APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


sábado, 24 de setembro de 2011

APRESENTAÇÃO E CRÔNICA DE ROGÉRIO ALMEIDA _ Gilberto Cardoso


Rogério Almeida, que aparece nesta foto, é um potiguar que reside na Alemanha. Apesar do muito tempo em que vive fora do Brasil - depois de viajar por diversos lugares do mundo -  jamais se desprende de suas raízes em Santa Cruz e em Natal. Pelo contrário, a cada dia parece crescer seu amor por nossa gente, pelos amigos e familiares que aqui permanecem. A cultura nordestina  tem sido  propagada por ele em todos os lugares onde passa.
Pretendemos criar um espaço neste blog em que ele nos falará de suas vivências interculturais e reflexões através de textos de sua autoria e de outros que traduzirá do alemão  para o nosso deleite. O texto abaixo é de sua autoria:





O patético da guerra e a tirania da beleza

A sala ainda está praticamente vazia poucos minutos antes da aula de tradução. Cadernos, livros
e canetas começam a saltar das bolsas, aqui e acolá arrasta-se uma cadeira. Não demora e a única
distração para a espera no ambiente adormecido é olhar a chuva fina e interminável que embaça as
janelas, a menos que se prefira as tabelas de tempos verbais.

Definitivamente, fico com a chuva.

Já passa da hora e o corredor continua mudo, o que nos dá a certeza de pelo menos mais alguns
minutos de atraso, pois em dias de pontualidade os tamancos da professora costumam denunciar
sua chegada desde o térreo.

Confesso minha satisfação e até a simpatia crescente pela chuva, que agora é forte e me transporta
para paisagens distantes. Só mais alguns minutos disto e a velha argentina terá minha eterna
gratidão. Inocente de mim, porque pedir paz é sempre pedir demais. A conversa sussurrada que
irrompe num canto da sala seria motivo suficiente para uma praga bem rogada. Mas desta vez passa.
Afinal, ela me fez rir.

A mocinha de franja dourada e pronúncia nada delicada volta-se para o sujeito ao lado e dispara em
total desobediência às regras da boa comunicação, num verdadeiro assalto verbal que o apanha com
as calças na mão.

- Você é aqui da cidade?
- Eu? Bem... sim, e você?
- Russa.

O silêncio volta ainda mais constrangedor. Aqueles olhos imensos permanecem soberanamente
imóveis, indiferentes à tortura do miserável que, impotente diante da tarefa nada simples de
entreter uma mulher quando ela assim o exige, agarra-se à primeira tábua que lhe passa à frente no
naufrágio das idéias e me sai com a asneira que só aquela esmagadora falta de ar justifica.

- Russa? Minha avó contava que na guerra gritavam pelas vilas "os russos estão vindo! os russos
estão vindo"!
- Engraçado, a minha contava a mesma coisa, só que o grito era "os alemães estão vindo"!

A russinha ri com todos os dentes no momento em que a porta se abre. Desconfio que a agonia de
meu colega não seria maior se estivesse no cerco de Stalingrado.

Como pesam aqueles olhos, meu Deus...

- Página 45!

Fim da guerra.

As ditaduras venceram.