terça-feira, 31 de maio de 2022

DESCOBERTA MILIONÁRIA - Heraldo Lins

 



DESCOBERTA MILIONÁRIA


Um velho teve a ideia de obter alguns séculos a mais de vida. Era necessário convencer todas as suas células para não morrerem, pois ouviu falar que esses tijolinhos eram quem dava sustentação ao coração, pulmão etc. Devido a algumas regras estabelecidas pela natureza, se elas morressem ele ia junto. Para adiar a viagem, começou a pesquisar a forma mais prática de se dar bem. Com vários recursos tecnológicos que existem, poderei vender a receita para outros países, disse ele subindo as calças. Antes de se dedicar à sua empreitada, teria que resolver essa questão das calças caindo, coisa de velho que nem vê quando elas estão nos pés. 

Apesar dessa grandiosa vontade em permanecer zanzando por aqui, o velho partia do zero em sua pesquisa. Tentando encontrar alguma dica nas bulas para enveredar na potencialização das células, comprava remédios, qualquer que fossem eles, desde que tivessem bulas. Ele fazia questão, também, de contratar mulheres para rezar novena, essa era a forma de, durante o momento religioso, ter ideias, além de aproveitar para olhar os decotes das rezadeiras. 

Na tenda do quintal, onde acontecia a cerimônia, ele sacudia e batia a cabeça tentando encontrar o caminho para comunicar-se com a genialidade solta no ar. Disse consigo: se essas ideias não aparecerem, eu meto o chute nessas velhas gordas. Se era doido, ninguém nunca viu o atestado, só se sabia ser rico e rápido em provocar estrondos gaseificados. 

Recebendo alguma iluminação através dos cânticos entoados naquela tenda, perguntou à dona Sibilina se ela poderia emprestar-lhe as partes. Com os olhos cheios de doçura, ela passou-lhe as partes que estavam em suas mãos para ele poder acompanhar os cânticos. Provavelmente não cantou afinado, pois as cantoras saíram em disparada evitando até receber o pagamento. 

Ao saírem, uma delas enganchou a saia na tenda e arrastou de cozinha afora. Quanto mais corriam mais os ferros faziam barulho pá pá pá pá pá. Nas pernas de dona Sibilina ia uma corda que ninguém soube explicar como ela amarrou-se ao cão. Latindo desesperado, o cão só conseguiu se salvar com a chegada dos bombeiros. Uma barata apareceu para ver que bagunça era aquela, e foi mesmo na hora que os bombeiros estavam desamarrando os nós, então, tudo foi por água abaixo. Desesperadas, as outras seis mulheres, mais uma vez, saíram em disparada levantando os vestidos. 

Da igreja ia saindo um padre e aproveitou a correria para se exercitar. Primeiro as mulheres, depois o cachorro, em seguida a barata, o padre ficou atrás dos bombeiros, sendo que o objetivo do religioso era ultrapassar todos e ganhar o troféu que ele achava ter como prêmio para o vencedor. 

O velho ficou se maldizendo pelo prejuízo que teve. Ao alugar a tenda, vieram, juntos, cadeiras e uma pequena mesa para suportar os livros, móveis estes sendo triturados de tal forma que o maior pedaço ficou do tamanho de uma unha. 

Da pedra fundamental do projeto, nem o cachorro sobrou. O espírito empreendedor do velho fora ofuscado, entretanto, logo a sua cabeça tomou outro rumo. Nesse breve tempo, entre o desaparecimento do cão e a volta do ânimo, houvera muito avanço na pesquisa, só que não sei dizer ao certo quais foram.  

Desde alguns dias que muitos interessados, esperançosos, encontravam-se em frente à casa do velho, torcendo para que a fórmula da vida eterna fosse definitivamente encontrada. No meio fio já havia um carrinho de cachorro-quente e uma mesa do jogo do bicho. Para os apostadores corria o palpite para macaco, sem querer discriminar o velho, mas era com essa aparência inspiradora que as apostas eram feitas. 

Lá na casa, o velho trabalhava em sua fórmula e aqui e acolá só se ouvia tiros. A cada tiro, os que estavam na calçada se animavam, levantavam-se e organizavam a fila pensando em comprar logo. Depois dos tiros, subia um odor estranho na calçada fazendo crer a todos que novos concentrados químicos foram testados, mas sem sucesso.

 Aproximando a lupa para o interior do laboratório percebia-se que, para espantar gases entrincheirados, o velho queimava pólvora, e isso acontecia quando não conseguia acertar na fórmula. Ele misturava cogumelo, olho de sapo, pena de morcego, e os ingeria para em seguida sentir qual a resposta que o estômago apresentava. 

O bigode da curiosidade não o deixava em paz. As pessoas na fila tinha confiança que com ele à frente do projeto, os benefícios viriam, quanto a isso não tinham dúvidas, pois ele sempre demonstrou total descontrole no que fazia, característica essencial para ser gênio. 

Despois de um certo tempo, o silêncio tomou conta da casa do velho. Os da fila, querendo saber o que havia acontecido, arrombaram a porta e perceberam, de imediato, que ele descobrira a fórmula para não morrer: havia se transformado em estátua.    




Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/ RN, 30.05.2022 – 10:22



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