APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

APROVAÇÃO E REPROVAÇÃO EM DEBATE





Iniciei um debate com Nelson Silva (membro da equipe pedagógica do CEN, Assessor Pedagógico na FME, funcionário da AEPE) , com o professor de Biologia André Vesper e com o professor Maciel, conhecido educador de Japi, sobre meus dilemas de final de ano quanto a aprovar ou reprovar determinados alunos. O debate começou no Facebook e agora se estende por aqui. Peço a  Nailson, professor Ivanilson, Teixeirinha, professor João Maria, André Soares e a pais e alunos que nos leem, interessados na discussão, que se posicionem quanto ao tema e entrem no debate. 

GILBERTO:
Tenho alunos em 8º e 9º anos com sérias dificuldades de leitura escrita. Um deles escreve EMCHERGAR; outro, FASSO; outro, ajente; outro, aminha, outro escreve nia para dizer minha; outro, ESCOLAR para dizer escola.A letra destes, em sua maioria, dá dó.
Será culpa deles, resultante do desinteresse? Passaram em outras matérias. Se reprová-los, poderão cursar a série seguinte e pagar dependência. É justo isso?
Sinto-me como um juiz prestes a dar uma importante sentença.
O problema é sistêmico. Eles são os menos culpados. Engraçado que só se pensa em "punir" o aluno. Quem culpa o governador? O secretário? O diretor? Os professores? E o problema não é de culpabilização. Vai ser feito um trabalho específico para eles em 2012? Ou repetirão todas as matérias por causa de problemas localizados? Por alguns poucos anos tive tais dúvidas. Há muito não as tenho.
São perguntas válidas. Alguns desses alunos, recém-chegados doutras unidades escolares, disseram-me ou escreveram nos diários que os estimulo a fazer que não havia estímulo nem preocupação onde estudavam quanto à melhoria da letra, que nunca lhes foram apontados tais "erros". Outros, que estudam comigo há mais tempo, por mais que tente  impressioná-los quanto à importância da leitura, é como malhar em ferro frio. Há aqueles que francamente expressam seu desinteresse com os estudos em geral e que só passam em outras matérias devido as facilitações.

Nelson Silva E, pergunto-te com sinceridade : apesar de sua boa vontade, a escola é atraente?

 Há muitas coisas que não lhes são atraentes: a leitura (apesar de termos uma ótima biblioteca e um carrinho de leitura); o escrever (não me refiro à mera cópia do que se põe no quadro). Vez por outra assistem filmes, são levados aos computadores... Dizem gostar muito da escola. Há muita procura por matrícula na unidade onde ensino. Alguns, assim como ocorre com vc, nos procuram anos depois quando estão em outras escolas e dizem ter sido a melhor escola que estudaram... Dentro das precariedades da escola pública nós somos uma das melhores, acredite. Na verdade, penso eu, por mais que busquemos tornar o ensino atrativo sempre desagradaremos a algum aluno ou não conseguiremos ser tão atraentes quanto o que têm lá fora ou que seus instintos determinam.
O fato de repetirem a mesma disciplina num outro turno, Nelson Silva, mais que uma  punição pelo seu desinteresse, não seria uma maneira válida de forçá-lo a dedicar-se mais aos estudos? Não há casos de quem repita e que passe a manifestar maior interesse? Devemos aprová-los indiscriminadamente pelo fato da secretaria não providenciar um trabalho específico com eles? Não se trata aqui de mera discussão, Nelson, mas de um sincero desejo de fazer a coisa certa. Creio que faltem estudos sérios nessa área levados para análise em nossas reuniões pedagógicas. Eu mesmo julgo-me ignorante quanto às verdadeiras causas disso.

Defendo a inexistência de séries, aulas, salas de aula e outras bobices pré-históricas. Mas falo isso apenas para deixar claro o quadro geral de minhas ideias. É óbvio que a discussão em torno do que é ou não interessante é complicada : quem estabelece o que é interessante é a sociedade. Há muito tempo a sociedade é a mídia. E há muito tempo o discurso exemplar da mídia é simples : interessa ganhar. Dinheiro, fama, prestígio, o que for...Esse é o interesse da maioria. Alguns demonstram mais, outros, menos. O mundo está cheio de exemplos de pessoas que "vencem" (na lógica capitalista : dinheiro e outros quindins) sem estudar...Nós somos os que remam contra a maré. Teremos sempre exemplos lindos (e raros) dos que venceram estudando muito.
E o que faz a escola? Toma o tempo. Pede reflexão. Indica leituras. (E nem vou discutir, pois não domino, a criação de cânones inquestionáveis de leitura...). Sobre a missão : se aceitas as condições nas quais trabalhamos, nossa missão é mesmo árdua. Mostrar que tudo o que o mundo mostra a eles está errado. E o que fazer? Quando restringimos a questão somente a passar ou não passar estamos abandonando todo o contexto sistêmico.

