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quarta-feira, 22 de outubro de 2025

O BÁSICO - Maria Goretti Borges




O Básico

O que distingue o básico do extraordinário? Essa distinção é necessária? É possível? Há uma interdependência entre esses elementos? Comumente, costuma-se estabelecer contrapontos quando lidamos com dados em perspectivas diferentes.

O básico e o extraordinário seriam como a inspiração e a expiração que, num processo oposto e complementar, são igualmente importantes para a manutenção da vida? No evangelho de Lucas, capítulo 17, a fé é responsável pelo extraordinário: "Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a esta amoreira: 'arranque-se daí, e plante-se no mar'. E ela obedeceria a vocês."

Na mesma parábola, temos o empregado que obedece ao seu senhor, fazendo tudo o que lhe foi ordenado, sem exigência alguma. Nesse contexto, a exemplo do empregado, também nos é feita a seguinte solicitação: “quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandaram fazer, digam: ‘Somos empregados inúteis; porque fizemos apenas o que deveríamos fazer’.” Como podemos observar, o empregado fez o básico, o trivial — ou melhor, apenas seguiu ordens. E cada um de nós, no cotidiano de uma vida inteira, nos rebelamos ou apenas cumprimos determinações? Pelo visto, a fé difundida no evangelho de Lucas, capítulo 17, não permeia o dia a dia dos míseros seres.

Mesmo assim, nos deparamos com sujeitos que, submergidos num ideário de crenças e movidos por elas, propagam feitos excêntricos, mirabolantes. O básico, que tanto nos habita, preenchendo espaço/tempo, nos impede de perceber que somos apenas servos inúteis. Em seus versos, o pensador contemporâneo Raul Seixas, discorre, brilhantemente, sobre a condição limitada do ser humano.

“[...] É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa 10% de sua cabeça animal.
E você ainda acredita
Que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social.”
(Raul Seixas)

O extraordinário se inicia pela tomada de consciência de quem se é; da análise de possibilidades e limitações. Conhecer, para amparar as debilidades, ressaltar as forças, formatar o pensamento — dá sentido às palavras! Ideias bem construídas e embasadas se transplantam, provocam transformações. “Quem come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso.” (Melanie Klein)

As ideias entrelaçadas constroem discursos, configuram ideologias. Quando uma figura pública, ciente do poder ideológico de sua obra, faz um chamado, convoca para uma mobilização — a exemplo de Caetano Veloso —, o que dá respaldo a essa convocação não é a pessoa física, o sujeito, mas o conjunto de ideias propagadas ao longo de sua carreira e a crença da identificação de muitos com essas ideias. O paraíso da acomodação nos remete a estágios primários, preliminares onde o outro é proprietário e você, alheio a si mesmo!

O extraordinário está contido na subjetividade — fé, coragem, força, percepção, audácia, perspicácia, criação, no mais que humano, no que extrapola, na dúvida, na polidez do ser.

Num cenário de devastação, a exemplo das guerras, é muito significativa a constatação de que forças, crenças e confiança no outro — até quando não se devia — ancoram pessoas, mesmo nas condições mais inóspitas. Dos danos causados pelas guerras, os da alma são os mais devastadores. Essas, mesmo dilaceradas, encontram amparo na esperança de um novo dia, que se inicia a cada nascer do sol. O novo é sempre radiante e promissor, um fertilizante próspero. Os senhores da guerra são ordinários (xingamento). Extraordinário é o livro de Viktor Frankl — Em busca de sentido.

Quantos adjetivos cabem num olhar? Não sei mensurar. Os olhares, a depender da luz que emanam, podem ser descritos como: olhar de admiração, de tristeza, de desejo, de censura, indiferença, compaixão ou um olhar sem visão... Qual o alcance de um olhar? O quão revelador esse olhar pode ser?

Ao descrever uma imagem, o sujeito revela-se tanto quanto a configuração da imagem por ele captada. João Gilberto, artista brasileiro, ao observar mulheres descendo o morro, falou: “Lá vem o Brasil descendo!” O que podia ser um simples olhar revela a constatação de meio século de história de uma nação (extraordinário).

“[...] Da sua escola é passista primeira
Lá vem o Brasil descendo a ladeira
No equilíbrio da lata não é brincadeira
Lá vem o Brasil descendo a ladeira.”
(Moraes Moreira)

Nessa construção literária, o poeta enobrece a força e a resistência de um povo que, através de seus malabares, na arte da sobrevivência, resiste bravamente. O básico também é belo — viva o povo brasileiro que desce e sobe ladeiras, num vai e vem sem fim!


Maria Goretti Borges

quinta-feira, 24 de abril de 2025

FRUTOS SECOS - Goretti Borges




Frutos secos

O Papa Francisco enfatizava a importância da formação humanista para o bom desempenho de um sacerdote e sugeria um mergulho pelo mundo das artes, sobretudo, da literatura. De acordo com Francisco, não se concebe uma formação plural sem leituras, como: Dostoiéyski, Luis Borges, José Hernández (...). Advertia, ainda, que: “Com o propósito de formação humanista, o profissional suplantaria a posição de um bom instrumento sem coração (frutos secos).”

A arte verbaliza o indizível, nela reside a corporificação da dor, do amor e da expressão dos sonhos! Quando o Papa Francisco falava da humanização pela arte, mais especificamente, pela literatura, ele apontava um viés, um canal por onde podemos nos transportar e adentrar o universo de tantos personagens fictícios/reais que povoam as diversas esferas da nossa sociedade e que passam despercebidos ou são renegados a planos inferiores. Em “Um índio”, Caetano Veloso denuncia, magistralmente, o extermínio do povo indígena! Em seus versos, cita: “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos; Surpreenderá a todos, não por ser exótico; Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio.” É sobre isso. Estar presente e oculto ao mesmo tempo! Os olhos que não querem ver, rotulam/diminuem, reduzem, abstraem o espírito. Assim, fica mais fácil torná-los invisíveis.

A incrível sensibilidade do artista traz à tona o oculto, fazendo emergir personagens tão viscerais, tão legítimos, tão presentes e protagonistas que normalmente são subjugados, renegados a segundo plano, ou seja, quando atuam são meros coadjuvantes. Resguardando carinhosamente os grandes Mario Lagos e Ataulfo Alves: “Amélia não tinha menor vaidade, Amélia que era mulher de verdade (...)”. É bonito porque é poético, ponto! No convívio em meio a discursos controversos, estaria a mulher a “tecer longos bordados” ou a desfazer bordados rígidos tecidos para ela?

