quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Ensaio sobre A Literatura Em Perigo, de Tzvetan Todorov (George Sand – Gustave Flaubert)





Ensaio sobre A Literatura Em Perigo, de Tzvetan Todorov

(George Sand – Gustave Flaubert)

Liliane Mendonça — 09/2022

 

Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. (TODOROV, 2009, p. 23)

 

Tzvetan Todorov foi um filósofo e linguista búlgaro que se mudou de Sófia para Paris após sua graduação em Letras, em 1963, para aprofundar seus estudos literários.[1] O escritor nasceu em Sófia em 01/03/1939 e morreu em Paris em 07/02/2017.

Em seu livro “A literatura em Perigo”, Todorov faz reflexões importantes sobre literatura resgatando opinião de especialistas em literatura clássica da poesia, Renascença italiana, estética da recepção e arte pela arte, para citar alguns exemplos. Entre suas reflexões está o fato de que na escola em vez de conhecermos obras literárias aprendemos sobre o que os críticos literários falam dessas obras. O autor comenta também sobre a mudança que houve ao longo dos séculos na forma de pensar a literatura. Caio Meira, em sua apresentação à edição brasileira, destaca que a filosofia socrática acusava a arte poética de subversiva por um suposto poder encantatório da literatura, reconhecendo nela o poder de intervir na formação do espírito das pessoas e até mesmo da realidade como um todo. Para Todorov o perigo que ronda a literatura em nosso século é o oposto disso, ou seja, não ter poder algum e por isso não participar mais da formação do indivíduo. Caio Meira aproxima as reflexões de Todorov ao contexto da educação no Brasil e, em alguma medida, da formação de leitores em nosso país. Todorov reivindica  que o texto literário volte a ocupar o centro e não a periferia do processo educacional (e, por conseguinte, da nossa formação como cidadãos), em especial nos cursos de literatura.

Chamamos a atenção para um pensamento que consta logo no começo do livro. Caio Meira afirma:

O perigo mencionado por Todorov não está, portanto, na escassez de bons poetas ou ficcionistas, no esgotamento da produção ou da criação poética, mas na forma como a literatura tem sido oferecida aos jovens, desde a escola primária até a faculdade: o perigo está no fato de que, por uma estranha inversão, o estudante não entra em contato com a literatura mediante a leitura dos textos literários propriamente ditos, mas com alguma forma de crítica, de teoria ou de história literária.

(TODOROV, 2009, P. 10)

 

Para ilustrar sua opinião sobre o ensino da literatura, Todorov cita, entre outros, o ensino da física que, segundo ele, se debruça sobre suas leis e fórmulas, e nessa disciplina é considerado ignorante quem não conhece a lei da gravitação universal; enquanto em literatura aprende-se as teorias sobre ela, mas é considerado ignorante quem não leu As Flores do Mal, para citar um exemplo do livro. Segundo ele, os autores das obras literárias, quando lidos, permanecem na memória dos leitores, mas os nomes dos teóricos acabam sendo esquecidos. Certamente isso acontece porque alguns romances e poemas nos causam uma impressão tão forte, um prazer tão grande que se tornam inesquecíveis para nós, mais do que qualquer conceito sobre eles. Naturalmente, Todorov defende que aprender sobre a história literária ou análise estrutural de uma obra agrega conhecimento e pode ser útil ao aluno/leitor da obra, mas esse conhecimento é apenas um meio de acesso, algo para ampliar os horizontes e não um substituto para a compreensão do sentido da obra. Todorov afirma que o leitor comum não lê obras literárias para se informar sobre o contexto em que foram escritas, mas sim para tentar encontrar algo que enriqueça sua existência e para que acabe compreendendo melhor a si mesmo, pois o conhecimento que vem da literatura é um caminho que ajuda no desenvolvimento e na realização pessoal do leitor.  Para o autor, nas faculdades de Letras, é natural que se ensinem as abordagens, os conceitos postos em prática e as técnicas, mas as aulas do ensino médio, já que não se dirigem a profissionais da literatura, não deveriam ter o mesmo conteúdo: “o que se destina a todos é a literatura, não os estudos literários; é preciso então ensinar aquela e não estes últimos” (TODOROV, 2009, p. 41).  No que diz respeito ao ensino de literatura, Todorov ainda considera que:

A análise das obras feita na escola não deveria mais ter por objetivo ilustrar os conceitos recém-introduzidos por este ou aquele linguista, este ou aquele teórico da literatura, quando, então, os textos são apresentados como uma aplicação da língua e do discurso; sua tarefa deveria ser a de nos fazer ter acesso ao sentido dessas obras – pois postulamos que esse sentido, por sua vez, nos conduz a um conhecimento do humano, o qual importa a todos. (TODOROV, 2009, p. 89)

 

Um dos destaques do livro é a referência que Todorov faz à postura de Flaubert que ao defender a arte pela arte reivindicando a autonomia da literatura, não esquece que sua criação literária vem de seu conhecimento de mundo. Para Flaubert a verdade é fundamental para que o texto literário seja considerado perfeito. De acordo com Jean-Paul Sartre (1988, p. 599), Flaubert acreditava que ele mesmo poderia discernir entre a boa e a má qualidade de seu trabalho e quando aprovava completamente o que tinha escrito, o trabalho estava terminado. Não gostava de sugestões para alterar seus textos, e não os entregava a revisores, para não correr o risco de deixar o texto perder a harmonia e o ritmo que ele construía a duras penas os escrevendo e reescrevendo obstinadamente.

No último capítulo do livro, Todorov relembra um encontro importante da história literária, qual seja a correspondência trocada entre George Sand e Gustave Flaubert. Embora muito diferentes no modo de ver o mundo, a sociedade, a política e a literatura, Sand e Flaubert trocaram, entre 1863 e 1876, cartas que são verdadeiros documentos históricos de suas vidas e, em alguns casos, também da França oitocentista. Sand e Flaubert eram amigos e ao ler a correspondência percebemos o carinho e o respeito que os unia, sem deixar de notar as diferenças de opinião de ambos sobre suas concepções literárias de que discordaram até o fim da correspondência.