A sociedade espera de Gilberto que eduque os meninos (quando a proposta inicial seria ensiná-los) , que independente disso os aprovem e que depois seja alvo de maior culpa pelo possível fracasso , num contexto onde todos tem a obrigação de serem vitoriosos em alguma coisa.Sobre isso Nelson colocou direitinho . Nossa escola é nos moldes do final do século XIX

Deixei em dependência um aluno do primeiro ano que não fez absolutamente nada durante o ano. Ficou retido, aliás. Um ponto em cada bimestre. Ele não ficou com raiva de mim. Ontem, depois do resultado, dizia saber que a culpa era dele. Não gosta de estudar. Sonha em ganhar a vida sendo jogador de futebol. Pergunto-me se estaria sendo justo caso o aprovasse e se tal exemplo serviria de estímulo para outros. Acaso não há pessoas que só aprendem a ter a atitude correta na base da punição? Não ocorre na educação o que se dá na sociedade? Aprovar indiscriminadamente quem faz alguma coisa junto com quem não se interessa e atrapalha os outros não é premiar o erro? Sinceramente, amigos, fico em dúvida. Um outro aluno, do oitavo ano, escreveu num texto em que solicitei que fizesse um balanço de sua vida escolar em 2011. Ele escreveu que em anos anteriores, noutras escolas, procedia como em 2011 - faltava às aulas, bagunçava, não se preparava para as provas mas sempre passava de ano. Pela primeira vez ficava em recuperação, comigo e com mais outro professor. Escreveu que agora via o quanto estava errado, que iria se interessar mais. Pois bem: a letra desse aluno e os erros ortográficos aliados à dificuldade na leitura tornam seu nível de aprendizagem bem aquém de um oitavo ano. Será que o ter sido aprovado indiscriminadamente não levou a imaginar que o que faz e deixa de fazer fica sem consequências?

Relatos são importantes. Conheço alguns semelhantes. O problema é que não conseguimos nos livrar das convenções. Só olhamos o lado da reprovação. Mas e a aprovação em massa que promovemos? E os alunos que avançam com um mínimo de conhecimento e QUE NUNCA NOS PREOCUPAMOS COM O TANTO QUE FALTOU PARA ELES? E os alunos que poderiam, facilmente, avançar no meio do ano e que ficam mais alguns meses apenas porque ALGUM MALUCO estabeleceu que todos precisamos aprender as mesmas coisas ao mesmo tempo? E a QUANTIDADE INFINITA de CONTEÚDOS ABSURDOS e deslocados da realidade que empurramos goela abaixo dos alunos? E o absurdo de subsumirmos tudo ao Ensino Médio? O aluno parece que vai fazer VESTIBULAR DESDE PEQUENO! E o discurso tacanho e canhestro de que na vida "há competição" quando SABEMOS QUE AS CONDIÇÕES SOCIAIS JÁ DETERMINAM O DESTINO DA MAIORIA? Quando estudos mostram que, ainda hoje, em média, 65% dos empregos é conseguido POR MEIO DAS RELAÇÕES PESSOAIS!!! Ainda hoje, na maioria das empresas, avançasse POR TEMPO DE SERVIÇO , mas insistimos no discurso idiotizante do mérito. E o que o fato dos professores serem desleixados (ou despreparados, ou dessassistidos, não importa) tem a ver com o discurso do seu aluno? Muito, não?

