APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Meu reino por um verso - Jomar Morais



Sim, eu um trocaria meus quase 40 anos de jornalismo, há cinco atracados no porto sossegado da aposentadoria, pela destreza de escrever um verso. Um único verso. Um verso definitivo, carregado de surpresa, conciso e belo, que revelasse ao mundo o meu sentir. Milagre de luz e sutileza que, no passado, jamais emergiu de minha barulhenta Olivetti e hoje é prodígio negado às teclas caladas de meu computador.

Acordei pensando nisso. Meu reino por um verso. Um verso singelo, mas tocante, no qual, seguindo os passos de Fernando Pessoa, eu ousasse fingir, e fingir tão completamente, a dor e a delícia que deveras sinto, que deveras sou... É devaneio, eu sei. Vã heresia na prisão de meus textos duros e inodoros, onde a quimera da objetividade sufoca e oculta o meu canto de pássaro. Que fazer? Esse o meu limite. Como consolo, resta-me o deleite de sussurrar para a relva o canto de outros em que me identifico.

Tolice, talvez dissesse o poeta Pessoa: “Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso”. Eu sei, eu sei. Mas o mundo certamente seria outro, e bem melhor que este, se em versos todo homem falasse, abrindo o coração onde o discurso utilitário insiste em amordaçá-lo. Em versos, parece, há mais sentir ou há só sentir. E sentir, diria Pessoa – sempre ele – é criar. “Sentir é pensar sem ideias e, por isso, compreender, visto que o universo não tem ideias”. Como a multidão, perdido em pensamentos que me aprisionam a normas, apenas sonho em imitar-lhe o brado: “Não escrevo em português. Escrevo eu mesmo”.

Segunda-feira de céu azul. Sol dourado reluzindo em meu quintal. Intervalo breve nesses dias de nuvens cinzas e chuvas invernosas? Que importa... Acordei pensando em versos nos versos de outros. Versos de poetas que seguem ao lado, juntinho a nós, mas nem sempre são percebidos por nossas almas embriagadas de lógica e pragmatismo. Ganhei meu dia.

Abro-me em Resina, antologia de Diva Cunha: “Que gesto é esse que me abraça / puro e alastrado / sobre a carne passageira? / Que corpo é esse onde habito? / De quem a voz que me devora / quando não digo o inomeável nome? / Como conter num mínimo ponto no espaço / esse deus que cresce incontido?”

Danço em Destino de Pássaros, de Francisco de Assis Câmara: “Será mais belo o pássaro pousando / ou quando cumpre o ofício de voar? / A pergunta, um enigma a decifrar. / A resposta, um soneto se formando. / E nas asas do pensar, imaginando / vejo-me pássaro, solto, em pleno ar. / Quando regresso, o pouso é meu penar. / Exercício de sofrer, se estou sonhando”.

Enfim, escondo-me, misturando-me outra vez à resina cortante da poeta Diva: “Quando Deus me habita / cresço para todos os lados. / Quando Deus me fala / apuro os ouvidos. / Quando somos um só / desapareço na luz”.

Num canto de jornal, meu canto. Meu sentir no sentimento deles, nossos poetas tão próximos e tão distantes.