sábado, 12 de junho de 2021

MANIPULADO ATÉ OS OSSOS - Heraldo Lins

 


MANIPULADO ATÉ OS OSSOS


Na minha cabeça o vazio toma conta. As imagens que Einstein via em fórmulas matemáticas eu não as vejo. Os espíritos que muitos sensitivos dizem ver, eu não dou notícias. Pelejo para ter algo criativo, mas o máximo que consigo é uma tartaruga com uma tapioca nas costas. Nada além disso. E para não ficar de fora do moído literário vou escrevendo o que vejo nas costas das tartarugas. Quem quiser acompanhar o discurso vazio siga-me. 


O nada tem a virtude de não criticar ninguém. O vazio nas entrelinhas deixa todos confortáveis, inclusive o autor. Não haverá comentários. É como ficar olhando peixinhos no aquário. Dia e noite estarão lá nadando igual aqui. Sem trabalho, sem preocupações, apenas com vontade de continuar nadando. 


O bom de tudo isso é a certeza de se estar vivo. Continuar nessa bolha atmosférica respirando sem ajuda de aparelho; caminhando sem muletas e dormindo sem comprimidos. Minha inutilidade é tão majestosa que nem perfume faço uso. A indústria de cosméticos me vê como um anarquista. 


O inútil não é colocado nas estatísticas. Nada se exige dele. Não serve nem para fazer favor. Não existe a profissão da inutilidade. As universidades jamais terão um curso de bate papo na calçada. O curso de fofoqueiro é contemplado com o de jornalismo. O de desocupado, por astronomia. O de surfista, por oceanografia. 


Não ter ganância está difícil. Desde menino fui estimulado a competir por notas altas. No recreio, quem corria mais. Em casa, quem era mais obediente. Fui criado no mundo competitivo em busca do mais e do melhor. Quando adulto, ser diferente de tudo isso, é, no mínimo, desastroso. Uma espécie em extinção. 


A educação competitiva me levava a achar bonito ser o primeiro da fila. Corria para chegar primeiro na cantina. Parecíamos tartaruguinhas correndo em busca do mar aberto. Nem sabia eu que a fila é uma invenção para manipulação dos desejos. Levar as pessoas a desejarem serem os primeiros é a base do consumismo desenfreado. Ser o primeiro filho já é visto como quem deve ter mais direito, mesmo sendo filho dos mesmos pais. Os discursos e procedimentos marcam os últimos para assumirem o papel de “ninguém” na sociedade. 


A competição é pensada e colocada em prática com objetivos lucrativos. Depois de treinar a população nessa loucura, é só fabricar produtos. Todos os treinados irão comprar... por falar nisso, vou ter que me adaptar a comprar em doze prestações sem juros.     



Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 27/04/2021 – 08:16

quinta-feira, 10 de junho de 2021

NO TEMPO DE PAI TOMÁS, PRETO VELHO E PAI VICENTE - Poeta Daxinha




NO TEMPO DE PAI TOMÁS, 

PRETO VELHO E PAI VICENTE


I

Os meus tempos de criança

Jamais os esquecerei

O amor que desfrutei

Carrego em minha lembrança

Agora que a idade avança

Tornei-me incompetente

Não sou mais suficiente

Como alguns anos atrás

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.

II

Eu vivia bem mimado

Sempre ao lado dos meus pais

Em Boa Vista do Cais

Conhecido por Pelado

Hoje está tudo mudado

Os sem-terra estão presentes

Que diferença da gente

Quando existia paz

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.


III

Minha mãe me ensinava

As coisas boas da vida

Meu pai também, em seguida,

Sempre me orientava

Os conselhos que ele dava

Eu já gravava na mente

Mesmo eu sendo inocente

Para mim foi eficaz

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.


IV

Conduzo as marcas no rosto

Que os longos anos deixaram

Só as lembranças ficaram

Daquele moço disposto

Estou vivendo o oposto

Do que fui antigamente

Não sou mais eficiente

Como era anos atrás

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.


V

Esse corpo sem destreza

E as pernas cambaleantes

Faz eu recordar que antes

Ignorava a fraqueza

Mergulhava na represa

Nadava em água corrente

Nunca respeitava enchente

Quando ainda era rapaz

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.


VI

Só tenho que agradecer

O glorioso Jesus

Por ter me dado essa luz

E me ajudado a viver

Ser criança e aprender

Depois de adolescente

Envelhecer consciente

Que consumi o meu gás

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.


VII

Quando eu era menino

Zombava da própria sorte

Nem pensava que a morte

Levava cabra traquino

Às vezes, tirava um fino

Num obstáculo presente

Não pensava em acidente

E as consequências que traz

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.


VIII

Noto que a diferença

Hoje é de cem por cento

Se não tenho mais talento

Não julgo que foi ofensa

Mas a grande recompensa

Vem de Deus Onipotente

Que me faz constantemente

Lembrar que fui tão sagaz

NO TEMPO DE PAI TOMÁS,

PRETO VELHO E PAI VICENTE.


Autor: JOSELITO FONSECA DE MACEDO, o popular, DAXINHA.