O maior problema nessas horas é que 8º/9º ao é fim da linha, e não há como um professor resolver um problema que vem sendo construído a 8, 9 anos, às vezes mais. Por outro lado, fingir que não vê e ignorar o problema também não acho que seja certo.
Independente de como eu acredito que a escola deveria funcionar, nessas horas é preciso trabalhar com senso prático. O que eu tento fazer nas minhas aulas é fazer "hora extra" de professor de português. Ensinar biologia envolve muita leitura e escrita (ou deveria), e eu tenho hábito de cobrar isso sempre que possível. Aí costuma vir uma enxurrada de absurdos. Quando são ativdades pequenas, eu costumo corrigir, além do conteúdo da disciplina, os erros de redação. E aí peço pra reescreverem no caderno, e na hora de passarem isso a limpo eles mesmos corrigem o que erraram (eles me entregam uma atividade, eu corrijo, devolvo e eles
  passam para o caderno).
Mas isso também não é muito eficiente, porque demada tempo extra meu e deles, muitos acabam não fazendo. Como última alternativa, conforme eu vejo que alguns nunca fazem essa transferência, a esses eu peço que leiam as suas respostas pro restante da sala (corrigimos tudo junto quando eu entrego as atividades), e aí ao menos uma vez eles terão de ler o que escreveram errado.
É como eu disse. Não resolve, nem dá pra fazer sempre. Mas acho que é o que cabe dentro da prática.
Outro recurso que já vi professores usando é o de copiar textos para o caderno. Isso força o aluno a escrever. É um exercício mecânico, geralmente chato, e em ...SP ao menos é quase impraticável porque agora eles têm aquela apostilinha satânica com "tudo o que se precisa saber sobre o assunto" já escrito.
Mas não vou negar que o exercício é válido também, se for ocasional.
Mas concordo com o Nelson quanto a não punir o aluno, e também acho que seja o menos culpado. A realidade escolar que eu vivi como aluno (quase toda nos anos 90) já não era uma maravilha, mas eu percebo muita diferença. Escrevíamos muito, e líamos também. E agora eu não vejo eles fazendo isso em momento algum. Até com a apostilinha, o professor lê junto do aluno (o que na prática faz com que eles escutem o professor, ou nem isso, mas não se esforcem para ler).
Acho que reprovar acaba desestimulando ainda mais, ou fazendo pegar raiva.
 Entre agosto e novembro desse ano, trabalhei com uma turma de primeiro ano do ensino médio que parecia ter saído da caixa de pandora. Quando a sala estava tranquila, eu entrava e havia só dois em ciam de mesas ou cadeiras. Em dias mais "tensos" chegaram a quebrar o vidro da janela e o ventilador da sala. Eu estava adotando a velha técnica de "ensinar para os que querem aprender" (que eu acho grotesca, mas quando falta  habilidade é o que dá pra fazer, e eu ainda me considero bem inexperiente pra certas coisas... Além de minha voz ser baixa e eu não conseguir gritar muito alto... Até esse dia).
Em algum momento eu perdi a paciência, não me lembro qual foi o estopim, mas me lembro de ter gritado um "PUTA QUE PARIU" bem sonoro e eles assustaram, porque eu sou bem calmo em sala de aula. Dali pra frente eu falei uma caralhada de palavrõese terminei com um desabafo.
A idéia central era que todos os meus amigos de sala tinham escolhido trabalhar com pesquisa e laboratórios. Estudaram em escolas particulares, pagaram cursinhos caros, fizeram universidade pública e estão todos no mestrado ou empresas ganhando dinheiro. Mas eu era um dos dois únicos da minha turma que tinha estudado em escola pública e, como esse outro, escolhi ser professor justamente na escola pública, que paga muito mal e está toda de cabeça pra baixo. Justamente porque eu tinha vivdo aquela realidade e alguns dos meus professores me abriram a visão de mundo, me fizeram perceber o quanto a gente é feito de idiota diariamente. Citei uns 3 ou 4 absurdos políticos, falei que nós somos escravos, entre outras coisas... Foi uma liçãozinha de moral de uns 10 a 15 minutos, mas eles ficaram com os olhos arregalados tavez pelo susto de me ver tão alterado.
heeuehueheuh.
Comentei da vida que cada um leva (metade dessa turma trabalha durante o dia pra ajudar em casa), se eles achavam que os pais deles eram felizes de verdade, se eles se sentiam felizes de verdade sendo tratados como lixo, como se nõ tivessem cérebro, enfim... Isso tudo com uma riqueza de palavrões que eu nunca imaginei que ia soltar em sala de aula.
Quando eu terminei ainda falei "E tem mais. Eu não vou registrar essa porra em diário. Isso aqui foi uma aula vaga, porque não foi aula de biologia e eu não quero ganhar dinheiro pra passar raiva. E vocês ainda têm mais 3 minutos pra ficarem aí pensando na condição de merda em que eu e vocês estamos vivendo e se querem continuar dando risada disso". Aí eu desci as escadas, ainda briguei com a coordenadora e fui embora hauhauhauh
Na outra semana, quando eu entrei na sala, era outra turma. Eu levei uma atividade com texto de jornal, como costumo fazer, e eles leram, discutiram, deram opinião. E foi assim durante o último um mês e meio de aula.

