APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

DO GALEGO AO PORTUGUÊS – Entrevista com Isabel Rei Samartim, excelente instrumentista e escritora da Galiza.

Durante boa parte de minha vida tive ideias errôneas acerca da origem de nossa língua. Graças a Bagno e a Isabel Rei Samartim, cheguei a um melhor entendimento. Depois da leitura desta entrevista, você terá bons motivos para orgulhar-se de nosso idioma e aumentará em muito sua bagagem cultural.  - Gilberto Cardoso dos Santos, entrevistador



GCS.: Ilustre entrevistada Isabel:
Moro em um país cheio de galegos. Em toda localidade há alguém que por causa da cor da pele é chamado de galego ou galega. Alguns são apelidados de galego sarará. Temos até uma música que se tornou clássica no Brasil chamada “Galeguim do zoi azu”, gravada por Genival Lacerda. Hoje mesmo troquei umas palavras com o Galego da Quentinha. Disse-lhe:
- Você sabia que há um lugar onde os moradores são chamados de galegos?
- Que país é esse, perguntou-me ele bastante surpreso.
- Trata-se da Galícia, ou Galiza.
Sem conter o espanto e certa incredulidade, indagou:
- Quer dizer que lá só tem gente de minha cor?
- Não, expliquei-lhe. – Assim como na África nem todos são negros, lá há morenos, loiros, negros... No entanto, parece haver uma predominância de pessoas da sua cor, não sei ao certo.
Finalizamos a conversa, e ele retirou-se bastante admirado com o que ouvira.
Inicio, pois, este diálogo pedindo-lhe que comente a respeito disto, pois imagino que esteja ciente dessa realidade no Brasil e tem condições de nos dizer a causa.


Isabel: Galiza é esse lugar onde os moradores se chamam de galegos, quer dizer, galego é um gentílico, uma palavra que designa os indivíduos segundo o seu local de procedência e não somente um adjetivo a indicar a cor da pele. É bem certo que @s galeg@s, como a maior parte de europeus, costumamos ser pessoas de pele clara, mas existem galeg@s de todas as cores, tanto na Galiza quanto no mundo, pois a nossa população está também muito estendida devido às contínuas emigrações. É possível que essa ideia do galego ser pessoa de pele clara se tenha formado na afluência da emigração galega ao Brasil. Não parece casual que precisamente o nosso gentílico, hoje desconhecido no Brasil, tenha sido a palavra escolhida para representar pessoas que são como nós. Por significar "cor da pele" ele passou a ser aplicado a todo tipo de pessoas com essas características. Acho muito simpático que no Brasil pessoas com apelido alemão, italiano ou inglês sejam adjetivadas de "galegos". É a grandeza do Brasil, país-continente que para os galegos da Galiza é nosso grande netinho querido.


GCS.: Fale-nos sobre suas origens geográficas e familiares. Descreva-nos um pouco o seu país e sua gente, número de habitantes...


Isabel:
Galiza situa-se no extremo ocidental da Europa, a Norte de Portugal, no cantinho noroeste da península ibérica. Atualmente somos arredor de 2 milhões e oitocentos mil galeg@s a morarmos cá. O governo da Galiza é um governo regional pertencente ao Reino da Espanha, por isso as galegas temos passaporte espanhol e conhecemos a língua castelhana. Além disso, recentemente Santiago de Compostela tem entrado na União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).


Eu provenho de uma família galega de lavradores, como tantas outras no meu país. Filha de galegos que foram filhos e netos de galegos. Meu pai, de nome Manuel, pertenceu a uma geração que decidiu não continuar nos labores agrários, mas aprender o ofício de carpinteiro e depois o de capataz na construção. Ele teve uma vida de aprendizagem contínua. Primeiro conseguiu trabalho no Brasil, em São Paulo, onde aprendeu música e a tocar o acordeão, depois trabalhou em diversos locais da Espanha e finalmente na Alemanha, país que ainda hoje reconhece o seu labor na reconstrução da Estugarda da após-guerra mundial. Minha mãe, de nome Preciosa, pessoa destinada pela família a levar a fazenda camponesa, deitou por terra esses desígnios ao casar com Manuel e participar na aventura vital que deixava para trás a vida agrária. Eles tiveram três filh@s d@s quais eu sou a terceira e seródia criança.