01/05/2002


JOSELITO FONSECA DE MACEDO, mais conhecido como poeta Daxinha, nasceu em Cuité/PB, em 14/08/1938. Filho de José Adelino de Macedo e Maria Marieta da Fonseca, nasceu na zona rural de Cuité, mais precisamente no Sítio Boa Vista do Cais, popularmente conhecido como Sítio Pelado. Aos 20 anos, viajou para os estados de Minas Gerais e Goiás, onde trabalhou como agricultor e vaqueiro. Mas foi no estado de São Paulo que se fixou, trabalhando como metalúrgico nas principais usinas siderúrgicas da região do ABC paulista. Retorna à Paraíba em 1985, retomando suas funções de agricultor. Sempre gostou de poesia, sobretudo, do gênero cordel no qual, ainda menino, já escrevia seus primeiros versos. O retorno a Cuité aproximou-o ainda mais de suas raízes, fazendo-o mergulhar com mais fervor no mundo da poesia. Sempre convidado a se apresentar em eventos culturais da cidade, seus versos focavam, principalmente, no cotidiano das pessoas simples – como ele mesmo o era. Tem como obras publicadas um CD de poesias intitulado: “Poeta Daxinha – Um Amante da Poesia”, o cordel “O batente de pau do casarão” e uma participação póstuma no livro “APOESC em Prosa e Verso”, do também poeta Gilberto Cardoso dos Santos. Casado, pai, avô e bisavô, o poeta Daxinha faleceu em 04/05/2016, em Campina Grande/PB, vítima de insuficiência cardiorrespiratória. (Jaci Azevedo, filha)

O ESQUECIDO SABE TUDO - Heraldo Lins

 


O ESQUECIDO SABE TUDO



Mais um dia desmemoriado. Não totalmente, mas com falhas na lembrança. Preciso estar sempre relatando o que estou fazendo para não me perder no tempo. No espaço não me perco porque me deixaram enjaulado dentro de casa. Há receio que me perca na rua. Mesmo dentro das calças permaneço perdido. Na selva de objetos não sei o nome de alguns. O nome da panela consigo dizer porque amarrei uma fita nela. Garfo, colher e aquele negócio de cortar aprendi ainda menino, por isso não esqueço. Olho para baixo e não sei o nome do líquido que sai no meu cano. Esqueci o nome daquilo que o papel higiênico limpa. Na parte de cima da mulher há dois negócios que eu sempre gostei muito. Sei que é diferente de uma pedra, mas falta-me dizer o nome. Ah! Lembrei-me: mamadeiras.


Sei de tudo, mas perdi um pouco a capacidade de nomeá-los. Nessa enxurrada de água na memória nem me lembro de quem me fez o mal. Nessa crise recebi um telefonema de uma mulher querendo falar com alô. Se alguém avistar alô digam que a mulher que ligou para mim quer falar com ele. 


Não sei o que é bom dia. Alguém disse esse troço e eu respondi perdoei-me. Acho que era pedindo esmola. Estava tentando me lembrar o que fazer quando dá uma dor na barriga. Será que tenho que assistir televisão? Liguei e nada de passar. Fui para o WhatsApp enviar mensagens e a dor continuou. Levantei-me do sofá e a dor passou. Olhei em volta e vi uma pasta amarela no meio da casa. Acho que foi alguém que entrou e deixou. O negócio tem um cheiro estranho. Nem sei para que serve. Deve ser creme de maracujá com Chantilly usado para melar as pessoas no carnaval. Vou guardar nesse fogão que congela. 


Ainda bem que me lembro que noite é quando tem lua. Só não sei para qual a serventia do escuro. O claro eu sei, é para acordar a gente pela manhã. Fico voando quando observo as pessoas olharem para mim e mostrar os dentes. Vi um gato fazer o mesmo com um rato. Eu saio correndo quando vejo uma boca olhando. Ser mordido não é bom. 


Ultimamente estou ouvindo uma pessoa tocar trombone atrás de mim. Quando olho não tem ninguém. São pequenos sons intercalados. Às vezes fica ligado direto: pó pó pó pó... A pessoa que toca em seguida joga perfume vencido. Acho que é assombração.                    


               


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 26/04/2021 – 13:31

terça-feira, 8 de junho de 2021

CONTO CRÔNICAS COM DÓ MAIOR: A OBRA E O SEU AUTOR

 


O livro Conto Crônicas com Dó Maior foi escrito por alguém que conheço há décadas, a quem muito admiro. Nailson é conhecido como alguém de refinadas habilidades literárias e dotado de mente privilegiada. “Toda unanimidade é burra”, disse o também cronista e contista Nelson Rodrigues, mas quanto ao que eu afirmei acima, estamos diante de uma exceção. Quem o conhece de perto sabe o quanto ele merece ser escutado e lido. Aliás, quase todos os textos impressos nesse livro passaram pelo crivo de exigentes leitores em espaços virtuais e/ou em jornais e antologias impressas. Muitos e positivos foram os feedbacks. Algumas dos textos presentes no livro foram utilizados por mestres em eventos pedagógicos e inseridos em atividades estudantis de diversas escolas. 

Nailson exerceu por décadas a profissão que mais admira. Foi um educador de êxito, lembrado por muitos com saudade. Como professor, exaltou a cultura de sua região como ninguém. Por sinal, sempre pareceu altruisticamente mais interessado em promover outros autores que a si mesmo. Não foi sem relutância que decidiu, após décadas de cobrança, publicar algo seu.  Sem pedantismo ou pretensão de ensinar, continua a instruir-nos através de suas produções. Trata-se de um nome relevante na literatura do Trairi, uma voz necessária, que corresponde às necessidades ético-literárias de nosso tempo, um escritor digno de projeção em todo o país.

A crônica propriamente dita é um texto que se situa entre o jornalismo e a literatura. As produzidas por Nailson atendem plenamente às características do gênero. Digo isto porque na atualidade vemos crônicas que parecem não fazer essa ponte com o dia a dia. Comumente, o autor desse livro se volta para temáticas relevantes e as desenvolve com envolvente lirismo, poesia, bom humor e tiradas filosóficas que surpreendem.  Seus textos direta ou indiretamente fazem ponte com pautas humanitárias, mas de modo algum são panfletários. 

