APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 31 de março de 2019

História de José do Egito. (João Martins de Athayde)


História de José do Egito.

João Martins de Athayde
Jacob foi um patriarca
De uma vida exemplar
Teve Raquel como esposa
Uma jovem singular
Pai de José do Egito
De quem pretendo falar.
Foram pais de onze filhos
De uma só geração
Não quero falar de todos
Pra não fazer confusão
Falo em José do Egito
Benjamim e Simião.
José era o mais moço
De Jacob era estimado
Devido essa simpatia
Pelos outros era odiado
Esse ódio aumentou tanto
Que o velho tinha cuidado.
José conhecendo isso
A todos ele temia
A intriga aumentou mais
Porque José disse um dia
Um crime que tinham feito
De cujo ninguém sabia.
Eles pensavam consigo
O que deviam fazer
Para dar fim a José
Sem o velho conhecer
Vivia o pobre menino
Sentenciado a morrer.
Disse José aos irmãos:
– Eu essa noite sonhei
Que nós andávamos juntos
E por um lugar passei
Vi onze adorando um
Quem era, também não sei.
Disse José outra vez:
– Eu tive outro sonho assim
Que me achava no deserto
Dum oceano sem fim
O sol, a lua, onze estrelas
Estavam adorando a mim.
Ficaram encolerizados
De inveja e de paixão
Vendo que aqueles sonhos
Eram a predestinação
Entre si todos juraram
De assassinar o irmão.
Eles pastoravam gado
Distante da moradia
Já o velho impaciente
Por não vê-los todo dia
Mandou José saber deles
Sem se lembrar da porfia.
Quando avistaram José
Criaram tanto rancor
Olhavam uns para os outros
Com olhos de traidor
Dizendo: – Vamos matá-lo
Porque ele é um sonhador.
Disse Rubens aos outros:
– Cá na minha opinião
Eu acho uma cousa triste
Assassinar um irmão
Botem ele na cisterna
Não lhe dê água nem pão.
Assim mesmo eles fizeram
Quando o menino chegou
Tiraram o roupa toda
Ele despido ficou
Botaram ele na cisterna
Ali mais ninguém passou.
Depois que José estava
Naquela horrenda prisão
Passaram uns israelitas
E tiveram compaixão
E chamaram os assassinos
Para comprar-lhes o irmão
Por vinte moedas em prata
Foi o menino vendido
Todos que assistiram a venda
Consideravam perdido
Numa nação estrangeira
Como escravo desvalido.
Depois pegaram a túnica
Que José tinha deixado
Quando entrou na cisterna
Que eles tinham tirado
Mandaram levar ao velho
E dar-lhe mais um recado.
Botaram sangue na túnica
E mandaram o velho ver
Dizia assim o recado:
– Meu pai, procure a saber
De quem era essa túnica
Não podemos conhecer.
Quando o velho viu a túnica
Começou logo a chorar
Oh! Meu Deus, perdi meu filho
Como é que hei de passar?!
Foram as feras do deserto
Que o quiseram matar!
Enquanto Jacob chorava
A morte do filho amado
Ele entrava no Egito
Para onde foi levado
Foi vendido a Putifar
Intendente do reinado.
José que era um moço
Dotado de consciência
Putifar encontrou nele
Força de inteligência
Confiou da sua casa
Toda superintendência.
Em poucos dias depois
A mulher de Putifar
Intentou gozar-se dele
Não pode realizar
Por meio da falsidade
Prometeu de se vingar.
Disse ela a Putifar:
– Seu empregado é ruim
Inda ontem aquele infame
Dirigiu pilhéria a mim
Sendo eu sua esposa
Não posso ficar assim.
Putifar logo afobou-se
Ficou sego de paixão
E mandou chamar José
Na mesma ocasião
Foi duas praças com ele
Pra remetê-lo à prisão.
Entrou José na prisão
Dele ninguém tinha dó
Depois ficou mais contente
Porque não estava só
Se achava mais um copeiro
Da corte de Faraó.
Depois chegou um padeiro
Que preso também ficou
Um deles teve um sonho
E outro também sonhou
Todos mistérios dos sonhos
Foi José quem decifrou.
Disse o padeiro a José
Tudo que tinha sonhado
Por ordem de Faraó
Ia ser crucificado
E pelas aves de rapina
Seu corpo era devorado.
Disse o copeiro a José
Prometendo não faltar
– Pela sua liberdade
Eu tenho de trabalhar
