CONSCIÊNCIA FAMINTA
A mulher de branco sujo carregava um saco preto nas costas. Nele, algumas coisinhas e um lençol encardido. Suas dores, a cada dia, se intensificavam mais e mais. As feridas nas pernas coçavam. Sentou-se à sombra da árvore. Um bem-te-vi cantou que a tinha visto bem. Mentira!, disse para si mesma. Do saco, retirou um caderno. O que iria anotar? Uma lágrima caiu na grama da praça. Fixou o olhar numa formiga que carregava uma folha igual a ela, com o saco.
Um jovem engravatado passou apressado. Ela também já tinha sido jovem e apressada. Ficou a observá-lo até ele se diluir no meio dos demais à procura da aposentadoria. A caneta falhou ao traçar seu pensamento. Pedir uma caneta de esmola, esse era seu projeto a curto prazo. Num prazo aleatório, estava a definhar com calma. O tempo não tinha pressa, ela também não. Quanta paciência para ficar livre do choro. Se morrer é o mesmo que dormir, como será sonhar sem nunca acordar? Sua única obrigação era com o pessimismo, produto final promovido pela escassez.
Um automóvel parou ao lado. Alguém deixou um prato de comida e arrancou em disparada. Ela pegou o prato com cara de filha. Logo, estava satisfeita, interagindo com as recém-chegadas proteínas. Soube que habitavam campos do sul. Numa fazenda de gado de corte, nasceram e cresceram bem-tratadas, longe dos pais, igual a ela em um orfanato. Sentia a força do boi sendo transformada em dejetos no seu interior. Ela estava renascendo e o outro, deixando de existir. Refletiu que amanhã será ela própria, fortalecendo as bactérias saprófitas num cemitério qualquer. Como há coisas para serem processadas. Meditou sobre a pausa na música; o vazio do espaço; incertezas dos sonhos. Alguém lhe diagnosticou como louca por se preocupar com o barulho que as tanajuras fazem ao expelir gases.
Pensou em comer doce de jaca. Imaginou a reação das pessoas se ela pedisse ajuda para fazer valer esse desejo. Ninguém iria prestar atenção, e, quando lhe desse atenção, diriam: vá comer pão. Doce de jaca é para quem tem condições de guardá-lo numa geladeira, dentro de uma casa, com crianças desejando o pote, fazendo parte de uma família organizada no barulho das arengas dignas de grau próximo de parentesco. Por que as pessoas pensam logo em pão? Se não quiser, fique com fome. Ela não se conformava em não ter sequer meios para criar uma história onde a protagonista seria uma jaca rejeitada pelo açúcar na composição do doce.
Deitou-se em cima do formigueiro. Para que perder tempo se coçando se havia formigas picadeiras para isso? Seu desafio seria suportar as picadas, incorporando mais dores às que já sentia. Arrochou uma toalha na cintura para ver se a dor na coluna tornava-se suportável. Olhou para o céu. Lembrou-se dos carneiros de nuvens que identificava quando criança. Bons tempos aqueles em que não precisava lutar pela sobrevivência. Agora, tinha a mais absoluta certeza de que havia dado certo na vida, pois sentia-se capacitada para receber o diploma de ex-vivente.
Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 18.08.2026 - 02h54min
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