Nasci, portanto, numa pequena vila da Galiza, A Estrada, brote urbano no coração do vale do rio Deça. É aos domingos pelas três horas da tarde quando mais se percebe a Estrada como uma estranha flor crescida no meio das verdes pradeiras galegas. Dela, como de muitas outras vilas, partiu durante os últimos duzentos anos um número imenso de pessoas a fugirem duma pressão económica insustentável para outros países da Europa e também, especialmente, para a América do Sul: Brasil, Argentina, Uruguai, Venezuela são países que nos acolheram e nos deram oportunidades, emprego, refúgio, tanto para reverter as dificuldades económicas quanto para desenvolver as atividades políticas que com as condições da Espanha eram impossíveis de imaginar. Não se conhece o número exato de emigrantes galegos no mundo, mas algumas fontes falam que, entre filhos e netos, este duplica a atual população a morar na Galiza.


GCS.: Percebi que questões relacionadas à língua estão no centro de suas preocupações. Qual a sua formação e o que a motiva a lutar pela preservação do idioma galego? Trata-se de um idioma ameaçado de extinção? Há cerca de quantos falantes?


Isabel:
Eu sou música violonista, aqui dizemos guitarrista. Dou aulas no Conservatório Profissional de Santiago de Compostela, toco em concerto sempre que tenho oportunidade e pesquiso sobre música galega na área dos instrumentos de corda dedilhada. O meu interesse central é a música, mas reconheço que a defesa da língua na Galiza permeia todas as minhas atividades. O espírito crítico dos meus dous irmãos, que me educaram na leitura, na música e na dignidade de sermos galegos, prendeu na minha maneira de ver o mundo e já desde criança me acompanharam os estudos de violão, os exercícios narrativos e a consciência da vida como mulher galega.


Desde que acabou a ditadura franquista na Espanha e se puseram em andamento as dobradiças da Transição surgiu na Galiza um movimento composto inicialmente por professorado de língua, que depois chegou a representar todo um setor da sociedade galega que se chamou e se chama de Reintegracionismo. Este movimento dava os primeiros passos na década de 70 e lutava na década de 80 contra a imposição por parte dos governos regional e central de um modelo de língua para a Galiza que nos afastava da norma portuguesa, que é a nossa referência mais importante. O afastamento académico procurava condizer com o afastamento político que o governo desejava para as pessoas galegas a respeito das portuguesas na nova etapa que se abria no Reino da Espanha. Por motivos que só se podem compreender desde o egoísmo, a vontade natural de comunicação entre galegos e portugueses tem sido motivo de reprovação pelas autoridades espanholas.


Com quinze anos integrei a associação reintegracionista da Estrada, que se chamava Associação Cultural Marcial Valadares. As associações de pessoas contra a imposição do modelo isolacionista de língua, que nos afastava do português, brotaram durante os anos 80 em numerosas vilas por todo o território galego, permaneceram com dificuldades durante os 90, desapareceram na sua maior parte com a mudança de século e ressurgiram com força na primeira década do s. XXI como Centros Sociais. Outras unificaram-se em poucas mas alargadas associações, fundações e editoras que hoje apresentam uma intensa atividade, como são a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), a Associação Galega da Língua (AGAL), e a Através Editora.


O que aqui chamamos de "Galego" não é outra cousa do que uma variante da língua portuguesa própria da Galiza. O galego é português da Galiza, como o brasileiro é português do Brasil. Também gostamos de dizer ao contrário: O que hoje se conhece por "língua portuguesa" nasce antes do que o próprio Reino de Portugal, nasce na Galiza, portanto, o nome inicial de todo o sistema linguístico é Galego. Segundo isto, o português e o brasileiro são variantes do Galego, são galegos de Portugal e do Brasil. Foi por isto que causou tanto rechaço entre o professorado a imposição na década de 80 de uma norma ortográfica divergente com as regras mais elementares da língua portuguesa. Mesmo havendo diferenças linguísticas entre Brasil e Portugal, ninguém vai ter a peregrina ideia de escrever a palavra Geografia por Xeografía, ou a palavra Canção por Canción, porque nenhum linguista brasileiro ou português admitiria violações tão graves do alfabeto, das regras de acentuação, da etimologia e da morfologia própria das palavras em língua portuguesa, por mais variantes que observarmos dentro do nosso sistema linguístico comum.
Os dados numéricos sobre os falantes de Galego na Galiza são, por desgraça, confusos. Tudo ao redor do emprego da língua é obscuro. Os inquéritos oferecem resultados cada vez mais negativos quanto ao emprego da língua nativa entre as crianças. Objetivamente pode afirmar-se que, na atualidade, o português na Galiza é ensinado nas escolas oficiais de primário e secundário num modelo afastado da língua portuguesa que emprega muitos elementos da gramática e do léxico da língua castelhana e está de costas viradas para o modelo de português europeu. As crianças que aprendem a língua assim não adquirem competências para dominar o português escrito nem falado. O número de moradores não coincide com o número de falantes e o número de falantes regulares decresce a cada inquérito pela concorrência do Castelhano, que também é língua oficial na Galiza


GCS.: Durante muito tempo desconheci a real origem da língua portuguesa. Através do linguista Bagno eu aprendi que razões políticas foram determinantes para que a história fosse mal contada. Por favor, diga-nos o que sabe e o que pensa a respeito disso.