Em Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez, à luz de sua genialidade, constrói um personagem tão singular e plural ao mesmo tempo, como Úrsula. Esse personagem é o sustentáculo de toda a trama que envolve a família Buendía e adjacências. Úrsula transita ativamente por todos os lugares, faz-se presente e atuante nas tomadas de decisões, ríspida e amorosa, relutante e acessível, tradicional e de vanguarda, uma incansável conciliadora. Disposta a enfrentar batalhas de toda ordem, sejam pessoais, familiares ou conjunturais. Capaz de abraçar demandas diversas sem restrições, sempre desprovida de ideais ou ditames, sem tempo para acharques, birras ou paralização por frustações, não lhe restando, portanto, tempo para o talvez, o mais ou menos, o talvez ou o acordar espontâneo; um êxodo sem fim.  

 A mulher não está atrás, ao lado ou à frente de outro – ela está no seu lugar, trilhando o seu caminho, escrevendo sua história, basta olhar para ver. No entanto, não são todos os olhos que veem! Francisco, sabiamente, nos fez lembrar a importância de pessoas que se debruçam sobre seus feitos para nos humanizar. Assim como Úrsula (Gabriel García Márquez), temos Eunice Paiva (Marcelo Rubéns Paiva), Sônia (Fiódor Dostoiévski), dentre tantas outras. Nesse processo, não por acaso, de subjugação da mulher, a arte desempenha um papel de suma importância no tocante ao seu reconhecimento e afirmação do seu lugar como sendo o palco com todo o protagonismo que é seu de direito. 

Eu sou. Quão abrangente é esta afirmação! Algo que parece ser uma simplificação, é de fato, um conjunto de significados! A mulher é. Que não falte ao conjunto da sociedade delicadeza e adjetivos que expressem o valor de todas as mulheres, são tantas Marias, Joanas, Lourdes, Alices...! “Quantos segredos traz o coração de uma mulher?” É algo a se decifrar! Contudo, uma coisa é certa: há muitas vidas nos olhos de uma mulher!


Maria Goretti Borges



sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Camelo – Leão – Criança - Goretti Borges



Camelo – Leão – Criança


Quem de nós consegue romper o invólucro do casulo e viver as três metamorfoses do espírito mencionadas por Nietzsche em Assim falou Zaratustra, nas quais o espírito se torna camelo, o camelo se torna leão e o leão, por fim, criança?

Nesta proposição, a reverência é um peso, um encolhimento do espírito – camelo; o não representa a irreverência, o incivil, a negação das imposições – leão. Consequentemente, os sonhos, as possibilidades, a leveza e a libertação estão na alma da criança.

As transformações do espírito permitem o desatar dos nós, a fluição do ser. Qual o mais liberto dos seres fez suavemente a transição – lagarta/borboleta – sem percorrer caminhos sinuosos, tortuosos e recheados de malabares? Ou conseguiu esvaziar-se por completo do camelo/leão e se embriagar da criança?

Uma busca composta por lembranças/esquecimentos, um lugar prometido com caminhos/descaminhos, desconstrução de alguém que você continua sendo mesmo sem ter escolhido ser, simbolizam o singular/plural que somos.

“Hoje ainda sofres dos muitos, tu que és um: hoje ainda tens tua coragem inteira e tuas esperanças”.
“Nas montanhas, o mais curto caminho é aquele entre um cume e outro: mas, para isso, tens de ter pernas compridas”.

Quem é que tem pernas tão longas para fazer os percursos mais rápidos e aparentemente mais fáceis? Para nos transportar de um lugar para outro e alcançar um novo cume, faz-se necessário descer um monte e subir outro. Fazer a travessia é transpor o vale.

Há uma linha tênue entre os espaços, uma transitoriedade e caminhos inversos! Os recortes de poder, funções e limites dificultam a percepção do eu e a construção de identidade.

O camelo, mesmo vivendo sua metamorfose, traz consigo as agruras do espírito cativo, do lugar não desfeito, do espaço revisitado. No entanto, a compreensão da relatividade da libertação do espírito não comporta: a criança correndo em círculo; o leão liberto numa ilha; o camelo sem horizonte – liberdade inexata.

A camuflagem do camaleão é a negação de si mesmo, uma performance exibicionista, perda de sua identidade ou estratégia de sobrevivência? O sorvete napolitano, pela sua natureza e também pela sua inconsistência, quando descongelado, perde sua identidade, mesmo permanecendo com o mesmo conteúdo.

O homem sem consciência de suas dimensionalidades se torna uma aldeia privada, um solo infértil, um desertor do seu próprio exército.

Na contramão da matemática – ciência exata – as ciências humanas seguem seu curso contemplando a miserabilidade humana, as almas dilaceradas, as incertezas, os campos minados, as areias movediças, os tsunamis, enfim, um mundo de inconstâncias.

Nos desertos da vida, Caetano Veloso lança a ciência do certo/incerto – “Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo como dois e dois são cinco”. Nas ciências humanas, a inconstância é o sal da história!

Sem aplicabilidades, as profecias caem por terra uma a uma. O menos provável acontece. Os dons – presentes divinos – removem montanhas!

Em condições inóspitas, ambiente hostil em todos os aspectos, para romper barreiras e libertar espíritos fomos presenteados com Bob Marley, que gentilmente nos apresentou suas músicas e canções (One Love). Gratificante nos é comprovar que, felizmente, estava errado quem disse que “da Galileia não surge profeta”.

A esperança ressurge a todo momento, contemplemos!

Numa vida de servidão – Camelo – Rosa Parks, ao decidir não ceder o lugar no transporte coletivo para um homem branco, nos Estados Unidos da América, gesto “leonínico”, causa uma revolução e muda o que até então estava posto.

Desse não, muitos ao seu redor voltaram a ser crianças. Sonhos possíveis/impossíveis foram reacendidos, reverberaram. O corajoso não de Rosa Parks, encabeçado por Martin Luther King Jr., deu origem ao movimento pelos direitos civis nos EUA.

Que assim seja o Natal: um sonho de irmandade, fraternidade, justiça e paz!


