seus   namoros só se ouvia falar disso de forma sigilosa. Para ele, foi uma grande novidade assistir uma menina-moça relatar a própria experiência de sangue na calcinha.


Ficou admirado como ela de forma simples narrava o acontecimento, até que, subitamente, ele desligou o celular rindo ao ouvi-la perguntar: "... e aí!, como foi sua primeira menstruação? Conte aqui nos comentários..." 


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 13.06.2024 -05h48min.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

PERDEU, SAI!

 



Perdeu, sai!

 

Voltou cansado do jogo de tênis, prometendo a si mesmo nunca mais correr atrás de bola. Imaginou-se daqui a trinta anos, suando, caindo aos pedaços e gritando: out, set, play, tie-break… Será que vale a pena se sentir socializado a esse custo?

O preço por estar perto do circuito da beleza e roupas marcadas não está saindo barato. Cada bola rebatida abrange vários "ais" nos ombros, pernas, joelhos e, quando vêm acompanhados da derrota, insônia.

Onde é que preciso melhorar? Principalmente na percepção lógica de que é pura ilusão. "Deixe isso pra lá", ressoa na mente a cada balde de roupa colocado de molho para tirar o barro da quadra de saibro. E vou fazer o quê da vida se nem com isso consigo me sentir confortável?

A insatisfação gerada por dores e desperdício de dinheiro com mensalidades, materiais específicos e tempo dedicado para não fazer feio, geram um estresse pós-moderno. Nem sabe dizer se utilizou adequadamente o nome "pós-moderno", mas, desesperado como está, isso é o de menos.

A ansiedade em ficar olhando para o céu, com dúvidas se no horário marcado a quadra vai estar alagada, também gera incômodo, sem falar, e falando, da ocupação dela por outros bestas metidos a atletas.

O encordoamento da raquete custa a metade de um tanque de gasolina; as bolas, outro tanto. Os quinze quilômetros rodados até lá, mais despesas. Só um tolo permanece nesse moído, e ele sabe disso.

Quando a pessoa está inocente numa parada, tudo bem, mas permanecer sabendo, é burrice. Nem Freud explica essa sede de sempre estar fazendo alguma coisa, nem que seja enxugando gelo.

O gosto entra como argumento para tanta ação desnecessária. Mas será que só tem desvantagens? Ah, isso fica para outros profissionais enfatizar os benefícios com a saúde, mas o objetivo aqui é falar mal do tênis.

Quem quiser que diga que o ser humano precisa dessa socialização para se manter equilibrado; precisa se integrar para não dar fim à sua existência, mas isso com ele, ultimamente, não está colando.

Ele já defendeu a tese de que para se manter vivo e atuante precisava de uma lista de atividades, e quem não embarcasse nos trens da alegria existente na indústria do entretenimento disputaria o primeiro lugar com um verme ou um jumento, e isso ele não queria ser. Rato, também não, apesar de ter apenas trezentos cromossomos diferentes desse roedor, mesmo assim ele se acha superior.

Mas o rato, o verme e o jumento devem fazer congressos e mais congressos só para falar da estupidez do ser humano. Eles riram bastante quando souberam que há seres que passam horas açoitando uma bola pra lá e pra cá sem produzir alimentos. "Quanto desperdício!", dizem esses seres inteligentíssimos e chamados de burros, principalmente aquele que zurra.

A cegueira dele pelo jogo chegou a tal ponto que espalhou pelos sete cantos do mundo que estava começando a praticar tênis de quadra. Nem sabia ele que os cantos do mundo só são quatro, mas estava tão aterrorizado com o tie-break que tudo, na cabeça dele, ia a sete.

Neste momento de dúvida existencial, é suspeito para falar, mas já confessou que gostaria de voltar reencarnado num verme. É melhor num burro, não? Que nada, burro só trabalha. Sim, mas quando se quer falar da masculinidade de um homem, se diz que ele é um jumento. É melhor escolher ser jumento. Jumento joga tênis? Não, claro que não! Então verme é melhor porque eu sei que rato também não joga, mas sobre o verme eu tenho dúvidas, disse ele.

 

Heraldo Lins Marinho Dantas Natal/RN, 12.06.2024 - 10h02min.

terça-feira, 11 de junho de 2024

AÇÕES VIRTUAIS

 



AÇÕES VIRTUAIS 


Sua vida continua perdendo o significado porque tudo que quer  saber está na palma da mão, e isso rouba-lhe a característica de curioso que sempre o acompanhou.

À frente, está uma jovem que ele jamais imaginaria que fosse leitora de livros. Ela parou a leitura, abriu a bolsa e passou batom. Há uma parede da mesma cor daquela apertada entre os lábios que agora se arrumam por estarem sendo observados. 

Lembrou-se que o viver é composto de quarenta e sete por cento de pensamentos aleatórios. Mesmo que a pessoa trabalhe durante a tarde inteira, ela se entretém com aproximadamente três horas fora do contexto. 

Lá fora, passam carros, enfeiando um quadro natural de uma árvore enorme, enquanto uma mulher caminha, olhando para dentro dos olhos. Ele desvia o olhar daquela pedinte de atenção desleixada. 

