
VIDAS ESVAZIADAS
Ele observa a mulher descascar batatas com o velho canivete de mola. Era o mesmo que, anos antes, durante uma crise de ciúmes, rasgara-lhe a carne da perna. A cicatriz permanecia ali, discreta, testemunhando um casamento que sobrevivera aos dias repetidos
O frio ocupa todos os cômodos da casa. Desde que a coluna o expulsara do cais, restara-lhe uma aposentadoria e dias vazios. Faltava-lhe força necessária para acreditar que ainda havia algo a construir, restando-lhe assistir, lúcido, ao lento desmoronamento das próprias ilusões.
Na convivência a dois, descobriu que o silêncio também é uma linguagem única capaz de sobreviver quando todas as palavras perdem o sentido. Da família restaram lápides, prisões e netos que sequer os conhecem pelo nome. Afinal, o tempo não mata apenas os homens; apaga, com a mesma indiferença, a memória de que um dia existiram.
Durante as noites, ele caminha pelo casarão herdado, incapaz de dormir. As telhas quebradas permitem que a chuva pingue sobre panelas espalhadas pelo chão, transformando a decadência em rotina. O ritmo dos pingos recorda o que ninguém consegue apagar.
A casa resiste por pura teimosia. A guerra segue do lado de fora não tão distante. Não há palavras capazes de alcançar aqueles que levaram seu filho para morrer num campo de concentração. O sofrimento não lhe empurrou ao suicídio, como acontecera com o vizinho que tomou remédios para dormir e cobriu a cabeça com um saco plástico.
Uma coceira no nariz fez sua mão subir lentamente. Para uma mosca, aquele braço era uma montanha em movimento. Ela desviou e pousou na beira do fogão. Dali observava o universo dos gigantes, levantando voo ao menor gesto, mesmo quando o perigo existia apenas na memória inscrita em seus instintos.
Escondida entre as frestas da parede, uma víbora acompanhava a cena, paciente. Alimentava-se de moscas e escutou quando ele perguntou o que haveria para o jantar. A resposta era a mesma de sempre: batatas. As cascas, guardadas numa tigela, aguardavam a vez de serem o prato principal.
A paciência sempre fora sua maior virtude. Nem mesmo quando soldados invadiram sua casa ele conseguiu reagir com desespero. Agora, os capacetes deles serviam como recipientes para armazenar água. A filha, antes de partir para a frente de batalha, transformara aqueles homens em cadáveres. Nunca mais voltou.
Lá fora, máquinas queimavam corpos deformados pela varíola. Um rato observa tudo à distância, calculando a hora da refeição. Comer gente tornara-se tão comum quanto respirar.
Por um instante, surgiu-lhe um pensamento absurdo: minha vida perdeu a graça. Imediatamente imaginou que ratos talvez não fossem capazes desse tipo de reflexão. Talvez lhes faltasse tempo. Ou consciência. No entanto, a fome aproximava homens e animais. Ambos obedeciam ao mesmo senhor: o estômago.
Ninguém se preocupava com as necessidades dos ratos, desde que permanecessem escondidos. Os urubus, do alto, assistiam ao espetáculo indiferentes, sem distinguir humanos animalizados de animais humanizados.
Passou a conversar com os próprios neurônios. Perguntava-lhes por que desejavam beijar a vizinha ou, sem motivo algum, arrebentar a porta do banheiro com um chute. Bilhões de pequenas consciências discutiam entre si enquanto ele permanecia sentado, como um ator condenado a representar para uma plateia inexistente.
Questionou a própria identidade. Talvez o "eu" não passasse de um nome recebido no batismo. Sob a pele havia apenas carne, bactérias, impulsos elétricos e uma máquina biológica convencida de possuir alma.
Farejou a possibilidade do suicídio escondida entre os talheres sobre a mesa. Quando finalmente adormeceu, os sonhos foram cruéis. Pela décima vez acordou ouvindo os gritos da mulher sendo afogada num tanque de óleo fervente. Assustado, virou o rosto.
Ela apenas varria o chão. A vassoura, quase sem cerdas, era sua última ocupação. Enquanto recolhia os fios de tecido que se desprendiam das roupas, parecia reconstruir a própria humanidade. Em poucos dias, os uniformes retirados dos soldados mortos pela filha já não serviriam para protegê-la do frio. As manchas de sangue haviam sido roídas pelos ratos, que agora circulavam pela casa sem qualquer receio.
Sobre a cristaleira, uma grossa camada de poeira escondia xícaras de porcelana com filetes de ouro escurecido. Toda aquela herança perdera o valor. Ele a trocaria, sem hesitar, por um único prato de comida. Mas já não existia ninguém disposto a negociar.
Heraldo Lins Marinho Dantas Natal/RN, 14.07.2026 - 22h58min.
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