Sentimento de "Caboco"
I
Compadre Joca Landin
Estimo primeiramente
Que esta cartinha presente
O encontre sempre assim
Tão feliz igual a mim
Como estou vivendo agora,
Com saúde, muito embora
Sinta na realidade
Qualquer coisa de saudade
Dos velhos tempos de outrora.
II
Compadre estou muito bem
Na minha terra a cantar
Sem precisar me humilhar
Aos patacões de ninguém,
Não devo mais um vintém
Paguei tudo sem desconto
Réis por réis, conto por conto
Meus dias estão tranquilos.
Estou pesando oitenta quilos
Com muita saúde pronto...
III
Meu caro compadre amigo
Graças ao nosso bom Deus
Vou junto a todos os meus
Muito bem como lhe digo,
Meu pai pedestal antigo
Vai vivendo com saúde,
Firme, forte embora rude,
Tão grande é Deus verdadeiro
Que se não lhe deu dinheiro
Deu-lhe bondade e virtude.
IV
Porém não esqueço o dia
Quando aí estive humilhado
Prá lhe pedir emprestado
Dinheiro em pouca quantia,
Pequena mas que teria
Muito me desapertado
Se tivesse me emprestado
Como tanto eu carecia
Cuja importância teria
Muita tristeza evitado.
V
A falta dessa quantia
Que o senhor não me emprestou
O juiz me despejou
Da casa em que eu residia
De uma vez que eu não podia
Fazer o tal pagamento
Botei no mesmo momento
Os meus trens numa calçada
Desta vez sua afilhada
Dormiu exposta ao relento.
VI
Bom compadre, amigo meu
Ainda tenho guardadas
Aquelas roupas usadas
Que o senhor também me deu,
Aquilo não me ofendeu
Dado o meu grau de fraqueza,
Devido à minha pobreza
Vesti minhas carnes nuas
Nas roupas que foram suas
Porém com muita tristeza.
VII
Conservo-as com sensatez,
Guardando-as com segurança
Pois foi a maior lembrança
Que a mão do senhor já fez
Mas foi a primeira vez
Que eu usei coisas alheias:
Calçados, roupas e meias,
Por ser sentimentalista
Vesti-as na sua vista
Mas quando saí tirei-as.
VIII
Estão muito bem conservadas
Da forma que recebi
Porque se não as vesti
Não podem estar marrotadas,
Estão muito bem guardadas,
É um valioso presente
Que se dá a um indigente
Eu nunca tive a coragem
Estão na mesma embalagem
Pra devolver brevemente.
IX
Guardo vivas e seguras
Abertas no sentimento
As marcas do ferimento
Por suas palavras duras,
Falando em minhas loucuras
Com tanta deselegância,
Olhando a nossa distância
Eu me vi na iminência
De com a minha inteligência
Medir sua ignorância.
X
Não precisava o senhor
Dizer a bons repentistas
Que eu sem aqueles artistas
Não era bom cantador,
Sendo assim o meu valor
Dependeria daqueles
Que um dia eu fugindo deles
Fugi do senhor também
Estou vivendo muito bem
Sem o senhor e sem eles.
XI
Graças ao Onipotente
Os meus dias melhoraram
E os meus meninos voltaram
A estudar novamente,
Hoje tudo é diferente
Compadre Joca Landin.
Não tenha queixa de mim
Desculpe a minha fraqueza
Foi a mão da natureza
Que me fez feliz assim.
XII
Finalizo aqui pedindo
Que não me chame orgulhoso
Egoísta ou vaidoso,
Leia meus versos sentindo,
Meditando refletindo
Não é preciso rasgá-los,
E se não souber julgá-los
Mostre-os a José Camelo
Que como poeta modelo
Saberá interpretá-los.
XIII
No mais para nossa vista
Pelo seu grau de nobreza
Desculpe a minha franqueza
Mais não me chame egoísta,
Agora este velho artista
Pede que abrace o Chiquinho
E dê com todo o carinho
Lembrança a minha comadre,
Do seu amigo e compadre
O José Alves Sobrinho.
FIM
João Pessoa, agosto de 1962
Extraído do livro Sabedoria de Caboco (p. 62 a 66)
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