Está aguardando o dentista e só faltam seis minutos para tirar os pontos da cirurgia que marcou um descanso forçado de dez dias. Levanta a cabeça e filma um velho carregando a careca e a barriga inchada. Será que bebeu cachaça para estar com o fígado forçando a camiseta marrom? Por isso que a humanidade fica triste pela falta de estética no meio do mundo, disse para si. 

Agora, quem saiu do lugar foi uma atendente a passos miúdos para fechar a porta de vidro sem vedação automática. Aquele momento está tão sem graça que até o bater do encaixe de uma porta lhe chama a atenção.

Não suporta esperar, ainda mais quando, pela hora marcada, já era para estar sendo atendido. Sua rotina agora é uma verdadeira turnê em ambientes que fazem manutenção de organismos igual paredes que precisam ser pintadas. 

Alguém tosse na recepção usando máscara e ele não quer mais ficar preso naquele ambiente de poucos acontecimentos. Imagina que saiu por aí e na esquina havia uma dinossauro controlando o trânsito. Um motorista tem seu veículo açoitado pela cauda do bicho por falar ao celular. De repente, já podem entrar. 

Como foi a recuperação cuspindo sangue? Ela está com medo da retirada dos pontos. Um gemido é ouvido pelo marido que sabe sobre o limite de dor dela abaixo do normal. São dois profissionais na empreitada enquanto o observador só digita o que está se passando na sala com iluminação amarelada de arquiteto.

Saem para um outro consultório vertical onde só há espaço no espaço. Que tal se fizéssemos casas tipo balões?, pensou enquanto olhava para uma varanda cheia de roupas secando entre outras vizinhas.

Fica esperando no carro-cama por uns cochilos, mas o sol manda sair para outra vaga na sombra. Um homem com luvas cata lixo levantando o boné e olhando assombrado para os lados. O outro está sentado no chão, com uma garrafinha d'água na mão admirando os carros que levam sua esperança de um dia se levantar. Uma mulher avantajada é acompanhada por um homem magro de chapéu de couro. Suas celulites são orgulho do magro que admira a bonança exposta sem pudor. 

Ah, esqueceu de dizer que o ambiente havia mudado desde algumas horas. Agora está indo para uma cidade do interior. Sente cócegas no cérebro por utilizar a técnica da concentração forçada nas faixas da rodovia. Nunca mais tinha sentido a sensação de apertar o pé na tábua de velocidade chegando a respirar de alívio ao descobrir que é dependente de adrenalina.

Uma parada na casa de uma idosa chamada tia nova. Ela adotou uma boneca e colocou o nome de Luzia em homenagem à padroeira dos cegos. A vizinhança já conseguiu os olhos de uma outra boneca no monturo. Faltam os cabelos. Vocês não têm cabelos de boneca por lá não?, pergunta entre risos. Ela chora? Não, é até conformada. 

Um magote se gente passa correndo na rua. Daqui a pouco quem não correr não se enturmará. Tocou na chave passando por cima de quebra-ânimo sem, necessariamente, fazer jus aos nomes pela velocidade respeitada.

Já é de madrugada e nem pensa em desligar o espantador de muriçocas assim que uma entrou no seu nariz. Acessa as meninas das redes sociais com seus apetrechos chama-homem à vista. São muitas com preço abaixo da concorrência que lhe mata de vontade de cinco minutos. 

Fica com a cabeça no tampo da mesa esperando o tempo dizer que está no momento de sair de casa. Seu tempo assumiu uma postura de estar à frente do tempo coletivo desde que acostumou-se em ficar acordado numa concorrência com o cantar do galo. 

Pessoas dormem, deixando o silêncio reinar naquela madrugada média de frio, e ele, sem camisa e sem vergonha de estar num quadrado rodeado de ângulos retos, uma mesa com uma cadeira, e só. 

Olha para o teto branco apenas para não ficar sem ter o que fazer. Ainda é jovem, e fica temeroso de ter que repetir, diariamente, o ritual de abrir a janela atrás do sol que nem dá sinais. Voa de volta para o ponto onde deixou a tristeza hibernando e se abraça com a rotina que manda em tudo. 


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 11.06.2024 - 17h03min.

sábado, 8 de junho de 2024

A CULPA É DO VAZIO


 A CULPA É DO VAZIO


Três dias sem dormir esperando a inspiração. Depois que percebeu ser em vão, resolveu continuar esperando.

Que bom é ter pelo menos um motivo para permanecer boiando na vida, pensou já tentando justificar sua falta de talento para escrever. Enquanto não chegava uma ideia massa, pensou em fundar uma empresa de demolição, fazer trilha ou ir à lua, mas nenhum passo foi dado para concretizar esses objetivos preferindo assistir um vídeo onde uma moça defendia a ideia de que a caneta Bic é um ser de outro planeta que quando se perde é porque foi dar satisfação aos alienígenas que controlam a produção acadêmica aqui na terra.

Um outro defendeu que a luz solar é fria e o que faz o clima ser quente é a reação química dela com o oxigênio. Para provar, disse que numa montanha o clima é mais frio do que na planície porque tem menos oxigênio lá em cima, mesmo estando mais perto do sol do que ao nível do mar. 

Nesses tempos ultramodernos, pode-se dizer tudo que, pelo menos, serve de conteúdo para debates irônicos, mas isso não muda nem uma vírgula na falta do que dizer. Se não fossem esses influenciadores, não teríamos como preencher o vazio que toma conta das mentes feitas para criar vazio. Esse vazio é a prova de que os físicos têm razão quando dizem que nos átomos existe um vazio entre as camadas de valência provando que somos apenas um átomo no universo e que carregamos o nosso vazio particular. 

