APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores)

A APOESC (Associação de Poetas Escritores Simpatizantes e Colaboradores), criada em 03.2010 em Santa Cruz -RN, existe para congregar amantes da cultura, apologistas e produtores da arte da palavra.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

RETORNO À EUROPA (Entrevista com Marcelo Pinheiro)


1. Como foi retornar à Europa após  tão pouco tempo?
Antes de começar responder às perguntas, gostaria de expressar minha satisfação de participar deste bem conceituado blog que busca sempre levar cultura e conhecimento aos navegantes virtuais, continuamente com um espírito aberto, condição essencial ao aprendizado.

Tentarei ser sucinto para que a leitura não se torne enfadonha.

Visitar a Europa é voltar no tempo, reviver a história do Ocidente, mergulhar na aventura de um passado glorioso, emaranhado por guerras, conquistas e disputa de poder. Como um andarilho errante que vagueia em busca do conhecimento, essa viagem foi para mim mais um mergulho nas águas profundas dos mares onde tudo começou. Uma grande alegria poder voltar a esse berço da cultura mundial e dar continuidade à realização de um sonho antigo: andar e conhecer de perto os caminhos trilhados pelos construtores antigos da saga do homem sobre a terra.

2. Nessa segunda vez, houve alguma alteração no modo como vê os países que visitou?
Embora desta vez eu tenha visitado países que ainda não conhecia, retornei a alguns por onde já havia estado. Agora vi coisas novas e coisas que já havia visto com olhos diferentes. O tempo passa e nossa visão sobre um mesmo objeto se transforma na proporção de nossas experiências e crescimento pessoal.
Na primeira visita a ansiedade é maior e há uma tendência de se romantizar quase tudo, até mesmo aspectos negativos de cada lugar. Nessa segunda passagem já estava mais familiarizado com muitas coisas e tinha melhores condições de enxergar a realidade com um olhar mais crítico e isento.
 
3. Em que países esteve e em que cidades?
Passei 42 dias entre França, Alemanha, Itália e Espanha.
Na França passei alguns dias em Dijon, capital da rica e encantadora Borgonha.
Visitei também Besançon, uma cidade antiga e belíssima que se ergue às duas margens do rio Doubs. Ali visitamos a citadelle, um castelo erigido há quatro séculos como fortificação militar no alto de uma colina que guarnece a cidade.
Durante a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas subjugaram a França, houve naquele forte uma resistência ao domínio inimigo e mais de cem resistentes foram executados quando a citadelle foi tomada pela horda de Hitler. Ainda na França, passei sete dias em Paris e visitei muitos pontos turísticos interessantes, entre eles o Museu de História Natural de Paris, onde pude ver de perto um acervo impressionante de esqueletos fósseis que contam a evolução da vida na terra na linha do tempo.
Fui a Heldelberg, belíssima cidade da Alemanha onde já havia estado em 2010.
Entre a França e a Itália, fizemos uma viagem de trem magnífica, cruzando os Alpes suíços por entre as montanhas de cume nevado. É de fato uma rota de tirar o fôlego ver aquelas cidadezinhas adormecidas aos pés daquelas montanhas gigantes.
Na Itália, visitei Milão, Veneza, Florença, Roma, Pisa e Gênova. Todas, cidades importantes. O que falar da monumental cidade eterna, Roma? Apenas ela seria suficiente para ocupar uma entrevista inteira. Como falar de Florença, berço do Renascentismo italiano, numa entrevista de poucas linhas? Para não tornar a entrevista cansativa falando de todas elas, escolho Veneza como representante da Itália.
Veneza, juntamente com Gênova, monopolizara a chamada ‘Rota do Mediterrâneo’ durante a Idade Média. Pelas suas ruas/rios entravam e eram distribuídas na Europa as especiarias vindas do Oriente. Com a descoberta da ‘Rota do Atlântico’, Veneza perdeu importância no cenário do comércio mundial, porém não perdeu o brilho que encantou e atraiu a tantos no passado. Caminhar por suas ruas, ou navegar por seus rios, é voltar ao tempo em que ainda não havia o barulho aborrecedor dos automóveis e a vida caminhava a passos lentos. Em muitas ruas e rios que cortam Veneza o tempo parou nas esquinas e lá se encontra adormecido há séculos.
Na Espanha, conheci Barcelona e Madri, ambas, cidades magníficas. Entretanto, se tivesse que escolher a mais impressionante das duas, ficaria com a primeira.
Por toda parte se pode perceber a influência do grande arquiteto catalão, Antoni Gaudí, na fisionomia da cidade. Para mim, a Catedral da Sagrada Família é a mais extraordinária construção religiosa que já vi. Supera de longe a própria sede do catolicismo, em Roma. Combinando o gótico e o curvilíneo, Gaudí fez uso da chamada Art Nouveau, expressão francesa para “arte nova” e criou a mais esplendorosa catedral já erguida pela mão do homem.
 
