segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

DISFARÇA QUE O POVO ESTÁ OLHANDO - Heraldo Lins

 


DISFARÇA QUE O POVO ESTÁ OLHANDO


Certa vez escrevi sobre a coceira, e, em seguida, apaguei. Isso aconteceu depois de uma semana trabalhando o tema e ter avaliado que estragaria minha reputação falar de algo tão trivial. Hoje, chega-me à mente este mesmo tema, e fico em dúvida se deverei salvá-lo. 

Sei que é difícil tratar dele sem descambar para o pejorativo, principalmente, se ele estiver sendo executado nas virilhas, e ainda mais, no vértice das pernas pela parte de trás. Tenho medo que muitos parem a leitura ou fiquem lendo só para fazerem mal juízo. 

É delicado trazer à baila algo tão comum e discriminado. O culpado de ele ser malvisto é que essa sensação aparece em horas indesejadas, por exemplo, em casamentos. Todos ansiosos pelo sim definitivo, exatamente quando o líder religioso está dizendo:

_Fulano de tal, você aceita sicrana como sua legítima... 

Então ele para tudo, corre para um canto e diz: 

_Só um momento... Volto já...! 

Grita por trás da coluna: 

_Só mais um instantinho...! Tô indo...! Pronto, terminei... Ufa!... 

É no mínimo deselegante vê-lo voltar cheirando as pontas dos dedos. 

Nós, a maioria, deveríamos agradecer por termos mãos para fazer isso sem precisar pedir a ninguém. Fico imaginando, ao avistar alguém sem os dois braços, como se coçam, é tanto que quando estou perto de uma pessoa assim, procuro me distanciar. Vai que dá vontade, não se tem escapatória: o manual da solidariedade nos manda coçá-los(as). 

O pior é que, na maioria das vezes, a coceira acontece nas partes que trazem em sua formação genética um repelente natural que nem com pinho sol larga a "catinga". Meter a mão nestes mistérios alheios é perigoso.

Mas nós somos muito dissimulados e nem falamos nisso. Queremos só saber é de Selfie que é bem mais importante e limpo. Mas não tem como separar um do outro. Eu soube que, depois de um estudo rigoroso sobre as Selfies, descobriram que as ciclistas, enquanto tiram suas próprias fotos se coçam nos selins, disfarçadamente.

O mundo vive conspirando em favor da coceira, já dizia uma grande filósofa chamada Josefina das pernas finas. Foi ela que me fez prestar bastante atenção nestes atos que acompanham momentos históricos, como é o caso da maçã caindo na cabeça de Newton. Ninguém diz o que Isaac estava fazendo debaixo da macieira. Não, ele não estava elaborando a lei da gravitação universal, ele, estava, simplesmente, escondendo-se para se coçar em paz. O que aconteceu foi que era safra de maçãs, e ele de tanto se esfregar no tronco da macieira, fez uma delas cair no seu quengo, segundo Josefina, foi isso mesmo. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 30.11.2021 – 06:25



"A Crença Religiosa Torna o Mundo um Lugar Melhor?"

 



Adoro ver debates que tematizam fé versus ciência. E você, gosta também?  Já vi praticamente a todos os disponíveis no Youtube. Um deles, um dos mais marcantes, foi entre Richard Dawkins e o Cardeal George Pell. 

Ambos foram convidados pelo programa de tv australiano "Q and A". O debate teria como tema principal a importância da religião para o mundo. 

Enquanto se dirigia para o local da peleja, Dawkins foi acompanhado por uma equipe de filmagem que o entrevistava para o documentário The Unbelievers (Os descrentes). Indagado sobre suas expectativas quanto ao debatedor daquela noite, declarou: 

"O cardeal George Pell é o mais alto católico romano na Austrália; ele é o arcebispo de Sidney, e eu sei muito pouco sobre ele. Estou receoso. Às vezes se fala nele como um possível candidato a Papa. Sempre me recusei a debater com religiosos fundamentalistas. É do meu entendimento que o cardeal da Igreja Católica Romana não seja um fundamentalista. Se ele for, cometi um engano."

Não havia cometido! Isso pudemos constatar desde o início do debate. O cardeal se mostrou afável do começo ao fim e dotado de arguta percepção, cultura invejável, de grande potencial filosófico... tudo isso a despeito dos deslizes demonstrativos de ignorância quanto ao que pretendia combater. Longe de se mostrar um fundamentalista religioso, fez várias concessões à ciência; deixou claro que em boa parte se rendia a suas afirmações. Mostrou-se o tempo inteiro brilhante em suas ironias e bem humorado. Richard, por sua vez, igualmente à altura da peleja verbal, dado o mal temperamento, esforçava-se para manter a calma e o bom humor. Chegou a se irritar de leve contra os que os assistiam. Não por acaso, o cardeal provocou risos na culta plateia e estimulou muitos aplausos. Tanto que Dawkins fez insinuações de que o público estava agindo com parcialidade.

Ali estava, de um lado, um representante do pensamento científico, assumidamente não-teísta, biólogo e etólogo, autor do livro DEUS, UM DELÌRIO vítima de abuso sexual por parte de um líder religioso, quando estudava em internato anglicano. No outro extremo, alguém de perfil conservador, amante dos rituais católicos medievais,  representante duma igreja historicamente envolvida em casos de pedofilia.

Em dado momento, o cardeal falou de um trabalho feito com crianças, da preparação de alguns garotos para a primeira comunhão e tanto os presentes quanto o próprio Richard o interromperam com riso malicioso. O arcebispo não gostou.

Um apelava para a ética, para o pensamento humanista, para a razão; o outro, para a importância da fé na contenção dos instintos. Segundo o cardeal, um mundo sem Deus seria um caos. Dawkins, com veemência, defendeu a razão, o pensamento científico.

O memorável encontro aconteceu em 2012. Em 2017, apareceriam denúncias contra George Pell e este cardeal acabou sendo condenado por abuso sexual e atentado ao pudor contra dois meninos. 

O prelado recebeu a sentença de seis anos de prisão; perdeu o importante cargo que ocupava na tesouraria do Vaticano; mas após pouco mais de um ano, foi absolvido e solto por falta de provas. Numa atitude aparentemente cristã, disse que perdoava quem o havia caluniado. Não revidaria.

No transcorrer do debate, os que os assistiam foram convidadas a responder SIM ou NÃO à seguinte pergunta: "A crença religiosa torna o mundo um lugar melhor?" 76% dos mais de 20 mil votantes disseram que não. 

Tratava-se da Austrália. Provavelmente se a pesquisa tivesse sido feita no Brasil o resultado teria sido diferente.

Dawkins se saiu melhor, mas o cardeal teve uma postura e linha argumentativa dignas de elogio. Poucos dos que ousaram debater com o neodarwinista renomado se saíram tão bem quanto ele. 