“Sand lamenta que Flaubert não se mostre mais nos seus escritos” (TODOROV, 2009, p. 84), essa afirmação pode ser confirmada em várias cartas, como nesta de 1875 em que lemos:

Não se pode ter uma filosofia própria sem que ela venha à luz. ... acredito que falta a você, uma visão mais convicta e mais ampla sobre a vida. A arte não é somente a pintura. A verdadeira pintura está, aliás, repleta da alma que empurra o pincel. A arte não é só a crítica e a sátira. […] Quero ver o homem como ele é. Ele não é bom ou mau. É bom e mau.[2] (SAND, 1875 apud JACOBS, 1981, p. 511)

 

Sand conhecia bem Flaubert, e cobrava dele por não o reconhecer em seus livros, para ela o que ele faz é criar um autor distante dele, e acredita que ele tenta ser essa outra pessoa intencionalmente. Ou seja, Sand não acha que Flaubert consegue realmente se ausentar do texto. Para ela, ele apenas não se mostra muito e o pouco que mostra não é reconhecível como ele mesmo. Todorov reflete que o que ela censura nele é o fato de não deixar um espaço em seus romances para homens como ele, o que acaba não mostrando fidelidade ao mundo real. Além disso, o quadro que emerge dos livros de Flaubert não é realmente verdadeiro, pois nele haveria uma traição à realidade já que representa apenas a face obscura do mundo, enquanto “A verdadeira realidade, é a mistura entre o belo e o feio, o opaco e o brilhante.[3]” (SAND, 1876 apud JACOBS, 1981, p. 519).

Levando em conta a afirmação de Todorov que representar a existência humana é o objetivo da literatura, e que o autor e o leitor fazem parte dessa humanidade, não podemos deixar de pensar que as reflexões de Sand a esse respeito são pertinentes. Para Sand o objetivo da arte era a nuance, era importante mostrar a natureza humana com as contradições que de fato existem nas pessoas (bom e mau). Todorov esclarece que ela tinha consciência de que Flaubert assim como outros escritores tinham mais estudo e talento que ela, mas ela tinha uma visão mais definitiva e mais ampla da vida. Todorov ressalta: “a correspondência Flaubert-Sand foi importante por versar sobre literatura, verdade e moral” (TODOROV, 2009, p. 83). As divergências entre Flaubert e Sand são uma ótima forma de concluir o livro, justamente por trazerem duas visões totalmente diferentes sobre a arte literária. A discussão Sand-Flaubert, a respeito da escrita literária, traz o ponto de vista não de quem ensina, mas de quem produz e pensa sobre a literatura, buscando a relação leitor-escritor.  

 

 

 

Referências:

 

JACOBS, Alphonse. Correspondance Gustave Flaubert-George Sand, Flammarion, 1981

 

SARTRE, Jean-Paul. L’idiot de la famille. Livros 1, 2, 3. Gallimard, 1988.

 

TODOROV, Tzvetan. A literatura em Perigo. Tradução Caio Meira. Difel (Grupo Editorial Record), Rio de Janeiro, 2009.



[1] Informações extraídas do site: https://www.fronteiras.com/descubra/pensadores/exibir/tzvetan-todorov — em 17/09/2022

[2] On ne peut pas avoir une philosophie dans l'âme sans qu'elle se fasse jour.

...je crois qu'il manque [...] à toi, une vue bien arrêtée et étendue sur la vie. L'art n'est pas seulement de la peinture. La vraie peinture est, d'ailleurs, pleine de l'âme qui pousse la brosse. L'art n'est pas seulement de la critique et de la satire. […]. Je veux voir l'homme tel qu'il est, il n'est pas bon ou mauvais, il est bon et mauvais. (tradução minha).

[3] La vraie réalité, qui est mêlée de beau et de laid, de terne et de brillant.


Obras traduzidas por Liliane Mendonça:







quarta-feira, 28 de setembro de 2022

DE ONDE MENOS SE ESPERA - Heraldo Lins

 


DE ONDE MENOS SE ESPERA


Moça inteligente e prendada, fez a vez de funcionária do lar em troca de casa e comida. Aqui vou conseguir ter meus sonhos realizados, melhor do que ficar naquele grotão sem perspectiva de vida, pensava ela. 

Pela manhã, saía para a faculdade e quando voltava dirigia-se para seu quarto que ficava perto do pomar. Aproveitava a hora fria para limpar o local, regar as plantas, lavar a louça acumulada do café, do almoço, e ainda preparar o jantar, arrumar e varrer.

Depois das tarefas realizadas em “tom de caixa”, voltava para fazer os trabalhos escolares. Ufa! Ainda bem que minha tia está satisfeita comigo. Tenho que manter este ritmo com semblante sorridente. Sei que o aspecto conta muito, sem me esquecer de ser simpática e lhe obedecer sem questionar. 

O ambiente doméstico foi se modificando com o capricho da moça. Tudo era feito no tempo e na hora, e quando a casa estava silenciosa, ela ficava no seu quarto dedicando-se ao estudo. Essa forma de escutar as videoaulas e ir anotando a primeira letra de cada palavra, deixava-lhe longe do sono. Enquanto lavava a louça, mantinha também os fones de ouvido para não perder seu precioso tempo.  