Não estou dizendo que você precise mandar eles tomarem no cu. Mas e que às vezes, do seu jeito, se você conseguir fazer eles refletirem sobre essa condição, talvez eles passem a se interessar e queiram mudar. De alguma forma, eles têm que entender que eles são os maiores prejudicados sempre. Em algumas turmas, você faz isso com um discurso de esperança, em outras com o da catástrofe. E aí vai de "feeling". Verdade que o semestre já acabou, mas se for o caso de aprová-los, é interessante deixar claro que se eles não mudarem isso, vão ter problemas muito sérios, e logo. E se trombarem comigo no ensino médio podem ouvir um caminhão de merda huahaauha

O APRENDIZ:
A verdade é que as crianças e os jovens de hoje não tem perspectiva de futuro, limitam-se a achar do espaço de sala de aula apenas uma obrigação diária, que acabar com o bater de um sinal. Mesmo nós, educadores, estejamos tentando mostrar o contrário, temos muitas armas contra nós, pois quem é que vai querer se prender a ler um livo, se pode estar na internet curtindo jogos e mais jogos, entre outras coisas? Ao meu ver, trata-se de um problema ainda mais grave, quando percebemos as muitas famílias que jogam apenas para a escola e os professores a função de educar seus filhos, esquecendo assim de sua parcela nesse processo, já que em maior parte do tempo os filhos se encontram em casa. Para mim, alunos que não tem certa bagagem de conhecimento não devem ser aprovados, pois as consequências não aparecerão no momento, mas serão unicamente por este aluno em um futuro não muito distante. A reprovação traz consigo muitos problemas, inclusive o risco do desestimulo, mas ainda assim creio que seja melhor reprovar e esperar que este aluno reconheça suas falhas, do que aprová-lo e ser conivente com erros que só terão consequências cada vez maiores em seus futuros. Acho que erros do presente, mesmo que venham de um passado, devem ser corrigidos no presente, e para isso, é preciso que pais, escola (direção e professores) se unam com esses alunos para tentar encontrar a melhor solução.

Nailson Costa:
A grande verdade é que as metodologias atuais estão todas atrasadas, não evoluíram com o passar do tempo. O tempo de hoje é outro, digo isso todo dia a mamãe, que se espanta diariamente com o comportamento das crianças e adolescentes. Quando professor, fui cantor, poeta, dramaturgo, roteirista, até palhaço, só não fiquei nu pra chamar a atenção da galera, e tudo que conseguia após as aulas era uma tremenda sensação de que eu era inútil, aliás todos nós, e ficava a depressão, a vontade de brigar, a vontade de chorar, maldizendo e tendo vontade de fugir daquilo que tanto amava, a educação. É claro que sempre há aqueles que, mesmo achando a aula uma droga, se interessam, aprendem e cruzam a linha de chegada do sucesso, e esses são como aquelas bombinhas de oxigênio de asmáticos, um alívio para as muitas desilusões do educador. Não sei e não tenho a fórmula do sucesso, mas, se você prestar um pouquinho de atenção, observem que as pessoas mais competentes deste país em educação não estão nos cargos mais importantes com poder de decisão, e isso faz a diferença sim. 
Preocupo-me com o futuro deste país.

