sexta-feira, 31 de julho de 2026

ECOS DO EGO (Heraldo Lins)

 

 

 

ECOS DO EGO

Duas vidas sendo vividas. Uma observa o sol mostrando o amarelo invadindo o azul inocente da manhã; a outra mastiga cubos de cenoura, deitado de pernas passadas, pensando na pipoca doce que também trouxera para a cama de solteiro.

Naquele momento, passava em revista o dia anterior. A frigideira de batatas inglesa, no topo de um copo dentro de um prato com água, evitou que formigas de açúcar viessem destruir seu desjejum preparado na noite anterior. Seu pouco tempo disponível para sair com a barriga forrada fez-lhe preparar tudo, deixando a obrigação de que, quando fosse consumir, apenas espantaria o frio dos alimentos na boca do fogo.

Precisava chegar cedo ao clube de tênis. Enquanto mastigava devagar o já aquecido prato, olhava para a bolsa com uma infinidade de coisas dignas da bagagem de um peladeiro. 

Tentava relembrar o que mais acontecera ontem, enquanto passava a língua entre os dentes, querendo encontrar resíduos da cenoura e da pipoca mastigadas há pouco.

Lembra-se de que desceu no elevador, ligou o carro... Filmou as quadras já ocupadas por outros estranhos tenistas. Sua turma estava para chegar. Play, leu nas mensagens do grupo.

O céu, agora totalmente iluminado, trouxe-lhe uma avaliação do quanto perdera o significado as experiências ontem vivenciadas. Uma nuvem passa pela janela, levando a certeza de que amanhã ela não será mais lembrada. Como a vida é fugidia, pensa, mesmo sabendo que os acontecimentos servem para revelar a fugacidade da existência que, mesmo assim, ele a deseja permanente.

Fixa o olhar num ponto preto na parede para ter a certeza de que ainda está vivo e consciente. O sol forte o fez mudar de lado em que estava deitado. Fecha a cortina e relembra que foram quatro horas e meia jogando. Gritos eufóricos, conversas paralelas e o retorno feliz para ouvir da esposa que adora vê-lo com aquela cara de campeão.

Qual importância tem isso para um soldado ferido numa trincheira? Ele volta-se para a maciez da cama e agradece à natureza por não o ter feito herói. Prefere ficar no anonimato; assim, evita dar autógrafos.

Sua vida permanece sem agonias da dor. Seu pai viveu mais de noventa anos, aliviado por drogas que o faziam dormir. Ainda bem que ele não foi esse pai. Quão difícil seria ser pai e filho ao mesmo tempo. É mais fácil ser ateu.

Carla faleceu hoje às 06h15min. Enquanto comia pipoca, sua prima falecia. Foram mais de oitenta anos comendo pipoca e cenoura, igual a ele hoje pela manhã. O menino de Dora nasceu, essa é mais uma mensagem aberta no aplicativo. Quanto de pipoca esse menino vai comer? Carla faleceu sem precisar de bomba, e o menino, ninguém sabe se vai gostar de cenoura.

O sol foi esquecido, mas, só em dizer que ele foi esquecido, passa-se a se lembrar dele. O silêncio cuida disso, mas é difícil representar o silêncio com a grafia. As reticências são atemporais. Nenhum cientista mede o tempo com reticências.

Relembra o guarda parando-o na portaria. Novato é assim mesmo. O vizinho, perguntando três coisas ao mesmo tempo e pedindo para ele não atrasar nas respostas. O céu está limpo de nuvens, é preciso mudar o foco para não endoidecer. Se fosse mal-educado, diria que o vizinho é inconveniente, chato, alcoólatra... e mais, muito mais virtudes invertidas; porém, freia o pensamento por precisar tomar emprestada uma colher de açúcar, então, a partir daqui, todos os erros desse importuno serão convertidos em acertos.

O infinito não se preocupa com esse estresse de ser vizinho. Antes de ser alguém no mundo, já se é vizinho. Se tivesse a inteligência infinita, não estaria questionando o dia de ontem nem se preocupando com o idoso inconveniente que, de quando em quando, toca a campainha para saber se o barulho escutado veio do martelo que ele um dia viu em cima da pia.Tudo isso serve de munição para despejar na tela, pois entende que permanecer vivo é produzir, poluir, alimentar-se e, consequentemente, usar mais o banheiro.