Maria Goretti Borges

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

CHICO BUARQUE: VOZ E ALMA DO BRASIL

 


Tão indefinido quanto a poesia e, ao mesmo tempo, tão embevecedor é o nosso brasileiro, Chico Buarque de Holanda! Versado nas artes: músico, cantor, compositor, escritor, um cidadão. Em sua completude artística e cidadã, transita por múltiplos espaços, deixando marcas e significados no tempo. A força estética de suas composições, ora sutil, ora vivaz, revela uma criatividade expressiva absurda e indescritível. Esse artista multifacetado empresta-nos uma definição aproximada de si mesmo: “O ator se transforma em mil personagens para poder ser mil vezes ele mesmo” (Budapeste – Livro de Chico). Sua arte, assim como a música popular brasileira como um todo, com suas canções e melodias, transcende a matéria e, num bailado de ritmos, afaga a mente, constrói sentimentos, adentra os poros, enebria a alma. Um oxigênio para além dos pulmões.

“Olhos nos olhos, quero ver o que você diz.” Diante da arte, faltam-nos palavras para expressar a intensidade da admiração! O aplauso, quiçá acompanhado de reverências, consiga revelar os sentimentos contidos. “Oh, pedaço de mim, oh, metade exilada de mim.” Chico é esse pedaço exilado da essência feminina, que, com a sua generosidade, descreve de forma tão singular o mundo de sonhos, desejos, anseios, frustrações, buscas, amores, desamores, paixões, começos, partidas, esperanças e desilusões que habitam o universo feminino. “Eu sei como pisar no coração de uma mulher” (Chico César). Chico Buarque sabe como mergulhar nas zonas abissais de uma mulher. Desvendar a alma feminina deve ser característica própria dos Chicos! Que cada mulher, “Teresinha”, consiga, da forma mais autêntica possível, viver seus amores e ser tratada como mulher.

Pablo Milanés, artista cubano, compôs “Yolanda”, belíssima canção, para sua então amada Yolanda Benet. Chico, parceiro e admirador seu, sabiamente traduziu esse amor e lindamente nos tornou eternamente Yolandas. “Te amo, te amo, eternamente te amo.” Definitivamente, esse é um caso de amor de mão dupla.

A poesia de Chico vai nos sedimentando de um eu lírico, uma verdadeira “Construção”, palavra por palavra, gesto, forma, e assim, transporta-nos para palácios como se fôssemos príncipes. Suas composições são como janelas que se abrem com milhares de possibilidades contemplativas e também reflexivas. Num recorte de sua obra, destacam-se as canções de protesto:

“De muito gorda a porca já não anda (cálice) / De muito usada a faca já não corta / Como é difícil, pai (pai), abrir a porta (cálice) / Essa palavra presa na garganta.”

Professemos: que haja sempre uma banda a passar cantando coisas de amor. “Tem pouquíssimas coisas que nos permitem, subjetivamente, mudar tanto quanto o amor” (Contardo Calligaris). Que o amor continue distraindo as moças tristes, a gente sofrida, abrindo rosas fechadas! Que eu seja sua menina e você o meu rapaz, que todos os machucões sejam de barbas mal feitas, que todos os arrepios de pele sejam de bocas beijadas, que todos os beijos sejam calmos e profundos, que todas as almas se sintam saciadas. Que as poesias de Chico continuem roubando nossos sentidos. Para ele, “com açúcar e com afeto”, todos os vivas!

segunda-feira, 27 de maio de 2024

O INSTANTE - Maria Goretti Borges

 


O instante

Na sutileza do instante, tudo se faz e desfaz. O instante que não é presente, nem futuro, nem agora, porque o agora já não é mais. Para o poeta, como escreveu Cecília, o instante existe, e ele canta e a sua alma está completa, ele não é alegre, nem é triste! Teria o poeta sorvido o sorriso da Mona Lisa? Nem alegre nem triste, definiria a sutileza do instante, ou seja, a incapacidade humana de sua detecção, ou é apenas uma simbiose entre a alegria e a tristeza? Escorregadio, discreto, imperceptível, abstrato… estariam tais substratos alimentando a condição dual do instante? Como um substantivo de dois gêneros, transita - veloz como um cometa - confundindo mentes, sentimentos, solidificando a incompreensão e seus reversos. 

Os instantes, por sua volatilidade, seriam os responsáveis pela imaterialidade dos sonhos? Eles, os sonhos, são legítimos usufruidores dos instantes, dados aos seus devaneios e dispersões, imagens refletidas como num espelho d’água, lances de flashback, feito nuvens que se movem sem estabelecer conexões. O instante é o rasgo do tecido, o exalar do perfume, mas, também, o ato da germinação da flor. Um mesmo ato poderá ter múltiplos instantes, infindáveis consequências, sublimes e infames sentimentos. Como configurar o instante? Seria um piscar de olhos, o lançar da flecha do cupido, o beijo roubado, a fisgada do peixe, a saciedade da palavra dita?

É no processo que o instante se faz. Bem na ocasião do atar e desatar o nó da questão. No jogo das indefinições, das verdades momentâneas, a vida segue seu curso, ora represada, ora fluída. Nos processos/ciclos da vida, onde inicia a sua história? O instante alimentado é matéria do imaterial, do abstrato e também do real, do concreto. Seria o instante a manifestação do espírito, do pensamento, da possibilidade, da razão, da emoção, do contraponto entre os opostos?

Deus ordenou que tudo se fizesse e tudo se fez. Desconsiderando-se o ato da coordenação do pensamento, processo e, levando-se em consideração apenas o que se fez, com um estalar de dedos, esse ato, seria o instante? Na magia da tramitação dos instantes somos levados a definir passagens importantes como, por exemplo: vida e morte. De repente tudo o que foi já não é mais. Os instantes são divinos, instigantes e misteriosos! Nos entregam nuances que se movem entre luzes e sombras, revelam e ocultam sentimentos, emoções. São plurais, coletivos e singulares, particulares. Aguce a sua percepção, a sua consciência, tome posse dos seus!

Os instantes definem as manhãs, o Sol é equânime em matéria de acessibilidade! Nesse caso, especificamente, os instantes, mesmo iguais (acontecimento), são diferentes (tempo). Aquietando a Filosofia, as almas e corpos seguem aquecidos, reluzentes e, como numa roda gigante, uma mesma visão contempla múltiplas belezas! “Um galo não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos.” (João Cabral de Melo Neto). O canto dos galos, mesmo formando uma teia, se dá em instantes diferentes, dado que não compromete a performance da bela sinfonia.