A vida deslizava mais serena, após Helibela ter vindo para aquele lar ameaçado pela tensão da separação. Na sua presença, o casal evitava brigar para não despertar nela a curiosidade de saber como era o relacionamento do casal. Raramente via o esposo da tia, pois sempre estava no escritório traduzindo autores de várias nacionalidades. Quando a tia chegava do trabalho, encontrava-o jantando silencioso enquanto a sobrinha preparava o jantar delas e do casal de primos adolescentes. Na mesa, evitavam falar de trabalho, do relacionamento... para que a sobrinha não se tornasse íntima da casa. Os filhos adoravam o bolo de banana com canela que ela havia aprendido nos cursos de educação alimentar. 

Quando recebiam visitas, a tia jamais dizia que ela era sua sobrinha, relatando para os amigos que conseguira aquela funcionária doméstica no interior do estado, e se alguém insistisse se era da família, dizia: adoção feita pela minha irmã. Nem queria esclarecer que era filha do seu irmão. Por não ter conhecido a mãe, ela teve que se adaptar na casa do pai, mesmo não podendo chamá-lo assim com tanta intimidade para que a esposa não desconfiasse da ligação consanguínea. 

O primeiro semestre se passou na mais perfeita e calculada harmonia. As férias de quinze dias, fez o casal voltar a se digladiar: não me procura mais, né!?; você é quem fica ligada nesse celular e quando vou para a cama, já está roncando... 

Helibela ficou sabendo, um dia antes de voltar, que os professores haviam entrado em greve e que as aulas só retornariam, no mínimo, dois meses depois. Não tem problema, enquanto não volto, disse ela, vou acompanhando os pacientes no hospital perto do sítio em que estou passando as férias. 

Finalmente as aulas trouxeram-na para a rotina de antes. No regresso, Helibela apresentava uma pequena barriga de grávida, o que fez sua tia voltar a atenção para a gestante. Os cuidados foram intensificados. Uma criança naquele lar iria dar uma guinada na relação do casal, afinal, o foco mudava-se para a nova realidade. Era isso que sua tia queria: uma criança, mas como não havia mais condições de engravidar, voltou-se para aquela que estava sendo gerada. 

O parto aconteceu normalmente sendo o menino aceito com todo o gosto na casa. Com o passar dos dias, o tradutor foi se afeiçoando à criança a ponto de ser interrogado pela mulher que desconfiava daquele apego, foi quando a sobrinha revelou que o filho era dele, fertilizado antes dela ter saído de férias. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 28.09.2022 ─ 10:26





terça-feira, 27 de setembro de 2022

DOMÍNIO VIRTUAL - Heraldo Lins




DOMÍNIO VIRTUAL

 

Foi ficando escrava do celular a ponto de almoçar com ele ao lado do prato. Enquanto os demais conversavam, ela respondia aos grupos de WhatsApp. Essa amiga aqui fica me enviando mensagens anexadas a coraçãozinhos, quão melosa ela é; vou bloquear minha vizinha, e se ela perguntar eu digo que foram as meninas mexendo. 

Com o transcorrer do tempo, ficou tão viciada que chegou a confundi-lo com o sabonete na hora do banho. Putz! só faltava essa! Ainda bem que salvei minha agenda, mesmo assim vou ter que sair para comprar logo dois aparelhos. Deixar um de reserva, é uma boa ideia.  

Um dia, ela desapareceu. Onde se meteu sua mãe? perguntou o marido ao chegar à noite em casa. Não sei, respondeu a filha sem olhar para o pai, afinal de contas ela precisava responder as mais de trezentas mensagens acumuladas na última hora. Ele a procurou em todos os lugares já desconfiado que haviam lhe sequestrado. 

Ligou para ela e ouviu, do outro lado da linha, um coral respondendo. Ele pensou que era um novo aplicativo, porém sua filha disse que desconhecia. As perguntas que ele fazia, eram respondidas por várias vozes ao mesmo tempo. Ele ficou espantado porque as conversas sempre terminavam em: “vem pra cá você também, vem!” Ele achou que era uma propaganda de um banco, contudo não teve certeza.    

O telefone abandonado dentro de uma gaveta, foi encontrado pela filha que chegara de viagem. Sabendo que a mãe havia desaparecido, foi bisbilhotar por lá e o encontrou, em modo silencioso, debaixo das correspondências. Estranho! mamãe nunca deixou o celular aqui. Não há marca de sangue nem de violência. Parece que o criminoso não estava interessado em roubar. 

Conectou-se e viu sua mãe falando como se fosse uma ligação de vídeo. Mamãe! gritou a filha misturando emoção com aflição. A mãe acenava para ela, sorridente, braços estendidos e dizia venha, querida, venha...  A senhora está aonde? Estou onde não se sente dor nem sono. Estou acordada desde o dia que vim morar aqui dentro. A senhora está dentro do celular? perguntou a filha, e sem esperar pela resposta, jogou ele no chão e saiu correndo para chamar o pai. 

De início ele tomou um susto, depois foi mantendo o diálogo até ela sugerir que ele rolasse a tela da direita para a esquerda que queria lhe mostrar uns vídeos inéditos. Quando ele encostou o dedo na tela, uma multidão o puxou para dentro do smartphone e até hoje as filhas procuram pelos pais. Caso alguém veja um celular dando sopa por aí, é melhor nem se aproximar. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 26.09.2022 – 09:18





domingo, 25 de setembro de 2022

OS BENEFÍCIOS DA MENTIRA - Heraldo Lins

 


OS BENEFÍCIOS DA MENTIRA


Há quatro meses que a esposa morrera de câncer e os filhos, para não ter que repetir "mãe morreu" várias vezes ao dia, comunicaram-lhe que ela estava hospitalizada. A verdade foi dita algumas vezes, mas o choro foi tão violento que assim optaram em refazer a verdadeira informação. 

A partir daí, não houve mais choro pensando que a esposa tinha saído ontem para o hospital e isso o faz continuar vivendo em paz. Quando a filha chega da capital, ele logo pergunta: como está Darcília? Daqui para a próxima semana o médico vai dar alta. Está bom! pior é morrer, responde ele se conformando. 