No mercado, uma moça com meias cobrindo apenas as imperfeições passeia empurrando um carrinho de orgulho por ser tatuada. Ela nem sabe que é considerada como sendo um saco coberto de pele manchada, retocada pela meia transparente que cobre a catapora de infância. Ela compra pão para o seu tanque de pão, do mesmo jeito que o motorista compra gasolina para o tanque de combustível.

O dia anterior está indo embora na cachoeira das horas. Seus minutos passam de seis. Só tem tempo porque olha para o relógio. Se quebrar a hora, é o mesmo de estar quebrando os grilhões que o mantém preso na contemporaneidade. Não quer ficar livre do tempo, pois isso significaria ficar preso no vácuo desse tédio interminável.

Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 31.07.2026 - 06h40min.

sábado, 25 de julho de 2026

UMA ODE AO LIVRO FEITA POR RUBÉN DARÍO

Rubén Darío: El Hijo de Nicaragua que Iluminó al Mundo» | UNAN-León

Rubén Darío (1867 –  1916)

 

O LIVRO (El libro) - excertos

 

No poema “El Libro”, o consagrado poeta Rubén Darío celebra o poder espiritual, cultural e social do livro como força transformadora da humanidade. Trata-se de uma longa sequência de estrofes que exaltam o livro como luz, alimento, arma contra o dogma e fonte de amor. Eis algumas delas:


XLIII

O livro é força, é valor, é poder, é alimento; tocha do pensamento e manancial do amor. O livro é chama, é ardor, é sublimidade, consolo, fonte de vigor e zelo, que em si condensa e encerra o que há de grande na terra, o que há de belo no céu.

 

 

XLV

O livro!.. O livro! Que belas são suas frases ardentes! Caem sobre nossas frontes como chuva de centelhas. Transformam o homem, elas, e em essência benditas, elevam a alma adormecida, semeando com mão forte, no caos da morte, a agitação da vida.

 

 

XLVII

Quando triste alguma vez, a alma, sombria e muda, vê o abismo da dúvida abrir-se aos seus pés, do livro o brilho lhe talha a felicidade, e faz com que um céu se abra, e a razão antes morta se comova e desperte ao trovão da palavra.

LXI

O livro ilumina e recria: ergue o ser humano, e ao espírito ensina a religião da ideia, fazendo-o tocar e ver um paraíso celestial, onde nunca chega o Mal, nem, atormentadora e inquieta, jamais se ouve uma trombeta que chame ao juízo final.

 

LXVII

Eu sempre hei de amar o livro; sempre sua voz hei de ouvir, pois me ensinou a sentir e me levou a cantar. Ao seu fulgente irradiar formou-se minha consciência, e viu minha inteligência, muda, absorta, confusa, no céu da vida, relâmpagos da Ciência.

 

LXVIII

O livro tem cantares, e murmúrios e sorrisos, e queixas de brandas brisas, cadências de azuis mares; dos verdes olivares, os rumores melodiosos; e essas palavras de amores que dizem em tons suaves as palmeiras às aves, e as aves às flores.

 

LXXXVIII

Hosana ao Livro! Pois ele destrói, à face do século, o dogma, esse grande vestígio, essa torre de Babel. Hosana ao coração fiel, à ideia liberal, pois em seu carro triunfal cruza altiva a razão, cortando, pela extensão do mundo, a árvore do mal!...

  

XCII

Hosana ao Livro! Que o poeta tempere sua lira e o cante, e que com ele brilhe sua imaginação inquieta: que se torne profeta e contemple o porvir, e lá no céu veja brilhar a estrela do saber, com sua candorosa trilha de nácar, ouro e safira.

 

 


quarta-feira, 15 de julho de 2026

UMA VISITA INUSITADA (Poema de Gilberto Cardoso dos Santos)

  

UMA VISITA INUSITADA

Vanusa Andrea pediu 
E eu vou tentar discorrer 
Sobre a vinda inusitada
De um maravilhoso ser 
Que desfilou triunfal
Na parede do quintal 
Procurando se aquecer.

No meio de uma reforma 
Da qual me fiz protestante
Me apareceu este bicho
Com seu passinho elegante
E lento em cima do muro
Neste momento obscuro 
Político e polarizante.