Caso seja de seu interesse, assista-o no seguinte link e responda à pergunta:

"A crença religiosa torna o mundo um lugar melhor?"


https://www.youtube.com/watch?v=b0osVPDpp7o



Gilberto Cardoso dos Santos
Sócio-fundador da APOESC
Membro da ANLiC (Academia de Cordel do RN)
Mestre em Literatura e Ensino
Autor dos livros Um maço de cordéis - lições de gente e de bichos e
Fábulas e contos em cordel.



















 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

METALINGUAGEM - Heraldo Lins

 


METALINGUAGEM


O ato de escrever tem o objetivo de levar ideias para mundos infinitos. O que aparece para o leitor é uma coisa, mas na frente e atrás do que se está vendo há muitos outros registros apagados. É semelhante a uma maquiagem que vai sendo posta em várias camadas, e a ideia final está sustentada por outras que, a priori, vieram à baila e foram encobertas. 

Não controlamos nem uma “infinitésima” parte das condições que nos levam para os recantos das palavras. Podemos mudar os caminhos, só não podemos mudar a vontade de caminhar. 

As ideias surgem e gritam para serem expostas, cabe ao dono delas aclará-las para que o receptor tenha noção do que está vivenciando. É um trabalho para ser feito com os que se propõem a ficarem interligados pelo fio da mensagem.

“O poeta chileno Pablo Neruda brincava com uma ideia irônica: Escrever é fácil, você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias”. Mario Sergio Cortella, continua comentando: “Que dá para começar com uma letra maiúscula e concluir com um ponto final, sem dúvida, mas as ideias que estão no meio você demora décadas para conseguir”.

Por isso não se pode ficar sentado em uma pedra esperando que as ideias surjam. É preciso quebrar a pedra para ver se as ideias se “socaram” debaixo. O trabalho diário de quebrar a montanha é quem faz as mãos tornarem-se calejadas e aptas a separarem diamante de cascalho. 

Este texto, por exemplo, está vindo aos trancos e barrancos. A ideia veio bem até aqui e depois fugiu. O novelo enguiçou de tal forma que o autor procura, desesperadamente, continuar na mesma linha, mas o repertório nega-se a trazer sustentabilidade para prosseguir. 

Não é fácil ser derrotado pela própria deficiência e aceitar isso de bom grado. O esvaziamento mental surge travando o movimento do pensamento, e a brincadeira com as imagens desaparece. Elas mesmas, testemunhadas e recriadas, são quem dão sustentação para as expressões verbais, entretanto, traduzi-las é o cerne da questão.

Precisa-se de tempo, disposição e paciência para fazer a conversão. Enroscar-se nas entrelinhas enoveladas e caminhar em direção ao quilômetro extra, não é para muitos.   

Sentidos diferentes podem ser dados a uma simples frase, portanto, todo cuidado é pouco! Iguala-se a andar em cima de cacos de vidros com os pés descalços. A cada deslize vem um sangramento que demora tempos para total cicatrização. É o sangue da consciência do autor vazando em forma de cachoeira, caso se cometa erros passíveis de infinitas interpretações. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 01.12.2021 – 07:



O DIA EM QUE UM CERVO QUIS HABITAR NAS CERCANIAS DA CHÃ DA GRAÚNA... - Jair Eloi de Souza



O DIA EM QUE UM CERVO QUIS HABITAR NAS CERCANIAS DA CHÃ DA GRAÚNA...

Certa manhã, em plena minguante do mês das cobras e de pastagens já maturadas, um cervo de idade meã, tangido pela solidão da mata quase virgem, resolve juntar-se aos ovinos que pastavam na capoeira descampada, não se sabe se pelo fato de não mais contar com o seu clã, que imagino abatido um a um, pelos tisnados da topada da ignorância, ou se encorajado e atraído pela vacância das persigas dos espingardeiros nas campinas da Chã da Graúna, fato é, que veio para o meio do rebanho de uma espécie diferente, qual não foi a desdita do pretenso cervo, um dos cães o diferençou e o segurou pelas pernas, dando lugar que um dos rurícolas desavisado do tempo o abatesse, transformando em carne para a família.
Desse lastimável episódio, o sacrifício de um inocente cervo, que apenas procurava um novo habitat, recrudesceu na conduta desse ilustre e desconhecido escriba, uma vocação da mais pura cumplicidade, de construir com a mãe natureza, uma convivência que só os deuses dos descampados do tempo, conhecem o solfejo de proteção aos que habitam aquele feudo nas empenas da Serra do Doutor, nos últimos contornos da Borborema Potiguar.
Os tempos se foram, foram duros tempos, uns faziam tocaias nas vazantes dos barreiros, para abater as rolinhas na bebida, de outra feita, eram pegos em plena noite, num trabalho de facheamento de arribaçãs que viviam a estação reprodutiva. Os nambus não tinham a liberdade de habitar as capoeiras em arbustos. Os pássaros de cantos livres, como os galos-de-campina, os sanhaçus, as graúnas, eram apanhados pelos alçapões, nem se ouvia os seus cantos, nem se via os ninhos em filhotes. Mas, a dança dos deuses da liberdade, entoada desde a névoa matutina até a última réstia vesperal, devolveu ao santuário da Chã da Graúna, o púlpito magistral nas galhadas dos eucaliptos decenários e cajaraneiras de eras, onde a sinfonia em cantos e reprodução da passarada, fazem os deuses continuarem sua dança em versos de mudez reflexiva, como guardiães do santuário da mãe natureza.
Estabelecida a paz matutina, em noite fosca, já se pode ouvir o canto seco e de longo compasso da cambonge, em cochichos com sua ninhada nos alagadiços entrançados de tabocas d’água, o canto babélico das aves aquáticas, num cênico de paturis de asa branca, galinhas d’água, mergulhões e marrecos, todos em cio de reprodução, de longe acompanhados pelo rasgo do carão ribeirinho em degustação madrugadenha consumindo aruás, no limbo do açude da Chã da Graúna.
Os louros periquitos e tapacus voltaram a chocar para a reprodução nos cupins extintos, sabem que a estação dos fins das águas, ainda lhes oferta grãos de milho zarolho e sorgo em maturação, e não é mais preciso esticar a aselha até o verde pernambucano ou à estação de chuvas de mangas do Piauí.
A Chã da Graúna, quando chove, é mesmo um santuário, onde os deuses ofertam um banquete em grãos aos que nela habitam, sem abdicar do som da sinfonia e da dança da liberdade.

Chã da Graúna em minguante setembrina/2008.


