APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ZACK MAGIEZI E DRUMMOND: INTERTEXTUALIDADE




BORDANDO PALAVRAS COM HÉLIO CRISANTO, ÀS CUSTAS DE PIERRE BORDIEU - Gilberto Cardoso dos Santos


BORDANDO PALAVRAS COM PIERRE  E HÉLIO CRISANTO (Gilberto Cardoso dos Santos)

O que é poesia, professor? Poesia é devaneio, meu amigo, como disse Bachelard. Poesia é fugir da linguagem comum, atrapalhar a ordem natural do discurso, saltar pra fora da asa, como disse Manoel de Barros.
Hélio Crisanto, poeta santa-cruzense, de Campestre, disse-me que recebeu a incumbência de escrever um cordel sobre um tal de Pierre Bordeau e, naturalmente, estranhou a pronúncia do sobrenome, que em nossa língua soa como verbo “perfeitamente” conjugado, sem deixar margem para dúvidas:  - bordou ou não bordou? - E ficamos a conversar a respeito da proposta. No meio de nossas divagações, criei um mote (Pierre bordou a blusa que Cláudia Cunha comprou) E Hélio fez outro (Pierre bordou a saia da mãe de Napoleão), e assim foram produzidas algumas estrofes. Vejamos:

Eu fiz:

Pierre, quando menino,
adorava confusão
Bordava e pintava o sete
comia que só o cão
com gente da sua laia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

Se ele bordou ou não
É melhor ficar calado
O eleitor de Bolsonaro
Vai ficar meio cismado
Com o que ele aprontava
Pois se Pierre bordava
Com certeza era viado.

Pelo que observei
Pierre era educador
De formação esquerdista
Vermelha era sua cor
Educador destemido
Que ficou mais conhecido
Na função de bordador.

Na defesa dos aflitos
Pierre era muito afoito
Sua comida preferida
Era café com biscoito
Ele era um infitete
Depois que pintava o sete
Pierre bordava oito.

E Hélio continuou:

Napoleão Bonaparte
Quando era o rei da França
Fez uma grande festança
Juntando o povo da arte
Botou a mãe como parte
Dessa comemoração
E num ato de paixão
Levou a velha na praia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

E eu disse:

Pierre era meu colega
Nós caçava passarinho
Ele era bem baixinho
E ajudava uma cega.
Gostava de música brega
Roubava manga e mamão
Tornou-se um bom artesão
Seguidor de Malafaia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

Prosseguiu Hélio:

Pierre quando menino
Tinha fama de teimoso
Por ser muito corajoso
O chamavam Virgulino
Torava corda de sino
Era ruim que só o cão
Entre tanta profissão
Já fez forro de “cangaia”
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.

Eu concluí:

Pierre era professor
Por um décimo reprovava
E o povo reclamava
De seu imenso rigor
Então o governador
Tirou ele da função
E ele achou seu ganha-pão
Fazendo arte em cambraia
Pierre bordou a saia
Da mãe de Napoleão.


Poesia é isso, uma “útil inutilidade” que resulta num sorriso, ainda que breve, ou faz cair uma lágrima indevidamente represada. O cordel sobre Pierre (ainda) não saiu, mas bordamos essas bobagens a respeito dele.

PENSAMENTO - Luzia Anália


Pensamento

Meu pensamento não voa.
Ele percorre meu corpo,
Rende-se ao meu querer,
Molda-se em minhas células.
Seu designer é petulante e robusto,
seu cheiro é de flor.
Ele se faz poesia,
cantoria e medo.

Meu pensamento não sonha.
Ele escorrega em meus neurônios,
Prende-se ao meu fazer,
Liberta-se em meu coração.
Seu sabor é de esperança e silêncio,
seu cheiro é de amor.
Ele se faz nostalgia, alegria e torpedo.

