segunda-feira, 11 de maio de 2026

CARTA AO AUTOR DO ROMANCE "NO AR": DIÓGENES CARVALHO VERAS



 Caro Diógenes,

Acabei de ler seu romance "No Ar" e senti uma premente vontade de lhe dizer algo a respeito, de lhe dar um feedback. Seu romance gira em torno de uma tragédia; nasceu de uma dor pessoal e familiar profunda. Em 2011, quando ela ocorreu, lembro-me muito vagamente de ter visto notícias a respeito. Foi algo, decerto, bastante noticiado e deve ter mexido comigo à época, mas, com o passar dos anos, acabou caindo no esquecimento.

Um pouco depois da pandemia, uma ex-aluna minha, a Cláudia Jaqueline, falou-me a seu respeito. Disse-me que gostaria muito que eu o conhecesse e o entrevistasse, pois você havia escrito um romance sobre a morte de sua esposa em um acidente aéreo. Falou-me de sua estadia em Portugal e em outros países europeus... até me enviou um link do Facebook para que eu visse seu perfil. Aquilo despertou meu interesse. Tempos depois, tive a chance de vê-lo pessoalmente em um espaço teatral, onde interagimos brevemente. Tornamo-nos amigos virtuais e, a partir daí, você foi me dando lampejos de sua história. Além disso, concedeu-me uma importante entrevista para o blog de nossa associação, a APOESC*.

Finalmente, tive acesso ao seu livro "No Ar", que prendeu minha atenção do começo ao fim. Percorri cada uma das 344 páginas de seu romance, fazendo questão de parar a cada capítulo findo a fim de refletir sobre o que havia lido. Ali, pude ver uma história habilmente contada. Para expressar o que percebi, vem-me à mente uma analogia com uma roda: temos o eixo e o cubo de onde procedem raios que dão sustentação e simetria à narrativa. Eles conduzem à flexibilidade e à relativa maciez de "ares encapsulados" que contrastam com a dureza do fato retratado, garantindo um ritmo agradável ao andamento da história.

Assim que acabei de ler seu romance, tive o desejo de pesquisar a respeito do que realmente houve, de saber mais sobre seus filhos e sobre sua falecida esposa, e fiquei encantado com o que descobri: educadora de destaque que era, sua esposa hoje dá nome a uma escola; sua filha, desde a tenra adolescência, manifesta pendor para a escrita — até lançou um livro interessante — e hoje se dedica a compor e a cantar, o que, aliás, faz muito bem. Fiquei encantado com as demonstrações de afeto e de gratidão do seu filho e de sua filha, demonstrando o bom pai que você tem sido ao longo de todas estas décadas.

Fico feliz que seu livro tenha despertado o interesse de editores europeus e tenha sido publicado em Portugal por uma importante editora, a Chiado, garantindo à sua obra um potencial de alcance internacional. Um grande poeta potiguar, Ademar Macedo, perdeu a perna em um terrível acidente e depois publicou um livro intitulado "E da dor se fez poesia". Você, de igual modo e à semelhança das ostras, extraiu de sua dor uma pérola literária.

Surpreendeu-me, também, o fato de você, em certa medida, ter vivenciado uma experiência parecida com a de Jó. Verdadeira ou não, a história do patriarca Jó deu à luz um clássico. A sua, de inquestionável veracidade, foi convertida em um livro igualmente relevante. Seu drama, expresso em terceira pessoa, também lembrou-me a figura do Bentinho, de Dom Casmurro, com o agravante de não estarmos tratando de algo puramente literário ou restrito à fugacidade de uma imaginação doentia, como a retratada por Machado. Enquanto lia, comparei seu livro com grandes obras de Dostoiévski, também nascidas de dramas pessoais, como O Jogador e Memórias da Casa dos Mortos.

Textos literários baseados ou inspirados em fatos costumam despertar meu interesse. Sei que devemos sempre manter a devida distância entre o eu lírico e o escritor, mas, no seu caso, é admirável constatar a franqueza com que se expõe e o quanto o personagem o espelha. Nas reportagens sobre o acidente que centraliza sua obra, soubemos apenas de números: 16 pessoas morreram. Você se ocupou de apenas um desses números, mas a que profundidades nos conduziu! Vimos que outras tragédias se sucederam à principal, mas você emergiu do fundo do poço trazendo os manuscritos deste texto maravilhoso, digno de ser lido por todos.

Parabéns,

Gilberto Cardoso dos Santos


*link da entrevista dada por Diógenes Carvalho veras, historiador e romancista: https://apoesc.blogspot.com/2023/10/entrevista-concedida-apoesc-pelo.html

6 comentários:

  1. Gilberto, ler seu comentário foi uma experiência tão bonita quanto ler o próprio livro. Sua sensibilidade, profundidade e cuidado ao analisar a obra tornam suas palavras extremamente emocionantes.

    É admirável a forma como você conseguiu enxergar, para além da narrativa, toda a humanidade presente nela. Comentários assim valorizam ainda mais a literatura e o poder que ela tem de tocar as pessoas.

    Parabéns pelo texto tão sensível e generoso.

    Um abraço.

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  2. Mestre Gilberto tem a habilidade ímpar de fazer magia com as palavras. Eu o admiro.

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  3. Que belo e encantador comentário. Realmente Diogenes e tudo isso e muito mais. Figura ímpar!muito o admiro tb.

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