De índole feminista,
Não gostou de ser tocada
Por gente que não conhece
Nem mesmo acariciada
Mesmo que seja um nababo
Se alguém tocar no seu rabo
Vai levar uma lapada.

Extremamente ecológica,
Ervas são sua ração.
Rejeitou filé mignon
Que pus em grande porção.
Um banquete ofereci,
Mas das coisas que servi
Só quis banana e mamão.

Ela quis fugir pra rua, 
Mas eu mudei seu roteiro
Pensei nos cachorros soltos
E em menino maloqueiro 
Ou em ser atropelada
Ou acabar temperada 
No prato de um cachaceiro.

O meu vizinho que é sigma
Gestos tentou produzir
“Six Seven!”, ele gritava
Tentando à iguana atrair
Farmar aura ele queria
Mas a iguana não sabia
Para qual lado seguir.

Um therian da minha rua
Que se diz réptil também
A origem da iguana-verde
Explicou como convém.
Disse: "De áreas destruídas
Onde torres são erguidas
Esta 
aflita iguana vem”

Indiferente ao carinho
Que em vão eu tentei lhe dar
No telhado do vizinho
Subiu e foi se esquentar
Distante das iguarias
Foi recompor energias
Perto da placa solar.

Podendo alterar a cor,
Não é boa em camuflagem.
Porém feito estátua viva
Ela sumiu na paisagem
E eu, internauta matreiro
Sem ligar para o bombeiro
Fiz bombar essa postagem.


Gilberto Cardoso dos Santos

 Contatos: gcarsantos (Gmail / Instagram / Facebook e WhatsApp)

 

Livros do autor:

 

VIDAS ESVAZIADAS - Heraldo Lins

 ilustração sombria de homem envelhecido em casa decadente

VIDAS ESVAZIADAS

Ele observa a mulher descascar batatas com o velho canivete de mola. Era o mesmo que, anos antes, durante uma crise de ciúmes, rasgara-lhe a carne da perna. A cicatriz permanecia ali, discreta,  testemunhando um casamento que sobrevivera aos dias repetidos

O frio ocupa todos os cômodos da casa. Desde que a coluna o expulsara do cais, restara-lhe uma aposentadoria e dias vazios. Faltava-lhe força necessária para acreditar que ainda havia algo a construir, restando-lhe assistir, lúcido, ao lento desmoronamento das próprias ilusões.

Na convivência a dois, descobriu que o silêncio também é uma linguagem única capaz de sobreviver quando todas as palavras perdem o sentido. Da família restaram lápides, prisões e netos que sequer os conhecem pelo nome. Afinal, o tempo não mata apenas os homens; apaga, com a mesma indiferença, a memória de que um dia existiram.

Durante as noites, ele caminha pelo casarão herdado, incapaz de dormir. As telhas quebradas permitem que a chuva pingue sobre panelas espalhadas pelo chão, transformando a decadência em rotina. O ritmo dos pingos recorda o que ninguém consegue apagar.

A casa resiste por pura teimosia. A guerra segue do lado de fora não tão distante. Não há palavras capazes de alcançar aqueles que levaram seu filho para morrer num campo de concentração. O sofrimento não lhe empurrou ao suicídio, como acontecera com o vizinho que tomou remédios para dormir e cobriu a cabeça com um saco plástico. 

Uma coceira no nariz fez sua mão subir lentamente. Para uma mosca, aquele braço era uma montanha em movimento. Ela desviou e pousou na beira do fogão. Dali observava o universo dos gigantes, levantando voo ao menor gesto, mesmo quando o perigo existia apenas na memória inscrita em seus instintos.

Escondida entre as frestas da parede, uma víbora acompanhava a cena, paciente. Alimentava-se de moscas e escutou quando ele perguntou o que haveria para o jantar. A resposta era a mesma de sempre: batatas. As cascas, guardadas numa tigela, aguardavam a vez de serem o prato principal. 

A paciência sempre fora sua maior virtude. Nem mesmo quando soldados invadiram sua casa ele conseguiu reagir com desespero. Agora, os capacetes deles serviam como recipientes para armazenar água. A filha, antes de partir para a frente de batalha,  transformara aqueles homens em cadáveres. Nunca mais voltou.

Lá fora, máquinas queimavam corpos deformados pela varíola. Um rato observa tudo à distância, calculando a hora da refeição. Comer gente tornara-se tão comum quanto respirar.