Só terei algum descanso
Quando você se soltar.
Apesar dessa promessa
Ser de tão boa vontade
Porém como a tal prisão
Foi feita com falsidade
José passou mais dois anos
Sem gozar da liberdade.
Faraó teve dois sonhos
Que o impressionaram
Vendo sete vacas gordas
Que dele se aproximaram
Vinham outras sete magras
Que as gordas devoraram.
Quando foi no outro dia
Faraó mandou chamar
Todos os sábios que haviam
Residentes no lugar
Cada um disse uma asneira
Não puderam decifrar.
O copeiro então lembrou-se
Do que tinha se passado
De um sonho que tinha tido
E José tinha decifrado
Mandaram soltar José
E trouxeram para o reinado.
José chegando na corte
Foi muito em recebido
Para decifrar o sonho
Que o Faraó tinha tido
José explicou tudo
Sem ter de nada sabido.
– Senhor; lhe disse José
Os sonhos são verdadeiros
Essas vacas gordas
São sete anos primeiros
Serão de tanta fartura
De abarrotar os celeiros.
– E as sete vacas magras
Por minha vez também cismo
São sete anos de seca
De miséria e cataclismo
A nação que descuidar-se
Cairá sobre o abismo.
– Eu acho conveniente
Que a vossa majestade
Procure um bom ministro
Que tenha capacidade
Para comprar todo trigo
Que aparecer na cidade.
– Se acaso rei meu senhor
Este conselho não tome
Chegando o tempo da crise
O Egito muda de nome
Se acabam os pobres na rua
Todos morrendo de fome.
Faraó vendo a conversa
Anti-tradicional
Vendo que o cataclismo
Se torna universal
Disse a José: És ministro
Pela ordem imperial.
O rei lhe dizendo isso
Entregou-lhe um anelão
Dizendo: Pega esta jóia
Que te dou por distinção
Dora em diante serás chefe
De toda esta nação.
Tinha José nesse tempo
Trinta e um anos de idade
Tomou conta da missão
Tinha plena liberdade
De fazer naquele reino
O que tivesse vontade.
Chegou o tempo abundante
José pegou a comprar
Trigo, feijão e farinha
Vindos de todo lugar
Depois dos celeiros cheios
Não teve onde botar.
Mandou fazer um depósito
De muito grande extensão
Num dos pontos da cidade
Prevendo a ocasião
Pra socorro da pobreza
Sendo da sua nação.
Um tempo assim como aquele
Nunca se viu outro igual
As nações tinham fartura
De um modo descomunal
Findou o tempo abundante
Entrou a crise fatal.
Já depois de quatro anos
Que o cataclismo assolava
O povo das caravanas
Que no Egito passava
Via que nesse lugar
Em fome nem se falava.
Vagou aquela notícia
Que no Egito inda tinha
Recurso para a pobreza
Trigo, feijão e farinha
Todo dia vinha gente
Da região mais vizinha.
A fome assolava o mundo
O grande também sofria
Substância de alimento
Em parte alguma se via
O rico morrendo à fome
E o dinheiro não vali.
Jacob, o pai de José
Vendo o tempo muito ruim
Mandou os filhos ao Egito
Naquelas estradas sem fim
Mandou os outros mais velhos
E ficou com Benjamim
Chegando eles no Egito
Depressa foram levados
À presença de José
Para serem interrogados
José conheceu bem eles
Logo que foram chegados
José fingiu-se inimigos
Vendo aqueles condições
Que os irmãos se achavam
Sabendo que eram bons
Lhes disse: de onde vêm
Que me parecem uns ladrões?
Responderam com espanto:
É horrível a nossa sina
Somos filhos de Jacob
Natural da Palestina
Viemos comprar legumes
Que a fome lá é canina.
José ficou comovido
Porque tinha compaixão
Apesar de ter sofrido
Deles aquela traição
Então perguntou a eles:
Sua irmandade quais são?
– Nós éramos 12 irmãos
O caçula não quis vir
Porque meu pai já é velho
Só ele o pode servir
Quanto ao nosso irmão José
Esse deixou de existir.
Disse José para eles:
Eu só posso acreditar
Desse seu irmão mais novo
Se vocês forem buscar
Ficando um de vós preso
Até o outro chegar.
Disseram: rei meu senhor
Nós não fazemos questão
Nos venda um pouco de trigo
Temos muita precisão
Quanto ao que fica preso
Deixo ficar Simião
José mostrou-se contente