Num tempo em que muitos se põem a escrever sem ter o que dizer, você tem a oportunidade de ler a obra de um prosador e poeta que antes de tudo é um grande leitor; alguém que se interessa por tudo que acontece ao seu redor e deseja contribuir para um mundo melhor. Em alusão ao que disse Tolstói, diríamos que ele “canta sua aldeia” e torna-se universal sem ter a pretensão de sê-lo. Nailson Costa, antes de ser um bom escritor, é alguém que ama muito sua terra e sua gente; um colecionador de lembranças que extrai poesia e alegres lições de tudo que já viveu. Antes do pensador, vemos o homem que sente e revive com intensidade situações aparentemente banais ao olhar desatento, mas que ganham profundidade e despertam nosso interesse em suas crônicas e contos.

Tenho tido há vários anos o privilégio de ler seus textos à medida que vão sendo produzidos e antes que venham a público. Releio-os com interesse e vejo que não perdem a atualidade. Sou um dos muitos que têm insistido há décadas para que ele reúna suas produções e as transforme em livros. Finalmente ele nos presenteia com esta obra tão esperada, composta por textos que se tornaram clássicos em nossa região, com acréscimo de crônicas e de contos inéditos.

Portanto, nas páginas dessa obra o leitor se deparará com tudo que se pode esperar de um bom contista ou cronista. Ironias inteligentes e críticas necessárias direcionadas ao alvo certo, prosa poética e narrações bem humoradas; aqui acolá o registro de expressões regionais engraçadas etc.  Conto Crônicas com Dó Maior despertará em você reflexões necessárias e lhe proporcionará bons momentos de lazer. Mãos e olhos à obra!

 

Gilberto Cardoso dos Santos 

(Gilberto Cardoso Dos Santos)




Adquira conosco (Fone 84 99901-7248), com o Sebo Letra N'Ativa (Fone 84 9632-3943) ou com o próprio autor (Fone: 84 9919-0198)




O IDEAL PASSOU LONGE - Heraldo Lins

 


O IDEAL PASSOU LONGE



O aluguel de aleijados para a mendicância é normal. Eu tive essa sorte. Nasci com uma atrofia na coluna que nem consigo andar. Vivo viajando dentro de uma carroça pedindo esmola. Fui programado para não falar, e hoje permaneço em silêncio a maior parte do tempo. Sou levado de cidade em cidade sendo mostrado como um animal de zoológico. No caminho posso tomar café e olhar debaixo de saias. No meu ângulo dá para ver quase tudo. 


Já tentaram me comprar, mas meu pai não me vendeu. Só consigo manipular o dedo polegar e o indicador usado com frequência para segurar as ofertas que guardo em uma bolsa circundando onde deveria ser o pescoço. Minha cabeça é colada com o tórax. Minhas pernas finas e sem força servem para sujarem-se na defecação. O meu passatempo é pedir esmola. Como minha família se sustenta com minhas arrecadações, passo o dia e a noite fazendo isso.


Em casa vejo os meus familiares degustando o frango conseguido com minhas deformações. Depois vão jogar bola. Fico observando como é bom levar a cabeça sobre duas pernas. Eu levo a minha na carroça, ou melhor, levam para mim. No dia em que não conseguimos muitas doações fico trancado num quarto escuro como castigo. 


O meu pai quando bebe me coloca dentro d’água para me ver subir e descer na tina. Sou indefeso para correr. Até que nado bem, mas ele empurra minha cabeça. Nas festas de final de ano ficamos nos semáforos. Nessa época as pessoas têm medo de terminarem o ano sem terem feito uma boa ação, então, doam um pouco mais. 


Não quero passar a imagem que minha vida é ruim. Esse é meu trabalho e não preciso de muito esforço para desempenhá-lo. Os outro fazem por mim. Já nasci pronto para a piedade. Meu sonho é ver um filme no cinema. Dizem que lá é bem confortável. Mas não posso ter esses sonhos. Nem sei se poderia entrar, mas se pudesse e meu dinheiro desse, deixaria muitas pessoas desconfortáveis na sala de projeções. Ninguém aceita um deformado por perto.

              

Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 12/05/2021 – 07:25

domingo, 6 de junho de 2021

ACADEMIAS LITERÁRIAS: Dois enfoques sobre um mesmo tema

 



SEM CENSURA

Por: Ronnaldo De Andrade 


Estão banalizando a literatura e abestalhando poetas e escritores e os tornando cegos de vaidade, vendendo a eles títulos de barão, comendador, príncipe e até de rei! 

Quem compra esses títulos está assinando a declaração de que sua obra é irrelevante de tal forma que não o torna merecedor do título. 

Se dizem que você é merecedor de tal honraria, peça para que a confraria ou entidade lhe presenteie com ela. 

Não alimente essa MÁFIA. Não se iluda com a compra de títulos e certificados nem pague para ser homenageado nem carregar o nome de academia. Não se deixe usar; não se permita ser instrumento, ponte, conectivo nem verbo de ligação para atrair seu colega a esse abismo literário, para carregar o nome, o logopito de uma instituição que nada lhes oferece de significativo. Não basta ser um garoto propaganda, você ainda está pagando para sê-lo. Analise qual o suporte que a entidade está ou irá lhe dar, para que você tenha um retorno do que paga. Procure saber qual o trabalho relevante essa agremiação e o seu representante maior fazem em prol da literatura. 

Lembre-se: a vaidade pode ser uma forca que a pessoa põe no próprio pescoço, e vai puxando inconscientemente enquanto recebe o aplauso do público que se encontra vendado.