Por um instante, surgiu-lhe um pensamento absurdo: minha vida perdeu a graça. Imediatamente imaginou que ratos talvez não fossem capazes desse tipo de reflexão. Talvez lhes faltasse tempo. Ou consciência. No entanto, a fome aproximava homens e animais. Ambos obedeciam ao mesmo senhor: o estômago. 

Ninguém se preocupava com as necessidades dos ratos, desde que permanecessem escondidos. Os urubus, do alto, assistiam ao espetáculo indiferentes, sem distinguir humanos animalizados de animais humanizados.

Passou a conversar com os próprios neurônios. Perguntava-lhes por que desejavam beijar a vizinha ou, sem motivo algum, arrebentar a porta do banheiro com um chute. Bilhões de pequenas consciências discutiam entre si enquanto ele permanecia sentado, como um ator condenado a representar para uma plateia inexistente.

Questionou a própria identidade. Talvez o "eu" não passasse de um nome recebido no batismo. Sob a pele havia apenas carne, bactérias, impulsos elétricos e uma máquina biológica convencida de possuir alma.

Farejou a possibilidade do suicídio escondida entre os talheres sobre a mesa. Quando finalmente adormeceu, os sonhos foram cruéis. Pela décima vez acordou ouvindo os gritos da mulher sendo afogada num tanque de óleo fervente. Assustado, virou o rosto.

Ela apenas varria o chão. A vassoura, quase sem cerdas, era sua última ocupação. Enquanto recolhia os fios de tecido que se desprendiam das roupas, parecia reconstruir a própria humanidade. Em poucos dias, os uniformes retirados dos soldados mortos pela filha já não serviriam para protegê-la do frio. As manchas de sangue haviam sido roídas pelos ratos, que agora circulavam pela casa sem qualquer receio.

Sobre a cristaleira, uma grossa camada de poeira escondia xícaras de porcelana com filetes de ouro escurecido. Toda aquela herança perdera o valor. Ele a trocaria, sem hesitar, por um único prato de comida. Mas já não existia ninguém disposto a negociar.


Heraldo Lins Marinho Dantas Natal/RN, 14.07.2026 - 22h58min.

sábado, 11 de julho de 2026

SERTÃO (Soneto de Nathanael Macédo)

 

Sertão  

(Nathanaél Macédo)

Em ti se espraia o rio da fartura, Sobeja a pesca e sobrepuja a caça... Amo esse campo, essa azulada altura, E essa aragem de fogo, que perpassa.

Guardas no seio a vigorosa raça, Sertão — mixto de paz e de ventura! — Por ti deixo o prazer, o encanto, a graça De outro lugar, onde o rumor perdura...

Quanto me alegra a verde cordilheira De tuas serras, e o bailar do som Das aves, pelas frondes da mangueira

Em teus braços senti calor e vida... Sertão amigo, hospitaleiro e bom, Só te comparo à Terra Prometida!

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Elogio da Preguiça (Poeta Juvenal Antunes)

 

 

Elogio da Preguiça (Juvenal Antunes)

(A mim mesmo)

A preguiça amamenta muita virtude - Machado de Assis

Bemdita sejas tu, Preguiça amada, Que não consentes que eu me occupe em nada!

Mas, queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras, Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana sciencia Esta minha honestissima indolencia.

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã: — Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é grande sacrifício Ter de engulir o bolo alimentício.

Ó sábios, dai à luz um novo invento: — A nutrição ser feita pelo vento!

Todo trabalho humano, em que se encerra? Em, na paz, preparar a luta, a guerra!

Dos tratados, e leis, e ordenações, Zomba a jurisprudência dos canhões!

Juristas, que queimaes vossas pestanas, Tudo que legislaes dá em pantanas.

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas Para atiçar o fogo das batalhas...

Cresce o teu filho? É bello? É forte? É loiro? — Mais uma rez votada ao matadoiro!...