Era tanto O amor que eu tinha.... - Francisco Vital


Era tanto O amor que eu tinha Era tanta
A alegria que eu tinha Ao ver você chegar
Assim um tanto sem jeito E aqui no meu peito
Eu me consumia E nos teus olhos eu morria Ao ver você se afastar. Você quieta, calada e eu querendo gritar E teu silêncio me seduzia, me envolvia Eu numa agonia tão sufocante Mas nem em face do me pranto ouvi você falar Como foi intenso o meu amor Inversamente proporcional
Ao meu físico raquítico, sifilítico E diretamente proporcional
Ao meu coração Que cheio de aflição
Só viu você passar.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Apenas mais uma de dor - Cecília Nascimento


Apenas mais uma de dor

Chego em casa exaurida, a sensação que me toma não sei se é de fome ou de aflição; talvez um misto de ambas. Sigo uma das minhas filosofias de vida que diz que “quando comemos, cinquenta por cento dos nossos problemas se resolvem”, quem me conhece já ouviu tal máxima. No entanto, ao afastar o prato e jogar este corpo quase vivo na cama, quase perdido pela bagunça do quarto, da casa, da vida, percebi que não era apenas a barriga que estava cheia (plano alimentar, por que não consigo te seguir?!), mas trazia também o coração e a mente abarrotados de angústias e tão cheios que não deu outra, ou transbordaria no papel ou as lágrimas dariam conta do recado. O recado veio de ambas as formas, pois há sensações que de tão abrangentes pedem reações mais exageradas.
Hoje não quero nada; apenas aquilo que não posso. Hoje não quero nada; nada do que me está à disposição. Hoje não quero nada; nada do que já sinto há anos. Já disse que não quero nada; apenas restar-me aqui nesse quarto meio escuro, nessa cama meio vazia... o que me faz lembrar de uma vida meio satisfatória, exercendo funções meio agradáveis numa rotina meio adequada, com pessoas meio presentes...
E de aos poucos me contentar com pouco, com o copo de água limpa no fim do expediente, com o boa noite frio dos vizinhos cujos nomes eu nem sei, com os olhares desconhecidos que me catalogam a cada rua que passo, eu venho me sentindo tão pouca... tão pouca coisa, tão pouca mulher, tão pouca mãe, tão pouca profissional, tão pouco ser vivo, tão pouco feliz...
A Meireles “aprendeu com a primavera a deixar-se cortar e a voltar sempre inteira”, mas esta Nascimento que vos escreve, apesar de ter renascimento no nome, precisa aprender a florescer em meio à seca da vida severina que nos habitua a nos contentarmos com tão pouco e mesmo que aparente por fora ser cacto e não agrade tanto aos rígidos preceitos de nossa tão exemplar sociedade, traga dentro de si a água que lhe é peculiar, capaz de lhe manter de pé por longas estiagens. Talvez esse cacto aqui dê flor, talvez seja alimento ou mate a sede a algum peregrino que a vida lhe apresente ou já apresentou... Só espero que a exemplo das cecílias, não se permita cortar a tal ponto que a primavera não mais volte a brilhar em seus ramos, em seus olhos, em seu peito...
A tarde avança... ainda estou de barriga cheia, mas a alma já se mostra bem mais leve... Que esse papel leve de mim aquilo que já não me cabia. Estão servidos?

Cecília Nascimento
16/08/17 – 14h33min.
De barriga cheia e coração mais cheio ainda...


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Jesus chamou Deus de pai Com linguagem figurada. - Marciano Medeiros


Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

Marciano Medeiros

Deus não é um ser humano
Perdido na vastidão,
É fonte da criação
Poder máximo e soberano,
Também nunca foi tirano
Essa imagem foi gerada
Por pessoas na jornada,
Bem distantes de El Shaddai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

Vejo Deus no firmamento
Que seu reflexo clareia;
E num deserto de areia
Embalado pelo vento,
Seu Poder no sofrimento
Faz a dor ser consolada
Conforta na madrugada,
Quem crer nele jamais cai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

No tempo do barbarismo
O chamaram de guerreiro,
Genocida e carniceiro,
Adepto do terrorismo.
Sempre o nosso infantilismo
Bradando de forma errada,
Essa imagem divulgada
Da teologia sai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.