Deu a resposta que sim
Mas disse a eles depois:
O tempo inda está ruim
Quando vier comprar trigo
Me traga o tal Benjamim
Aí voltaram os outros
Porém sem consolação
Chegaram na Palestina
O patriarca ancião
Foi perguntando aos filhos:
Onde ficou Simião?
– Simião ficou lá preso
Agora é que está ruim
Porque quando nós saímos
O rei nos disse assim:
Quando vier comprar trigo
Me traga o tal Benjamim
Dizia o velho chorando:
Chegou o meu triste fim
Porque é esse um dos filhos
Que não se aparta de mim
Como viverei no mundo
Ficando sem Benjamim?!
Judá insistiu com ele
Contando o que foi passado
– Eu tomo conta de tudo
Meu pai, não tenha cuidado;
Dizia o velho: ele indo
Para mim foi sepultado!
– Se eu digo estas palavras
É porque tenho razão
José os bichos comeram
Nas brenhas da solidão
Agora sem haver crime
Ficou preso Simião!
Judá pelejou com ele
Até o velho aceitar
Se Benjamim lá não fosse
Nada podia arranjar
Só no Egito é que tinha
O que eles iam comprar.
Eles seguiram viagem
O velho ficou sentido
Judá chegou no Egito
Foi muito em recebido
Porque levou Benjamim
Que José tinha pedido.
José vendo Benjamim
Conheceu logo também
Perguntou com cara feia
(porém os tratando bem):
É este o irmão mais novo
Que vocês dizem que têm?
Judá lhe disse que sim
Partido de comoção
Dizendo: – Rei, meu senhor
Nos conceda a permissão
Para que possamos ir
Aonde está Simião?
Disse José: podem ir
Visitar o seu irmão
Ele até aqui não teve
Nenhuma perturbação;
José só tinha ele preso
Fazendo a comparação.
José diante essas coisas
Não podia se conter
Chorava em seu aposento
Que só faltava morrer
Pois inda não era tempo
De se dar a conhecer.
Todos irmãos de José
De nada tinha sabido
Vendo José como rei
Dum país desconhecido
Sendo ele o tal irmão
Que eles tinham vendido
Depois José chamou eles
Dando plena liberdade
Dizendo: vão passear
Pelas ruas da cidade;
Só assim José podia
Fazer a sua vontade.
Eles com essas palavras
Ficaram muito contentes
Aí José mandou logo
Chamar o seu intendente
Dizendo: encha bem cheio
O saco daquela gente
– Depois dos sacos bem cheios
Faça jeito de botar
A minha taça de prata
Sem ninguém desconfiar
No saco de Benjamim
Pra quando ele for, levar
O intendente fez tudo
Como José lhe mandou
No saco de Benjamim
Ele a taça colocou
Benjamim que não sabia
No outro dia levou
Assim que eles saíram
José mandou uns soldados
Dizendo: peguem uns rapazes
Que vão ali carregados
E tragam a minha presença
Para serem interrogados
Eles iam muito alegres
Só por levar Simião
Dizia Judá: fizemos
Muito boa arrumação;
Nisto gritaram pra eles
Lhes dando voz de prisão
Logo aí foram levados
À presença de José;
– Quem roubou a minha taça
Terá prisão de galé
Faz vergonha nos senhores
Não ter um homem de fé
Disseram: rei, meu senhor
Nós nunca roubamos nada
Essa taça de que falam
Nunca pode ser achada
Mande correr nossos sacos
Só ela sendo encantada.
– Não pensei que em Palestina
Tivesse gente ruim
Passem u’a corra nos sacos;
José então disse assim
A taça foi encontrada
No saco de Benjamim
Aí caíram por terra
Botando os joelhos no chão
Dizendo: rei, meu senhor
De nós nenhum é ladrão
Porém seremos levados
À morte na prisão.
José partido de pena
Não podendo resistir
Disse ao seu intendente:
Mande este povo sair
Basta ficar estes homens
A quem preciso eu ouvir
Quando saiu todo povo
Inda mais se comoveram
José lhes disse chorando:
– Inda nao me conheceram?
Eu sou vosso irmão José
O tal que vocês venderam
Que hora amarga e feliz
Para quem compreender!
Toda tristeza que havia
Foi transformar-se em prazer
Ficaram todos felizes
Dessa data até morrer
José mandou vir também
O seu pai idolatrado
Quem trouxe foi seu irmão
Com muito zelo e cuidado
Jacob findou os seus dias
Vivendo sempre ao seu lado.