Isabel:
O que hoje conhecemos como língua portuguesa nasceu no antigo Reino da Galiza produto da evolução e mistura do hegemónico latim vulgar com a língua celto-galaica dos nativos kallaiki, ou galegos. É por isto que a parte menos ortodoxa da Academia começa a entender que galego é uma palavra que serve para nomear a língua que já existia antes da independência do Reino de Portugal em 1143. Daí as Cantigas galego-portuguesas. Entendamo-nos com a terminologia: Resulta um bocado estranho chamar de "português" uma língua antes de existir Portugal. Quer dizer, quando Afonso Henriques empreende a sua guerra de independência do Reino da Galiza que dará na formação do Reino português independente, em que língua ele fala? Qual a língua que aprendeu da sua mãe? A língua portuguesa não começa em 1143 porque já existe previamente. Por isso não parece apropriado lhe chamar de portuguesa e sim pelo nome da administração vigorante na época, que era o Reino da Galiza. Portanto, o português é galego.


Por outro lado, sei que antes afirmei o Galego ser uma variante da língua portuguesa. Essa explicação é um argumento teórico para entendermos a situação sem provocar curto-circuitos mentais desde a primeira frase. Na realidade, a língua portuguesa é o Galego de Portugal nacionalizado e modernizado como afirmou o nosso Vilar Ponte. Do ponto de vista das elites, quando uma língua perde o poder político, perde também a sua condição de língua erudita. Isso aconteceu com a língua na Galiza. Portugal, como reino independente, foi o revezamento desse poder galego que deu à luz as primeiras gramáticas e romances, e desenvolveu a linguagem administrativa e política. A língua na Galiza dos últimos cinco séculos apenas teve desenvolvimento escrito e sobreviveu na oralidade do povo que nada mandava nas questões das elites, como é o costume. Quando no s. XIX começa a recuperação da escrita, a situação é tão precária que os próprios notáveis galegos desconhecem qual seja a gramática e ortografia a empregar e tampouco procuram luz nos escasos, mas existentes, conselhos deixados em séculos anteriores. Exemplo disto é a impagável sinceridade da grande Rosália de Castro no prólogo da sua obra, Cantares Galegos (1863) onde literalmente a autora pede desculpa por desconhecer as normas da escrita da língua. Ela e resto de intelectuais galeguistas improvisaram ortografia, sintaxe e gramática, empresa ciclópica que, como é compreensível, não conseguiram realizar de maneira sistemática nem ordenada. Finalmente surgiram as vozes que lembravam olhar para a língua em Portugal, na procura do modelo de língua mais adequado às falas galegas. Estamos já no século XX.


GCS.: Vi, em minhas pesquisas, que em seu país têm feito passeatas públicas para defender o idioma galego. A impressão que dá é que parte de sua gente e você sofrem muito preconceito linguístico. Há outras questões envolvidas nesta luta?


Isabel:
A perda do poder político na Galiza acontece como consequência, primeiro, da independência de Portugal e, segundo, da dominação de Castela. A ambição imperialista castelhana leva a organizar autênticos pogroms contra as elites e gentes galegas. O resultado foi nefasto para a nossa sobrevivência como povo. Esta situação manteve-se por vários séculos e não melhorou com a mudança de regime político e económico no século XIX. A chegada do Capitalismo na sua vertente mais moderna, com as suas crises cíclicas que afetaram em especial às culturas agrárias como a galega, conseguiu reduzir ao mínimo a nossa dignidade como coletivo. O resultado é que temos assumido a emigração como uma via natural de sobrevivência, a falta de soberania como um mal endémico, e a pobreza como uma doença crónica num país rico e vital como o nosso, o qual dá tudo num grande absurdo.


O governo galego atual tem favorecido as políticas centralistas, tanto económicas quanto culturais e educativas. Impõe um modelo de língua pouco adequado, de âmbito regional, que lança uma imagem do galego como dialeto instável, a sofrer absurdas mudanças a cada década, e que nega aos galegos a condição de falantes de uma língua internacional e oficial em sete países do mundo.