Dr Jair Eloi de Souza É professor da UFRN e advogado; Especialista em Direito e Cidadania; Ocupou importantes cargos no RN; É prosador, poeta e profundo conhecedor da cultura sertaneja."



quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

ENGRENAGENS DISFARÇADAS - Heraldo Lins



 ENGRENAGENS DISFARÇADAS



Sentado na praça da alimentação, percebeu que estava na hora de ir. Levanta-se e pega a fila do cinema. Lá dentro está o mundo da fantasia que o leva a desgarrar-se do cotidiano previsível. O filme na tela grande o faz se sentir dentro da produção. Vai semanalmente para se divertir, independente do estilo, compra o ingresso. 

Pela milésima vez assiste monstros correndo atrás das pessoas. São monstros vindos dos efeitos especiais repetindo o tema que Dante tratou na divina comédia. Ultimamente super-heróis e satanás estão em voga, entretanto, tudo permanece quase igual. O objetivo de estar lá é estimular os neurônios a produzir algo fora da “caixa”, e essa exposição ao mundo da fantasia serve para alimentar o seu.

Depois do cinema ele vai para o teatro com a mesma vontade que fez muitos lançarem-se ao mar em busca de ouro e aventuras. 

Há uma procura por novidades em todos os níveis de idade. Não há como barrar. Nem vírus, nem ameaça do apocalipse colocam medo nos instintos aventureiros. A pessoa só reflete quando alguém morre: "eu devia ter amado mais..." Mas amou sim, só que não se deu conta disso.   

Somos um laboratório químico ambulante, por não dizer, uma máquina pensante. A alimentação feita através dos sentidos tem uma influência tanto quanto a feita via oral, esta última, além de nutrir o corpo, serve, também, para produzir pensamentos banais, quando abundantes, e pensamento profundos quando escassos. Não é à toa que se recomenda o jejum para edificação espiritual. 

A comida em excesso gera uma explosão de energia que sobe até os neurônios interferindo nos pensamentos e sonhos. Ao chegar à velhice, olha-se para trás e se arrepende de ter perdido o controle. Só que não tem como controlar. Quem manda é o corpo, e estamos conversados.  



Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 25.11.2021 – 08:16



quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

EM LOUVOR DE BABEL - James Hillman

 


Desde o momento em que me disponho a falar de Babel, espero que no final da minha intervenção se elevem muitas vozes a formular uma confusão que certamente existirá; e será bem-vindo quem quer que venha a apresentar a própria voz fazendo com que Babel possa continuar.

Sem dúvida alguma o relato do mito de Babel é conhecido por todos, narrado no capítulo 11 do Livro do Gênesis: antes de Babel todos os homens da Terra tinham uma única língua, usavam as mesmas palavras. “Disseram um ao outro: “Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo topo toque o céu e vamos nos dar um nome para não dispersarmos sobre toda a terra”. Mas o Senhor desceu do céu e disse: “Eis, eles são um só povo e todos têm uma única língua e eis, esse é o início da sua obra. E agora quanto planejarão fazer não será impossível”, quer dizer “Agora poderão fazer qualquer coisa.”

Um comentarista judeu, que escreve mais tarde, em plena Idade Média, explica assim: “Agora poderão coroar a idolatria”. Assim acontece que Deus dispersou os homens por toda a terra, e criou uma infinidade de línguas, e o povo não foi mais um só. Essa foi a punição.

Logo, no mito da torre de Babel estão contidas três problemáticas diversas. A primeira é aquela da origem das línguas: como surgiu um número tão grande de línguas? É um problema diferente daquele sobre o qual discutíamos algumas noites atrás com Noam Chomsky, que dizia respeito mais à origem da língua: entendida no singular, em si, poderíamos dizer o princípio da língua. Isto é pelo contrário o mito da origem da multiplicidade das línguas.

Em segundo lugar, o mito encara um outro problema: por que existem tantos tipos de povos sobre toda a terra? E, num terceiro nível, coloca o problema da hybris: é quando o povo é ainda um único povo que concebe a idéia de chegar até o céu ou, como dizem mais tarde os comentaristas judeus, que amadurece a intenção de atacar o céu, de engajar uma guerra com Deus, de elevar ídolos ou de destruir o céu com lanças e flechas.

Qual foi a punição que Deus infligiu aos homens por tal ato de hybris? Esta: a cada povo foi atribuída uma língua particular, e enquanto antes toda a terra tinha um único modo de se exprimir, agora os homens foram dispersos, ocuparam a inteira geografia do planeta, e tiveram muitas línguas. Portanto a dispersão por todo o planeta e a grande variedade dos lugares geográficos estão ligadas à multiplicidade das línguas, e constituem uma resposta à hybris da unificação.
A hybris da torre se realiza quando há unicidade, e é então que se tem uma única língua. E quando se tem uma única língua, se tem a hybris.

Devemos refletir sobre isto hoje, sobre como o mundo veio lentamente a ser dominado por uma única língua: a língua da Internet, as palavras americanas. Eu também, nesse momento, estou usando aquela única língua.

Dissemos que a narração bíblica coloca três problemas diversos. Existem muitíssimos mitos das origens; não da origem da língua, mas da construção de uma torre que chegue a tocar o céu - os Nyambos têm uma no México, em Cholula, e, ainda no México os Toltecas têm uma também, também se apresenta entre os Cuki em Assam e entre os Karen na Birmânia: se trata sempre de manifestações de hybris, de soberba, de arrogância, da tentativa de escalar e de agredir a potência de Deus. A punição divina no mito não consiste na destruição dos homens, como acontece no caso de Sodoma e Gomorra ou no caso do Dilúvio: não se destrói o mundo, mas se dispersam os homens por todo o mundo. Em outros termos, se cria a variedade, os vários estabelecimentos. É difícil dizer que se trata realmente de uma punição. É para impedir o ato de hybris, para impedir a uniformidade que se tem a diversidade. É um elemento sobre o qual refletir, em meio a tantos impulsos poderosos em direção à uniformidade, na ciência e na economia, nos negócios, na política e assim por diante.

Existe claramente um forte impulso ao universalismo. A aspiração a uma ciência unificada, a um direito internacional, a uma Igreja e a uma língua universais: o esperanto, por exemplo, exprime no seu próprio nome a idéia de aspiração, de esperança. Esperança de uma paz universal e da possibilidade de solução de todos os conflitos através da unidade. Mas não é essa a lição que nos vem por meio de Babel. Babel nos diz que o Senhor quer: Ele quer a diversidade, a variedade.

A torre se repropõe hoje. Sessenta por cento do uso quotidiano da língua nos sistemas de comunicação - Internet, Web - é feito de palavras americanas. De tal modo somos obrigados a olhar para a língua americana. Apesar de que cinqüenta por cento dos habitantes do planeta, como observou recentemente Kofi Annan, não tenha feito nem recebido nunca um telefonema. Metade da população mundial nunca falou ao telefone. Contudo, aqueles que se servem das engrenagens da comunicação usam o inglês americano. É a língua da medicina, dos negócios, da ciência, das viagens, da engenharia, da Web. Pergunta-se se essa língua durará. Existem os futurólogos - pessoas que se divertem brincando com aquilo que acontecerá, uma espécie de profetas sociológicos - que sustentam que essa língua se exaurirá e que o inglês americano será substituído pelo árabe, o chinês e o espanhol.

