domingo, 7 de fevereiro de 2021

BOATARIA DÁ DINHEIRO - Heraldo Lins

 


BOATARIA DÁ DINHEIRO

 

Zé Areia bota defeito em tudo. Se alguém diz bom dia, ele responde: nem tanto! Está sempre do lado do contra. Ele não faz projeto nem constrói nada exatamente para evitar as desforras. Sua filha está começando a namorar, perguntaram-lhe: Zé, e se o namorado mexer com sua filha, o que você faz? Ela é quem mexe com ele, diz Zé sem pestanejar. Ninguém pega Zé Areia desprevenido. Na separação da Lady Diana ele disse que Charles havia feito péssima escolha em casar-se com uma mulher daquela. Na opinião dele, Charles é um príncipe com sangue azul e por isso teria que se dar mais valor. Lady não o merecia. Zé é do contra mesmo.    

 

Estava eu construindo uma casa e Zé Areia se aproximou. Antes de dizer algo, eu apontei para a outra ao lado e disse: Zé, a de dar pitaco é essa aí ao lado. Aqui eu vou construir do meu jeito. Deixei ir dizendo como deveria ser construída, e depois de desmanchar várias vezes não consegui terminá-la. Mas ele diz que a culpa é do pedreiro que não entende o que ele diz.

 

Criei uma empresa para vender ideias. A pessoa quer saber como aplicar seu dinheiro e eu mostro os caminhos. Zé foi convidado para auxiliar-me. Ele disse que o ideal seria investir em fakes. Uma empresa onde só se produziria notícias falsas faria muito sucesso. Tipo: o presidente vai sofrer impeachment, o dólar vai baixar e a gasolina também, as mulheres bonitas procuram homens feios e pobres para casarem-se, refrigerante é bom para a saúde... eu achei a ideia ótima, e passei a investir no negócio.

 

Percebi logo que o bom da notícia falsa é que não se precisa sair de casa para checar sua veracidade. Elas são criadas do nada para mexer com o imaginário do leitor. O jornal tinha como título “os últimos boatos”. Foi sucesso de vendas quando publiquei na primeira edição que o Covid-19 não passava de uma gripezinha. Mesmo o pessoal sabendo que era mentira nos aplaudiram, e ganhamos vários prêmios por isso. Publiquei outro boato dizendo que o congresso havia votado uma lei em que os trabalhadores iriam ganhar tanto quanto um deputado Federal. Esgotaram-se os jornais, e na versão on-line houve milhões de acessos. Outra notícia em destaque foi de que qualquer pessoa doente poderia procurar um hospital e ser tratado sem pagar nada. Independente da doença teria total assistência médica. Se quisesse poderia chamar o médico em sua casa. Os velhinhos gastaram todo o restante da aposentadoria comprando as edições. Sim, porque como vi que era um boato que agradava a muitos, resolvi criar uma série sobre o tema. Um dia eu criei um nome fictício para entrevistá-lo. Eu fazia as perguntas e eu mesmo respondia com outro nome. Teve uma que perguntei: como o senhor conseguiu chegar ao hospital próximo da sua casa, com uma facada no coração e a metade do cérebro destruído por um tiro de escopeta? Isso trouxe dramaticidade ao leitor. Eu, travestido de entrevistado, respondi: os hospitais agora têm, além de ambulâncias disponíveis, leitos sobrando. Mas por isso o senhor sobreviveu? Não, eu morri e estou agora falando do além. Essa foi a edição que mais vendeu.  

 

 


 

Heraldo Lins Marinho Dantas (arte-educador)

Sanrta Cruz/RN, 16/01/2021 – 15:21

showdemamulengos@gmail.com

84-99973-4114

 

 

 

 


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