sexta-feira, 17 de setembro de 2021

BELOS POEMAS DE ANTÔNIO FRANCISCO

 





A CASA QUE A FOME MORA

Autor: Antônio Francisco

EU DE TANTO OUVIR FALAR
DOS DANOS QUE A FOME FAZ,
UM DIA EU SAÍ ATRÁS
DA CASA QUE ELA MORA.
PASSEI MAIS DE UMA HORA
RODANDO NUMA FAVELA,
POR GUETO, BECO E VIELA,
MAS VOLTEI DESANIMADO,
ABORRECIDO E CANSADO
SEM TER VISTO O ROSTO DELA.

VI A CARA DA MISÉRIA
ZOMBANDO DA HUMILDADE.
VIA A MÃO DA CARIDADE
NUM GESTO DE UM MENDIGO
QUE DIVIDIA O ABRIGO,
A CAMA E O TRAVESSEIRO,
COM UM VELHO COMPANHEIRO
QUE ESTAVA DESEMPREGADO.
VI A FOME O RESULTADO,
MAS DELA NEM O ROTEIRO.

VI O ORGULHO FERIDO
NOS BRAÇOS DA ILUSAO,
VI PEDAÇOS DE PERDAO
PELOS INIQUOS QUEBRADOS.
VI SONHOS DESPEDAÇADOS
PARTIDOS ANTES DA HORA,
VI O AMOR INDO EMBORA,
VI O TRIDENTE DA DOR.
MAS NEM DE LONGE VI A COR
DA CASA QUE A FOME MORA.

VI NUM BARRACO DE LONA
UM FIO DE ESPERANÇA,
NOS OLHOS DE UMA CRIANÇA,
DE UM PAI ABANDONADO.
PRIMO CARNAL DO PECADO,
IRMÃO DOS RAIOS DA LUA,

C0M AS COSTAS SEMINUA
TATUADAS DE CALIÇA,
PEDINDO UM PÃO DE JUSTIÇA
DO OUTRO LADO DA RUA.

VI A GULA PENDURADA
NO PEITO DA PRECISAO.
VI A PREGUIÇA NO CHÃO
SEM TER FORÇA DE VONTADE.
VI O CALDO DA VERDADE
FERVENDO NUMA PANELA.
O JEJUM NUMA JANELA
DIZENDO: AQUI NINGUEM COME!
OUVI OS GRITOS DA FOME,
MAS NÃO VI RESTO DELA.

PASSEI A NOITE ACORDADO
SEM SABER O QUE FAZER.
LOUCO, LOUCO, PRA SABER
ONDE A FOME RESIDIA.
E POR QUE NAQUELE DIA
ELA NÃO FOI NA FAVELA.
E QUAL O SEGREDO DELA,
QUANDO QUERIA PISAVA.
AMOLECIA E MATAVA
E NINGUEM MATAVA ELA?

NO OUTRO DIA EU SAÍ
DE NOVO À PROCURA DELA.
MAS NÃO NAQUELA FAVELA,
FUI PROCURAR NUM SOBRADO.
QUE TINHA DO OUTRO LADO
ONDE MORAVA UM SULTÃO.
QUANDO EU PULEI O PORTAO,
EU VI A FOME DEITADA,
EM UMA REDE ESTIRADA
NO ALPENDRE DA MANSÃO.

EU PENSAVA QUE A FOME
FOSSE MAGRICELA E FEIA.
MAS ELA É UMA SEREIA
DE CORPO ESPETACULAR!
E QUEM IRIA CULPAR
AQUELA LINDA PRINCESA
DE TIRAR O PAO DA MESA
DOS SUBURBIOS DA CIDADE,
OU PISAR SEM PIEDADE,
NUMA CRIANÇA INDEFESA?

ENGOLI TRES VEZES NADA
E PERGUNTEI O SEU NOME.
RESPONDEU–ME: SOU A FOME
QUE ASSOLA A HUMANIDADE.
ATACO VILA E CIDADE,
DEIXO O CAMPO MORIBUNDO.
EU NÃO DESCANSO UM SEGUNDO
ATROFIANDO E MATANDO.
ME ESCONDENDO E ZOMBANDO
DOS GOVERNANTES DO MUNDO.