Trata-se de um problema de longo alcance, porque em alguns aspectos o inglês americano se revela particularmente adequado ao mundo da tecnologia. Talvez se pensa em línguas como o árabe, o chinês, o espanhol considerando o percentual de indivíduos que as falam?

Pessoalmente creio que sejam línguas criadoras de imagens demais, irredutíveis demais ao tipo de linguagem pedido pelas novas tecnologias.

A linguagem da nova tecnologia foi já imaginada por George Orwell no seu “1984” e foi por ele definida Neolíngua (newspeak), em oposição à Arquelíngua (old speak), que vem ironicamente ridicularizada por aquilo que Orwell define “a sua imprecisão e inutilidade de significado”.

Esta é a descrição de Orwell, numa obra que remonta a meio século atrás: Não vêem? O fim da Neolíngua é aquele de restringir a margem de erro. Cada conceito do qual podemos precisar será expresso precisamente por uma só palavra, com um significado rigidamente definido e todos os significados acessórios cortados fora e esquecidos. Ano após ano, sempre menos palavras, e a margem de conhecimento sempre mais reduzida.

Orwell estava prevendo, de maneira extremamente detalhada, uma doença endêmica da alma do mundo, uma doença que se propaga por contágio pela boca dos homens, que caindo dos satélites se difunde através do ar, uma doença que se transmite, alojada como um vírus no nosso software. A Neolíngua vem produzida sistematicamente nas escolas americanas, através de cada traço vermelho que os professores traçam sobre as composições escritas, através de todas as indicações de escrita fornecidas pelas editoras.

Os manuais americanos de estilo, que se trata de estilo acadêmico, de estilo expositivo ou de estilo narrativo, sintetizam a sua crença de laica e puritana iconoclastia, com instruções claríssimas.

Faço algumas citações tiradas desses textos: quando se escreve, “menos” em gênero quer dizer “melhor”. Abandonar as palavras inúteis, cassar todos os advérbios de intensidade. Escrever utilizando substantivos e verbos. Entregar-se aos adjetivos só como último recurso. São consentidos só alguns advérbios. Evitar termos rebuscados. Não se deixar tentar por uma palavra de vinte dólares quando se tem a disposição uma de dez centésimos. A frase, uma vez desfolhada, deve vir sempre mais clara e nítida.

Este é o modo pelo qual, nos Estados Unidos, nos ensinam a escrever. Os manuais de estilo nos colocam de sobreaviso quanto aos verbos inertes, fracos, privados de ação, têm horror à forma passiva. “Os substantivos fortes funcionam com os verbos fortes, os verbos fortes têm um efeito imediato sobre os substantivos fortes e concretos.”

É como se Hércules, uma vez aposentado das suas tarefas de herói, começasse a escrever textos de língua.

Estas frases, nuas como paus de uma estacaria, magras como um cowboy, se fazem, por fim, nos manuscritos do gênero cinematográfico mais tipicamente americano, o western.

Os manuais de estilo insistem também sobre palavra com raiz anglo-saxã, porque têm, segundo eles, mais força e usam um menor número de sílabas em respeito às palavras de derivação latina. Esta devoção pelo breve e simples incide também sobre o nosso modo de blasfemar, de dizer palavrões, sobre a nossa pornografia. Até sobre a vida política, visto que os candidatos que têm mais sucesso são aqueles que têm nomes constituídos por uma só sílaba: Dole, Bush, Ford, Gore, Kemp, Quayle, Lot, Hide, Starr, Brown, Bird, Hatch, Dodd, Glenn, ad infinitum et nauseam. Tal predileção comporta também uns preconceitos étnicos e raciais. Incidentemente, os dois principais textos dos quais tirei as citações precedentes sobre as regras para escrever corretamente em inglês são produzidos por pessoas que se chamam Cook, Stunk e White.

A substância dessa ideal puritano se pode reassumir no slogan: “Eliminar as palavras inúteis”. Quando o sentirem, pensem nos seus e-mails: eliminar palavras inúteis. A escrita potente é concisa, uma frase não deveria conter palavras desnecessárias, um parágrafo não deveria conter frases não necessárias, pelo mesmo motivo pelo qual um desenho não deve Ter traços não necessários, um carro não deve Ter partes não necessárias. Palavras não necessárias: mas o que determina a necessidade? Necessidades de instrução claras, de exportação, de definição, de informação...

O que dizer, então, da necessidade de ambigüidade, de sugestividade, de ênfase, de ironia, de lisonja, de insulto, de complexidade, de fantasia? O que dizer dos efeitos retóricos? O que acontece às imagens na língua quando, como diz Orwell, “o significado é definido rigidamente, e todos os significados acessórios vêm eliminados”?

Seríamos ainda capazes de ler Ariosto, Tasso ou Shakespeare, visto que a sua força está no excesso, na exageração, na hipérbole?

A última etapa na eliminação de palavras inúteis é a eliminação das próprias palavras. Estamos já além da Neolíngua. Considerem de novo o seu e-mail: contém uma palavra inteira? Estamos justamente até além da Neolíngua, que é em si uma linguagem de formação recente, mas fica ainda, tudo somado, um composto tradicional. Quanto ao contrário chega pela Internet e se constrói no seu software é difícil chamá-lo “composto”.

Tentem se imaginar começando o dia, por exemplo, em Washington. Inicio o dia em Washington D.C. Levanto-me pela manhã: o meu despertador digital toca, e eis um número vermelho, sete, ponto, ponto, zero zero. Ajudo meu filho a tirar o PJ e a vestir a t-shirt, os jeans e o nike, desligo para ele o PC, faço-o tomar o K-19, certifico-me de que ele toma o seu velho J e os comprimidos de C, E e B12, preparo-lhe a caixa pessoal do pronto-socorro, já que sofre de ADD, o levo para passear de carro na minha F1-50 e o deixo em frente à PS 14 antes de estacionar no espaço E-11, no meu lugar de trabalho em EPA no bairro WPCA do centro D.C.

Cada uma destas abreviações, destes acrônimos corresponde exatamente a uma única, inconfundível realidade: o espaço exato do estacionamento. Termos absolutamente eficazes, de nenhuma ambiguidade, o cúmulo do nominalismo. No nominalismo, uma palavra significa o que aquele que a pronuncia quer que signifique. O significado é dado por aquele que fala. A uma palavra vem confiado um significado particular, e um acrônimo ou uma abreviação desempenha a mesma função de uma palavra. Não existem nem raízes nem sentido de dependência nas palavras. O nominalismo facilita o processo tecnológico, mas e o processo ético, o processo cultural?

