APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


domingo, 22 de julho de 2012

REFLEXÕES SOBRE REPERTÓRIO DA BANDA GRAFITH - Diógenes Fagner


Grafithão é senso comum. O conteúdo de sua música é machista, homofóbico, pornográfico.

As suas letras revelam a verdade das relações que a gente vive por aí. Relações que exigem que você tenha dinheiro, tenha um carrão, tenha um “nome”, senão você não é gente e é tratado como nada. Virtudes? Pra quê virtudes? Ser virtuoso é difícil e quase ninguém valoriza. Então a gente vai com a galera. Afinal de contas queremos atenção, desejamos ser admirados. Por que eu devo ouvir Caetano, Gil, Chico, se o que eles dizem eu não entendo e não faz parte da minha realidade? Isso é o que vejo.

Acho que eu aprendi a gostar desses caras na ânsia de ser aceito, pois eu não conseguia me enquadrar no padrão exigido. Por isso me agarrei a esse novo grupo que conheci através da música; com eles eu me tornei alguém. Na verdade eu nem tinha curtia muito esses artistas cultos. Eu me emocionava mesmo era com os sertanejos, com a música internacional que aprendi a gostar nos filmes da sessão da tarde. Mas, dando uma de Cult eu obtinha respeito e admiração.
Pois é. Hoje eu ouço muita MPB, adoro música instrumental, mas também gosto do Grafith, do Sertanejo Universitário, pagode. Tudo isso verdadeiramente.

Essa banda (Grafith) também canta muitas músicas que falam de amor ( não estou dizendo isso para vocês pensarem que eu gosto apenas dessas letras, pois também gosto das “bagaças”). Muito Eros, algum Filia, nunca vi ágape. Esse último não o vejo em canto algum. Em poucos talvez...


Como pode, eu pergunto a  vocês, uma Banda de swuingueira como Psirico ( principal inspiração do Grafith) que é mestre em trazer a existência as mais incríveis bagaceiras pode compor algo tão belo como isso aqui:

Na encosta da favela "tá" dificil de viver,
e além de ter o drama de não ter o que comer.
Com a força da natureza a gente não pode brigar
o que resta pra esse povo é somente ajoelhar,
e na volta do trabalho a gente pode assistir.
Em minutos fracionados a nossa casa sumir, tantos anos de batalha
junto com o barro descendo e ali quase morrer é continuar vivendo.
Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
Temporal que leva tudo, mas minha fé não vai levar.
Êee chuá chuá, ê chuá chuá,
O meu Deus dai-me força pra outra casa levantar.
Eu "tô" firme, forte
nessa batalha.
Eu "tô" firme, forte
Não fujo da raia.

É por que no senso comum também residem coisas belas. O mesmo povo e a mesma galera que desce até o chão (não vejo nem um problema nisso) ouvindo o Grafithão também se emociona com essa música aí em cima. Choram e lamentam sua condição social nas letras de Edsom Gomes. Vivem a contradição.
Eu como não vivo em outro mundo também experimento essa contradição. Luto para ser um pouco virtuoso, vou até onde consigo e não escondo as minhas preferências( já escondi e muito!) na tola ilusão de ser culto, parecer erudito.

Ignorante, eu? Talvez. Decidi abrir mão das aparências por um pouco de profundidade e verdade nas coisas que digo.