Professor João MariaCAROS PROFESSORES,
Entro neste debate, primeiro, dizendo que compartilho com Gilberto das mesmas sensações de sucessos e dificuldades, pois sou seu colega de trabalho, na mesma escola e também de disciplina.
Quero dizer que quanto essas enxurradas de erros, seria até normal se fossem cometidos nas séries iniciais. Aí o aluno, segundo Marcuchi está em fase de apropriação da linguagem escrita, e se valendo da fala, que surgiu primeiro, escreve penti, ponti, ou seja faz a chamada transcrição fonética.Isso é muito válido No entanto, com o transcorrer da vida escolar, o próprio aluno vai percebendo, nesse processo que a escrita é diferente da fala e passa escrever pente, ponte. Acabam invertendo essa lógica com estudos mais avançados, como na faculdade. Ou seja, vão buscar na escrita a construção da fala. Infelizmente muitos professores desentendidos, reprovam e reprovam e reprovam estes aprendizes que estão num processo de crescimento. 
Mas como continuam ocorrendo nas séries finais algo está errado e algo tem que ser feito.Uma das possíveis causas é o distanciamento da leituras, dos livros. Um aluno que lê bastante dificilmente irá cometer esses deslizes apontados pelo colega Gilberto e que eu tenho constatado também nas séries finais do ensino fundamental.
Por enquanto é o que tenho a comentar.Logo voltarei... 

Professora Joseni Vital (Psicopedagoga, professora do Inbrad e gestora escolar ):



APROVAR OU REPROVAR? EIS A QUESTÃO!


Para responder adequadamente a esta questão necessitamos entender e

compreender como se dá a avaliação do processo de ensino e aprendizagem. Devemos

entender que a avaliação é uma estrada de mão dupla, ela não serve só para avaliar o

desenvolvimento do aluno, a avaliação vai mais longe, ela é primordial e necessária para que o professor faça uma reflexão sobre o seu trabalho em sala de aula.

A avaliação da aprendizagem escolar vem sendo alvo de pesquisas e estudos, com diferentes perspectivas de tratamento em diversas áreas, a saber: psicologia, psicopedagogia, sociologia, filosofia e política. Essa avaliação se faz presente na vida de todos os atores sociais que estão envolvidos nas práticas pedagógicas e educativas das escolas.

A avaliação é um processo contínuo de aprendizagem, não pode e nem deve se manifestar num ato único e isolado, ela deve ser realizada cotidianamente, dentro do fazer pedagógico e sempre buscando a interação do professor com o aluno.

A avaliação não pode ser entendida como um fato estanque do processo de ensino-aprendizagem, muito pelo contrário, deve ser parte permanente da atividade do professor, pois através dela será possível analisar os avanços, as conquistas e os progressos alcançados tanto pelo professor como pelo aluno. Agindo assim, cria-se a possibilidade de se realizar um trabalho de autoavaliação para a redefinição de metas e objetivos a serem alcançados por todos que estão envolvidos diretamente no processo. Para Luckesi, Hoffmann, Libâneo – estudiosos em avaliação - avaliar é um processo grandioso e não se resume a um único objetivo, ultrapassa as barreiras da mensuração, tem que assumir uma posição favorável ou desfavorável ao objeto que foi

avaliado o que levará a uma tomada de decisão: conservar o objeto como está ou agir de forma significativa e positiva sobre ele.

Observa-se porém que a avaliação, na maioria das vezes, é vista e aplicada com a função apenas de classificar, não abrindo possibilidades para o desenvolvimento do aluno e do professor qualitativamente, tendo em vista que o objeto está mecanicamente atrelado ao ato de reprimir todo o processo de ensino-aprendizagem.

Existem diversos indicadores de que os professores utilizam a avaliação para deixar o aluno tenso através do terrorismo geralmente aplicado em pequenas doses. Quais dos atores sociais presentes na escola nunca ouviu falar as famosas frases pronunciadas eloquentemente: “Não digo nada! No dia da prova vocês vão ver...” ou “Prestem atenção! Este assunto vai cair na prova...”

E, assim por diante, nos dias de prova soma-se a esse terrorismo verbal diversas ações, tais como espalhar as cadeiras para os alunos não colarem; usar óculos escuros; ficar no fundo da sala para que os alunos sejam vigiados pelas costas; fazer tipos diferentes de prova para a mesma turma; se algum aluno fizer alguma pergunta o professor responderá que não sabe de nada, esqueceu tudo.

A avaliação sob este paradigma limita-se a apenas colher informações sobre o que o aluno consegue solucionar na prova, sem criar as condições para uma possível aprendizagem de conteúdos ainda não assimilados, consequentemente torna-se apenas uma medida para a classificação.