Nas questões práticas existe uma grande necessidade de uma língua clara, universal. Precisamos de vacinas universais para a nossa saúde, de um regulamento de construção civil universal, de sistemas de medidas universais, de um controle do trânsito aéreo universal, mas existem outros aspectos que ficam na sombra.

E voltemos a Babel. O mito de Babel destaca a dispersão, por toda a terra, da língua e da posição. Língua e local. Mas a língua está situada em qualquer lugar. A língua de Internet não tem local. De fato a língua universal da Rede unifica eliminando a colocação espacial, promove a mobilidade, se move de um lugar para outro, porque a língua pode ser a mesma em qualquer lugar que for. Nos Estados Unidos vinte por cento da população desloca-se todo ano. Isto significa que um em cada cinco americanos muda de endereço a cada ano. Vivemos numa sociedade extremamente móvel, deslocada.

Temos necessidade de um discurso comum, não ligado a lugares particulares, temos a linguagem da televisão, corrente, fácil, rápida, breve, que permite a mobilidade, assim podemos nos comunicar onde quer que formos. E com isto chega-se à perda do sentido de lugar, a perda de idiomas, de topônimos, de patois, de dialetos, de inflexões, de vernáculos, de slang. Perde-se a particularidade rica de imagens da língua, que pertence aos lugares.

Um exemplo desta confusão: existe um organismo internacional que se ocupa da fauna ictíaca do Mediterrâneo, e que tem tentado com grande dificuldade produzir um catálogo dos nomes dos peixes daquele mar, os comestíveis, os não comestíveis e assim por diante. Os nomes dos peixes do Mediterrâneo mudam praticamente a cada porto da costa, o peixe que está aqui não é o mesmo que está ali, e se é o mesmo peixe, tem um nome diferente: o lugar determina a imagem do objeto real. Trata-se de um costume mediterrâneo muito antigo, que se encontra também nos nomes dos diversos deuses e deusas em toda a Grande Grécia.

É interessante notar que a maior parte daquilo que se estuda na escola, a maior parte daquilo que é considerado importante pela imprensa, em geral pela média, não tem lugar. A matemática não tem um lugar, o método científico não tem um lugar, ou melhor não deve tê-lo, porque o mesmo experimento, por ser válido, deve poder ser feito em Osaka, em Berlim, em Berkeley, não deve ser influenciado nem pelo lugar nem pelo caráter de quem o executa. As verdades e os dogmas da religião não tem lugar, são universais.

A linguagem “politicamente correta” não tem lugar: deve poder ser usada onde quer que seja, não deve mostrar traço de algum tipo de lugar ou de pessoa, deve ser límpida, clara. A psicoterapia também não tem uma localização: uma fixação é uma fixação seja em Londres, em Roma ou em Washington D.C. Uma regressão é uma regressão onde quer que seja: a língua da psicanálise é ainda uma língua universal, sem uma colocação particular.

Isto deve parecer quase um insulto na Itália, onde o fator local tem uma importância enorme. Aquilo que na Itália é história, é história de lugares, estabelecimentos locais, cidades. E o modo de falar de cada lugar. Eu me interesso pelas doenças americanas que se difundem em todo mundo: a tragédia de Littletown, no Colorado, nos colocou de frente a um garoto que abriu fogo numa escola; se se observa a situação real, em Littletown, os garotos, os estudantes daquela escola não têm uma efetiva localização. A arquitetura da escola era de estilo “internacional”: nenhum elemento artístico, nem mesmo mínimo, na escola, nada que desse a sensação de encontrar-se em algum lugar.

O problema do lugar e da língua: e ainda o mito de Babel reforça que os homens se dispersaram por toda a terra e cada um terá um anjo destinado àquela nação, como foi dito no texto bíblico. Temos um anjo destinado a uma determinada nação. O anjo é “anghelos”, mensageiro, e também mensagem: cada nação tem a sua mensagem, o seu modo de falar, as suas palavras. Isto está relacionado a um dos grandes problemas que atravessam todo o mundo ocidental hoje, a questão da mobilidade e da imigração. Porque a imigração é simplesmente uma recolocação. Uma língua comum unifica mediante a redução a uma linguagem mais simples.

A imigração é uma adequação que passa pela rejeição e pela repressão. Você se adapta reprimindo e rejeitando o seu antigo lugar, o seu país anterior. Como sabem, os Estados Unidos são uma nação de imigrantes, e assim a nossa língua é rica de expressões, de palavras e de inflexões que vêm dos imigrantes, mas, como língua comum, língua particularmente nova e “politicamente correta”, ou língua de Internet, é privada dos influxos que derivam do fenômeno da imigração. Aquilo que o imigrante, homem ou mulher, trazem consigo do país de origem são a música, os hábitos alimentares, a educação dos filhos, ( neste sentido certas populações têm tradições singulares) e a língua. O velho país é a velha língua. A sua terra, as suas cidades, os seus antepassados. Particularmente, um aspecto dessa língua é constituído por antigas imprecações, que pertencem às metáforas e às hipérboles do velho país.

Pensem um instante na maldição: há um personagem em A Tempestade de Shakespeare, Caliban, que é a voz da ilha, das rochas e das grutas, dos bosques, dos rios, das plantas, e Caliban não tem um modo de expressar-se, não tem uma língua, é natureza. Próspero ensina Caliban a falar, e lhe diz, já no primeiro ato: “Eu te compadeci, me cansou tentando fazer você falar, ensinei-lhe ora uma coisa, ora outra; quando balbuciava, selvagem, sons confusos e vazios, como um animal, eu dei aos teus pensamentos as palavras que conseguiam fazê-los conhecer”. E Caliban responde: “Você me ensinou a linguagem e o proveito que tenho é que aprendi a amaldiçoar....” A primeira coisa que Caliban aprendeu, o primeiro valor da sua veemência, da sua paixão verbal é o fato de amaldiçoar, é a capacidade de exprimir a hipérbole da maldição.

Assim, uma das saídas para escapar da linguagem repisada e monótona da TV, da linguagem da Web, feita de poucas sílabas e politicamente correta, foi o vernáculo da imprecação, foram os diversos tipos de maldições locais, que nascem de cada terra de cada parte do mundo. E é interessante pensar que se trata do início de uma espécie de explosão da alma emotiva: no mito de Babel as origens da dispersão dos homens derivam, se assim quiserem, de uma “maldição” por parte de Deus. Assim um dos modos de passar do terrestre ao imaginativo, do universal ao particular e ao local é a hipérbole, o excesso da maldição.

