domingo, 28 de junho de 2026

BELOS POEMAS E ALGUMAS PALAVRAS SOBRE ALEXEI BUENO (Gilberto Cardoso dos Santos)

 

 

BELOS POEMAS E ALGUMAS PALAVRAS SOBRE ALEXEI BUENO (Gilberto Cardoso dos Santos)


O poeta, ensaísta e tradutor carioca Alexei Bueno teve seu encontro com a indesejada das gentes, segundo Bandeira; com a  Onça Caetana, segundo Ariano. Faleceu no Rio de Janeiro vítima daquela doença: de câncer no fígado. Felizmente, em vida, foi reconhecido como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. Sua obra se destacou pelo rigor formal e pelo diálogo profundo com a tradição clássica. Tânatos, que tanto o inspirava, não o poupou. Vítima da invencível foice, foi-se aos 63 anos. O pêndulo de sua existência (como diria Schopenhauer) oscilou entre 26.04.1963 e 27.06.2026.

Suas contribuições literárias são muitas:

Publicou mais de uma dezena de livros de poesia, entre eles Lucernário (1993), Os resistentes (2001), Anamnese (2016) e A chave quebrada (2026).

Premiações: recebeu o Prêmio Jabuti em duas ocasiões, além de distinções da Academia Brasileira de Letras, da Biblioteca Nacional e do Prêmio Fernando Pessoa em Portugal.

Editor e organizador: responsável por edições de obras completas de autores como Augusto dos Anjos, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Vinicius de Moraes e Álvares de Azevedo, entre outros. 

Tradutor: verteu para o português obras de Gérard de Nerval e poemas de Edgar Allan Poe, incluindo uma notável tradução de O Corvo.

Sua produção atravessou quatro décadas e consolidou-o como um dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea.

Sua morte, sem dúvida nenhuma, representa uma perda significativa para a literatura nacional. Ainda bem que sua vasta obra permanece.

 

DEZ POEMAS DE ALEXEI BUENO

 

EU FUI UM LOUCO 

Eu fui um louco que viveu cem anos
Compondo um gigantesco manuscrito...
Madrugadas profundas de proscrito
Gastei sobre o papel dos meus enganos.

Memórias dos delírios mais insanos,
Razões petrificadas de algum grito,
Anotei, registrei, pus por escrito
Na chama congelada dos meus planos.

Quando enfim fui chegando junto à morte
Vi que tudo escrevera, e ri da sorte,
Que as páginas tocavam já nas sancas.

Foi aí que enxerguei, oh! dor distinta!
Que nunca na caneta houvera tinta,
E a morte entre um milhão de folhas brancas!

 

II 

CONSTATAÇÃO

 

Corrente de amanhãs, vício de auroras.
Outro dia, outro dia, outro, por quê?
Agoras a exigir outros agoras,
Barco sem mapa, cais que não se vê.

No alto, a bandeira rota, e o lema: até.
Tudo incompleto. As horas, mães das horas,
Partindo inúteis. Novas, as escoras
Certas que a torre lhes cairá ao pé.

Ser fragmento, ser caco, ser a corda
Que não se amarra em nada, o elo partido,
O escorrer puro, o rio sem sentido,

A mão que segue adiante e nada aborda,
O que não é daqui, o que é a loucura
E o orgulho de seguir na selva escura.

 

III 

EX-VOTO

Fora de ti, poesia,
Nunca vali um nada.
Que a tua mão sagrada
Me acene mais um dia.

 

IV 

TRAJETÓRIA

 

Onipresente

Melancolia

Que entre a alegria

Sorris prudente.

 

Sombra latente

À luz do dia,

Mudez sombria

Que o som pressente.

 

Por te vencermos

Percorreremos

Longínquos ermos,

 

Lá dançaremos

E expiraremos

Sem te esquecermos.

 

AO MENOS

 

As vidas passadas

Talvez tenham tido

Grandes madrugadas

Com maior sentido

Do que os nossos nadas.

