quinta-feira, 1 de setembro de 2022

QUÃO DIFÍCIL É O FÁCIL - Heraldo Lins

 


QUÃO DIFÍCIL É O FÁCIL


Sabemos que a crônica tem seu ponto forte na vida social, mas depois de certo tempo tudo cansa. Foi o que aconteceu com este espaço que ficou gritando para ser preenchido com algo além da copa do mundo.  

Para se ter uma ideia, até o câncer se tornou banal por aqui, inclusive, a própria morte não aguenta mais ver seu nome estampado nos textos. São assuntos que, de tanto serem falados, já se tornaram administradores das próprias marcas. 

Diante da grande exposição, a morte foi a primeira a pedir afastamento por alguns momentos. Junto à requisição de férias, anexou a declaração dos parentes, coma e desmaio, que se comprometeram em substituí-la na eternidade de cinco minutos, só que tal proposta não foi aceita pela maioria absoluta dos votantes. A indústria “feretral” justificou o voto dizendo precisar dela atuando, ininterruptamente, em todas as frentes e em tempo integral, mesmo assim, vou mantê-la fora dessa empreitada.

Para me aprofundar na alma humana, eu teria que adquirir o passaporte da angústia.  Quando se está alegre, só se consegue falar de forma superficial. A depressão é ainda a mais poderosa arma a favor de um bom texto, pois vai buscar concatenações muito além da vida intrauterina.  

Ir pelo caminho da reflexão requer cuidado e armas para enfrentar o inesperado. Toda vez que piso nesse terreno, saio com uma tremenda dor de cabeça. É a mesma dor que sinto ao começar a contar um sonho indo muito além do que foi sonhado. 

O horário ideal para bater papo com a própria consciência é quando há poucos olhos vigiando o tempo. Nesse exato momento encontramos as dúvidas existências na sala de estar, aí fica fácil trazê-las para a tela. 

Há uma lembrança enigmática, como se o próprio eu fizesse questão de encobri-la. Nesse jogo entre intimidade e publicidade, vem à tona um amontoado de ideias provenientes das dores do passado com as preocupações do presente, transformando-se num frêmito de prazer esvaziado pela vontade de dizer. O repouso da alma, que vem em seguida, dá um abraço nas agruras acumuladas pela emoção guardada a sete chaves, e aí, aparentemente, está tudo resolvido. 

  Enquanto o coração sente-se aliviado, surge, de surpresa, o fazedor de mais problemas querendo saber onde estava que não havia descoberto essa fórmula tão fácil de ser seguida. Caminhando a passos largos em direção ao futuro bem mais civilizado, pensa nos princípios abstratos encadernados nos livros que tanto lê. Um rufar de folhas veio por trás envolvendo-o em seus corriqueiros pensamentos, subindo e descendo pela alma indisposta de tanto sofrer pelas dúvidas rígidas à procura do ser iluminado. 

Pelas preocupações diárias e desconfianças constantes, sente-se como sendo um discurso cheio de reticências embalsamado na tumba vazia do olhar fixo. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 1º.09.2022 — 10:32



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