A maldição é só um dos tons da hipérbole: a primitiva ponte lingüística, do terrestre ao imaginativo, é mais hipérbole que metáfora porque a metáfora traduz significados, enquanto a hipérbole traduz paixões. Em Shakespeare encontramos um tipo singular dessa fortíssima exageração: uma exageração ordinária, ofensiva, que se vangloria, que amaldiçoa.... Aquilo que Oscar Wilde dizia da língua de Shakespeare, que definia “rude, vulgar, exagerada, fantasiosa, obscena”.

Às vezes, quando estudamos os grandes textos da cultura, esquecemos como eles estejam enraizados no terreno da língua. Em Shakespeare isto é de uma clareza impressionante: existem maldições sobre maldições, drama após drama. “Não há nada de equilibrado nas nossas naturezas malditas, mas uma patifaria total”. Cleópatra exagera com uma hipérbole extraordinária: “ Melhor procurar uma pacífica tumba em algum abismo do Egito... melhor jazer nua na rigidez da morte, sobre o lodo do Nilo, presa de insetos devoradores, objeto de horror e de repugnância!”

É isso que deixa Shakespeare tão rico e tão difícil de traduzir, o seu ser enraizado numa língua que toca a terra, os antepassados, a expressão comum e vernacular. Shakespeare não sabe falar bem de Internet; e Hamlet diz: “Patife sangüinário, traidor, lascivo, impiedoso... Ah, vingança!”

Faz-me pensar que se usássemos uma língua mais similar a essa, teríamos talvez menos “Littletownes”, famílias mais serenas mesmo se menos “politicamente corretas”, sem violência: agora a violência da televisão tomou o lugar do impulso das paixões.

O simples fato de nós precisarmos de duas línguas para transmitir esse meu pensamento me ajuda a fazer uma outra consideração. A tradução, mais do que ser considerada uma traição (como vocês dizem, tradutor-traidor) é um ato de reduplicação que evita a unicidade do significado. Uma tradução pode constituir também um progresso, porque entra-se na posse de ambos os sentidos, mais do que uma perda. Alguém poderia objetar: “Mas quanto se perde na tradução!” Não, você obtém duas mentes extraordinárias, não somente uma; você tem uma duplicação, uma arte em si, que evita a unicidade do significado. Nós temos muitíssimas traduções de Homero, muitíssimas traduções de Shakespeare em outras línguas. Assim, a tradução abre para a ambigüidade, para a riqueza da mente metafórica.

Precisamos fazer um tipo de operação de reduplicação sobre a idéia de universalismo redutivo contra a qual tenho, por assim dizer, desferido o meu ataque. Devemos evitar uma atitude feita de oposições: universal-particular, abstrato-concreto, o tempo anterior a Babel, com a sua torre unitária e a efetiva diversidade que se difundiu pelo planeta, unidade-multiplicidade. Porque isso poderia querer dizer que a única possibilidade de uma língua universal é semelhante àquela que encontramos na ciência, na arquitetura - o estilo internacional -, na matemática, e isto é uma língua abstrata. Poderíamos ser levados a pensar que a língua unificante universal deva ser uma língua abstrata ou uma super-língua, mas eu acredito que exista um outro tipo de língua universal, que se revela em cada particular da natureza, como imagem: a chama de uma vela, uma folha de árvore, o latido de um cão à distância, a luz das estrelas, as ondas do lago que rebentam na margem, o perfume que se eleva de uma sopa quente, a fumaça da lenha, a mãozinha de uma criança na nossa: cada uma destas imagens é uma imagem particular, cada uma é uma experiência universal.

Não há nada de abstrato. Estes também são universais, mas não têm nada a ver com os universais da Internet: porque exigem uma linguagem rica de imaginação, e são concretos, exigem presença física, paixão emotiva, a experiência universal do desejo e do ciúme, da perda e da dor, da serenidade e da beleza. Estes universais são ao mesmo tempo profundamente pessoais, individuais, mas constróem as bases para a comunicação entre as pessoas, e entre as pessoas e o mundo. Vico as teria chamado “universais fantásticos”, pertencentes à língua da “anima mundi”.

E agora um pequeno parênteses sobre o modo pelo qual o mundo nos fala através de tais imagens: o cão que late à distância, o perfume da sopa quente, a lenha queimada... Alguns antropólogos americanos têm passado muitos anos estudando os Apaches, que vivem no Sul do Arizona: talvez vocês os conheça através dos filmes western, onde representavam os implacáveis inimigos dos bons, uma das últimas tribos a ser subjugada. Para os Apaches a língua é ligada estreitamente aos lugares: os nomes dos lugares contêm umas descrições - como de resto os nossos. Faço-lhes um exemplo: há um lugar que se chama “Lá-mesmo-onde-se-cai-no-meio-das-árvores”. Acontecem eventos em lugares precisos, os lugares nos contam alguma coisa, há uma moralidade nos lugares, existem lugares de ensino, que fazem com que as pessoas estejam cientes daquilo que é certo e do que não é, e o fazem de maneira muito refinada.

Há lugares onde acontecem coisas estúpidas, e seria bom saber quais coisas estúpidas podem ocorrer nesses locais, e qual lição também vem deles; existem lugares onde se verificam conflitos, como aquele no qual se encontraram Édipo e seu pai: aquele era um lugar, porque havia uma lição, naquele lugar. Há uma lição que se deve aprender através dos lugares, como através da gruta onde se encontraram Eneas e Didão. Uma tragédia, um lugar pelo qual aprender. Os nomes dos lugares e dos deuses da Grécia Antiga eram nomes locais, não havia uma Afrodite abstrata em Talete, havia uma para cada realidade, ligada à água, a esta água, a este templo, a esta gruta, a esta rocha, e assim por diante. Todas eram realidades individuais e locais.

Como disse um escritor, os Apaches têm um nome para cada lado do rio, mas nenhum nome para o rio; eles entendem o particular, o local. E o discurso poético, a metáfora, a língua originária traz muitos significados nas imagens. Embora eles sejam particulares, são também intensos, ricos como qualquer outro universal: são, se quisermos, mais arquétipos simbólicos que puramente sinais. Acreditar que a comunicação pede uma língua universal, abreviada, uma Neolíngua à la Orwell significa reduzir a comunicação a mera informação, transformando a informação e a mensagem em “dados”. Uma mensagem é alguma coisa a mais que um conjunto de “dados”. Uma mensagem é um anghelos, e cada nação, diz o Gênesis, tem o seu anjo, porque tem a sua linguagem.

Os anjos podem ainda falar entre si porque a sua língua é a língua desse mundo: não creio que falem Teologia, creio que falem Natureza. Falam a língua da lenha que queima, da luz das estrelas, do latido de um cão à distância. Por causa de Babel, todos os povos que não se entendem entre eles podem ao contrário entrar em contato um com o outro através deste profundo universalismo da psique no nível arquetípico da existência, através do fundamento poético da mente.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

OLIMPÍADA DA PREGUIÇA - Heraldo Lins

 


OLIMPÍADA DA PREGUIÇA 


O tornozelo está doendo depois da pisada em falso. Agora tenho que carregar um pé com o freio de mão puxado. Correr, nem pensar. 