4. Como foi a experiência de reencontrar brasileiros e conterrâneos na Europa? Fale sobre eles e o papel que tiveram no sucesso de sua viagem.

É sempre uma satisfação encontrar amigos e conterrâneos em terras distantes.
Reencontrei por lá o velho amigo Pascal (francês) e Assunção (santa-cruzense), casal do qual tenho a honra de ser padrinho de casamento. Passamos alguns agradáveis dias na companhia de Gláuber, Andressa e Binho. Encontrei também nosso grande amigo Rogério. Pessoa merecedora da mais alta estima. Por ele, conheci Mônica, sua irmã e Hans Roger, seu sobrinho; sempre muito simpáticos e acolhedores. Todos foram muito gentis e facilitaram sobremaneira nossa viagem.
Registro aqui meus sinceros agradecimentos a todos eles pela formidável acolhida e companhia.
5. Discorra um pouco sobre os europeus com quem esteve em contato.

Tivemos em companhia de Pascal, esposo de Assunção. Ele é francês de nascimento e nordestino de alma. Conhece mais as coisas do sertão do que muita gente por aqui (risos). Pessoa adorável, fácil de conviver, muito atenciosa.

Jantamos um dia com Nobert e Miriam, respectivamente filho e nora de Pascal.
Pessoas igualmente simpáticas e acolhedoras. Jantamos outro dia com Marie Jose e Didier, irmã e cunhado de Pascal. Pessoas inteligentes e agradáveis com quem tivemos a satisfação de aprender um pouco mais do dia-a-dia da cultura francesa.
Além deles, tivemos muitos contatos de pouco tempo com muitas pessoas. Eu diria que, a despeito das diferenças culturais, são iguais a nós e aspiram aos mesmos fins: a felicidade, a paz, o amor...
 
6. Qual sua impressão geral sobre a Europa depois dessa viagem?
Como em toda parte, há pontos positivos e negativos. Como pontos positivos destacaria o excelente nível de educação de organização social. As consequências disso se traduzem em melhores condições de vida e no acesso que a população tem à assistência social, à cultura e ao conhecimento. Como fator negativo eu destaco o excesso de individualismo que domina as pessoas. Isso corre no sentido oposto aos comportamentos que se podem observar entre os animais que formam sociedades, como as formigas e as abelhas, por exemplo, onde a cooperação e o senso de equipe são essenciais ao sucesso da espécie. Imagine-se que no século XX esse individualismo exacerbado (aqui no sentido de defender apenas os interesses da própria nação) matou cerca de setenta milhões de pessoas por meio das duas grandes guerras - ambas nascidas na Europa com raízes nesse modelo de pensamento . Imagine-se ainda que esse individualismo tem o potencial de pôr fim à própria espécie humana. Talvez isso explique o porquê deles figuraram tão distante no “ranking da felicidade”, classificação de uma pesquisa feita pela FGV para saber quais são os povos mais felizes do mundo. Apesar de todos os problemas o Brasil lidera pela 4ª vez o ranking. O Reino Unido aparece em 26º; a Itália, em 56º; a Alemanha, em 62º; Grécia e Portugal surgem em 145º e 146º, respectivamente.
7. Houve algo em especial que o emocionou nessa viagem? Chorou alguma vez?

É impossível não se emocionar em muitas ocasiões. Cada lugar desperta em nós um sentimento único. Lembro-me daquela tarde ensolarada de primavera quando eu sentei naquele gramado, à sombra de uma grande árvore, de frente para o coliseu, em Roma. Ali passou um filme em minha mente. Lembrei do filme “O gladiador”, onde Russel Crowe interpreta o papel de um general traído que se torna escravo e é obrigado a lutar no coliseu para conquistar sua liberdade. Quantas histórias reais nasceram e morreram naquele lugar nos dias em que Roma dominava 2/3 do mundo conhecido.
Em 2010, eu destacaria como um dos grandes momentos da viagem a visita ao Palácio de Versalhes, a casa de Luiz XIV – o “Rei Sol” - monarca que governou a França durante o absolutismo. Construído num parque de 700 hectares, diz a história que o rei dava festa frequentemente para 15 mil pessoas. Como se não bastasse a opulência da morada de Luiz XIV, ele mandou construir, ainda dentro do parque do Palácio de Versalhes, o Petit Trianon, um palácio para sua amante preferida, Madame de Pompadour. Aquele é um lugar onde se pode facilmente pensar existir apenas na imaginação.

Quanto ao choro, não cheguei a tanto (risos). Até por que já era a segunda vez que pisava em terras europeias.
 