Deus é a força suprema,
O topo da criação,
Formou nosso coração
Que é bomba da vida extrema.
Traz solução de problema
Muito calmo e sem zoada,
Fez a terra povoada
O nosso eterno Adonai:
Jesus chamou Deus de pai
Com linguagem figurada.

HOMÓGRAFAS HETEROFÔNICAS - Gilberto Cardoso dos Santos


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Deram a chave do mundo aos malucos E o mundo, sem culpa, enlouqueceu - Hélio Crisanto


Na Coréia Kim Jong declara a guerra
Apontando seus misseis para o mundo
E os States rebate num segundo
O tratado de paz ali se encerra.
Falta pouco pra gente ver a guerra
Entre um louco e um doido fariseu
Que amedronta o planeta e resolveu
Fazer medo com seus fuzis caducos;
Deram a chave do mundo aos malucos
E o mundo, sem culpa, enlouqueceu.
(Hélio Crisanto)

sábado, 12 de agosto de 2017

VIAGEM - Francisco Vital


Um dia eu era saudade No outro eu era poesia Mas já fui tragédia Comédia e solidão. Fui ao Japão de caminhão, detesto avião. Fui com o mar a favor, Fui buscar o meu amor Pelos caminhos do vento Que o tempo levou. Mas o vento não esperou, Parece não ter coração, Dei adeus ao Japão, Até outro vento meu amor.

Francisco Vital

domingo, 6 de agosto de 2017

A ALA VIP DO FESTIVAL - Gilberto Cardoso dos Santos



A ALA VIP DO FESTIVAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

Construíram um curral vip
Lá em Serra de São Bento
Um bom trabalho de equipe
Que visa o afastamento
Da alta sociedade
Decerto uma novidade
Que trouxe constrangimento.

Visando, sim, o sossego
De quem possui cartão VISA
Ou MASTER, sem muito apego
Que de destaque precisa
A astúcia empresarial
No espaço municipal
Ao status improvisa.

No festival de Inverno
Da bela cidadezinha
Gente de gravata e terno
Que anda dentro da linha
Poderia, sossegada,
Beber bebida importada
Longe de quem nada tinha.

Claro que deve ser chato
Ver um e outro chegando
Pessoas sem fino trato
De você se aproximando
Pra pedir ou pra roubar
Por isso é bom se isolar
Mesmo que caro pagando.

Há quem critique quem fez
Mas há quem ache normal
Neste mundo só têm vez
Os donos do capital.
Ache bom ou ache ruim
Em todo canto é assim
Há divisão social.

Afinal, a insegurança
Leva ao isolamento
Quem muito tem na poupança
Quer melhor atendimento
Um tratamento mais terno
No Festival de Inverno
Lá de Serra de São Bento.

Nada contra ou a favor
Mas muito pelo contrário
Determina-se o valor
Pelo fator monetário
Acontece em todo canto
Não deve causar espanto
A quem só ganha um salário.

Eu se for de fora fico
Porém vou juntar dinheiro
Quero dar uma de rico
Neste lugar prazenteiro
Retirarei da maleta
Uma expressiva gorjeta
Pro garçom hospitaleiro.

(Carta para minha futura filha) - Zack Magiezi


Olívia

Existe maldade nesse mundo
Mas há beleza
E para descobrir essa beleza
Você não precisa ir longe
Apenas pare e contemple
Ofereça flores ao mundo
Dance, abrace e sorria
Também é necessário chorar
Jamais use máscaras
Seja sincera
Com os seus sentimentos
E ganhará a amizade deles
E o respeito da vida
Trace a sua rota
Leia poemas
Coisas materiais
São apenas coisas
Olhe nos olhos
Converse com a natureza
Aprenda com ela
Distribua os tesouros da vida
E será rica
E terá paz

De alguém que te espera
E te ama muito
Seu pai.


https://www.youtube.com/watch?v=yZN5llvFCmk