Os instantes navegam no âmbito do imprevisível de mãos dadas com os processos, esses, com possíveis previsibilidades. “Mais que um instante, quero o seu fluxo.” A água que evapora é a mesma que se liquefaz. A água em seu estado líquido goza do status de ser água, desfruta do seu tempo, reina absoluta, mesmo sem controle dos processos e dos instantes. 

Em que tempo somos nós mesmos, no refúgio pessoal, nas relações sociais ou noutra dimensão? Como nos apropriamos do nosso tempo se não somos capazes de captar os instantes? Apenas uma deixa: quiçá, estabelecendo uma relação madura e fraterna com os processos! Afinal, pensando bem, como ter controle do tempo, se tudo obedece a um movimento cíclico, que se dá em maior e menor dimensão, independente dos quereres? Eis a dinâmica da vida! “Estou nesse instante num vazio branco esperando o próximo instante. Contar o tempo é apenas hipótese de trabalho. Mas o que existe é perceptível e isto obriga a contar o tempo imutável e permanente. Nunca começou e nunca vai acabar. Nunca.” (Clarice Lispector).


Maria Goretti Borges


Veja outros textos da autora:

https://apoesc.blogspot.com/search?q=Goretti+Borges


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

A JORNADA PELO RIO DA EXISTÊNCIA - Maria Goretti Borges

 


A Jornada Pelo Rio da Existência

Vida: um rio. Assim como tantos outros elementos da natureza, um rio poderia ser a definição de vida. Vejamos: assim como a vida, o rio também apresenta um emaranhado de nuances, com múltiplas facetas, intituladas por alguns de mistérios. Em meio às indefinições, a vida, assim como o rio, segue o seu curso. Nós, os navegadores, seguimos na travessia rumo à outra margem. Dentre uma recomendação e outra, destaca-se o tão propalado ponto de equilíbrio, este está à nossa frente o tempo todo, uma perseguição implacável. É preciso alcançá-lo para que a travessia seja o menos traumática possível, quiçá, para os otimistas, até feliz. Desse modo, vão se construindo as narrativas da vida. O Rio, em sua dualidade, transborda alegrias e camufla tristezas, expõe sorrisos e oculta lágrimas, em sua superfície reflete luz, na profundidade submerge sombras, fiquemos atentos! Sem se intimidar, vai seguindo o rio, ora fundo, raso, largo, estreito, opulento, escasso; abrigando águas límpidas e opacas. Seriam essas águas, contraditórias, complementares ou apenas águas que compõem a sua história? Numa dinâmica constante, a travessia vai tomando forma, colorindo tempo e sentimentos. Ao contemplarmos a divina e magistral continuidade da vida, é salutar parafrasear Heráclito de Éfeso: “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio…”

O lado oposto à nascente, para onde navegamos, está sempre à frente, uns chegam mais rápido, uma competição nada interessante! Bom mesmo é a demora, ou seja, o nado a braços. Há quem diga que do outro lado é muito agradável, com extensos jardins floridos! Ainda não concluí meu curso de jardinagem, faço de tudo para ser reprovada, aluna faltosa. Por hora, vamos cuidando dos nossos campos por aqui, há muito o que se fazer. “A messe é grande, mas os operários são poucos” - Lucas 10. Enquanto rio que somos, saudemos nossos afluentes: família, amigos e tudo que nos faz bem! E assim,

Emergidos no mundo das incertezas, enigmas, sem parti pris, fiquemos, tal qual Gonzaguinha, com “a pureza da resposta das crianças é a vida! É bonita e é bonita…"


Maria Goretti Borges





sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

RANHURA – Maria Goretti Borges

 


Ranhura 


Que unidade de medida nos distancia do bem e do mal? O que move intensos, profundos e infindáveis mecanismos e desejos de ascendência de uns sobre outros, de constatação do meu eu - cultural, social, econômico e dogmático - como superior? Que segredos ocultos guardam essas pessoas, quais substâncias as compõem? Há algo de incompreensível, de mistério a permear os métodos e diretrizes do Deus inspirador desse Eu, condutor do espectro da superioridade; é o que nos faz crer.

Qual a dimensão da faixa que nos separa do nosso próximo? Seja nos lugares mais remotos, de dimensão minúscula ou continental, grupos atuam demarcando territórios, instituindo fronteiras, movidos pela sede de poder, intolerância, falta de empatia e aceitação do outro. Torna-se necessário que, nos mais diversos organismos sociais, mesmo nas menores células, se propague a desmistificação de verdades absolutas, atentando-se para a necessidade do fortalecimento da identificação, do pertencimento e das causas inerentes às comunidades específicas e aos segmentos sociais que as compõem.

A identificação e o reconhecimento dos múltiplos discursos embasam o enfrentamento, a desconstrução, mediante diálogo, de conceitos impregnados de preconceitos, entrelinhas recheadas de intencionalidades, cite-se: a naturalização da supremacia de uns em detrimento de outros. O reconhecimento em geral, campo mais amplo e em particular – eu, comunidade e indivíduo - traz em si a possibilidade do diálogo com o contraditório, compreensão social e política, uma via de sobrevivência.

O que o povo brasileiro frequentemente assiste no Congresso Nacional se notifica perfeitamente como discursos evasivos, com propósitos escusos. A percepção do esvaziamento de argumentações, inclusive, sem adequação aos fatos, se torna evidente quando dos questionamentos de nossos senadores em algumas arguições. Do esvaziamento da retórica, surge o simplismo intencional que fundamenta e materializa o discurso de poder, dominação e consolidação do status quo.

Com a aproximação do Natal, nascimento do menino Jesus, acende-se a clareira da reflexão sobre a extraordinária importância da passagem de um ser iluminado e de tantos exemplos deixados por meio de suas parábolas, gestos e ações. A vida é um caminho sem retorno, o que não nos impede de continuarmos na caminhada, sempre em frente, conscientes das curvas sinuosas, vielas transversais, mas, com espírito renovado e confiante na mensagem da paz e harmonia entre os povos. Para esse Natal, desejo que: confiantes num processo de restauração, possamos nos espelhar na – Ranhura – técnica japonesa de recuperação de objetos quebrados em obras de arte. Colados, porém, inteiros, que estejamos numa marcha permanente de reentrância com os propósitos de Jesus!


