sexta-feira, 4 de setembro de 2026

VIDA DE "CABOCO" - José Alves Sobrinho

VIDA DE "CABOCO"  

José Alves Sobrinho 

 

 I

Eu também fui cantador, Repentista e violeiro, Todo Norte brasileiro, Inda lembra sim senhor, O meu nome, o meu valor, A minha voz estridente, Porém, repentinamente A mão do destino atroz Arrebatou minha voz Deixei de cantar repente.

II 

Fui pelos os fãs desprezado Depois que a voz ficou feia Mas a opinião alheia Não me faz complexado, Embora um pouco afastado Da viola e do improviso, Ainda sinto de juízo O talento da palavra Se tenho verso de lavra Do que é alheio não preciso.

III 

Deixei de ser violeiro Porque cantar não podia, Mas não deixei a poesia Do qual também sou herdeiro, Fui trabalhar de carreiro, Amansar bois, ter trabalho, Ferrrar e botar chocalho. As mãos que tanto tocavam Agora se habituavam Ao peso do cabeçalho.

IV

Aprendi todo trabalho Da profissão do carreiro: Encangar, fazer tanoeiro, Rilho, ferrão, cabeçalho, Chave, cabresto, chocalho, Mesa, travessão, rodeira, Eixo, cunha, cantadeira, Brabo, fueiro, cocão, Corda-de-laçar, cambão, Chifre-de-olho e esteira.

Meu carro era bem zelado, Bem feito de craibeira, O eixo era de aroeira Pra cantar do meu agrado Do mesmo jeito era o “gado”: Quatro juntas de bois mansos Ordeiros nos meus avanços Obedientes ao grito; Mimoso, castanho, bonito, Era a voz para os descansos.

VI 

Cansado de ser carreiro, A convite de meus manos Eu fui trabalhar uns anos Na profissão de vaqueiro; Era esperto, era ligeiro, Tinha boa montaria, Montava no que queria, Sabia andar encourado E no serviço de gado Qualquer trabalho eu fazia.

VII

Eu era esperto de fato. Sabia bem aboiar, Pegava em qualquer lugar; No limpo e dentro do mato, Tratava de carrapato, Adivinhava umbigueira, Extraía varijeira. De bezerro e de garrote, Amansava novilhote, Sabia curar bicheira.

VIII 

Do meu patrão fazendeiro Tive os primeiros auxílios Recebi os utensílios Para poder ser vaqueiro, Cavalo bom e ligeiro, Estimado na fazenda, Bonito como uma prenda E gordo como eu nem sei, De todos quantos montei Foi mesmo o bom de encomenda.

IX 

Loro, estribo, cilha e sela, Rédeas, bride, cabeção, Borraina, guardaba, arcão, Passador, furo, fivela, Argola, trança, barbela, Suador, couro e bruaca, Uma pequena bisaca De conduzir a mistura. Carne assada e rapadura, Queijo de leite de vaca.

Aprendi tratar de gado Assinar, ferrar, castrar, Tirar couros, espichar, Traqueijar touro raçado, Zelar com todo cuidado Os animais do patrão E conforme a ocasião Se me fosse necessário Era até veterinário Quando havia precisão.

XI 

Um dia tive vontade De abandonar o Sertão, Entreguei tudo ao patrão: O gado, a propriedade, E retornei à cidade Pra ver se ainda podia Recobrar a alegria De doze anos atrás Foi tarde, não pude mais Fazer o que pretendia.

XII 

Ao ver-me sem condição De cantar para viver Procurei por um dever Buscar outra profissão, E a única solução Era pegar no pesado, Com a esposa do meu lado E quatro filhos pequenos, Sem recursos, mais ou menos, Eu estava desmantelado.

 XIII

O meu serviço primeiro Foi batedor de tijolo, Depois vendedor de bolo, Engraxate, broxoleiro, Ajudante de padeiro, Lambaio de padaria, Limpador de estribaria, Tangerino de boiada, Fabricante de cocada, Guarda noturno e vigia.

XIV 

Depois disso fui leiteiro, E vendedor de carvão, Apanhador de algodão, Lenhador e cambiteiro, Fui batedor de pandeiro, Tocador de concertina, Fui limpador de sentina, Reformador de chapéu, Espoleta cheleléu De posto de gasolina.

XV 

Fui mestre de batucada, Almocreve, galinheiro, Carregador, balaieiro, E tirador de empreitada, Fui chefe de farinhada, Empregado de cozinha, Fabricante de bainha, Fui vendedor de pipoca, Moedor de mandioca, E torrador de farinha.

 XVI

Fui arrancador de dente, Charlatão e meizinheiro, Curador e garrafeiro, Fui vendedor de aguardente, Fui criador, fui servente, Mestre de fazer sabão, Calunga-de-caminhão, Amansador de cavalo, Juiz de briga de galo, Inspetor de quarteirão.

XVIII

Fui banqueiro de bozó, Fui mestre de candomblé, Porteiro de cabaré, Mestre-sala de forró, Fui caçador, fui coró, Mesmo sem poder dar grito, Fabricante de palito, Mas nada valeu a pena, Fui tirador de novena E cantador de bendito.

 

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Extraído de

 

 

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