terça-feira, 18 de março de 2025

POSSO FILMAR?

 


POSSO FILMAR?


A cada dia, perco minhas memórias. Já nem sei quem sou, pois minhas referências foram perdidas durante os acessos às redes sociais. Será que isso está acontecendo com as outras pessoas? Não sei, mas sei que ninguém olha para mim como olhava antigamente. Agora, o celular é mais importante do que eu, e só me resta também fingir que estou acessando a telinha.

Fico teclando, ouvindo mulheres falarem abertamente sobre suas relações sexuais com a maior naturalidade possível, algo impensável há vinte anos. Agora, tudo pode, pois o mais importante é gerar likes, sem se importar nem um pouco com a moral ou os conselhos das vovós, que também se tornaram conteúdo, com suas demências, mal de Alzheimer etc. Quem tem filho com deficiência, muitas vezes, usa-o para manter sua conta em alta, mostrando vídeos daquela realidade que antes era digna de pena.

Na era das redes sociais, poder mostrar a realidade, por mais dura que seja, é motivo de alegria. Estamos vivendo na era da sem-vergonhice, não que eu seja contra, pelo contrário, até curto isso. Essa mudança de comportamento, em que o feio e o imoral eram trancafiados nos conventos, deixou de existir graças ao celular, que transforma todos em atores e atrizes na grandiosa festa digital.

Que bom que o celular chegou para dar alegria a quem vivia cercado de serras, pântanos e lixões. Catador de lixo com canal na Internet, mostrando sua labuta, é o mais comum. Um elogio aqui, outro acolá, dá gás para que ele continue na luta. Uma prostituta, saindo com caminhoneiros, também transforma seu trabalho em algo digno. Ou seja, os costumes viraram de ponta-cabeça.

Os manda-chuvas ditatoriais, para não ficarem para trás, resolveram entrar em cena com ameaças de bomba atômica. Tenho quase certeza de que a terceira guerra mundial será toda filmada. Resta saber quem sobreviverá para dar like.

Heraldo Lins Marinho Dantas
Natal/RN, 18.03.2025 - 16h04min


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