8. Fale sobre a cultura de preservação que parece caracterizar toda a Europa e que
lições tais países têm a nos dar.

Esse é realmente um ponto que merece destaque. O senso de preservação é o que possibilita à Europa ser o continente mais visitado do mundo. Preservar lugares e artefatos é resgatar o passado, conservar o presente e pensar no futuro de uma forma sustentável. À primeira vista, preservar pode parecer um desperdício de possibilidades econômicas, mas é engano. É possível que se o coliseu, imponente construção dos tempos do Império Romano, fosse no Brasil já o tivessem demolido para construir um moderno edifício comercial, visando uma aparente vantagem econômica. Porém, quem visita Roma logo percebe que a decisão de preservar é a mais acertada em todos os sentidos, pois além de engrandecer o patrimônio cultural de uma nação, desenvolve e fortalece a economia através do turismo e do comércio em geral. Quando nossos líderes entenderão isso?
9. Nós, santa-cruzenses e brasileiros, de algum modo nos sentimos representados por vocês ao empreenderem essa viagem; descreva-nos o que, se pudesse, deixaria indelével em suas retinas.
Cada lugar e cada povo têm suas particularidades. Portanto, muitas coisas mereceriam um destaque especial na parede da memória. Porém, à guisa de outras opções, eu destacaria Veneza, cidade que se perdeu no tempo, mantendo-se muito semelhante ao que era há 10 séculos. Paris, pela grandiosidade de tudo o que ela representa como símbolo da cultura francesa e importante cidade na história do mundo.
 10. Alguns têm vontade de ir mas pensam nos altos custos; que diria aos que têm tal preocupação?
Os gastos são razoáveis, desde que haja uma boa pesquisa prévia. Por exemplo, viajar na primavera ou no outono é sempre mais barato do que no verão. Se se pretender andar muito entre os países, o passe Eurail é sempre uma boa opção.
Também há pousadas a preços bem acessíveis. Portanto, depende muito do que se quer fazer ou comprar por lá, mas o fato é que há opções que saem bem em conta.

11. Que aspectos da paisagem natural ou humana mais chamaram sua atenção?
A paisagem natural que mais me impressionou foi sem dúvidas a região dos Alpes suíços. Trata-se de uma cadeia de montanha cujos cumes são dominados pela neve eterna e logo abaixo da neve surgem os pinheiros, dando uma beleza especial, típica de clima temperado. Na primavera, aqui e ali se podem ver cachoeiras que se formam pelas águas do degelo da neve acumulada durante o longo inverno. As praias de pouca areia do mar Adriático e Mediterrâneo não são belas e quentes como as nossas. A paisagem criada pelo homem é bela,
elegante, charmosa. As cidades são geralmente limpas, arborizadas, floridas, bem organizadas. Os parques, as praças, os castelos nos fazem, por vezes, pensar que estamos participando de um filme ou até sonhando.
12. Que lugar em especial chamou sua atenção? A quais acha imperativo retornar?
Paris, Veneza e Barcelona são cidades especiais que não podem ficar de fora de um roteiro interessante.
Os Alpes suíços com certeza merecem uma visita mais demorada. Pretendo na próxima conhecer de perto aquela região que vi de longe, através do vidro de uma janela de trem.

13. Sua inspiração e conduta foi impactada nessa viagem? Que podemos esperar como fruto dessa viagem?
“A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.”
Albert Einstein.
Resumiria tudo nessa célebre frase de Einstein.
Tenho o sonho de escrever alguma coisa um dia e essas viagens certamente terão uma boa influência sobre isso.
 
14. Fale sobre uma experiência marcante da viagem.
Quando conhecemos uma cidade que sonhamos um dia fica um pedaço dela em nós para sempre. A paisagem natural, a arquitetura, sua gente, seus costumes formam experiências únicas e muito pessoais, quase indizíveis. Navegar pelas águas do rio Sena e de Veneza, passear sem pressa pelas ruas de Montmartre em Paris, contemplar a Catedral da Sagrada Família em Barcelona, entrar nos castelos e ver como era a vida nos tempos passados ... São muitas as experiências marcantes e destacar qualquer delas seria cometer injustiça. Cada coisa gera uma experiência pessoal que causou em mim um impacto diferente do outro e para o resto da vida.
 
15. Diga-nos uma reflexão que tenha a ver com viagens e sinta-se à vontade quanto às
palavras finais.
Vejo a vida como um “dia”. Na verdade, apenas um pouco maior do que um dia, mas ainda assim um “dia”..., que, como todos os outros, nascem e morrem. Não temos muito tempo. Logo a sombra da noite chegará, tragando tudo o que há: as luzes de Paris, as árvores dos bosques que ladeiam as belas cidades, as flores da primavera que embelezam os parques... Viajar é aproveitar a vida enquanto é dia; é beber de uma fonte inesgotável de experiências e conhecimento.

Finalizo com as palavras inspiradoras do Nobel José Saramago:

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”