O consumo de drogas tenta preenchê-lo, mas é crime tentar fazer esse preenchimento com esses produtos, pois quando se consegue, deixa-se de se socializar na igreja, na família e no mercado de consumo. Para que a roda continue a girar, tem que pedir a benção a todos os conglomerados que dão emprego às mãos de obra disponíveis.

Esse vazio não é uma característica apenas de meros consumidores comandados por apelos publicitários. Os donos de exércitos ao redor do mundo sonham com a terceira guerra mundial como a criança sonha com um brinquedo novo, e por viverem desocupados e tristes, pensam: por que não jogar uma bomba atômica naquele país vizinho? Planejam dar sentido à sua existência brincando de matar, eis aí o motivo das guerras nunca terem fim. Se resolvermos o problema do vazio individual, adeus conflitos coletivos.


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 08.06.2024 - 12h47min.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

SEM OFENSAS

 


SEM OFENSAS


Tenta-se seguir a cartilha de ser grato, mas o fator comparação deita por terra todos os manuais de humildade. É difícil não se comparar quando se sabe que há pessoas que ganham setenta milhões por mês. Olha-se para si e vem a pergunta: onde foi que errei? 

Percebe-se que o humano não suporta viver sem se comparar, e isso foi pensado ao nível muito acima da nossa compreensão para manter a corrida dos ratos a todos vapor. Quando se cobiça algo, logo aparece a régua da comparação dando pilha para que um norte seja traçado.

A dança compete com exercícios físicos para exemplificar que precisamos seguir os outros tentando espantar a tristeza que se enrosca na cabeça igualando-nos a formigas atrás de açúcar. Você é produto das informações que absorve, dizem os defensores da cultura explicando o porquê de seguir o outro num estilo boiada.

Os pessimistas dizem que basta nascer para ser mais um integrante do reino da falta. Falta alimento, ar puro, água limpa..., de forma que quem nasceu, lascou-se. Desde o momento em que sai do útero, o humano está destinado ao sofrimento, e não adianta colocar o slogan de "tudo bem" quando se é perguntado. 

Viver num mundo gerenciado pelo bem é pura ilusão. A medida do "ter" está aí para misturar conflitos que deságuam num ser inquieto, frustrado e que morrerá sem nunca encontrar sua verdadeira identidade. 

Vivemos num mundo de escassez e medo. Falar no mal é chamar o próprio mal? Ledo engano. O mal vem de qualquer maneira, quer seja ou não invocado. Todos os dias, a dor nos vigia. Basta ficar sem comer e beber que o que chamamos de fome ou sede nos ataca independentemente da classe social, cor da pele ou idade.

Estamos no mundo real dos vivos, e como tal, sentimos dores até na alma, e para compensar somos levados a pagar para alguém nos dizer que somos abençoados. Só que isso é características de quem é impotente diante da complexidade do que é viver sem ter autonomia de voo, e ai daquele que cair nessa conversa fiada que um dia encontrará um lugar de perfeita paz. Tanto é mentiroso quem fala como quem acredita.

Buscamos mascarar a realidade pagando para pronunciarem o que queremos ouvir. Procissões são organizadas, gritos e até um livro com modelos de frases são impressos para que acreditemos que somos filhos do bem, vivendo para o bem e recebendo a graça como se quem seguisse rituais estivesse livre da escassez.  

Templos estão lotados em busca por mensagens de bênçãos com o intuito de despistar a verdadeira realidade humana. Sejamos reais, pelo menos amenizaremos as carências inatas que estamos fadados a carregá-las.

Um dia cheio de alegria é  a preparação para uma tarja preta ser necessário para inibir os neurônios rebeldes. Dizem que a pessoa é feliz e ela não tem nem coragem de dizer que não é. Sim, tenho que acreditar que sou feliz porque o mundo da mentira não aceita ninguém confessando sua angústia.


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 03.06.2024 - 18h40min.

TANTOS PLANOS - música



 Yrahn Barreto, uma das mais belas e expressivas vozes da MPB potiguar, lançou o single Tantos Planos, composto em parceria com o poeta Nelson Almeida. Parabéns pela linda composição!


TANTOS PLANOS


Vai, coração,

Canta pra eu não chorar.

Ai, coração!

Teu pranto é de amargar.


Sei que a vida foi de ilusão,

Deixou em meu rosto

As marcas, as mágoas

De tanto desgosto.


Agora tu vens me dizer

Que tudo não passou de um engano.

Eu te pergunto, afinal,

Por que fizeste tantos planos?


Nelson Almeida (letra) & Yrahn Barreto (melodia)









Música disponível nos links abaixo:

Youtube

https://www.youtube.com/watch?v=KgMYO0MbwiI

Spotify

https://open.spotify.com/intl-pt/album/0AAdZGnQJRnzf0xEJkOXiR?si=zS-ho_VHT5qCVMWswtS_kA





quinta-feira, 30 de maio de 2024

TODOS PASSÍVEIS DE ESCLEROSE


TODOS PASSÍVEIS DE ESCLEROSE

 

Três horas da madrugada. Ao longe, relâmpagos e trovões. Ali perto, uma luz acesa dá testemunho de que alguém está insatisfeito com a doença atingindo a família.