O sepultamento fora realizado, mas ele, devido ao mal de Alzheimer, esquecera. A memória que permanece é a de vê-la sendo medicada no quarto e depois transferida para o hospital. 

Algumas pessoas são a favor da verdade, poucos concordam em omiti-la, o fato é que mantê-la viva tornou-se prioridade, pois ele diz que não pode morrer para que ela não fique abandonada, motivação que o faz ir sobrevivendo com mais de noventa anos.   

Ele gosta do sítio e fica na cadeira de balanço imaginando quando comprou aquele pedaço de terra. Comprei e paguei por cento e cinquenta. Eu comprava e vendia gado, do mesmo jeito com o algodão antes do bicudo. Os meninos foram nascendo e me ajudando. Darcília disse que só se casaria comigo se não precisasse ir para o roçado limpar mato. Aceitei! Teve uma vez que perguntei se ela “podia” ir, mas ela foi logo me dizendo que era melhor que uma cascavel lhe picasse. Não, não precisa. Gosto de ouvir o chocalho do gado. 

Pai, o senhor quer vender esse sítio? Não vendo por dinheiro nenhum e nem troco pela cidade inteira. Aquele homem, quem é? Veio comprar o estrume do curral. Ontem veio um comprador, disse o morador, mas ficou conversando e foi embora. Amanhã eu venho! Não, acho que hoje mesmo trago o caminhão, disse o comprador. Não precisa se preocupar! Nesse sítio palavra dada é palavra cumprida. Pode vir amanhã mesmo que o estrume é seu. Nunca fiz negócio para me quebrar. Ô velho macho! Mas tem que ser assim mesmo. Gosto de trabalhar aqui por isso. 

Eu quase não enxergo esse gado aí. Hoje está ventilado. O que é que tem para o almoço? Tem bode, guiné, feijão, arroz... umas verduras. Está bom! Catuque aí no celular e pergunte que dia Braciala vem. Ela já está vindo, pai. Eu sempre quis ficar velho para saber como era, mas vejo que não é bom. A pessoa quer fazer as coisas e não pode. Quem disser que é bom está mentindo. O médico disse que eu não podia nem pegar três quilos. Um dia desses eu tentei e quase morri com esse negócio no meu peito batendo forte. 

Pai, o senhor está gostando desse novo marcapasso? Agora melhorou. Eu só vivia com sono, agora estou mais ativo. É que o outro já estava no prazo de ser trocado. É tanta coisa e até já disseram que eu não podia usar relógio por causa dessa máquina aqui. Cadê o burro? Já deram água ao coitado? Já, pai, Metrarco é o melhor trabalhador que esse sítio já teve. É mesmo. O mago velho aqui não corre de serviço não, só corro de grito. Se gritar eu deixo tudo e vou embora. A neta veio me perguntar se eu estava namorando sua mãe. De jeito nenhum, meu relacionamento é profissional. Aqui tem um gado meu, mas se me aperrearem eu vendo tudo e vou embora. Eu sei mais ou menos quem arrombou a porta para roubar. 

Esse aí é muito trabalhador mesmo. No meu tempo eu ia para a serra pegar barbatão. Quase morri da carreira que dei num. O bicho era ligeiro e não vi a forquilha da Jurema. 

Éramos “doidas” pela irmã que pai teve com outra mulher, mas a bichinha não resistiu. Acho que morreu por falta de leite da mãe. Naquele tempo morria muito menino de fome. Teve uma mulher que veio deixar sua recém-nascida para mãe criar. Ela disse, já tenho oito. Jogue no rio. Mãe sempre foi vexada. Está no hospital, né pai? É... será que vai ficar boa? Vai, está bem animada. Olhe aqui o vídeo dela cantando. A filha que chegou da capital, mostra-lhe um vídeo que foi gravado quando os doutores da alegria passaram no quarto poucos dias antes da sua morte. Ele a observa e diz: diga a ela que venha para casa que eu já estou com saudade!


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 23.09.2022 — 16:14




quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O MUNDO ESTÁ DE OLHO - Heraldo Lins

 


O MUNDO ESTÁ DE OLHO


Aqui é como se fosse um armazém onde eu deposito minhas ideias. Enquanto não chega o clarão dos céus dizendo o que devo escrever, escolho a espera como ponto central da matéria. Nunca gostei de esperar e acredito que ninguém gosta, no entanto, levando em consideração que não adivinho o que vem à mente, deixo-me levar para onde essa força quer que eu vá. O bom é que essas dúvidas me estimulam a manter o canal de comunicação limpo para não perder a pena.   

Sei que aqui não é lugar para devaneios, todavia fugir um pouco da regra é satisfatório, até por que regras foram feitas para serem quebradas, com exceção das eleitorais. Eu falo é sobre quebrar as regras da literatura na hora que o escritor quiser e o editor permitir, no entanto seria um crime por omissão não falar que a democracia está na corda bamba. Aí sim, o assunto dá uma guinada para o pesado. Democracia é muito mais que falar suavidades, e eu pensei que ela estava segura, imagine! 

Dentro desse contexto democrático, há um monstro que cospe palavras e se eu não o inibir, ele chega a endurecer a “parada.” É um monstro que habita os pesadelos da violência acreditando que é melhor que ninguém escreva para que ele se mantenha arrotando bombas ao bel-prazer. 

Mesmo tendo essa liberdade de transitar por onde quero, preciso continuar utilizando a doutrina da ditadura literária para manter as pessoas algemadas aos meus textos. 

Acho que vou dar o golpe, e, se for bem-sucedido, poderei escrever muito mais. O que importa é me manter junto com a família da pontuação e o exército das palavras. No entanto, se eu falar em neve, pouca gente conhece. Há pessoas nem sabem que depois do degelo o branco vira lama, por isso muitas preferem ficar em casa evitando pisar no lamaçal. 