ME ALIMENTO DAS OBRAS
QUE SÃO SUPERFATURADAS.
DAS VERBAS QUE SÃO GUIADAS
PROS BOLSOS DOS MARAJÁS.
E ME ESCONDO POR TRÁS
DA FUMAÇA DO CANHAO.
DOS SUPÉRFLUOS DA MANSAO,
DA SOMA DOS DESPERDÍCIOS,
DA QUEIMA DOS ARTIFÍCIOS
QUE CEGA A POPULAÇAO.

TENHO PAVOR DA JUSTIÇA
E MEDO DA IGUALDADE.
ME BANHO NA VAIDADE
DA MODELO DESNUTRIDA.
DA RENDA MAL DIVIDIDA
NA MÃO DO CHEQUE SEM FUNDO.
SOU PESADELO PROFUNDO
DO SONHO DO BÓIA-FRIA.
E ALMOÇO TODO DIA
NOS CINCO ESTRELAS DO MUNDO.

SE VOCES CONTINUAREM
ME CAÇANDO NAS FAVELAS,
NOS LAMAÇAIS DAS VIELAS,
NUNCA VAO ME ENCONTRAR.
E EU VOU CONTINUAR
USANDO UM TERNO XADREZ.
METENDO A BOLA DA VEZ,
ATROFIANDO E MATANDO.
ME ESCONDENDO E ZOMBANDO
DA BURRICE DE VOCES.

Mossoró – RN
Outubro de 2003.






