É por isso que há manifestações, protestos, atividades alternativas. O governo não ajuda à consolidação da Galiza como um país autónomo e começa por dinamitar a língua, além de fazer o mesmo com o tecido económico, empresarial e cultural. Desde o governo atual na Espanha tampouco há vontade política de favorecer o desenvolvimento da Galiza, longe disso o seu maior logro tem sido a instalação do caos organizativo a impedir qualquer desenvolvimento social justo e democrático.


GCS.: Em um vídeo que não consegui reencontrar, vi um cartaz com a seguinte afirmação: “Quanto mais o galego é galego, mais português ele é.” Peço-lhe que corrija a frase, caso necessário, pois cito-a de memória. Este pensamento pareceu-me bastante curioso, principalmente naquele contexto. Por favor, discorra sobre ele.


Isabel:
Acho ser paráfrase da citação do nosso escritor da vila de Rianjo, Rafael Dieste, quem em 1926, diz:


Existe entre o galego e mais o português tão estreita afinidade que quanto mais português é o português e mais galego é o galego, mais vêm a se assemelharem.


Vem a dizer que se libertarmos a língua dos galegos da contaminação de castelhanismos e se pegarmos na língua mais genuína dos portugueses, que não é aquela fashion de Lisboa, ambos falares vêm a se assemelharem como duas gotas de água. O qual indica a perceção que tinha o autor das diferenças a um lado e outro da fronteira entre Galiza e Portugal. O reconhecimento da unidade da língua é um ato de responsabilidade social e política que, precisamente por essa responsabilidade, reconhece das diferenças. Elas estão aí, nós não falamos como os portugueses, mas essas diferenças não devem ser hiper-destacadas até ao ponto de sugerir a ideia de serem duas línguas diferentes, porque nem do lado português podem permitir-se perder o território de origem da língua, nem do lado galego podemos sobreviver sem o conhecimento da língua atual, tal como é hoje no mundo. A inflação linguística a que somos submetidos os cidadãos galegos pelas autoridades do governo regional está a provocar no nosso sistema uma crise sem precedentes.


GCS.: Ouvindo nativos da Galícia, percebe-se uma enorme semelhança com o português. Destaque as aproximações e distanciamentos que você considera mais interessantes. Gostaria que discorresse sobre o uso do “x” no lugar do “j”.

Isabel:
Há várias pronúncias galegas, até nisso está atomizado o português na Galiza. Certo é que costumamos palatalizar e nos últimos quarenta anos temos perdido a diferença entre a pronúncia de "j"/"g" e "x", mas não saberia dizer quanto desses traços, que hoje se podem identificar como galegos, são produto do ensino deficiente da língua. Perdemos essas distinções e também estamos a perder a abertura das vogais, traço indiscutivelmente galego que, além do mais, nos aproxima à oralidade brasileira. Esta última perda é ocasionada pela preeminência do ensino da oralidade em castelhano e a deficiência do ensino da oralidade em galego. Esta diferença entre as duas línguas oficiais da Galiza explica-se juridicamente pelo seu status diferente e assimétrico. Ambas as línguas são oficiais, mas juridicamente só o castelhano é de obrigado conhecimento. Segundo as leis espanholas, o galego não é uma língua de conhecimento obrigado para os galegos. Isso significa que a legislação do Reino da Espanha dá maior importância à aprendizagem de castelhano que à aprendizagem da nossa língua própria. Antes dizíamos que o governo espanhol não ajudava ao nosso desenvolvimento. Eis uma boa amostra.




GCS.: Alguns linguistas brasileiros julgam que o português aqui falado distancia-se tanto do português lusitano que deveria ser chamado língua brasileira. Que pensa a respeito disso? Consegue perceber muitas ou poucas diferenças? Qual português se aproxima mais do galego: o lusitano ou o brasileiro?


Isabel:
A nossa oralidade aproxima-se mais da oralidade brasileira. Um falante galego de cultura média entende melhor as pessoas do Brasil que a TV de Lisboa. Mas também isso é devido à falta de educação sistemática em língua portuguesa. Por acaso não é mais um paradoxo que, falando a mesma língua, não consigamos entender o padrão oral do país vizinho, país que consideramos extensão da Galiza? Para mim acho muito evidentes as diferenças de sotaque e de pronúncia entre os diversos países lusófonos. Mesmo acho diferenças entre brasileiros dos diferentes Estados do Brasil. É o normal nas línguas com muitos falantes cujo uso se estende ao longo do mundo, por isso a unificação da escrita é tão necessária. É necessária para servir como identificação de algo que é maior do que um país ou do que nós mesmos, algo que é ao mesmo tempo pessoal e social, algo que nos conforma, mas que não morre connosco, que nos sobrevive. A língua, a nossa bandeira internacional.