Maria Goretti Borges 



quarta-feira, 1 de novembro de 2023

AMOR - Maria Goretti Borges

 


AMOR


Amor, sentimento de abrangência incomum, atribuições inimagináveis, significações diversas, características múltiplas, atributos complexos. O termo, num jogo dos interesses, tem sido compartimentalizado no espaço-tempo para se moldar às caixinhas das particularidades humanas. Observando-se a abrangência de suas titularidades, constata-se a posse indevida do amor e a sua fragmentação para permear discursos e projetos no intuito de torná-los confiáveis, legítimos. Ah, o amor!

O escritor C. S. Lewis, em sua obra The Four Loves, explora a natureza do amor na perspectiva cristã e divide-o em quatro categorias: storge, philia, eros e ágape - palavras advindas do grego, o que não tem sido suficiente para atender às demandas sedentas do amor. No quadrante das necessidades humanas, o amor é dinâmico, se eleva, é sublime, mas o amor também inclina, é de perdição. Pasmem: tem até o amor desalmado, que para a lágrima dos amantes - no cardápio dos amores - é o mais praticado! Há os que professam o amor verdadeiro, como se falso o amor pudesse ser! E, nessa gangorra, cada um pratica o amor que lhe convém. Imaginem só, o companheiro de Leila Diniz, em sua legítima defesa, alegou tê-la matado por amor. Pelo visto, também temos o amor que mata! Argumentos como este, dentre outros, têm sido usados para justificar inúmeras atrocidades. Seria o amor atroz mais uma desqualificação do amor bondoso? Na diversidade que o habita, o amor é atual: nas redes sociais os emojis do amor – coraçõezinhos – são as coisas mais fofas e usuais!  

No mundo dos amantes, o amor não correspondido tem cor. “Vá, se mande, junte tudo que você puder levar. Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já (...) os alquimistas já estão no corredor e não tem mais nada, negro amor”. Dos escombros do amor, no coração de quem ama, resta uma gota de generosidade: “(...) risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor e não tem mais nada negro amor”. (It’s All Over Now Baby Blue - Bob Dylan / Negro Amor - versão Caetano Veloso e Péricles Cavalcante).

Para o poeta Fernando Pessoa, no máximo, no mundo dos apaixonados, o amor é ridículo: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas (...)”.

Dissolvidas as generalizações, eis que temos a mensagem do Apóstolo Paulo: “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e dos anjos, se eu não tivesse o amor, serei como sino ruidoso ou como címbalo estridente (...)”.  Como também, diz: “O amor é paciente, o amor é prestativo, não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho (...)”. O amor é. E na dinâmica do espaço-tempo, revela-se de várias formas. O amor é como incenso, em sua abstração se manifesta!

“Diego não conhecia o mar.  Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dumas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!” (Eduardo Galeano). Ainda que eu dominasse o conjunto de estudos que compõe a teoria da relatividade - Albert Einstein -, não conseguiria relativizar um sentimento tão profundo e tão peculiar. Como descrever um gesto de tamanha emoção, dependência, confiança que só o amor reciproco pode vivenciar?

E, assim, o amor vai seguindo seu curso, ora sendo o centro, autor da razão: amor de canção, amor de mandamento, amor de salvação. Ora a margem, figurante da resultância: amor de uma nota só, amor de resultados, amor de prisão. O amor que não afaga e não enobrece é como o vinho que não embriaga, ambos permanecem presentes, tão somente, no dicionário da involução.


Maria Goretti Borges






quarta-feira, 4 de outubro de 2023

PONTO DE RETICÊNCIAS - Maria Goretti Borges

 



Ponto de reticências


As reticências indicam interrupções, hesitações ou uma lacuna a ser preenchida (Googlei). Nelas estão contidas o real e o vazio imaginário, necessários à supressão dos embaraços, indecisões, perplexidades e afins. Uma espécie de embalagem a vácuo.

As reticências – assim como as sinfonias – trazem em si o belo do sentir, o regozijo da palavra não dita, a satisfação da plenitude, a sobrevivência da palavra morta na garganta! No desafio das nuances da interpretação, seriam elas, uma carícia para as almas não afogadas, os amores desfeitos, o abraço sem o calor desejado, o recuo, o temor, a incapacidade humana de expressar-se em sua plenitude?

Fora dos parênteses, as palavras nos revelariam, por exemplo: estarem saturadas de atalhos, nós não desatados, laços desfeitos, escrita tímida, insegura, conceitos em construção, pensamentos mesquinhos, mordaças que aprisionam o verbo?

“Qual a palavra que nunca foi dita, diga”. Na composição Paula e Bebeto (Milton/Caetano) as palavras são proclamadas e suas múltiplas funções professadas. No apagar das luzes, seriam as palavras não ditas uma luz no fim do túnel?  “Hoje contei pras paredes, coisas do meu coração”, contar para as paredes seria uma forma de disfarçar o uso das reticências?

Observando-se a literatura brasileira e os ditos populares, percebe-se o quanto as paredes fazem parte das reticências humanas. Entre quatro paredes as palavras faladas não são totalmente ao vento, ecoam com muita intensidade em quem as proclama.

De acordo com o adágio:  ”Quem está na chuva é pra se molhar”. Contudo, já para reticências, as palavras que nos habitam não necessariamente precisam ser ditas, elas, as reticências, atuam como um guarda-chuva, protegendo o sujeito do predicado.

 Da tua história, tal qual Djavan, também não sei. “E a tua história, eu não sei mais me diga só o que for bom”. Para quem ficará a escuta das reticências, dos parênteses, continuarão a divagar, a habitar o mundo do imaginário? Seria o momento e a sutileza do psicanalista, seria ele, o desbravador dos enigmas assombrosos, da fluidez do pensamento, leveza do dito, da gargalhada debochada, o riso frouxo, do cumprimento descomprometido com a profundidade do sentir?

Há quem diga que as reticências nos asseguram as interrupções necessárias para seguirmos adiante, os obstáculos transpostos, os momentos indesejados.   