TUDO ISSO FAZ BATER UM CORAÇÃO NORDESTINO (Bráulio Bessa)



Um cantador de viola
fazendo verso rimado,
toicim de porco torrado
numa velha caçarola,
um cego pedindo esmola,
lamentando o seu destino,
é só mais um Severino
que não tem o que comer.
Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


As conversas de calçada,
os causos de assombração,
em riba de um caminhão
a mudança inesperada,
galinha bem temperada
sem usar tempero fino,
quebranto forte em menino
pra benzedeira benzer.

Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


Banho de chuva na biqueira,
dindim de coco queimado,
menino dependurado
nos braços de uma parteira,
manicure faladeira,
o gado magro e mofino,
novenas para o divino,

pedidos para chover.
Tudo isso faz bater
um coração nordestino.

Pracinhas pra namorar
sem pular nenhuma etapa,
cachaça no bar da tapa,
cantadores pra rimar,
um forrozim pra dançar,
que também é nosso hino,
quer dançar, eu lhe ensino
até o suor descer.

Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


Quando a gente olha pro alto
consegue enxergar a lua,
caminhar no mêi da rua
sem ter medo de assalto,
um terreiro sem asfalto,
sem concreto clandestino,
um açude cristalino,
um cheiro no bem querê.

Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


Uma porca parideira
com uns doze bacurim,
gente boa e gente ruim,
zoada no fim de feira,
arapuca, baladeira,
o chapéu de Virgulino,
na bodega de Firmino

tem de tudo pra vender.
Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


Um bebo toma uma cana,
cospe no pé do balcão,
a luz de um lampião
ilumina uma cabana,
uma penca de banana
na casa de Marcolino,
pirão grosso e caldo fino
pra mode o cabra comer.
Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


Uma velha na janela
reclamando de uma dor,
casinhas de toda cor
azul, verde, amarela,
um pé de seriguela
no quintal de Marcelino,
no Mobral, Seu Jesuíno
aprendendo a escrever.
Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


Tem milho verde cozido,
castanha feita na brasa,
no oitão da minha casa,
um bebo véi estendido,
na outra esquina, perdido,
mais um bebo, um dançarino,
igreja tocando o sino

no final do entardecer.
Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


O gibão de um vaqueiro
que é sua armadura,
engenho de rapadura
pega-pega no terreiro,
um barrão lá no chiqueiro
pra quem é chique, um suíno,
o caminhão de Faustino
cheio de manga pra vender.
Tudo isso faz bater
um coração nordestino.