 GCS.: Em que comunidades de fala portuguesa já esteve? Destaque pontos de divergência. Há algum outro local fora da Galícia onde se fala o galego?


Isabel: Costumo viajar a Portugal e tenho estado no Brasil. Em Lisboa tenho conhecido pessoas de quase todos os países onde a língua portuguesa é oficial. Em 2014 gravei um disco na Ilha da Madeira com música para viola madeirense. Tenho amigos portugueses e brasileiros, mas também angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos, são-tomenses, mantenho conversas com timorenses, com pessoas da ilha do Príncipe e com pessoas de diversos Estados do Brasil. Adoro a mistura de sotaques, acho que só dentro desse mundo tão diverso faz sentido dizer que galego não é português. Porque a comprovação da deliciosa variedade oral da língua portuguesa revela de modo absolutamente definitivo que na Galiza falamos um português, o nosso peculiar português. Ou, se quisermos pôr em destaque a origem da língua, falamos o nosso internacional galego. Fora da Galiza, o nosso peculiar português, ou o nosso internacional galego, com maior ou menor grau de conhecimento fala-se em todas as comunidades galegas ao longo do mundo. Aqui dizemos que há galegos até na Lua. Devem ser poucos os países que não têm um Centro Galego nalguma das suas cidades. Aí no Brasil têm uns quantos, por vezes disfarçados de centros espanhóis, o qual não deve interferir na certeza desses centros estarem conformados, em muitas ocasiões, por maioria de pessoas da Galiza.


 GCS.: Imagino que, assim como ocorre comigo em relação ao vosso idioma, os defensores do idioma galego sintam-se atraídos pelo português e vejam com bons olhos o fato deste contar com tão grande número de falantes. Aliás, penso que vocês, devido a discriminação, tenham um interesse superior. Qual o nível de presença e de influência da literatura e da programação televisiva luso-brasileira na Galícia?


Isabel: Certamente, o número de falantes de língua portuguesa, este sim conhecido, é um argumento poderoso para quem procura a continuidade do uso da língua na Galiza. Além do galego ser a nossa língua própria e isso ser em si um valor absoluto que não precisa de outros valores, é evidente que na sociedade galega atual produz-se uma luta entre uma língua internacional como é o castelhano que avança com toda a sua presença mediática, e a fala dos galegos tratada pelo governo regional como um idioma pitoresco e contestada por parte da população civil que, organizada no movimento reintegracionista, procura quebrar essa visão isolacionista da língua para podermos estabelecer uma igualdade com o castelhano. Para uma luta eficaz contra a imposição do castelhano, o português é um aliado indispensável. Atualmente a presença da língua nativa nos meios de comunicação galegos é mínima em comparação com a presença da língua do Reino. E a presença dos meios de comunicação portugueses e brasileiros na Galiza é inexistente. De novo, o governo regional incumpre as suas próprias leis, que desde 2014 mandam promover a língua portuguesa. Quase nada foi feito nessa direção. O nosso governo nos envergonha e nos mata como sociedade.


 GCS.: Foi feito um acordo ortográfico assinado pelos países de Língua Portuguesa. Que sabe e pensa a respeito disso?


Isabel:
O Acordo Ortográfico é uma necessidade de primeira magnitude para todos os países e regiões onde a língua portuguesa tem raízes. A unificação ortográfica permite construir na escrita uma bandeira internacional que nos identifica na nossa diversidade. A oralidade nunca deveria ser fundamento das mudanças ortográficas. A ortografia pertence ao mundo da escrita, que é um mundo diferente ao das pronúncias e os sotaques. Na escrita as regras vêm dadas pela tradição escrita, a história das palavras, a etimologia. Até a paleografia tem mais a ver com o Acordo Ortográfico do que o sotaque de qualquer cidade brasileira ou portuguesa. A oralidade é outro mundo fascinante, revelador, mas não tem a ver com o ato da escrita. Falar não é escrever, dizia o ferrolano R. Carvalho Calero, professor na Universidade de Santiago de Compostela, poeta, gramático e romancista. Portanto, escrever não é falar, não tem de haver univocidade absoluta entre as letras e os sons que pronunciamos. Dentro de umas margens, pode haver alguma falta de correlação. Podemos escrever "uma" e pronunciar "um-ha", como fazemos na Galiza. Podemos escrever "facto" e pronunciar "fato". Podemos escrever "mas" e pronunciar "mais", escrever "sub" e pronunciar "subi", escrever "cantar" e pronunciar "cantare", escrever "flauta" e pronunciar "frauta". Ninguém deveria fazer um drama com isso. Nem tampouco ao invês. Se houver vontade de manter diferenças nalgumas palavras, podem manter-se sem problema, incluem-se no texto do Acordo e aplicam-se. As diferenças são mínimas, mas tenho a sensação de elas estarem a ser exageradas pelos detratores que parecem mais procurar a falência da iniciativa do que fornecer ajuda para a melhorar. Na minha humilde opinião, as divergências na interpretação do que é e para que serve a ortografia refletem uma deficiência na formação linguística dentro dos próprios países de língua portuguesa, que concede um excesso de importância ao costume e demonstra falta de generosidade pelo bem comum. Os galegos que, ensinados a escrever Xeografía estamos dispostos a dá-lo tudo por aprendermos a escrever Geografia, vemos com certo assombro as guerras que se produzem pela queda de um c etimológico ou pelo uso do hífen. Guerras que às vezes acham mais clara explicação em lutas partidistas do que em questões filológicas e que mantêm o processo estancado sem hipótese de avanço.