Seriam as reticências o côncavo do amor? O amor é a resposta, a explicação, a plenitude, a revelação. Já nas reticencias: estão imbricadas a ocultação, a desfaçatez, a confusão, o represamento, a sutileza, a cumplicidade, etc.

Salve, salve as reticências, elas nos salvarão. Só nelas cabem o significado e a grandeza da Arte. Como descrever a interpretação magistral de Maria Bethânia da música Todo o sentimento (Chico Buarque) na posse do ministro Barroso? Só nos resta lançar mão do nosso “eu Chicó”, “não sei, só sei que foi assim!”. 







terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

QUAL O SEU SORRISO? - Maria Goretti Borges




 "Soprando a última velinha dos cinquenta, uma constatação: as dúvidas são muitas, as certezas, pouquíssimas. Procuro compreender a diversidade humana a partir da diversidade também existente em outras espécies. A engenhosa obra criacionista ou evolucionista torna-se efetivamente mais compreensível pela diversidade do que pela singularidade, como querem alguns. Quem conseguiria transformar todas as plantas a ponto de deixá-las da mesma cor, com os mesmos frutos e finalidades? Aplique-se o mesmo questionamento para os animais. O homem lança mão de sua inteligência, uma contradição, para proferir o discurso da padronização do homem, vale salientar: daquilo que compraz o seu projeto de poder e dominação. Nas muralhas construídas pelo discurso da desfaçatez, mas com tijolos de furos, a luz penetra. Penetra porque é da luz, seja em forma de clarão ou timidamente!

Entre rios poluídos, aeronaves, ouro e diamantes, um fio de luz chega ao povo Yanomami. Soterrados por treze dias em meio a escombros, um raio de luz chega a uma família turca. E assim, a vida segue o seu curso! Nas tantas batalhas travadas, umas acompanhadas, outras solitárias, perguntas sem respostas, dias de choro, outros de risos, seguimos nós, as Marias e os Josés.

Se encontrasse com Deus, sorriria. Não com a risada de Fafá de Belém, nem com o sorriso disfarçado da Monalisa ou com o sorriso espontâneo de uma criança. Sorriria com o sorriso de uma aluna do 9º ano. Um sorriso difícil de descrever: o sorriso daquela aluna que estudou, mas sabe que não foi suficiente para passar por média. Aquele sorriso que pergunta: "Estou em recuperação, tenho chance de passar de ano?" O sorriso que diz: "Muito difícil aquele assunto da prova, era aquele mesmo?" Um sorriso nem alegre nem triste, que confessa, questiona e também constata: o Senhor é quem sabe! Um sorriso sem medo, sem desespero. Preocupado, porém esperançoso! Passar por média na escola da vida não é nada fácil, é uma missão árdua. São muitos nomes, sobrenomes e pronomes para pronunciar. Muitas chaves, parênteses e colchetes para abrir e fechar. Mares, marés e maremotos para enfrentar. Também temos muita beleza para apreciar, muito amor para compartilhar, uma vida para viver e muitas notas para recuperar. Uma longa passarela que alterna em sua composição terra firme e areia movediça. Equilíbrio é a palavra-chave para a travessia, sigamos!"

Goretti Borges

Educadora e gestora escolar do IESC




quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

QUEM É LULA? - Goretti Borges




Quem é Lula? 

Passado, presente e futuro são a composição do mesmo ser. Entrelaçam-se e formam o enredo permanente de suas vidas. “Se me prenderem, viro herói. Se me matarem, viro mártir. E, se me deixarem solto, viro presidente”. Uma visão histórica de si mesmo, o reconhecimento de quem se é, foi exatamente o que Lula transmitiu ao proferir esse simples discurso no ano de 2016.

Lula é mais um personagem a compor a história dos personagens do povo brasileiro. Quem seria Lula? Um brasileiro que, assim como Ariano Suassuna, gosta de contar causos? Aquele que assina a ata de posse no ano de 2023, como presidente do Brasil, com uma caneta presenteada no ano de 1989, por um cidadão piauiense de nome Fernando Menezes? Há quem duvide de suas histórias, intrigas de oposicionistas, talvez. Cá para nós, o que importa mesmo são os causos. E Lula, assim como Suassuna, é um bom contador!

Seria Lula uma réplica do Pe. Cícero, pela sua capacidade de reunir - ressalvas à expressão - “Deus e o diabo” num mesmo palanque? Quanto ao Pe. Cicero, os objetivos seriam os mesmos de Lula? Esse, lança mão da democracia para justificar seus atos: “Democracia para sempre” (Lula). Seria Lula, a exemplo de Virgulino Ferreira, o Lampião, mais um personagem nordestino a povoar o imaginário popular? Para alguns, um herói, para outros, um tirano. Um enigma permeará a história desses personagens. De concreto, pode-se dizer que Lula é um filho do Brasil, um personagem significativo da história do país. Se não, vejamos: na população de imigrantes nordestinos, ele está; assim como está na indústria do Sudeste, nos movimentos sindicais e sociais e, principalmente, na vida política do Brasil desde seu processo de redemocratização no início dos anos 80.

Lula é um estadista, reconhecido mundo afora. “Lula é o cara” (Obama). O personagem Lula se reinventa até mesmo quando está totalmente desacreditado pelos seus opositores. Refeito, reveste seu personagem com as vestimentas oportunas, encara os desafios e segue em frente: aplaudido, também vaiado, mas em frente, sempre.

O dito popular “a mão que afaga é a mesma que apedreja” se aplica muito bem à parte da imprensa brasileira. Acossada nos últimos quatro anos, recorre a Lula após um longo período de muita hostilidade, como uma alternativa possível de libertação das mordaças e humilhações sofridas. Muitas outras categorias e grupos sociais que não tinham Lula como primeira opção de voto em 2022, também lançaram mão da mesma estratégia de voto. Dado o seu contingente eleitoral, Lula surge como o único candidato viável a reestabelecer a ordem democrática. Essa não é uma percepção apenas de parte da população brasileira, ela ultrapassa as nossas fronteiras. Fato que se pode perceber pela satisfação de líderes mundiais presentes em sua posse. Se Deus é brasileiro, não se sabe ou não temos como afirmar! Porém, uma coisa é certa: podemos contar com as orações do nosso argentino, Papa Francisco.