A maioria imagina que quando a neve deixa de cair, o solo fica seco e ela se evapora sozinha. Pura fake news. É lama de fazer inveja a chiqueiro de porco, porém nunca pisei em neve e também nunca fui torturado, entretanto sei como é que é. Acho que nem é bom dar "cabimento" porque senão tudo vira tá tá tá tá...  

Ultimamente estou sendo influenciado pela insegurança eleitoral que ronda o país. Queria registrar algo sem muita utilidade, porém ao abrir os olhos vejo soldados marchando sobre as queimadas da Amazônia com botas de bico largo, feitas de couro de broxa, prontas para pisar na liberdade também.

Em cima do sofá há três almofadas desarrumadas com algumas medalhas atrapalhando o visual. Aqui é apenas a descrição da minha sala, nada de fazer comparação com qualquer instituição. Há um lençol cor de vinho protegendo os assentos, de sangue mesmo, só a aparência, por enquanto. Ao lado há um espelho simbolizando a democracia. Percebemos que daqui a alguns dias ele pode ser estilhaçado, então temos que proteger o espelho dos vândalos através do confirma, sem esquecer que nenhum militar “passou no concurso para ser rebaixado a vigia de urnas.”    


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 22.09.2022 ─ 07h53min



Veja no Youtube:

O MUNDO ESTÁ DE OLHO







A MULHER AURORE, A ESCRITORA GEORGE

 

A MULHER AURORE, A ESCRITORA GEORGE

Liliane Mendonça 22/09/2022

 

Como a Suíça, George Sand domina seus vizinhos,

ela sabe como olhar para eles, os contemplar.

Gustave Flaubert.


 



 

George Sand nasceu em 1º de julho de 1804 e morreu em 8 de junho de 1876. Era filha de Maurice Dupin, bisneto do rei da Polônia Augusto II, e de Sophie Delaborde, que tinha sido uma criança pobre cujo pai era um vendedor de passarinhos.

Sand escreveu mais de noventa romances, muitos contos, inclusive para crianças, artigos em jornais e peças de teatro. A escritora também trocou uma longa correspondência, composta por mais de 20 mil cartas com diversos escritores, políticos e intelectuais, entre eles podemos citar Marie d’Agoult, Balzac, Charles Augustin Sainte-Beuve, os dois Alexandres Dumas (pai e filho), Delacroix, Pauline Viardot, Louis Blanc, Pierre Leroux, François Buloz, o príncipe Napoléon-Jérôme, Gustave Flaubert, e o músico Frédéric Chopin, com quem teve uma relação amorosa.

Sand escreveu romances urbanos e rurais, nestes usando vários termos da variação linguística do Berry, região do interior da França onde cresceu: champi para abandonado, de suite para imediatamente, em vez de tout de suite. Entre os romances rurais que escreveu estão La Mare au Diable, François le Champi, e La Petite Fadette, nos quais a escritora acaba trazendo a experiência de sua relação visceral com a terra para sua escrita.

Sand se preocupava com o meio ambiente do qual se sentia “uma parte, pedra, planta ou pássaro (mais que borboleta)” (PERROT, 2018, p. 283). Em maio/2022 foi citada num programa da “rádio francesa” como primeira ecologista francesa, por ter escrito um manifesto para proteger a Floresta de Fontainebleau do desmatamento. Suas últimas palavras também foram para a natureza, ela diz: “Deixem... vegetação”.

Romancista romântica, Sand foi esquecida depois de sua morte em 1876, ainda que tenha virado nome de ruas e de escolas na França, mas enquanto viveu era uma autora muito presente no meio intelectual francês do século XIX. Foi a única mulher a participar dos “jantares literários” frequentados por escritores e editores da época, como Saint-Beuve, Louis Hyacinthe Bouilhet, os irmãos Jules e Edmond de Goncourt, Hippolyte Adolphe Taine, Théophile Gautier,  Ivan Tourgueniev e Gustave Flaubert.

A escritora sofreu preconceitos por causa de suas escolhas. Em “História da Minha Vida”, sua autobiografia, Sand conta que ao saber que ela trabalharia como escritora, sua então sogra teria dito “Eis uma ideia estapafúrdia!”, além de pedir à escritora que não colocasse o sobrenome da família “em capas de livros impressos”. Sand ainda seria considerada por muitas pessoas da sociedade como uma mulher “perdida”, simplesmente porque escrevia.

 

 

No Brasil entre 2014 e 2021, cinco de seus livros foram traduzidos, quais sejam: O Carvalho Falante (2014), História da Minha Vida (2017), François, o Menino Abandonado (2017), As Damas Verdes (2020) e Lendas Rústicas (2021).





 

 

 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

ESCUTAMOS CADA UMA!... - Heraldo Lins

 


ESCUTAMOS CADA UMA!...


Ao longe, uma onda quebra-se na areia igual a tantas outras. Banhistas dão cambalhotas tentando ser felizes aproveitando o mar que ainda é de graça. Enquanto uns aproveitam o astro-rei no motor da diversão, o sol arde mais intenso nas costas de quem precisa se expor para conseguir comida. 

As mulheres chegam e nem pedem licença para serem mães no sentido puro da palavra. Fujo delas quando as vejo amamentando em público. Aquilo deve ser usado como instrumento de sedução, mas transformado em dindim da Nestlé, deixa-me triste.    

Ontem também fiquei acabrunhado quando me deparei com uma jovem de cabelos verdes, entretanto não era uma extraterrestre, ainda bem. Fazia parte da turma do rapaz de chapéu preto, meias por cima das calças e casaco de calor. Agora é assim. Casaco virou indumentária para segurar o bafo do corpo dando provas o quanto se está disposto à autotortura.   

Mais adiante um guarda olhava a cena caminhando de um lado para o outro. Quanto será que está ganhando para vigiar uma porta aberta? A impaciência o fazia andar esperando o horário chegar para fechar o estabelecimento. 