Duas delegações de intelectuais e professores galegos trabalharam nas reuniões do AO de 86 e de 90. É importante lembrar que mesmo Galiza não sendo um país independente, foi convidada a fazer parte daquelas reuniões técnicas em que foram admitidas duas palavras típicas galegas (brêtema, névoa, e lôstrego, relâmpago). Depois, já em 2015, a Academia Galega da Língua Portuguesa contribuiria com o Vocabulário Ortográfico da Galiza para integrar o projeto, ainda inacabado, do Vocabulário Ortográfico Comum, com mais de cento e cinquenta mil palavras, que está a ser preparado pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa, IILP. Atualmente, a Lei Paz-Andrade, aprovada em 2014, que estabelece o ensino de língua portuguesa na Galiza, foi produto da movimentação social que reuniu os apoios necessários para a apresentação de uma Iniciativa Legislativa Popular que, finalmente, foi bem sucedida ainda que, como disse antes, carece de impulso orçamentário.


GCS.: Isabel, no Brasil temos lutas um pouquinho parecidas com a do povo da Galiza para manter vivas as vertentes regionalistas de nosso idioma; em minha dissertação de mestrado defendi a inclusão de escritos representativos dos diversos falares da linguagem regional nos conteúdos escolares das respectivas regiões em que vivem os educandos. A ideia é não sucumbir às imposições da norma culta nem às influências estrangeiras, mas manter a unidade na diversidade. Citei a frase de Ariano Suassuna, saudoso defensor do regionalismo nordestino, que disse: “Eu não troco meu “oxente” pelo ok de seu ninguém”. Gostaria que tecesse considerações a esse respeito.


Isabel:
Acho maravilhosa a ideia de aprendermos as expressões próprias da nossa região. É uma riqueza que torna a língua ainda mais poderosa ao ser alimentada em toda a sua diversidade. As pessoas ficam mais integradas no seu contexto e ao mesmo tempo aprendem as diferenças com o padrão comum. Manter a unidade na diversidade é, sem dúvida, o grande objetivo da língua portuguesa para o século XXI. Só acrescentar que era bom não termos de aguardar ao final do século para atingirmos alguns alvos nesse sentido. Na Galiza temos demasiado do próprio e uma falta imensa do comum. Na hora da integração galega na Comunidade de Países de Língua Portuguesa teremos de saber temperar bem aquilo que queremos manter da nossa especificidade com os traços comuns que devemos assumir como próprios em bem de tod@s.


GCS.: Li bons textos produzidos por escritores galegos e ouvi músicas do cancioneiro folclórico, da época do trovadorismo. Ouvi UN CANTO A GALICIA JULIO IGLESIAS e Graças a você, conheci  a excelente cantora Helena de Alfonso, que brilha em língua galega. Fale-nos dela e de outros artistas, compositores e escritores fiéis às raízes.


Isabel:
Na Galiza atualmente temos duas grandes orquestras clássicas e mais duas de câmara, há nove conservatórios oficiais com mais de 5000 alun@s, escolas e academias privadas de todos os estilos musicais, e um grande número de valores da nossa música que destacam em diferentes âmbitos como a composição, a interpretação, a investigação e a edição musical. Uxía Senlle e Ugia Pedreira, duas cantoras excepcionais; Abe Rábade e José Nine, mestres do jazz e a fusão; Iria Cuevas, Alejo Amoedo, Samuel Diz e Sergio Franqueira na música clássica galega; a Central Folque, na pesquisa sobre música popular; Resonet, Martim Codax, Capela Compostelana, na música medieval; e músic@s doutros países que vieram cá contribuir para o desenvolvimento da música galega, como a excelente cantora polaca de música medieval, Paulina Ceremuzynska, ou o irmão brasilego (sic) pois já é meio brasileiro, meio galego, Sérgio Tannus, e também o Fred Martins, entre tantas outras personalidades musicais que amam Galiza e fizeram sua a nossa música. Uma última lembrança para um galego internacional que nos deixou há pouco, guitarrista como poucos e imenso na sua vitalidade, o grande Narf (Fran).