São milhões de pensamentos
que não saem da cabeça,
e antes que eu me esqueça
registro esses momentos
com poesia e sentimentos
desde os tempos de menino,
talvez fosse o meu destino
nascido pra escrever
aquilo que faz bater
um coração nordestino.

Um Bairro Chamado Lagoa do Mato (Antonio Francisco)

Um Bairro Chamado Lagoa do Mato (Antonio Francisco)

Nasci numa casa de frente pra linha,
Num bairro chamado Lagoa do Mato.
Cresci vendo a garça, a marreca e o pato,
Brincando por trás da nossa cozinha.
A tarde chamava o vento que vinha
Das bandas da praia pra nos abanar.
Titia gritava: está pronto o jantar!
O Sol se deitava, a Lua saía,
O trem apitava, a máquina gemia,
Soltando faísca de fogo no ar.

O galo cantava, peru respondia,
Carão dava um grito quebrando aruá,
A cobra piava caçando preá,
Cantava em dueto o sapo e a jia,
Aguapé se deitava e depois se abria,
Soltava seu cheiro nos braços do ar
O vento trazia pro nosso pomar,
Vovô se sentava no meio da gente
Contando história de cabra valente
Ouvindo lá fora do vento cantar.

A lua entrava na casa da gente,
Batia com força nas quatro paredes.
Seus cacos caíam debaixo das redes
Pintando na sala um céu diferente.
Quando ela saía chegava o sol quente
E com ele Zequinha pra gente brincar,
Comer melancia, depois se banhar
Nas águas barrentas daquela lagoa.
A vida era simples, barata, tão boa,
Que a gente nem via o tempo passar.

O peixe batia, a água espanava,
A gente pegava uma ponta de linha,
Amarrava um anzol numa vara que tinha
E ia pra onde o peixe pulava.
Num quarto de hora a gente voltava,
Já tinha traíra pra gente almoçar,
Piaba, manteiga pra gente fritar,
Titia fritava e a gente comia.
Faltava dinheiro, sobrava alegria
Naquele pequeno pedaço de lar.

Mas hoje nosso bairro está diferente.
Calou-se o carão que cantava na croa,
A boca do tempo comeu a lagoa
E com ela se foi o sossego da gente.
O vento que sopra agora é mais quente
E sem energia não sabe soprar.
A máquina do trem deixou de passar,
Ninguém olha mais pros raios da Lua
Que vivem perdidos no meio da rua
Por trás dos neóns sem poder brilhar.

Perdeu-se a traíra debaixo do barro,
O sapo e a jia também foram embora.
Aguapé criou pé, deu no pé e agora?
Só rosas de plástico tristonhas num jarro,
Fumaça de lixo, descarga de carro,
Suor de esgoto pra gente cheirar,
Telefone gritando pra gente pagar,
Um louco na rua rasgando uma moto,
Um besta na porta pedindo o meu voto
E outro lá fora querendo comprar.

Um carro de som fanhoso bodeja:
Tem água de coco, tem caldo de cana,
Cocada de leite, gelé de banana,
Remédio pra caspa, tem copo, bandeja.
Uns quatro vizinhos brincando de igreja
Vão para a calçada depois do jantar.
O mais exaltado começa a pregar:
Jesus é fiel, castiga, mas ama!
E eu sem dormir rolando na cama
E o homem insistindo: – Eu vou lhe salvar.


E pegue zoada por trás do quintal:
Salada, paul, pomada, paçoca,
Pamonha, canjica, bejú, tapioca,
A do Zé tem mais coco, a do Pepe é legal!
Dez bola, dez bola, só custa um real!
Mas traga a vasilha pra não derramar!
Apuveite! Apuveite! Que vai se acabar!
E alguém grita: gol! Minha casa estremece
E eu digo baixinho: meu Deus se eu pudesse
Armar minha rede no fundo do mar!