Sendo assim, todos os instrumentos avaliativos são empregados para aprovar ou reprovar o aluno, mostrando assim o lado excludente da escola, causando muitas vezes altos índices de evasão e repetência. No contexto escolar, a discussão sobre esse tema é permanente na busca dadefinição verdadeira e a sua importância no processo ensino-aprendizagem, no entanto, observa-se que muito se discute e pouco se avança, pois geralmente o discurso tem cunho modernista e a prática vive dos ranços da educação tradicional.

Através da existência dessa dicotomia, a escola busca constantemente redefinir e ressignificar o papel e a função social da avaliação, no entanto, percebe-se uma grande contradição entre a intencionalidade dos professores e o que eles realmente utilizam como mecanismo de avaliação dentro do processo de ensino-aprendizagem.

Esse contrapasso talvez nasça do conceito de avaliação defendido pelas teorias progressistas, no qual a formação profissional do professor e a realidade presenciada nas escolas brasileiras advêm de uma estrutura moldada no sistema de promoção e seriação e pelas condições de trabalho nem sempre favoráveis ao desenvolvimento das atividades pedagógicas. A avaliação é um processo contínuo de aprendizagem, não pode e nem deve se manifestar num ato único e isolado, ela deve se realizar cotidianamente dentro do fazer pedagógico e sempre buscando a interação do professor com o aluno.

A avaliação deve ser utilizada para que os(as) alunos(as) e professores(as) possam observar os avanços e as dificuldades que ocorreram no processo de ensino e aprendizagem, ou seja, uma avaliação abrangente que considere cada indivíduo como um ser único e diferente cheio de motivações, expectativas, habilidades e possibilidades pessoais.

Para tanto, é imprescindível que o professor tenha um olhar pleno e global dos seus alunos, sendo imperativo colocar à disposição de todos os recursos e conhecimentos dos quais precisam para aprender, ou seja, tudo que deve ser apreendido, explicado e ensinado.

A avaliação da aprendizagem deve ser considerada como um recurso pedagógico que auxiliará o professor e o aluno na construção de novos conhecimentos e novos olhares e novos sentimentos. Percebe-se, portanto, a importância da avaliação no processo de ensino e aprendizagem e, em especial, no espaço da sala de aula e na relação dicotômica professor-aluno. 



FÁTIMA SENA (Mestra em Língua Portuguesa):
Professor Gilberto, acredito que a correção gramatical é sem dúvida um elemento importante do texto escrito, mas precisamos tomar cuidado para não a valorizar excessivamente. para tanto, é aconselhável que nós, professores, criemos uma espécie de hierarquia gramatical. Explicando melhor, devemos procurar determinar quais são as inadequações que REALMENTE COMPROMETEM a compreensão do texto, por um lado, e, por outro, que evidenciam a pouca familiaridade do aluno com as estruturas próprias do texto escrito. Poderíamos pensar, só p lembrarmos alguns desses problemas, nos seguintes aspectos: utilização dos tempos e modos verbais (com o cuidado de diferenciar o aluno que tem apenas um problema de acentuação gráfica, ao confundir, por exemplo, FALARA e FALARÁ, por usar o acento de forma equivocada, daquele que realmente optou por uma flexão de tempo inadequada); concordâncias verbal e nominal; escolha lexical (por exemplo, a substituição sistemática de TER por POSSUIR, ou PORQUE por POIS, como se houvesse palavras "melhores" e "piores"...); interferência excessiva de estruturas da linguagem oral no texto escrito (portociguro, cuantas veses, 1000-miu, ...). Avaliar o uso da modalidade escrita da língua não deve significar, apenas, uma mera contagem de "erros". Infelizmente, estamos tão acostumados a corrigir "erros", que abandonamos por completo a observação dos acertos. Cabe a nós, professores, identificar tanto os erros quanto os acertos e ponderá-los ao fazer nossa avaliação.
Teixeirinha Alves :
Caros amigos, Endosso os diversos argumentos apresentados acima: as dificuldades sistêmicas, as falhas dos líderes governamentais, a cultura antilivro que se espraia por este grande e “pobre” país, o desinteresse das famílias, ... Portanto fico meio mudo quanto a uma proposta eficiente. No caso específico relatado por Gilberto, acho necessário lançar mão do sistema de dependência em que o aluno avança para o próximo nível, mas “paga” as aulas da(s) disciplina(s) na(a) qual(is) não conseguiu ser aprovado.
GILBERTO:
Amigos, esse debate para mim está sendo bastante enriquecedor. Sinto-me feliz por ter desencadeado essa discussão toda. As intervenções de Fátima, Joseni, Nailson, João Maria, André, Maciel, Aprendiz, Teixeirinha e Nelson foram por lidas por mim e por muita gente com bastante atenção. Muitos que aqui não se manifestaram têm tecido elogios à qualidade das participações. Aliás, Marcos Cavalcanti, grande poeta e ex-professor, disse-me ontem umas coisas bem legais sobre essa discussão. Solicitei a ele que depois pusesse por escrito tudo que me disse. André Soares, aluno de História, apaixonado pelo tema, enviou uma carta aberta aos participantes do debate. Devido a extensão deste tópico e do texto que me enviou, para que, também, não ficasse de algum modo ofuscada pelo brilho das participações aqui já postas e para que não passasse despercebida por algum leitor menos afeito aos textos extensos, postei-a em CARTA DE ANDRÉ AOS DEBATEDORES SOBRE APROVAÇÃO E REPROVAÇÃO.
Peço que a leiam e que opinem a respeito, lá ou cá. Obrigado, amigos, pelo que aqui postaram e pelo que me disseram à parte do debate!