Ronnaldo de Andrade


Formado em Letras e em capoeira. Revisor e poeta
Criador da forma poética SPINA
Acadêmico na AVAL
Acadêmico na Academia Independente de Letras, PE



E POR FALAR EM ACADEMIA… 

       Por José de Castro 


Hoje, existe uma verdadeira explosão de academias literárias para todos os lados, país afora. Algumas surgem com legitimidade, com luz própria. Outras, infelizmente, não. 

Academias legítimas podem ser aquelas que nascem para atender à necessidade de reconhecimento aos valores literários existentes em uma determinada cidade, estado ou nação. Teoricamente, caberia existir uma academia por cidade, uma por estado e uma no âmbito nacional. Só que não. Elas se multiplicam além dessa cota única por fatia geográfica. 

E quais são as razões disso? Responder a essa indagação não é algo simples. Antes, precisamos arriscar uma análise sobre o fenômeno, tentando entender as motivações que levam alguém a criar uma academia, o seu objetivo, o alcance pretendido, e as atividades ou programações que a instituição realiza ou pretende realizar para justificar a sua existência. 

As legítimas instituições deste gênero, geralmente, são aquelas que têm o objetivo de outorgar o reconhecimento literário a autores nativos ou residentes em certo lugar de sua abrangência. Mas, muitas vezes, nelas nem sempre ingressam apenas pessoas de letras. Muitas academias têm um viés de indicação por outros méritos que não os literários, o que leva ao questionamento de sua legitimidade. A Academia Brasileira de Letras, ABL, não está isenta de receber críticas semelhantes. 

Muitas academias são formadas a partir de uma determinada pessoa que tem reconhecimento na área e consegue congregar membros fundadores ao redor daquele projeto. Depois de fundadas, ao longo de sua existência, poderão abrir novas vagas, sendo que os candidatos precisam atender a determinados pré-requisitos para se submeterem ao sufrágio e à aprovação dos seus nomes. No geral, não se cobra o ingresso na instituição.  Algumas estabelecem anuidades com o objetivo de cobrir custos de manutenção e funcionamento da sede, como aluguel, além do financiamento de atividades específicas.  

Existem, ainda, as academias que surgem para abrigar autores que praticam, país afora, um determinado gênero literário, como o soneto, a trova, o cordel, o haicai, o poetrix, a aldravia e outros gêneros. Geralmente não cobram taxa de ingresso. 

A maioria das academias que têm um propósito bem definido não saem por aí tentando angariar novos membros para os seus quadros. Atendem a uma demanda específica de suas próprias necessidades, ou seja, valorizar e preservar uma determinada produção literária e contribuir para a sua consagração como forma de expressão reconhecida no âmbito das academias. Quando muito, poderão, a partir de iniciativa dos seus pares, abrir vagas especiais para membros correspondentes, honorários ou beneméritos, atendendo a algum critério relevante estabelecido em seus estatutos que justifique essas comendas, que são meritórias. 

Contudo, existem academias que estão surgindo como uma forma de arregimentar autores de todas as regiões do país, com nomes pomposos de academias brasileiras disto ou daquilo.  Costumam exigir uma taxa de entrada, enviam um certificado e medalhão. E ficam apenas nisso. São academias de fachada, pois não  desenvolvem qualquer atividade literária que justifique a sua existência. Podemos arriscar que cumprem o propósito de alimentar o ego ou a vaidade de determinados escritores, poetas e congêneres. Mas findam por serem instituições inócuas, que não justificam sequer o nome que têm. Importante dizer que existem exceções a essa regra. 

Como já foi dito, academias legítimas costumam ter um foro privilegiado, seja municipal, estadual ou focado na produção nacional. Em alguns casos, extrapolam o âmbito do país, podendo estender-se além-fronteiras quando se trata de academias que pretendam abrigar escritores de um mesmo gênero literário, como já foi dito. 

Reconheço que existem academias literárias de real valor, das quais cada um de nós, escritor ou escritora, orgulhar-se-ia de participar. E as razões para isso poderiam ser várias, incluindo o valor e o reconhecimento do seu fundador, a qualidade dos seus pares literários, a grandiosidade dos patronos das cadeiras a serem ocupadas, a diversidade e a pertinência de atividades a que se propõe a academia com o objetivo de enaltecer a literatura ou o gênero literário abrangido.   

Mas pense bem. Academias sérias não vivem distribuindo convites de “imortalidade” no atacado e no varejo. Desconfie sempre, investigue,  analise. Se acontecer um convite, deve existir alguma razão forte para isso. Qual é a relevância dessa academia para a literatura? Existe, ou apenas configura-se como atividade caça-níquel? Contribuirá de alguma forma para o avanço das letras ou  servirá apenas como forma de massagear egos e vaidades pessoais? A análise deverá ser cuidadosa, pois envolve inúmeras variáveis, inclusive autorreflexão, pois envolve o campo da psicologia de cada um, além de implicar no valor, respeito e dignidade do projeto de vida de alguém como autor, escritor, poeta ou o que for no campo enfocado.  

Desconfie do modismo das academias de conveniências, que surgem do nada, sem nenhuma consistência literária, sem reconhecimento público. Afinal, iscas existem em todos os lagos, rios e mares. O peixe precisa identificar o seu alimento verdadeiro. Ou será fisgado por algo que, no lugar da imortalidade, poderá lhe render um lento suicídio literário, além  do escárnio dos que sabem que academias não fazem os verdadeiros escritores ou poetas. Antes, academias literárias são feitas por aqueles ou aquelas que cultivam a escrita. 

Assim, a decisão de ingressar em uma determinada academia deve ser sempre fruto de um juízo de valor. Você e a academia pretendida se merecem? Haverá uma sinergia que enaltecerá a ambos – escritor e instituição? Ela trará alguma contribuição para além do umbigo dos seus próprios fundadores? Se a resposta for positiva, embarque na aventura. 

