APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A CRÔNICA DO TEMPO DE MEU PAI - Naílson Costa


Caro Destino, hoje te escrevo pra queixar-me do Tempo. Às vezes me pego pensando quão bom seria se pudesse frear, avançar ou até voltar o Tempo! Sabe, Destino, hoje sinto tanta saudade de meu pai... Seria tão bom que eu o voltasse! Quando ele é bom, a Vida é rápida. Quando a Vida é boa, ele voa. O Tempo, caro Destino, é cruel. Ontem via o sorriso lindo de meu pai. Hoje apenas lembro e sofro. Na verdade, ele não me deu tempo pra dizer ao meu velho o quanto o amava. Não tive a honra de conhecer o meu pai criança. O Tempo não deixou. Mas imagino-o correndo e brincando nos leitos secos dos rios da Baixa-Verde, em São Bento do Trairi, onde nasceu. O Tempo também não me deixou contemplar a juventude de meu pai. Teria eu o imenso prazer de conhecê-lo em suas conquistas, em suas aventuras, venturas e desventuras. Hoje a Vida só me permite vê-lo nos acordes e nas rimas fáceis dos cantadores de viola. Apuro os ouvidos, ouço sua Vida com atenção, vejo meu velho querido e o Tempo me faz chorar. São chuvas de lágrimas salgadas semelhantes às de meu pai ao plantar na Baixa Verde, no torrão semi-árido rachado pelo Tempo, a Vida e não poder vê-la do chão brotar. O Tempo, caro Destino, não tem sido bom. Queria voltá-lo. Ele nunca permitiu o verde nas colinas da Baixa-Verde ou na caatinga do meu sertão. O meu pai também chorou o Tempo. Se ele me deixar, amanhã verei novamente as fotos de meu pai brincando de bola com o meu filho e perceberei que o Tempo escreve linhas em meu rosto. Sei que tudo passa, menos tuas palavras. Mas elas têm que ser escritas para ele não destruir, pois ele tem pressa. Não espera por ninguém. Até o cheiro de meu pai impregnado em suas roupas ele apressa-se em apagar. O mau Tempo soprou as folhas da crônica de meu pai, as flores subiram ao céu e a ventania veio mais forte. Preciso escrever a poesia de sua Vida antes que ele a apague em minha mente. Quando o Tempo pretérito não é perfeito, veem-se na TV enchentes, secas, furacões, terremotos, fome, pestes, mortes, tudo de ruim. E os mais velhos dizem que são os sinais do Tempo. Escreveste a Vida de meu pai. E mesmo por linhas tortas, escreveste certo. Acho, entretanto, que o Tempo não soube bem interpretar tuas parábolas. Ainda vejo meu pai em sua casa, brincando, filosofando e sorrindo com a crônica de seu Tempo. Nas tardes de inverno, os relâmpagos riscam nos céus o nome de meu pai. Os trovões bradam mais intensamente em sua ausência e as águas são páginas de meus sentimentos. Queria, caro Destino, dele ter acertado as previsões. Não fui capaz e agora me queixo a ti. Papai foi vítima de seu próprio Tempo, que não soube explorar com paciência a grandeza de seu Destino e a sabedoria de sua Vida.

Nailson Costa, 15. 10. 2005