segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

FUGA POR UM DIA

 


FUGA POR UM DIA


Preste atenção como é que vovó respira. Tomo fôlego, mergulho... Pronto, será que essa mulher, com óculos de sol, cabelos pintados de amarelo, dirá que vai dormir? Vovó vai dormir. Caramba, ela falou isso mesmo! Vamos tomar sorvete! A netinha obedece tirando as boias e partindo em busca do presente. Pelo menos me deixou em paz com tanta paparicagem tola e frases sem nexo.

Do outro lado da piscina, um casal de homens musculosos se mantêm afastados com medo da discriminação. Fumam sentados embaixo do sombreiro sem conversar. Desvio a atenção para um fio dental que passa nas ancas de uma loira jovem dando-me tchau. Tire o olho daqui cabra safado, pensa o cara que acompanha a beldade.

Um homem de azul continua varrendo ou fingindo que o faz. Seu boné é amarelo e com a logo do hotel, e seu semblante é de quem não tem pressa em usufruir as oito horas daquela rotina sem muitas alterações. Amarela também é a cor da pazinha de guardar o lixo rico em pontas de cigarro, guardanapos, farelos de massas e desprezo de hóspedes. Se fosse uma cena de algum filme de Ingmar Bergman eu diria que a combinação de cores havia sido meticulosamente pensada. Se fosse um filme sobre máfia, aquele homem seria um olheiro pronto para assassinar o chefe rival no usufruto do feriado. Mas não, um gari é o que ele de fato é, deparando-se, sem saber, com um viajante entretendo-se no jogo das possibilidades.

O sol está bom para quem quer exibir marcas da boa vida. Corpos brancos, com excessos abdominais, procuram um padrão de aparente saúde demorando-se nas espreguiçadeiras ao lado da água salinizada. É mais barato colocar sal do que gastar com produtos químicos, explicou-me o piscineiro ressaltando que evita-se que a água fique verde.

Uma doméstica observa as crianças enquanto os patrões gaseificam ao lado. Escutei daqui. A morena mantém o rosto sem nenhuma expressividade de deleite ou sofrimento, apenas cumpre com a tarefa, talvez, repassada pelos ascendentes acostumados com a servidão. 

Uma massa bruta vem mostrando quase tudo parecendo ter feixe de molas. Mais um fio dental tornando comum o que antigamente era muito escondido. Só imagino ainda estar vivo para usufruir, daqui a alguns anos, o total desprezo por roupas de banho. A corrida atrás de likes está fazendo uma grande revolução no item vergonha. Se está sendo filmado, não há motivos para se envergonhar, e assim, aos poucos, volta-se aos antigos costumes dos nativos obrigados a se cobrir quando os jesuítas por aqui chegaram. 

O bom de ficar à toa na piscina é poder fofocar das banhas caindo por cima do cós. Nem sabem que o sorriso estampado no meu rosto não é só alavancado pelo excesso de álcool. Pense num divertimento barato e que dura o dia todo é fofocar. Quando não tem mais hóspedes para serem vitimados, viro-me para os funcionários com caras de habitantes da Mongólia que pedem desculpas até quando piso nos pés deles. Desculpe-me por eu estar com o pé debaixo do seu, dizem eles nem desconfiando de que foi de propósito. 

Mais outros chegam para o desjejum numa fila que não cansa. Bolos de três tipos, queijos de dois, ovos de um, bolacha de nenhum, fora os líquidos amarelos, róseo, incolor, preto e branco... como até estourar sem ter como desviar os olhos de glúteos molhados se apresentando numa exposição juntas e misturadas de comidas. 

Nem tudo é alegria nessa cápsula da fantasia. Idosas mal conseguem mudar o passo. Que tristeza ver um filho de cabelos brancos em cadeira de rodas. O segurança ajuda-o a subir o pequeno desnível. A mãe ainda caminha com os seus próprios pés, triste, mas caminha usando a estada para aliviar a dor, por ventura, de um acidente. 

Coqueiros, palmeiras e outras árvores ajudam a pintar o cenário juntamente com a grama bem cuidada. Os pés de manga carregados barateiam a despesa com alimentação servida no buffet. No meio do gramado, uma cama com cobertura chama a atenção de quem achava que cama era para ser armada somente dentro de quartos. Uma obra de arte igual ao urinol de Duchamp, penso na mesma hora em que me nego a deitar-me nela.

É preciso forçar o desvio do olhar da preta vigiada por um viciado em academia. Cílios postiços, colchas roliças e garupa empinada fazem propaganda de como seria sua disposição na obra de arte exposta na grama. 

Uma moça esfrega protetor solar no companheiro com toques aceitos em público. É ele quem retribui fazendo fotos que irão mostrar para os netos, porém nem filhos têm. Se houver um desentendimento, as fotos serão apagadas e ela estará nos braços de outro tentando o mesmo expediente. A roda gigante da vida nos faz pensar assim.  

A turma do fundão saiu para um passeio de quadriciclo, inclusive o fio dental vermelho foi junto. "Oh! que saudades que tenho, Da aurora da minha vida..." Acuda-me Casimiro de Abreu!

Um dos gêmeos chorou. Vá sentar-se, Nícolas. Se não for vai apanhar. O “vá” dito milhares de vezes fez Nícolas se sentar. Quando acabar de chorar você volta. O outro gêmeo foi levar a notícia que ele precisava parar de ser malcriado. Voltaram para a piscina passando pelo portal do aconselhamento reformado pela tinta do carão.  

Vá à recepção e traga duas redes, pois quero realizar seu sonho de ficar deitada num redário. Da rede, pude avistar o homem da cadeira de rodas caminhando vagarosamente em processo de reabilitação.

Chegou a hora do checkout. Adeus restos higiênicos. Alguém, em troca de uns trocados, fará a descaminho. Lençóis na lavanderia serão libertados das minhas substâncias evasivas deixadas por acaso. Adeus olhos verdes azulados do café da manhã. 

Chego de volta do passeio e encontro a porta do meu apartamento de portas abertas desejando-me um sarcástico bem-vindo à medíocre rotina.


Heraldo Lins Marinho Dantas

Pipa/RN, 17.12.2023 - 18h17min.



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