Mas, acima de tudo, dignifique a literatura que você pratica. Apenas o tempo e o legado que você deixar poderá qualificá-lo ou qualificá-la como “imortal” ou não. 


José de Castro, jornalista, escritor e poeta.


(Membro correspondente da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil – ALACIB, Mariana/MG.

Membro fundador da secção brasileira da Academia Luminescence (franco-brasileira). 

Membro fundador da Academia Internacional Poetrix, cadeira 11, patrono Paulo Leminski.

Membro da Sociedade dos Poetas Vivos do RN e da União Brasileira de Escritores – UBE/RN. 

Membro da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas - SBPA, Mariana/MG.

Cônsul Poeta Del Mundo de Parnamirim/RN.)



SONHOS VEGETAIS - Heraldo Lins

 


SONHOS VEGETAIS   



Sou um coqueiro. Já tentei sair dessa minha condição de botar coco, mas não consegui. A goiabeira queria trocar de lugar comigo mais não foi possível. Eu queria ter muitos galhos, e ela, sonhava em ver o rio daqui de cima. Ela soube que fico observando o rio encher, e isso a estimulou a propor a troca. Quando o rio está cheio divirto-me olhando os peixes. Pergunto-os para onde vão. Eles respondem: estamos indo morar no mar. 


Como será o mar? Dizem que é muito grande. Acredito que nunca terei esse prazer em conhecê-lo. Conheço a água. Ela passa sempre por aqui em forma de pingos. Não tem pés, mas corre. Eu sou um pé, e fico parado. Minha condição de estático me causa tristeza. Queria viajar por esse mundo afora. Conhecer outras plantas. Dizem que há uva. Não a conheço. Tanta coisa nesse mundo que só sei de “ouvi falar”. 


Os únicos bichos que moram por aqui são abelhas e lagartixas. Quando minhas folhas caem é um pedaço de mim indo embora. Lá embaixo ficam se amontoando sem nada para fazer. Aqui em cima serviam para me abanar. Mas é preciso me conformar com isso. Nem sei se poderia impedi-las. Acho que não! Quando menos espero, elas caem. Os cocos também são assim. Eu me esforço muito para vê-los carnudos. Puxo água por vinte e cinco metros. Coloco dentro deles, e depois me abandonam sem nem dizer adeus. 


Minha tristeza só não é maior porque vejo outras folhas e cocos nascendo. Sofro por ser ingênuo a ponto de achar que vão ficar grudados em mim. Tudo se reinicia. Estico-me para dar apoio aos que vão chegando. Os que me abandonam deixam a marca da sua ingratidão no meu tronco.


Meu vizinho sofreu uma descarga elétrica ontem. Nossa condição de sem-teto nos deixa vulneráveis a esse tipo de malvadeza. Tanta pedra por aí para o relâmpago cair, mas ele prefere exercitar seu sadismo em nós. 


As aves resolveram fazer-me companhia. Um gavião está mais tempo pousado. Acho que está querendo pegar uma lagartixa. São da mesma estirpe dos relâmpagos. Matam sem remorso. 


A carnaubeira disse-me que vou morrer. Ela é mais antiga e já viu outros da minha espécie sucumbirem. Ela também vai, disse-me o urubu. O cajueiro falou que eu poderia, depois de morto, conhecer o mar. Basta eu permanecer robusto que serei escolhido para fazer parte do lastro de uma jangada. Que bom, então morrer não será tão ruim assim.         



               

Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 25/03/2021 – 17:36

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CARTA EM VERSOS A DONA CÍCERA

 




VERSOS A DONA CÍCERA - Gilberto Cardoso dos Santos

 

Dona Cícera Simões,

Eu fiquei muito contente

Ao ver a senhora lendo

De modo tão envolvente

Os cordéis que escrevi

E no passado me vi

Assentado num batente.

 

Lembrei-me de uma vizinha

Que lia cordéis pra nós

E eu escutei a voz dela

Na sua bonita voz

Cheia de paz e doçura

Nos enchendo de ternura

Na realidade atroz.


A leitura é um refúgio

nesses tempos tão cruéis

E a vida de Fabião

Um dos grandes menestréis

da poesia popular

não poderia faltar

No meu Maço de Cordéis.


Adorei também ouvir

Dona Cícera Simões

Lendo sobre Piabinha

Que encantou a multidões

E deixou lembranças boas.

De animais e de pessoas

Busquei extrair lições.


Ao ver a senhora lendo 

Bastante me comovi

Vejo que alcancei o alvo

daquilo que pretendi

Busquei com simplicidade

Atingir qualquer idade

Quando esse livro escrevi.


A senhora para mim

É uma bem-aventurada

É mãe de Paula Belmino

Por tantos admirada

E sua netinha Alice

Também demonstra meiguice

Com certeza é muito amada.

 

Vejo que a senhora entende

Da importância da leitura

Pois nos traz felicidade

Nos momentos de amargura

Um livro que nos cativa

Mantém a memória viva

Melhora a nossa cultura.

 

Poder ouvir a senhora

Foi um enorme prazer

Lembrou-me da avó que tive

E que já não posso ter

A senhora é excelente!

Quem sabe se um dia a gente

Não irá se conhecer?

 

Tudo de bom lhe desejo

Nesse tempo tenebroso

Paz, saúde, vida longa

E um abraço carinhoso

Na mãe, na filha e na neta

São os votos do poeta

E fã Gilberto Cardoso.