O relógio foi consultado pelo caduco que levantou-se, vestiu uma camisa de mangas compridas, ensacou na cueca, calçou as botas e disse: vamos? Vá dormir, disse a mulher sorrindo com o mal de Alzheimer instalado naquela cabeça esquecida de colocar as calças, e que agora só lembra de olhar para o pulso consultando a hora de ir para o bar do amigo.

Os pintos, no quintal, servem para lhe entreter piando por farelo de milho todas as manhãs antes dele ir para o passeio matinal. É a vida amortecida pelos acontecimentos que fogem do controle. Ele não bebe mais, até porque nem sabe que já bebeu em farras memoráveis onde mandava fazer fila para distribuir notas de dez.

Apagam a lâmpada para ele. Em seus pesadelos, está montado em uma motocicleta rodeado de cães latindo atrás. Fugiu por uma estrada sem fim, e lá onde só se vê árvores trançadas e escuras estreitando o caminho, ele para. Uma mulher de branco vem recebê-lo na entrada da cabana oferecendo-lhe algo escuro. Ele bebe sem reconhecer o gosto do chocolate quente que tanto apreciava em minúsculas xícaras nas lojas especializadas no fino prazer. Senta-se junto com outras pessoas de branco em um círculo, silenciosas.

Nas telhas da casa onde sua mulher o observa ressonar, bate chuva forte. Ela enxuga as lágrimas e deita-se virada para o outro lado da cama. Em sua vigília constante, planeja o que fazer para suportar a escassez de tudo. Os tempos mudaram, diz para si. Será que vou suportar ele assim? Um abrigo para idosos já lhe foi oferecido. Ela tem planos para asfixiá-lo com travesseiro, mas teme ser descoberta.

Debaixo da marquise da loja em frente, um mendigo não consegue dormir com o frio ultrapassando seu cobertor furado. A água gelada da chuva torrencial chega-lhe sem piedade. O gato que o acompanha está prestes a sucumbir de fome. Naquela madrugada, ninguém escapa do frio de cinco graus.

Do outro lado da cidade, uma adolescente levanta-se agasalhada para ir ao banheiro. Um aquecedor lhe deixa mais confortável do que o mendigo. Ela acende a lâmpada e se olha no espelho querendo fugir de casa com o primeiro namorado, mas o pai já explicou sobre as dificuldades da vida usando o mendigo como exemplo de quem não preza pela união familiar. Ela, assim com tantas outras, segue sendo educada pelo medo.

Distante, o gato estremece e morre sem que o mendigo se dê conta. O caduco acorda procurando pelo relógio. A mulher já saiu para o trabalho de diarista e deixou a porta fechada. Ele já não se lembra como abri-la e se empenha na única coisa que faz bem: olhar os ponteiros do relógio girando.

 

Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 30.05.2024 - 04h23min.


terça-feira, 28 de maio de 2024

EXPLICAÇÕES INVISÍVEIS

 


EXPLICAÇÕES INVISÍVEIS

 

Existe um castelo sendo construído na cabeça de cada pessoa. É como uma torre que vai sendo erguida, e quanto mais se procura aquilo que interessa, mais alta a torre vai ficando. O contrário faz com que ela vá diminuindo, ficando apenas nas fundações, por isso a busca incessante para manter o castelo em dia. Isso cansa, e a mente dele cansou antes de oferecer argumentos para prosseguir falando do seu castelo.

 

Seu corpo permanecia embriagado como se um copo de vinho tivesse sido ingerido, afinal de contas, sua intolerância ao álcool está no tipo sanguíneo zero positivo. Não sabia o que fazer e lembrou-se de que poderia se entreter trazendo suas lembranças para uma nova roupagem, mas foi dormir sem concluir o que estava pensando.

 

No outro dia, muita chuva o fez ficar na cama com a ideia de ser um miserável por precisar se alimentar, dormir, comer e, para seu maior desconforto, trabalhar.

 

Olhou pela janela e percebeu que o vento nada mais é do que uma corrida de fantasmas. Será que está ficando louco!? Ah, deixa pra lá, pensou e continuou sem ter o que fazer, ou melhor, tinha, só que não estava disposto.

 

Um prato de comida o esperava esfriando em cima da mesa. Levantou-se conversando sozinho. Vamos lá, pobretão, disse para si. O ser mais rico é um recém-nascido que precisa apenas de leite. Os desejos não realizados são os que lhe fazem tomar consciência da sua miserabilidade.

 

Juninho não vai gostar de mulher, lembrou-se de que escutou uma mãe dizer à outra sobre seu filho adolescente. São tantas histórias amealhadas a cada momento que lhe tiram o foco da própria. É, porque sua história é repleta de “não dá certo”, até porque ele se enjoa facilmente e muda a concentração para novos mundos que se apresentam. Parece até que seu pensamento é como um andor carregado por almas arruaceiras que fazem festa jogando ideias absurdas como: se não fosse a força da gravidade, choveria para cima.