Helena de Alfonso é uma cantora extraordinária de todos os pontos de vista. Ela e o seu companheiro, José Lara Gruñeiro, ambos os dous de Madrid, vieram morar à Galiza há uns anos. Assentaram em Rianjo, uma vila costeira das Rias Baixas, berço natal de uma boa parte da melhor intelectualidade galega, e rapidamente se integraram na vida social, na música e na língua. Junto com José Luís do Pico, intérprete e pesquisador excepcional, integram o grupo Barahúnda que interpreta desde cantigas medievais galegas até cantos saarauís, desde música sefardi até García Lorca.


No âmbito da literatura, para conhecer o que se faz em português galego é preciso não perder os livros da Através Editora, que na atualidade é a única editora a promover maciçamente a língua portuguesa na Galiza.


GCS.: Fale-nos das variações dentro do próprio idioma, de como encara a presença de estrangeirismos. No vídeo Comedia - Diferenzas/Diferenças entre o galego e o portugués/português brasileiro aprendi que para alguns galegos “gato” grafa-se como “ghato” e corresponde à pronúncia “rato”.  Neste vídeo, que você bem conhece, são estabelecidas diferenças que nos parecem curiosas. Por favor, fale um pouco a respeito dele.


Isabel:
Esse vídeo aborda o problema do desconhecimento da diversidade língua entre os utentes de diferentes países. A palavra galega para o felino mencionado é "gato", igual que no Brasil. Mas nalgumas zonas da Galiza existe uma pronúncia que verifica o som do "g" como "gh" e dá "ghato", o que, como você diz, soa igual que a palavra "rato" pronunciada por uma pessoa do Brasil. Se soubermos isto, a situação colocada nesse vídeo desaparece imediatamente. Ao sermos cientes das variantes, a confusão que pode dar-se não chega nunca ao extremo, pois sabemos que estamos a falar com uma pessoa galega, ou portuguesa, ou brasileira e conhecemos as suas especificidades. Um menino galego que aprende na escola que o seu jantar é o almoço da menina brasileira nunca chegará fora de hora a um convite. É uma questão de conhecimento mútuo, de educação na língua comum e na diversidade sociocultural dessa língua. Acontece o mesmo aos ingleses que vão para a Austrália ou para os Estados Unidos. E o mundo ainda não caiu por causa disso...



GCS.: Que obras literárias e escritores de fala portuguesa lhe parecem dignos de leitura? Quais deles mais a influenciaram?


Isabel: Para uma galega que tem de aprender a forma internacional da sua língua de maneira autodidata a experiência de começar a ler em português é um acontecimento revelador. As pessoas devoram os livros. Depois de mergulhar na literatura portuguesa e brasileira que podemos conseguir fazemos as nossas escolhas. Eu fico com os Pessoas, as Clarices, os Guimarães Rosa, mas também os Camões e as Rosálias, os Meendinhos e as Maria Balteiras. Prefiro sempre aquela literatura que, a um tempo, é diferente e me reconhece na língua. A fascinação é a literatura brasileira que, redigida tão longe, consegue traçar o elo da união com o nosso mundo cá, como quando Guimarães Rosa põe os bois a falar no seu Sagarana, ou escachamos a rir com o Macunaíma do Mário de Andrade, que por ter ele tem até o apelido galego.


GCS.: Achei curioso o emprego que faz do @ em seus escritos. A causa feminista também está no centro de seus interesses. Qual a situação da mulher dentro de sua cultura? Há algum dispositivo legal parecido com a nossa Lei Maria da Penha?


Isabel:
Os movimentos à procura de igualdade e liberdade de género têm experimentado o uso de diferentes signos linguísticos para suprimir, no possível, a dualidade terrível (o/a) que construiu a nossa língua. Em português não temos artigo neutro como sim têm o inglês e o alemão, e isso é um problema grave na hora de abordar a linguagem inclusiva. O arroba -@- é, dos elementos disponíveis (x, a/o, e), um dos que mais gosto, por representar os dous géneros num signo unitário e por essa difusão maravilhosa que tem experimentado graças à Internet. Mas também gosto desse -e, que por não significar nenhum género concita todos os géneros possíveis e a curiosidade de todes.