Video:


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quinta-feira, 27 de maio de 2021

NADA É FÁCIL - Heraldo Lins



 NADA É FÁCIL  



Deparei-me ontem com um pedinte. Era um pequeno armário cheio de livros com a inscrição: leia-me.  Aparentemente abandonado, estava com as portas escancaradas oferecendo obras de todos os estilos para serem levadas gratuitamente. Trouxe um com as páginas amareladas. No caminho de casa fiquei imaginando quanto trabalho foi desprendido para produzi-lo. Hoje praticamente quase virava lixo. A ideia de salvar essas pérolas está entre as mais geniais por mim abraçadas. 


Sendo assim há um valor maior nessa leitura. É tanto que eu estava lendo, mastigando e engolindo a folha. Seguia o conselho do sábio que diz: vamos devorar os livros. Depois das primeiras páginas senti enjoo. Sabendo que a tinta é feita à base de metal, parei para não me tornar um soldadinho de chumbo. Preferi continuar usando o fogo. Lia e queimava o lido. Não queria deixar nenhum vestígio do que estava lendo. Se alguém descobrisse eu ficaria aborrecido. Não gosto de interrogatórios. 


Procuro esconder o conhecimento para me livrar da curiosidade das meninas do clube literário. Todas elas são ótimas estudiosas. As minas usam um código para falar. Concordando com as propostas indecentes dizem a fórmula de Bhaskara. Se não, recitam o teorema de Pitágoras. Nas noites chuvosas usamos código Morse. 


No nosso círculo de “ficantes” temos um pacto: nada pode ser dito diretamente. Às vezes quando quero falar com uma delas, passo uma mensagem perguntando se Afrodite quer falar com Zeus. Recentemente uma respondeu que eu precisava dissertar durante uma hora sobre os Triunviratos para ela começar o diálogo. Fui atrás desse conhecimento. Adentrei a madrugada preparando o material, mas quando preenchi o requisito ela disse que outro havia chegado primeiro. Vou guardar essa pesquisa para evitar ser passado para trás na próxima vez.


Não foi a primeira nem será a última vez que perco oportunidades. Quem corre atrás do conhecimento sabe que há um inimigo natural: o processo de esquecimento. Além dele, no meu caso, há o vento. Onde estou há sempre vento embaralhando as páginas, mas como conquistar namoradas depende do repertório que se tem, sigo o caminho mais lógico: decoro poemas e tudo que possa servir no diálogo. Qualquer desconfiança que nada sei, a relação é interrompida drasticamente. Sou bloqueado sem perdão. 


Entrou uma novinha no circuito que quer que eu fale hebraico. Depois que a vi de biquini não tiro a enciclopédia da cara. Vou aprender antes que ela fique gorda.     


Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 29/03/2021 – 06:53

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domingo, 23 de maio de 2021

FRANCISQUINHA CONFESSOR: A PIONEIRA DO CORDEL NO TRAIRÍ POTIGUAR

 

Maciel Sousa (neto da poetisa), Francisquinha Confessor (aos 98 anos) e o poeta Gilberto Cardoso (foto tirada em 2012)

A PIONEIRA DO CORDEL NO TRAIRÍ POTIGUAR

Pesquisando sobre as Mulheres Cordelistas Potiguares deparo-me em meu acervo com um cordel da poetisa Francisquinha Confessor, natural de Japi onde nasceu a 22 de setembro de 1913. Folheto este, publicado sob o nº 39, pela FJA no Projeto Chico Traíra, no ano de 1998 e sendo citado como sendo o primeiro trabalho da autora a ser publicado, mesmo ela estando produzindo e escrevendo seus versos desde 1932; o entra naquela tese de que a literatura de cordel e/ou os folhetos populares, não era coisa para Mulheres fazerem e nem publicarem. A pioneira, MARIA DAS NEVES BAPTISTA PIMENTEL, natural da Parahyba, publicou o seu primeiro cordel – O Valor da Honestidade ou O Viulino do Diabo - usando um pseudônimo masculino, Altino Alagoano, em 1938. Para minha surpresa, encontro no folheto da Francisquinha dois cordéis: Minhas Inspirações e Meus Pequenos Versos. Este último tem como sub-título: Lembrando 31 de Dezembro de 65 ou A Festa de ano em Nova Floresta, com data de escrito no dia 1º de janeiro de 1966. Se alguém por acaso tenha outras informações, para mim isto caracteriza que a poetisa Japiense – FRANCISCA DE OLIVEIRA CONFESSOR – é a pioneira em cordel na região do Trairí do RN. Até que me provem o contrário.

(Kydelmir Dantas, Nova Floresta, 23/05/2021).



A FESTA DE ANO EM NOVA FLORESTA

EM 31 DE DEZEMBRO DE 1965

Autora: Francisquinha Confessor


Hoje é Dia de Ano,

Ontem foi véspera do dia,

Viajei com alegria,

Bom destino e grande plano.

Falando assim me ufano,

Gozei uma grande festa

Na cidade Floresta

 A nossa festividade.

Hoje, lembrança e saudade,

É somente o que me resta.


Estou carpino² a saudade,

Daquela gente querida.

Oh, que classe decidida

De tanta capacidade.

Gente de sinceridade,

Onde mora a simpatia.

Desta gente de valia

Eu não posso me esquecer.

Ontem, com tanto prazer.

Hoje, amargura crucia.


Minha festa predileta,

Poesia de viola.

Para mim a grande escola,

Repente, improviso, poeta.

Embora que pela seta

De cupido, eu sou ferida.

Mas tenho prazer na vida,

Onde gozo a simpatia,

Fico sempre em harmonia,

Da poesia querida.


Tive um grande prazer

Nesta viagem que fiz.

Graças a Deus, fui feliz,

Vi quem eu queria ver.

