FALARES DE CABOCLO - José Alves Sobrinho
I
Creia-me vossa mercê Que eu não sou homem de jogo De beber, de puxar fogo, De frequentar cangerê, Pelo meu jeito se vê, Que eu não sou homem pachola Nunca fui em uma escola Mas aprendi no roçado Cortar de foice e machado Cantar e tocar viola.
II
Nunca gostei de folia Encrenca nem mexerico Conversa-mole, fuxico, Lambança e patifaria, Lambacé e arrelia. Zuada, pantim, besteira, Só saio de casa pra feira, Pra missa ou pra meu roçado, Com mulher, padre e soldado Nunca tirei brincadeira.
III
Não gosto de tramamoca, Calote, tafularia, Pechinchagem, ninharia, Manha, denguinho, potoca. Sou caboclo sem caroca Sem patuá, sem pantim, Fuleragem, tranchichim, Conversinha, caqueado, Arrodeio compra-fiado Toda vida fui assim.
IV
Tenho banha no toitiço, Não acredito em macumba, Coisa botada, quizumba, Patifaria e feitiço, Catita no meu serviço, Quem botar é quem se acaba, Aborreço gente braba Que gosta de’leva e traz, Nem creio que o satanás Vá na minha capoaba.
V
Dentro do meu quinguingu Caboco nenhum furdunça, Pois não gosto de bagunça, Zuada nem sanguangu. Se eu abrir um sururu Não fica só em banzé, Não gosto de telelé, Chalerismo, adulação, Munganga, cavilação, Gachimonho nem rapapé.
VI
Nunca gostei de lorota, Nem me assombro com careta, Mangação, pilhéria, xêta, Bazófia, pasquim, marmota, Nunca fui escova-bota, Chaleira nem puxa-saco, Comigo é taco por taco, Não sei falar resmungando, Isso de andar cochichando É coisa pra homem fraco.
VII
Odeio a cavilaçâo, Comigo não tem gaguejo, Pois só creio no que vejo, No que pego com a mão, Acredite, meu patrão, Que eu nunca gostei de intriga, Não gosto de apartar briga, Nem pabular nem mentir, Tanto me faz engolir Como amarrar na barriga.
VIII
Não gosto de enxerimento, Falação nem bafafá, Gabolice, trafuá, Gaiatice, cabimento, Porque tenho acanhamento, Nunca fui intrometido, Também nunca dei ouvido A moça namoradeira, Mulher casada chifreira, E homem velho enxerido.
IX
Acho coisa muito feia E até vergonha pouca Quem anda batendo boca Falando da vida alheia, Isso é pra cabra de peia. Não é pra homem direito, Sim, que ninguém é perfeito, Porém quem tem essa tara Não tem vergonha na cara Nem sentimento no peito.
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