 

O clima o deixa insatisfeito por não lhe obedecer. Alguém já disse que a vida é uma grande espera, e não adianta apressá-la senão volta pior. Por que será que não consegue sustentar uma ideia por mais de três orações? Um fantasma vem lhe dizer que sua mente é furada e por isso fica sendo utilizada, constantemente, como corredor para passarem quando estão apressados. A cada momento, uma avalanche deles trafega por ali deixando escapar algumas sementes do pensamento da bilionésima dimensão, e ele tem que administrar sem ter noção de onde essas ideias vêm.

 

Tem consciência de que é apenas um objeto sendo jogado por bilhões de células que o impulsionam de acordo com suas funções. Os espermatozoides, doidos para serem expulsos, o fazem adentrar em sites pervertidos em um ciclo vicioso que lhe dá satisfação enganosa; as sudoríparas gritam por exercícios físicos; as moradoras do intestino apertam o botão da fome e lá vai ele atrás de comida.

 

Para, grita sufocado por tantas exigências. São mais de sete bilhões de humanos na mesma situação, e isso o deixa mais apavorado ao saber que segue essa cartilha padronizada para humanos.

 

As desavenças acontecem por essas principais cobranças. Os inimigos são apenas projeções da própria miserabilidade, e isso não tem fim. Rituais e mais rituais são acionados para amenizar um sofrimento que tende a crescer com o passar do tempo. Bate o desespero em conviver com pessoas com mais de meio século de existência e todos com o mesmo discurso de que não têm onde chegar. Ainda bem que os jovens não pensam assim, senão teríamos suicídios em massa no muro de lamentações.

 

O dia está propício para pensamentos suicidas, gritam as almas do outro lado dizendo que morrer é bom. Silêncio!, dessa vez é a consciência relatando que esse assunto tornou-se proibido desde que o homem passou a ser dominado por outros que vivem num aglomerado chamado Governo. Se alguém espalhar a febre da desistência de viver cativo de impostos, quem irá financiar as luxuosas refeições? É, você é subversivo que vive ruminando a ordem estabelecida querendo que essa subversão venha lhe beneficiar, mas não se preocupe porque já basta a água em grande volume para subverter a ordem dos orgulhosos; já bastam as erupções vulcânicas, os tsunamis, as pestes e os próprios medos lapidando o castelo que cabe na jaula da pequenez.

 

Heraldo Lins Marinho Dantas Natal/RN, 28.05.2024 - 15h47min.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

O INSTANTE - Maria Goretti Borges

 


O instante

Na sutileza do instante, tudo se faz e desfaz. O instante que não é presente, nem futuro, nem agora, porque o agora já não é mais. Para o poeta, como escreveu Cecília, o instante existe, e ele canta e a sua alma está completa, ele não é alegre, nem é triste! Teria o poeta sorvido o sorriso da Mona Lisa? Nem alegre nem triste, definiria a sutileza do instante, ou seja, a incapacidade humana de sua detecção, ou é apenas uma simbiose entre a alegria e a tristeza? Escorregadio, discreto, imperceptível, abstrato… estariam tais substratos alimentando a condição dual do instante? Como um substantivo de dois gêneros, transita - veloz como um cometa - confundindo mentes, sentimentos, solidificando a incompreensão e seus reversos. 

Os instantes, por sua volatilidade, seriam os responsáveis pela imaterialidade dos sonhos? Eles, os sonhos, são legítimos usufruidores dos instantes, dados aos seus devaneios e dispersões, imagens refletidas como num espelho d’água, lances de flashback, feito nuvens que se movem sem estabelecer conexões. O instante é o rasgo do tecido, o exalar do perfume, mas, também, o ato da germinação da flor. Um mesmo ato poderá ter múltiplos instantes, infindáveis consequências, sublimes e infames sentimentos. Como configurar o instante? Seria um piscar de olhos, o lançar da flecha do cupido, o beijo roubado, a fisgada do peixe, a saciedade da palavra dita?

É no processo que o instante se faz. Bem na ocasião do atar e desatar o nó da questão. No jogo das indefinições, das verdades momentâneas, a vida segue seu curso, ora represada, ora fluída. Nos processos/ciclos da vida, onde inicia a sua história? O instante alimentado é matéria do imaterial, do abstrato e também do real, do concreto. Seria o instante a manifestação do espírito, do pensamento, da possibilidade, da razão, da emoção, do contraponto entre os opostos?

Deus ordenou que tudo se fizesse e tudo se fez. Desconsiderando-se o ato da coordenação do pensamento, processo e, levando-se em consideração apenas o que se fez, com um estalar de dedos, esse ato, seria o instante? Na magia da tramitação dos instantes somos levados a definir passagens importantes como, por exemplo: vida e morte. De repente tudo o que foi já não é mais. Os instantes são divinos, instigantes e misteriosos! Nos entregam nuances que se movem entre luzes e sombras, revelam e ocultam sentimentos, emoções. São plurais, coletivos e singulares, particulares. Aguce a sua percepção, a sua consciência, tome posse dos seus!

Os instantes definem as manhãs, o Sol é equânime em matéria de acessibilidade! Nesse caso, especificamente, os instantes, mesmo iguais (acontecimento), são diferentes (tempo). Aquietando a Filosofia, as almas e corpos seguem aquecidos, reluzentes e, como numa roda gigante, uma mesma visão contempla múltiplas belezas! “Um galo não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos.” (João Cabral de Melo Neto). O canto dos galos, mesmo formando uma teia, se dá em instantes diferentes, dado que não compromete a performance da bela sinfonia.