OS ANIMAIS TÊM RAZÃO

1
Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.
2
E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.
3
O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito de independência
Do sertanejo que luta
Na frente da emergência.
4
Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão.
É hotel do retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.
5
E foi debaixo de um deles
Que eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.
6
Isso já faz tanto tempo
Que eu nem me lembro mais
Se foi pra lá de Fortim,
Se foi pra cá de Cristais,
Eu só me lembro direito
Do que disse os animais.
7
Eu vinha de Canindé
Com sono e muito cansado,
Quando vi perto da estrada
Um juazeiro copado.
Subi, armei minha rede
E fiquei ali deitado.
8
Como a noite estava linda,
Procurei ver o cruzeiro,
Mas, cansado como estava,
Peguei no sono ligeiro.
Só acordei com uns gritos
Debaixo do juazeiro.
9
Quando eu olhei para baixo
Eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.
10
O porco dizia assim:
– “Pelas barbas do capeta!
Se nós ficarmos parados
A coisa vai ficar preta...
Do jeito que o homem vai,
Vai acabar o planeta.
11
Já sujaram os sete mares
Do Atlântico ao mar Egeu,
As florestas estão capengas,
Os rios da cor de breu
E ainda por cima dizem
Que o seboso sou eu.
12
Os bichos bateram palmas,
O porco deu com a mão,
O rato se levantou
E disse: – “Prestem atenção,
Eu também já não suporto
Ser chamado de ladrão.
13
O homem, sim, mente e rouba,
Vende a honra, compra o nome.
Nós só pegamos a sobra
Daquilo que ele come
E somente o necessário
Pra saciar nossa fome.”
14
Palmas, gritos e assovios
Ecoaram na floresta,
A vaca se levantou
E disse franzindo a testa:
– “Eu convivo com o homem,
Mas sei que ele não presta.
15
É um mal-agradecido,
Orgulhoso, inconsciente.
É doido e se faz de cego,
Não sente o que a gente sente,
E quando nasce e tomando
A pulso o leite da gente.
16
Entre aplausos e gritos,
A cobra se levantou,
Ficou na ponta do rabo
E disse: – “Também eu sou
Perseguida pelo homem
Pra todo canto que vou.
17
Pra vocês o homem é ruim,
Mas pra nós ele é cruel.
Mata a cobra, tira o couro,
Come a carne, estoura o fel,
Descarrega todo o ódio
Em cima da cascavel.
18
É certo, eu tenho veneno,
Mas nunca fiz um canhão.
E entre mim e o homem,
Há uma contradição
O meu veneno é na presa,
O dele no coração.
19
Entre os venenos do homem,
O meu se perde na sobra...
Numa guerra o homem mata
Centenas numa manobra,
Inda tem cego que diz:
Eu tenho medo de cobra.”
20
A cobra inda quis falar,
Mas, de repente, um esturro.
É que o rato, pulando,
Pisou no rabo do burro
E o burro partiu pra cima
Do rato pra dar-lhe um murro.
21
Mas, o morcego notando
Que ia acabar a paz,
Pulou na frente do burro
E disse: – “Calma, rapaz!...
Baixe a guarda, abra o casco,
Não faça o que o homem faz.”
22
O burro pediu desculpas
E disse: – “Muito obrigado,
Me perdoe se fui grosseiro,
É que eu ando estressado
De tanto apanhar do homem
Sem nunca ter revidado.”
23
O rato disse: – “Seu burro,
Você sofre porque quer.
Tem força por quatro homens,
Da carroça é o chofer...
Sabe dar coice e morder,
Só apanha se quiser.”
24
O burro disse: – “Eu sei
Que sou melhor do que ele.
Mas se eu morder o homem
Ou se eu der um coice nele
É mesmo que estar trocando
O meu juízo no dele.
25
Os bichos todos gritaram:
– “Burro, burro... muito bem!”
O burro disse: – “Obrigado,
Mas aqui ainda tem
O cachorro e o morcego
Que querem falar também.”
26
O cachorro disse: – “Amigos,
Todos vocês têm razão...
O homem é um quase nada
Rodando na contramão,
Um quebra-cabeça humano
Sem prumo e sem direção.
27
Eu nunca vou entender
Por que o homem é assim:
Se odeiam, fazem guerra
E tudo o quanto é ruim
E a vacina da raiva
Em vez deles, dão em mim.”
28
Os bichos bateram palmas
E gritaram: – “Vá em frente.”
Mas o cachorro parou,
Disse: – “Obrigado, gente,
Mas falta ainda o morcego
Dizer o que ele sente.”
29
O morcego abriu as asas,
Deu uma grande risada
E disse: – “Eu sou o único
Que não posso dizer nada
Porque o homem pra nós
Tem sido até camarada.
30
Constrói castelos enormes
Com torre, sino e altar,
Põe cerâmica e azulejos
E dão pra gente morar
E deixam milhares deles
Nas ruas, sem ter um lar.”
31
O morcego bateu asas,
Se perdeu na escuridão,
O rato pediu a vez,
Mas não ouvi nada, não.
Peguei no sono e perdi
O fim da reunião.
32
Quando o dia amanheceu,
Eu desci do meu poleiro.
Procurei os animais,
Não vi mais nem o roteiro,
Vi somente umas pegadas
Debaixo do juazeiro.
33
Eu disse olhando as pegadas:
Se essa reunião
Tivesse sido por nós,
Estava coberto o chão
De piúbas de cigarros,
Guardanapo e papelão.
34
Botei a maca nas costas
E saí cortando o vento.
Tirei a viagem toda
Sem tirar do pensamento
Os sete bichos zombando
Do nosso comportamento.
35
Hoje, quando vejo na rua
Um rato morto no chão,
Um burro mulo piado,
Um homem com um facão
Agredindo a natureza,
Eu tenho plena certeza:
Os animais têm razão.

Fim


TRÊS MARTELOS DE AMIZADE


Pra nós sermos amigos de verdade,
Precisamos amar e querer bem;
Repartir nosso pão pela metade;
Dividir nossos sonhos com alguém;
Plantar uma semente de amizade
No jardim onde nasce a solidão
E dizer no ouvido do ermitão:
Plante um pé de amizade em sua horta!
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração.

Dê uma volta no carro da amizade,
Puxe 80 km de amor!
Se desvie da estrada do rancor;
Solte os freios descendo a humildade;
Acenda os faróis da caridade;
Ilumine a estrada do irmão;
Baixe o vidro da porta e dê com a mão,
É um gesto é tão simples mais conforta.
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração.

Se afaste do caos da vaidade;
Nunca pise na beira desse abismo
Nem se mele com a lama do egoísmo;
Beba água da fonte da verdade...
Só assim entraremos na cidade
Batizada com o nome de Sião.
Vamos todos, amigos, dar a mão!
Uma amizade sincera ninguém corta.
Amizade é a chave que abre a porta
Do castelo onde mora o coração. Fim

Autor: Antônio Francisco


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