BIOGRAFIA DO AUTOR:

Antônio Francisco Teixeira de Melo (21/10/1949)
Cordelista norte-rio-grandense nascido aos 21 de outubro de 1949, em Mossoró, Rio Grande do Norte, filho de Francisco Petronilo de Melo e Pêdra Teixeira de Melo, cresceu no bairro da zona sul, Lagoa do Mato, ao qual dedicou um poema antológico.
Antônio Francisco, aventureiro e esportista, dedicou-se ao ciclismo, realizando turismo de bicicleta pela região Nordeste do nosso país continental, por isso só voltou-se para a literatura popular aos 46 anos, com sua primeira poesia Meu Sonho, obra que apresenta traços impressionistas e surrealistas, onde o autor recorre ao sonho para demonstrar sua inquietação com a interação entre homem e o meio. Poema composto de 37 estrofes de 6 versos, utilizando a redondilha maior (heptassílabo) e rimas alternadas (WIKIPÉDIA, 2014).
Como ser múltiplo, exerceu funções como: historiador (Bacharel em História, pela UERN), xilógrafo, compositor e confeccionador de placas de carro.
Apesar da carreira literária tardia, é reconhecido publicamente pela musicalidade de seus poemas, passando a ser alvo de estudo de vários compositores brasileiros. O reconhecimento da qualidade da sua produção levou-o a ser eleito para a Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) em 15 de maio de 2006, onde ocupa a cadeira de número 15, cujo patrono é o poeta cearense Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré.

JESUS NO PÉ DE GOIABA, CONTADO POR ZÉ LIMEIRA - Pedro Paulo Paulino


JESUS NO PÉ DE GOIABA, CONTADO POR ZÉ LIMEIRA

O Poeta do Absurdo,
O famoso Zé Limeira,
Que morreu há muitos anos,
Baixou na segunda-feira
Por aí numa sessão
E falou da aparição
De Jesus na goiabeira.

Nunca falta gente para
Dizer quando o mundo acaba,
Mas segundo Zé Limeira,
Desta vez ele desaba,
Pois para o mundo acabar
Só faltava alguém achar
Jesus num pé de goiaba.

Limeira disse: “Meu povo,
Me preste bem atenção:
Vai surgir uma maluca
Dizendo na ocasião
Para o povo brasileiro
E também ao mundo inteiro,
Como foi essa visão.

Seu nome é Damares Alves,
É mais doido quem crê nela,
Pois Jesus, em toda a vida,
Não caiu na esparrela
De subir em goiabeira,
Pé de coco ou de mangueira,
Cajá ou seriguela.

Segundo eu fiquei sabendo,
Durante uma seca braba
De matar cachorro a grito,
Quando a fome não se acaba,
Sem ninguém a socorrer,
Ela resolveu encher
O seu bucho de goiaba.

Procurou um pé bem grande,
Que uma grande safra deu,
Subiu no pé e duzentas
Goiabas logo comeu;
Ao ficar de bucho cheio
Sofreu um grande aperreio
E Jesus lhe apareceu.

E quando ela percebeu
Que ele queria subir,
Disse assim: ‘Não suba, mestre,
Pois o senhor vai cair.
Por favor, não suba’ – ‘Eu subo!’ –
‘Se subir, eu lhe derrubo,
É melhor não insistir!’.

E permaneceu a teima
Que quase não mais acaba,
Ela descendo e subindo
Ligeiro que nem piaba,
E brigando sem parar,
Somente para não dar
A Jesus uma goiaba.

Porém, quando o mestre viu
Que não era brincadeira
Aquela doida escanchada
Num galho de goiabeira,
Virou as costas pra ela,
Tirou seu par de chinelas,
Meteu o pé na carreira.

A doida saiu correndo,
Sem ninguém na sua frente,
Pois o Jesus que ela viu
Encantou-se de repente.
Porém ela, sem cessar,
Na carreira foi parar
Numa assembleia de crente.

Lá fez um grande discurso,
E disse: ‘Eu vi, meus irmãos,
Jesus no pé de goiaba
Trazendo um saco nas mãos.
Vou contar à freguesia
Qual foi sua profecia
Para todos os cristãos.