Lula é um brasileiro e para essa brasilidade podemos recorrer a uma estrofe do Hino Nacional: “Mas, se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte!”. Lula é resistência! Poderia não ter sido preso, ter pedido exílio político ou até mesmo ter se esquivado, saído de férias para Miami.

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, como diz Euclides da Cunha. Lula é um sertanejo forte e resiliente. Seria Lula mais um personagem da literatura brasileira? Lula é exemplo de crença em si mesmo e confiança nas amizades sinceras, desinteresseiras, coisa rara no mundo da política.

Lula é, também, um personagem de Graciliano Ramos. Assim como Fabiano, Lula também faz sua travessia. A capacidade de comunicação, pelo que podemos observar, é algo que os diferencia significativamente. Lula fala, o povo entende e isso é tudo! Como Fabiano, Lula também tem a sua cachorrinha de estimação: baleia e resistência, respectivamente.

Lula é, dentre tantos personagens, a configuração de um ser complexo, representativo, interessante e enigmático! Lula é tri, e segue o jogo.

Maria Goretti Borges







sexta-feira, 24 de junho de 2022

A DESFAÇATEZ DO DISCURSO - Maria Goretti Borges

 


A desfaçatez do discurso

 

Em conformidade com “A fábula dos dois lobos” o homem tem o livre arbítrio e o poder para escolher, dentre os lobos que o habitam, qual alimentar. Os lobos alimentados determinam as relações sociais e também as lutas internas nossas de cada dia. Partindo-se desse entendimento, o alimento para a alma é tão ou igualmente necessário quanto o alimento para o corpo. Quiçá ambos estão imbricados, complementando-se, uma simbiose!

O lobo que você alimenta rompe a esfera individual, adentra a esfera social, construindo-se um espaço transitável, com movimentos determinantes.

Muitos são os estratagemas adotados desde tempos remotos para confundir as mentes quando a temática em pauta é o bem e o mal. “O lobo em pele de cordeiro” não é apenas um personagem, são personalidades e estão presentes nas páginas dos livros, são oficiais! O que impressiona mesmo não é a sua presença na história da humanidade, mas a sua capacidade de travestir o bem em mal e vice-versa, de transformar doce em fel e apropriar-se das palavras ditas para a libertação dos homens em correntes opressoras. Discriminar, injuriar, matar de fome, subjugar, escravizar, dissimular são apenas alguns de seus atributos, aos olhos e aplausos de muitos. Segundo Hobbes, essencialmente o “Homem é o lobo do homem”. Incompreensível o quanto o despropósito, ou seja, coisas tão irreais ocupem o centro do debate em detrimento dos problemas concretos que afetam os povos em todos os tempos e lugares. Observemos o que está acontecendo na Ucrânia e também “num ponto equidistante entre o atlântico e pacífico”. Só para exemplificar.

As pessoas estão apressadas, as perguntas rasas e as respostas imediatistas, tudo permeando a superficialidade! A justiça está de olhos e mentes fechados. Leva-se dias para encontrar os assassinos de Dom Phillips (jornalista) e Bruno Pereira, mas algumas horas apenas para concluir que não tem mandantes, nem motivos para tamanha perversidade. Como assim?

Dentre os inúmeros fatos a serem refletidos, está a velha retórica dos “lobos velhos e maus”, cite-se: os discursos vazios de conteúdo, descontextualizados, carregados de preconceito e falsa moral, uma desfaçatez do mal, o lobo na sua mais perversa versão.

“Não se coloca vinho novo em odres velhos” (Mateus 9:14-17; Marcos 2:18-22; Lucas 5:33-39). Sujeitos historicamente desprovidos de pudor (farsantes), com práticas autoritárias, sem compromisso com o bem público. Não poderia e não está em seus projetos de poder a possibilidade de políticas voltadas para harmonização, promoção da justiça e da equidade social. Um contrassenso, seria!

“Ninguém coloca remendo novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta” (Matheus 9:16). Uma sociedade com um tecido social esgarçado como a nossa, necessita de projetos políticos condizentes com as necessidades reais de seu povo, contemporâneos. Cada homem é senhor do seu tempo, uma nova aliança para cada época!

Dentre os inúmeros questionamentos que encontramos, eis um pensamento afirmativo: é preciso equacionar para encontrar solução ou soluções, ou encaminhamentos para inúmeros problemas que nos afligem.

Na dinâmica da vida “as coisas se transformam e isso não é bom nem mal”. Apenas faz parte da dinâmica. Os problemas e suas soluções são cíclicos. Uma coisa de cada vez! Então, entremos em ação, já sabemos o que temos para o ano de 2022.


Maria Goretti Borges



sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

O Jogo - Maria Goretti Borges

                                                              



O Jogo

 

No fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa (provérbio italiano). Se no fim o encaixe é igual para todos, o mesmo não se dá durante a travessia. Do início ao fim, mais especificamente nesse ínterim, muitas lutas são travadas, encontros e desencontros, se dão. Observando-se o início, é bem visível que os personagens do jogo da vida não saem da mesma caixa, comparando-se a uma simples corrida, poderíamos dizer que muitos queimam na largada. No decorrer da partida e nos movimentos das peças, a vida acontece! Depois do fim, o que importa, algo importa? O ato da ressurreição de Jesus, seria uma prova cabal de que mesmo depois do fim o jogo continua? O Jesus humano, em sua trajetória, representa muito bem o percurso, ruas, becos, veredas e vielas no tabuleiro da vida da imensa maioria dos jogadores (peões). Advindo de uma família simples, num contexto de disputa por espaços em campos diversos, Jesus nasce refugiado e no decorrer da vida sofre as perseguições próprias, dos que se insurgem. No jogo da vida não lutou para vencer, não almejou a glória pessoal, sonhou um pódio para todos.  Germinou depois do fim, nasceu para amar e morreu para esperançar. Numa sociedade de desfavorecidos não existe vencedor, meritocracia sem equidade é blefe! “Navigare necesse, vivere non est necesse”. Frase atribuída ao general romano Pompeu (106-48 a.C.). Nesse vai e vem das ondas da vida, navegar é preciso! Na vida, assim como no canto de Zeca Pagodinho: “camarão que dorme a onda leva”. Estar acordado, atento, conectado, engajado e em movimento é pressuposto para permanecer no jogo. Jogar é preciso! A estada é individual, mas também é coletiva. Na escalação do time, muitos vão apontar e tentar definir o seu lugar, sua posição “natural”, onde supostamente você renderia mais. Mais ou menos como na canção, Portas. “nesse corredor portas ao redor(...) tentam decidir qual é a melhor”.  Daí vem os questionamentos: “por que uma única porta, se todas dão em algum lugar, se todas servem para sair ou para entrar, se todas servem para ventilar o corredor? No jogo da vida é necessário questionar, lutar, não aceitar jogar um jogo de cartas marcadas, previamente escolhidas, rotuladas, posicionadas, etc.

Em seu livro, Uma Terra Prometida, Barack Obama descreve sua trajetória na política e também na sua vida pessoal. Estão entrelaçadas, obviamente. Para mim a maior lição a extrair dessa história, é exatamente a sabedoria do escritor (Obama). Cite-se: como se portar em cada ocasião, aproveitar as oportunidades, encarar os desafios (muitos), ser audacioso, rever conceitos, dialogar, dentre outros. Enfim, focar nos objetivos traçados, sem perder a luz de sua essência, plantar e esperar o tempo certo da colheita, chorar e sorrir, quando necessário. Nos versos do compositor Guilherme Arantes, estaria o resumo da ”ópera da vida”? “Vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar.”  No jogo da vida seremos eternos aprendizes, nada de entregar o jogo ou antecipar vitórias, avante!

O desamor, a falta de caridade, a incompreensão, a ganância e arrogância desumanizam o homem, embolam o meio de campo, jogo não flui de forma justa.  “E mesmo que tudo tenha dado errado, eu ficarei bem aqui diante do senhor da música, com nada em minha língua a não ser aleluia” (Leonard Cohen). Após travar lutas diárias, atravessar mares tenebrosos, romper a escuridão e não nos restar mais nada, nem mesmo forças, fiquemos com o Senhor da Vida. Feliz Ano Novo!


Maria Goretti Borges









quinta-feira, 22 de julho de 2021

Tempos e Discursos Entrelaçados - Maria Goretti Borges




Tempos e Discursos Entrelaçados 


Um dia e de repente uma nota lida, uma imagem mostrada, uma observação feita – um vírus, uma ameaça. Ruídos distantes, hipóteses levantadas..., questionamentos diversos. O quê? Longe demais! Onde mesmo, China? Mas que nada, perto muito perto, apenas o tempo de voar algumas milhas, algo comum no vai e vem dos nossos dias, dinâmica contemporânea. Desde então as nossas marés nunca mais foram as mesmas! Uma tela abriu-se, antigas e novas práticas de civilizações passaram a atuar concomitantemente nos palcos e nos bastidores da vida humana.

Temos nos deparado com verdadeiros tsunamis, tanto no ambiente externo como internamente. Uma catarse às avessas! No contexto das incertezas, o significado do termo “viver o tempo presente” passou a ter mais sentido. Nas conversas corriqueiras pelo WhatsApp ao recordarmos o último natal, não é uma referência ao ano próximo passado, assim como o último carnaval. Criou-se um vazio temporal e factual, dando espaço a novos e inusitados fatos, acontecimentos, sustos, uma profusão de falas, dizeres e práticas. Num cenário fértil à construção de narrativas, os discursos vão criando corpos, se intercruzando. Uns articulados, bem fundamentados, outros nem tanto e tantos outros de embrulhar o estômago e a mente.

Quem nos dera a sabedoria do poeta no trato com a dor, que “finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”! A minha condição humana, reles mortal, sente concretamente a dor do malogro na condução de vidas humanas, temos feridas acesas, almas sufocadas, necessitamos de ar, mar, esperança. Uma corrosão, que para além da carne, nebula os sonhos e até a mística das nossas crenças. Oh você, que inventou a tristeza, por que não teve a “fineza de desinventar”? Somada a tantos outros males, a tristeza se apoderou de todos nós, ressalve-se apenas a sua intensidade. Nesse contexto de pandemia, veio-me à memória cenas do filme Coração de Luto. As cenas de dor pela perda da pessoa amada, a partida, a angústia, a insegurança, o desolamento e o luto. Toda essa orfandade, em minha mente de criança, fazia-me chorar compulsivamente. 

O retorno ao lado B, ao frágil, aos medos e pesadelos traz um desconforto, um incômodo e ao mesmo tempo uma necessidade de autoconhecimento. Ainda me reportando aos tempos idos, pegava-me perdida em pensamentos e sem entender, questionava: como pode Deus permitir tanto sofrimento, por que não ajuda as crianças? Inclusive a mim, por sentir-me também injustiçada tal qual o menino Vitor do filme! Como, a toda criança, faltava-me o saber necessário para compreender as artimanhas dos homens. 

Hoje pego-me questionando fatos do presente. No seu depoimento à CPI da covid-19, o Sr. Carlos Wizard, invocando o nome de Deus, fez o seu discurso de abertura diante de senadores e das câmaras de TV. Fiel da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, de postura conservadora, professor do discurso negacionista, engrossou a fileira da falácia cínica, irresponsável e premeditada que tem levado muitos brasileiros a morte. Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, título bastante sugestivo para quem está perdendo a batalha para a covid-19. 

Quando as palavras, os gestos e sentimentos não dão conta de descrever uma imagem, seria a insuficiência da linguagem ou o despropósito da estupidez humana? O gesto de tirar a máscara de uma criança no auge de uma pandemia, diante de seus responsáveis, significa mais que desautorizá-los e infringir o Estatuto da Criança e do Adolescente. Esse gestual não é apenas a exposição de uma criança, é a nudez do ser individual e coletivo, de tudo que lhe é sublime, negação de todas as formas de civilidade. Nesse Brasil embrutecido, “ninguém é cidadão” (Gil/Caetano). E os questionamentos continuam, num regime democrático os povos elegem seus representantes. Se o que está posto para nós, são os nossos representantes, quem somos? Seriam eles, nossos representantes, a nossa face oculta? Seríamos, todos juntos, a composição da moeda, quem é a cara, quem é a coroa? Que não nos falte a dignidade de Etty Hillesum e os versos do poeta: “[...] mas vou deixar minha porta aberta / fechar os olhos para me lembrar/ de quando você entrou aqui, falou que o amor só pode ir/ porque pôde ficar.” (Nando Reis).


Maria Goretti Borges





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