Parei para conversar e recebi um pedido de ajuda. Seu plano estava atrasado e precisava quitá-lo. Para me sair dessa, disse-lhe que os planos de saúde continuam torcendo pelo sucateamento do sistema. Argumentei, tentando distraí-lo, que para a classe dominante é bom que exista um intenso consumo de bebidas, drogas, fumo, com o objetivo de dar lucro e adoecer quem teima em permanecer sadio. 

Para a roda girar, é necessário que todo mundo adoeça, disse o meu amigo, dono do hospital e sócio do restaurante. Eu mesmo, disse ele, tenho quatro pontes de safena! Deu uma gargalhada e ainda acrescentou: nada se leva dessa vida, a não ser a doença.  


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 20.09.2022 ─ 16h52min




FRAGMENTOS DO SERTÃO - Jair Elói de Souza

 




FRAGMENTOS DO SERTÃO

Névoa estirada na serra...assim que passou a chuva, que não foi rápida, peneirou por muitas horas, naquele chão de coronéis e verdugos.
Mas, antes que o milho vire sabugo...ah! Haja o pendoar! As flores do milharal no viço recebendo abelhas...que reluzindo em centelhas colhem o néctar enchendo favos! Que até raposas em manhãs de sol sobejam o melaço...E no bagaço de velhos banguês, onde ainda adormece o suor cativo. Pretos nativos da Serra do Catolé, com as zabumbas e pífanos a coreografar as danças dos ancestrais. Isso sim, é que é cultura,
Nas furnas escuras onde o felino, por horas a fio, auscultava o toque do chocalho de reses avulsas, barbatões fugitivos de vaqueiros que encorados, no lombo de pangarés, afrontavam a caatinga, que tecida de espinho, maravalha e cipoal cumpriam o seu ofício. Onde caminhos são veredas, andanças de cangaceiros, de tocaieiros escanchados nas galhadas de umarizeiros, esperando sua presa...
Terras de tropelias, dos currais de gado vacum, adentrando as aguadas, expulsando o nativo de seu pasto e sua caça, galegos vindo em navios das terras d'além mar, a povoar o Sertão a fogo e a brasa e ferrão.
J.E S.





segunda-feira, 19 de setembro de 2022

MASTIGANDO SEM PRESSA - Heraldo Lins

 


MASTIGANDO SEM PRESSA


Sair deste mundo para a realidade nem sempre é uma boa opção. Mesmo que exista uma ponte construída nas referências, é praxe segurar ideias para futuras reciclagens. 

Todos os dias, chega um cardápio oferecendo-se para ser escolhido. No restaurante da página, já saboreei uma paçoca de crônica, feijoada de romance e sobremesa de conto. A potência energética dada por eles é variada e muito eficaz, sendo que o poema é um lanche tomado depois da ceia, enquanto o ensaio é um caldeirão para mais de um mês de consumo.

Dia desses, durante o almoço, provei um aperitivo poético que me deixou meio embriagado. O gosto era de "quero entender", porém não pude ingeri-lo, à exaustão, com medo de meter os pés nas pedras. Ele foi para o rol da experiência, apesar disso não sei se o compreendi com todos os possíveis significados, só posso dizer que me deixou pensativo até hoje. Tenho certeza que voltarei a ele, quando passar a lembrança do tropeção.  

Viajo praticamente cinquenta páginas, ou mais, atrás de novos sabores, e gosto muito de deixar sucos de palavras para outros terem acesso aos respingos da minha experiência. A cada dia, novos paladares são propostos com o objetivo de expor algo inédito que irá alimentar quem sente a mesma fome. Com tanta chuva de conteúdos por aí sendo oferecido de graça, fica difícil a escolha, ainda assim o que importa é o discernimento ficar apto a escolher quais novas formas de cozinhar palavras podem ser praticadas.  

Chegar ao final é tão complicado quanto começar. Escolher os ingredientes que irão compor o alimento da alma passa a ser estafante, no entanto prazeroso. Para cozinhar uma historinha, qualquer que seja ela, às vezes me custa o dia inteiro pelo fato de que não é fácil misturar gerúndios com particípios, inserir uns "aindas", outros "assins" dando forma ao cozido num processo de experimentação que, muitas vezes, de tanto botar, esquentar, tirar, esfriar, resta apenas a alternativa de jogar fora. O cozinheiro de palavras é um tradutor dele mesmo e precisa estar atento às redundâncias que anunciam a hora de desligar o fogo.

No caminho, tudo pode acontecer, desde uma palavra mal dita ou ao contrário, entretanto a chama deve estar acesa no ponto da desconfiança. O bom dessa refeição é que ela pode ser degustada por milhões e nunca se acaba. Às vezes precisa somente existir para, a qualquer hora, ser usada na sobrevivência de quem gosta de comer ideias. Faz tempo que a única preocupação que tenho é cozinhar na panela do bom-senso e da satisfação.   

É difícil fugir para dentro de si mesmo, contudo essa viagem evidencia um forte prazer ao ser liberada para conhecimento público. Na busca pelo prato perfeito, quase inalcançável, deve-se entrar no silêncio para que o barulho venha à tona. Sofrendo ou gozando, dependendo do que se escolhe para cozinhar, essa é a realidade de quem acredita na motivação como sendo o melhor tempero.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 19.09.2022 – 17:27



domingo, 18 de setembro de 2022

PREVENDO A REALIDADE - Heraldo Lins

 


PREVENDO A REALIDADE


O dia estava quente com as nuvens fazendo sombras no mar. A visão panorâmica lhe trazia paz e sempre se apresentava diferente a cada amanhecer.   

Havia banhistas ao longe lhe deixando dúvidas se gostaria de descer a ladeira para participar da farra mulher/natureza naquelas ondas límpidas e cadenciadas. 