A situação da mulher na cultura galega é, para mim, a da vivência de um patriarcado brutal misturada com a reminiscência de um passado longínquo onde a mulher era a fonte de poder. O crescimento urbano e a sua estranha relação com o mundo rural, os mundos do mar e do campo, a cultura tradicional afastada por uma modernidade incompleta e preconceituosa, os meios de comunicação imediatos e a sua situação quase colonial, o alheamento em geral das pessoas galegas do seu senso comum e próprio, o machismo assassino, fazem com que as mulheres atravessem situações dramáticas. Em 2016 registaram-se na Galiza mais de 5.600 denúncias por violência machista. Desde 2004 no Reino da Espanha há uma lei contra a violência chamada "de género", mas nem o governo espanhol nem o galego colocam os meios nem dão a atenção necessária para abordar o problema. A revisão e melhora da lei, dados mais transparentes e maior informação sobre o estado da situação são reclamações constantes do movimento feminista.


GCS: Com base na situação política da Galiza, comente o pensamento de Max Weinreich: “Uma língua é um dialeto com exército e marinha."


Isabel:
O poder político faz uso das línguas para incutir nas populações o seu discurso. Na península ibérica historicamente o poder político dividiu-se em dous polos que foram representados pela língua castelhana e a língua portuguesa. Nos territórios abrangidos pelo poder que tomou o castelhano como língua veicular encontravam-se outras nações com língua própria, como catalães e bascos, que carecendo de exército e marinha, viram dramaticamente reprimida a sua evolução moderna. Além destes, os galegos, de língua portuguesa, ficamos da parte de fora do poder político que tomou o português como língua veicular e, como catalães e bascos, também sofremos o abafamento da parte espanhola. O processo de assimilação do português da Galiza ao castelhano está em andamento. O reintegracionismo é a única oposição a este processo político-linguístico que procura a dissolução ou desaparição das outras línguas nativas do território do Reino da Espanha. Na península somente Portugal, hoje república independente, a pequena Andorra e o anglófono Gibraltar, do Reino Unido, mantêm a soberania suficiente para não ver em perigo a sua integridade linguística.


 GCS. Você também é exímia em outro tipo de linguagem, a musical. Fale-nos deste dom extraordinário e de como o tem utilizado para difundir a cultura galega.






Isabel:
A música pode ser um dom, mas há que o ganhar a pulso. De regra, só uma percentagem muito pequena é de talento entanto que a maior parte é de trabalho. Eu aprendi a ler e tocar guitarra (violão) com o meu pai, que era acordeonista e aprendeu música no Brasil, e meu irmão mais velho, guitarrista amador e cantor. Depois disso segui a carreira no conservatório e, após tocar durante muitos anos o reportório canônico agora dedico-me a interpretar a música galega para guitarra que fui descobrindo nas minhas pesquisas. Também preparo uma tese de doutoramento sobre a guitarra na Galiza, que me está a proporcionar as chaves para compreender o que aconteceu com a música galega ao longo da nossa história.


GCS.: Diga-nos, em generosas palavras finais, os grandes sonhos que tem para sua gente e para o idioma galego; dê-nos dicas de filmes; exponha algum pensamento marcante e deixe-nos links para suas produções pessoais e sites que julga interessantes.


Isabel: O sonho que tenho para a minha terra é o mesmo que tenho para o resto do mundo: sermos capazes de construir vida digna de ser vivida. Vida liberta de poderes opressivos. Vida humana e humanizadora. Na Galiza isso passa, entre outras muitas cousas, por levar a nossa língua, o português galego, ao mais alto nível de desenvolvimento. A língua somos nós, cuidemo-nos.

Um filme: Fronteiras, de Rubén Pardiñas (2007).
Um pensamento marcante: A verdade é sempre revolucionária (Gramsci).
Um disco (o meu): A viola no século XIX: Música de salão na Madeira.

Sites interessantes:
Cantigas Medievais Galego-Portuguesas: http://cantigas.fcsh.unl.pt/
Portal Galego da Língua: http://pgl.gal/
Academia Galega da Língua Portuguesa: https://www.academiagalega.org/
Diário Liberdade: https://gz.diarioliberdade.org/
Novas da Galiza: http://www.novas.gal/hemeroteca.htm
O Dicionário Estraviz, dicionário feito pelo lexicógrafo galego Isaac Alonso Estraviz, é um dos mais completos em língua portuguesa disponível gratuitamente na rede:
http://www.estraviz.org/