Fiz a saudade morrer,

E a mesma vive comigo

Hoje aqui em meu abrigo,

Me serve de companhia,

Juntamente a poesia,

Arrimo do meu castigo.

Daquela terra florida

Ouvi os grandes poetas,

Com suas músicas completas

Da Poesia querida.

Poeta, alma da vida,

Assim presa uma alma tem.

Joga o laço, chama e vem,

Com sua força sadia.

Com gesto de simpatia,

Traz sempre preso um alguém.


João Caetano e Simião,

Cotinha, gente de fé.

Davi Nogueira e José

De grande inspiração,

Que qualquer mágoa consola.

Quando pega na viola

É uma tranquilidade.

Por isso aquela saudade

O meu pranto desenrola.

Seus irmãos estou lembrando,

Alair, Dimas, Elias.

Seus sambas e poesias

Aqui estou recordando.

Fico sempre aguardando

Se um dia aqui vai chegar.

Minha choupana, meu lar,

A você serve de abrigo.

O prazer vive comigo

De aqui os aguardar.


Oh! Que gente delicada,

Não esqueço de seu João,

Zé Caetano, Simião,

Com sua face corada.

Bonito jardim de fada,

Abrindo sua corola.

Seu trinado de viola

É um pássaro gorjeando.

Saudades suavizando,

O seu verso é uma escola.

E não esqueço Cotinha

E o grande Davi Nogueira,

Com sua musa altaneira,

Simião fruto da vinha.

Poeta de alta linha

Da poesia um alento.

Não me sai do pensamento

Seu verso de simpatia.

Tem força de poesia,

Que me expressa sentimento.


Foi imenso meu prazer,

A noite véspera de ano.

Com ordem do Soberano,

Assim eu posso dizer.

Aqui fico a escrever,

Poesia me controla.

Abrindo sua corola,

Me orvalha o coração.

Com José e Simião,

Fiquei aos pés da viola.


Foi uma noite de rosas

Ao lado dos Violeiros.

Aqueles versos altaneiros,

Com poesias saudosas

Aquelas frases garbosas,

Nunca mais esquecerei.

José, Davi, Simião,

Cotinha e seu João,

Que de bom gosto escutei.

Ponto final me convém,

Ainda me recordando,

Um verso de quando em quando,

O meu pensamento tem.

E não esqueço a quem,

Lhe trata com simpatia.

Me expresso na poesia,

Pode falar quem quiser,

SER POETA É MEU MISTER

Falo assim com garantia.

E aqui, com pensamento

Peço desculpas também.

Cada um dá o que tem,

Expressar o sentimento.

Mando nas asas do vento,

O meu abraço saudoso.

No trinado mavioso

De um querido passarinho.

Lembrando os sons do pinho,

Teu verso melodioso.


Fiz meus versos sem alentos

Em sinal de gratidão.

ENCHENDO MEU CORAÇÃO

De altivos pensamentos.

Inspirações, sentimentos,

Tudo eu posso colher.

Nestes versos posso ver

O destino de meus planos,

E ENQUANTO EU VIVER

Não esqueço os Caetanos.


Japi (RN), 01 de janeiro de 1966.

 * Os versos em caixa alta representam sugestões do pesquisador Kydelmir Dantas para trechos meio apagados na versão impressa.

¹ "Carpino" - Carpindo.

 

 



 

 

 

 

 

 






CLEUDIVAN, UM EDITOR CONFIÁVEL OU QUANDO SE FAZ ALGO POR AMOR - Gilberto Cardoso dos Santos




Até a criança se dá a conhecer pelas suas ações, se a sua conduta é pura e reta. - Provérbios 20:11


Quer saber a diferença entre um editor mercenário e alguém que promove a leitura e a literatura por motivos louváveis? Veja o exemplo de Cleudivan, sócio fundador da CJA e criador do Selo Trairi.


Ele veio deixar meu livro Contos e Fábulas em Cordel; não podia demorar, pois iria com urgência a outras cidades. Horas depois, quando julgava que estivesse bem distante daqui, ele retornou; disse que havia esquecido algo muito importante e precisara voltar à minha casa; fiquei a especular o que ele havia esquecido, a ponto de obrigar-se a retornar.

Explicou-se:

— Esqueci de pegar minha cópia do seu livro devidamente autografada e também a cópia do ilustrador. Não posso retornar a Natal sem isso.

Nada lhe disse no momento, mas esse gesto falou fundo ao meu coração. Busquei caprichar na dedicatória para fazer jus à ação.

Sei de muitos editores — a net está cheia deles — dispostos a se aproveitar dos sonhos dos que escrevem e a transformá-los em pesadelos. Sei de uma das muitas vítimas destes, que vendeu seu carro para investir caro numa obra que não lhe trouxe o esperado retorno.

Tenho observado atentamente a conduta de Cleudivan desde o primeiro dia que o vi e vejo nele uma índole diferente. Foi pelo caminho da leitura que ele ascendeu às alturas em que hoje se encontra; por amor à literatura e por crer no potencial autossustentável de promovê-la, abandonou um emprego fixo para dedicar-se aos livros. Estive em sua casa e vislumbrei o paraíso descrito por Borges: uma grande biblioteca. Vi prateleiras e mais prateleiras de livros que ele tem reservado para ler quando dispuser de tempo. Disse-me que os reserva para a aposentadoria. Ali, enfileirados, vi clássicos da literatura universal e obras nacionais relevantes. Pensei comigo: "Puxa vida! quantas coisas ele poderia projetar para seu próprio lazer durante a velhice, no entanto o que priorizou foi a leitura!"