 

Mas em nós saltita

Seco, o coração,

Esponja maldita

A se inflar num vão

Onde ninguém fita.

 

A pular vermelha,

A encolher-se langue,

Suja bomba velha

Bêbada de sangue

Que só o nada espelha.

 

Que se estique e encolha

Até a hora em que estoure,

Ridícula bolha

Sem um só que a chore,

Sem quem a recolha.

 

E então tombe gorda

Dentro de si mesma,

Brinquedo sem corda,

Ressecada lesma

Que já nada acorda.

 

E ali, sem mais ânsia,

Imprestável odre,

Suma na distância,

Sem a dança podre

Que fez desde a infância.

 

Mas de ao menos nós

Que o sofremos tanto,

Que ele deixe após

Tanto pranto e espanto

Viva a nossa voz.

 

VI 

AS VELHAS

 

Elas nos olham, mas não vêem nada.

Sua vida é a que foi, muito lá atrás.

São quase máscaras, mascando o nada,

E em seus olhos há um charco, não a paz.

 

Como em molduras, nas janelas, duras,

São pré-retratos, mas dirão: de quem?

Fitam o amor e a fúria, aves obscuras

No batente-poleiro que as sustém.

 

Sabem, no quarto escuro que é o seu dia,

Que não são deste mundo. A sua voz,

Se existisse, a nós, sãos, perguntaria

Se porventura sê-lo-emos nós.

 

VII 

NOTURNO

 

Sobre os seus saltos, sob a lua cheia,

Os travestis desfilam como garças,

Farsa carnal em meio às outras farsas

Que o mundo absurdo no aéreo chão semeia.

 

São deusas-mães usando liga e meia,

De ancas imensas, madeixas esparsas,

De enormes seios, piscando aos comparsas,

Buscando otários para a escusa teia.

 

São Vênus neolíticas chamando

Sombras confusas, entre os cães sem casa

E os negros ébrios. Seu barroco bando

 

Volveu, pulsante, dos tetos das grutas,

E anda na névoa, como numa vasa,

Rotundas popas balouçando enxutas.

 

VIII 

MOTO PERPETUO

 

Todo poema

É o último do mundo.

A tentativa extrema,

O crucial segundo.

 

Por fim, escrito,

Pétreo, coagulado,

As larvas do não dito

Postam-se a cada lado.

 

E tudo é falta.

A fonte exige a bilha

Sem fundo, e eis nos assalta

A horrenda maravilha.

 

IX 

INTIMIDADE

 

Caros mortos do Rio de Janeiro,

Quando eu ando nas ruas em que andastes

Não são meus olhos tão somente engastes

Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?

 

Estar vivo, este fato, não é um só

E mesmo, se se exclui cenário e nome?

Não é a mesma uma boca quando come

E dois pés na calçada erguendo o pó?

 

Não será isso enfim a vida eterna,

Livrar-se da memória e andar nas ruas?

Ser só olhos com pés, as íris nuas

De tudo o que das horas nos governa?

 

Não morremos? Talvez nunca tenhamos

Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.

O que é o agora? O que é? Como está cheio

Este jardim deserto onde uivam ramos.

 

X

ENIGMA

 

Certo mistério existe, indesvendado,

Escrito há eras sem conta, sobre os céus,

Por uma mão, talvez a mão de Deus,

Ressoando no criado e no incriado.

 

Para entendê-lo, deste e do outro lado

De tudo, angustiados como réus,

Demônios e anjos chocam-se nos seus

Vórtices, sem nenhum outro cuidado.

 

À volta dele os seres e as esferas

Inutilmente orbitam pelas eras

Na ânsia de desvelar a eles imposta.

 

Revolvem-se em legiões desamparadas,

Enquanto aqui, na noite, entre as calçadas,

És, e somente tu, sua resposta.


2 comentários:

  1. Dentre tantos maus exemplos , se vai mais um carioca, digno de exemplo.
    Que a obra dele se eternize.

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