Os instantes navegam no âmbito do imprevisível de mãos dadas com os processos, esses, com possíveis previsibilidades. “Mais que um instante, quero o seu fluxo.” A água que evapora é a mesma que se liquefaz. A água em seu estado líquido goza do status de ser água, desfruta do seu tempo, reina absoluta, mesmo sem controle dos processos e dos instantes. 

Em que tempo somos nós mesmos, no refúgio pessoal, nas relações sociais ou noutra dimensão? Como nos apropriamos do nosso tempo se não somos capazes de captar os instantes? Apenas uma deixa: quiçá, estabelecendo uma relação madura e fraterna com os processos! Afinal, pensando bem, como ter controle do tempo, se tudo obedece a um movimento cíclico, que se dá em maior e menor dimensão, independente dos quereres? Eis a dinâmica da vida! “Estou nesse instante num vazio branco esperando o próximo instante. Contar o tempo é apenas hipótese de trabalho. Mas o que existe é perceptível e isto obriga a contar o tempo imutável e permanente. Nunca começou e nunca vai acabar. Nunca.” (Clarice Lispector).


Maria Goretti Borges


Veja outros textos da autora:

https://apoesc.blogspot.com/search?q=Goretti+Borges


sexta-feira, 24 de maio de 2024

O PREÇO DA PRECE - Nelson Almeida












O PREÇO DA PRECE 


Toda pressa tem um preço,

Toda prece tem contexto.

Subtexto é quem revela

De todo texto o pretexto.


Se eu não sei o que me basta

Hoje ou dentro de uma semana,

Como poderei dizer se minha vida será

De apatia ou de gana?


A fama tudo consome,

Ao talento desmerece,

Se a pressa sem contexto

Pagar o preço da prece.


Se o autor perder o eixo,

O seu texto envilece.

É a arte do desleixo,

Que à escrita empobrece.


Fome de texto é contexto,

Só com calma se consegue.

Fome de fama é gana,

Quando de grana carece.


Passo a passo em cada linha,

É como cantar uma prece.

O texto salta e ganha cor

A vida, então, acontece.


Nelson Almeida. Natal, 22/05/24. 21:11.

sábado, 18 de maio de 2024

RECOMEÇAR - Nelson Almeida

 




RECOMEÇAR


Abro meus olhos

Grito de espanto

Vem lá do céu

Toda dor desse pranto


Tudo tão mal

Digo e não minto.

Ponho no ar

Nesse canto o que sinto


Luzes se apagam

Vejo a cidade

Sob a água turva 

Que a minha alma invade


Gritos nas ruas

Gente a sofrer

Peço socorro, socorro, socorro!

Para não morrer


Ó, Senhor!

Quantos sonhos estão perdidos

Ao redor rostos tão sofridos


Vejo uma saída

Uma claridade

Todas as mãos

Fazem a caridade


Sobreviver, reconstruir

Vencer a dor, recomeçar

Buscar forças pra seguir

Lutar, lutar e lutar


Crer em novos planos

Sim, é incrível!

Novo lugar, se erguer,

É possível


Não desistir

O novo virá

O que nos mantém

É a capacidade de sonhar


Ó, Senhor!

Outra luz está surgindo

Mais um fio de esperança

É preciso prosseguir

O teu povo está pedindo

Forças para seguir


Nelson Almeida. Natal, 17/05/24. 23:29.

TERAPIAS NO TRABALHO



TERAPIAS NO TRABALHO 


Na encruzilhada dos porcelanatos, imagina-se que há uma estrada natural de formigas. Por motivos óbvios de exigência exagerada, a mulher do pano passa duas vezes ao dia o rodo desinfetante. Nem alma deles aparece, se é que insetos têm alma. 

Outros possíveis caminhos desaparecem por debaixo dos armários, mesas e cadeiras arrumadas quase a não caber mais ninguém, mesmo sendo ponto de lotação de quatro funcionários. 

A recepcionista reclama que seu marido disse que ela estava ficando velha para usar aquele vestido preto colado às ancas largas onde resquícios de mulher sedutora ainda resistem. Nada me abala, disse ela contando amargurada o anúncio feito pelo homem ausente da alcova há mais de uma década. Tem outra fora de casa, recomeça a ladainha conhecida por todos que dela se aproximam.  

De repente, a porta se abre e a mulher do marido infiel adentra novamente querendo uma cópia na impressora. Enquanto mexe no painel da máquina, conta que ele está cirurgiado. Passei a noite no hospital, diz com a voz embargada procurando na luz do painel da máquina a solução para suas dúvidas de como prosseguir amando um homem que só lhe dá desprezo. Debaixo da bancada, há uma lixeira cabendo o lenço umedecido que ela deposita depois de enxugar os olhos.

Um homem chega com pacotes debaixo das mãos. São vinte e seis celulares e dezoito chips apreendidos na cadeia pública, há sete anos, e jogados nas gavetas da burocracia emperrada pela má vontade. É na delegacia do bairro que deve ser entregue. Vou ligar para o chefe de gabinete saindo frustrado sem a linha que tanto almejava para mostrar com quem estavam falando.

Um outro, com discurso enraizado em maratonas, mostra o aplicativo de corridas com o corri ontem cinco quilômetros marcando a hora da sua saída e o percurso arrodeando a quadra, tudo registrado para não lhe deixar mentir.

