APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

LÍNGUAS, NAÇÕES E ORTOGRAFIAS - Ricardo Dantas


“A resistência dos índios Makuxi é digna de admiração.”

A frase acima proporciona-nos dúvidas. Porém as dúvidas não são decorrentes a resistência dos indígenas, muito menos em se admirar pela dignidade deles resistirem. O ponto central a ser discutido e analisado é justamente envolto do vocábulo “Makuxi”.

Recentemente ao ler “Manual da falta de estilo”, editado em 1994, de Josué Machado, formado em Línguas Neolatinas pela PUC de São Paulo, deparei-me com a crônica “A língua a reboque” que abordava as implicações ortográficas do vocábulo “Yanomani”, que provavelmente por influência dos etnólogos, estrangeiros ou não, escrevem-se os nomes das etnias indígenas no singular, com k, y e w e inicial maiúscula.

Obviamente que muitos estudiosos de linguística irão argumentar que, de acordo com a nova reforma ortográfica da língua portuguesa, foi efetivada a inclusão das letras K, W e Y no alfabeto, pois não eram consideradas parte dele desde a reforma de 1911 feita pela República e, posteriormente na de 1934 (época do militarismo no Brasil), por serem vistas como estrangeirismo. Entretanto, o dicionário “Makusi Maimu” (Língua Makuxi) em sua primeira edição de 1983 apresenta em seu alfabeto seis vogais (a, e, i, î, o, u) e dez consoantes (p, t, K, m, n, r, s, W, Y).

É provável que etnólogos apresentem a seguinte defesa quanto a essa configuração: “Os Makuxi, como um povo autêntico que constitui nação, podem sim escolher quais letras irão fazer parte de seu alfabeto!”. É de suma importância frisar que “Makusi Maimu” foi financiado pelas embaixadas canadense, britânica e alemã além da igreja católica apostólica romana. Vale ressaltar que esta informação está longe de ser uma manifestação xenofóbica e muito menos niilista. É apenas uma informação, relevante para formação de opinião.

Aceitaremos o uso de k, w e y, mesmo porque com a inclusão das consoantes no alfabeto da língua portuguesa, está bem claro que pode usá-las em antropônimos originários de outras línguas e seus derivados. Mas em relação à outra regra da gramática? Em português os substantivos e adjetivos são variáveis em gênero e número. Porém de acordo com a gramática do “Makusi Maimu”, a formação do plural em palavras indígenas dá-se acrescentando um sufixo ao singular. Então é certo afirmar que o correto seria escrever “os Makuxi’kon” ao “os Makuxi”. No entanto, escrevendo-se em português, o correto seria realmente “os Makuxis”, obedecendo às regras.

E quanto a usar letras maiúsculas para o vocábulo “Makuxi” sem estar iniciando uma oração? A meu ver, realmente neste caso é puramente opcional. Geralmente, não se escreve “os Brasileiros”. Porém escreve-se o vocábulo “Estado” no meio de uma frase com inicial maiúscula quando se refere unicamente a uma nação politicamente organizada. Parafraseando Josué Machado: “Escrever Estado, Nação, Pátria, Família, Liberdade, Igreja, sistematicamente com maiúscula inicial, só por muito patriotismo e respeito, em discurso de militar...”.

Em meu primeiro romance, “Meia Pata”, optei, por falta de repertório de conhecimento, em escrever “os Makuxi”. No meu segundo romance que estou escrevendo, com tema literatura indígena, obviamente sendo escrito em português, poderei utilizar “os macuxis”! E se eu mencionar “os Yanomami” terei também a opção “os ianomâmis”, pois no novo acordo ortográfico recebem acento as paroxítonas terminas em: L, R, N, X e I (seguidos ou não de “s”).

Ricardo Dantas
Biólogo e escritor
ricardo-biologo@hotmail.com