Manuseio meu primeiro livro — Um Maço de Cordéis, lições de gente e de bichos —, em seguida folheio o Contos e Fábulas em Cordel e vejo com quanto capricho a obra foi confeccionada. Ele atentou para os mínimos detalhes; papel e ilustrações da melhor qualidade.

Cleudivan, o homem que promove a leitura e realiza o sonho de tantos, é, antes de tudo, um leitor. Um leitor com apetite de traça, de certo modo insatisfeito por não ter tempo de ler tudo que lhe apraz, e vê-se forçado a postergar a fruição de bons textos para o fim dos seus dias.





Desejo-lhe sucesso em seu nobre e bem-intencionado empreendimento.


Gilberto Cardoso Dos Santos, cronista, poeta, cordelista e educador.






Adquira meus livros pelo WhatsApp: 84: 99901-7248





ESQUELETO DISSIMULADO - Heraldo Lins Marinho



 ESQUELETO DISSIMULADO



Há três anos fui acometido de uma dor nas costas. Se contarmos de cima para baixo a dor tinha seu epicentro perto do boqueirão do riacho profundo. A maneira de resolver esse problema foi dormir em cima de uma garrafa de cachaça pressionando a vértebra que me torturava. 


Ano passado a dor inventou de voltar. Não contei conversa. Armei a rede e deitei-me em cruz com a cabeça e os pés no chão e a envergadura suspensa pela tipoia. Passei a noite nessa posição e pela manhã a dor havia ido embora. Até ganhei mais agilidade no raciocínio. 


Diante dessa mudança comportamental, percebi que meu inimigo é o esqueleto que habita dentro de mim. Minhas raivas, depressões e medo vem desse ser. A história em quadrinhos já havia denunciado esse bandido, só agora é que percebo. A prova é que tenho duas caras. Uma vem da cabeça neuronal e outra da cabeça cranial. Uma é maleável e outra radical. O famoso lundum vem do dissimulado tecido ósseo. 


Agora a coisa mudou. Eu era manipulado pelas duas caras e não sabia. Com o monitoramento constante percebi que quando elas estavam desocupadas ficavam brigando entre si. Revezavam-se no poder jogando-me de um lado para o outro. Quando me distanciava desse amaranhado, sentia uma cotovelada. Era o sádico esqueleto dizendo que quem mandava era ele. 


Minha obsessão era tão grande por essa múmia que quando via uma bela mulher ficava analisando esse inimigo dentro dela. É tanto que quando as beijava ficava com o olho aberto encarando-o. Sabia que ele estava ali rindo de mim. Eu abraçado com a modelo e ele manipulando as mãos dela. Quando ela me fazia carinho eu tinha consciência que havia o comando do esqueleto por trás daquela pegada. Era difícil se concentrar na carne. Só pensava nos ossos. 


Virou paranoia, e a ajuda veio através de Doutora Rejane. Cheguei lá e a terapeuta estava sentada com seus cento e cinquenta quilos comendo lasanha. Ao perceber que aquele vigarista não conseguia mais levantar minha médica, casei-me com ela. 



Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 23/04/2021 – 12:07

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terça-feira, 18 de maio de 2021

QUEM QUISER QUE CONTE OUTRA - Heraldo Lins

 


QUEM QUISER QUE CONTE OUTRA


Descanso hebdomadário. O que danado é isso? Foi minha pergunta ao deparar-me com o texto da constituição de 1934. Camões e Fernando Pessoa com certeza sabiam o que significava, mas eu não. Fiquei pensando que era o direito que os dromedários teriam depois que atravessassem o deserto. Pensei tudo menos no descanso semanal. Por isso é que dizem que quem não sabe é como quem não vê. Não via nenhuma relação do termo hebdomadário com descanso semanal. Os termos são criados tendo como referencial algo que se relaciona com o objeto. Tetéu significa o popular tetéu. Basta ir ao campo e ouvir um canto com essas sílabas que logo percebemos um pássaro branco e preto gritando o seu nome. O bicho preguiça faz jus à sua lentidão. Ninguém nunca iria imaginar colocar o nome de um leão de pinto. Não pegava. O ão de leão tem referência com o seu urro. Pinto, com o piu piu do pinto, ou melhor, com o seu piar. Piu piu do pinto soou meio atravessado. O pinto dessa história é macho e não tem piu piu. Ele já nasce doido por piu piu, mas... deixa pra lá. Vamos voltar às palavras. 


Jacaré ao ser pronunciado pensa-se logo na sua mordida. Ninguém fala Jacaré pensando no seu rabo nem no olho do bicho. É na bocarra. Tubarão jamais seria chamado sardinha. Parece que o ão tem cara de mau. Já nasce temido desde o berço. É tanto que quando menino de rua, quando eu não podia com meu rival, dizia que ía chamar meu primo Chicão. O valentão corria. Nem sabia que nunca existiu esse meu primo temido no bairro.  


Cinderela combina com bela. Bruxa, com bucha. Branca, com neve. Gostava de viajar nas histórias ipsis litteris. Só me contavam a parte que Branca de Neve arrumava a casa e preparava a comida para seus sete maridos. Depois que anoitecia eu nem desconfiava da luz vermelha na sala de jantar e aquele bando de anões se revezavam até a madrugada. 


Uma fonte disse-me que Branca de Neve pediu aos sete anões um descanso semanal, e esse descanso seria aos domingos. Diante da quantidade de anões para serem atendidos passou a ser descanso depois dos sete. Procuraram a raiz do nome e viram que vem do Grego hebdomos. Assim ficou descanso hebdomadário, descanso a cada sete dias graças aos safados dos anões e a sonsa da branca de neve.

      



Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Natal/RN, 09/04/2021 – 11:39

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