Depois desse tornozelo inchado, as pessoas perguntam-me o que foi, aí eu digo que estava procurando colocar minha vocação de atleta em dia. Fui jogar futebol, mas depois da bola na cara e o pé torcido, abandonei de vez. 

Penso em comprar uma esteira. O único empecilho é que fico me comparando com uma mala de aeroporto. Isso é o que acontece com quem planeja demais. Chega o momento em que o planejamento toma aspecto de indecisão, o que não é o caso, ou é? 

Outra opção é a natação. Estou pesquisando se há alguma forma de praticá-lo sem me molhar. O motivo maior de evitar piscina, é que toda vez que mergulho só me vem à lembrança o tempo em que eu estava mergulhado na placenta. 

Há poucos dias perdi noites de sono planejando esquiar. Acredito que ter neve é só um detalhe, e o que conta é a boa vontade. Estou querendo comprar esquis e uma ladeira bem íngreme. Jogo um pouco de gelo picado, e está resolvido. Vou decidir depois. 

 A vida de um atleta do meu naipe é difícil. Sou fanático por esportes, mas o que mata é essa vontade de praticar todos ao mesmo tempo. Tenho certeza de que o salto com vara eu “tô fora”.

Puxar ferro em academia eu já tentei. Cheguei lá e a única coisa que fiz foi ficar olhando as “Popozudas”. Não conseguia tirar o olho. Tachado de "brecheiro", fui expulso. Procurei saber o que significava e a dona disse que são pessoas que ficam olhando pela brecha. Contestei que eu não estava olhando pela brecha, mas sim, estava olhando as brechas. Esse argumento só piorou a situação. 

Hoje me vejo um “sem-academia”. Sofro por ver meu sonho de ser atleta ir por água abaixo.  

Contando esta minha frustração em uma reunião dos Atletas Anônimos, um amigo sugeriu levantamento de copo e arremesso de cuspe. Acho que este vai dar certo! 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 22/11/2021 – 09:02



segunda-feira, 29 de novembro de 2021

REPORTAGEM DE ROBSON FREITAS SOBRE O "APOESC RECITANDO O SERTÃO" EM 2021

Agradecemos ao grande comunicador Robson Freitas por ter comparecido ao nosso evento e pela cobertura feita. Muito nos honra seu interesse pelo nosso trabalho! Muito bom ver alguém que valoriza e promove tão bem a cultura nordestina. Parabéns por seu trabalho! - Gilberto Cardoso dos Santos






...GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL... - Heraldo Lins



...GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL...


O fanatismo é bem mais comum do que se imagina. Há vários tipos, o religioso é apenas um deles. Recentemente veio à tona o fanatismo esportivo. Duas equipes, ao se digladiarem, pararam o país. 

_Antes ou depois da partida? 

Perguntavam os fanáticos ao agendarem seus compromissos para o dia 27 de novembro de 2021. As duas equipes fizeram seu teatro em um estádio lotado, digo teatro porque é tudo combinado. Determinado ano um ganha, no outro, mais um, e isto é o que mantém o rebanho correndo. É um grandioso estratagema montado para vender ingressos e patrocínios.

Faz parte da estratégia pagar aos líderes de torcida para estimularem a rivalidade. Este trabalho é muito sutil, desde vendas de camisetas até contratação de comentaristas esportistas. “Vai que é tua Taffarel” ainda hoje é repetido por aí afora. Este é só um exemplo do quanto é forte a influência desses comentaristas televisivos. Há até livros contando a história do clube para, caso sejam derrotados, o passado de vitórias sirva de muleta para que a tristeza não termine em choro. 

Emocionar-se é bom e dá um sentido diferente no cotidiano, mas é bom também desconfiar se o objetivo final do estímulo é colocar uma venda para os problemas urgentíssimos. Lembrando que na hora de destinar verbas, os gritos nos estádios valem mais do que a dor dos cancerosos; promover campeonatos é “melhor” do que equipar escolas e professores.

 A pressão é grande para se tornar um fanático. Quem não se adapta a ser um igual no meio da multidão, passa a ser discriminado pelo grupo em que se está inserido: são churrascos cancelados; viagens desviadas; aniversários esquecidos. A pessoa tem que torcer, senão fica de fora. No local de trabalho, o placar é motivo para discussões acaloradas, e quem vai trabalhar, sem partilhar daquele besteirol comunitário, é olhado de forma atravessada.   

Conversando com um amigo, ele disse que tinha consciência do seu fanatismo esportivo, mesmo assim, aceitava em nome de ser mais feliz torcendo. Baixa o “cangote” para que a canga da falsa felicidade seja nele colocada, e não está nem um pouco preocupado com que os outros vão dizer, porque os outros somos minoria, e só. 

_ Se não houvesse um objeto para se alienar, teríamos que inventá-lo, disse-me, achando graça. 

Muitas vezes fiz uma programação sozinho por não ter time para financiar e nem dízimo para pagar. Diante da minha exclusão social, vou ter que me alienar, não aguento mais, e na próxima decisão da copa libertadores da América, torcerei por algum time, de preferência, o que ganhar. Serei mais um fanático consciente nesta PÁTRIA ALIENADA BRASIL! UHUUU!



Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 29.11.2021 – 06:40



QUADRAS E QUADRINHAS - Diogenes da Cunha Lima

 



QUADRAS E QUADRINHAS

 

Diogenes da Cunha Lima

 

          A quadrinha tem a fisionomia poética da gente portuguesa. De usança medieval, esse tipo de poema, em redondilha maior, aportou com gosto no Brasil.

O escritor moçambicano Mia Couto diz que a poesia não é um gênero musical, é, sim, uma língua anterior. Esse conceito tem algum fundamento. De fato, a poesia funciona através dos seus códigos, serve a eleitos, àqueles que sentem e dão valor às emotivas imagens acústicas e visuais. Não é fácil a construção do poema perfeito. O poeta busca a expressão inaugural, o seu “Fiat Lux”, a iluminação em palavras.

Encantei-me com quadras e quadrinhas de tal modo que sei de cor (coração em latim) algumas.

A quadrinha pode conter visão filosófica, satírica, de nonsense, sentimental. O acadêmico Luis Rabelo faz pensar com a trova: “O mártir da Galileia/esta verdade traduz:/não morre nunca uma ideia/mesmo pregada na cruz.

Conta-se que o poeta Gregório de Matos (1636 - 1696) gostava de quadras e de quintilhas. Como advogado, teve petição indeferida por juiz paulista. É que o tratamento dado não foi o tradicional vossa excelência, mas vós. O poeta refez a petição à sua excelência, acrescentando um P.S.: “Se tratam a Deus por tu, /e chamam a El-Rei de vós, /como chamaremos nós/ao juiz de Igaraçu? /Tu, e vós, e vós e tu”.