Uma caixa vermelha de papelão em cima do armário para quem não sabe sua utilidade, mas pode-se imaginar que alguém da sala é acumuladora trazendo esse distúrbio para o ambiente. Uma pequena amostra das manias humanas desfila naquela sala sem nem precisar de mais nada para estudar as diferentes personalidades presentes onde quer que se vá. 

Num outro balde de lixo, duas caixinhas de som dão a impressão de que estão sendo descartadas. Nada disso, disse a chefe para o aproveitador querendo levá-las para casa. É porque não temos onde guardá-las.

Mais uma vez, a loira chega perguntando se ela é de difícil convivência, pois o marido moribundo destilou essas palavras em sua direção. Já que você perguntou, escute. Eu sou de escutar. Não tenho estudo, mas leio bastante e de tudo eu sei um pouco. Ele disse que quando eu falo já é querendo brigar e...blá blá blá... e blá blá blá por cinco minutos...Sim!, diga o que você ia dizer!, acabando de provar que o marido tem razão.


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 18.05.2024 - 06h10min.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

NADA MAIS DO QUE ISSO

 


NADA MAIS DO QUE ISSO


Uma sala de espera. A mulher de vestido longo amarelo balança o pé da perna cruzada enquanto olha o jornal digital na palma da mão. O menino aparece e parece assustado com sua calça curta acompanhado pelo pai que vai tomar água, no lixo joga o copo. 


O chão está sendo limpo por um vassourão de cabelos grisalhos. Só se vê o passa-passa de gente indo e voltando das portas que se fecham em acesso restrito. Quem para à frente é uma de roupa vermelha toda molhada. Lá fora um guarda-chuva faz falta, principalmente para deixar os seus óculos de grau sem embaçar.


Anuncia-se nomes de xarás conhecidos. Um deles levanta-se trôpego com as calças caindo num arrastado de quem colocou o carro na vaga de especial. Ele some por trás da porta que se estilhaça fácil. 


A moça baixinha de saltos altos levanta-se levando a cor laranja no vestido amassado. Chega mais gente, e mais outro tanto vai embora.


Ele já está em casa. As lembranças bate no trânsito de volta aos buracos lavados pela chuva das inundações. Todos os dias é aquela rotina de chamar pessoas, entregar exames, limpar o chão, passar apressado... até quando meu Deus? Somos formigas agarradas pelas necessidades. Lá está ele no meio de tudo isso querendo ser diferente, mas, ai coitado!, não passa de um paciente sem-paciência. Os afazeres são muitos para manter o fluxo de pensamentos utilizados para lavar louça, escovar dentes, conversar o que pode ser dispensado. Ninguém pode parar, essa é a regra. 


Precisa direcionar algo para olho. É cinema, teatro, paisagens...uma turista joga uma casca de pitomba no chão. O mundo está condenado por aquela loira que usa róseo na bermuda. Seus óculos de sol direcionam o foco para os passantes incriminadores. A pobre casca abandonada irá ser varrida, Deus sabe quando. A chuva vem aí para levá-la embora assim como o crocodilo nadando nas águas barrentas entre gente comida para ele. 


A vida roda em cima de ideais num trânsito de dar medo. No meio da calçada, o pobre velhinho encontra no bolso o milho dos pombos que o rodeiam. Ele acha que está fazendo a coisa mais importante da vida ao relembrar quando ficava cortando palma para as vacas de leite. Somos todos pombos atrás de milho, feijão etc. Outros atrás de assuntos para registrar o que não leva a lugar algum. É o pacto impactante da palavra escrita. É bom jogar palavras fora que estão sendo arrumadas para isso. Não se condena por estar agindo assim, diz sua consciência que não mais pesa. O peso da consciência foi perdido, por isso ninguém mais perde o sono com ele bailando na insônia. Viva nós que temos a liberdade de passear por cantos e recantos do nada. 


A grande virtude reside na paciência de se aguentar, grita o embriagado que pediu ajuda ao álcool para suportar homens e mulheres se matando para dar de comer ao chefe. E assim vai construindo sua vala de palavras encaixotadas para trocar por alguns minutos do tempo alheio.


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 15.05.2024 - 17h20min.

terça-feira, 14 de maio de 2024

CAMINHOS DO VIVER - Nelson Almeida

 









CAMINHOS DO VIVER


Deserto ardente,

Espinho mais fundo.

Alma carente

No meio do mundo.


Estrada deserta

Enluarada.

Casa aberta

Da doce amada.


Verter o amor

De porta adiante,

Faz o jogador

Ser beligerante.


Amante da guerra

Que deixa ferido,

O peito que encerra

Um coração partido.


Amar ou sofrer,

Zelo ou abandono,

Põem a perder

Noites de sono.


Gozo é cataclisma

Que agita a alma.

É como o sofisma

Que promete a calma.

domingo, 12 de maio de 2024

MÃE DAS ILUSÕES

 


MÃE DAS ILUSÕES 


Dia de domingo. O sol resolveu dar as caras nas roupas do varal. Um homem deitado no quarto ao lado da mulher da outra cama que ainda ressona às nove horas da manhã. O que estará sonhando? 

Uma dorzinha de cabeça e o dedo indicador tremendo com ressaca do sábado estirado, fazem-lhe companhia. Ah!, que saudoso sábado de saudades boas. O que andam preparando as próximas horas para ele que anda sem planos? Não quer ficar ao léu. 