Em frente à sua varanda, todo aquele início de águas, aparentemente sem fronteiras, servia de adubo para sua vaidade. Ao receber visitas, muito lhe interessava ouvir os elogios sobre sua aquisição. Outros apartamentos existiam por perto, mas com aquela vista eram poucos. Nem pelo dobro do que havia investido, alguém poderia comprá-lo. Não estava à venda, fosse qual fosse a oferta. 

Sempre aquele cartão postal seria motivo de orgulho, contando ainda com um parque protegido pelas leis ambientais. Tocar na areia ou mesmo mergulhar, já não era seu objetivo. Acostumara-se em apreciar a beleza com uma pontinha de altivez enquanto apreciava o encontro do céu com o oceano, da sacada do vigésimo andar. Isso era a verdadeira poesia viva, com ondas, ventos e sóis, pois no seu poema havia mais de um sol, o natural e o dele em plena concepção do eu engordado. 

Gostava que o desjejum fosse servido na mesa bistrô, e quando de férias, nem saía para outros lugares. Ali recebia pessoas de outras nações que vinham apreciar a paisagem, por isso viajar não mais lhe despertava interesse.  

Quando criança, aquele prédio nem existia. Com o tempo a cidade foi alargando seus tentáculos e hoje é um dos lugares mais valorizados. Naquela época, ele vinha do interior banhar-se naquele mar que nem imaginava ser por ele apreciado dali. Mais tarde, o bosque seria usado para namorar escondido. Achava sempre um lugar para se esconder na vegetação nativa. Fazia o que fazia sem sonhar que houvesse perigo de ser pego por alguém do mal. De certa forma, aquelas aventuras eram pouco vigiadas. As queimaduras, no outro dia, faziam parte da identificação de ser bem articulado entre as que lhe ensinavam a arte do amor. 

As louvações, quanto a ser bairro turístico, não paravam de crescer. Tudo acontecia naquela praia. As inocentes meninas do interior, com suas marmitas prontas para o almoço, sumiam pouco a pouco dando lugar a barracas que até para se sentar cobravam taxas. Passou a ser frequentada por larápios em busca de uma oportunidade, enquanto as pessoas mais abastardas foram saindo para condomínios distantes. Um dia, chegou ao poder um que defendia novo plano diretor. Ele nunca ouvira falar nesse tipo de plano, por isso não acompanhou as discussões para tal elaboração. Antes do final do ano, o projeto para construção de arranha-céus foi votado e aceito sem restrições. O tempo passando e as construções, inicialmente inofensivas, passaram a impedi-lo de ver a praia, depois o coqueiral, o morro e por último o mar, que ele tanto se vangloriava de ter sido captado pelas suas lentes. 

O que restou foi somente a luz do sol com um pouco de brisa sendo barrada pelos prédios à sua frente. Não conseguia pensar qual seria a solução. Poderia ter economizado para comprar um dos recém-construído e ficar ostentando seu troféu para os familiares que, por sinal, moram por lá sem ao menos convidá-lo. 

Os dias seguem-se angustiados e ele nem mais se dar ao trabalho de ficar onde costumava. Enfurnou-se no computador e passou a escrever suas memórias, e essa é uma delas.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 17.09.2022 ─ 18:14



sexta-feira, 16 de setembro de 2022

DEVANEIOS EM OUTRO NÍVEL - Heraldo Lins




 DEVANEIOS EM OUTRO NÍVEL


Fui dormir dentro do tempo. Eu sabia que estava na data de ontem porque o sono atrasado clamava para ser recuperado. Olhei para a madrugada que, por motivo de sintonia, ficava brigando com a noite querendo tomar o seu lugar. O barulho daquela briga quase me expulsou do leito.

Lembrava-me ter sido hospitalizado à época que nem se falava em viajar por dentro do espírito. O efeito daquela situação estava potencializando o meu cérebro, afinal, durante esse tempo todo só me entretive observando o sangue sendo reciclado. 

O fato de estar vegetando há décadas, fez-me produzir pensamentos onde tudo permanecia na cor vermelha. A necessidade de adentrar em outra realidade foi sendo planejada aos poucos. 

Minha mente apresentava indícios de que o corpo estava destinando cada gota de sangue para lugares que eu ignorava existirem. Era como se fosse uma floresta sendo vasculhada onde algumas árvores serviam de antena para captar os raios do futuro. 

Um dos neurônios avisava o que estava para acontecer, e os demais produziam imagens baseadas no comando recebido. Senti uma refrigeração no cérebro ao perceber que em certo momento todos foram liberados dos traumas. 

Muita força e discernimento chegava dizendo para me levantar. Por não acreditar que fosse o instinto suicida falando, puxei as instalações do cateter e, nesse momento, recebi um choque avisando-me que a gerência havia sido transferida para um ambiente totalmente isento da minha vontade. 

Meu livre-arbítrio estava desabilitado, disse-me um vulto. A partir daí foi só soluções. Acabara de sair do meu próprio domínio passando a obedecer ao que vinha sendo dito pelos pequenos seres pensantes existentes no meu cérebro. 

Busquei me adaptar ao novo comando avisando a mim mesmo que chegara a vez de ficar longe das dúvidas e bloqueios. Sozinho, levantei-me e fui seduzido por um brilho no chão indicando qual caminho tomar. Na hora de levantar os pés, cada perna recebia uma ordem. Esqueci-me das dores de cabeça e fiquei degustando o prazer de estar voando. 

Meu corpo servia de ponte entre o agora e o depois. O efeito daquele transe migrava para todas as células reconhecidas por mim. Fui andando e finalmente entrei na rua larga da saída do prédio em busca de uma casa que nem existia mais. 