Pois, si assim é, si os homens são chacaes, Si preferem a guerra à doce paz,

Que arda, depressa, a colossal fogueira E morra, assada, a humanidade inteira!

quinta-feira, 9 de julho de 2026

NUMA CASINHA DO MATO (poema de Hélio Crisanto)

 

NUMA CASINHA DO MATO

 
Na casa do sertanejo
Nunca falta um oratório
Tisna de fogão de lenha
Um tripé, um lavatório
Lampião, torno de rede
Corda na meia parede
Servindo de acessório
 
Tem na casa de um matuto
Um facão rabo de galo
Lata pra guardar xerém
Um chocalho sem badalo
Tem galinha poedeira
Telha rachada e goteira
Um arreio de cavalo
 
Uma manta de toucinho
Pra servir de refeição
Um chincho de fazer queijo
Gamela e pau de galão
Pilão, peneira, moinho
Na gaiola um passarinho
Saco cheio de carvão
 
Um pote com água fria
Um jumento no terreiro
Um cachorro vira lata
Com o nome de trigueiro
Uma trave na janela
Cangalha e forro de sela
Tem galinha no poleiro
 
Tem alguidar, tem quartinha
Paiol de milho da sala
Galinha choca num canto
Trapo de roupa na mala
Machado pra rachar lenha
Miado de gata prenha
Ralo de lata e bengala
 
Vê-se muito malassombro
No casebre do roceiro
Alma ofertando botija
A palhoça é seu banheiro
Uma porteira na frente
Tronco de pau no batente
Fumaça de candeeiro
Numa casinha do mato
 
É grande a satisfação
Tem fé e muita alegria
Tem abraço de irmão
Tem sorriso e muita luz
Tem oração pra Jesus
Na hora da refeição
 
(Hélio Crisanto)
 
 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O romance MEIA PATA gratuitamente ao seu dispor!

 

Conheci o romancista potiguar e santacruzense Ricardo Dantas em 2013, quando Meia Pata ainda começava sua caminhada literária. Fui um dos primeiros leitores e, profundamente encantado, escrevi a primeira resenha que dizia o seguinte:

RESENHA EM VERSOS DO LIVRO MEIA PATA 

Li o livro Meia Pata
Como quem rompe a folhagem
De uma área bem selvagem
E penetra numa mata
Segui a onça-pintada
Sutilmente camuflada
Tão diabólica e divina
Em sua pele penetrei
E aos homens contemplei
na sua visão felina.

Fui, puxado pela mão
Da alegre índia Iara
Com sua beleza rara
Guiando meu coração
Penetrei em uma aldeia
E senti correr na veia
Meu instinto ancestral
Nos passos de Daniel
Quase que fiquei pinel
Perdido no matagal.

Movi-me na mata escura
Buscando sobrevivência
Prossegui com persistência
Nas veredas da leitura
Vi paisagem deslumbrante
Sobre a mata exuberante
De um bioma ameaçado
Acho que o escritor
Com competência e primor
Conseguiu dar seu recado.

Ele, de modo brilhante,
Com maestria e leveza
Fala da mãe natureza
De maneira cativante
E nos põe numa aventura
Cheia de encanto e bravura
Que nos fala ao coração
Mostra que há retrocesso
Quando em nome do progresso
Fazemos destruição.

Parabenizo o autor,
Pelo romance envolvente
Que merece, certamente,
Receber todo louvor
A trama é bem instigante
E a conclusão brilhante
Chega a surpreender
Saí de dentro da mata
Do romance Meia Pata
Com vontade de o reler!
 
Na verdade, senti-me impulsionado a escrever sobre a obra  também em prosa: https://apoesc.blogspot.com/2013/08/sobre-o-romance-meia-pata-de-ricardo.html?m=1 

Fiz com o autor uma rica entrevista (link: https://apoesc.blogspot.com/2013/06/entrevista-com-ricardo-dantas-autor-do.html). 

Desde então, o romance tem alcançado leitores em todo o país, tendo até sido leitura obrigatória em vestibular de Roraima, na UFRR (2016–2017). Agora, em nova edição, Meia Pata reafirma sua força como obra que une ecologia e humanidade, consolidando Ricardo Dantas como uma das vozes da literatura nordestina contemporânea digna de ser ouvida por todo o Brasil.

Para alegria dos leitores de e-book, o autor disponibilizou gratuitamente sua obra, acessível neste link: MEIA PATA PDF

A obra passou por reformulações linguísticas para adequação ao público estudantil.

A nova edição, lançada pela Unilivreira (RN), é considerada pelo autor a versão definitiva, com 244 páginas e aprimoramentos no capítulo “Boca da Mata”, que aborda o modo de vida indígena. 

Gilberto Cardoso dos Santos