Ele disse que o Brasil
Ingressava numa era
De guerra e de violência,
Que ninguém jamais espera;
Vai ficar mesmo arrasado,
Porque vai ser governado
Pela velha besta-fera.

Disse que o novo governo
Será bandido e hostil,
Que o povo pobre será
Escravizado e servil,
E aquele que não for liso
Se tiver algum juízo,
Convém fugir do Brasil.

Ele também afirmou
Nessa sua profecia,
Que para algum ministério
Eu indicada seria,
Com maravilhoso ganho!
Ninguém calcula o tamanho
Que foi a minha alegria!

Ele disse tanta coisa,
Antes de dizer adeus,
Por exemplo: que o povão,
Conforme os dizeres seus,
Com Mais Médicos falido,
Será agora assistido
Pelo médium João de Deus.

E foram tantas palavras,
Que não consigo lembrar.
A visão foi muito rápida,
Não pude tudo gravar.
Só sei que o mestre profundo
Garantiu que o fim do mundo
É quando o mundo acabar’”.

Não se sabe se é mentira
Ou história verdadeira.
Na bíblia não consta nada
De Jesus em goiabeira.
Contudo, convém lembrar:
Não se deve duvidar
Do poeta Zé Limeira.

Salve o Natal e Jesus,
Seu exemplo justo e sério!
Este cordel não pretende
Fazer nenhum vitupério,
Pois só visa unicamente
Mostrar o tipo de gente
Do futuro ministério.
PEDRO PAULO PAULINO


Pedro Paulo Paulino, nascido em 1967, é poeta cordelista, 
com vários folhetos publicados e participação em diversos 
livros e outras publicações, como jornais, revistas e 
internet. Mantém o blog VILA CAMPOS ONLINE de Informação e 
Cultura Regional. Jornalista prático e escritor, é 
profissional em artes gráficas. Reside em Vila Campos, zona 
rural do município de Canindé, Estado do Ceará.


RELEMBRANDO A DITADURA, SEM NADA A COMEMORAR (Autor: Pedro Paulo Paulino)



Capa: Arievaldo Viana

Pedro Paulo Paulino

Vamos relembrar um fato,
Sem nada a comemorar,
Episódio vergonhoso
Que temos para contar:
Com seus atos desumanos,
São cinquenta e cinco anos
Do Regime Militar.

Foi a 31 de março,
Que a nossa grande Nação
Perdeu toda a liberdade,
Sem direito ao cidadão.
No ano sessenta e quatro,
Brasil tornou-se o teatro
Dessa triste aberração.

Pois a partir dessa data,
Ditadores desumanos,
Radicais, totalitários,
Criminosos e tiranos,
Com seu regime infeliz,
Mandaram neste país
Durante vinte e um anos.

Em plena Idade Moderna,
Não tem porquê nem razão
De um país enveredar
Na total escuridão
De estupidez execrável,
Que somente é comparável
Aos tempos da escravidão.

A lembrança que ficou
Do tempo da ditatura
Foi repressão violenta,
A lei cruel da censura,
A falência de conceitos,
A cassação de direitos,
Assassinato e tortura.

Devido à deposição
Do presidente Goulart,
Sucessor de Jânio Quadros
Num momento singular,
Se não me falha a memória,
Começou a trajetória
Do regime militar.

Contra o presidente Jango,
Como era assim conhecido,
Um grupo de militares
Conspirava no sentido
De lhe tomar o poder,
O que veio acontecer,
Deixando o povo oprimido.

O general Mourão Filho,
Deixando Minas Gerais,
Com tropa de três mil homens
Foi se juntando aos demais.
Logo no primeiro dia
Estava a democracia
Nos seus momentos finais.

Por Ranieri Mazzili,
Que então era deputado,
Somente por nove dias
O Brasil foi governado.
No Congresso, com efeito,
Castelo Branco é eleito,
Depois do Golpe de Estado.