Julio Cesar Ischiara, Psicólogo e Cangaceirólogo de Quixadá/Ce 

Amigo Gilberto Como seria bom se tivéssemos uma solução eficaz para a questão da aprendizagem. Como resgatar o respeito que um professor merece se muitos trabalham em várias escolas para garantir uma remuneração, minimamente, sustentável? Como identificar o aluno com deficiências estruturais daqueles que apenas não sabem acentuação? Como saber concordância verbal, número, gênero se não estudarmos conjugação, sujeito, predicado, tempos verbais, etc.? Como educar um povo se os governantes não priorizam a educação? Para que estudar se alguns personagens ganham milhões sem concluir o segundo grau, no alvorecer dos seus 20 e poucos anos de idade? Porque as meninas desejam ser modelos, dançarinas ou atrizes e os meninos querem ser jogadores de futebol? Façam essa pergunta a seus alunos. Um garoto desejava saber como deveria proceder para se formar em medicina
e, ao ouvir o trajeto disse enfático: "pode parar porque já estou cansado". E olhem que eu ainda estava falando no vestibular.... Imaginem se ele ouvisse que teria que cursar seis anos, fazer residência, etc... etc...? Não quero, com isso, dizer que não devamos discutir essas questões de aprender, ensinar e educar, mas que temos o dever de continuar lutando pela valorização da educação, dos professores, das condições de trabalho, das avaliações, inclusive de quem avalia. Saudações sertanejas.

Professor João Maria:


Volto para falar de uma coisa que já foi falada aqui por alguns, se não me engano; A questão dos valores. Infelizmente,na sociedade atual, chegamos ao ponto de que os valores estão invertidos.Ser estudioso, honesto,ético,trabalhador e outras boas qualidades, perde feio para ser esperto, corrupto,levar vantagem em tudo. Perguntem a seus alunos, façam uma pesquisa indagando deles a quem preferia seguir como exemplo, como modelo de pessoa: 1-Uma pessoa digna, decente, honesta, porém pobre de riquezas materiais; 2-Um jogador famoso,semi-analfabeto, um político corrupto, um rico desonesto. Não tenho a menor dúvida de que a grande vencedora seria a segunda opção. Dou este exemplo, para dizer que, se a educação não é valorizada como deve,o estudo, a dedicação, muitos alunos não se preocupam em se dedicar, mas também levar vantagem em tudo, ou seja, seguem o caminho da maioria.


GILBERTO:

Muito interessante o que foi dito aqui e digno de nossas sinceras reflexões. O poeta e ex-professor Marcos Cavalcanti também enviou sua parcela de contribuição intitulada EDUCAR, PARA QUÊ? Postei-a à parte devido a extensão e para que receba o merecido destaque.

Cláudia Santa Rosa (Doutora em Educação - ver currículo completo):

Que belo debate! Na verdade as dificuldades são fruto de um processo acumulativo, de lacunas desde a mais tenra idade. Precisamos trabalhar bem desde a Educação Infantil. Compartilho links de matéria que colaborei  http://www.diariodenatal.com.br/2011/12/20/cidades8_0.php  e em http://www.diariodenatal.com.br/2011/12/20/cidades8_1.php