APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 17 de janeiro de 2016

OS CAUSOS DE ZÉ DADÃO - Gilberto Cardoso dos Santos



OS CAUSOS DE ZÉ DADÃO

Zé Dadão era uma espécie de Seu Lunga, mas um Seu Lunga diferenciado. Sua “ignorância” ou brutalidade tinha um quê de refinamento.

Também comerciante, era dono duma mercearia no centro de Santa Cruz, onde vendia de tudo: queijo, bombons, gás, pão, vassoura, vasilhas, sabão... Não era ignorante na acepção popular do termo. Respondia com sarcasmo às perguntas tolas e tomava decisões radicais, espantosas, mas tudo sempre feito com muita calma. Não alterava o tom vocal nem a fisionomia  e a tônica de cada palavra era respeitada; as determinações e respostas inteligentes vinham aparentemente tranquilas, ditas com toda educação, em tom de voz normal, mas firme.

Muitos  são os causos, todos verdadeiros, protagonizados por ele.
Certa vez uma cliente comprou um quilo de queijo. Depois retornou para devolvê-lo:
- Seu Zé Dadão, o queijo tava com gosto de gás.

- Não tem problema - respondeu ele sem alteração, pesou um outro quilo e o entregou à freguesa sem nada acrescentar.

A partir desse dia, tomou uma decisão radical para evitar vexames dessa natureza. Passou a colocar uma bacia com água e sabão e uma toalha ao lado da mercadoria. Quando alguém pedia queijo, ele ensaboava bem as mãos, lavava-as com todo cuidado, enxugava-as na toalha limpíssima e em seguida as untava com manteiga-da-terra. Só após esse ritual atendia o freguês.

Já que estamos a falar de uma das mercadorias que ele mais vendia naquele tempo em que eletricidade era coisa rara, houve o caso de alguém que veio comprar um galão de gás. Ele encheu a lata, mas o freguês reclamou, disse que não ficara bem cheia. Ele disse; 
- Não tem problema. Eu vou completar. -  E começou a despejar gás na vasilha. Não demorou muito, encheu até o gargalo e a lata começou a transbordar; o freguês esperou um pouco e, aflito, avisou, achando que ele não estava percebendo:

- Seu Zé Dadão, já encheu. Tá derramando!

- Não. - Respondeu ele secamente. - Ainda não completou como eu quero. - E continuou a despejar gás na vasilha, espalhando aquele cheiro forte por todo o recinto. O freguês, aflito, vendo o gás a espalhar-se chão afora, queria que ele parasse, mas Zé Dadão continuou e só desistiu de completar a lata quando esvaziou o recipiente que tinha às mãos!

- Pronto. - Finalizou, - Veja se agora está cheia.

Ele era assim mesmo, raivosamente solícito às reivindicações da freguesia. Fazia tudo para não cometer erros. Quando errava, ou quando injustamente era acusado, não tentava se desculpar. Vingava-se com classe, do modo mais inusitado.

 Quando o cliente extrapolava os limites de sua paciência, podia preparar-se para o revide. Foi o caso duma mulher que veio comprar uma vassoura. Dirigiu-se ao paiol e começou a puxar de uma em uma.  Examinava bem, dava a impressão que escolhera aquela, mas desistia e procurava outra. Passou um tempão sem encontrar a vassoura que queria, enquanto seu Zé Dadão a acompanhava com os olhos, silencioso, pacientemente subjugando a impaciência.  Finalmente, após muita procura, a mulher abriu um sorriso e decidiu:

- É esta daqui que eu quero!
Educadamente, disse seu Zé Dadão:
- E se eu lhe disser que a senhora escolheu exatamente a que eu não queria vender?
A mulher, por mais que insistisse e argumentasse, voltou pra casa sem a vassoura.

Semanalmente, durante muitos anos, ele fez o percurso de Santa Cruz a Currais Novos guiando seu caminhão em dias de feira. Havia uma ordem expressa para os que desejavam ir com ele: ninguém deveria fumar em seu carro, nem mesmo fora da boleia.

Numa dessas vezes, entre os que se achavam na carroceria disputando espaço com as mercadorias, havia um advogado. Este acendeu um charuto e se pôs a tragar despreocupadamente.
Assim que percebeu, na primeira oportunidade, Seu Zé Dadão parou o carro. Indagado por que fizera isto, respondeu:
- Só vou prosseguir viagem quando o cidadão acabar de fumar.

Envergonhado, o advogado quis jogar o charuto fora, mas ele completou:
- O senhor não precisa jogar o charuto. Eu vou esperar que termine, aí a gente continua a viagem.
Certamente já não havendo mais clima para prosseguir com o doce prazer, o advogado teve que conformar-se com aquelas regras!

Uma vez viram-no em cima da casa, tapando brechas entre as telhas.
Alguém perguntou:
- Tirando goteira, seu Zé Dadão?
- Não - respondeu ele com palavras bem pronunciadas: – Estou cavando uma cacimba.

Em determinado beco do centro da cidade, Zé Dadão observou que alguns moradores de ambos os lados pareciam competir em suas reformas. De vez em quando pintavam seus prédios, nem dava tempo de desbotar a cor.

Ele concluiu:
- De tanto pintar esses prédios, eles vão estreitar o beco e vão acabar fechando-o.

Pontualíssimo e excessivamente cioso do que dizia, se marcasse uma viagem para as nove horas, não esperaria um minuto a mais. Todos que com ele firmavam algum compromisso tinham o maior cuidado com os detalhes.

Uma vez acertou com alguém uma viagem.
- Depois de hora “tal” – advertiu ele, - você já não me encontrará em “tal” lugar.
Como nada há nesta vida que não tenha alguma exceção, o rigor de suas decisões estava prestes a ser testado: o esperado passageiro não cumpriu sua parte conforme fora apalavrado, atrasou-se! Tratava-se, porém, de alguém cuja ida seria de suma importância para o grupo. Friamente, ele começou a ligar o carro para dar partida, mas alguns amigos, aflitos, começaram a interceder pelo passageiro relapso.

- Seu Zé Dadão - suplicou um deles, - vamos esperar só mais um pouquinho!

- Não – respondeu ele com firmeza mas sem exaltação. Ligou o caminhão e partiu.
Para surpresa de todos, parou o carro noutro local um pouco à frente e desligou-o.
 Pronto. – esclareceu. – Conforme o combinado, já não me encontrará naquele lugar.

Ele tinha um jeito único de anotar os débitos de seus fregueses: não encimava as anotações com seus nomes. Designava-os por alguma característica física, psicológica ou comportamental. Exemplos: “O que usa chapéu de palha”; “O de camisa listrada”; “O que tem um olho baixo”; “A que treme as mãos”; "o que é gago". Havia, pois, em seu trato com a clientela um pouco daquela confidencialidade que caracteriza os bancos suíços.

Fazia de tudo pra que não faltasse mercadoria em seu comércio. Odiava ter que dizer ao freguês “Está em falta.” Para evitar isso, tomava algumas providências. Farinha, por exemplo, cuidava em deixar sempre uma reserva, no mínimo uma cuia. O freguês chegava e perguntava:
- Seu Zé Dadão, tem farinha?
- Tenho –, respondia ele com firmeza.
- Então me venda um quilo.
- Tenho -, completava ele, - mas não é para vender.

Desse modo, nunca lhe faltava farinha no estabelecimento!

Com características tão peculiares, não deu outra: Seu Zé Dadão se foi, a terra o comeu, mas continua alimentando a imaginação de muita gente.