Procurei manter-me respirando sem me preocupar que a tropa estava chegando. Soldados de branco aproximaram-se, mas não me tocaram. De mãos dadas todos me acompanhavam como se eu fosse o cabeça de uma revolução transparente. Fomos caminhando e invadindo lugares e mentes de quem ficava exposto ao meu campo visual. Tentei sustentar as ideias na origem, mas elas foram saindo junto com as lembranças, até então, guardadas não se sabe onde.  

Estilhaços dos tabus voavam deixando-me livre da vergonha. Procurei algum referencial no porão do inconsciente, todavia o barulho ia me dizendo que ele estava sendo reciclado para servir na função criativa. Outra indefinição apareceu para me guiar. 

Chegou de forma tímida e depois foi atendendo, com desenvoltura, minhas vontades enquanto uma canção passou a ser ouvida mascarando alguns gritos ouvidos ao longe. Aconteceu um clarão que limpou as consciências dos mal-amados e criminosos que seguiam a procissão. 

A fumaça veio sem que eu pudesse ver onde pisava. Um portal à frente se abriu e todos os que me acompanhavam tomaram à frente e foram sumindo pouco a pouco enquanto eu perdia o controle das pernas. Não dependia de mim, adentrar aquele recinto. Eu estava nas mãos dos meus pés que, por sua vez, obedeciam à outra gestão. Fiquei esperando para ver o que acontecia. O portal continuava aberto e livre de fumaça.  

Naquele momento, alguém veio e disse algo incompreensível. Diante da minha total ignorância, os neurônios conseguiram se reprogramarem e, juntando forças, deixaram-se levar pelo sono. Mesmo eu não conseguindo permanecer deliberando cotas de vontades, fiquei observando para onde minhas ideias iam e aproveitei para assistir, sem poder interferir, o espetáculo da minha própria existência.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 16.09.2022 ─ 11:11



quinta-feira, 15 de setembro de 2022

ANTAGONISMO DO SER SOCIAL - Heraldo Lins



ANTAGONISMO DO SER SOCIAL


O destino, com um sorriso permanente, guiava-os pelos caminhos da vida. Um toque de otimismo, sempre a tirá-los para longe das dúvidas, fazia se sentirem à vontade um com o outro. A graça total dava ao encontro um clima de festa desprovido de qualquer segredo. Pareciam pássaros libertos da gaiola das expectativas. O regozijo aumentava a cada encontro, assumindo um tipo de cartão postal na relação. Aos poucos, as emoções transformaram-se em continentes sem fronteiras adubando o solo da felicidade. 

A chuva caía fina prendendo a moça em casa. Ela sentia frio com os lábios “embatonzados” sem esperança de poder ir. Suas ideias estavam distantes, bem além daquele vidro que a protegia do urro do sapo boi: - "Meu pai foi rei!"- "Foi!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". Por coincidência, acabara de ler o poema e nem se dava conta que estava vivenciando a poesia em seu jardim. 

Havia contentamento além do normal, significando que aqueles duradouros sorrisos vinham para serem distribuídos com grande desprendimento. Expressividades contagiantes por onde passavam fazendo quem estava por perto se sentir influenciado. 

O quanto havia sido boba em acreditar que estaria perto dele naquela noite, disse angustiada, e, para diminuir a ansiedade, rasgou as páginas do livro sem se importar se havia sido emprestado. 

Nada mais havia para ser explorado em matéria de satisfação. Muitas palavras eram ditas e nem tinham tempo para ir por caminhos diferentes, já que os olhares tendenciavam-se para continuar gerando infinita prosperidade naquela estrada alegre da convivência. 

Achava-se uma pessoa tímida com a violência domesticada pelos prejuízos que tantas vezes causou. Basicamente era filha única, já que o irmão saíra cedo para estudar fora e ela ficara com todos os mimos dos pais.  

As cores, por onde iam passando, se mostravam cada vez mais vivas nos canteiros do deleite sem mostrar qualquer dúvida quanto ao amor. A vontade transformada em algo que fazia a atração se tornar cada vez mais forte, um estimulando o outro a produzir seu próprio bem-estar, por algumas horas, após cada encontro. 

Quando estava sozinha, tinha facilidade em se entediar até em assistir ginástica olímpica que tanto gostava. Envenenara-se uma vez apenas para sentir emoções fortes e causar outras em quem a amava, argumentando ser necessário experimentar de tudo um pouco para saber o que escolher no futuro sem capa nem contracapa. 

Embrenhavam-se no relacionamento sem um mapa dizendo qual projeto deveriam seguir para viverem bem. Iam simplesmente dando asas à intuição desenrolando-se uma espécie de consentimento com sinceridade. Cada encontro era mais interessante do que o anterior. Esses arroubos de fantasias, insistiam em mantê-los conectados em seus delírios como se tivessem nascido da mesma placenta ou vividos unidos pelo cordão umbilical em subterrâneos inexplicáveis. 

O fato de que precisava manifestar-se de forma diferenciada, fez-lhe pensar sobre a relação. Apesar de nem precisar forçar seu querer, percebeu que isso a impulsionava a ter outras ideias parecidas com a que teve há dois dias registrando tudo que via, sentia e ouvia, e isso lhe dava combustível extra para permanecer em atividades distintas. É o tipo da coisa que vai aos porões do subconsciente transcendendo a beleza da intimidade, amando quem chega primeiro e entendendo o que inibe o entusiasmo.  

Decidiram se casar. Confiantes, não se deixaram abater por olhares em direções opostas, envolvendo-se de corpo e alma com os recém-nascidos. Dez anos se passaram na mais perfeita harmonia. Aquele relacionamento assemelhava-se a uma sinfonia sem erros nem paradas. As semanas traziam mais capítulos da extensa história real registrada na fotografia da memória de outros nascimentos. Muito mais do que o bom e o bem os mantinham juntos, sem saber explicar o que era. 

Na separação dos corpos, percebeu que estar sozinha é um passaporte para territórios mal-assombrados. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 15.09.2022 — 12:24