A parede branca mostra o caminho branco da memória. Que bom é ficar estacionado no pensamento sem compromisso nem em se alimentar, mesmo o corpo pedindo nutrição. O desejo permanece deitado esperando não se sabe o quê. 

Ah, hoje é dia das mães. Daquele útero ressonante não saiu nenhum parabéns, nem sequer um adotivo. Um presente anônimo chega nas mãos do entregador que pouca notícia dá do mandante, ou da mandante. Será que está envenenado? Ela já fora vítima da maçã da bruxa, uma vez que o mundo todo sabe que ela come sem cheirar a procedência quando ocupada com o espelho de bela adormecida. Não tinha tempo de desmanchar os compromissos com a beleza para expulsar um ser das suas entranhas. 

Desata o nó do presente. Rasga, sem nenhuma etiqueta, as etiquetas do endereço. Doces para a vovozinha dos netos agregados. Não, não era para ela. O entregador errou. Não se lembra onde jogou a embalagem para devolver o que nunca vai lhe pertencer. Arruma a devolução num saco de compras qualquer. Não se preocupa em abrir a porta do aqui está e muito obrigado e desculpe-me, pois já valeu a intenção de ser querida por alguém que existe somente na sensação de ter sido mãe por engano.


Heraldo Lins Marinho Dantas 

Natal/RN, 12.05.2024 - 10h39min.

TROVAS DO AMOR MATERNO - Professor Garcia



Francisco Garcia de Araújo (Prof. Garcia), o poeta no mundo que mais obteve primeiros lugares em concursos literários internacionais, muito honrou sua mãe Helena Garcia de Araújo, hoje falecida, na vida e na poesia. Ao longo de sua carreira poética, tentou expressar o inexprimível amor materno e, nessas tentativas de fazer jus ao tema, escreveu trovas magníficas que lhe trouxeram prêmios e menções honrosas.

Para deleite do leitor, fiz uma compilação de algumas dessas pérolas, publicadas em POEMAS DO MEU CANTAR. - Gilberto Cardoso dos Santos

I

Tua tristeza parece,

ó, velho mar dos meus ais,

o choro triste da prece

das mães rezando no cais.

II

Mãe que tem fé, não se esquece,

de orar pelos filhos seus!...

Pois, no silêncio da prece,

toda mãe fala com Deus!

III

Mamãe!...Essa dor não finda,

nem cura o silêncio mudo,

de um filho, que guarda, ainda,

tua ausência em quase tudo!

IV

Se amor de mãe, não tem fim,

Deus deu-lhe esse dom fecundo!

Mãe, por amar tanto assim,

carrega as dores do mundo!

V

Se amas a luz do luar,

te encantas, com tanto brilho;

vê quanto brilho, há no olhar,

da mãe que amamenta o filho!

VI

Lembro mamãe, do teu canto,

num doce e breve estribilho,

tentando enganar o pranto

do choro triste do filho!

VII

Que ingratidão tão mesquinha,

que ausência de amor e brilho,

viver a mãe tão sozinha

ao lado do próprio filho!

VIII

Amor de mãe, que esplendor,

ó, que divino mister...

Deus pôs a essência do amor

no coração da mulher!

IX

Mãe!... O teu nome é um terceto

do meu poema de luz,

que fecha o lindo soneto

dos braços de minha cruz!

X

Ah, mãe! Ao me por de joelhos,

em silêncio e de mãos postas,

quero ouvir bem teus conselhos,

ante enigmas sem respostas!

XI

Mãos postas, dedos cruzados,

no altar, cercada de luz,

mãe, lembra alguém, sem pecados...

Rezando aos pés de Jesus!

XII

Vi, quanto a dor, maltratava

aquela mãe maltrapilha

que, com fome, amamentava,

matando a fome da filha!

XIII

Mãe - três letrinhas, só três,

e em qualquer outro alfabeto,

gênio nenhum, nunca fez

palavra com tanto afeto!

XIV

Eu guardo os sons e os afetos,

com os quais, mamãe me embalava;

e hoje, eu embalo os meus netos

com as canções que ela cantava!

XV

Mãe! O amor com que me aqueces,

e acende a luz que me guia,

se eu fosse pagá-lo em preces

seriam cem mil por dia!

XVI

Das vozes que Deus envia,

o mais suave estribilho

vem da mãe, que ao fim do dia,

consola o choro do filho!

XVII

Nesse casebre sem dono.

tive uma infância tão boa;

mãe, foi rainha sem trono,

papai, um rei sem coroa!

XVIII

Quanta lágrima sentida

no olhar da mãe peregrina,

regando as rugas da vida

nas rugas da própria sina!

XIX

Na treva é que se carrega,

a dimensão do empecilho

da dor, que sente a mãe cega,

por não poder ver o filho!  

XX

Sinto na mãe que se enlaça

nos braços de uma criança...

Que um sonho de amor se abraça

aos bracinhos da esperança!   

XXI

Mãe - nessas tuas letrinhas

ouço os mais lindos fonemas

que formam todas as linhas

dos versos dos meus poemas!

XXII

Mãe, é poema de amor

que, a qualquer filho se apega;

alívio que afasta a dor

da cruz que o filho carrega!


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Obras do autor: