
VIDA DE "CABOCO"
José Alves Sobrinho
I
Eu também fui cantador,
Repentista e violeiro,
Todo Norte brasileiro,
Inda lembra sim senhor,
O meu nome, o meu valor,
A minha voz estridente,
Porém, repentinamente
A mão do destino atroz
Arrebatou minha voz
Deixei de cantar repente.
II
Fui pelos os fãs desprezado
Depois que a voz ficou feia
Mas a opinião alheia
Não me faz complexado,
Embora um pouco afastado
Da viola e do improviso,
Ainda sinto de juízo
O talento da palavra
Se tenho verso de lavra
Do que é alheio não preciso.
III
Deixei de ser violeiro
Porque cantar não podia,
Mas não deixei a poesia
Do qual também sou herdeiro,
Fui trabalhar de carreiro,
Amansar bois, ter trabalho,
Ferrrar e botar chocalho.
As mãos que tanto tocavam
Agora se habituavam
Ao peso do cabeçalho.
IV
Aprendi todo trabalho
Da profissão do carreiro:
Encangar, fazer tanoeiro,
Rilho, ferrão, cabeçalho,
Chave, cabresto, chocalho,
Mesa, travessão, rodeira,
Eixo, cunha, cantadeira,
Brabo, fueiro, cocão,
Corda-de-laçar, cambão,
Chifre-de-olho e esteira.
V
Meu carro era bem zelado,
Bem feito de craibeira,
O eixo era de aroeira
Pra cantar do meu agrado
Do mesmo jeito era o “gado”:
Quatro juntas de bois mansos
Ordeiros nos meus avanços
Obedientes ao grito;
Mimoso, castanho, bonito,
Era a voz para os descansos.
VI
Cansado de ser carreiro,
A convite de meus manos
Eu fui trabalhar uns anos
Na profissão de vaqueiro;
Era esperto, era ligeiro,
Tinha boa montaria,
Montava no que queria,
Sabia andar encourado
E no serviço de gado
Qualquer trabalho eu fazia.
VII
Eu era esperto de fato.
Sabia bem aboiar,
Pegava em qualquer lugar;
No limpo e dentro do mato,
Tratava de carrapato,
Adivinhava umbigueira,
Extraía varijeira.
De bezerro e de garrote,
Amansava novilhote,
Sabia curar bicheira.
VIII
Do meu patrão fazendeiro
Tive os primeiros auxílios
Recebi os utensílios
Para poder ser vaqueiro,
Cavalo bom e ligeiro,
Estimado na fazenda,
Bonito como uma prenda
E gordo como eu nem sei,
De todos quantos montei
Foi mesmo o bom de encomenda.
IX
Loro, estribo, cilha e sela,
Rédeas, bride, cabeção,
Borraina, guardaba, arcão,
Passador, furo, fivela,
Argola, trança, barbela,
Suador, couro e bruaca,
Uma pequena bisaca
De conduzir a mistura.
Carne assada e rapadura,
Queijo de leite de vaca.
X
Aprendi tratar de gado
Assinar, ferrar, castrar,
Tirar couros, espichar,
Traqueijar touro raçado,
Zelar com todo cuidado
Os animais do patrão
E conforme a ocasião
Se me fosse necessário
Era até veterinário
Quando havia precisão.
XI
Um dia tive vontade
De abandonar o Sertão,
Entreguei tudo ao patrão:
O gado, a propriedade,
E retornei à cidade
Pra ver se ainda podia
Recobrar a alegria
De doze anos atrás
Foi tarde, não pude mais
Fazer o que pretendia.
XII
Ao ver-me sem condição
De cantar para viver
Procurei por um dever
Buscar outra profissão,
E a única solução
Era pegar no pesado,
Com a esposa do meu lado
E quatro filhos pequenos,
Sem recursos, mais ou menos,
Eu estava desmantelado.
XIII
O meu serviço primeiro
Foi batedor de tijolo,
Depois vendedor de bolo,
Engraxate, broxoleiro,
Ajudante de padeiro,
Lambaio de padaria,
Limpador de estribaria,
Tangerino de boiada,
Fabricante de cocada,
Guarda noturno e vigia.
XIV
Depois disso fui leiteiro,
E vendedor de carvão,
Apanhador de algodão,
Lenhador e cambiteiro,
Fui batedor de pandeiro,
Tocador de concertina,
Fui limpador de sentina,
Reformador de chapéu,
Espoleta cheleléu
De posto de gasolina.
XV
Fui mestre de batucada,
Almocreve, galinheiro,
Carregador, balaieiro,
E tirador de empreitada,
Fui chefe de farinhada,
Empregado de cozinha,
Fabricante de bainha,
Fui vendedor de pipoca,
Moedor de mandioca,
E torrador de farinha.
XVI
Fui arrancador de dente,
Charlatão e meizinheiro,
Curador e garrafeiro,
Fui vendedor de aguardente,
Fui criador, fui servente,
Mestre de fazer sabão,
Calunga-de-caminhão,
Amansador de cavalo,
Juiz de briga de galo,
Inspetor de quarteirão.
XVIII
Fui banqueiro de bozó,
Fui mestre de candomblé,
Porteiro de cabaré,
Mestre-sala de forró,
Fui caçador, fui coró,
Mesmo sem poder dar grito,
Fabricante de palito,
Mas nada valeu a pena,
Fui tirador de novena
E cantador de bendito.
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Extraído de
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