quinta-feira, 8 de junho de 2023

COM O PÉ NA COVA

 


COM O PÉ NA COVA


Caí doente. Nem me perguntem qual o diagnóstico porque tudo hoje em dia é virose. Acordei de madrugada me acabando com falta de ar. Sabendo que dentro do meu organismo instalou-se, sem minha permissão, o que os cientistas chamam de vírus, e sabendo também que essa raça é altamente inteligente, parti para o diálogo. Acho melhor vocês irem embora, disse-lhes encarando-os de homem pra vírus. Nada disso! Esse é o mais novo território conquistado e você já quer nos expulsar?! Levantei-me e fui à privada deportar um bocado deles através da urina. Era eu urinando e resmungando: sai satanás. Presenciei muitos descendo de água abaixo, e enquanto desciam estiravam o dedo. Dei também uns três espirros na toalha e foi aí que reclamaram. Dê espirros onde tiver gente para que possamos nos instalar em novos organismos. 

Quem são vocês? Fazemos parte do comando da morte habitando o planeta há bilhões de anos, e você é a próxima vítima. Vocês querem sair ou querem que eu tome água? Água não! Tomei logo dois copos cheios. A cada gole eu imaginava como se fosse um golpe de faca contra eles, e pegue facadas. 

Passei a noite nessa luta até que veio alguém me dar uma bala branca onde engoli com mais água. Peguei no sono, mas a batalha continuou. Eu via, através dos pesadelos, quem estava vencendo, e, com certeza, não estava fácil para o meu lado. 

Contei com ajuda de tapioca, ovos e suco de abacaxi. Atirei abacaxi em temperatura ambiente e as demais munições chegaram quente fervente. Demorei imaginando que cada mordida significava que eu estava esmagando-os. 

Eu nunca entendia quando diziam que o meu maior inimigo estava dentro de mim, agora sei exatamente o que isso significa, é tanto que amanheci com o corpo quente anunciando que a guerra ainda continuaria por bastante tempo. 

Pensei nas enfermeiras, médicos e outros meus aliados. Não, não vou atrás deles, pensei. Esses vírus entraram que saiam nem que seja através de socos e pontapés, por enquanto sem ajuda do pessoal da saúde. 

Elevei o pensamento para as nuvens e trouxe os raios para fazer um escaneamento em todo o meu corpo. Já havia ouvido falar que se a pessoa mentalizasse dessa forma, a cura vinha espontaneamente. É o que estou fazendo. 

Além de estar com o pensamento focado em destruí-los, divulguei essa invasão para que as pessoas que rezam mantivessem uma corrente de oração, e só escuto eles reclamando: não precisava disso tudo não; estávamos apenas querendo um lugar para que nossa família prosperasse, disseram depois que viram a ruma de ataques mentais contra. 

Neste momento, estou guardando energia para expulsá-los definitivamente quando chegar a hora. Claro que minha trincheira é uma cama localizada num ponto do planeta que está com todos os olhos voltados para ela. É ali que a vítima está, dizem os anjos negociando com a morte para me deixar em paz.

Enquanto negociam minha permanência ou extradição desse mundo, levanto-me para almoçar.  Munição de feijão, arroz e carne nunca falha, e ainda posso contar com batata, beterraba e purê de jerimum. Sinto que os vírus estremeceram com esses novos reforços. 

Almocei já me preparando para outra estratégia: o banho quente. Tome frio, tome frio, ficaram gritando querendo me influenciar. Coloquei no nível de pelar. Só na cabeça é que atendi ao pedido já sabedor que água quente no couro cabeludo deixa tudo pelado. Na hora do banho, a pele parecia que havia sido lixada com lixa numero 16, com cada pingo d’água tendo o mesmo efeito de dor de uma Benzetacil descambando para uma injeção de Profenid junto com Dipirona. 

Aprontei-me esperando a hora de ir trabalhar. Pode ser até que melhore com a mudança de ares, pensava olhando para meu estado depreciativo de doente, no espelho da sala. 

Nesse intervalo, recebi uma mensagem do além dizendo que não existem vírus. O que existe são os rastros dos espíritos que promovem a gripe. Basta ir a um terreiro de umbanda para afastá-los. Fui, mas como estava apressado, deixei cem em dinheiro e dois cheques para descontar em datas posteriores. Pode ficar tranquilo que vamos fazer uma simpatia para esse encosto sair, disse-me o pai de santo olhando se estava correto o preenchimento dos cheques, e, na contraluz, se a cédula era mesmo original.

Já estou me sentindo melhor depois que consegui enxergá-los. Os fantasmas da gripe são vistos através de uns cocais que comprei dos índios. Estou vendo eles agarrados aos meus bronquíolos achando que não sei como combatê-los. Pode ficar tranquilo, caro leitor, que se eu não resistir você logo saberá, pois estarei puxando seu lençol durante as primeiras trinta noites daqui pra frente. 


Heraldo Lins Marinho Dantas

Natal/RN, 07.06.2023   -  15h41min.



2 comentários:

  1. O conto explora de maneira exitosa, com ironia e sarcasmo, a ideia de que o maior inimigo do narrador está dentro de si mesmo, sugerindo uma reflexão mais profunda sobre a condição humana e a fragilidade da vida. - Gilberto Cardoso

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  2. A luta continua...

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