Castelo logo adotou
As medidas radicais,
Conhecidas pelos seus
Atos institucionais.
Fim das eleições diretas
Foi uma de suas metas,
Dentre outras tão brutais.

Criou o SNI,
Um poderoso espião,
Protegendo os militares,
Fragilizando a Nação;
De partidos, só ARENA
E MDB, na cena
De suposta oposição.

Depois de Castelo Branco,
E muito mais linha dura,
Seu sucessor, Costa e Silva,
Promoveu a assinatura
Do Ato Institucional
Que dava poder total
À terrível ditadura.

O Congresso foi fechado,
Cresceram as repressões,
Suspensão de garantias,
Abusos, violações,
A polícia, noite e dia
Promovendo à revelia
As mais vis perseguições.

Confrontando os militares
Surge um grupo varonil,
A União dos Estudantes,
Em defesa do Brasil,
Numa marcha audaciosa
Realizou a famosa
“Passeata dos Cem Mil”.

Mas continua o regime
De plena arbitrariedade,
Com o presidente Médici
Falando em prosperidade,
Com seu “milagre econômico”,
Porém gerando astronômico
Débito à posteridade.

O tal milagre gerou
Dívida internacional.
O “Brasil, ame-o ou deixe-o”
Virou lema oficial.
Por outro lado, a Nação
Amargava a situação
Da crise salarial.

O controle do governo
Sobre todos os setores
Impedia organizarem-se
Os nossos trabalhadores,
Pois os sindicalizados
Eram todos controlados
Pelos órgãos repressores.

Departamentos estranhos,
Como DOPS e DOI-CODI,
A linha de espionagem
Em todo o País eclode.
Com a boca costurada
Ninguém pode dizer nada,
Somente o governo pode.

Depois do governo Médici
Veio outro general,
Desta vez, Ernesto Geisel
Que nessa regra geral
Deixou de novo o Brasil,
Com o “Pacote de Abril”,
Sem Congresso Nacional.

Eram todos indicados
Pelo modo aristocrático,
Sem consultarem o povo
Nesse regime antipático,
Ficando assim mais remoto
O nosso sonho do voto
Em um país democrático.

Porém, sucedendo Geisel,
Indicaram Figueiredo.
Era o momento final
Do regime tão azedo.
A ditadura morria,
Um novo tempo surgia
E o povo perdia o medo.

Foram os “anos de chumbo”
Grande atraso pra Nação,
Com danos à economia,
Ao progresso e evolução.
A temível ditadura
Emperrou nossa cultura,
Arte e comunicação.

As cicatrizes ficaram
Desses tempos de terror,
No qual o Brasil viveu
Longos anos de torpor.
Expulsos e constrangidos,
Muitos foram perseguidos
Pela “Operação Condor”.

Dos porões da ditadura,
Sempre os ecos se ouvirão
Dos que foram torturados
Na “cadeira do dragão”,
Das vítimas de afogamentos,
De choques, espancamentos
E de tanta perversão.

Jamais serão esquecidos
Nossos patrícios no exílio,
Sem direito à sua pátria,
Ao seu chão, seu domicílio,
Nossos artistas queridos
Que lutaram destemidos
Pela paz buscando auxílio.

Relembremos os artistas
Zé Keti, Nara Leão,
João do Vale, grande nome
Que nos deu o Maranhão,
Pois fizeram manifesto
Em um famoso protesto,
Com o “Show Opinião”.

Outros artistas famosos,
Caetano, Chico e Gil,
Empregaram seu talento
Da maneira mais sutil,
Pra dizer que a ditadura
Era o emblema da feiura
Da política do Brasil.

Um país que, infelizmente,
É pátria da covardia,
Pois pra defender aqueles
Autores da tirania
No período mais sangrento,
Aprovou no Parlamento
A tal da “Lei da Anistia”.

Assim, não temos motivos
Pra comemorar horrores.
Sem esquecer, todavia,
Os vinte um anos de dores.
Meu recado em versos dei,
Pra não dizer que eu deixei
Também de falar das flores.