O desembargador Wilson Dantas, homem atlético e ríspido nos embates jurídicos, versejava com ternura: “Céu com três letras se escreve/mãe também se escreve assim/e neste nome tão breve/existe um céu para mim. ”

Em Portugal faz sorrir os versos de pé quebrado. O invejoso da glória de Luiz de Camões, ressaltou-lhe um defeito físico: “Ele diz que vê mais do que nós / e tem razão desta vez/ele vê em cada um de nós dois olhos/e nós só lhe vemos um...”.

É secularmente repetida esta quadrinha de nonsense lisboeta: “Eu cantando estou calada, /chorando me estou a rir/andando fico parada, /desperta estou a dormir.

Um repentista nordestino comentando a situação de sua “patroa” exigente e caprichosa: “A mulé do meu patrão/tá pra morrê de uma dô/porque não fez um vestido/da fumaça do vapô”.

Também satírica é a admiração de Millôr Fernandes: “Mestre, respeito o Senhor, mas, não a sua Obra/que paraíso é esse que tem cobra?

Às vezes, a quadrinha tem um mote repetido para provocar a glosa de um trovador. Um exemplo: “Não há machado que corte/a raiz do pensamento”.

A quadrinha é tão do nosso gosto, como a quintilha (cinco versos) tem preferência hispânica, o haicai (tercetos) no Japão e o soneto (catorze versos) na Itália.

A quadrinha faz pensar, sorrir e apascenta. E é jeito brasileiro de amar poesia.





domingo, 28 de novembro de 2021

SERÁ QUE É ASSIM? - Heraldo Lins

 



SERÁ QUE É ASSIM?


Cansado, sentado com um blusão preto de frio, escuta, vindo da sala ao lado, a moça do financeiro dizer: 

_ Preciso ir prestar contas.

Esfrega um pé no outro protegidos pelos sapatos marrons. Um bocejo suspirante faz seus pensamentos andar pelo mundo do sono vespertino. Ah, se esse sono fosse à noite. Esforça-se para não dormir no trabalho, mas mesmo que quisesse seu mal-estar não o deixa cochilar. Da sua cadeira giratória verde-escuro, olha para o marcador do ar com vinte graus. Tem consciência que precisa ser útil mais um dia. 

Lá longe uma porta bate arrancando-o das garras do relógio. Não quer se mostrar sonolento com tantas coisas para fazer. Escuta sussurros que não são salvos no entendimento. 

Reanima-se, levanta-se e sai. Abre a porta e vê o corredor ladeado de salas. Chega à rua. Olha para o lado esquerdo. Segue sem que ninguém fosse avisado para onde ele iria. É estranho seu proceder. Abandonou o trabalho e nem fechou a porta. Caminha sem destino querendo apenas encontrar o horizonte. Quanto mais caminha mais vontade tem. 

Está alheado e tem consciência disso, mas não quer tornar. Como é maravilhoso estar alheado. O sol é frio, a brisa estática, a lama, florida. Vai caminhando enquanto os carros buzinam à sua passagem. Muitos acenam para ele, inclusive, amigos de infância há muito esquecidos. Será se está devaneando? 

Respira com dificuldade, todavia, continua caminhando quase sem andar. Seu silêncio o faz ser diferente do antes. Não tem aonde chegar. Já foi a todos os lugares, entretanto, nenhum lhe deu tanta paz quanto agora. 

Na sua caminhada encontra a mulher e os filhos indo para algum lugar. Deixa estar por alguns momentos em família e sai sem se preocupar com problemas mundanos. A vida inteira se dedicou a ganhar rugas e cabelos brancos. Está disposto a permanecer andando, mesmo assim, entra no restaurante acompanhando os seus. 

Não sente vontade de comer onde tantas vezes saboreou o melhor. Sai de lá e vai ao palácio onde governou por muitos anos. Cada cômodo conhece como a palma da mão. No banheiro ver a água escorrendo pela torneira fechada. Também relembra documentos assinados e decisões tomadas. 

Está de saída quando alguém tropeça e cai derrubando o chá em sua camisa. Nem se importa. Sua disposição está voltando. Neste momento sente-se jovem e curado das dores. Sua visão melhorou, fazendo-o atirar os óculos fora. Seus cabelos pretos estão de volta, seus dentes brancos, também. Será um sonho? Quer permanecer assim pelo resto da vida. Que vida? 

O silêncio é quebrado pela moça do financeiro que grita: 

_Acudam que o patrão morreu!          


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 24.11.2021 – 15:31



FEEDBACK SOBRE SHOW DA APOESC EM 2021

Apesar dos eventos concorrentes e contratempos, tivemos um público significativo no show APOESC Recitando o Sertão, em sua quinta edição, concretizado graças à Lei Aldir Blanc. Uma centena de pessoas, mais ou menos (número significativo e adequado ao momento ainda perigoso que vivemos), permaneceu no Candinha Bezerra do início ao fim do espetáculo. Além das belas performances de artistas locais, contamos com a participação especial de Danilo Teixeira, George Henrique e Léo Medeiros.

Encantou-nos o nível de atenção da plateia, os calorosos e constantes aplausos durante as  apresentações e a permanência no teatro durante todo o evento.  

Agradecemos a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para o êxito do evento. 

Gilberto Cardoso Dos Santos


FEEDBACK DO RECITANDO O SERTÃO EM 27.11.2021


Quem não foi perdeu um grande espetáculo! A segurança foi cumprida para que tivéssemos esse momento encantador sem preocupações. Santa Cruz borbulha talentos! Adoreiiii
❤😍
Os poetas e amigos Hélio Crisanto Gilberto Cardoso Dos Santos brilharam e arrasaram como sempre! E teve mais, muitos poetas se apresentaram, Poetisa Liane Bezerra, a Andressa e outros que se fizeram presentes enriqueceram à noite com muita cultura, muito Nordeste, muita alma, muita poesia e emoção recheada em cada verso.
Parabéns
a todos pelo belíssimo evento!







"Evento maravilhoso! Parabéns a todos que fazem a APOESC ! Evento digno de nossos aplausos! Que venham outros !
Cenário perfeito! Repertório espetacular! Nota 11
Parabéns também a produção do Evento, tudo feito com amor ! Resultado fantástico ! Wilard e Jozy estão de parabéns mesmo.
Gilberto e Hélio estavam em harmonia e aflorando melodias que encantaram pessoas e pássaros do nosso Sertão!
Parabéns  também  aos declamadores que recitaram poesias maravilhosas que com certeza preencheram a leveza do silêncio de todo público presente! 
Show ! Show mesmo!"